Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Ratos e homenzinhos

Dantes ter um furo nos pneus era vulgar, hoje raro. Mas antes, agora e no futuro até que os carros levitem, nunca ninguém me viu ou verá a mudar uma roda se tiver ao lado uma pessoa que acha que o sabe fazer melhor do que eu.

 

Por esta razão nunca preenchi uma declaração de IRS, tarefa que sempre cometi a um antigo colaborador a quem de há muito tolero uma quantidade inverosímil de asneiras, por troca com a paz de espírito que advém de, com o Estado, seus agentes, impressos e procedimentos, manter a maior distância que for possível.

 

No ano passado, paguei uma pipa (para os meus recursos) de dinheiro, que atribuí a algumas pequenas alterações nos rendimentos do agregado familiar, por herança, e à natural rapacidade de um governo socialista, de mais a mais coligado com duas associações de bandidos e malfeitores.

 

Este ano, a simulação do imposto a pagar, que o meu colaborador em questão me enfiou debaixo do nariz com perversa satisfação, teve um efeito súbito e deletério na minha tensão arterial, que geralmente se comporta com uma serenidade budista.

 

Tanto que com o mesmo suporte documental fui pedir a simulação a um gabinete contabilístico, que chegou a um resultado mais de um terço inferior.

 

Feito o cotejo das duas declarações foi fácil concluir que numa estava piscado um quadradinho que dizia desejar o casal "englobar rendimentos" e na outra não.

 

Qualquer uma das lamentáveis personalidades que têm ocupado o lugar de Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, incluindo o actual com a sua rotundidade falsamente bem-disposta, o anterior com a sua rigidez obtusa, e os outros que desde Paulo Macedo (que não foi SEAF mas deixou grata memória aos esquerdistas como Director-geral dos Abusos, Exacções e Tropelias do Estado) achará que um tipo que põe numa merda de um papel oficial, por ignorância ou distracção, uma cruzinha onde não deve merece severo castigo, e um agravamento dos impostos parecer-lhes-á adequada punição. Se fossem familiares do Santo Ofício decerto veriam hereges em todos os cantos, e se fossem membros do Politburo da URSS reaccionários por toda a parte, uns merecedores da fogueira e os outros do gulag.

 

Isto acham eles com certeza. Já eu, que os desprezo ainda mais do que eles desprezam inconscientemente o Estado de Direito, acho que a porcaria dos programas informáticos em que torram milhões bem poderiam, a partir das informações que os contribuintes e os serviços disponibilizam, optar SEMPRE pela taxa legalmente mais baixa, sem contar, com esperteza saloia, que incautos, distraídos e ignorantes caiam numa ratoeira.

 

Porque as ratoeiras fazem-se para apanhar ratos. Dos ratos não se deveria esperar,  mesmo que fossem para o Governo, que fizessem ratoeiras para apanhar cidadãos.

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publicado por José Meireles Graça às 14:19
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2 comentários:
De Jose Domingos a 25 de Maio de 2017 às 22:10
O estado é o primeiro interessado que os tribunais não funcionem, podem demorar 10 ou 15 anos, o estado quer lá saber, o dinheiro já lá está, e eventualmente inventam qualquer lei para não devolver nada.
O contrário o contribuinte é criminoso, está indefeso perante a máquina e o tribunal sendo da máquina, não ajuda. Um autentico esquema de extorsão, quase de associação criminosa. O estado de direito, com que gostam de encher a boca, é o deles.
E continuamos sentados muito indignados e não se faz nada. O estado agradece.
De pitô a 26 de Maio de 2017 às 16:25
A sua conclusão é excelente.
chh8btq

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