Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015

Retoques

Encaro com desgosto o facto de, salvo umas petições cuja assinatura volta e meia me solicitam, para fazer número, nunca um grupo de ilustres me convidou para fazer parte do elenco de notáveis que todos os trimestres se propõe governar o país sem a maçada de concorrer às eleições e as ganhar.

 

Isto dói. E a razão não deve ser apenas a triste circunstância de viver, como diz uma querida amiga minha, na Lapónia, mas também o facto de nunca me ter sentado à mesa do Orçamento, não ter percursos académicos vistosos para estadear, me faltar o jeito para discursos grandiloquentes e ocos à la Sampaio da Névoa, e não ter a alma à Esquerda.

 

Valha a verdade que não abundam as cartas que pudesse assinar, pela razão esdrúxula de a maior parte das pessoas que as costumam assinar serem mortos-vivos que não entendem o mundo que os rodeia, nem propõe outra coisa que não seja a reedição do mesmo asneirol que criou o problema que dizem querer resolver.

 

E todavia esta carta, que gente de representação enviou ao primeiro-ministro, bem a poderia ter assinado. Bastavam uns retoques ligeiros, e subscrevê-la-ia com gosto e orgulho.

 

A oportunidade passou. Mas quem sabe se o Pimpão que é o primeiro subscritor não lerá estas regras. Deixo, em atenção a esse cidadão ilustre, o texto da carta com algumas palavras trancadas e outras que acrescentei, em azul, por mor de uma a meu ver desejável clarificação.

 

As cidadãs e os cidadãos abaixo assinados abaixo assinadas e abaixo assinados manifestam a sua preocupação quanto à posição do Estado Português no Conselho Europeu de hoje. Tem o primeiro-ministro declarado que, mesmo perante a grave crise humana que se vive na Grécia, a política de austeridade prosseguida se deve manter inalterada. Os factos têm evidenciado que este caminho é contraproducente se, em vez de reformar o Estado, se quiser apenas restaurar o equilíbrio à custa do aumento dos impostos.

 

Não temos dúvidas de que a Europa vive uma situação difícil, pelas tensões militares que a desastrada política da UE criou na sua periferia e pelos efeitos devastadores de políticas recessivas socialistas que geraram desemprego massivo, o aumento do peso das dívidas soberanas e deflação, abalando assim os alicerces de muitas democracias caloteiras. Este momento exige por isso uma atitude construtiva, que conduza a uma cooperação europeia de que Portugal não se deve isolar.

 

Para evitar uma longa depressão, a União tem de combater a incerteza na zona euro e, para tanto, precisa de uma abordagem robusta que promova soluções realistas e de efeito imediato mediato. O momento actual oferece uma oportunidade que não pode ser desperdiçada para um debate europeu sobre a recuperação das economias e das políticas sociais a reforma do Estado, o aumento da natalidade, a imigração e o aumento da liberdade económica dos países mais sacrificados ao longo dos últimos seis anos.

 

É por isso também do interesse de Portugal contribuir activamente para uma solução multilateral do problema das dívidas europeias reduzindo o peso do serviço da dívida em todos os países afectados, que tem sufocado o crescimento económico, em troca de um programa consistente de reformas que garanta que os credores não serão penalizados, que não haverá transferências forçadas de recursos de uns países para outros e que o Tratado de Maastricht será revisto para incluir cláusulas que estabeleçam critérios para a saída do Euro agravando a crise da zona euro. Pela mesma razão, é ainda necessário que Portugal favoreça uma Europa que não seja identificável com um discurso punitivo mas com responsabilidade e solidariedade apenas em casos de desastres naturais, e que não humilhe Estados-membros desrespeitando-lhes a independência ao impôr-lhes legislação supra-nacional mas promova a convergência, que não destrua o emprego e as economias mas contribua para uma democracia inclusiva.

 

Estamos certos, senhor primeiro-ministro, de que agora é o tempo para este apelo à responsabilidade numa Europa em que tanto tem faltado o esforço de certos países comum para encontrar soluções - que não passem por eternizar a dependência com subsidiações que de toda a maneira os cidadãos dos países que paguem mais do que recebem nunca aceitarão - para uma crise tão ameaçadora.

 

publicado por José Meireles Graça às 00:42
link do post | comentar
1 comentário:
De Carlos Conde a 16 de Fevereiro de 2015 às 23:17
Depois de efectuadas essas pequenas correcções assine aí a rogo de mim que lhe fico muito grato.

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Tem razão, esse caso ilustra o ponto muito bem. O ...
Concordo que seja um bocado intangível, mas ocorre...
José, creio estar a reconher esse texto, salvo err...
"Essa perplexidade aumenta muito ao saber-se que a...
Despedimento coletivo do Casino Estoril de 2010, a...

Arquivos

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio barreto

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter