Terça-feira, 13 de Outubro de 2015

Revolução pela calada da noite eleitoral

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Não vale a pena negar: a direita foi "comida" pelos jovens turcos das três forças de esquerda que agora se afirmam sociais-democratas. O PCP ainda não o disse, mas demorará pouco a mostrar o seu lado socialista moderado em muitas das propostas essenciais a uma revolução a longo prazo para bem do proletariado e derrota das forças imperialistas. Falta convencer os velhos do PC ainda agarrados às idiossincrasias que já estavam ultrapassadas no tempo de Cunhal.

Enquanto nos interrogávamos se haveria ou não maioria absoluta da coligação, os fautores do golpe democrático e legítimo (sim) exultavam silenciosamente na esperança de que o PS ficasse em segundo lugar e o parlamento permitisse uma maioria da nova troika.

É assim certo como o destino e condenado a repetir-se ad eternum: os jovens não têm a memória e os traumas do passado. São rebeldes e estão-se nas tintas para o que passaram e o que marcou as gerações ancestrais. Importa-lhes unicamente o futuro e, em política, o único futuro que existe é o imediato. A médio prazo existirá sempre crise, e esta, gere-se. Além disso, a memória é curta e a conveniência é longa.

Prepararam tudo cuidadosamente. Cientificamente, apoiados em conceitos de marketing político de última geração. Revelaram-se mais preparados e actualizados. Agora, resta apenas assistir ao inevitável.

Três cenários em que a proposta de governo da nova troika se concretiza:

1. Se Cavaco empossa Passos em governo minoritário, Costa fica no PS, bradando injustiça e legitimado por ser o conciliador essencial à próxima união de esquerda e que pode permitir, o regresso ao poder do PS, em contrapartida à pasokização inelutável, se o PS se envolver em lutas intestinas de sucessão (Álvaro Beleza já disse que não vai avançar contra Costa). A Costa, basta esperar o fim rápido do governo PSD e CDS e apresentar-se a eleições, nem precisa de em coligação, com os novos sociais-democratas. A assembleia será um caldo de instabilidade.

2. Se Cavaco toma a iniciativa de um governo presidencial, é uma decisão a muito curto prazo que durará seis meses até que Costa se possa apresentar a eleições em troika. A assembleia será um caldo de instabilidade.

3. Se Cavaco empossa Costa em troika, então veremos o syriza português a implementar a austeridade "fofinha e inteligente". Costa tomará medidas com impacto no rendimento popular de iniciativa governamental e assim calará a indignação que se desviará para o sector centro-direita (alguns do centro-esquerda também verão igual), mas a relativa paz, considerando que estamos a passar, e continuaremos, uma revolução no regime, permitir-lhe-á fazer o que sempre se faz quando se ocupa o poder: ocupar lugares, controlar a administração pública e empresas ligadas, implementar políticas de crescimento onde os decisores pertencem ao grupo. Neste caso o grupo será mais extenso e heterógeno, envolvendo os neo-sociais democratas e socialistas moderados. A assembleia será uma dor contínua para os deputados do PSD e CDS mas viverá em relativa paz enquanto as lutas intestinas dentro da troika, causarão "mortos e feridos" em sucessivas purgas de purificação de facções. Um poder musculado terá tendência a impor-se, mas alguns cidadãos talvez possam continuar a lutar.

Em qualquer dos casos o nosso quadro macro-económico complicar-se-á muito. Parece-me que o menos gravoso, se Costa e troika tiverem juízo, à moda de Tsipras, será o último cenário.

Mais duas notas:

a) A eleição do próximo Presidente da República tem uma importância crucial, como talvez nunca antes, desde o 25 de Abril de 74. Marcelo parece ser o melhor que a direita tem. O PS parece satisfeito com a sua vitória declarada a priori.

b) Bem que podemos começar a pedir à UE ajuda para a situação em que nos encontramos, mas com uma maioria de população com inclinação à esquerda, uma proposta de governo democrática, e com precedentes em outros países europeus, não deveremos ter muita sorte, além de umas declarações que podem variar em graus de indignação. Na Grécia a UE também aceitou o Syriza. 

publicado por João Pereira da Silva às 07:27
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