Quinta-feira, 23 de Junho de 2016

Sair ou não sair, eis a questão

Discussões sobre a União Europeia, o Euro e o Brexit são, em Portugal, inúteis, porque o terreno está minado e ninguém, ou quase, tem outras opiniões que não sejam as dos seus interesses próximos.

 

O que se chama a direita, isto é, o CDS e o PSD, conta com as instituições europeias para impôr ao governo do dia algum equilíbrio nas contas. Sem este garrote, nada, a não ser a falência, impedirá a geringonça de pagar promessas com o dinheiro que o país não tem, mas que o BCE disponibiliza, mesmo que elas fiquem aquém do prometido.

 

O PS, que com Costa parece, mas na essência não é, igual à esquerda do PREC, conta com a solidariedade europeia, tenha ela a forma que tiver, para manter o exército de funcionários públicos, reformados, boys, empresários amigos e eleitorado, até ao dia em que possa ganhar eleições, após as quais aplicará o programa que as instituições europeias impuserem, mesmo que com isso a geringonça se estraçalhe.

 

A parte do eleitorado que não é cativa da esquerda está agradavelmente surpreendida porque com o governo actual as previsões, às quais ninguém liga, são todas más, mas o presente é melhor do que nos tempos da troica - ao contrário desta, em cuja vigência as previsões passaram a ser surpreendentemente boas a partir da fase terminal do programa, para um presente que continuava igualmente mau - pelo que vai dizendo para os seus botões que enquanto o pau vai e vem folgam as costas.

 

O PCP conserva e reforça o seu poder nos sindicatos, na maquinaria do ensino, na comunicação social, nas autarquias, na Justiça e na sociedade - nada mau para um partido que seria em qualquer outra sociedade desenvolvida uma curiosidade histórica. E mesmo que defenda a saída do Euro, e que provavelmente seja favorável ao Brexit, por ver enfraquecida a UE (esta pode vir a ser muitas coisas mas comunista não), nem por isso se dá a grande trabalho na defesa destas suas damas, porque elas não são populares.

 

O BE, a despeito das aparências, e para lá das causas fracturantes, não existe. De resto, por muito que as nossas sociedades sejam governadas pelos humores de uma opinião pública que pede a felicidade, o bem-estar, a segurança e o progresso ao Estado, por acreditar que esse Estado são os outros, e por muito que as universidades e a opinião publicada atordoem os ares com versões politicamente correctas do marxismo, não se chegou ainda ao ponto de levar excessivamente a sério uma agremiação de moços e moças moderninhos, o mais das vezes simpáticos, o mais das vezes inócuos, revolucionários de café que seriam cilindrados pelos seus primos comunistas se um dia houvesse a revolução que pretendem fazer por via legislativa.

 

A população acha confusamente que essas coisas de que falam na televisão, a dívida pública, a falência dos bancos, a dívida externa, o défice e essas merdas são lá coisas deles - uma boa cambada de gatunos, por sinal - e que a Europa, de uma maneira ou de outra, resolverá. De resto, é para a Europa que os desempregados e os jovens emigram, e é de lá que vieram as autoestradas, o Serviço Nacional de Saúde, a liberdade, a democracia, os subsídios e a moeda forte. Portanto, que os bifes ponham a hipótese de saírem é mesmo coisa deles, que lhes faça bom proveito.

 

Os bifes - uma parte deles - acham absurdo que a soberania que pela história deles mora no Parlamento há séculos tenha sido transferida para Bruxelas e Estrasburgo, para as mãos de uns senhores que ninguém conhece, não respondem directamente perante ninguém, nem foram eleitos com programas que tivessem que defender perante quem suporta as consequências das decisões que tomam: democracia representativa OK, democracia de bastidores ou num Parlamento com múltiplas traduções simultâneas, recheado de foreigners com origens, histórias, percursos, convicções, ideias sobre o que todos os países devem ser - não.

 

Uma parte dos bifes. Que parte? Isso só saberemos logo à noite, que as sondagens dão empate.

 

Para mim, e mesmo que perca, será sempre a parte melhor. Porque se em nome de razões de índole económica, mesmo que essas razões fossem, o que não é o caso, de betão, se abre mão do direito de escolher directamente quem nos governa, podemos estar a falar de um regime qualquer - democracia não é certamente.

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publicado por José Meireles Graça às 01:12
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