Terça-feira, 8 de Dezembro de 2015

Sono dos justos

É uma pena as escolhas políticas terem consequências nas vidas das pessoas. Porque, não fosse isso, e os tempos que vivemos seriam, pelo seu lado burlesco, bastante divertidos.

 

O discurso de Paulo Portas capturou bem o ar do tempo aquando da apresentação do programa do governo, uma recauchutagem do socratismo com piso novo comunista, a decapar na primeira curva. Tanto que é pena que os mimos com que a barrica Costa, o primeiro-ministro, vírgula, mas não o primeiro-ministro que o povo escolheu, foi brindada não se possam continuar a usar.

 

As pessoas querem é saber do futuro, e que medidas vai o governo tomar para resolver os problemas concretos dos portugueses, e este mantra singelo, de que todo o comentador lança mão quando quer fingir lucidez e disfarçar o incómodo do golpe - é infelizmente verdadeiro.

 

Portanto do que cumpre falar agora é das medidas. E pode dizer-se que o novo governo começou de forma cómica: a anulação da sobretaxa sobre o IRS, grande bandeira das esquerdas, representa, para 68% dos agregados, 67 cêntimos por ano. Este valor foi logo comparado ao de um café - um café por ano - e o lado grotesco da medida só não mereceu gargalhada geral porque, possivelmente, a constatação carece de rigor - ainda há troco, 7 cêntimos.

 

Claro que representa: o governo cessante, pela mão inepta de Vítor Gaspar, e com a cobardia e a cegueira que levaram a que se tivesse desperdiçado a oportunidade para reformar o Estado, emagrecendo-o, começou a resolver o problema do défice sobretudo pelo lado da receita; e o mesmo medo do eleitor que levou a que não tivesse havido extinção significativa de serviços, e programas massivos de despedimento, levou também a que os cortes fossem transversais, e com os aumentos de impostos poupando sistematicamente os contribuintes de mais baixos recursos - porque são os mais numerosos.

 

Isto descobrir-se-á em relação a quaisquer outras reversões que se queiram fazer. E como para o governo social-comunista as únicas reformas necessárias do Estado são as que implicam mais despesa resta que as promessas que Centeno fez só poderão cumprir-se se o equilíbrio for obtido pelo aumento da receita.

 

Centeno, e os outros centenos todos que fervilham na Academia, contam com um aumento natural da receita, induzido pelo crescimento que virá dos fundos europeus, da rotativa do BCE, e do dinamismo empresarial que resultará das iniciativas de vultos como Caldeira Cabral ou Vieira da Silva. Mas, na dúvida, não deixarão todos de concordar que os escalões do IRS bem podem suportar uma revisão. E ao menos nisso terão o apoio do sofrido Jerónimo, que sempre achou que acabando com os ricos se acaba com as dívidas, a curto prazo, e com os pobres, a médio - ou ao contrário. 

 

Nada disto vai correr bem: os ricos que não podem fugir são, na realidade, remediados; não há nada que um governo dirigido por um malabarista de politiquices possa fazer para por a máquina da economia, que não entende nem sabe que não entende, a funcionar; o tal Centeno, se for esperto, dará à sola quando a coisa ameaçar dar para o torto, ou deixar-se-á ficar, se for tão imbecil como parece, à semelhança do malogrado Teixeira dos Santos.

 

E se nada disto, como desejo, nos tirar o sono, não é com certeza mais um café por ano que o há-de fazer.

 

publicado por José Meireles Graça às 00:51
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

O lacinhos do espesso, não acerta uma, enfim, mais...
Para o BE e o PCP, o PEV é apenas um franchise do ...
Mas isto está a piorar, agoras eles dizem que o Pe...
Kudos!
Bem visto, os três estarolas!!

Arquivos

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

fmi

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter