Sábado, 10 de Outubro de 2015

Sous les pavés, la plage

Há deputados de primeira e deputados de segunda? Não, admiti-lo seria o mesmo que dizer que há eleitores de primeira e de segunda - e não há.

Cavaco seria então obrigado a dar posse a um governo presidido por Costa, com ou sem ministros comunistas ou doentes infantis de esquerda, mas com aprovação da maioria absoluta do Parlamento, depois de a Coligação ver o seu programa rejeitado por uma moção aprovada pelo PS, o PCP e o BE? Tecnicamente, parece que não - podia dissolver o Parlamento e convocar eleições para a Primavera, ficando o governo da Coligação em gestão.

Mas o país entraria (entrará?) em convulsão, com a socialistada e a comunistada toda aos gritos de fascismo nunca mais, o major Vasco Lourenço rosnando ameaças, Joana Amaral Dias despindo-se novamente, as meninas do BE capitaneando, de botas e boina à Che, manifestações Avenida da República abaixo, enquanto os juros da dívida disparavam, os dirigentes da UE se desdobravam em declarações prenhes de ameaças, e o espectro de novo resgate pairava - um PREC burlesco, que as novas gerações também têm direito à revolução, versão festival.

Cavaco podia dizer, com razão, que a coligação de esquerda nunca passou pela cabeça dos eleitores, por não ter sido assunto de campanha, não haver precedentes ou indícios de qualquer convergência possível naquele lado do espectro, nem a história do PS autorizar, mesmo à mais destravada imaginação, que se contemplasse a possibilidade de trazer para perto do Poder um dos últimos partidos estalinistas do mundo, igualzinho ao que em 1975 foi, SOB A LIDERANÇA DO PS, derrotado.

E nem precisaria de abundar na descrição do que pode suceder à dívida pública, ao desemprego, ao crescimento, aos impostos, até mesmo aos meios para pagar o forró prometido - estaria a converter convertidos, por uma parte, mas a restante, que infelizmente inclui o tresloucado Costa e não se sabe que parte do PS, mas que será talvez maioritária por efeito da perspectiva de jobs - só veria reforçada a sua determinação.

Teríamos então um governo de gestão, a viver debaixo de uma berrata permanente, com um resultado eleitoral incerto no fim do percurso, por não ser possível prever como a economia se iria comportar nem se poder adivinhar como iria o eleitorado repartir as culpas da degradação da vida pública.

Esta é a primeira alternativa. A segunda é conquistar Costa com mais cedências do que as que seriam razoáveis, para o afastar das blandícias do subitamente macio Jerónimo e garantir a abstenção na votação de pelo menos um orçamento. Péssima escolha: o eleitorado responsabiliza pelo resultado o governo, e o PS contribuirá com nada para reformas, outro tanto para cortes, bastante para aumento de despesas e tudo o que puder para as suas queridas apostas.

Resta a coroa de glória do celebrado ex-presidente de Lesboa: chegar a PM e trair, sob desculpa das exigências do tratado orçamental, uma parte das promessas que fez; ceder, sob pressão dos parceiros, o suficiente para destruir a confiança; inverter a trajectória do défice e das dívidas, pública e externa; e, com a economia em cacos, acabar por desentender-se com os seus parceiros, por a raposa comunista não resistir a querer devorar galinhas quando se encontrar dentro do galinheiro, ou porque se materializa o espectro do IV resgate.

É esta última solução que prefiro, porque as soluções de meias-tintas não permitem ver com clareza a repartição de culpas. Se o preço para Costa salvar a sua miserável e gordurosa pele tiver que ser este, que ao menos o eleitorado retire sem ambages as devidas ilacções, atirando a prazo os comunistas para o gueto de onde nunca deveriam ter saído, e os bloquistas para a sua especialidade em causas fracturantes.

O preço é muito alto, claro, mas vale a pena se garantir duas legislaturas com um módico de lucidez.

publicado por José Meireles Graça às 14:31
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