Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Uma lição de Ética de esquerda

2017-08-08 Salgueiro Maia.jpg

Aproximam-se as eleições, um tema que me é particularmente sensível porque vou, pela primeira vez nos últimos 60 anos, apresentar-me como candidato a um lugar político, mas nem este facto me esmorece a minha natureza solidária que se sobrepõe a qualquer sectarismo, e vou partilhar uma reflexão de grande oportunidade e utilidade para os meus leitores de esquerda, no entanto os meus adversários no combate político que me vai ocupar os próximos dois meses. Eu sou mesmo assim.

Quer fazer uma declaração política?

Não hesite em mentir. Arranje uma figura mediática capaz de sensibilizar o público-alvo, como se faz nos anúncios da televisão das operadoras de telecomunicações ou dos suplementos alimentares, parta de factos reais

"...deixou Portugal em 2011..."

para a mentira ser plausível, omita os detalhes suficientes

"...chegou ao Luxemburgo a 15 de Março de 2011..."

para a conclusão saltar à vista, e seja claro na conclusão

"...foi convidada a sair de Portugal pelo primeiro-ministro Passos Coelho".

Faça-se publicar no jornal Público em tempo de pré-campanha eleitoral. E candidate-se às eleições pelo Bloco.

E se for apanhado na mentira?

Diga que foi um exercício de ironia.

E o jornal Público?

Altere o título da edição online de "Filha de Salgueiro Maia no Luxemburgo depois de convidada a sair por Passos Coelho" para "Filha de Salgueiro Maia emigrou para o Luxemburgo e lembra convite de Passos". Não remove o lixo, mas varre-o para debaixo do tapete.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:29
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

Ética, da republicana e socialista

portugal_left.jpg_1718483346.jpg

A definição de ética mais simples e clara de todas as que fui conhecendo ao longo da vida é fazer em privado o mesmo que se faria se fosse tornado público. Por outras palavras, fazer sempre o que não nos envergonha.

Tem limitações. Uma pessoa totalmente destituída de valores, e há-as, não se envergonha de fazer em público coisas que embaraçariam a generalidade das pessoas normais, pelo que, para ela, tudo o que faça é ético no sentido que esta definição dá à ética. Só é aplicável a quem tem vergonha na cara. Mas a generalidade das pessoas têm, pelo menos, alguma. Se cuspirem no chão, dão previamente uma olhadela em redor a ver se ninguém as está a ver. Se lhes for perguntado se cospem no chão numa sondagem de opinião, respondem que não. Um provável, mas não o único, motivo para determinadas sondagens tenderem a fazer previsões que não se confirmam.

Tem ainda uma vantagem não negligenciável para uma definição teórica: é verificável. Quando se altera por ter sido tornada pública uma coisa que se tinha feito em privado verifica-se uma desconformidade a esta definição de ética.

Ontem soube-se pelo Correio da Manhã, é sempre pelo Correio da Manhã, jornal de leitura tão proibida ao leitor sofisticado, informado e progressista quanto O Crime do Padre Amaro ao jovem leigo da Opus Dei, que são tornadas públicas as pequenas misérias humanas com que os jornais mais sofisticados evitam incomodar os seus leitores ocupados a resolver os grandes problemas do mundo, como por exemplo distingir a fumarola da escarreta, que o turco Mustafa Kartal que em Abril enfrentou sozinho com uma faca de kebab o bando de mais de vinte jovens arruaceiros armados que lhe invadiu o restaurante no Cais do Sodré para o desfazer, ao restaurante e ao turco, andava há quatro meses a ser levado pelos serviços da embaixada portuguesa em Ancara com o clássico "Pedem-me um documento, eu entrego e depois dizem-me para esperar. Depois pedem-me outro papel qualquer e a situação repete-se" com que os burocratas desarmam qualquer turco, mesmo dos que enfrentam sozinhos bandos de arruaceiros armados, depois de ter ido à Turquia visitar a família que não lhe cabe no visto.

De manhã foi anunciado pelo Correio da Manhã e, ainda não se tinha posto o Sol, o turco já tinha o visto para regressar a Portugal e ao restaurante cuja gestão estava entregue ao único empregado aflito com a responsabilidade inesperada.

O Ministério dos Negócos estrangeiros teve vergonha. E corrigiu quando foi tornado público aquilo que vinha fazendo em privado. Não teve ética. Mas teve vergonha.

Também há dúvidas sobre a conformidade com a ética do processo de nomeação da administração da Caixa Geral dos Depósitos em que governantes socialistas fizeram em privado aos gestores promessas sem fundamento legal, que depois tentaram sustentar com uma lei à medida, que o presidente promulgou.

Quando o esquema foi tornado público, o presidente descartou para os outros resolverem, o primeiro ministro descartou para os outros resolverem, o Partido Socialista descartou para os outros resolverem, o ministro das finanças descartou para os outros resolverem, toda a gente envolvida descartou para os outros resolverem. Envolvendo os outros sempre o Tribunal Constitucional, para além de alguns dos outros que cada um deixa para trás na corrida para apanhar um lugar no salva-vidas do navio a naufragar. Não houve falta de ética. Simplesmente porque nenhum dos envolvidos tem o nível de vergonha mínimo para a ética ser chamada a participar nas suas decisões. Sem vergonha não há falta de ética, apenas falta de vergonha.

Não se tendo provado desconformidade com a ética, os réus podem seguir em paz. Custas pelo autor.

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:26
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Sábado, 29 de Outubro de 2016

O buraco é mais em baixo

O chefe de gabinete do secretário de estado do desporto, que tinha sido forçado a substituir o secretário de estado anterior pelo actual por pretender a sua demissão por ter dado informações falsas para o curriculum publicado no Diário da República no despacho da sua nomeação, acabou de se demitir na sequência da revelação pelos jornais da falsidade dessas informações.

Na altura da demissão, o secretário de estado anterior revelou publicamente que se tinha demitido por uma série de motivos, entre os quais "...profundo desacordo com o senhor ministro da educação no que diz respeito ... ao modo de estar no exercício de cargos públicos...", sem especificar, talvez por ser um cavalheiro que se guia pelo princípio a gentleman never tells, talvez por não perceber que esse princípio não deve ser invocado para impedir a denúncia de gente realmente ordinária.

Parece que não é inédito os governantes serem obrigados a aceitar chefes de gabinete, que formalmente são eles a nomear e assinar os despachos de nomeação, sugeridos pelos seus superiores na hierarquia do governo, sejam chefes de gabinete de ministros impostos pelo primeiro-ministro, sejam chefes de gabinete de secretários de estado impostos pelos respectivos ministros. Quando as gentes não são de confiança, sejam os subalternos, sejam os dirigentes, é um modo de lhes colocar um controleiro mesmo no centro do núcleo duro do gabinete.

Neste caso, por muito interessante que tenha sido o papel do chefe de gabinete que aldrabou o curriculum inflacionando as qualificações académicas e acabou por ser descoberto, foi muito mais interessante o papel  do ministro que, perante a denúncia do secretário de estado sobre a burla curricular, demitiu o secretário de estado para preservar o chefe de gabinete aldrabão que lhe tinha imposto, e até o voltou a impôr, ou sugerir, ao novo secretário de estado. Chega a dar a impressão que, apesar de ainda moço novo, o ministro terá conseguido atingir o fundo da escala de ética na política.

2016-10-29 Porfírio SIlva.jpg

Engano trágico. O buraco é mais em baixo.

Onde o ministro da educação é ainda um menino de coro, o inner circle do primeiro ministro António Costa, desta vez o Porfírio "Esta historieta é montada por um ex-secretário de estado que sendo responsável por um despacho de nomeação com informação falsa, nunca denunciou essa situação" da Silva, é uma galeria de mestres cantores. Se um dia quiser atingir as profundezas das tocas onde se move o topo da cadeia alimentar dos vermes, o pobre do Tiago Brandão Rodrigues ainda tem muito que escavar.

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:20
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