Sábado, 26 de Abril de 2014

26 de Abril

É a data em que muitos Portugueses suspiram de alívio: acabaram os discursos suados, em que quem por função ou ambição acha que deve dizer alguma coisa espreme as meninges para expectorar algo que ainda não tenha sido dito; acabaram as intermináveis cerimónias onde os bonzos do regime se aliviam de um interminável rol de recados e banalidades, uns e outros, nos melhores casos - nos piores temos direito a profundidades filosóficas que não há apneia que aguente - embrulhando na retórica cansada da liberdade a agenda política que defendem.

 

Entendamo-nos: uma comunidade precisa dos seus momentos de celebração, das suas cerimónias chatas, dos seus discursos oficiais, dos seus rituais. E mesmo que a maioria dos cidadãos vá à praia, ao parque, ao café ou a passeio, é tranquilizador saber que há quem trate das comemorações, do içar da bandeira, dos cortejos - a gente também paga aos políticos para se ocuparem das efemérides, que nós não temos vagar e sempre há uma mole de gente que se entretém a ver com gosto essas merdas.

 

Porquê então o fartum? É que o 25 de Abril não é ainda uma data histórica, não podemos tratá-la como ao 1º de Dezembro e despachá-la asinha: menos de um quarto dos portugueses de hoje a viveram conscientemente mas no espaço público - quem é governante, líder de partido, comentador com banca nas têvês, ex-presidente, ex-ministro, ex-qualquer coisa - essa percentagem é muito superior.

 

Pior: na gente que viveu o 25 de Abril há vencedores e vencidos, e nestes não está apenas a Velha Senhora, porque houve pelo menos dois vinte e cincos - o dos comunistas e o dos outros; e os primeiros foram vencidos mas não convencidos, além do que sobrevieram ainda trânsfugas que, de lá para cá, viajaram da esquerda para a direita e - alguns - da direita para a esquerda. Mas quase todos estão aí, no espaço público, a lutar para que se cumpra Abril - o Abril deles. E estão de tal maneira que entopem os meios de comunicação social não apenas com as cerimónias oficiais e os festejos mas com a interminável parafernália dos comentários, lembretes, mesas redondas e debates - ao fim do dia o espectador já não pode com o 25 de Abril, a liberdade, os poemas, as historietas, as musiquetas, as imagens mil vezes vistas, o mau que era o 24, o bom que passou a ser no 25 e o melhor ou pior que é agora, bem como a longa lista dos has-been que neste dia renasce para a ribalta deles - e o nosso tédio.

 

Eis por que prefiro comemorar a data do título - julgo não estar só.

publicado por José Meireles Graça às 14:01
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Sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Oposição estereofónica

Quem ler alguma da história do Estado Novo percebe que este, nascido de um golpe militar, só pôde consolidar-se porque Salazar contou de início com o apoio das chefias, assustadas com o descalabro financeiro da pátria falida, em particular Carmona, e com a desordem e o terror da 1ª República, e foi com o tempo criando a teia de dependências e cumplicidades que transformaram a instituição militar num dos pilares do regime.

 

A guerra colonial veio desfazer este suave arranjo. Não é que a situação fosse militarmente insustentável; não é que o país estivesse exangue com o esforço da guerra, como diz a lenda, não obstante os mais de 40% do Orçamento que a ela chegaram a ser afectos: é que um pequeno país não podia pedir indefinidamente aos seus juvenis, em levas sucessivas, que fossem para longe defender algo que muitos não entendiam como seu, e tudo sem fim à vista. Além do que os ventos de uma opinião pública mundial hostil ao colonialismo à antiga também aqui chegavam, ainda que filtrados. E mesmo que por baixo da mesa os governos do Ocidente nem sempre fossem tão hostis como gostavam de se apresentar; e mesmo que no contexto da Guerra Fria não se ignorasse que havia o perigo de a URSS ser o verdadeiro herdeiro das independências das antigas colónias: havia o cansaço de um regime decrépito, a falta de esperança e a sensação de cuspir contra os ventos da História.

 

Um problema de promoções e de estatutos foi o rastilho; uns poucos militares mais lidos ou ambiciosos foram o fermento; outros mais atrevidos, corajosos ou inconscientes, os agentes; o regime caíu, sem que quase ninguém, salvo os futuros retornados, o lamentasse; e os heróis do dia foram ler - para desempenharem o seu novo papel não podiam falar da pele posta a salvo, do pré e das carreiras, precisavam do manto salvífico de uma ideologia. De ideologias havia várias disponíveis, e todas eles tresleram, mas a que parecia a muitos reservar um papel exaltante era a comunista, numa das variantes que os ideólogos civis disponibilizavam. Daí para a frente, estabeleceu-se, na rua e nos quartéis, a luta entre soviéticos, ou cubanos, ou peruanos, ou albaneses, ou chineses, de um lado, e suecos, ou franceses, ou americanos, ou ingleses, do outro.

 

A facção militar pró-Ocidente ganhou e, em devido tempo, com a preciosa ajuda de Eanes, os militares regressaram aos quartéis, de onde saem esporadicamente quando, como agora, a Pátria se lembra de os tratar com os rigores que reserva, sob a férula da tróica, a outras categorias de cidadãos.

 

Os heróis, porém, não regressaram completamente ao anonimato dos quartéis - quem esteve tanto tempo debaixo das luzes suporta mal a insignificância. E como para a luta política se requer bastante mais do que competência nas artes do putsch; como a legitimidade revolucionária se esfumou no tempo; como na democracia as usual não há lugar para fardas nem proclamações pretorianas; como o 25 de Abril é mais um feriado para ir à praia, e menos uma data para exaltações em torno de valores que, por estarem adquiridos, não precisam de ser repetidos pela milésima vez: não está a maioria do Parlamento para aturar um grupo de ressentidos que, tendo ajudado in illo tempore a instalar uma democracia vulgar, querem agora promover uma democracia sui generis, que seria aquela em que a Oposição fala a duas vozes: a dela, que foi eleita, e a dos convidados que acham que não precisam de o ter sido.

publicado por José Meireles Graça às 23:13
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Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

Europeíces, piedades, e conclusões levezinhas

Veio de Paris (na realidade o artigo apenas diz que era uma equipa da France Culture, mas deduzo que se é coisa de Cultura e de la France deve ser de Paris, tal como em Portugal estas coisas costumam ser de Lisboa) uma jornalista "jovem e competente" que entrevistou, entre outras pessoas, Teresa de Sousa, a propósito dos 40 anos do 25 de Abril.

 

Teresa de Sousa é uma conhecida colunista cujos escritos não costumo ler para além do primeiro parágrafo, pela mesmíssima razão que, se fosse gourmet, não leria a coluna de um especialista que todas as semanas falasse do mesmo prato - no caso de Teresa é a Europa, que nos é servida nas mil formas pelas quais se deve apresentar para que a possamos engolir com geral satisfação.

 

A jornalistazinha trazia, parece, uma ideia, que outros entrevistados teriam confirmado, de que "estávamos hoje pior do que no 25 de Abril, por causa da crise" - deve ter andado a falar com gente do PCP, ou a beber gins com gente do BE.

 

Teresa inteirou a moça da vulgata que toda a gente de representação reserva para estes entreactos, a saber que não senhor, estamos muito melhor, credo!, então e os índices de desenvolvimento, e o saneamento, e a taxa de mortalidade infantil, e a escolaridade e, sobretudo, o Serviço Nacional de Saúde...

 

E concluiu, triunfante: "A crise está a empobrecer-nos de uma maneira que nunca pensaríamos possível. O Governo não respeita nada nem ninguém, quando se trata de arrecadar. A classe média está a pagar a crise praticamente sozinha e a “compressão” dos seus rendimentos é brutal. Tudo isto é verdade, mas todas as crianças vão para a escola com sapatos".

 

Que a classe média está a pagar a crise não duvido; dos sapatos só tenho algumas dúvidas por imaginar que serão antes sapatilhas; e quanto às alternativas ao que este Governo está a fazer teria algumas coisas a dizer, que todavia receio fossem muito diferentes das europeíces e piedades de Teresa - mas não é o meu assunto agora.

 

Por trás destas considerações está, fatal, o seguinte raciocínio: a democracia trouxe-nos estas coisas boas; muitas não tínhamos, ou tínhamos em menor grau, nos longínquos tempos da ditadura; e logo é à democracia que devemos estes progressos.

 

Peço licença para achar que este discurso é uma falácia: comparar materialmente o agora com o dantes para daí deduzir superioridades e inferioridades de regimes não tem qualquer sentido porque todos os países progrediram imenso nestes quarenta anos, quer sob democracias quer sob ditaduras, e o nosso também não ficaria parado ainda que a Ditadura perdurasse; e sendo indiscutível que há mais democracias do que então havia, não é certo que a maior fatia do progresso material tenha vindo delas - a Ásia, o continente que mais cresceu, não é o que mais se recomenda pelas suas credencias democráticas. Aliás, a democrática Europa, pai e mãe do que melhor e pior a humanidade já produziu em termos de ideias políticas, está, relativa e inexoravelmente, a atrasar-se em relação ao resto do Mundo. Fosse eu apreciador de ideias simplistas, e cultivasse confusões entre correlações e causas, e diria que era por motivo da Democracia - mas não digo, nem penso.

 

O que eu penso é que para ser democrata não é preciso este massacre memorialista sobre os meninos do pé-descalço: Não houve até agora um só dia em que o nosso País progredisse mais do que o fez em qualquer dos dias da década de sessenta, apesar da chuva dos milhões com que desde 1986 nos aspergiram; nem as contas estão feitas sobre quanto nos vai custar em retrocesso e abrandamento aquela parte do progresso que foi feita a crédito; nem as pessoas que, como Teresa de Sousa e eu, têm mais de cinquenta anos, deveriam ter necessidade de esquecer, ou falsificar, os números do passado, para encher a boca com os imaginários triunfos do presente.

 

Teresa diz o que quer; eu também. E isso, que não conta para o PIB, é o que merecia ser comemorado no 40º aniversário. O resto não.

publicado por José Meireles Graça às 15:58
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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

O (a)caso dos cravos

 

 

A revolução dos cravos poderia ser sem flor.


Sei-o porque a mãe de uns amigos foi quem, nessa manhã, comprou as flores que, pela mão do mais perfeito acaso, chegaram ao cano da espingarda de um soldado.


A mãe destes amigos - a "patroa" de quem fala a protagonista deste video - comprou flores, cravos, para oferecer aos clientes do seu restaurante, ao pé do Marquês de Pombal, que comemorava um ano no dia 25 de Abril de 1974. Como se deu a revolução, o restaurante não abriu e os cravos foram oferecidos aos empregados. 

 

Improvável patrocínio, ou como o acaso faz história.

 

publicado por Ana Rita Bessa às 16:24
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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

25 de Qualquer Coisa, Sempre

Acho que, se soubesse o que hoje sei, não teria, se fosse vivo, apoiado o 28 de Maio. Mas, se soubesse apenas o que era razoável saber em 28 de Maio, teria apoiado o 28 de Maio.

 

Se soubesse o que hoje sei, não teria apoiado com entusiamo o 25 de Abril. Mas, sabendo o que então sabia, apoiei entusiasticamente o 25 de Abril.

 

A verdade é que cada revolução é ela própria e a sua circunstância. E porque só há revoluções quando há bloqueios que não se resolvem, quem achar, como eu acho, que as revoluções são soluções de desespero que, para resolver uns problemas, inventam outros novos, deve preferir a evolução.

 

O bloqueio já foi a ditadura jacobina partidária, o caos social, a instabilidade e a ausência de progresso económico, e deu no que deu.

 

O bloqueio já foi a guerra colonial e o imobilismo de um regime orgulhosamente só e orgulhosamente anacrónico, e deu no que deu.

 

O bloqueio hoje é a União Europeia e o Euro. E, se não se evoluir para outra coisa, dará no que dará.

 

Não é hoje o dia dos direitos e das proclamações? Pois então, exercendo o meu direito à opinião, proclamo.

publicado por José Meireles Graça às 21:00
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Há mais de 38 anos preparando o povo

 

 

É com solenidade e sentido de Estado que o Gremlin Literário lembra o dia 25 de Abril de 1975.

 

A brutalidade do calor não foi insuportável aos eleitores: em cerca de 6 milhões e 200 mil inscritos, votaram mais de 5 milhões e 700 mil, e abstiveram-se menos de 520 mil (8,34%).

 

Foram as eleições para a Assembleia Constituinte. A primeira a ser eleita por sufrágio directo e universal, contra a opinião e a vontade do simpático académico Fernando Rosas (e de quase toda a esquerda) que, tal como Salazar e Marcelo Caetano, considerava que o povo português "não estava preparado".

 

Faz hoje 38 anos.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 15:06
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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

ANGOLA É NÓÇA!!

 

 

 

Comemora-se hoje mais um binteçinco dabril, passados que são 38 anos sobre o dia em que etc. etc.

 

Cumpre-me assinalar que não sei quê. O povo saiu à rua, os capitães fizerem umas coisas com as espingardas e enfiaram flores nos bigodes. Os chaimites cometeram muitas infracções, porque havia cidadonas penduradas por todo o lado. Depois foram ao Largo do Carmo e gritaram "pá".

 

Foi uma onda de esperança, toda uma população isto e aquilo, à Portela chegaram senadores.

 

Nunca mais, em toda a história desta pátria cuja aventura é uma comovente puézia, se juntaram tantas calças à boca de sino a subir e a descer os quartéis num grito de alegria colectiva.

 

Os soldados comeram sandes de mortandéla.

 

As crianças brilharam nos cabelos das raparigas. As árvens não morreram de pé, porque ficaram cheias de autocolantes encarnados com letras amarelas.

 

Nas casas dos eleitores, as televisões emitiram miras técnicas e cumenicádos de pessoas que antes disso eram analfabetas. Nas universidades, os estudantes puseram-se espertos e passaram de ano com muitas namoradas. E nunca mais tiveram que aturar as parvoíces dos preçôres.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 14:52
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