Terça-feira, 18 de Julho de 2017

Os pairadores

No meu post anterior manifestei a intenção de perpetrar comentários sobre a última entrevista de António Barreto, e pelo menos um terço dos meus leitores já me pressionou para o cumprimento da ameaça. Não posso ignorar uma proporção tão significativa, e apresso-me portanto a satisfazer aquelas duas pessoas.

 

Uma nota prévia, porventura de gosto duvidoso: Barreto tem hoje um aspecto um tanto emaciado, e duas fundas rugas se lhe cavam na fronte alta; a magreza numa estatura elevada compõe um quadro de ascetismo; e fala com simplicidade e voz grave sobre assuntos graves, destilando o que o espectador supõe frutos maduros de uma longa reflexão.

 

O espectador que não seja geringôncico fanático, por certo, o que quer dizer uma grande maioria da população. Infelizmente, e mesmo que quem se pronuncie no espaço público de forma crítica sobre o Poder do dia conte com a minha simpatia instintiva, a mandarins da opinião exijo clarividência. Vejamos se Barreto a tem.

 

A entrevista começa com a natural revisitação das ideias vertidas no livro Anatomia de uma Revolução, publicado em 1987 e agora reeditado. É história, que deixo para os historiadores. A mim basta-me a memória da liquidação da Reforma Agrária comunista, na qual desempenhou um papel corajoso e determinante. Se, nas circunstâncias da época, era possível lançar as bases para uma mais completa aniquilação do poder comunista, que hoje sobrevive sob a forma de votações cativas em inúmeras autarquias do Alentejo, que por sua vez fornecem a base eleitoral para o essencial da influência deletéria que o PCP ainda detém na sociedade portuguesa, desconheço.

 

Saltando para os nossos dias, Barreto reconhece que existe hoje "algum preconceito contra a direita" e que "o bom momento que este Governo viveu neste ano e meio ficou a dever-se, em grande parte, à complacência, à cortesia, da imprensa em geral".

 

E para explicar este estado de coisas diz Barreto que "a direita, ela própria, talvez por causa da ditadura de Salazar, também tem vergonha de dizer que é de direita, o que contribui para o preconceito. Eu não gosto de simplificar, mas às vezes ajuda: o que é que a direita faz? Dinheiro, empresas, enriquece e faz enriquecer. A esquerda faz o quê? Cultura, letras, palavras, cinema, teatro, jornais, educação. A esquerda tem, digamos assim, 'boas especialidades' e a direita tem 'más especialidades".

 

Eu também não gosto de simplificar, e é por essa razão que prefiro pensar que há em Portugal uma tradição, que começou antes da quartelada de 25 de Abril, e antes do Estado Novo, de dependência do Estado, que distribui empregos, poder e benesses a um país pobre onde a sobrevivência é difícil e o sucesso quase impossível sem ser à sombra do Poder; que a direita não tem vergonha de dizer que é direita por causa de Salazar mas por medo de perder votos, que perderá infalivelmente se disser que o Estado deve ser, como tem que ser, mais pequeno; e que a Cultura que a esquerda faz quase nunca o é, mas apenas circo para o povo, no melhor dos casos, e sustento de parasitas que retribuem com silêncio aquiescente ou propaganda, no pior.

 

A esquerda faz essas coisas (cultura, letras, palavras, cinema, teatro, jornais, educação) com apoio do Estado; e a direita não as pode fazer porque sabe que o Estado deve gastar menos, não mais.

 

Os jornalistas portugueses são pobres, têm medo de perder o emprego porque a economia não é suficientemente dinâmica para criar outros, estão inseridos na lógica infernal de não poderem fazer jornalismo de investigação porque não têm meios, e perderem ao mesmo tempo leitores porque fazem jornalismo de opinião para a qual não têm nem conhecimentos, nem gramática, nem autoridade, nem independência; para não falar na concorrência das redes sociais, que fazem de graça, e com frequência melhor, o mesmo trabalho. O socialismo medra no medo e na miséria quando não há anticorpos na sociedade contra o estatismo, como sucede em Portugal. Queria-se que os jornalistas fossem, na sua maioria, de direita?

 

É provável que alguns jornais on-line sobrevivam; e que mais alguns em papel fechem; e que os socialistas façam o que sempre tentaram fazer, e em geral conseguem, condicionar uns e outros; e que, quando a direita regressar ao poder, a comunicação social faça um grande berreiro, se ainda houver democracia. Mais do que isto não vislumbro. Barreto, aparentemente, nem isto vislumbra.

 

Prosseguindo, não gosta da geringonça, por muitas e boas razões, e preferia que não se tivesse feito. Mas o que lhe ocorre sobre o momento em que Costa fez o flick-flack sobre a sua derrota eleitoral é isto: "Neste conjunto de avaliação de forças, o primeiro-ministro António Costa disse: 'É a altura'. Além de que não havia mais nada. Ou era isto ou não era nada. A conjugação destas duas coisas fez com que houvesse uma mudança".

 

Quer dizer: o líder do partido derrotado faz uma coligação sem precedentes com uns pestíferos em torno dos quais sempre os socialistas haviam estabelecido, desde 1975, um cordão sanitário; o eleitorado não se pronunciou sobre tal coligação, que nunca lhe foi aventada; e Barreto acha que o presidente da República não podia fazer nada? Claro que podia: desde logo declarar que jamais daria posse a um governo cujo parto dependesse do apoio da ala comunista da Assembleia. O país mergulharia numa crise, claro. Mas as crises são como certas guerras: mais vale fazê-las cedo para que não se tenham que fazer mais tarde, e maiores.

 

"Talvez tivessem [os portugueses] mais autonomia e mais liberdade durante o reino dos Filipes do que agora". Boa frase. E a partir dela António pinta um quadro aterrador, e pertinente, da nossa situação e da do resto da Europa. E que diz sobre a forma de sair deste buraco? Diz isto: "Continuo pessimista".

 

A seguir vêm os incêndios de Pedrógão Grande e o assalto a Tancos. Barreto diz melancolicamente: "A ideia de que este Governo foi melhor do que o anterior ou pior do que o anterior para os incêndios ou para Tancos? Não aceito essa ideia". Não aceita essa ideia nem a da demissão dos responsáveis: "Demissões? Sinceramente, não sei".

 

Já eu não acredito que Passos se enredasse no prodigioso conjunto de aldrabices e passa-culpas que Costa e sus muchachos estadearam perante um país atónito; não acho que as responsabilidades deste e do Governo anterior sejam equivalentes, desde logo porque o actual é legitimamente suspeito de estar a enfraquecer via cativações a eficácia de serviços básicos do Estado, além de ter povoado de boys, de forma particularmente sôfrega, o aparelho da Protecção Civil, entre outros; e sinceramente acho que demissões já devia ter havido, se não for por mais nada ao menos por responsabilidade objectiva e preservação do princípio de que quando os que mandam perdem a vergonha os mandados perdem o respeito. Costa pode ser um aldrabão contumaz, que efectivamente é, mas a autoridade do Estado deve ser preservada.

 

"O Estado que queremos depende desta discussão. Se queremos um Estado liberal ou um Estado robusto e interventor. Se queremos um Estado que tem uma enorme despesa social ou menor. E, no caso da despesa social, ser uma despesa social universal ou seletiva".

 

Sim sim, pé-ré-pé-pé, já sabemos que a discussão vai ser essa, se os credores entretanto não intervierem para dizer que não há discussão nenhuma e que vai ser assim e assado. Mas o entrevistado o que acha sobre essas magnas questões? Ah, disso seremos inteirados um dia, quando António Barreto acabar de cogitar.

 

"Está a ser uma alternativa, esta solução?
Está, mas não a alternativa no essencial que é o pagamento da dívida e o crescimento económico. Ainda não é alternativa nenhuma. Mas é alternativa às pensões, às reformas, ao bem-estar das pessoas, ao dinheiro que foi devolvido e à paz social. A paz social faz parte de uma estratégia política do Governo e o primeiro-ministro comprou a paz social com o PCP e com o Bloco. E enquanto der é um sucesso, é um êxito".

 

Truísmos, Barreto, truísmos. O que nós queríamos saber era o que fazer para promover o crescimento económico e sobre isso nada. Sucede que o Governo anterior demonstrou (e isso não era evidente, nem sequer para mim) que é possível diminuir a despesa pública e, a prazo, crescer. O corte na despesa foi transversal e deveria ter sido vertical, isto é, eliminando serviços públicos, o que significa que não houve verdadeira reforma do Estado. Mas daquele lado a reforma pode talvez vir, mesmo que tímida. Do lado socialista, de mais a mais acolitado pela esquerda fóssil e pela festiva bolivariana, não.

 

"Para mim, o grande, grande problema dos deputados é o seu modo de eleição, dado que ali nenhum deputado responde perante o seu eleitorado. Responde perante o chefe do partido. O verdadeiro patrão dele é o chefe do partido. E devia ser ao povo que ele devia prestar contas".

 

É inegável que a representatividade do Parlamento sairia reforçada com alguma revisão das leis eleitorais que diminuísse o poder dos aparelhos e aumentasse o do cidadão. Porém, Barreto parece acreditar que algo de substancial mudaria no país com estes novos arranjos, e decerto naquela cabeça peregrina mora a ideia de que com esta varinha mágica a nossa democracia se pareceria com a inglesa.

 

Puro engano: num país onde o Estado tem o peso que tem e o centralismo que tem o deputado regional tenderá a ser uma correia de transmissão de interesses locais quando não de empresas e indivíduos; e um parlamento cheio de deputados do queijo limiano, Isaltinos Morais, Mesquitas Machados e Mirabeaux de aldeia poderá talvez ser mais representativo; mais respeitável é que se duvida. Mesmo assim, esta mudança talvez seja necessária e aconselhável; mas conviria não esperar dela o que ela não pode dar nem fazer disso o alfa e o ómega de uma reforma das instituições. Muito mais importante seria rever a Constituição económica, tornando-a mais favorável à livre iniciativa e à responsabilidade, e menos ao parasitismo.

 

A seguir vem a Justiça, sobre a qual as considerações tecidas são mais do que razoáveis, em particular sobre as magistraturas. Tanto que, só por isto e a despeito do que antecede, António Barreto teria tido o meu voto se tivesse sido candidato à presidência da República em alternativa, ou em concorrência, ao saco de vento palavroso e oco que acabou por ganhar.

 

E a entrevista acaba com umas considerações desastradas e pedantes sobre a demissão dos secretários de Estado: nem o custo das deslocações aos jogos foi tão insignificante, nem convites de uma empresa a governantes, mormente àquele que se ocupa de questões fiscais, devem ser desvalorizados: se eu, que sou empresário (isto é, uma pessoa que produz bens e não perdigotos), sou obrigado a pagar um imposto extra sobre despesas de representação, a que título se justificam tais despesas junto de quem não é nem cliente nem fornecedor? E a referência às low-cost e aos sanduíches manhosos é um detalhe escusado e, traduzido, quer dizer o seguinte: eu, António, sou uma pessoa finíssima, habituada a passadios de muito mais fino recorte.

 

Em resumo: António Barreto faz parte, e é porventura o membro mais ilustre, de uma variedade de pensadores muito respeitada, que são os que pairam. Desprezam os actores políticos, fugindo como da peste de manifestar preferências; quando se dizem de direita não cessam de a criticar, ao mesmo tempo que dizem coisas compreensivas e simpáticas para a esquerda; e quando se dizem de esquerda guardam para ela uma compreensível tolerância, não se esquecendo nunca de malhar na direita. São com frequência professores universitários, acham que essa condição lhes dá uma lucidez que escasseia ao comum dos cidadãos, leram quatro livros e planeiam, nas próximas férias, ler cinco. E nunca se dão ao excessivo trabalho de dizer como se faz.

 

Gente céptica como eu é bem capaz de ir ao ponto de pensar que não dizem porque não sabem.

publicado por José Meireles Graça às 22:03
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Segunda-feira, 17 de Julho de 2017

Nojo

Não apetece comentar a actualidade porque o país está um nojo e é difícil reprimir, se as sondagens estiverem certas, uma sensação de desânimo por partilhar o mesmo espaço, e o mesmo destino, que uma maioria de portugueses cavando tranquilamente o buraco em que estão enfiados.

 

Pode-se ser socialista: basta acreditar que a economia de um país é substancialmente diferente da de cada um porque duramos pouco e os países muito e porque não podemos impôr as nossas dívidas ao nosso concidadão mas o Estado pode, mesmo aos nossos filhos ainda por nascer. Não faltam economistas, incluindo prémios Nobel, a acreditar que a transposição para o Estado das mesmas regras de prudência, probidade e submissão ainda que contrariada às regras de mercado, que regem a conduta dos indivíduos sensatos, é um absurdo; e que ele, com o dinheiro que cobra hoje a uns e pede emprestado a outros, investe com mais lucidez do que os privados fariam com os recursos que lhes são subtraídos com impostos presentes e futuros.

 

Pode-se ser comunista, embora tal doença crónica só atinja, felizmente, uma minoria da população, tal como as cataratas e a esquizofrenia, afecções que aliás ajudam a entender aquela condição: a esquizofrenia provoca visões conspiratórias do mundo e alucinações e as cataratas têm efeitos deletérios na acuidade visual, tudo sintomas que só com patente má-fé o observador imparcial não reconhece nos comunistas.

 

Pode-se ser bloquista, exactamente pela mesma razão que uma parte da juventude tem acne: o indivíduo não está completamente formado, os tratamentos conhecidos não têm resultados palpáveis e o comportamento padece daquele conjunto de pulsões e atitudes que associamos à adolescência. Em princípio, o problema desaparece com a idade, tornando-se o paciente socialista.

 

Pode-se ser tudo isto, e isto tudo faz de momento a maioria do eleitorado. Mas não se pode imaginar que este eleitorado não sabe, ou suspeita, que o país está suspenso de arames (o BCE que garante financiamento, o ISIS que afugenta turistas para cá, as low-cost que dinamizam o turismo, a retoma económica no exterior que arrasta a nossa) e que quando algum ou alguns destes arames se romperem o problema será igual ao das falências anteriores, mas com uma dívida muito maior.

 

E se o eleitorado geringôncico sabe, então deve achar três coisas: uma é que estes que estão sempre lhe vão dando alguma coisinha (um aumento de pensões a um mês das eleições autárquicas, como sucederá em Agosto a dois milhões de reformados, uma manobra óbvia de compra de votos que o sinistro Vieira da Silva engendrou, por exemplo), mesmo que depois façam umas habilidades que ninguém entende bem para aldrabar aqueles lá de Bruxelas, ao mesmo tempo que reabastecer o carro fica mais caro, mas só para quem o tem, e o serviço do SNS se degrada, mas só para quem lá vai; a outra é que a PàF não faria isto, isto é, não virava a página da austeridade; e a terceira é que a Europa não haverá de querer chatices e, como somos pequeninos, alguma solução se arranjará.

 

O papel da Oposição é desmontar estas três crenças, e não se pode dizer que o venha fazendo com eficácia, a julgar pelos resultados.

 

Abstenho-me de dar conselhos nesta matéria, por ignorar quais devessem eles ser. Mas estou certo, do que tenho lido, que a pequena parte do comentariado que não é tida como de esquerda se limita a sugerir pessoas mais capazes para o lugar de Passos sem esclarecer em que consistiriam as diferenças que um novo líder deveria aportar; em explicar, no caso de economistas como Vítor Bento, João César das Neves e muitos outros, a insustentabilidade do nosso trajecto, mas sem que a mensagem converta mais do que convertidos, por haver gente com as mesmas qualificações que diz o oposto; e em refugiar-se, no caso de certos magistrados da opinião, em teses que pairam acima dos partidos, das circunstâncias, do eleitorado em concreto, com o seu perfil atávico de dependente do Estado e agora também da Europa, e que não apontam nenhum caminho, nem nenhuma solução, amalgamando tudo num desgosto geral, que abrange por igual o governo anterior e o actual, como se não houvesse diferenças e elas não merecessem análise.

 

É que, se não há diferenças, realmente tanto faz, e o eleitorado está cobertinho de razão. Sucede porém que em quarenta anos o país faliu três vezes, e das três pela mesma razão: o Estado estava endividado a um nível que, nas circunstâncias da época, fazia com que os credores não estivessem dispostos a emprestar mais sem meterem o nariz na forma como o país era administrado. E das três vezes, como na quarta quando vier, o papel desempenhado pelos partidos não foi igual, nem parecido, nem é difícil identificar o principal responsável.

 

Um destes magistrados é António Barreto, que tem farta audiência na direita pelo seu passado como ministro corajoso da Agricultura num momento chave da nossa história recente, homem probo, e intelectual não-alinhado com a ortodoxia do socialismo caseiro, a jigajoga dos poderzinhos de Lisboa e o politicamente correcto. É muito, e por ser muito suscita atenção e interesse. Mas quem procure em Barreto a mais remota ideia sobre o que o país deve fazer, além da reforma das leis eleitorais que imagina são o abre-te Sésamo da regeneração, vê as suas esperanças defraudadas.

 

Procurarei, em post separado que este já vai longo, analisar a entrevista em detalhe, a ver se de lá se retira algo mais do que as mesmíssimas irrelevâncias com que Barreto nos brinda há anos. E decerto talvez me ficasse melhor entreter-me com alguma das figurinhas da Situação mas, lá está - provocam nojo. Barreto não, desperta estima. E desconsolo. Stay tuned.

publicado por José Meireles Graça às 13:02
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Terça-feira, 19 de Novembro de 2013

Perguntas difíceis

Para as longínquas eleições presidenciais já se indicam aqui e além preferências. Deixemos de lado o comunista de serviço que o PCP apresentará, o lunático ao qual o BE dará o seu irrelevante apoio e a prestigiada personalidade que o PS indicará para encher chouriços, quer ganhe quer não ganhe.

 

Votarei no candidato do meu lado, como sempre faço, ainda que o candidato do meu lado nunca tenha sido meu. E, na campanha eleitoral, silenciarei reservas e divergências, e aplaudirei o que puder, em nome de um mal menor e por espírito de corpo - não sou, nem desejo ser, independente.

 

Mas não estamos ainda aí. E quando ouço os nomes de Durão Barroso, uma rolha do calculismo e do europeísmo, e de Marcelo, uma inesgotável fonte de irrelevâncias e maquiavelismo de trazer por casa, sem uma única ideia no bestunto que não seja a opinião dominante e volúvel no que em Portugal convencionalmente se chama a Direita, ou a última novidade que apreendeu na badana de um livro da moda, ou numa conferência onde foi espairecer a simpatia, digo para mim que tem que haver melhor.

 

Sucede que melhor. António Barreto é melhor: as preocupações que tem são as que deve ter quem sabe que o País está numa encruzilhada e que pode, se nada fizer, descobrir-se num beco sem saída, onde, aliás, em parte, já está. As perguntas que faz aqui são parte das perguntas certas. E mesmo que o pressuposto básico esteja, a meu ver, errado (nas palavras dele: "Não é a melhor altura. O actual período de crise financeira do Estado (e da sociedade) não é a melhor altura para proceder à reforma do Estado"), e ainda que para muitos dos problemas que indica dê, quando dá, soluções ou ingénuas ou inconvenientes (no meu ver; mas, por ora, não vale a pena esforçar-me a elaborar, é possível que ninguém ligue pevide ao assunto) um abismo o separa dos do costume, que ou repetem a cartilha velha e relha que quarenta anos de democracia gastaram até ao fio ou, para além da gestão da tesouraria e das dependências europeias, não veem nada.

 

Eu não acho que devamos estar à espera de que as finanças fiquem minimamente equilibradas para reformar o Estado, desde logo porque sem essa reforma nenhum equilíbrio deixará de ser revertido logo que um empreendedor social-democrata alcance o Poder com ideias sobre como que é que o Estado vai, directamente, promover o crescimento, a modernidade e o céu na terra.

 

Mas um candidato que não diga claramente que a Constituição tem que ser revista não merece ser eleito. Como não o merece também quem defende isto e aquilo desde que a Europa apoie e faça assim ou assado. Porque se alguma coisa já ficou demonstrada, para quem precisava de demonstração, é que não há uma Europa, mas várias.

 

É que pode haver, e há, circunstâncias em que a Europa ajuda - quem se ajuda a si próprio. Num país de maioria católica, eu, que o não sou, acho oportuno lembrar: Ajuda-te, que Deus te ajudará.

publicado por José Meireles Graça às 00:05
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Terça-feira, 30 de Julho de 2013

Os sintomas da doença incógnita

Barreto, estou a imaginá-lo durante a entrevista: cenho franzido, duas fundas rugas cavadas por anos de meditação sobre os males da Pátria, os olhos angustiados e errantes, e o dedo fulminante apontando a sentença definitiva, profunda e límpida:

 

"... todos os políticos e gestores de empresas públicas que lesaram o Estado devem ser responsabilizados politicamente, e judicialmente só aqueles que cometeram verdadeiras ilegalidades".

 

É isto? Cáspite!, que a gente está mesmo ao lado da solução e não é que nos passa desapercebida?

 

Mas, espera: Há alguém que ignore estes nomes? Há alguém que não saiba acrescentar à lista muitos outros? Há quem desconheça, localmente, quem são os edis que começaram os seus mandatos a tinir e os acabaram com fartos cabedais? Há algum responsável político sobre cujos desmandos, reais ou imaginários, a Oposição do dia não se tenha cansado de chamar a atenção?

 

O regime precisa ser reformado, sim: o sistema eleitoral, a legislação criminal, incluindo o processo penal, as práticas e meios de investigação; como casar a investigação do enriquecimento ilícito com a preservação da privacidade e sem reforçar os poderes de uma administração fiscal enxerida e predatória; e uma longa lista de outras matérias.

 

Para tudo isto é preciso estudar muito, discutir muito, e com muita paciência. E não ter excessivas esperanças: que no meio de um eleitorado que não hesita em eleger homens sobre cuja venalidade há poucas dúvidas não irá nascer de um dia para o outro aquele espírito de exigência e censura que é a verdadeira garantia de uma vida pública sã.

 

Agora, os já clássicos discursos de motorista de táxi não melhoram se embrulhados numa retórica mais elaborada. Fosse Barreto um blogger anódino, como este Vosso criado e muitos, e não estaria mal. Mas quando se detém uma magistratura de influência convém não dizer apenas qual é o destino, mas também como lá chegar.

 

Barreto isso não fez. E é pena, que há uma relativa abundância de quem sabe muito; e escassez de quem diga como se faz melhor.

publicado por José Meireles Graça às 22:13
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