Sexta-feira, 10 de Março de 2017

Sá, paga o que deves! ou o que se pode aprender da política de casos do governo de Portugal

O Jornal 18.7.80.jpg

Antes de a esquerda, de toda a esquerda da moderada socialista à radical trotskista, incluindo os desertores do MES entretanto transferidos para partidos mainstream onde deixaram de combater a social-democracia para abraçar o conforto da proximidade do poder, se ter recentemente proclamado como a genuína herdeira política do Sá Carneiro e da social-democracia, montou-lhe a primeira grande campanha de assassinato de carácter da democracia portuguesa, orquestrada pel' O Diário, o jornal oficioso do PCP nessa época, ecoada por toda a imprensa, e multiplicada por milhares de paredes pintadas a exortá-lo "Sá, paga o que deves!", repescando um negócio que tinha corrido mal meia dúzia de anos antes.

A campanha teve um impacto mediático estrondoso, tendo em conta a velocidade e débito a que a informação circulava nessa época em que não havia internet nem redes sociais. E tinha todos os ingredientes para resultar. Baseava-se num arrazoado de factos confusos e difíceis de relacionar e compreender claramente, e ainda mais difíceis de desmontar e refutar a conclusão proposta, que por isso impeliam os leitores, para não falar nos transeuntes que apenas liam os graffiti nas paredes, a formar as suas convicções, se acreditavam que os factos comprovavam um crime ou uma insinuação torpe?, através da sua preferência individual em acreditar ou não que o Sá Carneiro era um caloteiro. E assim foi. Quem achava que ele era o coveiro dos valores de Abril acreditou que era também caloteiro, quem depositava nele a esperança de erradicar os delírios revolucionários e finamente começar a construir uma democracia moderna que fizesse Portugal progredir acreditou que era inocente. Tinha todos os ingredientes para resultar, mas infelizmente não resultou. O Sá Carneiro foi re-eleito poucos meses depois com uma maioria absoluta ainda mais ampla do que a que tinha conquistado no ano anterior, e o seu ímpeto reformista só foi travado com o assassinato à bomba pouco depois destas segundas eleições.

Foi o início de uma política de casos que tem perdurado durante décadas e não perece mostrar nenhuma tendência para esmorecer no seu ímpeto.

Nestes anos todos a esquerda aprendeu a usurpar-lhe a identidade ideológica, mas de resto não aprendeu mais nada, e continua a repetir o que sempre fez, a fazer política através de sucessões de casos que procuram distrair os eleitores dos sucessos ou falências da governação do país para a difamação dos adversários políticos através da insinuação da prática de crimes em casos sustentados na revelação de factos de significado confuso sobre temáticas complexas e inacessíveis, às vezes até a cidadãos bem informados, onde é difícil perceber claramente se podem indiciar crimes ou não, e por isso impossíveis de desmontar e refutar as conclusões propostas pelos denunciantes. E sempre com resultados semelhantes.

Perfeitamente ilustrada no caso montado para atacar a anterior ministra das finanças por estar a tentar resolver discretamente uns contratos de swap ruinosos celebrados ao longo da legislatura anterior, por ordem do governo socialista anterior, e com o objectivo de maquilhar as contas públicas, o mesmo partido que montou a campanha para a atacar. Sendo um assunto tecnicamente complexo que quase ninguém percebe, prestou-se perfeitamente a simplificações analíticas do tipo swap = vigarice e ministra que tem o problema dos swaps nas mãos = vigarista que deram a muita gente a fezada que a ministra era mesmo vigarista e um alvo fácil nas eleições. E mais uma vez com o resultado habitual: o partida da ministra veio a ganhar as eleições, ao contrário de todas as expectativas, incluindo as das sondagens.

Agora que está determinado que o caso Lista VIP, tal como a generalidade dos múltiplos casos lançados à opinião pública maioritariamente pelo BE, na legislatura anterior, e pelo governo, nesta, foi um aborto jurídico, que tinha sido um aborto político já se tinha provado nas eleições realizadas poucos meses depois, vale a pena, mais do que rever tudo o que se disse e quem o disse na altura, subir pelo rio acima à procura da nascente do caso. E com quem se tinha reunido o então candidato socialista a primeiro-ministro exactamente um mês antes de o caso Lista VIP ser denunciado com estrondo? Com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, o incontornável bloquista Paulo Ralha que tem colaborado diligentemente em quase todos os casos lançados ao país desde que o António Costa passou a chefiar o PS. Uma mera coincidência, certamente...

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:20
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Quinta-feira, 9 de Março de 2017

As explicações sobre a censura da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas ao professor Jaime Nogueira Pinto

2017-03-08 Marcelo explicações Nogueira Pinto.jp

O doutor Rebelo de Sousa pediu explicações à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa sobre a censura à conferência do professor Jaime Nogueira Pinto por pressão, formal e através da ameaça de agressões, da associação de estudantes liderada por dirigentes bloquistas. Fica-lhe bem, mesmo que a reacção dele neste caso não tenha sido tão rápida como tem sido haitual, talvez por, ao contrário do que tem sido habitual, e como foi por exemplo na piadola que dirigiu à doutora Teodora Cardoso, ter preferido combinar a resposta antes de fazer a pergunta?

Ó senhor doutor Rebelo de Sousa, essas explicações até eu lhas posso dar!

Desde que perdeu em Novembro de 1975 a capacidade para fazer o gosto ao dedo, e à natureza democrática social-fascista do seu ódio às liberdades civis, nos domínios da censura, dos saneamentos e da intimidação pela violência verbal e física, a esquerdalhada esperava uma oportunidade de o Partido Socialista ser conquistado pelos seus deserdados que lá se foram insinuando ao longo de décadas na procura de uma vida melhor e mais próxima do poder e da distribuição de benefícios que o exercício do poder facilita, o que finalmente sucedeu com a ascensão do António Costa ao controlo do partido, e com a substituição do Presidente da República, o mais alto magistrado da nação responsável por garantir a preservação dos direitos constitucionais, por uma figura apatetada que confunde a preservação dos direitos constitucionais com um concurso de miss simpatia para conquistar, através da distribuição de afectos aos próprios e de alfinetadas aos que eles odeiam, a afeição dos que os violam.

O que explica este surto de brigadas facistas a impedir com sucesso a livre expressão dos inimigos da sua revolução através de ameaças verbais e físicas, e a cedência das instituições públicas à sua intimidação violenta, é justamente o encorajamento à intimidação decorrente da ausência de um verdadeiro Presidente da República e do abandono do país à maioria minoria que circunstancialmente se instalou no poder onde prevalecem estes saudosistas do PREC.

O que explica o cancelamento é o modo como exerce as funções presidenciais. Erga-se, se ainda é capaz!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:06
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Quarta-feira, 8 de Março de 2017

Do it yourself: ameaçar jornalistas

2017-03-08 SMS Costa - João Vieira Pereira.jpg

Ao contrário do Pablo Iglesias, o menino bonito de olhos azuis e rabo de cavalo que beija na boca os colegas de bancada do Podemos em pleno parlamento, estou convencido que mais para escandalizar os burgueses das outras bancadas do que para saborearem os fluidos corporais uns dos outros, e que necessita de uma legião de amigos próximos para ameaçar os jornalistas pessoalmente ou por telefone e de trolls para os ameaçar nas redes sociais, o nosso primeiro-ministro António Costa, sendo ele próprio um troll assumido e de talento, até na figura que não tem nada de bonito e estou convencido que teria grandes dificuldades em recrutar colegas de bancada dispostos a beijá-lo na boca, trata ele mesmo pessoalmente das ameaças a jornalistas sem necessidade de mais do que um telemóvel com capacidade para enviar SMS e, desejavelmente, escrita inteligente T9, ou corrector ortográfico se for um dos de última geração, para evitar nas mensagens escritas os erros com que assassina o Português sempre que abre a boca para falar, até para ameaçar o Português ele é um troll.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:23
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

Ele rouba mas faz

2017-02-19 Costa rouba mas faz.jpg

No seu estilo tão próprio de fazer política, o estilo ácaro em que se dedica a apontar regularmente aquilo que irrita a oposição, o primeiro-ministro António Costa saiu em defesa do ministro Mário Centeno, em quem delegou o trabalho sujo de

  • contratar o banqueiro António Domingues, apresentado ao país como a contratação-chave para ganhar o campeonato e a prova definitava do génio do seleccionador mesmo em domínios complexos como a alta finança,
  • dar a volta à lei para satisfazer a exigência legítima mas ainda ilegal do banqueiro para aceitar o cargo de manter o seu património ao abrigo dos tablóides em vez de recuar na contratação para não cometer ilegalidades,
  • manter o banqueiro na ilusão de que os problemas legais seriam resolvidos enquanto o primeiro ministro e o presidente acordavam entre si que não seriam,
  • quando a alteração à lei se transformou num lastro político sacrificar o banqueiro como uma criatura de ganância ilimitada cujo único objectivo neste mundo é esconder do país a riqueza que acumulou,
  • tratar publicamente o banqueiro como um atrasado mental que não percebia que quando lhe dizia que lhe estava a tratar do assunto queria de facto dizer que nem pensasse,
  • e depois da queda do banqueiro se transformou ele próprio no elo mais fraco quando o banqueiro, discreto até ao limite da sua predisposição para ser o bombo da festa, ultrapassado esse limite começou a revelar documentos escritos ilustrativos da sua negociação com o ministro para dar a volta à lei,

até porque

  • deixar cair o ministro sem primeiro lhe alimentar a ilusão de estarem nisto unidos como os dedos das mãos lhe poderia criar tentações de também ir rever os seus SMS com o primeiro-ministro ilustrativos do modo como acompanhou ou mesmo comandou a negociação com o banqueiro intermediada por ele,

dizendo publicamente,

  • não que o ministro tinha usado um mínimo de lisura ao longo do processo, até porque se vier a ter que o deixar cair não lhe ficará bem deixar cair um ministro sem mácula que justifique a queda,
  • mas que conseguiu maravilhas no deficit e na dívida pública. *

Em resumo, ele rouba mas faz.

 

* E consegui escrever o parágrafo mais comprido do mundo sem se parecer com um parágrafo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:02
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2017

E o rei dos sapos?

2017-02-15 Costa garante a Domingues.jpg

No pântano a água anda agitada e, com a agitação da água, solta-se o lodo do fundo e fica cada vez mais turvo.

Mas, se lá no fundo está tudo cada vez mais turvo, cá em cima, no fundo, é claro como a água. É um jogo de cadeiras romanas. Na primeira jogada o mundo era todo deles, até os engolidores de sapos estavam com eles, e prometeram mundos e fundos a quem colaborasse.

Quando a coisa deu para o torto, os sapos puseram-se todos ao fresco e sacrificaram o banqueiro, o único que ficou apeado. Até lhe exigiram que entregasse a declaração. Ficou para a história como o oportunista cujo principal objectivo na vida era esconder o seu património da população que lhe ia pagar o ordenado. Um sacana! Pode não ter sido brilhante como estratégia de jogo ter queimado alguém que sabia mais do que dizia, mas quando se tem o rei na barriga a teoria dos jogos deixa fazer tudo, e tudo acabar bem. E, de facto, na primeira jogada foi ele que saiu do jogo. Mas o jogo não acabou.

A segunda jogada foi mais renhida. Apareceram comunicações à superfície, esconderam-se as comunicações de novo no lodo, mas há sempre um Correio da Manhã que as consegue descobrir, e, no que parecia um jogo em que já havia cadeiras para todos, com todos a torcer para a coisa ficar por ali, até porque havia coisas mais importantes para tratar e não havia documentos a comprometer os jogadores ainda na roda, veio-se a reveler que não, que afinal faltava uma cadeira, e que mais um dos jogadores ia ter que ficar apeado.

Quem? Obviamente, o mais totó, o que tinha sido incumbido pelos outros de conduzir a marosca sem, por não ser político nem advogado, se prevenir contra deixar provas documentais espalhadas pela cena do crime. E deixou, será ele a saltar fora. E é uma boa estratégia de jogo jogar fora o jogador que conhece mais por dentro o processo e sabe o que cada um dos que restam sabiam, mesmo sem ter os documentozinhos assinados a provar o que eles sabiam? Pode não ser...

E o jogo acaba aqui? Não, este jogo só acaba quando todos os sapos ficarem apeados, inclusivamente o último. Os dois jogadores que restam são virtuosos naquilo a que se chama o tacticismo político. Qualquer deles merece ficar em jogo até ao fim, mas um deles vai ter que perder nesta jogada. Qual deles? O Correio da Manhã ditará com as suas fugas de informação a conta-gotas. Mas um deles foi à vinha enquanto o outro ficava à porta, é mais provável que seja o que foi à vinha a saltar. O futuro o dirá.

Neste jogo só há uma coisa fatal como o destino. Tanto os que saltam, como os que ficam, estão cheios de lama até ao pescoço.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:49
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

As imunidades do António Costa

2017-01-26 Costa the con man.jpg

Para além das imunidades formais que o exercício do cargo de primeiro-ministro em exercício lhe confere, o António Costa usufrui aparentemente de duas imunidades extraordinárias informais:

  • A imunidade jornalística
  • A imunidade judicial

 

Imunidade jornalística

Ao contrário do primeiro-ministro anterior, que viu a sua vida contributiva vasculhada até ao tostão no parlamento e nos jornais, mesmo a da época em que era precário, a comunicação social tem um saudável e manifesto desinteresse pela vida contributiva do actual primeiro-ministro, mesmo a da época em que era milionário. Nunca se viu grande agitação por ele ter acumulado salários completos pelo exercício de funções oficiais em regime de dedicação exclusiva com honorários milionários como comentador de televisão, nem por ter recebido estes honorários a título de direitos de autor para os poder acumular legalmente com os salários completos e, por ser a esse título, serem parcialmente reduzidos a metade para efeitos de imposto sobre o rendimento. Nem a curiosidade que impele os jornalistas a investigar para aprofundar a compreensão de negócios que indiciariam comportamentos de ética duvidosa, quando não crimes graves, se fossem participados por outros políticos, que não ele. Nem qualquer reacção corporativa de indignação colectiva nem individual da classe quando ele injuria ou ameaça um jornalista, em privado ou em público, que qualquer político normal suscitaria se o ousasse fazer. Verdade se diga que o tom labrego com que se dirige regularmente aos parlamentares, e ele hoje estava em forma, faz parecer quase cordatas as ameaças, mesmo em privado, que dirige aos jornalistas.

Os motivos para esta imunidade estranha, ou notável, conforme seja vista da direita ou da esquerda, não são conhecidos com precisão, se bem que haja algumas explicações com um mínimo de plausibilidade, como por exemplo o facto de a mãe ter sido presidente do sindicato dos jornalistas. Mas, ao certo, não se sabe?

 

Imunidade judicial

A imunidade judicial é ainda mais estranha. Por mais óbvios que sejam os indícios de alguns crimes, por mais estranhos que sejam alguns aspectos de algumas negociatas que tem promovido enquanto governante, a justiça não lhe pega, não o investiga, não o leva a tribunal, não o condena.

É verdade que, na circunstância específica actual em que é primeiro-ministro, a justiça tem algumas limitações nos instrumentos a que poderia recorrer se o quisesse investigar. Também é verdade que a justiça, se abandonou a sua posição lendária de deixar os ricos e poderosos à vontade sem os incomodar, para se tornar particularmente dura, e até talvez mediática acima da dose recomendada para se fazer justiça com seriedade, na perseguição a alguns deles, continua a parecer preferir incidir a sua acção sobre ricos e poderosos has been, tenham eles sido empresários da bola, banqueiros, governantes ou até primeiros-ministros, e a deixar tranquilos os que ainda estão no activo, como ele está. Mas, mesmo quando as fez em alturas em que não tinha funções governativas, ou nos intervalos entre funções governativas depois de as ter feito, nunca lhe tocaram.

E não há poucos exemplos em que o desinteresse da justiça parece demasiado benevolente.

 

Caso Casa Pia

No caso Casa Pia, o António Costa, actual primeiro-ministro e terceira figura do estado, mas então mero deputado da oposição, foi apanhado nas escutas a conspirar com o actual presidente do parlamento e segunda figura do estado, mas então também deputado da oposição, com o então presidente da república, e o então procurador-geral da república, para tentarem colectivamente impedir a entrada no tribunal de instrução criminal de um processo envolvendo um deputado socialista.

As consequências destas escutas que alguém dentro do sistema judicial, porque ninguém de fora do sistema judicial era já arguido, tinha advogado, ou tinha sequer conhecimento da sua existência, fez diligentemente chegar à comunicação social, foi mais ou menos por essa altura que a justiça passou a ser mais mediática, talvez para se livrar da fama consolidada de deixar os ricos e poderosos impunes, foram a belíssima anedota "Tou-me cagando para o segredo de justiça", a prisão preventiva do deputado que estava a ser investigado por risco de perturbação do inquérito comprovado pela escuta da conspiração dos seus camaradas, e nenhumas para os conspiradores comprovados, apesar de a perturbação de inquérito ser um crime. Não houve nenhum processo aos conspiradores por perturbação de inquérito na forma, pelo menos, tentada.

 

Siresp

Outro caso pelo menos enigmático foi o negócio do Siresp.

  • O Siresp foi concebido durante o governo do António Guterres e o concurso lançado pelo ministro da administração interna Figueiredo Lopes do governo Durão Barroso.
  • O caderno de encargos, com o custo de quinze mil euros, foi levantado por cinco interessados, mas todos com excepção de um único, o consórcio formado pela Sociedade Lusa de Negócios - SLN, a Motorola e a Portugal Telecom - PT, declinaram a apresentação de propostas por considerarem o caderno de encargos elaborado à medida da oferta deste consórcio.
  • Confrontado com o facto de ter apenas um concorrente, e tendo provavelmente percebido que as queixas dos outros tinham sentido, o ministro Figueiredo Lopes não cancelou o concurso, mas prolongou indefinidamente o processo de negociação com o único concorrente, não tendo concluído as negociações até à demissão do primeiro-ministro Durão Barroso e do governo.
  • No governo seguinte de Santana Lopes, o ministro Figueiredo Lopes foi substituído por Daniel Sanches, um administrador da SLN.
  • Já depois da dissolução do parlamento e da realização de eleições legislativas que foram ganhas pelo PS na oposição, com o governo em funções de gestão, os ministros da administração interna Daniel Sanches e das finanças Bagão Félix formalizaram a adjudicação do Siresp ao consórcio concorrente por 538 milhões de euros.
  • Após a saída do governo, o ex-ministro Daniel Sanches regressou à SLN.
  • Perante os indícios de, no mínimo, alguma falta de transparência no processo até aí, o ministro da administração interna António Costa do novo governo de José Sócrates decidiu, e bem, solicitar à PGR um parecer sobre o processo.
  • A PGR recomendou a anulação da adjudicação por falta de competência do governo, que naquela altura só podia decretar "actos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos", e o ministro decretou a adjudicação nula.

E o assunto parecia arrumado, e a bem da legalidade, da transparência e da ética na gestão dos interesses públicos. Parecia mas não estava. Em vez de pura e simplesmente não fazer a adjudicação, o ministro António Costa decidiu renegociar alguns termos do contrato com o consórcio, prescindindo de algumas funcionalidades e reduzindo o preço, e acabou por fazer a adjudicação por 485 milhões de euros. Em vez de anular um negócio que tresandava a vigarice por todos os lados de onde se olhava, limitou-se a contornar a ilegalidade da adjudicação para o concretizar.

Quem era o advogado da Motorola, uma das empresas do consórcio? O advogado Diogo Lacerda Machado, o melhor amigo e padrinho de casamento do ministro. Parece estranho? Parece.

O processo ainda foi investigado pelo Ministério Público, mas, ou por não haver indícios suficientemente sólidos para isso, ou por a investigação não ter sido suficientemente diligente para os encontrar, foi arquivado. E depois de o António Costa ter saído do governo não se lhe conhecem quaisquer sequências.

 

TAP

O negócio de alteração dos termos da privatização da TAP, que está a decorrer, também tem aspectos de transparência questionável.

  • Depois de quase uma década de gestão exemplar à frente da TAP, que conseguiu recuperar de uma situação de falência decorrente de prejuízos permanentes e conflitualidade laboral, o gestor Fernando Pinto fez em 2005, durante o primeiro ano do primeiro governo do José Sócrates, uma aquisição que se viria a revelar ruinosa para a TAP, não havendo informação pública que esclareça se o negócio foi uma iniciativa do gestor ou da tutela, excepto afirmações posteriores do gestor dizendo que o negócio teve a participação do governo e da Parpública: em associação com a Geocapital, empresa do investidor Stanley Ho, compraram a Varig Engenharia e Manutenção - VEM.
  • Em 2007, a TAP recomprou à Geocapital a parte desta no negócio pelo preço de aquisição acrescido de uma margem de 20%, ficando com a totalidade do capital da VEM.
  • Integrada no grupo TAP com a firma TAP Engenharia e Manutenção Brasil, a empresa continuou a acumular prejuízos e a dimensão da sua dívida colocou a TAP em risco de insolvência que, conjuntamente com a impossibilidade de o estado lhe injectar mais capital à luz das regras comunitárias, conduziu à decisão do governo Passos Coelho de a privatizar, tendo alienado 61% do capital ao consórcio Gateway que, além do preço pago pela aquisição, se comprometeu, e cumpriu, a recapitalizar a empresa e a modernizar a frota.
  • Uma das primeiras e mais emblemáticas, até porque a privatização já tinha tido a oposição do António Costa e da sua base de apoio mais mediática, reversões do novo governo foi a reversão da privatização da TAP, negociada com o consórcio com o objectivo de o estado recuperar uma quota de pelo menos 50% do capital social da empresa.
  • As negociações entre o estado e o consórcio foram coordenadas, primeiro informalmente, depois ao abrigo de um contrato de prestação de serviços com o estado, pelo melhor amigo e padrinho de casamento do primeiro-ministro, o advogado Diogo Lacerda Machado.
  • No fim do processo negocial o consórcio acedeu à alienação de parte das suas acções ao estado de modo a este ficar com 50% do capital, o objectivo confesso do governo na negociação, e o governo concordou com a venda de uma parte do capital do consórcio à companhia chinesa Hainan Airlines - HNA, empresa que tem interesses cruzados com o investidor Stanley Ho, detendo em sociedade com ele uma companhia aérea low-cost de Hong-kong, a HK Express, o que, se era objectivo do governo, era inconfessado.

Numa coincidência notável, os interesses do investidor Stanley Ho, que estiveram activamente na origem da queda da TAP, a quem se associou e de quem se dissociou com mais valias no negócio da VEM, acabaram por ser beneficiados com a autorização do governo actual para entrarem no capital da empresa.

Quem era administrador da Geocapital, e continua a ser, quando foi feito o negócio da VEM, e foi administrador da VEM enquanto a Geocapital foi sua acionista? O advogado Diogo Lacerda Machado, o melhor amigo e padrinho de casamento do primeiro-ministro, o mesmo que negociou o processo que também abriu as portas do capital da TAP aos associados das empresas que dirige. Parece estranho? Muito mais do que parece muito mais do que estranho.

A justiça interessou-se pelo negócio de aquisição da VEM pela TAP, que investigou, mas não se conhecem à investigação quaisquer resultados. De que haja conhecimento público, não há qualquer investigação e decorrer ao negócio da reversão da privatização da TAP. O negócio e a extraordinária teia de interesses cruzados personificada no melhor amigo do primeiro-ministro não parecem suscitar na justiça grandes apreensões. Ou, se suscita, são impecavelmente sublimadas e não chegam a aparecer.

A que se deve esta imunidade milagrosa, que tantos políticos que um dia foram poderosos mas depois de deixarem de o ser se viram agarrados nas teias da justiça, e estou a falar de figuras ilustres como o Duarte Lima, o Isaltino Morais, o Oliveira Costa ou a cereja em cima do bolo, o José Sócrates, por quem a justiça se interessou pela participação em negócios, em muitos dos casos bem mais modestos que estes que enumerei e não são exaustivos do curriculum dele, gostariam de poder ter usufruido e não conseguiram? Será por ter privado com advogados ilustres na sua passagem fugaz pelo mundo da advocacia que lhe ensinaram os truques do ofício que mais ninguém conhece? Será por ter redes de amigos da escola e do partido que intercedem por ele na justiça quando ele se mete em alhadas como ele intercedeu pelo seu camarada? Será coisa de lojas e aventais?

Não sei. O que sei é que ninguém lhe toca.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:51
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Noutros palcos

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O primeiro-ministro António Costa foi para a Índia pôr a render politicamente as suas raízes étnicas.

O guião consiste em encantar os indianos como o menino prodígio que chegou ao ocidente e se tornou primeiro-ministro, e encantar os portugueses como o primeiro-ministro que trouxe do oriente ouro, incenso e mirra na forma de exportações, investimento, competências tecnológicas e imigração dourada. Tanto uma como a outra parte do guião são ficcionadas, porque ele nem da parte oriental de Lisboa provém, e isto sem entrar na deselegância de comentar o modo como ele ascendeu a primeiro-ministro quando um primeiro-ministro está no estrangeiro em visita de estado, e a Índia está muito longe de precisar de abrir novas portas de entrada no ocidente para a sua economia, actualmente até a Jaguar é uma marca de automóveis pertencente a uma multinacional indiana, mas a ideia de base é boa é um guião inegavelmente bom, e foi a base da superprodução da longa-metragem, de seis-dias-seis de duração, que está neste mesmo momento a ser projectada.

Azar dos azares, mal se iniciou a projecção, faleceu o Mário Soares que, para o bem e para o mal, foi a pessoa mais determinante para o percurso que fizemos nos últimos cinquenta anos da nossa História, e as televisões fizeram zapping da Índia para a superprodução das suas cerimónias fúnebres e foram invadidas por legiões de entertainers a dizerem coisas mais para se fazerem recordar do que para recordar o falecido e a participarem em concursos de disparates onde muitos socialistas e parceiros de percurso se têm distinguido pela sua capacidade ímpar, se bem que já conhecida e reconhecida, de os dizer, pelo que seria injusto destacar nomes. E, entre as reacções iniciais, as cerimónias propriamente ditas, e o rescaldo que se seguirá, os seis dias de antena em que era suposto assistirmos em directo às maravilhas e realizações da visita do António Costa à Índia vão ser ocupados com o funeral do Mário Soares.

Ou por sentir que o dever não lho permitiria, mesmo que vontade não lhe faltasse, ou por mero calculismo político para não deixar fugir a oportunidade de facturar os resultados potenciais da visita à Índia, o António Costa decidiu manter o programa da visita em vez de regressar e protelá-la para outra ocasião ou de a interromper, nem que fosse por um dia, para vir ao funeral. Preferiu manter a sua participação como protagonista na superprodução da visita à Índia que passa no canal Arte, que quase ninguém vê, em vez de aceitar um papel de actor secundário na do funeral do Mário Soares que passa na CM TV, que quase toda a gente vê. Onde aceitou, no entanto, fazer uma breve aparição como artista convidado através do Skype.

Não sei se fez boa escolha. Nem me interessa. Entre os disparates que ele tem uma capacidade inegável de dizer e os que a generalidade dos outros socialistas e compagnons de route têm dito, venha o diabo e escolha. Por mim, até podia ficar na Índia.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:57
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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2016

...Como se fosse a uma feira de gado

O primeiro ministro António Costa regressou a uma escola pública.

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Não para lá levar ou trazer os meninos, que, os meninos dele, pô-los num colégio privado, era só o que faltava andarem na escola pública misturados com os filhos dos pobres? Nem para reaprender a juntar as sílabas, que burro velho não aprende línguas e o Português dele é um caso perdido. Nem em missão inchussonal que, entre feriados e tolerâncias de ponto, não é tempo delas.

Foi lá por a escola dar um bom cenário para mais uma acção de populismo, desta vez a sua mensagem de Natal. Como se fosse a uma feira de gado.

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Post scriptum.

A reputação que eventualmente restasse à IURD como igreja foi devastada pela divulgação há anos atrás da gravação de uma conversa privada sobre dinheiro entre dirigentes que ignoravam que estavam a ser gravados. Menos entre os fanáticos da seita. A divulgação de conversas privadas entre os delinquentes que nos governam pode assassinar igualmente a reputação da democracia, se os ouvintes partirem do princípio, que é falso, mas a alguns pode parecer plausível, de os outros políticos serem tão ordinários como os membros deste bando. Menos entre os fanáticos do bando. Pelo que a comunicação social se devia abster de as divulgar.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:08
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Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2016

Um cântico de Natal socialista

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Aqui já bastante recuado, alguém cuja identidade não revelo para preservar a privacidade das personagens envolvidas estava por esta altura do ano na sala de jantar com o irmão a ouvir a mãe a lamentar "ainda não comprei a prenda para a Dona verdadeiro nome omitido para não lhe violar a privacidade, chamemos-lhe Vizinha, apesar de naquela prédio se chamarem as vizinhas pelo nome e não por vizinha, e desde que começou a aprender pintura agora oferece-me sempre uma prenda feita por ela, e eu tenho que retribuir". O irmão dessa pessoa, e isto foi uma sugestão na brincadeira, porque a vizinha era, e continua a ser porque felizmente ainda está viva, uma verdadeira jóia de pessoa a quem todos queriam e querem como se fosse da família, pegou num copo pintado por ela que ela tinha oferecido no Natal anterior e disse "Podias-lhe dar isto. Dizias-lhe que gostaste tanto, que foste comprar um igual para lhe oferecer". O problema acabou por ser resolvido de outra maneira e a mãe deles acabou por comprar mesmo uma prenda do bolso dela para dar à Dona Vizinha.

Não sei se o nosso primeiro ministro António Costa alguma vez ouviu esta história e, com a fineza de espírito que lhe é própria, não percebeu a ironia da sugestão, ou se é apenas um aldrabão que dá espontaneamente prendas de Natal compradas com o dinheiro dos outros? Mas, era uma vez, este Natal...

Este Natal, o António Costa e o seu padrinho de casamento decidiram oferecer aos lesados do BES a solução para os seus problemas. Apesar de não saber endireitar a sombra de uma vara torta, vai-lhes oferecer o reembolso do dinheiro, ou parte dele, em função dos montantes, que tinham investido, uns avisados, outros inadvertidamente, em títulos de dívida do GES vendidos pelo BES aos seus clientes.

Entre os lesados há pelo menos um emigrante e um pequeno comerciante que confiaram na sugestão dos funcionários do balcão do BES onde eram clientes de investir nesses títulos que lhes davam um bom retorno e tinham o nome secular da família Espírito Santo a garanti-los, e investiram, e perderam, as poupanças de uma vida, que são regularmente entrevistados pelas televisões. É indecente ter burlado pessoas como eles, e também é indecente deixá-los pendurados por terem comprado gato por lebre sem nenhum regulador o ter evitado, e era facilmente evitável. Há também amigos e familiares do tio Ricardo Salgado, há estrelas da televisão e do desporto, há gente que usa o nó da gravata tão bem apertado que não tem ar de cair numa historieta de funcionário de balcão do banco, mas também investiu nos tais títulos em vez de o investir, pelo menos esse, em paraísos fiscais. Desses, a televisão não costuma contar a história, talvez por receio de distrair o público da justa indignação que lhe causa a burla de que o emigrante e o comerciante foram vítimas. Adiante. Atalhando razões, vão todos receber a massa que já davam por perdida. Uma benção de Natal!

E como é que vai ser feito este pequeno milagre?

Tal como o ilusionista profissional nunca revela os seus truques de magia, o António Costa também não revelou o seu esquema. Nem o presidente Rebelo de Sousa ousou comentar, com medo de errar e dada a sua tradicional parcimónia a comentar o que não conhece. Mas, tal como um carteirista do Metro que tem noção que toda a gente já o reconhece e desconfia sempre dele, e como um verdadeiro socialista para quem o conceito sem custos para... é a chave que abre as portas do coração dos eleitores, o António Costa revelou, pelo menos, que era uma solução sem custos para... o contribuinte.

Mas será mesmo?

Vamos resistir à tentação de concluir o óbvio, se ele diz que é, é porque não é, e analisar os factos.

A solução passa por alguém obter um crédito para, com esse dinheiro emprestado, reembolsar os lesados. Como é normal, apesar de ser bizarramente elevado o número de pessoas, incluindo doutorados e doutorandos em economia, que não têm esta noção, o crédito será reembolsado ao credor no fim prazo contratado com o devedor. E, como seria de esperar nesta situação específica, será reembolsado a partir da massa falida do banco. Mas os credores tendem a não ser parvos, e não concedem o crédito sem uma garantia contratual dada por quem eles tenham a certeza que o consiga reembolsar se o reembolso a partir da massa falida não for possível ou suficiente. Quem vai prestar a garantia? O Estado. E a massa falida será suficiente? Se fosse, não havia lesados do BES, nem se estava a discutir o problema, nem a procurar soluções, bastava deixar a justiça funcionar até eles serem devidamente reembolsados. A massa falida não é suficiente. Sendo assim, quando o crédito chegar à maturidade, a garantia vai ser executada e vai ser o Estado a fazer o reembolso. Com que dinheiro? Com o dinheiro dos contribuintes...

Tanta análise para regressar ao ponto de partida, quem vai pagar a prenda de Natal do António Costa e do padrinho de casamento aos lesados do BES vão ser os contribuintes. Valia mais termos confiado no nosso instinto e concluído logo à partida que seria assim. Até porque o António Costa é, ele sim, ao contrário dos banqueiros da família Espírito Santo, um valor seguro que nunca desilude: mente sempre.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:59
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Domingo, 18 de Dezembro de 2016

A escola pública é boa para os filhos dos outros

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Como bom socialista que é, o primeiro ministro António Costa não aprecia o ranking, alérgico, como toda a família política socialista, à Matemática e, de uma maneira geral, a tudo o que possa quantificar objectivamente qualquer fenómeno e desse modo desafie a visão correcta e desejável que a retórica consegue construir a partir dele.

Até porque o ranking cria uma visão deturpada do sistema educativo, ao colocar malevolamente as escolas privadas, essa peste que desvia alunos e meios da escola pública, e por cuja erradicação o governo tem travado uma cruzada sem tréguas desde que iniciou funções, no topo das classificações. São as escolas cujos alunos conseguem, em média, classificações mais altas que os alunos das outras escolas nos exames que são iguais para todos.

Há factores sociológicos a contribuir para as escolas privadas tenderem a ocupar as posições cimeiras do ranking? Há. A esmagadora maioria dos alunos que as frequentam pagam propinas que só famílias economicamente desafogadas podem suportar, e, tudo o resto semelhante, é mais fácil a alunos provenientes de famílias desafogadas obterem bons resultados escolares do que a alunos que vivem em situações de carência material. De onde o preconceito de os colégios particulares serem a escola dos ricos.

A maioria, mas não todos. Os alunos da rede pública que frequentam escolas privadas com contratos de associação não pagam propinas, na mesma medida em que os alunos da rede pública que frequentam escolas públicas não as pagam. Se se quisesse utilizar o ranking para comparar a qualidade do ensino das escolas públicas e privadas eliminando o bias sociológico de que o ranking em bruto enferma, ou seja, em grupos sociologocamente comparáveis, a frequência de escolas privadas por alunos da rede pública permiti-lo-ia, tanto comparando os resultados de alunos privados e da rede pública nas mesmas escolas privadas, como os dos alunos da rede pública nessas escolas e nas escolas públicas vizinhas. Mas quantificar e comparar para avaliar objectivamente não está no ADN socialista, que privilegia as decisões ideológicas ou as que designa, por não se conseguirem justificar com base em critérios objectivos, por estratégicas.

Esta cruzada bizarra pela liquidação de escolas privadas e pelo despedimento dos seus professores e funcionários, porque uma coisa implica a outra, tem muitos adeptos, que até se dão ao trabalho de organizar e frequentar manifestações em defesa da escola pública, eufemismo para o ataque à escola privada com contrato de associação levado a cabo pelo governo, que juntam milhares de manifestantes, oitenta, segundo os organizadores da Fenprof, quinze, pela contagem da PSP.

Mas as escolas privadas com contrato de associação também têm os seus adeptos, a começar pelos pais dos alunos da rede pública que as frequentam e que, certamente por serem encarregados de educação satisfeitos com as escolas que os filhos frequentam, e conscientes da ameaça directa e imediata sobre eles e os seus filhos a que a continuidade dessa frequência está sujeita pela política do governo, também se manifestam, tendo juntado quarenta mil manifestantes segundo os organizadores da manifestação ridicularizada pelos sindicatos do sector, a esquerda e a comunicação social como a manifestação dos amarelos.

Pelo que o calculismo eleitoral que às vezes dirige a acção política dos governos, mais uns do que outros, e que dirige sempre a do actual governo, tem ganhos, mas também perdas, para computar. E a publicação regular do ranking não o ajuda, por colocar sistematicamente as escolas privadas acima das públicas, sugerindo que o ensino contra quem o governo governa pode ser de melhor qualidade do que aquele a quem o governo pretende oferecer o monopólio do ensino dos alunos da rede pública, os que não têm dinheiro para ter acesso ao privado.

Pelo que esta época do ano em que o ranking é regularmente publicado é sempre fértil em grande agitação mediática por parta da esquerda, que agora ocupa o poder, para o desacreditar.

Mas desta vez, no governo, fez ainda melhor. Andou a inventar um ranking alternativo que garantisse que as posições cimeiras eram ocupadas por escolas públicas. Muita análise de dados e muita folha de cálculo depois, lá saiu o ranking do sucesso que atinge esse objectivo e, adicionalmente, recupera a terminologia de sucesso e modernidade que era abundantemente usada pelo anterior governo socialista para insuflar o ego dos portugueses e, infelizmente, também as dívidas, numa experiência que acabou muito mal. Mas os portugueses têm memória de peixe, e as grandes ilusões do socratismo estão todas em vias de recuperação pelo governo actual sem grandes preocupações com o risco de também se vir a recuperar a desilusão a que elas conduziram impiedosamente. Nada de olhar para os juros para não contaminar a desejável euforia com ansiedade neoliberal.

Mas, mesmo com um ranking alternativo de resultados garantidos para convencer os pais e encarregados de educação que o ensino público é melhor que o privado e o governo está no bom caminho ao extinguir os contratos de associação, o António Costa não é capaz de resistir à oportunidade de dizer umas asneiras em público para desacreditar o ranking clássico e louvar o novo, sustentando que "Não se podem comparar escolas públicas e privadas".

Pedagógico, como sempre, pedindo meças na lógica aristotélica e na estatística aplicada a qualquer Américo Thomaz, explicou que "Se fizer um inquérito de rua, tem mais pessoas saudáveis do que dentro de um hospital, pela simples razão de que, dentro do hospital há mais pessoas doentes", para chegar à conclusão que "o essencial é saber quais são as escolas que permitem a qualquer criança progredir mais relativamente à bagagem que trazia de casa". Traduzido em miúdos, apesar de o ranking clássico dar uma ilusão do contrário, o ranking do sucesso mostra que o ensino público é melhor que o ensino privado.

Isto, para os filhos dos outros. Porque, fino como ele é, aos filhos dele, meteu-os no colégio privado que ocupa a 19ª posição no ranking, muito acima da escola pública mais bem classificada, que ocupa a 43ª posição. O António Costa é socialista mas não é parvo e sabe que a probabilidade de os seus filhos conseguirem vagas nas melhores e mais baratas universidades públicas depende das notas nos exames que determinam o ranking clássico e não dos factores que determinam o ranking do sucesso que ele inventou para enganar os tolos.

A escola pública é boa, mas é para os filhos dos outros.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:11
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