Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

Alt-left

eastofsuez_jude.jpg

Um grupo anónimo de activistas pró-palestinos vandalizou a fachada de um restaurante do Porto cujo proprietário participou num festival de gastronomia em Israel, manchando-o de tinta vermelha e colando nas montras panfletos com a sugestão de menu "Entrada: uma dose de fósforo branco" e palavras de ordem anti-semitas como “Liberdade para a Palestina” e “Avillez colabora com a ocupação sionista”.

Divulgaram o seu manifesto anonimamente através de blogues, esclarecendo que tinham sido alertados pelo Movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) para a intenção do cozinheiro de participar no festival de gastronomia, e lamentando que a "acção indirecta alimentada por cartas educadas a apelar para que Avillez não participasse", nomeadamente o apelo subscrito pelas associações Associação Abril, Colectivo Mumia Abu Jamal, Comité de Solidariedade com a Palestina, Conselho Português para a Paz e Cooperação, Grupo Acção Palestina, MPPM - Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente, Panteras Rosa - Frente de Combate à Lesbigaytransfobia e SOS Racismo, divulgado no blogue da BDS, e este pelo esquerda.net, se tinha revelado incapaz de o demover de participar. E, como não podia deixar de ser, justificando a sua iniciativa de acção directa como um poema solidário. Tudo no tom criatividade literária e ironia tão próprio da esquerda alternativa não associada a partidos que apareceu em Portugal desde o início da legislatura anterior a organizar ocupações e manifestações de indignados, e tão semelhante ao que se tornou característico da esquerda do sistema, até no parlamento.

O esquerda.net tratou de aproveitar a notícia da iniciativa para, com a pedagogia que lhe é tão própria para ajudar mesmo o mais lento de compreensão dos leitores a perceber correctamente a mensagem que lhe é dirigida, justificar que ela tinha sido tomada para "denunciar a sua colaboração num evento de propaganda de Israel", explicar todas as metáforas usadas pelos activistas no seu manifesto, até que o fósforo branco é "material usado nos massacres contra a população palestiniana na Faixa de Gaza, em que as fotos de crianças queimadas vivas chocaram o mundo", e a divulgar o endereço electrónico para a consulta do manifesto. Mesmo o mais burro dos devotos do esquerda.net vai perceber tudo direitinho.

Vai perceber ele, e vamos perceber nós. A harmonia de valores e mensagens entre os promotores do movimento BDS que actua estritamente dentro da legalidade, as associações que aderem aos seus apelos, os activistas anónimos que passam à acção directa a pretexto dos mesmos valores, e o Bloco de Esquerda que assume as relações públicas destas iniciativas não engana ninguém que não queira ser enganado.

Isto não é a esquerda alternativa nem Alt-left. Isto é a esquerda que já está instalada no sistema, é mesmo a Mainstream-left.

 

Post Scriptum.

Com um agradecimento à Helena Matos e ao Blasfémias, a memória de pretéritas iniciativas do BDS, neste caso uma exigência, e a respectiva acção de protesto, ao Leonard Cohen para não cantar em Israel. Desta vez não apareceram lá os vândalos a sujar paredes e a fazer poemas solidários, mas o esquerda.net, que nunca falha, noticiou o comunicado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:39
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2015

Curvas e contracurvas

 

Costa-02-640.jpg

 

Sem os adornos que servem para esconder a perplexidade geral, dois motivos são suficientes para o dr. Costa não ter sido claro a anunciar, antes de 4 de Outubro, os seus planos de se coligar com o PC e com o Bloco. Um deles foi o receio de afastar do PS o eleitorado do centro. Só que uma parte dessa gente não se deslumbrou com a linguagem ambígua de Costa e, mesmo sem ter a ameaça da Frente de Esquerda (chamemos-lhe FE) formalmente definida, fugiu das interpretações radicais que Costa luziu para se apresentar como o grande padrinho das "alternativas" contra a dureza da "austeridade".

 

Os ingratos que faltaram ao PS, moderados mas zangados com a coligação, dividiram-se entre os que não saíram de casa para votar e os que votaram na segurança do “protesto”, em partidos pequenos que ninguém imaginou poderem chegar-se ao poder. O centro, que é quase Portugal em peso, detesta a desordem e o descontrolo porque sabe que daí à pobreza vão meia dúzia de “reuniões técnicas”. Por cobardia mental e por incompetência política, António Costa competiu em radicalismo retórico com a extrema-esquerda, mentindo a condizer; e foi por ter-se encostado à extrema-esquerda que António Costa perdeu as eleições.

 

O outro motivo foi o receio de as ganhar. Supondo que a sua audácia acertava, e tinha de ponderar essa possibilidade, Costa arriscava-se a subir à Gomes Teixeira com uma maioria relativa, de relações cortadas com Passos e Portas. O PC e o Bloco teriam posto um carimbo de benemerência nos propósitos deste PS purificado, e para o novo chefe, acabado de ungir, não havia maneira de se desembaraçar destes dois atrasos de vida que ele nunca tolerou. O que Costa queria, na sobra de racionalidade política de “um excelente conciliador”, que vive na zona parda dos “acordos” há muitos anos, era “negociar” as medidas pop com a extrema-esquerda - e “apoiar-se” na coligação para fazer o país engolir as brutalidades mais azedas.

 

Ainda quer. A bendita FE que anda a cozinhar, se algum dia sair daqueles encontros sinistros, vai estoirar à primeira rosnadela dos credores, à primeira falta de comparência dos malvados “mercados financeiros”. Costa vai transpirar, espremer-se em entrevistas verbosas, e todo o jornalismo vai exigir de Passos e Portas o tão mal explicado “sentido de responsabilidade”.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 17:55
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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013

Poucos mas bons

"Mais pérolas racista-eugenista-delatórias do 'Bloco de Esquerda de Elvas' e/ou da candidatura de Francisco Castelo".

 

Fui ver e o candidato, entretanto desautorizado pela direcção do BE, distinguiu-se por algumas denúncias verdadeiramente pidescas. Exemplos:

 

Uma viatura "cigana", cuja fotografia apresenta, estava roubando materiais de construção civil no Museu Militar. Isto é grave: por um lado, a carrinha não era cigana, mas sim Mercedes; depois, as carrinhas não roubam.

 

Outra fotografia mostra um muro borrado com artística pichagem, na qual se percebe perfeitamente não sei quê. O candidato intitula a imagem do seguinte modo: "Informação nas escolas para acabar com isto nas paredes!". Um comentador diz: "Formatação ideológica nacional-cristã impõe-se para acabar com o 'graffiti', essa praga de uma juventude que 'está perdida'...em que brochura do PNR já terei lido uma destas?". Realmente, digo eu: todo o jovem sem recursos deveria, se houvesse uma política cultural consequente, receber uma caixa de sprays por mês. E, na disciplina de Lavores, aos jovens de ambos os sexos deveria ser ministrada formação na confecção de cocktails Molotov.

 

Noutra imagem aparece um vulgar portão. E a legenda diz: "Eram 9:05 da manhã de sábado e este portão ao fundo do Jardim Municipal estava fechado". Título na página do feicebuque de um controleiro: Denuncias pidescas 3.

 

Em resumo, a candidatura local do BE está enganada de partido, fachos é mais para a direita. E a direcção nacional fez muito bem em retirar-lhes a confiança, ainda corriam o risco de ter votos. E isso não pode ser: poucos mas bons.

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publicado por José Meireles Graça às 19:21
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Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

O ouvido é o caminho do coração*

Duas patetinhas do BE resolveram trazer para a praça pública a inclusão do piropo no conceito de assédio sexual, por sua vez um "crime" moderno de cuja abrangência muito reaccionário que anda por aí (saravá, irmãos) discorda.

 

Não pude, infelizmente, encontrar fotografias das senhoras em questão, há mais do que uma Adriana Lopera e montes de Elsas Almeida.

 

Tinha curiosidade em ver as imagens, a ver se delas extraía alguma conclusão maldosa. Ainda que, se as ilustres militantes fossem feias, nem por isso seriam menos dignas de um piropo simpático: li algures de um tipo que, precisamente, só se dava ao trabalho de piropar mulheres feias, por gostar de ver nelas um sorriso feliz, em vez do habitual trombil enfadado que as bonitas reservam para os desbocados.

 

Caiu-lhes a blogosfera e a opinião pública em cima. Ainda bem, o senso não está ainda tão embotado que a indústria das causas e dos direitos possa colocar no mercado mais interditos a eito.

 

O BE que se dedique às touradas, não falta por aí quem fique com o coração a sangrar quando sangra o lombo do touro - há mercado.

 

E, no intervalo, deixe-nos a nós, regalados, ler esta recolha de poesia de andaime.

 

* Voltaire

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publicado por José Meireles Graça às 15:28
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