Domingo, 10 de Setembro de 2017

Quanto mais depressa rebentar, mais depressa se reergue

2017-09-10 Arménio Carlos.jpg

Cavalgando o milagre económico que o Governo António Costa trouxe a Portugal, mesmo que a alguns reaças suscite algum cepticismo o facto de o crescimento de 0,3% da economia portuguesa durante o segundo trimestre deste ano já ter sido o mais baixo da zona Euro, o secretário-geral da CGTP já estabeleceu um valor de referência para os aumentos de salários para o próximo ano: nada menos de 4%.

Este valor parece exagerado nos tempos que correm, em que praticamente só os vencimentos dos membros de Comissão de Remunerações da Caixa Geral dos Depósitos conseguem aumentos de dois dígitos, e é. Além de exagerado e potencialmente catastrófico para a economia a que coloca sérios riscos de fazer regressar a uma trajectória de recessão, é pantomineiro. A CGTP propõe-o propositadamente alto para fazer crer aos seus associados que luta pelos direitos deles enfrentando o governo, fingindo que o enfrenta, sendo que acabará por aceitar quaisquer restos que o governo lhe dê, o que por seu lado oferece a este a oportunidade de montar outra pantomina, a de ser um hábil negociador que até consegue fazer a CGTP aceitar valores muito mais modestos do que reivindicou sem perturbar a paz social, montando ambos em conjunto a terceira pantomina, a de que na sociedade portuguesa a crispação recessiva foi substituída pelo diálogo expansivo, pantomina que serve para sustentar que a culpa de tudo o que acontece de mal é do Passos Coelho. Vá lá, com a ajuda da Assunção Cristas, se bem que, sendo ela mulher, e sendo eles uns porquinhos portadores dos estereótipos de género que transportam, nem sequer se dignem a pronunciar o nome dela, a quem não concedem mais do que convites para almoçar com eles.

Mas é pena que esta reivindicação seja uma mera pantomina sem possibilidade de chegar a ser concretizada. E para o explicar vou recorrer ao que acontece em mercados cíclicos, como por exemplo o da pasta de papel, a que a Portucel estava exposta quado produzia pasta de papel para vender, em vez de ser para consumir a fabricar papel, como passou a fazer depois de ter integrado a Papéis Inapa e a Soporcel.

Em determinadas circunstâncias de mercado, que não são suficientemente determinísticas para se conseguirem prever com precisão mas normalmente se enquadram em padrões conhecidos, por exemplo, quando se percebe, e no mercado circula informação suficiente para se perceber, que os produtores tiveram aumentos nos seus níveis de existências, ou seja, venderam menos do que fabricaram, cria-se muito rapidamente no mercado a impressão que os preços vão cair, o que por seu lado faz que caiam mesmo, porque os clientes, pensando que vão cair, deferem as suas compras à espera que caiam, agravando o aumento das existências, e os produtores, admitindo que vão cair, preferem vender as suas existências o mais depressa possível em vez de esperar que caiam mesmo, tudo junto criando um efeito de retroacção positiva (eu gosto de evitar usar termos como stocks ou feed-back). E quando isto acontece inicia-se um ciclo que tipicamente dura vários ou até muitos meses e que só acaba quando os produtores já estão a ter prejuízos por vender a preços abaixo dos custos de produção, quando os preços se aproximam dos custos variáveis de produção e suspendem a produção, mesmo continuando a suportar os custos fixos das fábricas paradas. E quando um número suficiente de fábricas suspende a produção, o mercado detecta que as existências começaram a descer e inicia-se uma corrida ao consumo com um efeito de retroacção positiva simétrico do anterior.

Estes ciclos fazem parte da vida das empresas que operam nestes mercados, que vão oscilando entre fases de prejuízos elevados e fases de lucros simpáticos, mas a vida não é fácil durante a fase má do ciclo. E há algumas decisões com que são confrontadas nesta fase. E uma das questões mais interessantes, e importantes, porque está sempre em jogo muito dinheiro ou até a ameaça à sobrevivência das empresas, é a seguinte:

  • Quando os preços estão a cair, um produtor deve tentar segurá-los recusando propostas de compra a preços mais baixos do que no dia anterior, ou deve-se abster de os tentar segurar e contribuir para a queda aceitando propostas a preços mais baixos?

O bom-senso manda um produtor tentar aguentar preços na medida em que lhe seja possível, esforçando-se por negociar as propostas de compra que lhe aparecem. A inteligência sugere-lhe que lidere a queda de preços, aceitando sem discutir propostas a preços mais baixos.

Porquê? Por duas razões. A primeira é que, na fase do ciclo em que os preços estão em queda, um carregamento que não seja vendido hoje a um preço mau será vendido na próxima semana a um preço ainda pior. A segunda é que durante uma parte do ciclo de queda, e até se atingirem os níveis de preço que determinam suspensões de produção e a inversão do ciclo, os produtores têm prejuízos violentos, e quanto menos tempo durar esta fase menor será o seu rombo. Tudo junto, é mais vantajoso para as empresas tomarem decisões contra-senso do que decisões de bom-senso.

O que nos traz de volta ao bom do Arménio. Em vez de recorrer ao bom-senso e negociar com ele os aumentos danosos que ele reivindica para procurar minorar os prejuízos que causariam na competitividade das empresas e na economia, talvez fosse mais vantajoso para as empresas e a economia o governo acatar-lhe as reivindicações de modo a acelerar a entrada num novo ciclo recessivo de que uma das consequências mais imediatas será a substituição dos pantomineiros que governam à base da aferição da popularidade através de grupos de discussão e da divulgação selectiva das estatísticas que mais enchem o olho da sociedade, mesmo que sejam enganosas, por gente séria que já nos conseguiu retirar antes da falência para onde tínhamos sido projectados pelas pantominas dos mesmos pantomineiros que agora governam com estas. Assim eles estejam dispostos a voltar a governar para limpar a porcaria que outros fizeram antes.

Se for assim, quanto mais depressa rebentar, mais depressa se reergue, e melhor para nós.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 01:55
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

O socialismo científico

Desta vez o Partido Socialista não adormeceu na fila e apresentou-se a eleições com mais do que a habitual retórica de primeiro as pessoas, da modernidade, da economia digital, ou da economia verde, que desta vez complementou com o Cenário Macroeconómico preparado por uma equipa de doze sábios que garantiu a fundamentação científica do seu programa eleitoral. Crescimento, desemprego, deficit, dívida, tudo garantido com base em científicas folhas de cálculo preparadas em Word. Como garantida ficou a possibilidade substituir a austeridade pelo crescimento económico. Multiplicador do retorno de cada euro de rendimento devolvido aos portugueses em receita fiscal resultante do crescimento económico proporcionado por esse euro? Quatro. Quatro euros de retorno fiscal por cada euro devolvido aos portugueses. Não me venham falar do milagre dos pães, nem da Rainha Santa! Pela primeira vez em Portugal, estamos, não ainda a caminho do socialismo, mas já no verdadeiro Socialismo Científico.

Chegados aqui, vale a pena fazermos a título de parêntesis uma breve reflexão sobre o Socialismo Científico, uma coisa leve que não lhe questione demasiado o rigor analítico e ético nem chateie os apontadores de herejes. Nunca ninguém conseguirá perceber o que é realmente o socialismo científico sem ver este extraordinário e encantador filme cubano sobre Cuba, que mostra como é que a coisa funciona na prática, além de fazer a comparação entre o ensino do Socialismo Científico e o da Economia de Mercado. Mil vezes, recomendo.

Posto isto, passemos ao caso português do Socialismo Científico.

A receita?

Só que o mundo continuou a andar à roda e, para atalhar razões, devolveram-se os rendimentos aos portugueses mas a economia não cresceu. Como anunciou o próprio presidente do partido do governo, "É possível que as nossas previsões não se venham a confirmar". Uma possibilidade remota, mas garantida. Não aconteceu o que o Cenário Macroeconómico tinha garantido que aconteceria. O Socialismo Científico falhou. Num aparte, toda a gente com dois dedos de testa sabia que iria falhar, mas isso agora não vem ao caso.

Falhada a primeira receita, qual é a nova receita?

A receita parece a mesma, mas é completamente diferente. Devolver rendimentos aos portugueses era a receita do Socialismo Científico, enquanto devolver rendimentos aos portugueses é a receita do Humanismo Socialista.

A sério? Não sejamos parvos. A receita é a mesma, e será sempre a mesma, e o seu verdadeiro desígnio é.

  • Devolver rendimentos aos portugueses para caçar votos.

Por enquanto tem resultado bem. Quando a factura aparecer aos portugueses, porque os multiplicadores são negativos e são eles que a vão pagar, logo se verá?

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:46
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2016

Grandes vitórias do socialismo

Se há guerra que o governo e a maioria parlamentar que o sustenta estão a ganhar, é a guerra contra a economia e os agentes económicos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:54
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016

It's the economy, asshole

 

Ao mesmo tempo que semeia rasteiras, obstáculos e armadilhas que a travam no caminho da economia, umas vezes com a melhor das intenções de devolver rendimentos aos portugueses com fé que os multiplicadores os transformem em crescimento, e já agora em votos, outras apenas para pôr na ordem as forças reaccionárias e retrógradas e mostrar aos parceiros da coligação quem é que manda aqui, o governo, surpreendido por ela ter deixado de crescer, olha para a economia à espera que acelere.

O que não é sinal de desânimo nem hesitação, antes pelo contrário. O primeiro-ministro garante que "Podemos discutir se [o deficit] é 2,2% [previsão do OE 2016] ou 2,7% [previsão da UE], mas o que não há dúvidas é que será, pela primeira vez, inferior a 3%, permitindo a Portugal sair do procedimento de défice excessivo e beneficiar de outras oportunidades para apoiar o investimento e promover o crescimento".

É verdade que se baseia em previsões. E quando um primeiro ministro diz "Não há dúvida que..." porque a pior das previsões aponta para..., ou é burro e não percebe que as previsões valem o que valem e não garantem nada, ou percebe e é um vigarista que usa as previsões como se fossem factos para enganar o país.

O António Costa percebe que as previsões valem o que valem.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:28
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Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

Um sobre-endividado é um escravo da sua dívida.

Ora contemplem o mapa abaixo que mostra as previsões de crescimento mundiais para 2013 a partir do último relatório do FMI. Reparem como o  mundo desenvolvido europeu e norte americano, inclusive os país do G7, tem crescimento previsto de menos que zero, a um por cento.

 

Os crescimentistas argumentam que a escolha da austeridade implica o baixo cresimento e que a folha de Excel em que Rogoff e Reinhardt cometeram erros é responsável por aquela escolha pois serviu de fundamento a decisões políticas favoráveis à redução de gastos dos estado e a aumentos de imposto. O erro está explicado aqui e a resposta de Rogoff-Reinhardt aqui.


Vejamos o senso comum:  um estado endividado quanto mais paga de serviço de dívida, menos tem disponível para políticas de crescimento, apoios sociais e fomento económico. Quando dispõe de moeda própria pode imprimir dinheiro, desvalorizar a dívida, subir a inflacção, baixar salários reais e aumentá-los nominalmente, de facto empobrecendo os cidadãos, enquanto alguns se convencem que são mais ricos por ganharem 120 em vez de 100. Evidentemente que com os novos 120 apenas compram 80% do que compravam com os anteriores 100, mas há alguns que pensam que a emissão de moeda para financiar défices é vantajosa. Nada a fazer nestes casos patológicos.

 

A Zona Euro, enquanto quiser uma moeda única em que entre a Alemanha, não pode emitir moeda e desvalorizar o câmbio como gostariam os países a Sul, em graves dificuldades por acumulação de défices excessivos e dívidas públicas e privadas demasiado caras e insutentáveis.

 

Os EUA têm uma dívida astronómica de 17 triliões de dólares e esta continua a subir. Vejam aqui a impressionante progressão. O Quantitative Easing (emissão de moeda) é usado sem parcimónia e os EUA continuam a crescer pouco. Até quando crescerão pouco e quando começarão políticas restritivas? Provavelmente muito em breve.

 

A austeridade é uma opção? Que capricho, levará os governos de economias que têm graves problemas de competitividade com os países emergentes, matérias primas cada vez mais caras, graves dificuldades populacionais com os sistemas de segurança social, gastos tremendos com estados sociais e, genericamente, estruturas de custos de produção muito mais caras que os países competidores, a escolher a redução de gastos e o aumento de impostos? Porque não se faz diferente? Há como? Nem os mais imaginativos dos crescimentistas são capazes de propor alternativas. Limitam-se a apontar erros no Excel,a dizer que a austeridade é mázinha e que o Estado Social não pode ser sacrificado.  

 

Para Paul Krugman que faz 365 artigos por ano, apenas no New York Times, a solução é única e sempre a mesma: imprimir mais dinheiro o que significa apenas, empobrecimento por via da inflação.  

 

 

publicado por João Pereira da Silva às 09:20
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