Quinta-feira, 11 de Julho de 2013

Terror no domicílio

 

 

"ACORDA, palhaço!!! Não sei quê, e tal TÁZADORMIR??? OLHAÍÍÍÍ, não sei que mais, ACORDA!!!!!!"

 

Acordou. Tropeçou na tairoca, espetou o queixo na aresta da cómoda, segurou-se ao naperon e puxou por ele com toda a força na esperança desesperada de se agarrar. Fez desequilibrar o candeeiro de louça e todas as peças que estavam em cima do pano, incluindo um frasco de Heno de Pravia, duas pastorinhas de Sèvres, um molho de chaves, e uma esferográfica que lhe acertou em cheio na retina. Deitou a mão ao cortinado e veio o varão disparado por aí abaixo, aterrando de topo na tampa do baú que, abrindo-se em pedaços, atirou com um madeirão ao suporte do dossel. Quando Nunes Liberace acudiu ao estrondo estava tudo escaqueirado. Maria chorava baixinho, agachada a um canto, com um cristal do lustre pendurado na franja e uma perna presa no abat-jour. E a camisa de dormir enredada à volta do pescoço.

 

Eram exactamente 20:30, e aconteceu em frente às câmaras de todas as estações de televisão.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:02
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Terça-feira, 14 de Maio de 2013

O Verão do nosso descontentamento

Já houve entre nós um tempo de relativa simplicidade: havia os comunistas, que queriam a sociedade sem classes e o diziam sem rebuço. Tê-la-iam tentado atingir, ao cabo de uma guerra civil, se tivéssemos fronteira com um país soviético e os Americanos encolhessem os ombros; havia o PS, que queria que o país tivesse intelectuais franceses, estado social sueco, eficiência alemã e algum fado e caldo verde; havia o PSD, que nem sempre sabia o que queria e tinha, como hoje, uma quantidade inverosímil de prima-donas, mas que na versão sá-carneirista parecia querer a Suécia possível, fosse lá isso o que fosse; e havia o CDS, que desconfiava dos outros quereres e acolhia os desapossados da nova Situação, os eurocépticos avant-la-lettre, alguns liberais, e que tinha sido fundado por dois homens talentosos a quem fora encomendado o meritório serviço de trazer os fascistas para a democracia (destes, um queria uma tribuna - qualquer tribuna - de onde pudesse saltar para a proeminência e os lugares a que se julgava destinado, e o outro não teve tempo para dizer ao que vinha).

 

Tudo mudou:

 

Os comunistas querem, mas não dizem querer, a mesma coisa. Entretanto, especializaram-se, enquanto os ventos da História não mudam, em dar aulas sobre os malefícios do capitalismo, minar as instituições da sociedade civil (sindicatos, grupos de cidadãos contra ou a favor de qualquer coisa, etc.) e afectar respeito à democracia burguesa, a cuja sombra se acolheram.

 

Nasceu um partido novo, constituído no essencial por comunistas que não conseguem fingir que não existiram os desastres históricos do comunismo real, nem aceitar a organização do PCP, mas nem por isso perderam o amor acrisolado à igualdade, que consideram um valor que serve de estalão para todos os outros. Tem como fonds de commerce causas avulsas, partilhadas por uma boa quantidade de moços citadinos com acne e formação académica, mas sem emprego, e por moças que hesitam na hora de depilar as axilas, não vá estarem a ofender algum direito, inclusive delas.

 

O PS e o PSD tornaram-se ferozmente europeístas, e à sombra dos milhões da Europa, primeiro, e do crédito europeu, depois, conquistaram o eleitorado, deixando umas sobras à esquerda e à direita.

 

O CDS podia ter sido o MRPP da Direita, se tivesse conservado o eurocepticismo que uma vez foi seu. Mas não está na natureza dos partidos, se não forem alimentados por uma boa dose de fanatismo ideológico, cuspirem contra o vento. Tornou-se assim euro-realista, por oposição aos eurófilos à sua esquerda. E acabou por ser sempre vítima do PSD, que tinha tradicionalmente uma claque mais numerosa e pôde fazer consistentemente apelo ao voto útil.

 

Bastou uma crise mundial, daquelas que o excesso de crédito periodicamente engendra, mais a circunstância de o País ser governado ocasionalmente por um demagogo venal e inepto, para o edifício - do crédito, das convicções, da Europa - ruir.

 

E aqui chegamos, à tarefa ingrata de pagar os calotes, com juros sufocantes, e encontrar uma maneira nova de viver.

 

E, com surpresa, agora que a barraca está a arder, nem por isso estamos confrontados com escolhas claras: os comunistas e bloquistas defendem o não pagamos, mas que sociedade alternativa defendem, que o não pagar implica? O PS defende investimentos e défices, mas como pode fazer-nos acreditar que haja quem empreste mais? Os credores aceitam ou não aceitam que vamos conservando um módico de respeito por nós mesmos? Quem quer sair do Euro aceita ou não aceita que o País possa e deva ser gerido com orçamentos equilibrados, logo que possível? Quem acha que o País só se reforma com imposições vindas de fora, e que por isso não há exigências dos credores que sejam excessivas ou simplesmente estúpidas, reconhece ou não reconhece que essa posição é anti-democrática?

 

Não pus links na última pergunta porque são tantos os meus amigos que isso acham que não quero discriminar ninguém. Mas a todos recomendaria um pouco menos de confiança nos seus gráficos, e nos seus gurus, e um pouco mais de confiança em nós: andamos por cá há mais de oito séculos e terá que haver, para isso, boas razões. É que o presente tem medos, o futuro incógnitas e o passado lições.

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publicado por José Meireles Graça às 01:31
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Terça-feira, 19 de Março de 2013

Sais de frutos

 

 

 

Há duas coisas que me caem mal.

 

Uma é a quantidade de amigos (sim, pessoas que conheço bem, há muitos anos) que fizeram carreiras profissionais penduradas no Estado, directa ou indirectamente (não é preciso ser-se funcionário público; basta ter-se o Estado como principal cliente, ou uma legislação que obrigue ao consumo massivo dos bens ou serviços que vendemos). E cujo "sucesso" dependeu de jantarecos, férias, e boas relações com as pessoas certas nos partidos (e suas ramificações). E que agora gritam que o problema é a "corrupção" (terão ideia que fizeram parte dela?), e que "os políticos são todos iguais", e que "já não há líderes como antigamente" (pudera...), e que se "acabaram os Estadistas" (não: o que acabou foi a verbazinha). E variações mais ou menos requintadas do diagnóstico "eles querem é governar-se".

 

A outra é os pimentos.

 

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publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:50
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

O caminho das pedras

Somos quase todos mentirosos. Mas temos desculpa: Os partidos raramente dizem ao que vêm; os senadores da influência raramente dizem ao que vêm; as centrais que se imagina representam os trabalhadores e as que se imagina representam os patrões parecem dizer ao que vêm; na Presidência da Republica raramente se diz ao que se vem, e também no Parlamento, nos jornais e até mesmo aqui na blogosfera.

 

Comecemos pelos partidos: O PCP é o campeão dos destituídos, dos perdedores, dos desempregados, dos fracos, numa palavra, dos de baixo, e ao serviço teórico deles denuncia abusos, prepotências, desmandos, ganâncias, patrões, capitalistas e, em geral, a patente falência dos sucessivos poderes que nos trouxeram a este passo.

 

O BE nunca foi, nem é, mais do que uma federação lunática de comunistas com falta de sentido prático e horror à disciplina do PCP, universitários amantes de causas e contestatários sortidos. Numa situação revolucionária seriam compagnons de route e, depois, se bem-sucedida para a esquerda, emigrantes, desaparecidos, ou ovelhas do rebanho.

 

O PS é o principal autor da "aposta" sôfrega na Europa do ami Mitterrand, do Euro, do seguidismo pateta de quanta modernidade alienígena brota das cabeças da casta apátrida de Bruxelas, e do intervencionismo estatal na economia. Este último numa versão latina em que o político sabe sem sombra de dúvida o que são e não são investimentos que interessam ao País, não apenas com dinheiro público para investimentos públicos, mas também com dinheiro público para investimentos privados, num caso e noutro tendo gasto liberalmente não apenas o que conseguiu extorquir ao contribuinte exangue mas também aos que ainda estão para nascer até não se sabe quantas gerações para a frente.

 

O PSD é o PS com mais mundo, mais amor a um módico de rigor nas contas, menos ingenuidade na gestão da economia e, dentro da complexidade dos baronatos e das teias de interesses, com uma corrente liberal que ora tem alguma, ora pouca ora nenhuma importância.

 

O CDS começou por ser o partido do qual se suspeitava fosse o antro onde se acolheram todos os saudosos do antigamente; e, passada essa fase, viveu sempre dividido entre a falta de popularidade das soluções em que realmente acredita e a necessidade de não desaparecer: o socialismo, desde há quase quarenta anos, vende; a liberdade económica, a competição e o nacionalismo, mesmo que aggiornato, não. E ser o MRPP da Direita seria talvez muito digno mas de utilidade prática discutível.

 

Vai daqui ninguém diz o que pensa:

 

O PCP tem a capacidade de fazer uma sociedade comunista, sabe como fazê-la e acredita que a nossa bonomia e o conhecimento de algumas violências mais notórias da implantação do regime noutras paragens permitiriam evitá-las. Tudo o que faz e diz é, mesmo quando circunstancialmente tem razão, instrumental quanto a este propósito. E por isso mente.

 

No BE há alguma gente ingénua ao ponto de acreditar naquilo que diz. Os mais lúcidos, porém, sabem que levar muito mais longe o esbulho fiscal dos "ricos" é matar de vez o pobre capitalismo indígena, juntamente com a esperança de algum investimento estrangeiro. E a receita delirante de impor condições aos credores, associada à completa falta de credibilidade dos seus dirigentes, não faria mais do que mergulhar o País num insondável buraco. Por isso o BE vai fazendo prova de vida, ecoando o PCP numa versão com camisa de marca e com dois botões desapertados. Finge que não é objectivamente um compagnon de route do PCP. Mente.

 

O PS parece ser um caso clínico, do foro psiquiátrico, na variedade comportamento maníaco-obsessivo: tem a cabeça esbotenada por ter com ela batido numa parede, mas, ao invés de consertar a cabeça, os seus próceres recomendam doses reforçadas de cabeçadas, indo as feridas sarar por efeito de habituação. Mas é claro que, a despeito das aparências, o PS tem uma ideia de solução, que consiste nisto: Portugal passa permanentemente a ter o mesmo grau de independência do Arkansas. Porém, ao contrário do Arkansas, não sofrerá consequências pelas derrapagens das contas públicas porque o orçamento federal fará transferências para cobrir os défices. Ora, o PS não apresenta a coisa assim. E por isso mente.

 

O PSD encetou a tarefa de reduzir a obesidade do Estado. E mesmo que tivesse arrastado os pés; ainda que deixasse para trás muito corte de gente que não berra na rua mas berra ao telefone e nos gabinetes; tendo levado a fiscalidade que se vê para níveis demenciais; e tendo levado a fiscalidade que não se vê, que é a das prepotências, abusos e extorsões da Administração Fiscal, para níveis criminosos: reduziu a despesa, antes dos juros, para níveis respeitáveis. Todavia, vem anunciando a retoma para anteontem, ontem, e para a semana. E sabe muitíssimo bem que não são seguros os anúncios, nem, quando ela vier, será suficiente, como aqui se explica. Mas isto não diz, e por isso mente.

 

O CDS também mente. Mesmo agora, quando o edifício do regime vive ligado a uma máquina, nem por isso deixou de viver em estado de necessidade: tem que fazer o que quer mas também o que não quer porque não é o principal responsável pelo Governo do dia. Mas não pode ser franco - perdoar-se-me-á a parcialidade de dizer que mente por necessidade, porque teme que abanar o edifício não trouxesse nenhum proveito ao País, e menos ainda a si próprio.

 

As centrais sindicais fingem antes de mais que não são uma correia de transmissão dos partidos. Claro que são, e quem precisar que se lhe o demonstre ou não vive em Portugal ou não está em condições de entender a explicação. E as centrais patronais são clubes de amigos que esperam ganhar notoriedade e relações úteis para a vantajosa mecânica dos subsídios, dos licenciamentos e do abrir de portas. Umas e outras colaboram alegremente no teatro social. Que só não digo que é uma farsa porque tanto os actores quanto os espectadores (estes mais) parece que acreditam na peça.

 

Na Presidência da Republica passam-se coisas que só se sabem quando se diz que se passaram; cada discurso do Presidente é um manancial de "mensagens", "recados", "avisos" e "preocupações", que cada qual interpreta do modo que lhe dá jeito. Isto é o menos, que nem a transparência é um valor necessariamente estimável em certas funções nem os discursos de circunstância merecem grande atenção. Mas Cavaco Silva diz sempre que sabe qual é o caminho. Eu acho que não sabe. E por isso mente.

 

Razões por que, no meio de tanta mentira, não é demasia esperar que cada qual encontre a sua verdade.

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publicado por José Meireles Graça às 19:18
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

O estado do Estado

 

O nosso pano de fundo é simples: A dívida pública continuará a crescer enquanto houver um Euro de défice. E como o País está ligado à máquina, o dono dela impõe as suas regras, que são simples - apertem o cinto, desliguem a luz, emigrem, vão plantar batatas ou pedir para as esquinas, mas mais arame não, que o nosso apoio é um negócio, não uma obra de beneficência.

 

Depois vêm as complicações: ai o que interessa não é o que devemos, é a capacidade de ganhar para pagar - precisamos de crescer; ai se a gente não tivesse que pagar juros, ou eles fossem reduzidos, e pudéssemos pagar mais devagar - 30, 40, 50 anos - a coisa nem se notava; ai Chefe, não somos só nós, há por aí uma quantidade de caloteiros potenciais que estão a assobiar para o lado, a fingir que não vão pelo mesmo caminho. E como são muito maiores do que nós, ou o Chefe se põe manso ou nós damos com os burros na água e atrás de nós vão eles - e aí é o Chefe que também afunda, que não há que chegue para tanto caloteiro; ai que precisamos é de restaurar a agricultura, e a indústria, e as pescas, e olhar o mar - o mar das 200 milhas, do qual a República Checa tem grande inveja.

 

As complicações são, como a palavra deixa entender, complicadas. Há quase quatro décadas que o País vinha perdendo velocidade, até que parou e, de momento, está fazendo marcha-à-ré. A cornucópia dos biliões da defunta CEE, a massiva "aposta" na educação, na formação profissional, nos equipamentos públicos (Depósito de Água de Belém, Caixote Musical do Porto, Exposição de Masturbações 98, estádios do Euro, Pavilhões Multi-Calotes por todo o lado, et j'en passe) deram: a "geração mais bem preparada de sempre", presentemente a enriquecer com o seu trabalho outras paragens; a indústria dos subsídios para disfarçar o desemprego, alimentar empresas, umas inúteis, outras falidas, outras que não necessitavam de qualquer apoio, e ainda para sustentar gabinetes, centrais sindicais e outros luxos; e a erecção de monumentos e a promoção de eventos ligados à Cultura, ao Desporto, ao Lazer, tudo "investimentos" públicos que se distinguiram - e distinguem - pela característica um tanto contraditória de gerarem despesas e não retorno.

 

O Plano Marshall, que algumas almas puras reclamam do Altíssimo, resolvia sem dúvida os nossos problemas, por mais uma geração. Já o investimento público de alguns lunáticos da extrema-esquerda, e de alguns cínicos do PS, mesmo que fosse viável, seria mais do mesmo: eles são os mesmos, e nós também.

 

A ideia de fazer finca-pé na redução dos juros não é má. Tem o defeito de, como aqui se explica, não resolver nada. O reescalonamento tem uma qualidade e dois defeitos: a qualidade é o alívio das nossas dificuldades; os defeitos são o adiar da reforma do Estado e propiciar o regresso às fantasias que nos trouxeram aqui. Não dão algumas sondagens a maioria ao PS? Quod erat demonstrandum.

 

Para a ideia de estourar com tudo, forçando a mão à UE, requerer-se-ia um governo dos comunistas, uma ditadura nacionalista, ou a consciência difusa de que o Euro e a UE fazem parte dos nossos problemas, não das soluções. Não há povo, e menos ainda classe dirigente, para nada disso.

 

O mar está aí, bem vivo nos discursos. E requer investimento privado, que o Estado afugenta, ou investimento público, para o qual felizmente não há crédito. Vai continuar nos discursos, o lugar natural das irrelevâncias.

 

Resta o lamentável Governo que está. Pusilânime e promíscuo com interesses ilegítimos, liberal na medida em que lhe forçam a mão, hiper-intervencionista na economia, completamente alheio à realidade das pequenas empresas, sem ter sequer a humildade de as deixar em paz, intrometido nas casas e nas vidas das pessoas, recheado de personagens, desprezíveis umas, ignorantes outras, revoltantemente subserviente às luminárias europeias, e não apenas na medida da necessidade - chega?

 

Chega. Porque quem não tem cão caça com gato; e, dadas as alternativas, atrás de si viria quem de si bom faria. Entretanto, no que à sorrelfa quase toda a gente aposta é que a Europa descalçará esta bota. É o bom que tem ser empregado: o verdadeiro responsável é o patrão.

 

Escusam assim alguns blogueiros que são ou se imaginam de direita de se absterem de verberar o que vejam como erros, omissões e defeitos - não fazem trabalho útil nem são necessários, o que tiver que ser será. E, para todos, um módico de humildade aconselharia a não dar como adquirido que o caminho dos cortes na despesa pública, sem mais, proporcionará as condições para o crescimento antes de o País estar num caco. Essa certeza, na qual gostava de acreditar sem reservas, tem a virtude de ser a oposta da fé esquerdista na capacidade demiúrgica do Estado. Mas o oposto do erro não é necessariamente o acerto: há muitas maneiras de errar. E de certezas de economistas só os insensatos não estão fartos. 

 

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publicado por José Meireles Graça às 12:30
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

Evolução da dúvida

 

O Relatório está aqui. Mas não o vou ler: tem 76 páginas e o palavreado é o de um paper de economia, uma coisa intensamente fastidiosa. Não faz mal: na minha lista de favoritos, os blogues com economistas são mais de uma dúzia; e como os blogueiros que não são economistas falam com frequência de assuntos económicos, e a minha lista tem uma divisão equânime esquerda/direita, acabarei por saber mais do Relatório do que se o tivesse lido. Ademais, era o que faltava se para me pronunciar sobre qualquer assunto tivesse que o estudar - do que ouço e leio dos especialistas felicito-me com frequência pela minha abençoada ignorância: os porcos, quando estão com o focinho enfiado na gamela, não veem nada do que rodeia o curral; e é facílimo tresler quando se estudam ciências que se declinam em esquerda e direita.

 

Acresce que haverá gente que vê detalhes dos quais nunca me aperceberia. Por exemplo, a coisa chegou hoje ao espaço público e já houve quem topasse que o Ministro Relvas não esteve para maçadas. Um pormenor irrelevante, decerto; mas outros hão-de aparecer.

 

Gostaria de pensar que a parte reformista da Esquerda se vai convencer de que o Estado dos direitos económicos e sociais de valor crescente acabou; e que, a bem ou a mal, o nível de despesa pública terá que baixar, dado que a carga fiscal pode ainda subir no papel mas a receita não.

 

Gostaria de pensar que a parte da Direita que tem uma receita ideológica pronto-a-vestir percebesse que a espiral recessiva não é uma possibilidade apenas teórica; e que, mesmo que o fosse, há um limite para o sofrimento sem esperança, pelo menos se não quisermos que a Democracia vá pelo ralo.

 

Precisamos de crescimento. Tão ou mais importante do que a discussão em torno dos cortes é a descoberta da pedra filosofal do crescimento.

 

Esta receita não dá - foi testada no consulado do autor, quando a Europa ainda acreditava que mini-Planos Marshall haveriam de pôr os países relativamente atrasados a crescer muito mais do que os outros, e deu como resultado a obesidade do Estado, um himalaia de desperdício, um karakorum de corrupção e um crescimento abaixo da ambição e da necessidade. De toda a maneira, quando se pedem esmolas pode-se talvez sobreviver; mas não se pode enriquecer - e esmolas seria do que a agora UE estaria disposta, na melhor das hipóteses, a abrir mão.

 

O investimento público, mesmo para quem acredite, contra toda a evidência, que pode ser a solução, está-nos vedado por falta de crédito.

 

A descoberta de petróleo, gás ou de metais preciosos é improvável; e o mar, essa grande riqueza, continuará teimosamente a ser refractário ao papel que empresários de proclamações lhe destinam.

 

Vou gostar da discussão. Ou talvez não: não é impossível que se veja mais do mesmo.

 

publicado por José Meireles Graça às 00:01
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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012

Temos para onde ir?

 

(*) 

 

Hoje é dia de orçamento, o documento que, via fugas, antes de o ser já o era.


É um documento trágico: quase ninguém acredita que a pauperização da classe média seja caminho para lado algum. Não porque seja possível pagar dívidas sem apertar o cinto, mas porque o violento esbulho do rendimento ainda disponível é feito em nome de uma inevitabilidade sem outra esperança que não seja os credores abrirem os olhos a tempo de verem que nem para eles estão a ser bons.


Entendamo-nos: o caminho que alguma esquerda defende (renegociar a dívida sem reforma séria do Estado, sem diminuir as despesas sociais, e sem nenhuma receita para o crescimento que não seja o consumo) esbarra na incredulidade dos credores e no senso comum. E a ideia de que se pode dizer aos mercados que para já não pagamos, mas que o crédito deve continuar a fluir para importarmos combustíveis, alimentos, matérias-primas para a indústria e o mais que mantém o país de pé - ou decorre de ignorância, ou ingenuidade, ou má-fé.


Nas circunstâncias a que nos deixamos chegar o Governo que temos teve uma curta oportunidade de reformar o Estado, se tivesse concentrado todos os seus esforços na correcção do défice pelo lado da despesa e não hesitasse no tratamento a dar aos poderes fácticos do sector financeiro, dos plutocratas, dos sindicatos, das associações patronais e das opiniões estatistas, que são quase todas. Não foi assim e agora é tarde. Haveria convulsões, a popularidade ficaria num frangalho, o ambiente social não seria muito diferente do que é, a berrata das esquerdas seria, se possível, ainda mais estrídula, quando houvesse eleições perdê-las-ia - mas nem a queda do produto seria tão grande, nem a perspectiva de recuperação tão distante, nem a autoridade para discutir com os credores tão enfraquecida.


Numa palavra, preferiu-se a água choca do diálogo social, dos panos quentes, das reformazinhas, dos cortezinhos e das medidinhas. Quando, numa reforma do instituto das fundações, se faz um corte de apenas 30% à Fundação Mário Soares, um monumento dispendioso ao ego daquele heróico fóssil; quando se tratam com panos quentes os empresários de retorno garantido das PPPs e a banca que está por detrás; quando se deixa em paz o sorvedouro da RTP; ou quando se deixa cair a reforma dos municípios, para não perturbar as doces sinecuras dos senhores autarcas treteiros e sempre grávidos do próximo melhoramento - está tudo dito.


Alguma coisa ficará, muito mais do que ficaria se fôssemos pastoreados por um Seguro, ou um Costa, ou qualquer outro da longa lista de criadores de riqueza via Decreto-Lei e dinamismos públicos sortidos. Mas será pouco.

 

Para quem defende o que eu defendo, e que agora me dispenso de repetir, um pouco de cinismo autorizaria que pensasse: quanto pior, melhor. Nada disso: pena-me que o Governo mais à direita em quase 40 anos deixe de si a imagem de ter querido fazer tarde o que não teve coragem de fazer cedo; de ter sido forte com os fracos, por ter que ser, sem ter sido forte com os fortes, como devia; e que em momento algum tenha parado para pensar que futuro sem Euro e que, se não acredita já no caminho que os credores apontam, deveria ter o carácter de dizer: não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí.

 

____________

  

* Fotografia: Margarida Bentes Penedo

 

publicado por José Meireles Graça às 17:28
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2012

A visita importuna

 

 

Não tenho pretensões a conhecer com rigor o estado da opinião pública grega, menos ainda o que possa ser definido como alma grega. Sei o que toda a gente sabe: que estão mergulhados numa espiral recessiva (o PIB já caiu, lê-se, mais de 22%, o desemprego jovem vai em 55%), fazem as manchetes dos jornais com o folclore das manifestações e as jigas-jogas das eleições inconclusivas, odeiam a Alemanha mas amam o Euro, e têm sido pouco respeitadores dos acordos sucessivos que vão fazendo.

 

Não que o serem muito respeitadores fizesse muita diferença. Agora que o FMI começa a achar, oops, que afinal o efeito recessivo, inevitável, não é o mesmo indo pelo corte na despesa pública ou na privada via aumento de impostos, e que os ajustamentos precisam de tempo, Ângela resolveu ir a Atenas para, nas palavras dela, "compreender a situação no terreno. Ver a situação de perto leva a uma melhor compreensão."

 

Deixa ver se eu percebo: Ângela quer o que todos os políticos em democracia querem - ganhar eleições. E assim, para preservar o seu Euro, que é outro nome do Marco, nem interessa saber ao certo se achava ou não achava que o programa castigador da Troika ia correr mal, o que conta é o que disso pensava a opinião pública alemã.

 

Ora, os Alemães trabalham duramente de segunda à sexta, emborracham-se ao sábado, e apertaram o cinto quando outros o alargavam. Fabricam máquinas como ninguém, e respeitam as regras do dia - todas as regras, seja os standards de qualidade da Mercedes ou as da Democracia ou do Estado Nazi. Não estão dispostos a sustentar quem se rege por outros padrões, e pelo que me diz respeito não vejo neste particular por que razão haveriam de pensar de outra maneira.

 

Eu sei: a cornucópia dos milhões da UE regressou à Alemanha sob a forma de importações dos países com Sol e empréstimos que vão sendo pagos a peso de ouro, os mercadozinhos dos países pobretas dão jeito à indústria alemã, a Alemanha financia-se a uma fracção do preço que pagam os aflitos e há, parece, razões geoestratégicas, entre outras, para não pôr a Grécia pela porta fora.

 

Isto eu compreendo. Já não compreendo o fetiche do Euro: mesmo que a cotação do dracma fosse ao kilo, não haveria razões para a indústria exportadora grega não respirar saúde, o turismo estar florescente, e as importações se contrairem naturalmente, abrindo espaço para produção local - precisamente o que a Grécia necessita.

 

Mas cada Povo gosta do que gosta e quer o que quer. Os Gregos não gostam da Senhora Merkel e apreciariam que ela, as suas enxúndias acervejadas, e as suas toilettes desengraçadas, se deixassem estar pelas frias terras onde apreciam o género.

 

E isso eu não tenho dificuldade em compreender.

 

publicado por José Meireles Graça às 15:31
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

O especialista

 

 

O doente tem uma doença gravíssima, mas sobre a natureza do mal as opiniões médicas dividem-se e o corpo não está a reagir bem aos tratamentos, na opinião de alguns por serem apenas sintomáticos: as chagas progridem, há agora escaras, nos membros inferiores um princípio de gangrena, na cabeça uma fractura exposta que se recusa a cicatrizar.

 

Diz o chefe da junta médica que a radiação produzirá ainda bastantes estragos, antes de a doença ser vencida e a recuperação se começar a notar.

 

Uma sumidade veio à cabeceira e, feitos os exames da praxe, declarou com voz cava: as escaras dão muito mau dormir, essas feridas estão a supurar, confirmo que o doente o está efectivamente, e com gravidade; ficam os meus ilustres colegas prevenidos, não se me venha dizer que não avisei.

 

Feita a declaração, retirou-se com dignidade, deixando os facultativos a entreolharem-se, cabisbaixos.

 

O Senhor Professor é um clínico muitíssimo distinto, nem era preciso mais esta concludente prova.

 

publicado por José Meireles Graça às 21:34
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012

O martelo

 

 

Hoje houve aula de lavores.

 

Portugal é há décadas uma fotografia desfocada, retocada incessantemente, a ver se fica mais nítida, sempre com cada emenda pior do que o soneto. Quando queremos ver um pormenor franzimos os olhos, mas não vemos todos a mesma coisa - apenas constatamos que a fotografia não cabe na moldura, porque isso entra pelos olhos dentro de quem não for invisual, infelicidade que afecta desgraçadamente uma porção considerável de cidadãos.

 

Ultimamente, tem vindo a ficar mais nítida: tinha uns espaços gordurosos, e massa muscular difusa, mas no afã de a recortar para caber na moldura, cortaram a eito, dando umas tesouradas no músculo e outras menores no branco, que se ficou a notar mais.

 

Os fotógrafos amadores lunáticos dizem: Cortar na fotografia? Mas para quê? O que é preciso é uma moldura nova, deve haver quem no-la ofereça; e, se não houver, roubamos.

 

Os fotógrafos amadores cínicos dizem: Bem, vai-se cortando como calha, sempre algum branco há-de desaparecer, e depois, quando se constatar que continua a não caber, recorre-se a um martelo.

 

Os fotógrafos amadores ingénuos dizem: Bem, vamos cortando até caber. Havemos de cortar tanto que, mesmo que a moldura encolha, chegará o momento em que tudo encaixa e tráz - a coisa fica firme.

 

Os fotógrafos falsamente modestos dizem: Bom, os cínicos têm razão. Mas não há motivos válidos para esperar. Venha daí o martelo, e já tarda.

 

Se o leitor vai entender a alegoria - não estou certo; se, entendendo-a, se encaixa em alguma categoria - não imagino; e em que categoria encaixo eu - não divulgo, que agora não tenho vagar, nem presumo que haja muita gente a querer saber.

 

Mas lá que no futuro próximo ou distante há um martelo à nossa espera - há.

 

publicado por José Meireles Graça às 19:19
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