Quarta-feira, 4 de Maio de 2016

O plano B

Já está tudo combinado com a Quadratura do Círculo, e desta vez não vai ser a Lehman Brothers, nem os mercados, isso foi chão que já deu uvas, nem, até ver, as agências de rating, se bem que possam vir a ser um filão a explorar mais adiante. Vai ser a famigerada Europa, o que vai permitir sacar aplausos à turma da reestruturação da dívida e à turma da saída do euro. Uma coisa assim em forma de três em um.
publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:22
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2015

Quanto pior melhor

O homem é marxista e cómico: nunca teve nada a ver com o marxismo soviético, credo!, as suas inclinações são mais para a tradição marxista francesa, diz sem se rir. O autor do artigo não achou útil esclarecer de que forma se distinguem os marxistas russos dos franceses, para além do hábito deplorável que têm os primeiros de se beijarem uns aos outros com hálito de vodca.

Tal como o seu confrade português, frei Anacleto Louçã, com o qual partilha, além das ideias lunáticas, boas credenciais académicas e o amor das toilettes casual, defende a manutenção no Euro em conjunto com medidas económicas que a tornam impossível:

"Milios enumera as prioridades do partido, uma por uma. Envidaria esforços concertados para ajudar os mais duramente afectados pela crise - eletricidade gratuita para os gregos aos quais o fornecimento foi cortado, cupões de alimentos distribuídos em escolas, serviços de saúde para aqueles que deles necessitam, rendas de casa garantidas para os sem-abrigo, a restauração do salário mínimo ao nível pré-crise de 750€ por mês e uma moratória sobre o pagamento, acima de 30% do rendimento disponível, da dívida aos bancos privados. Ele argumenta que os cerca de 13 mil milhões de Euros de custo de tais medidas poderiam ser na maior parte cobertos por uma redistribuição das receitas do Estado e repressão da evasão fiscal." *

Isto, é claro, para além do perdão de dívida de mais de 50%, a extensão dos prazos e outras formas engenhosas de pagar sem dor, ao mesmo tempo que, sob a lúcida direcção de Alexis Tsipra, a economia começará milagrosamente a crescer.

Ou seja, o homem quer aumentar a despesa pública, não pagar o que deve, exilar os ricos e sufocar a iniciativa privada. E declara que “we will not deal with this on a bilateral level with Germany but in a much wider context".

Por outras palavras, quer uma aliança com os outros caloteiros e acha que há esquerdistas, nos eleitorados e nos partidos no poder no espaço europeu, em quantidade suficiente, conjugada com o medo da deflacção e da implosão do Euro, para uma parte do seu programa ser acomodada pela burocracia europeia de forma que a barca da União prossiga.

Poker, portanto: da sua mão, que é fraca, diz Milios: "Greece, in its weakness, is actually very strong.”

Não estou absolutamente certo que uma versão muito edulcorada do programa não possa efectivamente passar; mas estou seguro de que, se o Syriza ganhar as eleições, e mesmo que lhe estendam a mão, ou faz o que promete e dá com os burros na água, pelo que o eleitorado o atira às urtigas; ou não faz e o eleitorado dá-lhe o mesmo destino. O que se vai passar a seguir é anybody's guess.

Quer dizer que o Syriza não tem futuro; e a Grécia, dentro do Euro, também não, a menos que se entenda que, enquanto o desemprego e a dívida pública crescem (26% um e 177% do PIB a outra, and counting), se podem ir experimentando receitas até dar no bingo.

Entre nós, isto, que devia ser evidente, serve para um combate basicamente desonesto, porque feito de reservas mentais: o PS deseja que os tresloucados ganhem para que apanhemos a boleia do laxismo europeu a haver e Costa possa ter recursos para pôr a austeridade de molho e fazer tranquilamente as suas apostas no crescimento - as mesmas do socratismo, mudando o nome dos actores e dos programas, e abandonando uma ou outra caída em descrédito, como o TGV; e a direita, toda ela, deseja que o Syriza perca, menos porque é uma associação de demagogos e esquerdistas - essas seriam as boas razões - mas mais porque se deseja que o eleitorado português, suspeito de incapaz de fazer escolhas correctas, receba uma lição: estão a ver, estão a ver como a União é o caminho? Com o Syriza havia riscos para o Euro e os Gregos, sensatamente, recuaram - temos que ser bons alunos e fazer muito, muito o que a Alemanha diz.

Eu desejo que o Syriza ganhe porque isso poderia ser o princípio do fim do nó górdio em que a União Europeia se transformou. E se com essa vitória o PS reforçar nas sondagens as suas probabilidades de ganhar as eleições, há tempo mais que suficiente para esses ganhos serem revertidos - os socialistas de todos os bordos, gregos ou portugueses, e quanto mais radicais pior, não costumam precisar de muito tempo para traírem as suas promessas ou escaqueirarem tudo.

*Tradução minha

publicado por José Meireles Graça às 23:15
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Quarta-feira, 27 de Março de 2013

Sair ou ficar?

 

João Miranda, aqui:

"Saída do euro

De entre os defensores da saída do euro só levo a sério aqueles que se derem ao trabalho de explicar o que acontecerá:

- aos salários reais

- ao preço de bens importados como gasolina, computadores e automóveis

- ao valor real dos depósitos bancários

- às várias dívidas que actualmente estão denominadas em euros

-aos bancos e a outras empresas dependentes da dívida

Dos que não se derem ao trabalho de explicar, concluo que ou não estão a sério quando defendem a saída do euro, ou estão a sério mas não fazem a mínima ideia de quais são as consequências." * Fim de citação.


Muito bem. Mas, poder-se-ia também pedir a explicação inversa:

 
- Como se justifica à população o nível de empobrecimento, degradação da qualidade de vida e miséria geral e até que ponto, essa está disposta a suportar, uma austeridade sem fim à vista, com o seguro agravamento estrutural das assimetrias na zona euro? 


Enfim, para início de conversa a questão de João Miranda é interessante. Faltam contudo cálculos comparativos dos custos das duas decisões: sair ou ficar. Muito gostaria de ver uma previsão de desenvolvimento nacional a 20 anos nos dois cenários. Mas... Os economistas, esses cientistas da subjectividade político económica nem se entendem nem se atrevem a especular sobre o que poderá acontecer nesse prazo. É pena e entretanto, sofremos por uma escolha que não foi nossa, embora a tenhamos permitido e sido coniventes. 

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publicado por João Pereira da Silva às 17:47
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013

associações Perigosas

Por estes dias associei  uma série de "filmes" que nos têm sido servidos nos últimos tempos a um (bom) livro que estive a ler.

 

Os filmes: 

 

O QUE OS FINLANDESES PRECISAM DE SABER SOBRE PORTUGAL 


WHAT PORTUGUESE SHOULD KNOW ABOUT FINLAND

O QUE A ALEMANHA DEVE SABER SOBRE PORTUGAL

O QUE OS BRITÂNICOS DEVEM SABER SOBRE A ROMÉNIA (not a movie, really...)

E o livro (na versão inglesa), "If this is a man", Primo Levi:

"(...) For this reason it is everyone´s duty to reflect on what happened.(...) The ideas they proclamed [Hitler, Mussolini] were not always the same and were, in general, aberrant or silly or cruel. And yet they were acclaimed (...) by millions of followers. We must remember that these faithful followers, (...), were not born torturers, were not (but a few exceptions) monsters: they were ordinary man. (...)
A new fascim, with its trail of intolerance, of abuse, and of servitude, can be born outside our country and be imported into it, walking on tiptoe and calling itself by other names (...). At that point, wise counsel no longer serves, and one must find the strenght to resist. Even in this contingency, the memory of what happened in the heart of Europe, not very long ago, can serve as support and warning".


São associações livres, estas que fiz. Obviamente que mitigadas por enormes diferenças. Still, ...
publicado por Ana Rita Bessa às 11:07
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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012

Ela por ela

 

Na SIC Notícias decorre uma "mesa redonda" com os "líderes das bancadas parlamentares". Discutem "as soluções para a Europa". Em rodapé, leio: "Livro de J. K. Rowling para adultos chega a Portugal amanhã". Suponho que uma versão de "Os calores de Júlia" para crianças chegará ao Reino Unido no mesmo dia. Mas não estou certa, e a SIC Notícias não esclarece. 

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 00:13
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

Os canastrões da "Europa"

 

 

A "Europa" é ou não é "solidária", a Alemanha é ou não é "solidária", e Carrilho debita diagnósticos avulsos - com ar perspicaz e espasmos no pescoço.

 

Traz a lista completa, "grandes pensadores do projecto europeu" incluidos. Acusa "fanatismos" e identifica "dogmas". Neste ponto concordo, desde que devidamente virados do avesso: a "igualdade", a "convergência", a "cooperação", a "união dos povos", e (a minha favorita) a "pedagogia".

 

Doutores de trazer por casa, orgulhosos iletrados, temos com abundância. Esquecem, em toda aquela triunfante escuridão, que os países não têm moral. Nunca tiveram, nem é suposto que tenham. Os países têm interesses.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 23:24
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Sábado, 6 de Outubro de 2012

Shock and awe

Já quase toda a gente percebeu que os cortes na despesa pública são necessários, que a orgia da despesa a crédito arruinou famílias, o país e os bancos (estes sem desculpa, nem perdão, nem castigo), que alguma coisa se tem que fazer para que as mulheres tenham filhos, que é preciso produzir mais bens, ou bens mais caros, e vendê-los ao exterior, e que talvez não tenha sido grande ideia importar o peixe, e a carne, e o mais que temos, além do que não temos.

 

A montanha da dívida pública e da privada só é grande porque somos poucos e produzimos pouco. Just imagine: se todos os Europeus resolvessem meter a mão ao bolso para reduzir o nosso endividamento total a zero, nem precisavam de gastar 1000 Euros cada um, num ano - peanuts.

 

Mas também é líquido que ninguém nos vai dar nada, como é certo que até mesmo emprestado é a refilar, caro e com condições de bancário arrogante. E é aqui que bate o ponto: se a importância da dívida se mede em relação ao produto, este podia fazer o favor de parar quieto, para fazermos contas. Mas não: ao cortarmos a despesa o produto encolhe porque o consumo diminui. E assim deveríamos saber quando é que, tendo cortado o suficiente, poderemos recomeçar a crescer.

 

Para já, não estamos a falar de superavits orçamentais. E, sem eles, a dívida pública continuará a crescer, ao menos nominalmente. E como ninguém sabe onde está, se está, o ponto de equilíbrio, a dívida pública também continuará a crescer em percentagem do produto, até onde a vista alcança.

 

Acreditar assim que o que estamos a fazer vai resultar é um artigo de fé. Como é pacífico, desde parte do PS para a direita, que o Estado tem que se reformar, e como não há alternativa credível ao Governo do dia, toleramos a brutalidade do ajustamento em nome da impotência e na esperança de que, qualquer que seja o desenlace, alguma coisa de bom fique.

 

Magro consolo e triste falta de ambição. Porque os comunistas e a esquerda florida têm em parte razão: a troika precisava de um murro na mesa, não em nome da Cuba europeia que desejam, nem da autarcia económica que defendem, nem da manutenção dos níveis de despesa pública, que não são possíveis - isso foi o que nos trouxe onde estamos e de toda a maneira o crédito acabou - mas do crescimento.

 

Fé por fé, a minha está na saída do Euro - empobrecemos todos de uma vez, nos mesmos 30 ou 40%, corte que não terá naturalmente a a mesma importância para todos, porque uns sofrerão o corte na riqueza e no supérfluo e outros no necessário - mas isso já sucede, e sem esperança. Rilhamos cacos, mas recomeçamos a crescer - do fundo. E se o PS for o herdeiro da convulsão, suspender a reforma do Estado e embarcar nas fantasias despesistas que lhe são congénitas, lá estará a moeda vigilante para sinalizar e corrigir, tant bien que mal, via desvalorização, o disparate.

 

Mas há um estranho bloqueio no espaço público português: a Europa não se discute, apenas se discutem os meios delirantes pelos quais uma minoria de cidadãos, que são no conjunto os dos países em crise mais aguda, há-de dizer à maioria quanto têm que pagar, e quando, e como. Isto enquanto toda a independência, toda a autonomia de decisão, já se evaporaram, ao mesmo tempo que todo o aparelho democrático se tornou numa concha vazia, por uns colégios de uns merdas desconhecidos terem na ponta das esferográficas mais poder que os deputados, e o Governo, e o Presidente que nos demos ao trabalho de eleger.

 

Não discutam, não. Talvez seja melhor: no fim, como sempre, o que tem que ser tem muita força. 

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publicado por José Meireles Graça às 03:48
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Domingo, 2 de Setembro de 2012

Tempted, Angela?

 

À conta da política de anonimato da revista "The Economist" (eles dizem que são "newspaper"), talvez nunca venha a saber quem lhes faz as capas. Tenho pena.

 

  

(Edição de 11 a 17 de Agosto de 2012)

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 20:56
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

Crónica de um desastre anunciado

Seguro defende eleição de um 'presidente da Europa'


Com o aprofundar da crise do Euro, cresce a pressão para que a solução venha do estado federal que imponha a disciplina dos países do Norte com contas sãs, na versão federalista de Direita, ou o estado federal que apenas eurobondize a dívida, na versão federalista da Esquerda. O simpático e patético Seguro não se limita a querer que os ricos paguem a crise - constata que há "Estados que mandam mais do que outros", pelo que espera confiantemente que, logo que comecem a assumir as dívidas, fiquem mais iguaizinhos - não é mal visto, realmente.

Tudo isto quer dizer que o mesmo fato delirante vestido a corpos diferentes ameaça esgarçar de vez. Alguns dos grandes, enormes estadistas que engendraram esta estranha peça de vestuário one-size-fits-all não ignoravam isto; e o terem levado a iniciativa a bom porto foi uma engenharia de contrabando quase-continental para impôr aos povos europeus a federalização que eles não escolheram, à boleia de uma calculista irreversibilidade.


Temos assim, com crescente nitidez, dois campos, a saber:


I


O dos que acham que big is beautiful - no séc. XXI é preciso falar a uma só voz, para que essa voz seja ouvida pela América, pelos BRICs, pela ONU e tutti quanti; a história da Europa, que é uma de guerras, perseguições e rivalidades, passará doravante a ser, como a dos E.U.A., de unidade de propósitos, paz entre os estados federados e representação externa comum; a economia, essa, terá o rigor e a eficiência do Norte, com a alegria, a imaginação e as estâncias de férias do Sul; e o Euro será sólido como uma rocha, tal como o dólar o é, não obstante a falência da Califórnia e a dívida estratosférica. E


II


O dos que entendem que: a competição entre estados, modelos de sociedade, fiscalidades, modos de organizar a representação política e o resto da coisa pública, é a melhor garantia de progresso e da detecção de erros de políticas sociais e outras; está por provar que os grandes países sejam mais eficientes, mais "justos", mais felizes do que os pequenos; as superpotências falam a uma só voz, mas a defesa dos seus interesses implica que periodicamente alguns dos seus cidadãos regressem a casa em sacos de plástico preto; as guerras do passado foram por conquista de terra, domínio, esbulho, religião e ideologia. A história não acabou e elas não se tornaram impossíveis, mas não se vêem no horizonte guerras intestinas na Europa - vêem-se porém no resto do Mundo; os pequenos estados gerem as suas dependências - se diluídos em grandes não gerem coisa alguma; a riqueza não funciona pelo princípio de vasos comunicantes - há estados e regiões pobres e estados e regiões ricas dentro das federações e dos países unificados. E, finalmente, que há, nos estados europeus antigos, culturas, tradições, línguas e sentimentos de pertença - as instâncias centrais europeias, como quaisquer outras burocracias, tendem fatalmente a tentar anular tudo isso, a benefício da unicidade e da camada de apparatchicks de Bruxelas e dos seus delegados nos 26 Terreiros do Paço.

Depois, o nacionalismo, que foi, e ainda é, o fundamento ou o adjuvante de muitas guerras; e que funcionou como cimento e legitimação de regimes detestáveis - não está em odor de santidade. E é também objecto de desvalorização com ideias fantasiosas: diz-se ser uma construção do romantismo, confundindo-se o ideal de fazer coincidir geograficamente as Nações com os Estados (que é uma ideia do séc. XIX) com o sentimento de pertença, que é a base do nacionalismo e uma pulsão antiga e natural. Este sentimento faz com que, ainda que tenhamos, e temos, muitas, boas, antigas e modernas, razões para detestar o nosso País, não deixamos de ser estrangeiros em qualquer outro lado.

Em resumo: O Euro foi um erro caro - e a maior parte do preço estará ainda em revertê-lo. As élites querem corrigir o erro com outro maior, ignorando tradições, nacionalidades, idiossincrasias, fugindo para a frente para fazer um Mundo Novo.

Já vimos disto com outras vestes. É como diz uma amiga minha: as reformas são para políticos aborrecidos. As grandes engenharias de pátrias e revoluções, digo eu, são para políticos visionários - daqueles que engendram grandes desastres.

publicado por José Meireles Graça às 00:13
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Rumo à salvação

(Originalmente publicado no Senatus, em 29 de Dezembro 2011)

 

 

Há comportamentos que decorrem dos elevados índices de testosterona. Um deles acontece sempre que se torna necessário arrumar muitos volumes na mala do carro. Imaginemos a Angela e o Nicolas. Pertencem a uma ONG, e estiveram em Lisboa a passar uma temporada. Conhecendo as dificuldades que o país atravessa, confiando no elevado potencial dos portugueses, e imbuídos que estão de um elevado espírito humanista, num acto de solidariedade resolvem arrancar numa viagem para salvar a Europa.

 

A Ângela é uma pessoa despachada pelo que, para evitar altercações com base no "quero saír daqui às três da tarde, vê lá se estás despachada, já sei que te vais atrasar", adiantou-se e desceu às duas e meia. Munida das chaves do Renault, carregou tudo sozinha e conseguiu enfiar duas malas com rodinhas cheias de processos judiciais no limite do prazo, dois portáteis com ligação ao facebook repletos de comunicações do Palácio de Belém, um saco desportivo, uma gaiola com dois linces da Serra da Malcata, uma caixa com seis garrafas de vinho da Madeira martelado, uma geladeira, um cobertor de papa e outro de flanela, uma colcha de terylene, um saco de plástico com um par de galochas, um tupperware com carne assada, outro com meloa cortada aos cubos, outro com um resto de arroz de berbigão, e outro cheio de impressos para meter baixa por doença, um estojo com uma máquina fotográfica reflex, outro com adereços, outro com estudos de impacte ambiental para impedir a construção de mais uma barragem, e um quarto, mais alongado, com um tripé, um casaco de malha com os cotovelos puídos, um chapéu de gabardine, um guarda chuva, duas latas de manifestos em calda, um trapo húmido para ir limpando o balcão dos cafés onde tivessem que parar para comer, e um aquecedor a gás, com a respectiva bilha, na bagageira do automóvel. Não cabia lá nem mais um iPod com o discurso do Barrete no 10 de Junho. Satisfeita, sobe as escadas e diz ao Nicolas: "Amor, podes descer, está tudo pronto para arrancar".

 

O Nicolas levanta-se do sofá, pega no AutoMotor e num molho de chaves, desce e abeira-se do veículo, com um ar desconfiado. Profere: "Vamos lá ver". Abre a bagageira, sobe uma narina e observa: "Ná. Isto não pode ir assim". Despeja tudo e demora duas horas e meia para conseguir voltar a enfiar as coisas no Renault, pelo que arrancam finalmente pelas cinco e meia da tarde e vão de trombas pelo menos até alturas de Estremoz. É quando a Ângela comunica: "Ó passarinho, já comia qualquer coisa".

 

O Nicolas ouviu falar de um restaurante muito em conta em São Domingos de Ana Loura, e portanto encaminha-se para lá e jantam uma refeição frugal. À saída, o Nicola baralha-se com uma infinidade de rotundas, passa várias vezes na mesma, regressa à primeira, e à segunda, e depois à primeira outra vez, e não consegue encontrar o caminho porque há muitas tabuletas com indicações que conduzem sempre ao mesmo sítio. Mete-se então por uma estrada de terra batida e chega a uma barreira pintada de amarelo e encarnado, e um bocado de cartão que diz: "Desvio IP2/E802". E uma seta a apontar para o pavimento. Ao lado, sentados num bidon, está um grupo de comentadores políticos da televisão portuguesa. Pedir ajuda para encontrar o caminho é, como toda a gente sabe, outro comportamento pouco frequente em indivíduos com elevados índices de testosterona. Por isso o Nicolas adiou o mais possível. Mas, perante a cara ameaçadora da Ângela, não está para mais chatices. E o Nicolas, contra aquele que é o seu procedimento habitual, resolve pedir ajuda.

 

"Para salvar a Europa? Tem que voltar partrás! Mas agora não pode, ó amigo...! Olhe, faça assim: vá em frente. Conde chegar à rotunda, corte à esquerda. Depois siga até à bomba de gasolina. Está a ver o posto da GNR? Não é por aí. Continue sempre por ali abaixo. Antes de passar a igreja corte à sua direita, depois da farmácia. Mas é na segunda. Está a ver o Pingo Doce? Epá, não era por aí! Agora vai ter que dar uma granda volta! Olhe, o melhor é perguntar ao pé da Estação."

 

O Renault com a Angela e o Nicolas foi visto na terça-feira perto de São Brás de Alportel. Ontem consta que circulava nas rotundas de Fafe.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:42
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