Segunda-feira, 20 de Julho de 2015

Cadáver Adiado que Procria

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

 

Não sei o que diz hoje a historiografia sobre D. Sebastião. Da última vez que li alguma coisa sobre o homem e o seu tempo, ficou-me a ideia de um moço bastante estúpido e teimoso, com a cabecinha cheia de utopias sobre cavaleiros andantes e a expansão da Fé, já obsoletas no seu tempo para as pessoas mais esclarecidas e que, de resto,  contou com não pouca oposição à louca empresa de Marrocos.

 

A Pessoa a loucura não interessava senão para a admirar, nem a contabilidade do sucesso ou insucesso das decisões políticas o interessava - o core business da poética nacionalista dele era a desmedida, e por isso vive no coração de alguns portugueses que sabem ler e, creio, viverá enquanto a língua não se extinguir.

 

Podemos julgar que tudo isto pertence a um passado morto. Nada mais falso: o espírito de cruzada está entre nós, a propósito de tudo, e portanto também a propósito da Grécia, sob novas vestes - ontem era o cristianismo que se opunha ao islamismo, hoje são os pobres e explorados de um lado e os ricos e exploradores do outro. E sempre que aparece um cavaleiro andante que defende a viúva, a criança indefesa e o velhinho (hoje o desempregado, o trabalhador explorado e as minorias) podemos estar certos de que não lhe faltarão hossanas - mesmo que seja Alexis Tsipras.

 

Que Alexis Tsipras é um D. Sebastião podemos estar certos: até mesmo um apoiante seu (o prémio Nobel da Economia, na descrição usual da comunicação social, como se não houvesse outros) pasma. O homem foi para uma batalha que não podia ganhar, sem sequer ter planos para a fuga. Só não é o Encoberto porque está vivo.

 

Claro que os pobres gregos não são tão pobres como, por exemplo, os Búlgaros, os Croatas, os Estonianos, os Húngaros, os Letões, os Lituanos, os Polacos e os Romenos, além de estarem praticamente a par do Chipre, da Eslováquia, Eslovénia... e de nós. Mas, que importa? Os Cristãos não se distinguiam dos Mouros pela tolerância dos costumes, nem pelo avanço civilizacional; mas detinham a Verdade. E a Verdade deles ganhou (na lenda) em Roncesvalles e, na realidade, em Lepanto e muitos outros lugares.

 

A Verdade dos gregos, porém, não vai, nem pode, ganhar, e a musa inspiradora de Tsipras, que aderiu ao Partido Comunista por alturas da queda do Muro, explica porquê. Estamos no tempo da farsa: há outra maneira de descrever um acordo para fazer o roll over da dívida, que terá, porque não pode deixar de ter, efeitos recessivos, no qual os credores não acreditam, nem o devedor, para aplicar um programa dirigido por um Nicolás Maduro do Peloponeso? Isto quando todos os ricos já puseram o seu a salvo (a preocupação sobre quanto os gregos podem levantar dá vontade de rir - não pode haver nos bancos depósitos que se vejam), só se fossem loucos o repatriariam, e todo o arranjo sob a égide de um Eurogrupo que não tem existência legal e está paralisado pelo medo dos eleitorados, do calote, e do desmoronar do edifício no qual apostaram as carreiras e a reputação?

 

A Grécia vai-se arrastar até ao próximo default, ou até o seu eleitorado cair na real e descobrir que pode ter a sua moeda mas não ser nórdico; ou ser nórdico mas não ser independente.

 

As instituições vão correr para montar um edifício à prova de grécias; esse edifício vai aprofundar ódios e ressentimentos.

 

E Pessoa, que atribuiu a Cristo uma grande ignorância em matéria de finanças, virá a ter, por ínvios caminhos, razão.

 

Porque a União Europeia é já, e sê-lo-á mesmo que dure ainda dois ou vinte anos, um cadáver adiado que procria.

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publicado por José Meireles Graça às 21:33
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2015

O Gato das Motas

No momento em que escrevo não se sabe se realmente o parlamento grego vai engolir esta pílula amarga e, em caso afirmativo, se a populaça vai partir montras e queimar carros em quantidade recorde.

 

O meu palpite é que sim, vai engolir, e não, as manifestações não serão daquelas de entupir a praça Syntagma: pode haver uns quantos desacatos, mas as massas ficarão resignadamente em casa - é um governo de esquerda, man, e os governos de esquerda fazem, quando podem, o bem, e o mal apenas quando não têm outro remédio, caso em que a culpa é dos imperialistas, dos inimigos de classe, dos plutocratas, dos americanos, dos fássistas e do carago, em suma, dos outros.

 

Pode não ser assim. A política grega é de tal modo extravagante que prever os seus desenvolvimentos é como adivinhar o tempo que fará no próximo mês de Setembro: há-de estar calor, excepto se fizer frio.

 

O absurdo de fazer aos eleitores uma pergunta prolixa, mas que se resumia a saber se aceitavam ou não a austeridade imposta pela tróica pelas instituições, recomendando o não, para de imediato agir como se a resposta tivesse sido o sim, desafia a imaginação.

 

Tanto que as teorias conspirativas fervem: o medo de Putin, o secreto desejo de que a resposta ao referendo tivesse sido o contrário da que foi, as instruções de Obama a Merkel, um acordo tácito de que o programa não é para cumprir, tudo serve para explicar o volte-face.

 

Nesta entrevista, que se não for do próprio será de alguém muito próximo de Varoufakis, o Gato das Motas, encontra-se, creio, a chave da irracionalidade. Nela se reconhece que as autoridades sirízicas “underestimated” o poder de Schäuble, Dijsselbloem e de todos os outros. E confessa-se uma grande estranheza por os credores estarem preocupados com os seus bancos e os seus créditos, e nada com a legitimidade do governo grego, as suas credenciais democráticas, os direitos humanos: "... the Eurozone is completely undemocratic, an almost neo-fascist euro dictatorship". 

 

Pois subestimaram. E, salvo melhor opinião, ao eleitorado grego, como a eleitorado nenhum, convém que o seu governo subestime seja o que for, muito menos num assunto de tão transcendente importância. Nem se admite, senão a motards beatniks, que imaginem que, por apresentarem como reféns filas de velhos nas ATM, possam decidir o que fazer com o dinheiro dos outros.

 

Como diz o entrevistado: "We went to a war thinking we had the same weapons as them". Não tinham, claro. E também não tinham, nem têm, juízo:  "If he could negotiate with one at a time for an hour, the deal would be struck in a day". Varoufakis, Yanis, até pode ser que, de teoria dos jogos, saibas alguma coisa. De conselhos de administração não entendes nada: os votos não são por cabeça, são por quotas. E quem não quiser tem um bom caminho: sai da sociedade.

 

Era o que eu faria, se fosse grego.

  

publicado por José Meireles Graça às 21:42
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Terça-feira, 7 de Julho de 2015

Lições incompreendidas

Portugal não cumpriu as metas do MoU, não atingiu os défices orçamentais a que se comprometeu, reescalonou a sua dívida já por diversas vezes e paga juros ridiculamente baixos no mercado secundário, o que lhe tem permitido ir trocando dívida cara por mais barata, além de ter um pecúlio ao canto da arca, por mor de obviar a parte dos riscos das maluqueiras sirízicas. A dívida pública, essa, teve que acomodar um alargamento do perímetro, por os nossos patrões estatísticos irem depurando os seus critérios à medida que vão vendo o resultado da sua inépcia, e fingindo acordar para as vigarices e os alçapões a que fecharam os olhos. Não se sabe - eu não sei - se neste momento já parou de crescer, ainda que seja seguro que o ritmo a que cresce, esse, tenha vindo a diminuir.

 

Uma parte deste moderado sucesso resulta de o BCE garantir que será o contribuinte europeu a pagar o patau das asneiras das governações socialistas, domésticas e estrangeiras, e não os investidores, até há pouco tempo crismados de especuladores; e outra de o nosso governo ter ignorado boa parte do escarcéu dos indignados, okupas e crescimentistas sortidos.

 

A Grécia vem abalar este consenso feito de realismo e hipocrisia: como cresceu mais do que nós, porque se endividou mais do que nós, a queda foi maior quando chegou a hora de fazer contas; e o FMI, com característica imprudência, e as instituições europeias, com a obsessão da defesa do Euro, consentiram no arrastar de pés de uma classe política tradicionalmente corrupta e oligárquica, até que, já na praia, mas tarde de mais, uma população sem esperança escolheu uma quadrilha de comunistas aggionarti para tomar conta do barco.

 

Não é impossível que, a prazo, a história acabe bem - o resultado do referendo é um bom começo, se as instituições europeias não cometerem o erro de tentar curar a gangrena com o penso de um novo acordo, com ou sem perdão, com ou sem reescalonamento.

 

A Grécia deve, é claro, sair do Euro, porque o módico de crescimento a que timidamente chegou antes do Syriza não é mais possível; nem é concebível que, com o programa daquela agremiação (os ricos, estrangeiros e nacionais, que paguem a crise, que nós vamos aqui crescer à boleia do consumo das massas e do investimento público) haja outro futuro senão a dívida pública, e o respectivo calote, evoluírem da estratosfera para a mesosfera.

 

Sob a direcção do Syriza, nenhum acordo, por generoso, será cumprido; nenhum crescimento será possível - o capitalismo tem uma inclinação inelutável para acabar, quando gerido pelos seus inimigos. E nem mesmo o suplemento de alma que a dracma dará, sob a forma de incentivo ao turismo, à marinha mercante e exportações, depois de vencido o inferno dos dois ou três primeiros anos, será bastante - se os gregos não se livrarem do Syriza.

 

Livrar-se-ão, ou os militares por eles. E poderão, talvez, regressar a prazo ao seio das nações normais, depois dos credores lamberem as feridas do calote, no sentido de que deixarão de estar todos os dias nas notícias: a revolução é bonita, pá, mas Trotsky nem entre os seus camaradas teve um sucesso duradouro.

 

Isto para eles. E para nós? Vamos, é claro, encostar a barriga ao balcão, na parte que nos toca - mas isso é o menos. O mais seria que desta triste história se retirassem as lições que ela comporta, e que são: i) Quanto mais Juncker, Dijsselbloem e os outros apparatchiques falarem, pior. Ninguém realmente os elegeu para coisa alguma e ninguém entende com que legitimidade tomam decisões que afectam a vida das pessoas, ao mesmo tempo que quem realmente a tem, a legitimidade, que são os governos eleitos, fica na penumbra do diz-que-disse; ii) A moeda própria é uma válvula de segurança para os desmandos do mau governo, a alheia não é; iii) A bicicleta de Delors, Miterrand, Kohl e os outros putativos génios da casa europeia encravou de vez: não é só a Grécia que está desacreditada aos olhos de quem tenha algum de seu e não navegue nas águas do esquerdismo das causas - também a Europa pela qual a elite bem-pensante ainda jura sai do descalabro mergulhada na desconfiança e na descrença.

 

Ainda bem. Se o episódio tivesse servido para alguma coisa deveria ser para uma nova geração de europeístas defender a livre circulação de pessoas, bens e capitais, e uma pauta aduaneira comum; mas também a negociação permanente e a regra da geometria variável, isto é, uma Europa à la carte, sem legislações supra-nacionais cozinhadas por anónimos inimputáveis no segredo dos gabinetes. E, é claro, criar mecanismos para o abandono da moeda comum, uma falha ostensiva para cuja resolução os tontos defendem uma fuga para a frente.

 

É preciso fugir sim - para trás, para a Europa das nações, umas com sucesso, outras nem por isso, outras meio falhadas, que encontram nessa diversidade a emulação e o incentivo para fazerem melhor.

 

Mas só vai suceder à chibatada, que burros velhos não andam às arrecuas, de mais a mais quando essa andadura lhes roubaria as cenouras com que se atocham.

publicado por José Meireles Graça às 18:11
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Terça-feira, 30 de Junho de 2015

Vemo-nos gregos

Há cinco meses que não fazemos mais nada senão discutir as declarações de Tsypras, as toilettes de Varoufakis, o futuro do Euro e da UE, e as consequências que terá para nós o Grexit.

 

Estou farto: é o caso de dizer que nem a velha morre (a velha é o Euro) nem a gente almoça (almoçar, aqui, é sabermos as linhas com que nos havemos de coser).

 

Da última vez que escrevi sobre o desastre grego, há dias, disse:"...Que a Europa fará tudo, mas tudo, inclusive adoptando um tratamento completamente diferente daquele a que Portugal e Irlanda tiveram direito, desde que a Grécia finja que vai cumprir um programa de austeridade".

 

Aparentemente, calculei mal. Não porque a Europa não esteja disposta a fazer tudo - ainda agora se admitem novas cabriolas ("European Commission President Jean-Claude Juncker appealed to Athens to accept the deal proposed by international creditors last week while holding out hopes that some extra tweaks could still be possible") - mas porque critérios de racionalidade não servem para analisar comportamentos demenciais.

 

Entendamo-nos: eu sempre achei - hoje em dia toda a gente acha, valha-os Deus - o Euro uma moeda disfuncional. Pode-se estar do lado daquela minoria que, com bons e maus argumentos, acha que não se corrige um erro somando-lhe outros, que é onde estou; e pode-se estar do lado daquela maioria (entre nós esmagadora) que entende que é precisa mais integração, mais governança europeia, mais centralismo bruxelense e mais solidariedade, que é a designação eufemística para a chulice dos subsídios, deixando para os parlamentos e os governos nacionais tanta autonomia, ou ainda menos, do que a que têm, em relação a Lisboa, os actuais governos das ilhas. As pessoas defendem isto e dizem-se patriotas, decerto por se rebelarem contra a descaracterização do galo de Barcelos, que ninguém deseja, e o abastardamento do caldo verde, que infelizmente já se vai praticando.

 

Sucede porém que o extraordinário Syriza ganhou as eleições com má-fé: como os gregos querem no bolso uma moeda forte, na economia o crescimento vigoroso que o crédito barato lhes deu antes da crise de 2008 e no amor-próprio a convicção de serem um país europeu desenvolvido, haveria que lhes prometer isso tudo - mas sem pagar dívidas e pelo contrário requerendo financiamento para um programa bolivariano de desenvolvimento. O caso é único: Lenine terá dito que os capitalistas haveriam de vender a corda com que seriam enforcados, mas a dupla de bloquistas refina o leninismo a ponto de querer que a corda seja dada.

 

Não sei ainda qual será, exactamente, a pergunta do referendo, mas pelo que se vai lendo parece que inquirirá se o eleitor aceita o plano de austeridade da troica, ou não. A pergunta, feita assim, é desonesta, porque a austeridade é inescapável: ou é a versão, ainda que edulcorada, imposta pelos credores, ou será a violenta, decorrente do estancar dos financiamentos e do abandonar do Euro (nesta hipótese, o demente Varoufakis, numa bravata grotesca, ameaça com o tribunal, como se não tivesse que imprimir dracmas para pagar despesas do Estado no caso de lhe secarem as fontes de financiamento).

 

Tudo visto e ponderado, se fosse grego, no Domingo votaria não. Daniel Hannan, que tem pelos gregos ternos sentimentos que não acalento - cada povo tem, em regime democrático, os governantes que merece, e paga o preço das escolhas que faz - explica aqui por que razões os gregos devem querer sair do Euro. Todo o artigo vale a pena, se não fosse por mais nada porque o discurso pró-europeu é em Portugal sufocante e enviesado: apoias o governo, o rigor orçamental e a austeridade? Ah, então és a favor da Europa neoliberal; és a favor da Europa, mas com mais investimento público, défices, reescalonamentos de dívida? Bom, és do PS, e do BE se também quiseres perdões de dívida impostos aos credores. E finalmente: és contra o Euro? Então ou és comunista ou aluno do prof. Ferreira do Amaral.

 

Transcrevo abaixo dois parágrafos de Daniel, que subscrevo, e um em que não o acompanho, pelas razões que explico.

 

"Then again, ‘No’ has a powerful resonance in Greece because 75 years ago, Benito Mussolini demanded that Greece allow Italian troops to land unresisted. The Greek prime minister’s laconic reply ‘Ohi!’ (No!), is celebrated every October on Ohi Day".

 

"For, whatever Mr Tsipras’s faults (and, believe me, they are many) at least withdrawal from the euro will offer his countrymen some hope of recovery. It is true that the short-term consequences will be difficult, but a clean default, followed by a devaluation, would at least allow Greece to start growing again".

 

"It is true that, in the long run, a devaluation does not solve anything, but it buys the stricken country precious time in which to make reforms". Claro, no longo prazo a desvalorização não resolve nada, pelo que seria preciso, para um crescimento robusto e sustentado, que mais adiante na estrada os gregos se livrassem dos sirízicos que o desespero os fez eleger, e entregassem o leme a gente que saiba fazer, sem a pecha do crony capitalism e da corrupção, as reformas de que o país carece.

 

Essa gente existe? Não faço ideia. Também por isso, que Zeus ilumine os gregos no Domingo.

publicado por José Meireles Graça às 22:59
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015

Retoques

Encaro com desgosto o facto de, salvo umas petições cuja assinatura volta e meia me solicitam, para fazer número, nunca um grupo de ilustres me convidou para fazer parte do elenco de notáveis que todos os trimestres se propõe governar o país sem a maçada de concorrer às eleições e as ganhar.

 

Isto dói. E a razão não deve ser apenas a triste circunstância de viver, como diz uma querida amiga minha, na Lapónia, mas também o facto de nunca me ter sentado à mesa do Orçamento, não ter percursos académicos vistosos para estadear, me faltar o jeito para discursos grandiloquentes e ocos à la Sampaio da Névoa, e não ter a alma à Esquerda.

 

Valha a verdade que não abundam as cartas que pudesse assinar, pela razão esdrúxula de a maior parte das pessoas que as costumam assinar serem mortos-vivos que não entendem o mundo que os rodeia, nem propõe outra coisa que não seja a reedição do mesmo asneirol que criou o problema que dizem querer resolver.

 

E todavia esta carta, que gente de representação enviou ao primeiro-ministro, bem a poderia ter assinado. Bastavam uns retoques ligeiros, e subscrevê-la-ia com gosto e orgulho.

 

A oportunidade passou. Mas quem sabe se o Pimpão que é o primeiro subscritor não lerá estas regras. Deixo, em atenção a esse cidadão ilustre, o texto da carta com algumas palavras trancadas e outras que acrescentei, em azul, por mor de uma a meu ver desejável clarificação.

 

As cidadãs e os cidadãos abaixo assinados abaixo assinadas e abaixo assinados manifestam a sua preocupação quanto à posição do Estado Português no Conselho Europeu de hoje. Tem o primeiro-ministro declarado que, mesmo perante a grave crise humana que se vive na Grécia, a política de austeridade prosseguida se deve manter inalterada. Os factos têm evidenciado que este caminho é contraproducente se, em vez de reformar o Estado, se quiser apenas restaurar o equilíbrio à custa do aumento dos impostos.

 

Não temos dúvidas de que a Europa vive uma situação difícil, pelas tensões militares que a desastrada política da UE criou na sua periferia e pelos efeitos devastadores de políticas recessivas socialistas que geraram desemprego massivo, o aumento do peso das dívidas soberanas e deflação, abalando assim os alicerces de muitas democracias caloteiras. Este momento exige por isso uma atitude construtiva, que conduza a uma cooperação europeia de que Portugal não se deve isolar.

 

Para evitar uma longa depressão, a União tem de combater a incerteza na zona euro e, para tanto, precisa de uma abordagem robusta que promova soluções realistas e de efeito imediato mediato. O momento actual oferece uma oportunidade que não pode ser desperdiçada para um debate europeu sobre a recuperação das economias e das políticas sociais a reforma do Estado, o aumento da natalidade, a imigração e o aumento da liberdade económica dos países mais sacrificados ao longo dos últimos seis anos.

 

É por isso também do interesse de Portugal contribuir activamente para uma solução multilateral do problema das dívidas europeias reduzindo o peso do serviço da dívida em todos os países afectados, que tem sufocado o crescimento económico, em troca de um programa consistente de reformas que garanta que os credores não serão penalizados, que não haverá transferências forçadas de recursos de uns países para outros e que o Tratado de Maastricht será revisto para incluir cláusulas que estabeleçam critérios para a saída do Euro agravando a crise da zona euro. Pela mesma razão, é ainda necessário que Portugal favoreça uma Europa que não seja identificável com um discurso punitivo mas com responsabilidade e solidariedade apenas em casos de desastres naturais, e que não humilhe Estados-membros desrespeitando-lhes a independência ao impôr-lhes legislação supra-nacional mas promova a convergência, que não destrua o emprego e as economias mas contribua para uma democracia inclusiva.

 

Estamos certos, senhor primeiro-ministro, de que agora é o tempo para este apelo à responsabilidade numa Europa em que tanto tem faltado o esforço de certos países comum para encontrar soluções - que não passem por eternizar a dependência com subsidiações que de toda a maneira os cidadãos dos países que paguem mais do que recebem nunca aceitarão - para uma crise tão ameaçadora.

 

publicado por José Meireles Graça às 00:42
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2015

Quanto pior melhor

O homem é marxista e cómico: nunca teve nada a ver com o marxismo soviético, credo!, as suas inclinações são mais para a tradição marxista francesa, diz sem se rir. O autor do artigo não achou útil esclarecer de que forma se distinguem os marxistas russos dos franceses, para além do hábito deplorável que têm os primeiros de se beijarem uns aos outros com hálito de vodca.

Tal como o seu confrade português, frei Anacleto Louçã, com o qual partilha, além das ideias lunáticas, boas credenciais académicas e o amor das toilettes casual, defende a manutenção no Euro em conjunto com medidas económicas que a tornam impossível:

"Milios enumera as prioridades do partido, uma por uma. Envidaria esforços concertados para ajudar os mais duramente afectados pela crise - eletricidade gratuita para os gregos aos quais o fornecimento foi cortado, cupões de alimentos distribuídos em escolas, serviços de saúde para aqueles que deles necessitam, rendas de casa garantidas para os sem-abrigo, a restauração do salário mínimo ao nível pré-crise de 750€ por mês e uma moratória sobre o pagamento, acima de 30% do rendimento disponível, da dívida aos bancos privados. Ele argumenta que os cerca de 13 mil milhões de Euros de custo de tais medidas poderiam ser na maior parte cobertos por uma redistribuição das receitas do Estado e repressão da evasão fiscal." *

Isto, é claro, para além do perdão de dívida de mais de 50%, a extensão dos prazos e outras formas engenhosas de pagar sem dor, ao mesmo tempo que, sob a lúcida direcção de Alexis Tsipra, a economia começará milagrosamente a crescer.

Ou seja, o homem quer aumentar a despesa pública, não pagar o que deve, exilar os ricos e sufocar a iniciativa privada. E declara que “we will not deal with this on a bilateral level with Germany but in a much wider context".

Por outras palavras, quer uma aliança com os outros caloteiros e acha que há esquerdistas, nos eleitorados e nos partidos no poder no espaço europeu, em quantidade suficiente, conjugada com o medo da deflacção e da implosão do Euro, para uma parte do seu programa ser acomodada pela burocracia europeia de forma que a barca da União prossiga.

Poker, portanto: da sua mão, que é fraca, diz Milios: "Greece, in its weakness, is actually very strong.”

Não estou absolutamente certo que uma versão muito edulcorada do programa não possa efectivamente passar; mas estou seguro de que, se o Syriza ganhar as eleições, e mesmo que lhe estendam a mão, ou faz o que promete e dá com os burros na água, pelo que o eleitorado o atira às urtigas; ou não faz e o eleitorado dá-lhe o mesmo destino. O que se vai passar a seguir é anybody's guess.

Quer dizer que o Syriza não tem futuro; e a Grécia, dentro do Euro, também não, a menos que se entenda que, enquanto o desemprego e a dívida pública crescem (26% um e 177% do PIB a outra, and counting), se podem ir experimentando receitas até dar no bingo.

Entre nós, isto, que devia ser evidente, serve para um combate basicamente desonesto, porque feito de reservas mentais: o PS deseja que os tresloucados ganhem para que apanhemos a boleia do laxismo europeu a haver e Costa possa ter recursos para pôr a austeridade de molho e fazer tranquilamente as suas apostas no crescimento - as mesmas do socratismo, mudando o nome dos actores e dos programas, e abandonando uma ou outra caída em descrédito, como o TGV; e a direita, toda ela, deseja que o Syriza perca, menos porque é uma associação de demagogos e esquerdistas - essas seriam as boas razões - mas mais porque se deseja que o eleitorado português, suspeito de incapaz de fazer escolhas correctas, receba uma lição: estão a ver, estão a ver como a União é o caminho? Com o Syriza havia riscos para o Euro e os Gregos, sensatamente, recuaram - temos que ser bons alunos e fazer muito, muito o que a Alemanha diz.

Eu desejo que o Syriza ganhe porque isso poderia ser o princípio do fim do nó górdio em que a União Europeia se transformou. E se com essa vitória o PS reforçar nas sondagens as suas probabilidades de ganhar as eleições, há tempo mais que suficiente para esses ganhos serem revertidos - os socialistas de todos os bordos, gregos ou portugueses, e quanto mais radicais pior, não costumam precisar de muito tempo para traírem as suas promessas ou escaqueirarem tudo.

*Tradução minha

publicado por José Meireles Graça às 23:15
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2012

A visita importuna

 

 

Não tenho pretensões a conhecer com rigor o estado da opinião pública grega, menos ainda o que possa ser definido como alma grega. Sei o que toda a gente sabe: que estão mergulhados numa espiral recessiva (o PIB já caiu, lê-se, mais de 22%, o desemprego jovem vai em 55%), fazem as manchetes dos jornais com o folclore das manifestações e as jigas-jogas das eleições inconclusivas, odeiam a Alemanha mas amam o Euro, e têm sido pouco respeitadores dos acordos sucessivos que vão fazendo.

 

Não que o serem muito respeitadores fizesse muita diferença. Agora que o FMI começa a achar, oops, que afinal o efeito recessivo, inevitável, não é o mesmo indo pelo corte na despesa pública ou na privada via aumento de impostos, e que os ajustamentos precisam de tempo, Ângela resolveu ir a Atenas para, nas palavras dela, "compreender a situação no terreno. Ver a situação de perto leva a uma melhor compreensão."

 

Deixa ver se eu percebo: Ângela quer o que todos os políticos em democracia querem - ganhar eleições. E assim, para preservar o seu Euro, que é outro nome do Marco, nem interessa saber ao certo se achava ou não achava que o programa castigador da Troika ia correr mal, o que conta é o que disso pensava a opinião pública alemã.

 

Ora, os Alemães trabalham duramente de segunda à sexta, emborracham-se ao sábado, e apertaram o cinto quando outros o alargavam. Fabricam máquinas como ninguém, e respeitam as regras do dia - todas as regras, seja os standards de qualidade da Mercedes ou as da Democracia ou do Estado Nazi. Não estão dispostos a sustentar quem se rege por outros padrões, e pelo que me diz respeito não vejo neste particular por que razão haveriam de pensar de outra maneira.

 

Eu sei: a cornucópia dos milhões da UE regressou à Alemanha sob a forma de importações dos países com Sol e empréstimos que vão sendo pagos a peso de ouro, os mercadozinhos dos países pobretas dão jeito à indústria alemã, a Alemanha financia-se a uma fracção do preço que pagam os aflitos e há, parece, razões geoestratégicas, entre outras, para não pôr a Grécia pela porta fora.

 

Isto eu compreendo. Já não compreendo o fetiche do Euro: mesmo que a cotação do dracma fosse ao kilo, não haveria razões para a indústria exportadora grega não respirar saúde, o turismo estar florescente, e as importações se contrairem naturalmente, abrindo espaço para produção local - precisamente o que a Grécia necessita.

 

Mas cada Povo gosta do que gosta e quer o que quer. Os Gregos não gostam da Senhora Merkel e apreciariam que ela, as suas enxúndias acervejadas, e as suas toilettes desengraçadas, se deixassem estar pelas frias terras onde apreciam o género.

 

E isso eu não tenho dificuldade em compreender.

 

publicado por José Meireles Graça às 15:31
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