Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Fogos políticos

Muitos especialistas em ideias gerais, categoria a que pertenço num lugar de merecido anonimato, pronunciaram-se publicamente desde o princípio do incêndio de Pedrógão Grande e foram num crescendo até ao rescaldo. Presumivelmente, continuarão.

 

Helena Matos, Maria João Marques, José Manuel Fernandes, Rui Ramos, Henrique Raposo, muitos outros menos conhecidos, tiveram palavras de perplexidade e indignação contra o desastre da Protecção Civil, a anedota obscena do SIRESP dos 500 milhões, a actuação inacreditável da GNR, as manobras de contenção de danos de imagem por parte de Costa e da sua patética ministra da Administração Interna, a inépcia ostensiva do presidente da Liga dos Bombeiros, o desequilíbrio histórico entre os gigantescos recursos públicos afectos ao combate a incêndios e as migalhas guardadas para a prevenção... tudo isto e muito mais, quem quiser que procure os textos destes e doutros no Observador, no Facebook, no Insurgente e no resto da blogosfera e imprensa.

 

Perplexidade desde logo porque não deve ter escapado à argúcia do espectador médio que a presença obsessiva do primeiro-ministro, da ministra da Administração Interna, do secretário de Estado que com ela disputava a visibilidade pública, todos encafuados no posto de comando, não podia senão agravar a confusão: a condução política de uma situação de calamidade pertence ao poder político; e a operacional ao comando, que aliás ficamos a perceber não é sequer unificado. E perplexidade também porque todas as declarações de responsáveis afinaram pelo mesmo diapasão: as causas são naturais, o que aconteceu foi inesperado, os meios estiveram à altura com um ou outro pequeno contratempo e o combate abnegado.

 

Subscrevo quase tudo o que aqueles três colunistas escreveram. E não duvido que subscreverei também o que vierem a dizer Vasco Pulido Valente e Alberto Gonçalves, se e quando lhes calhar pronunciarem-se sobre o Portugal oficial, institucional, político, que estadeou em directo na televisão para perplexidade dos cidadãos, por alguns dias afastados de concursos, futebóis, telenovelas e vidas dos famosos, e estarrecidos por perceberem que aquela gente a quem o Estado falhou e que perderam uns vidas, outros bens, e os restantes a paz, poderíamos ter sido nós.

 

O presidente da Republica deu o mote, logo no dia 18, declarando que "o que se fez foi o máximo que se podia fazer". A afirmação era pornográfica no contexto, e mesmo que mais tarde a tentasse corrigir, quando o número de mortos começou a escalar, terá tido um, provavelmente inconsequente, efeito, o de um número indeterminado de portugueses se ter começado a aperceber da incurável superficialidade e do porreirismo imbecil da personalidade que elegeram.

 

Outros efeitos terá tido esta tragédia. Pode parecer um exercício cínico conseguir ver algum lado que não seja esmagadoramente trágico nos mais de 60 mortos, mais de 200 feridos e um número indeterminado de desaparecidos, mas não: o melhor serviço que podemos prestar à sua memória é que não tenham morrido em vão. E como a legislação que regula a propriedade e todos os aspectos da prevenção e combate de incêndios é a moldura necessária para qualquer reforma, e as alterações decorrerão não de um unanimismo impossível mas de escolhas políticas, convém perceber como estamos. Eis alguns aspectos:

 

i) O PCP e o Bloco distinguiram-se todo este tempo por um impressionante silêncio. Parece que Catarina Martins implorou no twitter, imagina-se que intimamente a um xamã da sua devoção, por chuva; e o bom do Jerónimo, já quase no rescaldo, disse umas coisas anódinas; mas foi tudo. O contraste entre esta contenção e o berreiro que atordoaria o país caso não fossem aliados do governo, de mais a mais liderado por um político profissional que tem pesadas responsabilidades passadas tanto nos escândalos ligados a meios (SIRESP, helicópteros KAMOV) como na forma como (não) foi posto em prática o famoso Relatório de 2005 elaborado pelo Instituto Superior de Agronomia, escancaram perante quem não for indefectível apoiante daquelas agremiações o seu carácter basicamente oportunista. Tanto o PCP como o Bloco têm um discurso de superioridade moral em relação aos outros partidos, que este tacticismo desmente.

[O texto do Relatório é de difícil leitura, por estar redigido em catedratês, mas as melhores vozes de técnicos (Paulo Fernandes, António Salgueiro, as dezenas de participantes no estudo, o próprio Coordenador, Cardoso Pereira) ou de amadores - classificação dele - esclarecidos (como Henrique Pereira dos Santos, que tem feito um trabalho notável de divulgação dos problemas do abandono do campo e da floresta, do ordenamento do território, fogos e seu combate, meios, organização, soluções, etc.) lamentam que tivesse sido amputado, desfigurado e só muito parcialmente aplicado].

ii) No comentariado de esquerda a tónica foi, declinada em textos sentimentais quando não piegas, a de que discutir o assunto de Pedrógão Grande era inoportuno enquanto não acabasse o incêndio e um não especificado período de nojo; e que a crítica às evidentes falhas da Prevenção Civil, e de modo geral à barafunda da gestão desta crise, era uma grande falta de respeito pelos mortos e pelos soldados da paz e uma precipitação, por o ambiente não ter aquela serenidade que as grandes decisões profícuas exigem. Daniel Oliveira, por exemplo, tem um texto (falo de memória) nesse sentido, adequadamente replicado nas redes sociais por quem navega nas mesmas águas governamentais. Miguel Sousa Tavares aproveitou, na televisão, para exorcizar alguns dos seus fantasmas e declarou, peremptório, que a culpa era de Cavaco Silva e Álvaro Barreto, o primeiro porque acabou com a agricultura e o segundo porque promoveu o eucalipto. Que o abandono dos campos era inelutável, com ou sem Cavaco, e que tal facto foi positivo para os fugitivos, não lhe ocorre, e que haja muito boas razões para não vilipendiar o eucalipto também não. Sousa fala muito com o coração de esquerda, uma víscera que usa com frequência em lugar da cabeça.

Não é provável que este silêncio se mantenha mas o seu carácter interesseiro, e não generoso e nobre, decorrente do incómodo de saberem que o Governo não está isento de culpas sérias, de algum modo pode ter passado para a opinião pública ofuscada pelo bombardeio da propaganda de um governo supostamente eficaz.

iii) O senso comum não chega para perceber as causas dos incêndios, mas os culpados tradicionais, e que aliás vão mudando (madeireiros, fogueteiros, incendiários, celuloses, mais recentemente alterações climáticas) têm vindo a ser substituídos, à medida que sucessivos técnicos vão sendo entrevistados e lidos, pela conclusão de que a fuga dos campos, e o correspondente abandono da exploração dos subprodutos da floresta, com a inerente proliferação de matos secos que não são limpos, é que está na origem da gravidade dos incêndios. Vão continuar a ouvir-se estas pessoas quando acabar a época dos incêndios e vier outra novidade qualquer que excite e comova a opinião pública? Seria vantajoso para o Governo que assim acontecesse. Há porém muitas vozes, mesmo entre os técnicos, mesmo em comentadores ditos de direita, como Lobo Xavier, que defendem formas de atropelo ao direito de propriedade que, podendo ser necessárias para a eliminação do perigo de incêndio, comportam oportunidades para a gestão pública, companhias majestáticas, lugares de nomeação política, prebendas e gestão ruinosa. Numa palavra, oportunidade para socialismo de contrabando, isto é, que não resulta de escolha consciente. E essa perspectiva pode talvez manter o assunto na actualidade.

 

É desejável que o assunto não saia do radar da opinião pública por três razões: uma é que o problema da época de incêndios precisa de ser resolvido, como já o foi noutros lados, não tanto para que nos livremos completamente deles (coisa que, aliás, segundo o melhor entendimento, não é sequer possível ou desejável) mas para que nos poupemos tragédias evitáveis e prejuízos escusados; outra é que nas várias soluções, ou mistura delas, para o inevitável ordenamento do território, fique claro que há escolhas que ofendem mais, e outras que ofendem menos, a racionalidade económica e o direito de propriedade; e a terceira é que aqueles mortos que serviram em vida para pagar impostos e ansiavam talvez por uma selfie com Marcelo têm direito a que se lhes honre a memória não com evocações líricas mas com a certeza de que não haverá novos defuntos pelas mesmas razões.

publicado por José Meireles Graça às 12:33
link do post | comentar
Terça-feira, 27 de Agosto de 2013

Encenar um pandemónio

 

 

Para quem tiver a curiosidade de se informar junto de quem dedica a sua vida a investigar o assunto, deixo o link para um blog onde se fala de incêndios.

 

Não alinho, em particular, com este post: porque remete para uma "Petição". E apesar de muito bem escrita, estou pouco convencida que a iniciativa de lançar um debate deva partir da Assembleia da República (desconfio que são os últimos interessados e os menos habilitados).

 

O debate que se pede (e bem) deve ser lançado por quem se interessa directamente. Por exemplo, pelas associações de proprietários de terrenos florestais (se é que existem), pelos representantes das empresas que exploram a floresta e as indústrias derivadas, ou pelos núcleos das universidades que estudam a gestão florestal e o combate a fogos.

 

Escrevam para os jornais. Pressionem os canais de televisão. Sejam chatos, insistentes, insuportáveis. Organizem conferências, congressos, colóquios, jamborees. E chamem a imprensa, entupam os telefones e os computadores das redacções. Trepem para as varandas das autarquias e massacrem a paciência dos edis. Acampem, vistam-se de amarelo, cantem uma oitava acima, ou mascarem-se de sobreiros. Perguntem às Avoilas e aos deputados do Bloco qual é a melhor maneira de encenar um pandemónio: talvez seja preciso. E se inventarem um que seja mesmo hediondo estou certa que o dr. Costa disponibiliza o Terreiro do Paço. Desde que lhe prometam que a cidade, durante um dia inteiro, se transforma num lugar infrequentável.

 

Mas não esperem que os políticos se adiantem: isso é um absurdo. Não é esperável nem é uma boa ideia. Os políticos estão lá para ordenar e formalizar as vontades dos cidadãos, e não o contrário. Quando os cidadãos se vêm obrigados a digerir as vontades dos políticos, ainda que revestidas de papel celofane e enlevos do tipo "isto é a pensar no vosso bem", o resultado raramente é diferente de péssimo.

 

De resto, recomendo a leitura dos outros posts do blog. Fala-se muito sobre incêndios e não vejo por lá arrogâncias: inclusivamente, até já dei de caras com o reconhecimento de um erro.

 

Por fim, tem aquilo que para mim representa um selo de qualidade: a presença de Henrique Pereira dos Santos e a referência aos estudos do Zé Miguel Cardoso Pereira.

 

Mas se preferirem continuar a derrapar no asneirol, esqueçam. Nem visitem - pode o cabimento contaminar-vos o protesto.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 23:55
link do post | comentar
Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

No barbeiro com Savonarola

 

O nosso Savonarola da corrupção também, pelos vistos, entende de fogos. Infelizmente, utiliza a mesma receita simplista (sou caridoso - na realidade é simplória) que consiste numa mistura de intuição (o mais traiçoeiro dos sentimentos), populismo, traduzido num apontar de dedo tremente de indignação aos "políticos", ignorância, vertida em análises superficiais e generalizações abusivas, e justicialismo, que se declina em soluções castigadoras dos maus.

 

Paulo Morais acha que, se não houvesse corrupção, não seriam necessários nem impostos altos nem austeridade; que o principal antro da corrupção é o Parlamento; e que, fosse ele o legislador, ai!, varria a testada.

 

Não lhe ocorre que a principal fonte da corrupção é a presença sufocante do Estado regulador e interventivo na Economia; que a nossa tradição no relacionamento dos cidadãos com o Estado é uma de dependência, público desprezo e privada subserviência, abuso do Poder com os fracos e consideração servil perante os poderes fácticos; um caldo cultural de tolerância realista, impotente e videirinha; e que nada disto se resolve em definitivo a golpes de decretos-lei feitos por iluminados com nós de gravata tão grossos como as ideias.

 

Isto sobre o que Paulo diz da corrupção. O que adianta sobre os incêndios releva da ignorância suficiente, que é a sua marca-d'água. Curiosamente, no Público de hoje, saiu um artigo que, sobre a matéria, ensina a pensar. O autor, aliás, tem um blogue, onde costuma falar destas coisas. Não é obrigatório concordar com tudo, nem sempre, mas é obrigatório discordar com boas e pesadas razões, se as houver.

 

Para despachar assuntos em três penadas, quem quiser, toma um táxi ou vai ao barbeiro. Para conversa séria convém algum critério na escolha dos interlocutores.

 

publicado por José Meireles Graça às 20:11
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Últimos comentários

Na parte do financiamento sim, e essa definição po...
capitalista estatal isso sim.
Ainda bem que o leio (de volta).Andava a matutar s...
O importante é que a permissão não contitui uma ob...
Eu fui bem educado por meus Pais e pelos meus Prof...

Arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

universidade de verão

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter