Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016

Melhoramentos

 

Trânsito-Lisboa-2016-10-19.jpg

 

O dr. Medina? Sim. Desfazia-lhe a cara com um martelo pneumático e arrancava-lhe o escalpe. Depois, com muito cuidado, semeava-lhe um jacarandá no lugar do nariz. Toda a área que, no tempo velho, estava ocupada com tufos de cabelo era substituída por um relvado.

 

Durante os trabalhos, executados a frio, o dr. Medina guinchava. E eu esclarecia: "É o progresso!". E ele impacientava-se, e respondia com pontapés. E eu sossegava-o: "Tenha paciência, dr. Medina, eu sei que isto agora custa um bocadinho, mas vai ver que vale a pena. No fim vai ficar muito bonito!".

 

Sim, mas não. Que eu não era pessoa para uma obra destas. Só pensei no projecto, e sobrou-me tempo para todos os requintes durante a hora e meia que demorei a atravessar a Av. da República.

 

__________

 

Imagem daqui.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:28
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016

Maoísmo bicicleteiro

Em tempos, tinha o hábito de, ao fim da tarde, parar num bar no regresso a casa, beber um gin (com gelo, água tónica e limão, ainda não havia a moda de acrescentar   verduras e bagas suspeitas na beberagem), fazer as palavras cruzadas do Publico ou, ocasionalmente, ilustrar os outros frequentadores com as minhas opiniões sobre as controvérsias da semana.

 

O carro, parava-o à porta, em cima do passeio, numa rua com escasso movimento. Um dia, um dos dinâmicos executivos municipais que os eleitores se dão periodicamente ao trabalho de eleger resolveu fazer uma revolução no trânsito. Estas revoluções consistiam geralmente em aumentar o número de sentidos únicos, e portanto sentidos proibidos, espalhar semáforos como cogumelos, plantar parcómetros, e reforçar o policiamento, as multas, as receitas e a publicidade aos melhoramentos que a Câmara, extremosa, dedicava aos seus administrados.

 

E como as pessoas se deslocam de automóvel para ir de um sítio a outro, o excesso de voltas e voltinhas deu como resultado, como dá em toda a parte, que os destinos ficassem mais longe e as pessoas passassem mais tempo ao volante, o que, na inexistência de arruamentos novos, originou um aumento, inteiramente desnecessário, do tráfego.

 

Continuei a estacionar onde sempre estacionei, mas agora com o incómodo de ver os autocarros, que anteriormente por ali não passavam, a abrandar para não me riscarem a máquina visivelmente em contravenção. E mesmo não tendo um excessivo respeito por quanto idiota, local ou nacionalmente, inferniza a vida do cidadão, e quanta legislação é todos os dias defecada, não levo o comportamento anti-social a ponto de incomodar directamente o meu concidadão. Passei a parar longe, quando havia lugar.

 

Outros tempos. Que uma nova edilidade gastou milhões a alargar passeios, substituir pavimentos, aumentar as proibições de estacionamento, voltar a mudar os sentidos de trânsito, reforçar a plantação de semáforos e parcómetros, ostensivamente tornando a utilização do automóvel na cidade, na maior parte do tempo e dos lugares, a pain in the ass, como dizem os americanos com a elegância que se lhes reconhece.

 

Pouco tempo depois passei a ir ao tal bar apenas à noite, para jogar cartas ou snooker. E como o dono instalasse uma aparelhagem de karaoke, o estabelecimento adquiriu subitamente, dois dias por semana, uma grande clientela, infelizmente de moços que se sonhavam carreiras no mundo do fado ou, em casos mais graves, émulos de Freddie Mercury, e mocinhas que com frequência vestiam bem de coxas mas também ousavam cantar e, em algumas marés em que a barulheira amainava, emitir opiniões.

 

Numa das últimas vezes que lá pus os pés, inquiri junto de um responsável camarário, que estimava e calhava conhecer, por que razão quem mandava no trânsito insistia em infernizar a vida dos automobilistas, numa cidade que não é plana, não tem grandes concentrações senão as que a própria câmara incentivou em certas zonas por autorizar desnecessariamente a construção de prédios demasiado altos sem exigir lugares de estacionamento em quantidade suficiente, nem dispõe, embora pudesse dispor, de parques em quantidade suficiente para aquele efeito.

 

O homem, coitado, era de esquerda, razoavelmente culto (ainda que com opiniões um tanto controversas, como a de achar o século XX notável do ponto de vista das realizações artísticas) e inúmeras vezes me aconteceu em amenas cavaqueiras aceder ao mundo fascinante do amor à igualdade, ao colectivo, à mediania, à inveja social, à modernidade se caucionada por gurus do pensamento, e a um bom ramalhete de disparates de política económica que já então andavam no ar.

 

Respondeu-me que tudo isso era deliberado, para desincentivar o uso do automóvel. E falou-me nos transportes colectivos, na poluição, no bem que faz à saúde andar a pé, na bicicleta, que na altura ainda não se tinha tornado, como agora, artigo de moda, e na importação de combustíveis, até mesmo na competição absurda, mas real na nossa cidade, de carros de marca para efeitos de ostentação social...

 

Quanto aos transportes colectivos, disse-lhe o óbvio: que achava óptimo que fossem melhorados, e que os utilizaria quando pessoalmente os encontrasse mais vantajosos do que o meu carro, mas não antes. Quanto à poluição, que não estivesse em cuidados porque isso era um problema que tecnologicamente encontraria solução (e que, de resto, havia inúmeras cidades que tinham menos, e não mais, poluição do que no passado), e que de todo o modo não era premente na nossa cidadezinha. Quanto à saúde, que lhe propunha o negócio equitativo de não me preocupar com a dele, se retribuísse não se preocupando com a minha. Quanto à bicicleta (que eu, aliás, na altura usava com frequência, o que confirmava as suspeitas de alguns dos meus concidadãos de me faltarem uma ou duas aduelas) que lhe augurava problemas muito sérios do sistema cardíaco se ousasse pôr a barriga proeminente em cima de um veículo de tracção animal, no caso de o animal ser ele. Quanto à importação de combustíveis que o Estado nisso encontrava uma das suas maiores receitas. E quanto aos carros que cada um brilha como pode, e tem o direito de o fazer desde que com o que lhe pertence.

 

Acrescentei, finalmente, que eu não pretendia, nem tinha o direito, de dizer às outras pessoas como se devem deslocar, e menos ainda impor-lhes fosse o que fosse na matéria. E que era por isso que ele era de esquerda e eu não.

 

A tese nem convenceu nem caiu bem, mas ficamos, como já éramos, amigos - ambos tínhamos muito em comum, em particular um amor acendrado a finos muito gelados em copos velhos.

 

E a que vêm estas lembranças de há quase duas décadas? Bem, foram suscitadas por este artigo. A cidade não é a minha, nela não me sei deslocar senão com GPS, vou lá raramente, sei que o patético aparelhista do PS que ocupa a presidência a transformou num estaleiro para ganhar as eleições, fiado em que o munícipe o que quer é obra, e que a lógica dos melhoramentos é anti-automóvel, em favor do transporte colectivo e da bicicleta: li algures que se projecta, se é que ainda não existe, uma ciclovia até Vila Franca, o que inculca a esperança de poder um dia chegar a Condeixa, lá onde existe um monumento da autoria de Charters de Almeida, que Cavaco inaugurou in illo tempore. E como no topo da coluna tosca que o falecido projectou há um ninho de cegonhas, não parece rebuscado ter a esperança de que os dejectos vão parar à ciclovia, o que teria uma forte carga simbólica, ao mesmo tempo que reforçava o cunho naturalista do empreendimento.

 

Com o mal dos lisboetas posso eu bem, ainda que suspeite que não é inteiramente do bolso deles que saem os recursos para estes deslumbres. Mas que não se promova a construção de parques (em altura, o argumento da área ocupada, 15%, não só não impressiona como poderia não aumentar, crescendo todavia a disponibilidade de lugares), e que em vez disso se promova a bicicleta, numa altura em que o motor de explosão está perto de ser substituído pelo eléctrico, e em que o automóvel autónomo se deslocará mais depressa e com mais segurança, desafia o senso, a lógica e a liberdade.

 

Mao, um dos maiores criminosos do século passado, morreu em 1976, e não há hoje qualquer dúvida sobre a monstruosidade do seu regime. Apesar disso, há ainda maoístas bicicleteiros. E escrevem nos jornais.

publicado por José Meireles Graça às 11:49
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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

Certas ditaduras

 

Abusos-NYC-03.jpg

 

Os "mercados" são entidades abstractas, caprichosas, com "nervos" mas "sem coração", que impõem indignidades e "retrocessos civilizacionais". Na versão, convém esclarecer, de uma banda larga de políticos portugueses.

 

António Costa expulsou os carros dos pobres do centro de Lisboa. Contou com a brandura do PSD e do CDS. Deve ter a alma num farrapo, sabendo muito bem o que fez - em nome das "partículas".

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 21:06
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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Conversa de sarjeta

 

Lisboa-Inundações-02.jpg 

 

Todos os anos ou quase, desde que me lembro, assim que chove com um bocadinho mais de força, Lisboa sofre inundações. Exactamente nos mesmos sítios, que toda a gente conhece: são os bairros mais antigos, onde vivem os mais velhos e os mais pobres.

 

Estas “surpresas” são o resultado directo de um sistema de drenagem obsoleto, subdimensionado, e parcialmente em ruínas, que não assegura o caudal suficiente para aguentar as águas da chuva mais as águas do Tejo se for dia ou noite de maré cheia. O dr. Costa sabe disto, como souberam todos os anteriores presidentes. A Câmara Municipal de Lisboa não tem falta de engenheiros num serviço que antigamente se chamava “de Infra-estruturas e Subsolo” e deve ter agora um nome mais macio.

 

As obras necessárias para corrigir estas redes são de uma dimensão e de um preço que não se ajustam a um único mandato autárquico (nem 2 e, possivelmente, nem 3 ou 4), e muito menos se ajustam à respectiva campanha eleitoral. Que eu tivesse visto, nenhum candidato sentou a sua importância na cadeira mais alta do município com promessas de obras debaixo do chão, onde causam transtorno mas não atingem a visibilidade e a glória dos pavilhões multiusos e dos recintos para regabofes interactivos. Nem nunca os artistas de trazer por esta casa estariam dispostos a defender semelhante indignidade.

 

O melhor é esperarmos pela volta do sol. Que a conversa das sarjetas suje o facebook, preencha os espaços mortos dos noticiários, e faça títulos extravagantes nos jornais, decorre da natureza parda do problema e reflecte a irrelevância do nosso jornalismo. Ainda que as sarjetas rebrilhassem de limpeza, ninguém nos livrava das inundações. Quem aproveita com o erro é o sr. Presidente, que durante os intervalos culpa as Juntas de Freguesia à boleia das novas competências, e sacode os restos para os meteorologistas porque “não avisaram”. Quando se usam frases feitas para combater desastres sérios aliviam-se os espertalhões. E os velhos têm muita paciência - não é assim, dr. Costa?

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 22:02
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Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Senhorzinho Costa

 

Costa-01.jpg

 

Já é, que se saiba ou que eu tenha dado conta, a segunda vez que o faz. Com bravata. No dia das primárias reuniu e celebrou no Fórum Lisboa, onde funciona a Assembleia Municipal; aparentemente ontem chamou Álvaro Beleza para conspirar, presumo que no seu gabinete. Os jornais e as televisões fornecem-nos as notícias, sem se espantar que António Costa transfira a sede do PS para as instalações da Câmara Municipal de Lisboa.

 

De resto, foi sempre assim que Costa se entendeu com uma vasta reserva de colaboradores desinteressados para acertar festas, foguetórios, cantorias, forrobodós, maratonas, obrinhas, obretas e entupimentos vários que vêm desanimando a cidade de há uns anos a esta parte.

 

Nada disto abate o jornalismo português, que aplaude a descontracção convencido da sua modernidade e considera razoável que Lisboa se pareça cada vez mais com uma prefeitura, presidida por um coronel brasileiro de telenovela.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 20:47
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Segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2014

Sete obstinadas colinas

 

 

Aviso já que não vale a pena ler a notícia inteira: o título* chega perfeitamente. O resto, para quem tenha curiosidade, mostra a promiscuidade e as trapalhadas entre o Estado e as empresas predilectas do regime quando se desperdiçam dinheiros públicos à boleia de "conceitos" importados e absurdos.

 

Neste caso, importa perceber uma ideia simples: Lisboa (como o Porto e a maior parte das cidades portuguesas), pela sua topografia e salvo áreas muito reduzidas, não se presta a bicicletas. E nem pela cabeça de um robalo passa a ambição de ver os lisboetas, aplacados por operações de "mudança de mentalidades", exercer felizes a sua "sensibilização" de ladeira acima - transpirando a "sustentabilidade" do planeta e a bazófia dos figurões que vivem à conta deles.

 

A moda das ciclovias, com os respectivos adornos, serve para perfumar um caixote de lixo. Feito de incompetência, abuso, descaramento e muita propaganda. Assim que se rasga a superfície, vê-se o que não gostamos.

 

__________

 

* "Ponte ciclável e pedonal sobre a Segunda Circular vai servir para quê?"

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 20:14
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Sexta-feira, 1 de Março de 2013

Tracção animal

Mais um dinâmico cientista social que tem coisas para vender. Chama-se Olivier Lourdel e quer incentivos para os clientes e desincentivos para os refractários. A empresa chama-se Altermove, e distribui bicicletas, trotinetas e, pelos vistos, tretas.

 

E como as pessoas, na sua insondável ignorância, não sabem o que lhes convém e persistem em não andar à chuva nem suarem como cavalos para ir daqui ali, vamos todos, a golpes de multas e proibições, contribuir para a melhoria do ambiente, dado que "os níveis de CO2 nas cidades estão a atingir níveis insuportáveis".

 

Mas o Francês não se fica a rir. Nós por cá também temos especialistas da mesma extracção: "Se queremos construir cidades e ordenamento das zonas urbanas, temos de fiscalizar e garantir que todas as regras de estacionamento sejam implementadas a bem do cidadão, embora muitas vezes haja contestação", afirmou Luís Garcia, da Zetes Burótica, uma empresa de soluções de mobilidade.

 

Estou certo que António Bámoláver Costa encara com bons olhos estas madurezas: é moderno, cria postos de trabalho no ramo dos fiscais, forma os cidadãos recalcitrantes no são espírito das regras e proibições, além de aumentar a receita do município via multas. Tudo isto, que não é nada pouco, sem a maçada da melhoria dos transportes colectivos, ou a promoção da construção de parques de estacionamento.

 

Só benefícios, sem esquecer o nível dos níveis de CO2, que está a ficar "insuportável".

 

Abençoada desertificação: que para os meus lados, tirante a ocasional rotunda e o respectivo estropício escultórico, a ideia das bicicletas compulsivas ainda não mostra o seu nariz progressista.

 

E daí, não sei: não me tenho inteirado do nível dos níveis de CO2, seja lá essa merda o que for. 

publicado por José Meireles Graça às 19:18
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012

O problema com as nossas cidades

(Originalmente publicado no Senatus, em 30 de Janeiro 2012)

 

 

 

Hoje decorreu no Teatro São Luiz o debate "Rejuvenescimento e Identidade Cultural de Lisboa", organizado pela respectiva Assembleia Municipal. Isto é o que eu penso do assunto, e foi isto que fui lá dizer:

 

As cidades são uma das primeiras expressões de identidade cultural. Os centros históricos das cidades portuguesas têm vindo a morrer.

 

Sucessivos governos, tanto centrais como locais, não conseguiram resistir a duas tentações. A primeira foi a da promiscuidade com os grandes promotores imobiliários. A segunda foi a tentação de "deixar obra". Uma e outra conduziram ao desvio de massa construída para os subúrbios das cidades, onde havia espaço. Não só havia espaço como este era relativamente barato. Compravam-se terrenos agrícolas, faziam-se uns truques com os Planos Directores Municipais, alteravam-se as manchas de ocupação, convertia-se aquilo em zona urbana, subiam-se os índices permitidos (de ocupação, de impermeabilização, etc.), e estava encomendado mais um conjunto de fogos. Não vou falar no mal que isso fez à economia, que foi muito. Mas vou falar no mal que isso fez aos centros históricos das cidades, que não foi menos.

 

O objectivo de fazer política social de habitação à custa da banca arruinou o que sobrava do mercado de arrendamento. Durante muito tempo, em lugar de resolver o problema eleitoralmente sensível da legislação sobre as rendas, o Estado entendeu-se com a banca para oferecer toda a espécie de vantagens à concessão de crédito, com juros muito baixos, sobreavaliação dos imóveis e ausência de cálculo dos riscos de incumprimento. Com isto, o Estado convenceu-se que não existia um problema de habitação em Portugal. Convenceu os cidadãos que era possível e normal que as famílias fossem proprietárias das casas em que viviam. Às vezes, também das casas de férias. E elevou a aquisição de casa própria a níveis delirantes. Hoje, muita gente não consegue pagar as prestações e olhamos para um país repleto de trambolhos devolutos.

 

Enquanto isto acontecia, os centros históricos ficaram quase exclusivamente entregues à iniciativa de particulares. Aí o Estado actuou de outra maneira. Criou gabinetes técnicos (muitas vezes empresas municipais, as famosas Sociedades de Reabilitação Urbana) destinados à "defesa" das chamadas "zonas sensíveis" (defesa contra quê? Ou contra quem?). Inventou toda a espécie de entraves ao licenciamento urbanístico. Acrescentou a complexidade da regulamentação, a morosidade das respostas, os valores absurdos das taxas e impostos, e o último recurso dos incompetentes: meter o nariz em tudo e colocar as decisões ao nível do "gosto" (isto assim fica um bocadinho desenquadrado, ficava mais bonito se as mansardas fossem em "em bico", porque é que não se tira este revestimento e se põe antes um que seja mais "a condizer" com a "traça antiga", etc.). Este "gosto" foi debatido de um lado da mesa por arquitectos municipais que nunca exerceram a profissão, e do outro lado por artistas saídos em tabuleiros das dezenas de faculdades de arquitectura que, com a escassez de trabalho e deficiência de formação, estavam desejosos de "deixar marca". Assim nasceram uma série de híbridos, negociados de forma a garantir que o resultado final era caríssimo, ia contra a vontade de todos e tinha o parecer favorável das entidades competentes. Quem se meteu nisso uma vez, raramente repetiu. Na impossibilidade de rentabilizar o seu património, muitas vezes envolvido em processos complicados de natureza cadastral, as pessoas foram desistindo. E o interesse público, que o Estado devia defender, transformou-se em desinteresse generalizado.

 

Importa que o Estado comece por reabilitar os seu imóveis devolutos (em Lisboa, por exemplo, é o maior proprietário). E para se dar ao respeito, tem que reabilitar estes imóveis no mais absoluto cumprimento da legislação que obriga os particulares a cumprir. Importa que o Estado cumpra também os prazos legalmente estipulados para dar resposta aos pedidos de licenciamento. Que torne claros, públicos e razoáveis os valores que cobra pelas operações urbanísticas. Que reforme a legislação que regula a reabilitação de edifícios, designadamente a das acessibilidades e a do comportamento térmico, de modo a garantir que a mesma seja inteligível, aplicável e sensata.

 

O Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios é um dos mais exigentes da Europa. Se não for o mais exigente. O que é curioso num país com amplitudes térmicas relativamente reduzidas (porque estamos no Sul e porque estamos junto ao mar), e com um construção tipicamente pesada em termos de inércia térmica. A inércia térmica de um edifício é a capacidade de resistência a variações térmicas no seu interior, provocadas por alterações térmicas no exterior. Mas o referido regulamento não permite sequer considerar o valor real da inércia térmica dos elementos construtivos; estabelece valores máximos de 150 Kg/m2 ou de 300 Kg/m2 consoante os elementos estejam ou não em contacto com o exterior. A exigência deste regulamento obriga a cálculos complicadíssimos para as situações de Inverno e, da última vez que me informei, as DOZE entidades conhecidas que o concertaram e elaboraram (porque ainda são referidas as "associações representativas do sector", cuja identidade não é revelada) preparavam-se para aplicar o mesmo detalhe aos cálculos das situações de Verão.

 

Independentemente da complexidade dos cálculos, e das soluções construtivas que este regulamento exige, poder-se-ia pensar que os resultados eram bons. Mas não são. A maior parte das vezes, o seu cumprimento resulta num gasto incomportável em consumos energéticos mensais.

 

Com o regulamento das acessibilidades acontece a mesma coisa. As exigências são de tal ordem abrangentes que, para conseguir cumpri-lo, os promotores vêm-se obrigados a fazer obras caríssimas, em locais muitas vezes incompatíveis com a própria morfologia dos edifícios, o que os torna absurdos quando não os torna inabitáveis.

 

Seria bom que o Estado validasse as opções conjuntas dos proprietários e dos técnicos responsáveis pelos projectos e pelas obras, retirando as trapalhadas do caminho e permitindo aos cidadãos criar e habitar as suas cidades de acordo com a sua identidade cultural. De outra forma, não chegaremos sequer a conhecê-la.

 

Importa, por isso, que o Estado desista da ideia de se defender dos cidadãos. O bom-senso dos cidadãos tem-se mostrado, em muitas situações, infinitamente superior ao das entidades supostamente criadas para lhes dizer como devem habitar, limitando-lhes as opções em nome de uma escolha mais correcta. É preciso arriscar e absorver algumas escolhas erradas. Não é nenhum drama, nem é irreversível. O drama é deixar morrer.

 

As cidades mais interessantes, mais confortáveis e mais civilizadas evoluiram sempre de forma orgânica, mais apoiadas na manutenção do que na construção. Responderam às necessidades de cada geração sem impedirem que as gerações seguintes pudessem responder às suas. Isto define uma cultura.

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:55
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