Quinta-feira, 9 de Março de 2017

As explicações sobre a censura da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas ao professor Jaime Nogueira Pinto

2017-03-08 Marcelo explicações Nogueira Pinto.jp

O doutor Rebelo de Sousa pediu explicações à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa sobre a censura à conferência do professor Jaime Nogueira Pinto por pressão, formal e através da ameaça de agressões, da associação de estudantes liderada por dirigentes bloquistas. Fica-lhe bem, mesmo que a reacção dele neste caso não tenha sido tão rápida como tem sido haitual, talvez por, ao contrário do que tem sido habitual, e como foi por exemplo na piadola que dirigiu à doutora Teodora Cardoso, ter preferido combinar a resposta antes de fazer a pergunta?

Ó senhor doutor Rebelo de Sousa, essas explicações até eu lhas posso dar!

Desde que perdeu em Novembro de 1975 a capacidade para fazer o gosto ao dedo, e à natureza democrática social-fascista do seu ódio às liberdades civis, nos domínios da censura, dos saneamentos e da intimidação pela violência verbal e física, a esquerdalhada esperava uma oportunidade de o Partido Socialista ser conquistado pelos seus deserdados que lá se foram insinuando ao longo de décadas na procura de uma vida melhor e mais próxima do poder e da distribuição de benefícios que o exercício do poder facilita, o que finalmente sucedeu com a ascensão do António Costa ao controlo do partido, e com a substituição do Presidente da República, o mais alto magistrado da nação responsável por garantir a preservação dos direitos constitucionais, por uma figura apatetada que confunde a preservação dos direitos constitucionais com um concurso de miss simpatia para conquistar, através da distribuição de afectos aos próprios e de alfinetadas aos que eles odeiam, a afeição dos que os violam.

O que explica este surto de brigadas facistas a impedir com sucesso a livre expressão dos inimigos da sua revolução através de ameaças verbais e físicas, e a cedência das instituições públicas à sua intimidação violenta, é justamente o encorajamento à intimidação decorrente da ausência de um verdadeiro Presidente da República e do abandono do país à maioria minoria que circunstancialmente se instalou no poder onde prevalecem estes saudosistas do PREC.

O que explica o cancelamento é o modo como exerce as funções presidenciais. Erga-se, se ainda é capaz!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:06
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Sexta-feira, 3 de Março de 2017

Magistratura de influência

2017-03-03 Marcelo milagre Fátima.jpg

Uma das funções tradicional, que não constitucionalmente, atribuídas ao Presidente da República no sistema político português é a magistratura de influência, ou seja, a utilização da autoridade e da credibilidade que lhe advêm de, simultaneamente, ser o supremo magistrado da nação, de ser dotado da maturidade e ponderação desejáveis e expectáveis num presidente, de ser capaz da equidistância que o eleva acima das querelas partidárias ou entre facções e o faz ser ouvido por todos, e da escassez e gravidade das intervenções públicas que atribuem a cada palavra que profere um peso institucional, para influenciar as posições das diversas entidades políticas, mesmo aquelas que não tem poderes formais de influenciar.

Acontece que o doutor Rebelo de Sousa está carregado de qualidades, mas infelizmente de nenhuma destas, com a excepção óbvia, para mal dos nossos pecados, da primeira, que é inerente ao cargo para que foi eleito. Pelo que o seu exercício de magistratura de influência não pode ser muito eficaz, não por sua culpa, mas por culpa das qualidades que a natureza, ou Deus para os crentes que ele gosta de citar, lhe deu. Falha que mais que compensa com o apoio incondicional ao governo através da dispensa permanente e abundante de afectividade de que, essa sim, a natureza o dotou abundantemente.

Mas, mais infelizmente ainda, a falha na magistratura de influência do doutor Rebelo de Sousa não fica por aqui.

De um ponto de partida em que só um deles dizia graçolas ordinárias, chegou-se a um ponto de chegada em que tanto o primeiro-ministro como o presidente da república as dizem. O que significa que a magistratura de influência fez ricochete e funcionou no sentido oposto ao desejável e expectável, resultou numa magistratura de se deixar influenciar.

Coisa para os cientistas do comportamento tentarem explicar, mas que um cantor já falecido sintetizava muito bem no verso "Quando a cabeça não tem juízo...".

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:15
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2017

E o rei dos sapos?

2017-02-15 Costa garante a Domingues.jpg

No pântano a água anda agitada e, com a agitação da água, solta-se o lodo do fundo e fica cada vez mais turvo.

Mas, se lá no fundo está tudo cada vez mais turvo, cá em cima, no fundo, é claro como a água. É um jogo de cadeiras romanas. Na primeira jogada o mundo era todo deles, até os engolidores de sapos estavam com eles, e prometeram mundos e fundos a quem colaborasse.

Quando a coisa deu para o torto, os sapos puseram-se todos ao fresco e sacrificaram o banqueiro, o único que ficou apeado. Até lhe exigiram que entregasse a declaração. Ficou para a história como o oportunista cujo principal objectivo na vida era esconder o seu património da população que lhe ia pagar o ordenado. Um sacana! Pode não ter sido brilhante como estratégia de jogo ter queimado alguém que sabia mais do que dizia, mas quando se tem o rei na barriga a teoria dos jogos deixa fazer tudo, e tudo acabar bem. E, de facto, na primeira jogada foi ele que saiu do jogo. Mas o jogo não acabou.

A segunda jogada foi mais renhida. Apareceram comunicações à superfície, esconderam-se as comunicações de novo no lodo, mas há sempre um Correio da Manhã que as consegue descobrir, e, no que parecia um jogo em que já havia cadeiras para todos, com todos a torcer para a coisa ficar por ali, até porque havia coisas mais importantes para tratar e não havia documentos a comprometer os jogadores ainda na roda, veio-se a reveler que não, que afinal faltava uma cadeira, e que mais um dos jogadores ia ter que ficar apeado.

Quem? Obviamente, o mais totó, o que tinha sido incumbido pelos outros de conduzir a marosca sem, por não ser político nem advogado, se prevenir contra deixar provas documentais espalhadas pela cena do crime. E deixou, será ele a saltar fora. E é uma boa estratégia de jogo jogar fora o jogador que conhece mais por dentro o processo e sabe o que cada um dos que restam sabiam, mesmo sem ter os documentozinhos assinados a provar o que eles sabiam? Pode não ser...

E o jogo acaba aqui? Não, este jogo só acaba quando todos os sapos ficarem apeados, inclusivamente o último. Os dois jogadores que restam são virtuosos naquilo a que se chama o tacticismo político. Qualquer deles merece ficar em jogo até ao fim, mas um deles vai ter que perder nesta jogada. Qual deles? O Correio da Manhã ditará com as suas fugas de informação a conta-gotas. Mas um deles foi à vinha enquanto o outro ficava à porta, é mais provável que seja o que foi à vinha a saltar. O futuro o dirá.

Neste jogo só há uma coisa fatal como o destino. Tanto os que saltam, como os que ficam, estão cheios de lama até ao pescoço.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:49
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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2017

Manuela Rebelo de Sousa não rima com ética

2017-02-10 MFL política de verdade.jpg

O governo meteu-se numa grande trapalhada.

Encheu-se de brio e decidiu escolher para liderar a CGD um gestor profissional. O homem já se tinha reformado, e bem, que os gestores profissionais da banca reformam-se cedo, e bem, mas mesmo assim levava caro para voltar a trabalhar, e não estava disposto a aceitar o lugar a não ser que o isentassem de apresentar ao Tribunal Constitucional a declaração de património e rendimentos que segue directamente para as páginas do Correio da Manhã. A intenção de manter o seu património e rendimentos ao abrigo da curiosidade alheia fica mal num gestor da CGD, e é ilegal, mas é completamente ética e legítima em qualquer outro cidadão, assim como a decisão de declinar o convite se não fosse satisfeita. Mas o governo, levado pelo brio, e inebriado pela missão de fazer Portugal porreiro de novo e livre da austeridade, decidiu fazer-lhe a vontade com um arranjinho legal para o isentar dessa exposição. Melhor ainda, delegou nos advogados do banqueiro a melhor redacção para a lei que publicou com essa finalidade. Quando a coisa foi tornada pública, ainda ensaiou um argumentário na linha de é preciso ir buscar os melhores e aliciá-los com condições concorrenciais com o mercado, mas acabou por perceber que com a medida corria mais risco de se tornar impopular do que estava disposto a correr, e abandonou o banqueiro e a sua intenção de manter o património e os rendimentos em privado à sua sorte. Começou a negar que tivesse tido intenção de isentar o banqueiro da declaração e passou mesmo a dizer publicamente que era claro que o banqueiro teria que os declarar. O banqueiro acabou por se demitir pouco depois de entrar em funções, causando um embaraço ao governo, não por ter enganado o país com a combinação secreta com o banqueiro, nem por ter depois enganado o banqueiro renegando a combinação secreta, mas por ter desde a primeira hora declarado o virar de página na CGD como uma bandeira política, e se ter passado um ano sem virar página nenhuma. Mas de cara lavada por, segundo o próprio, nunca ter acedido à pressão do banqueiro para alterar a lei à medida das suas aspirações pessoais.

Mas na melhor cara lavada cai a nódoa, e têm-se vindo a descobrir trocas de correspondência que provam que o governo tinha mesmo prometido ao banqueiro remover-lhe a obrigação de apresentar a declaração, que o decreto que a intentava remover tinha sido redigido em colaboração com os advogados do banqueiro, e que o governo tinha mentido ao país ao negar tudo isto. Nada de contraditório com o nível habitual de ética deste governo desde que se começou a formar, e nada de embaraçoso, que é tão embaraçoso para este governo ser apanhado a mentir e a traficar interesses públicos por privados como para o Donald Trump ser apanhado a fazer pleneamento fiscal: é, pelo contrário, motivo de orgulho por ter conseguido arranjar maneiras de enganar os outros.

Mas neste caso concreto havia um detalhe que, mesmo sem ser embaraçoso, podia trazer transtornos: além de, como o primeiro ministro e o secretário de estado, ter mentido a todo o país, o ministro também tinha mentido na comissão de inquérito no parlamento. Uns alegarão que é mais grave mentir ao país do que a uma comissão parlamentar. Mas, à luz da lei, é mais grave mentir ao parlamento do que ao país, porque enquanto mentir ao país só tem consequências políticas, o que significa que um bom equilibrista se consegue aguentar à bronca sendo mesmo apanhado a mentir, e é olhar para o Sócrates para ver a prova desta asserção, mentir a uma comissão parlamentar pode ter consequências penais. É motivo de orgulho, mas pode ser um incómodo.

Apanhado numa grande trapalhada, logo recebeu o apoio do doutor Rebelo de Sousa que, com um passado de jurisconsulto de prestígio, interrompeu o seu programa de comentário diário sobre a actualidade política para lhe oferecer as linhas mestras de uma boa estratégia de defesa: sem um papelinho assinado  por governantes, não se pode provar que o governo assumiu o compromisso com o banqueiro. É uma linha de defesa genial, e tanto se aplica para livrar das garras da justiça governantes corruptos que não passaram recibo do prémio como violadores que não escreveram uma carta à vítima a confirmar a violação. O jurisconsulto ilustre teria dado um advogado de primeira linha se não se tivesse dedicado ao comentariado diário.

Mas, mesmo tendo a trincheira jurídica para se defender da acusação de mentira à comissão parlamentar já eregida, havia ainda que, que vivemos em democracia e a opinião pública acaba por ser regularmente vertida em votos, acalmar do povo o gran sussurro. Disso se ocupou a turma da propaganda do costume, desta vez liderada pelo recém nomeado director-adjunto de informação da RTP: a questão da mentira do ministro é um fait-divers, um assunto com que não se devia perder tempo que é precioso para discutir assuntos muito mais importantes para o país. Passa-se um pano sobre o assunto e não se fala mais nisso. Boa? Se não é boa é, pelo menos, o melhor quer se pode arranjar, e formou-se um coro a esconjurar a discussão com este argumento.

A drª Manuela Ferreira Leite, ex-presidente da Comissão Política Nacional do PSD, tal como o doutor Rebelo de Sousa, também juntou a sua voz a este movimento que apela ao branqueamento do caso das promessas ilegais feitas por governantes a um banqueiro, das declarações públicas dos governantes a anunciá-las, do acolhimento das sugestões dos advogados do banqueiro para redigir a lei para as legalizar, do recuo dos governantes quando perceberam que a medida afinal era impopular e lhes podia custar mais do que render, e do estado de negação absoluta em que entraram depois deste recuo desmentindo tudo, mesmo o que está documentado, para arrumar o assunto a tempo de salvar a pele dos aldrabões que começaram por albrabar o país cozinhando leis com o banqueiro, depois aldrabaram o banqueiro abandonando o compromisso, e agora aldrabam toda a gente negando tudo, a pretexto de não ser um assunto importante e haver outros mais importantes para discutir.

De facto há coisas mais importantes do que este caso específico, tão importantes que ele é apenas um mero caso específico de uma realidade geral. Há governantes que assumem em segredo compromissos ilegais com interesses privados. Há governantes que delegam nesses interesses privados a própria redacção das leis que legalizam a satisfação desses compromissos. Há governantes que enganam o país, e também enganam os privados com quem enganam o país assumindo compromissos secretos. Há governantes que negam, mesmo quando há provas a comprovar, as trafulhices que fizeram. Mas isto não tem nada de especial, é o dia-a-dia da política que em democracia se tende a resolver, se não de imediato, pelo menos com o tempo. Mas há ex-presidentes do maior partido da oposição, que no caso actual é o maior partido português medido pelos votos conseguidos nas eleições legislativas, a branquear estas pouca-vergonhas, fornecendo aos vigaristas sugestões para se defenderem formalmente contra a evidência dos factos, ou sugerindo que se deixe a vigarice ficar impune porque há coisas mais importantes para se discutir.

E o mundo está cheio de Trump e Le Pen à espreita de oportunidades como esta para dizer aos eleitores que o sistema está podre (como se estivesse mais do que uma fracção do grau de podridão a que pode ascender com eles) e estão todos feitos uns com os outros (o que não é sempre verdade mas, neste caso, e dadas estas posições, até parece que é).

Não, drª Manuela Ferreira Leite. Isto não é uma trica entre duas pessoas. Isto, incluindo os seus comentários a desvalorizá-lo, é uma ameaça à democracia.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:39
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Tenha vergonha, doutor Rebelo de Sousa!

2017-02-07 Mercelo troika banca.jpg

O doutor Rebelo de Sousa vem a público apontar mais uma falha da troika.

Sabemos muito bem que a crítica não é dirigida à troika, mas faz parte de um pacote de críticas ao governo anterior por não ter resolvido os problemas da banca, recitado, em uníssono ou com variações, com os socialistas, os bloquistas e, em menor grau, os comunistas.

Um pacote inteligente. Quanto mais se discutir o problema da resolução do problema, menos se discute o problema da origem do problema, as vigarices concertadas pelo anterior primeiro ministro socialista para financiar as políticas económicas do seu governo, ou apenas para fazer chegar dinheiro aos seus amigos, ou ambas, envolvendo maioritariamente a CGD, banco público tutelado pelo governo, a tolerância do regulador, mas também outros grupos financeiros que, entre o deve e o haver de cruzamentos de interesses variados, encontravam estímulo para também apoiarem as políticas económicas do governo. E quando a discussão se orienta para a origem do problema, por exemplo na comissãos parlamentar de inquérito aos negócios ruinosos da CGD, barram-na na medida das suas possibilidades e dos limites da legalidade.

E ganham todos com este concerto. Os socialistas por encobrirem as vigarices que promoveram e arruinaram a banca, pública e privada. Os bloquistas e comunistas por encobrirem que é tanto ou mais fácil arruinar bancos públicos, com os mecanismos de regulação que têm e a sua porosidade aos interesses privados dos governantes, como privados, quando caem nas garras de pequenos grupos de accionistas de referência determinados a usá-los para financiarem as suas aventuras negociais e empresariais privadas. O doutor Rebelo de Sousa porque tem que se livrar do líder da oposição antes das próximas eleições presidenciais e do seu provável desapoio explícito, que é muito diferente do anterior apoio discreto pela máquina do partido a pedido do candidato sem apoio oficial que levantasse dúvidas sobre a independência do candidato, à sua recandidatura.

Unidos nos interesses e no propósito, também facilmente encontram mensagens comuns, e as críticas à troika, atingindo o governo que implementou o programa acordado entre o anterior gocerno socialista e as instituições da troika, são um dos temas mais comuns.

Só que são tão estúpidas como desonestas. A troika enviou para cá meia dúzia de funcionários entre técnicos e dirigentes, ou que fossem duas dúzias, que trabalharam com a informação que lhes foi dada pelo governo (Sócrates) e pelas instituições com quem reuniram, não trouxe batalhões de auditores para passarem a pente fino balanços de bancos, validando se cada crédito era cobrável ou incobrável, se a apreciação que dele faziam os auditores e reguladores era realista ou optimista, nem andaram a fazer contagens de armazém em empresas para validar os seus balanços. Quando alguém sugere que a troika falhou na detecção da verdadeira situação da banca não está interessado na detecção da verdadeira situação da banca, mas na ocultação da verdadeira situação da banca. Ainda hoje, como se tem visto no esforço para esconder a da CGD.

O doutor Rebelo de Sousa lamenta que a troika não tenha descoberto há mais tempo as fragilidades da banca.

Pois eu lamento que não as tenha descoberto há mais tempo o mais notável comentador televisivo dos últimos quarenta anos, próximo, por amizade e mesmo parentesco, do grupo de vigaristas que, logo a seguir à quadrilha Sócrates, Constâncio, Santos Ferreira e Vara, que conseguiram atirar a gigante CGD ao tapete, maiores prejuízos causou à banca portuguesa, os banqueiros do BES, ou que se sabia delas se calou muito caladinho, não se sabe se para proteger os amigos e parentes eventualmente envolvidos neles. É que, se da sua posição de observação privilegiada próximo dos principais actores, e de arauto de influência absolutamente firmada na opinião pública a nível de até ter feito tombar governos, as tivesse denunciado em tempo, muito dinheiro de poupanças de gente séria teria sido poupado a ser derretido em negócios familiares dos banqueiros, muito dinheiro dos contribuintes teria sido poupado a indemnizar estes lesados pelas vigarices que os banqueiros lhes fizeram, e muito mais seria poupado se eventualmente os socialistas, bloquistas e comunistas vierem a conseguir levar avante a sua intenção de nacionalizar o banco.

Tenha vergonha, doutor Rebelo de Sousa!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:20
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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2016

Comunicados a granel

"O que abomino no falecido é mesmo a música, se é que aquilo merece a designação", viu-se obrigado a esclarecer no Facebook um amigo meu, por alguns seguidores terem imaginado que a razão da aversão era a orientação sexual de George Michael.

 

Como o amigo em questão tem a pena muitíssimo afiada, e além disso suponho que não dá "amizade" a todo o cão e gato, é possível que não lhe caiam excessivamente em cima. Mesmo assim, diz uma leitora:  "Caramba, F....., foram só 100 milhões de álbuns que vendeu. 100 milhões que não percebem nada de música".

 

O argumento, é claro, não vale nada: desde que existe música gravada que gerações sucessivas de "génios" da música popular são idolatrados por milhões até que, mesmo que não cessem a actividade até morrer, vão decaindo em popularidade. Vivem ainda na memória dos que os amaram, porque estes, de cada vez que os ouvem, revivem as emoções e o tempo, por definição saudoso, em que eram mais novos; depois, passam à categoria de moribundos; e com o passar das gerações, e a chegada de revoadas de novos intérpretes, sobrevivem na wikipédia. Há aí muita gente que se lembre de Little Richard ou Otis Redding, para não ir mais para trás? E se, numa festa de cotas, alguém se lembrar de passar The Byrds, os infantes da casa não perguntarão, com um rictus de superioridade nas bocas frescas do verdor da idade e dos shots: quem são estes?

 

A cultura popular é efémera, na música como noutras artes. E Georges Michaels abundam na música anglo-saxónica, como aliás na nossa, à nossa escala. Ou acaso o cantor que mais vende, entre nós, desde 1988, não é Tony Carreira, cujos méritos virão a ser sepultados juntamente com as pessoas que lhe enchem os "concertos"?

 

Na literatura as coisas são menos claras, que o autor mais vendido ainda não é Shakespeare, como se poderia supor, mas Agatha Christie; e Barbara Cartland ocupa um honroso terceiro lugar, sendo que o quarto não é Tolstoy, que mal ultrapassa Corín Tellado. Mas é aposta ganha que o tempo corrigirá as hierarquias, mesmo entre nós, onde há uns tempos a novela mais vendida de sempre não era nem Os Maias nem o Amor de Perdição, mas A Rosa do Adro, que trata de "uma jovem alegre e despreocupada, portadora de rara beleza e senhora de uma voz melodiosa, cujo som ecoava pelas quebradas dos montes" - um pastelão.

 

Sucede que a música faz sonhar, sorrir, chorar, mexe connosco ou, ao menos, a maior parte de nós, e portanto um caramelo que nos venha com argumentos, estéticos ou outros, demonstrar que gostamos de lixo é um agressor porque destrata os nossos sentimentos. As pessoas, se perguntadas sobre que género de música ouvem, respondem com frequência: ah, eu gosto de toda a música, desde que seja boa. E se o abelhudo insistir, e quiser saber o que é música boa, podem vir argumentos sofisticados, sobretudo em se tratando de gente que se abastece de opiniões em artigos e publicações sobre o que aprecia, mas no essencial quererá dizer: música boa... é aquela de que gosto.

 

Manda portanto a prudência que, em matéria de música, guardemos as nossas opiniões para nós, a menos que saibamos discretear sobre os méritos relativos das missas, paixões e oratórios de Bach, caso em que ninguém se ofende, até porque ninguém lerá. E em literatura estamos à vontade, se não pertencermos à tribo dos literatos (se pertencermos é mais seguro aderir à escola do elogio mútuo), porque ainda há menos gente a ler sobre literatura do que a propriamente dita. As artes plásticas são igualmente seguras, desde que haja o cuidado de dizer coisas profundas que signifiquem nada.

 

O critério da quantidade para hierarquizar os autores de obras ouvidas, lidas ou vistas, só serve se tivermos a maçada de esperar bastante mais tempo do que o que temos de vida, do mesmo modo que os que retemos do passado quase nunca são os que os contemporâneos endeusaram.

 

Mas podemos imaginar quem, morrendo, se vai libertar da lei da morte, ao menos por algum tempo; e decerto sabemos quem são aqueles de que nos despedimos com comoção, abalados colectivamente porque engrandeceram, ou simplesmente melhoraram, o país, assim como reconhecemos a algumas personalidades estrangeiras importância que faz com que não nos - a nós, portugueses - sejam indiferentes.

 

George Michael era um desses? Não, não era. E por isso estas palavras - "Manifesto o meu pesar pela morte de George Michael, um artista e compositor versátil e talentoso, com uma longa carreira de inequívoca qualidade" - diminuem-nos.

 

Fiquemos gratos porque o cão-de-água português que vive na Casa Branca ainda não morreu. Marcelo deve entender tanto de música como de canídeos, e nesse óbito veria decerto razão para um comunicado, visto haver aí uns 2% de portugueses que acham o animal "fofo".

 

Exagero? Não. A censurar a arara que elegemos para a presidência da República é cada vez mais difícil exagerar.

 

P.S: Julguei que o meu amigo do Facebook se tinha arriscado a desagradar aos fãs de George Michael. Não, parece que afinal ofendeu o lobby gay, mesmo tendo-se dado ao trabalho de esclarecer que se estava nas tintas para a orientação sexual do artista, circunstância que de modo nenhum influenciava a sua opinião, nem naquele caso nem em nenhum outro.

publicado por José Meireles Graça às 12:50
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Domingo, 11 de Dezembro de 2016

Grandes canções: Feelings

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O popular duo de cantores românticos Marcelo & António Luís, que, tal como os Beatles no bom tempo, andam sempre juntos e fazem-se fotografar em situações de grande cumplicidade, acaba de lançar o seu single para conquistar o coração e a carteira dos consumidores neste Natal, com uma interpretação muito pessoal do inesquecível sucesso de vendas Feelings, do grande compositor brasileiro Morris Albert, que adaptaram ao cenário macroeconómico.

Na parte mais intimista da canção, Marcelo revela que tem um sentimento que as exportações vão crescer, e António Luís confessa que quando o Marcelo tem sentimentos não lhe consegue dizer que não. Um momento que merece ser eternizado no MEO Arena repleto de ouvintes elevando isqueiros acesos e de lágrimas a rolar pelas faces ruborizadas pela comoção. Absolutamente sublime.

A composição não merece menos. Apesar de ter sido interpretada por grandes cançonetistas como Ella Fitzgerald, Nina Simone, Frank Sinatra, Engelbert Humperdinck, Shirley Bassey, ou Sarah Vaughan, a versão definitiva foi gravada pelo general Wiranto que, num momento igualmente comovente, dedicou os seus sentimentos ao sofrimento do povo de Timor acrescentando-lhe a estrofe:

No shooting,

No burning,

Getting happy.

A redacção do Gremlin Literário deseja aos populares Marcelo & António Luís os maiores sucessos de vendas.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:45
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Sábado, 10 de Dezembro de 2016

Grandes filmes: Love Story

2016-12-10 Marcelo Costa.jpg

Apesar de, como Romeu e Julieta, virem de famílias políticas diferentes e até antagónicas, o presidente da república e o primeiro ministro têm protagonizado uma belíssima história de amor, chegando a ser difícil perceber qual deles é Capuleto, e qual é Montecchio. São mesmo um casal muito avançado e aberto a novas experiências para apimentar a relação, e não se ralavam nada de receber no seu ninho de amor, onde negam terminantemente a entrada ao azedo Passos, o simpático Rio. Marotos!

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:29
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2016

Bom dia, Marcelo

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A não ser que o António Costa consiga encontrar outra aberração da categoria do Sampaio da Nóvoa para concorrer às eleições presidenciais, o sentido de emergência decorrente da percepção do risco de regresso às loucuras do PREC pela mão dos loucos do PREC, que levou todos os que tinham algum sentido de normalidade a, mesmo com o seu exotismo, votar no Dr. Rebelo de Sousa, não se vai repetir.

Deus lhe dê discernimento suficiente para conseguir compensar com votos dos que o acham um burro, e ele tem feito por deleitar, os que já alienou dos eleitores que votaram nele e o elegeram naquela circunstância provavelmente única e irrepetível, mas já o deitam pelos olhos.

 

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:02
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016

O segredo da longevidade da esquerda radical? Varrer o socialismo real para debaixo do tapete

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O Bloco de Esquerda não vai acompanhar a visita do Presidente da República a Cuba.

Os motivos oficiais e oficiosos poderão oscilar entre Cuba andar a renegar os verdadeiros princípios do socialismo e se ter passado para o lado errado da História desde que o regime recentemente retomou relações diplomáticas com os Estados Unidos, o BE ter mais que fazer por ter as jornadas parlamentares marcadas para os dias da visita, ou porque sempre limitou muito a sua participação em visitas de Estado, com excepção dos países com fortes comunidades portuguesas ou língua portuguesa, com excepção de Angola, que acumula as duas condições mas não é visitado pelo BE. Em boa verdade, o motivo não é muito importante, porque não se perde nada por não ir. Nem o BE, nem o PR, nem Cuba.

Mas o verdadeiro motivo é outro.

A verdadeira razão de existir da esquerda radical é a reabertura de discussões que perdeu historicamente no seio do movimento comunista, nos já longínquos anos 30 e 40 do século passado, muitas à custa da vida dos arguentes, que as discussões no movimento comunista sempre foram suficientemente vivas para justificar a eliminação de vidas, algumas à machadada. Há-que reconhecer que, com tal modéstia de objectivos, e inutilidade para o mundo, a esquerda radical apresenta uma longevidade surpreendente.

Longevidade e, nalguns casos, popularidade.

A do BE baseou-se, inicialmente, em hastear uma série de bandeiras no domínio da liberalização dos costumes e da ecologia que os partidos políticos do sistema, os partidos burgueses, hesitavam em assumir por recearem que tomadas de posição claras nesses temas pudessem alienar uma parte mais conservadora dos seus eleitorados habituais. Aborto, consumo de drogas, direitos dos homossexuais (o nome cresceu para LGBTQIA+ mas é mais ou menos a mesma coisa), coisas de que uma parte importante da população, nomeadamente jovem, mas alguma da minha idade, estava farta de ver reguladas por pessoas que não tinham nada que lhes regular as vidas. Na verdade, estas bandeiras poderiam ter sido hasteadas por partidos de qualquer ideologia mais liberal, o que teria todo o sentido, porque todos são mais liberais que os da esquerda radical, em vez de por partidos da esquerda radical que, de liberal, não têm nada, assim alguém lhes dê a oportunidade de ficar entre quatro paredes a mandar num país. O José Sócrates percebeu isso e, se alguma realização lhe pode ser atribuída, foi o esvaziamento eleitoral do BE para metade, à custa de duas ou três iniciativas legislativas claras nesses domínios. O PSD e o CDS não, e insuflaram de novo o BE para o balão de ar que é hoje em dia. E o PS do António Costa também não, porque em vez de se apropriar da iniciativa legislativa nesses domínios, deixa o BE apropriar-se dela e limita-se a secundar as suas iniciativas, o que lhe vai permitir continuar a auto-insuflar-se.

Isto, e no facto de ter investido como mais ninguém no marketing político, não esquecendo que a sua primeira grande batalha parlamentar com o PCP foi pelo direito de um dos seus dois deputados eleitos ter um lugar à esquerda na primeira fila do parlamento, lugar que até aí era sempre ocupado por um deputado do PCP, e mais recentemente, e reforçando a sua aposta de sempre no marketing e nas marcas, por ter substituído o eterno duo Louçã / Fazenda de telegenia limitada por carinhas larocas que fazem olhinhos irresistíveis aos eleitores mais dados a essa modalidade.

Mas resta por explicar como é que o seu eleitorado se deixa enrolar pela defesa destas bandeiras liberais nas mãos de quem continua a defender também ideologias socialistas que, na retórica, sempre prometerem igualdade, justiça social e prosperidade, mas, na prática, sempre entregaram autoritarismo, iniquidade e miséria, e zero de liberdade?

É fácil. O segredo da longevidade da esquerda radical tem sido renegar sempre os resultados de todas as experiências socialistas que foram feitas ao longo destes 99 anos, defendendo que não são significativas do socialismo genuíno por ter havido desvios ao socialismo genuíno ao longo do processo em todos os processos pretensamente socialistas.

Durante uma revolução socialista, como no exemplo mais recente a eleição do Syriza na Grécia, a esquerda radical apoia publicamente a revolução, vai aos comícios, presta assistência à elaboração dos programas, deixa-se fotografar e filmar pelas televisões. Quando começam a ser públicos os resultados da revolução, no caso grego a inevitável cedência às exigências dos parceiros europeus para continuarem a prestar à Grécia a assistência financeira de que a revolução não teve capacidade para a libertar, desliga-se dos que antes apoiava e declara-os traidores, submissos, ou mesmo capitalistas de estado. Nunca se deixa salpicar pelos resultados das experiências socialistas reais, de modo a manter a ilusão que o seu socialismo genuíno tem para oferecer algo de melhor do que ofereceram os pseudo-socialismos dos outros. É um processo continuamente repetido de adesão inicial entusiástica a experiências socialistas e de negação posterior de os seus resultados cómicos a tender para trágicos serem consequências do socialismo, mas sim da falta de socialismo, de reconstrução da virgindade do socialismo genuíno que promete resultados diferentes dos dos abastardados socialismos reais.

Não, o Bloco de Esquerda nunca acompanhará o Presidente da República na visita a países socialistas que já mostraram para além de qualquer dúvida razoável o que o socialismo lhes ofereceu nos domínios da democracia, da liberdade e da prosperidade. Nunca visitará Cuba nem Angola, nem a Rússia nem a China, mas também a República Democrática Popular da Coreia, que chacina regularmente os dirigentes caídos em desgraça, nem a Venezuela, onde o socialismo remeteu à indigência o povo, e à prisão os opositores ao governo, do país com maiores reservas de petróleo do mundo. Irá sempre manter uma distância higiénica dos resultados reais dos socialismos reais e das suas pulhices e misérias.

O segredo da longevidade da esquerda radical é fugir a tirar conclusões sobre o que o socialismo tem para oferecer a partir de todas as experiências socialistas no mundo real ao longo de um século de socialismos. É varrer o socialismo real para debaixo do tapete.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:50
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