Sexta-feira, 30 de Setembro de 2016

Uma asneira dita com convicção não é uma asneira, é uma opinião.

2016-09-29 Mariana Mortágua Antena 1.jpg

Eu admiro quem consegue detectar inteligência nesta forma de vida, porque eu não lhe consigo detectar nenhuma, mas apenas uma retórica simplória baseada em pressupostos delirantes e mil vezes negados pela realidade e expressa com a auto-suficiência dos inocentes e dos tolos.

No caso presente, e geralmente sempre que fala, em dois pressupostos.

  • O primeiro, que aumentar a despesa pública estimula a economia fazendo-a crescer, e que esse crescimento proporciona um retorno que mais do que compensa o custo do estímulo.

É o pressuposto mais interiorizado por todos os socialistas do século XXI, os keynesianos graças a Deus, moderados ou extremistas. Foi usado, refinado e quantificado pelos doze sábios convidados pelo António Costa para desenvolver o Cenário Macroeconómico "Uma Década para Portugal" e, depois, no Orçamento de Estado de 2016, em que intervieram alguns desses mesmos sábios. Que conseguiram garantir que "por cada euro de estímulos, retoma devolve quatro".

Este pressuposto gera infinitas possibilidades interessantes. Por exemplo, se se estiver à espera de um deficit de 3% e se aumentar em 1% a despesa, consegue-se um ganho de 4% na execução orçamental que anula o deficit. Genial. Imagine-se aumentar a despesa em 33% e obter um retorno de 132%, um excedente orçamental suficiente para liquidar de um trago toda a dívida pública portuguesa, como se fosse coisa de criança? Fabuloso. E é um pressuposto irresistivelmente apelativo porque, além de oferecer aos seus crentes o consolo desta esperança de acabar com os problemas financeiros sem dor, como funciona à base de devolver rendimentos às pessoas, ou seja, de distribuir dinheiro aos eleitores, também tem um potencial muito simpático no plano eleitoral. É milagroso.

O único senão é que não funciona. Foi usado pelo governo socialista em 2009, e a economia não cresceu. Pelo contrário, o governo estimulou Portugal até à beira do abismo financeiro de onde só se livrou de cair in-extremis, evitando uma catástrofe económica e social, e provavelmente política, com o plano de assistência financeira da troika, de onde até se saiu mais bem do que mal, comparando com o percurso trágico de outros países como a Grécia, com um sofrimento que atingiu muitas pessoas e irritou outras, nem sempre as mesmas. Está a ser usado por este governo, e, ao fim de quase um ano, a economia também não cresce, pelo contrário, deixou mesmo de crescer, com consequências para a economia, a sociedade e as finanças públicas que mais lá para diante, um dia, se revelarão. Se bem que, no caso presente, não se possa desprezar a contribuição que a retórica idiota dos jovens dirigentes socialistas, de dentro e fora do PS, de ameaçar o banqueiro alemão, os mercados, as agências de rating, os patrões, os investidores, os proprietários, os aforradores, até os jornalistas neoliberais, tem tido para fomentar o desinteresse de quem tem dinheiro por investi-lo e criar emprego, crescimento e riqueza, que amanhã qualquer jovem socialista idiota mas voluntarioso pode decretar ir buscar com o aplauso do partido do governo.

Mas, por mais que não funcione, por mais que vá sendo negado pela realidade, quem crê neste pressuposto não desacredita dele facilmente. O que é o caso de muitos, e também da deputada Mariana Mortágua.

Curiosamente, até há evidência empírica de investimentos que proporcionam um retorno de quatro euros por cada euro investido. Não na economia, mas na saúde mental. Isto anda tudo ligado.

  • O segundo, que é possível manter e aumentar ilimitadamente deficits, financiados por dívida, pelo que a política orçamental só é limitada nos estímulos pela má vontade dos governos que preferem a austeridade ao crescimento e o sofrimento à felicidade.

A verdade é que aumentar o deficit aumenta o montante total da dívida que o financia, porque não cai dinheiro do céu para o financiar, e os juros pagos por ela, não apenas por aumentar o montante em dívida sujeita a juros, mas também por aumentarem as taxas de juro exigidas pelos credores para continuarem a conceder crédito a quem tem um endividamento crescente, o que faz aumentar os juros ainda mais que proporcionalmente à dívida. Ou seja, é uma grande alhada.

O pressuposto seria inteligente se se tivesse a intenção de não pagar a dívida, e esta metade do requisito ela cumpre-a sem hesitação, e se comulativamente os credores continuassem a emprestar cada vez mais dinheiro a quem não tem a intenção de o vir a reembolsar no futuro. Só que, esta segunda metade do requisito, os credores não são tão otários que a garantam, e em vez de otários são autoritários, como lhe chamam alguns, e não confiam o dinheiro deles a caloteiros que não o tencionam reembolsar. E, infelizmente é da lógica matemática, verdadeiro "e" falso falso. Tudo junto, o pressuposto é mais burro que inteligente, assim como os que acreditam nele, porque assenta na crença que os credores são mais burros do que inteligentes, e nem foi assim que eles enriqueceram, nem sempre são assim.

Não se lhe conseguindo detectar inteligência, é de toda a justiça reconhecer-lhe pelo menos uma convicção ímpar. Pelo, como dizia o meu pai, suponho que citando alguém que não retive e infelizmente já não lhe posso perguntar, se 

  • "uma asneira dita com convicção não é uma asneira, é uma opinião",

ela é, pelo menos, uma pessoa de opiniões.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:25
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Preocupa-me pensar que estou a dizer coisas que as pessoas não entendem

Eu não sou de modas.

Mas tenho que reconhecer que os espaços de comentário político, seja o do fala-barato tendencioso Professor Marcelo, seja o do acutilante e objectivo Professor Louçã, ficam enriquecidos quando são complementados com sugestões culturais, sejam de livros, de filmes, ou de musiquinhas, facto comprovado a que nem sempre tenho sido atento nos meus comentários aqui no Gremlin Literário. Mas eu estou sempre a aprender e, mais vale tarde que nunca, vou aderir a esta moda.

Vamos então fazer um pequeno interlúdio cultural, recordando a belíssima canção "Preocupa-me pensar que estou a dizer coisas que as pessoas não entendem" dos Gentle Giant, do seu disco "In a Glass House" editado em 1973, que descreve as experiências e os sentimentos das pessoas que se preocupam por dizerem coisas que as outras pessoas não entendem.

Para os que acham o tema da canção um tanto ou quanto depressivo, deixo uma sugestão de leitura para desenjoarem, uma entrevista a uma carinha laroca da política portuguesa. 

Boas audições e boas leituras!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:25
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Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

Conselhos dermatológicos

Há tempos, Passos Coelho perguntava, exasperado, como se esperava que houvesse estrangeiros dispostos a investir em Portugal quando o governo assentava numa aliança com comunistas (disse isto ou coisa parecida, não tenho vagar para procurar).

 

O comentariado caiu-lhe, previsivelmente, em cima. Passos é odiado, e não apenas detestado, pela esquerda, porque não é da variedade de direitistas de faz-de-conta, como Cavaco (este, se fosse sueco, seria socialista, se lá se admitem socialistas cabeçudos que nem falar sabem), ou Marcelo (que seria igualmente socialista, se fosse francês e lá se admitissem - creio que sim - socialistas incontinentes verbais). E é igualmente abominado por muita direita que lhe execra as profissões de fé, de resto raras, social-democratas, e a acção governativa, que foi insuficientemente reformadora e que, pelo menos numa certa perspectiva, talvez não inteiramente justa, das coisas, privilegiou o aumento de impostos e não o corte na despesa.

 

A estas duas correntes há que acrescentar personalidades avulsas e revulsivas, como Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite, ou homúnculos que inexplicavelmente poluem o espaço de opinião pública, como Pedro Marques Lopes ou Marques Mendes.

 

Por mim, tenho vindo a ganhar respeito ao homem, porque lhe aprecio a teimosia, até mesmo no asneirol ocasional, e porque se é depositário de um ódio tão persistente do establishment esquerdista, isto é, quase toda a gente, e isto sem que nunca ninguém lhe tenha vislumbrado inclinações antidemocráticas, algum mérito terá de ter.

 

Gente ingénua supõe, porque a comunicação social veicula a ideia, que a doce Mariana é uma azougada filha-família da revolução romântica, a quem sobra em voluntarismo o que falta em senso; que a actrizinha de segunda escolha que se espraia em considerações sobre quanto assunto está na ordem do dia do debate político, e que lidera nominalmente o BE, tem no caco mais do que uma recauchutagem serôdia e colada com cuspo de quanta doutrina marxista aflige a humanidade vai para cem anos; e que o Bloco é um partido social-democrata radical, que pretende curar os males e os desequilíbrios do capitalismo por via fiscal, sem todavia pôr em causa a propriedade privada dos meios de produção e as poupanças, qualquer que seja a sua forma, nossas porque as ganhamos, ou recebidas de ascendentes que quiseram legar à prole o que sobrou de exacções fiscais anteriores.

 

A receita do BE tem provado ser mais popular que a dos comunistas, porque promete o mesmo mundo igualitário sem a carga imensa do desastre económico e humanitário que foram e são todos os regimes comunistas.

 

O movimento comunista internacional histórico tem um representante, o PCP, que defende naturalmente quanto regime decrépito nasceu faz décadas, como o norte-coreano ou o cubano; e o BE guarda o seu apoio, e a sua solidariedade, para a Venezuela chavista, para o Syriza, ou para o Podemos que um demente espanhol lidera, porque são modernos, empunham firmemente a bandeira das causas com que alguma gente nova sonha fazer o céu na terra, parecem isentos de violências e terrores, e ainda não foram verdadeiramente testados (salvo o venezuelano, donde o silêncio cúmplice até que se possa afirmar que a CIA fez cair o regime, ou que Maduro não tinha as excelsas qualidades de Chavez).

 

É isto que explica o apoio embaraçado do PCP a Angola e as críticas veementes  que o BE dedica aos atropelos aos direitos de cidadãos angolanos; e é isto que explica o sucesso eleitoral do BE  ̶  não são comunistas, credo, eles em tendo poder porão os ricos na linha e teremos finalmente investidores que querem apenas genuinamente criar riqueza e postos de trabalho, mas não lucros senão os que distribuem em prémios comedidos pelos trabalhadores, gestores beneméritos que salvam empresas sem que ganhem mais do que o quartil superior de um leque apertado de salários, herdeiros mas apenas dos álbuns de fotografias da família, ricos por se deslocarem em carros de gama média e não utilitários, além de terem nos casos mais salientes uma quintinha para férias, e de forma geral cidadãos obedientes a um Estado igualitarista e perfeitamente livres de guardar tudo o que não suscite a cobiça do vizinho e pensar tudo o que os mandarins do pensamento não achem sexista, racista, imperialista, machista, fascista e uma extensa, e crescente, lista de outros istas.

 

Na prática, não há qualquer diferença entre a soturna, e sinistra, cartilha de Jerónimo e o discurso da simpática, desempoeirada e até (para mim, que sou sexista e tenho muito mais inclinação para prestar atenção à carinha - e ao resto - de Mariana do que às tolices que vai expectorando) encantadora pasionaria de Alvito e das marchas LGBT. E isto mesmo que, surdamente, os comunistas autênticos detestem os bloquistas, as suas sapatilhas de marca, a sua indisciplina e o seu relativo sucesso.

 

Porque é equivalente eliminar os ricos, isto é, os que assim são considerados depois de os verdadeiros terem sido destruídos no PREC, e de os poucos que ainda sobram ou renasceram terem prudentemente o grosso dos seus cabedais a bom recato, expropriando-lhes os bens e nacionalizando-lhes as empresas; e ir lentamente, por via fiscal, taxando não apenas os rendimentos mas também o capital, começando por taxas ou limiares que não pareçam confiscatórios e ir aumentando  ̶  como a rã que não salta se mergulhada em água morna e se vai adaptando ao aumento de temperatura até que morre cozida.

 

Quererá mesmo o PS ser “alternativa ao sistema capitalista”? E até que ponto?  ̶  pergunta Mortágua, e as fotografias mostram um Galamba, o rebo de serviço do PS, embevecido.

 

Olha, filha, querida, se a dúvida é essa estou em condições de esclarecer: O PS está com Costa porque Costa inventou uma receita inusitada para salvar a pele, e isso deu-lhe poder para distribuir tachos; e correrá asinha com ele logo que a estrela se lhe apague. O PS de hoje parece liderado pelo BE e sê-lo-á na exacta medida em que isso permita a Costa fazer aprovar a legislação que a Europa possa fingir que não está a ver onde conduz. No teatro europeu representa-se uma peça de teatro, e a plateia não veria com bons olhos que se empurrasse um actor desastrado: é preciso que ele caia pelo seu pé.

 

Caia em breve, ou mais adiante, o PS, anticapitalista não é. E logo que haja oportunidade isso mesmo te dirá um Francisco Assis, um Sérgio Sousa Pinto ou até uma das rolhas que, desde Guterres, servem com devoção a causa socialista e o líder do dia, desde que devidamente acolhidos no quente regaço do Orçamento de Estado. Depois é claro de uma travessia do deserto, porque quanto mais tempo durar este governo mais créditos políticos (e débitos em metal sonante) terá o seguinte.A boa pergunta é portanto: esta primavera esquerdista, e a tua celebridade, durarão até te aparecerem as primeiras rugas?

 

Acho pouco provável. Razões pelas quais não aconselho uma basezinha tonificante, mas recomendaria um creme. Para as espinhas.

publicado por José Meireles Graça às 12:18
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

Descubra as diferenças

Hoje oferecemos mais uma edição do nosso interessante passatempo "Descubra as diferenças", que alguns dos mais velhos de nós recordarão do saudoso "Diário Popular".

2016-09-19 Luaty Mariana.jpg

Em Angola, um bando de patetas decidiu reunir-se para fazer a leitura colectiva de um guião para a insurreição, uma espécie de "Que fazer?" do Vladimir Ilitch Ulyanov com um século de atraso, de sua graça "Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura — Filosofia Política da Libertação para Angola" da autoria de um deles. Quando estavam na leitura do capítulo 7 apareceu a polícia e levou todos presos, com receio que aquele grupinho de tontos a conspirar para derrubar a ditadura fosse uma ameaça real ao regime. Os regimes comunistas não brincam em serviço. Fizeram greve de fome em protesto contra a prisão e o Bloco de Esquerda inaugurou a legislatura em Portugal com uma pantomina de apelo à sua libertação, abundantemente fotografada e mostrada por todos os jornais.

Em Portugal, um bando de patetas decidiu reunir-se para fazer a rentrée política do partido do governo e assistir à apresentação de um guião para a insurreição, uma espécie de "Que roubar?" do José Sócrates Pinto de Sousa, e, além de ovacionar a oradora Vladimira Ilitcha Mortaguanova (*) quando ela os desafiou a "perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular" e lhes lançou o repto de "pensar sobre o que representa o capitalismo e até onde está disposto a ir para constituir uma alternativa global ao sistema capitalista", ainda lhe dedicaram olhares de desvelo e carinho que qualquer um de nós não desdenharia dedicar aos nossos animais de companhia quando fazem gracinhas que nos enternecem.

Enquanto em Angola, o país da engrenagem e da enxada, o governo prende os insurrecionistas com medo que façam uma revolução, em Portugal, o país da rosa, o governo adopta-os como animais de companhia e encanta-se com as suas gracinhas. Portugal vai muito mais à frente no campo da insurreição.

* Nome propositadamente alterado para proteger a privacidade da oradora.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:46
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Domingo, 18 de Setembro de 2016

A rentrée política do PS

Quando, no debate "As Esquerdas e a desigualdade" da Conferência Socialista 2016 que decorreu em Coimbra, no Convento de São Francisco, a trotskista Mariana Mortágua incitou os mencheviques a "perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro", os mencheviques, desta vez, portaram-se à altura de autênticos bolcheviques, aplaudiram-na entusiasticamente e disseram "presente!", brandindo o "Livrinho Vermelho de Citações do João Galamba" no nariz dos neoliberais e do lumpen do proletariado que ainda os apoia, como o repórter fotográfico do Gremlin Literário documentou.

O próximo desafio dos socialistas é "pensar sobre o que representa o capitalismo e até onde está disposto a ir para constituir uma alternativa global ao sistema capitalista", missão que não será difícil de cumprir com a inspiração do livrinho vermelho e a liderança oratória das trotskistas do Bloco de Esquerda.

Viva a Revolução! De pé, ó vítimas da fome! De pé, famélicos da terra... trá-lá-lá, trá-lá-lá...

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:43
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

Vamos caçar Pokemons? Outra vez?

Ontem ao serão decidimos seguir a sugestão construtiva do primeiro-ministro António Costa de caçarmos Pokemons em vez de procurarmos o Diabo, e acabámos por ter um serão agradável e produtivo, caçando dois Pokemons. E avistando o Diabo.

Mas, neoliberais insensíveis que somos, nem neste jogo de salão conseguimos resistir à tentação de acabar o serão a falar de dinheiro, porque toda a gente sabe que os neoliberais só se interessam por dinheiro, empresas e números, e não sentem nenhum interesse pelas pessoas que, como todos os socialistas sabem desde o tempo do António Guterres, não são números, são pessoas. Hoje vamos fazer mais uma caçada de Pokemons mas vamos ser sensíveis e vamos procurar um Pokemon humano e fofinho, uma pessoa. A minha proposta é procurar o Pokemon que passou directamente do jardim de infância para a assessoria parlamentar, e depois para parlamentar a sério. Boa? Vamos lá!

O problema é que não é fácil encontrá-lo. Felizmente temos uma pista que conseguimos através da educadora de infância que foi responsável pela sua educação pré-parlamentar. A senhora deu às crianças umas noções de Economia, muito por alto para não lhes queimar os neurónios e não fazer delas alunos infelizes, e, quando lhes explicou a Teoria da Firma, disse-lhes que as fábricas servem para produzir coisas. Munidos desta preciosa informação, e sabendo que estamos à procura de um Pokemon que tem um domínio superior da ciência económica, a pesquisa tornou-se mais fácil.

E pronto!

Encontrámos o nosso Pokemon de hoje, a deputada Mariana Mortágua que, para sossegar os agentes económicos relativamente a não verem a sua competitividade externa afectada pelo novo imposto sobre o imobiliário de luxo, isentou de imediato do novo imposto o "...património que serve para fins produtivos, seja empresas que têm prédios ou fábricas que serve para produzir coisas...". Se a professora nos tivesse avisado que ela era muito atenta nas aulas de Economia mas menos atenta à concordância entre o sujeito e o predicado, ainda teria sido mais fácil encontrar. Mas assim foi um bom desafio e ficamos com a satisfação de o ter cumprido.

O Diabo é que é gente com este conhecimento profundo das coisas da economia real que anda a produzir as coisas que o governo socialista legisla e os comunistas se conformam a dizer que sim, desde que deixem a CGTP brincar com a economia. Vamos bem encaminhados, vamos...

Ah! E a fotografia de abertura? É para ilustrar que, se as fábricas, genericamente, servem para produzir coisas, as das Caldas, especificamente, também servem para produzir coisos.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:56
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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Três macacos sábios

O governo tenciona injectar, se Bruxelas lhe permitir, quatro mil milhões de euros dos contribuintes na Caixa Geral dos Depósitos para tapar a cratera aberta por sucessivos governos que, sempre que quiseram brincar aos capitalistas, o fizeram com o dinheiro da CGD. Coisa insignificante, cerca de 400 euros por português, 1.200 por cada agregado familiar de 3 pessoas, como o meu.

Sem pretender ser exaustivo, vêm-me à memória algumas dessas brincadeiras com expressão sonante:

  • O take-over hostil do BCP pelo Partido Socialista através de um sindicato de voto informal, de modo a contornar as limitações de voto dos estatutos do banco, formado por testas de ferro financiados a fundo perdido pela CGD para comprar lotes de acções, oferecendo como garantia apenas as acções compradas com o financiamento, e era só o que faltava que os testas de ferro tivessem que dar garantias pessoais para participar num plano montado pelo mandante, sob a batuta do primeiro-ministro José Sócrates e do governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio, que resultou na conquista da presidência e da vice-presidência do conselho de administração do BCP pelo presidente e pelo vice-presidente da CGD, Santos Ferreira e Armando Vara. Como as centenas de milhões de acções foram compradas a cerca de 4 euros cada e ontem valiam 4 escudos, toda a operação resultou em buraco que pode ter perto de mil milhões de euros de extensão.
  • A nacionalização do BPN, deliberada pelo governo do José Sócrates, e a cobertura do respectivo buraco, com uma dimensão da ordem dos 5 mil milhões de euros, com o dinheiro da CGD, para variar.
  • A recusa do governo actual em vender em leilão, tapando uma parte, ainda que pequena em termos relativos, do buraco do BPN aberto na CGD, parte do património adquirido pela administração do BPN, que o ajudou a abrir, nomeadamente a colecção de Mirós que esteve para ser alienada por um valor próximo dos 100 milhões de euros mas cuja alienação foi protelada por providências cautelares de, entre outros, deputadas do grupo parlamentar do PS, até ser definitivamente anulada pelo novo governo que os ofereceu ao Pacheco Pereira para mostrar ao povo.

O que têm em comum todos estes buracos tapados pela CGD à custa de uma cratera na própria CGD? Foram todos deliberados pela tutela, sendo a tutela governos do PS. Terá havido certamente mais buracos, e provavelmente da responsabilidade de outros governos, e de governos de outros partidos, mas os que me vêm à memória a partir da informação pública são estes. A quem conhecer outros exemplo, agradeço a enumeração.

A esquerda parlamentar tem, no que já é quase uma tradição, montado comissões de inquérito parlamentares para tudo e mais alguma coisa relacionado com problemas de gestão de bancos privados, que funcionam como autênticos circos mediáticos onde as estrelas, frágeis jovens domadoras bloquistas, comunistas e socialistas, enfrentam as feras, banqueiros que antes eram os donos disto tudo mas agora são submetidos ao respeitoso "senhora deputada para aqui, senhor deputado para ali", e nem podem responder com um "cresce e aparece".

Tinha agora uma oportunidade ímpar de montar uma comissão de inquérito à CGD para, juntando todos os buracos privados, discutir a cratera pública que resultou deles. Mas não lhe está a apetecer. O macaco Tiago não quer ouvir, o macaco Galamba não quer falar e a macaca Mortágua não quer ver. A CGD não lhes interessa.

Já se lhes levantam acusações de incoerência, admitindo que eles gostam de ir até ao fundo na denúncia de casos de má gestão privada de bancos, mas não se entusiasmam por aí além por expôr e aprofundar casos de má gestão pública de bancos, pelo que não querem investigar os problemas da CGD.

Mas não, não se trata de incoerência. Trata-se simplesmente de um gesto de cumplicidade com a quadrilha que abriu a cratera na CGD para esconder o roubo que esteve por trás do rombo. Não são macacos sábios, são apenas macacos aldrabões a proteger o macaco ladrão e permitir-lhe a continuação da actividade criminosa.

Que, aliás, reconhecendo que a mama da CGD secou de tanto espremida, já tratou de diversificar, e se prepara para fazer o próximo grande rombo nos fundos da Segurança Social para financiar operações de especulação imobiliária reabilitação urbana. É preciso pôr o dinheiro dos reformados a circular, e nada melhor do que entregá-lo aos amigos da construção civil para o reciclar. Se o dinheiro se perder, algum governo neoliberal tratará de fazer as reformas no sistema de pensões para ele não colapsar. Os neoliberais são suficientemente cruéis para isso.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:13
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Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2015

Quando a inveja se torna moral

Quando o imoral se torna banal, diz ela, e ao dizer aquece os corações de todos quantos, da nova maioria a Stiglitz, julgam que a forma de acabar com a pobreza, o desemprego e outras misérias, é taxar os ricos, com isso resolvendo ao mesmo tempo dois problemas: produzir o céu na terra, sonho de todos os reformadores sociais, e embrulhar a inveja e a cobiça, que milhões sentem, na compaixão que acreditam sentir.

 

Claro está que, sem desigualdade, não teríamos catedrais, nem palácios, nem castelos, nem monumentos, nem outra Arte que não fosse popular, nem estradas que não fossem vicinais. Sempre quem mandou fazer todas essas e muitas outras coisas foi um explorador, assentando a sua legitimidade no nascimento, na classe, na conquista, no direito divino; e sempre, na quase ausência de progresso científico e tecnológico, a maneira de engordar os nossos cabedais foi espremer os dos vizinhos.

 

Depois veio a Revolução Industrial, e inventou-se a maneira de criar riqueza nova sem apropriar a dos outros - chama-se crescimento económico.

 

Mas as coisas mudam muito e as pessoas pouco. E os quadros mentais permaneceram os mesmos: se há ricos é porque há pobres e a riqueza de alguns é a pobreza de muitos. Nisso, mais a crença irracional de que a igualdade é um bem, e a desigualdade um mal que urge combater, assentam ainda hoje as ideologias de esquerda.

 

E não adianta ter formação em Economia, como Mariana tem, nem um mínimo de conhecimentos históricos, que talvez tenha: como para crescer é preciso investir, basta acreditar que o investimento público é igual, na sua eficiência, ao privado, para ao mesmo tempo defender a igualdade e o progresso, isto é, que os ricos não têm utilidade social. Claro que estas coisas são escritas num computador e partilhadas nas redes sociais, e nem um nem outras existiriam sem o maldito sistema capitalista - ainda sou do tempo em que os yuppies de Wall Street eram gozados por se passearem com telemóveis do tamanho de tijolos, que só podiam pagar por ganharem fortunas; e o luxo, a segurança e a multidão de gadgets que hoje um automóvel utilitário tem só existe porque houve quem pudesse comprar automóveis caríssimos onde essas coisas foram inovação.

 

É deste quadro mental que vem a superioridade moral: "provocações, "trafulhice generalizada" são os mimos com que são brindadas aquelas empresas que fazem planeamento fiscal, pagando o mínimo de IRC, e novas descidas neste imposto cavam "uma desigualdade - entre trabalho e capital - que ninguém parece querer encarar".

 

Fosse eu a falar e também referiria, a este propósito, a desigualdade - entre as empresas que podem e as que não podem fazer "planeamento", que são a maioria. E para resolver esse problema reduziria o imposto para níveis aos quais não valeria a pena fazer engenharias, ganhando na igualdade da competição, no investimento produtivo e, talvez, nas receitas.

 

O dinheiro assim liberto para as empresas poderia servir para reforçar os seus capitais, e portanto a sua solidez; evitar o recurso a endividamento, e portanto reduzir os custos para investir ou para financiar a actividade; e reduzir os prazos de pagamento.

 

Só coisas boas? Não: os donos ou accionistas das empresas ficariam mais ricos. Ora ricos mais ricos não pode ser, desde logo porque decerto nem tudo seria para aforrar ou investir - uma parte haveria de servir para comprar aquelas coisas que alguns podem ter e outros não, mesmo que os accionistas tivessem, como de facto têm, que pagar imposto sobre lucros distribuídos - um detalhe que costuma ser omisso nestes discursos virtuosos.

 

Omitido et pour cause: se nos lembrarmos que a empresa paga primeiro imposto sobre os lucros, e depois os accionistas imposto sobre o que sobrou e foi distribuído, percebe-se que fica prejudicada a comparação entre o que paga a empresa e o cidadão.

 

As empresas que fogem fazem muito bem, estão-se a defender a elas e à comunidade. Que dinheiro para pôr nas mãos das Marianinhas deste mundo investirem em projectos lunáticos e distribuírem como se não houvesse amanhã - que evite quem puder.

 

Não porque Marianinha não tenha bom coração e genuína preocupação com os pobres; mas porque estes são mais bem defendidos se quem decide usar pouco aquela víscera e muito a cabeça.

publicado por José Meireles Graça às 12:02
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015

Catarina e Mariana

 

Acho as duas, cada qual a seu modo, giras (sem prejuízo de as toilettes me merecerem algumas reservas, que não estadeio por falta de vagar). E embora não tenha paciência para lhes ouvir os dislates não veria com bons olhos que desaparecessem do espaço público, onde catalisam a maior parte dos votos dos que querem capitalismo sem capitalistas, mais Estado com mais liberdades, empresas sólidas sem falências, inovação sem recompensa, empréstimos sem condições e liberdade do discurso desde que politicamente correcto.

 

Comunismo com liberdades, em suma - como se não fosse uma contradição nos termos.

 

Dizer que são giras é desde logo uma afirmação sexista. O que é que isso interessa para aferir do mérito das posições políticas? E falaria do mesmo modo se fossem dois gajos giros?

 

Não, não falaria do mesmo modo - nem nisso falava. Mas sucede que sou sexista, e bardamerdo ou bardamerda, consoante o sexo da vossa preferência, para quem tenha opiniões diferentes.

 

Se estas duas libelinhas, portanto, levassem a delas avante, não corríamos nós apenas o risco de inaugurar com frequência murais pirosos, correriam elas o risco de, a prazo, deixarem de nos povoar as pantalhas com sorrisos e asneiras, porque a multidão que querem acolher, sem critério nem prudência, acha que o lugar delas é em casa ou, se expostas, convenientemente embrulhadas num niqab ou tchador.

 

Sinto-me bem assim, a defender estas donzelas delas próprias.

 

Façam o favor de me agradecer, à vossa maneira, roubando muitos votos ao PS, que essa gente faz-me sombra; e a mim convém-me que o BE seja, objectivamente, aliado da reacção (piscadela, para mostrar que também conheço o vosso dialecto).

publicado por José Meireles Graça às 19:48
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