Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

Vai morrer, ó velha!

2017-09-20 Vai morrer ó velha.jpg

Um grupo de jovens da Juventude Socialista filmou, e depois apareceu publicado nas redes sociais, um vídeo durante uma acção de campanha da candidatura do PS às eleições autárquicas do município de Penafiel em que, do andar de cima de um autocarro sem tampa, e ao passar por uma senhora de idade que agitava uma bandeira partidária de outro partido, talvez do CDS? um dos jovens socialistas lhe gritou, como informam os jornais,

  • "Vai morrer, ó velha... PS! PS! PS! Vai-te fo***, velha do car****! Havia de te dar um ataque!",

que eu estou em condições de transcrever para a afirmação real "Vai morrer, ó velha... PS! PS! PS! Vai-te foder, velha do caralho! Havia de te dar um ataque!". Num aparte, curiosamente não encontrei a notícia no Público, certamente por não ter sido suficientemente diligente na pesquisa.

A Juventude Socialista varreu o assunto para debaixo do tapete com um comunicado em que condenou a atitude imprópria e irreflectida do jovem e apresentou um pedido de desculpas à visada e à comunidade penafidelense, e ao mesmo tempo condenou a publicação do vídeo através "de um perfil falso", o que explica ser o "expediente habitual para fazer campanha suja". Condenou os excessos da irreverência generosa da juventude, mas também a maldade da mão que sai detrás do arbusto, nas palavras sábias de um anterior primeiro-ministro de Portugal, que os expôs publicamente. Tudo está bem quando acaba bem.

Mas estará tudo bem?

"Vai morrer, ó velha!" é quase um mimo comparado com as boçalidades que se lêem regularmente nas redes sociais, com as que são publicadas, moderadas por alguma prudência e muitas vezes disfarçadas de exercício de humor, na comunicação social, onde se encontram regularmente apelos à morte de pessoas e até sugestões de soluções para a concretizar, como contratar um pistoleiro do cinema para as balear nos testículos, e até com alguma propaganda partidária, onde o apelo à morte, neste caso de traidores, assume traços heróicos e patrióticos que o tornam, mais do que uma possibilidade, um imperativo cívico.

Esta radicalização do discurso e banalização do apelo à morte por parte de estratos sociais antes aparentemente civilizados verifica-se principalmente desde o início da legislatura anterior, quando foi preciso recorrer a soluções muito penosas para muita gente para tentar, e acabar por conseguir, mas não era nada evidente para muita gente que se conseguisse e, para alguma, era mesmo evidente que não se conseguiria, retirar Portugal do lixo, não no sentido que atribuem ao termo as agências de notação quando a dívida soberana é de duvidoso reembolso, mas no da falência e do risco iminente de desmoronamento do Estado e da sociedade que o anterior governo socialista tinha conseguido provocar.

E é mais do que reforçado pelos modos brutais que o próprio primeiro-ministro usa quando se dirige à oposição, quer em intervenções públicas, quer em entrevistas, quer, ainda mais claramente, no próprio parlamento a que presta contas da actividade do governo.

As coisas são o que são, e a radicalização progressiva das relações entre forças políticas diferentes que se tem observado, não circunstancialmente, mas como um movimento estruturado e objectivado, e se traduz, já, num crescente apelo à violência, para já verbal, resultará no que resultar e eu não sei prever.

Mas, no passado, nunca resultou em coisa boa e resultou frequentemente em fascismos. E, curiosamente, mais vezes em fascismos de direita do que em fascismos de esquerda, ou socialismos, o que não indicia grande inteligência de quem a promove à esquerda. Mas longe vão os tempos em que toda a inteligência e cultura, e já agora moralidade, se encontravam na esquerda, e toda a direita era estúpida, pelo menos até ter aparecido um centrista a quem era concedido, excepcionalmente e sem constituir exemplo, o benefício de ser considerado inteligente, o saudoso Francisco Lucas Pires. Inteligente e nunca radical, acrescento eu. De modo que ver a esquerda a ser pouco inteligente na radicalização e no apelo à violência não é novidade nenhuma nos tempos que correm, em que alguma falta de inteligência é um grande activo para se conseguir acreditar nas quimeras que ela promete e os enganos com que mascara a realidade para ir parecendo que as está a conseguir criar.

Mas, mesmo sem ser capaz de prever para onde nos levará esta radicalização, uma coisa, ou duas, posso, até eu, anónimo desinformado, concluir.

Quando um comentador que nasceu na esquerda radical, depois se integrou no PSD que o encheu de honras e prebendas e onde se tornou até um liberal radical que colocava em causa a própria existência do estado social europeu, e quando o PSD deixou de lhe dar a importância que acha que merece não se desligou da filiação do partido mas regressou a um estilo de intervenção pública de social democrata radical que voltou a deliciar a esquerda radical de onde saltara para a direita que hoje apelida de radical, diz que esta radicalização da vida política através de "citações falsas ou manipuladas, boatos, calúnias e insultos" é "um fenómeno novo e não adianta dizer que o mesmo existe à esquerda, porque não é verdade", mente.

E quando um político hoje em dia baseia o seu populismo na descrispação por que finge lutar e que se gaba de ter conseguido está simplesmente a aldrabar o país.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:23
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Domingo, 19 de Março de 2017

Uma p., mas uma p. que f. bem

2017-03-19 Pacheco sobre Sócrates.jpg

Todas as profissões têm, pese embora o princípio da igualdade plasmado no Artº 13º da Constituição da República Portuguesa, os seus expoentes e os seus membros mais fracos, e a de comentador não escapa a esta infeliz regra.

No Diário do Governo Público de hoje o comentador (do PSD, para as estatísticas destinadas a provar a presença sufocante e a carecer de limpeza urgente do PSD no espaço do comentariado) José Pacheco Pereira publicou um comentário sobre a Operação Marquês com críticas à condução do processo, nomeadamente por fazê-lo crescer de modo exponencial sem produzir acusação em vez de ir levando a tribunal as acusações que já estão solidamente provadas e ir investigando paralelamente as novas suspeitas que vão surgindo, e a riqueza opulente do currículo do arguido propiciará o aparecimento regular de novas suspeitas durante pelo menos as próximas décadas, que genericamente eu sou capaz de subscrever e tenho muitas vezes manifestado a quem me lê.

Para contextualizar a sua opinião sobre o processo que critica, o comentador começa por fazer um breve resumo das qualidades do arquido José Sócrates, focada nas cumplicidades políticas que permitiram a sua ascenção e o exercício das malfeitorias que dedicou a sua passagem pelo poder a fazer. Em quais?

  • Na do presidente Jorge Sampaio, que nomeou um governo para lhe dar tempo de tomar conta do partido e, quando ele ficou pronto para concorrer às eleições, derrubou o governo que tinha nomeado a pretexto de se ter fartado dele? Não.
  • Na do Partido Socialista, que o elegeu para o chefiar e para se candidatar a primeiro-ministro e sempre o defendeu heroicamente enquanto exerceu o seu mandato? Também não.
  • Nas dos seus colaboradores mais próximos no governo ou no partido, ou mesmo nos dois, como a do actual primeiro-ministro e seu companheiro de tertúlias televisivas e então número dois do Sócrates, António Costa? Nunca, Deus o livre!

Mas isto são perguntas de retórica, porque todos os leitores já adivinharam que cumplicidades com o Sócrates é que poderiam alguma vez ser denunciadas pelo Pacheco Pereira: a cumplicidade da direita e, especificamente, do PSD.

É preciso ser senhor de um nível superlativo de trafulhice, comparativamente com o qual o Sócrates é um mero menino de coro provinciano para, num relato sucinto do seu percurso de ascenção e queda, só apontar como referência ao papel de outros agentes políticos:

  • "...A direita que o louvou como o social-democrata do PS, como aquele que tinha roubado o programa ao PSD, que andou ali a fazer-lhe a corte nos interesses e na política, agora, certamente por complexo de culpa, vai lá apedrejá-lo como se nada tivesse que ver com o homem. Mais, em vários momentos cruciais, protegeu-o de acusações muito semelhantes àquelas de que hoje lhe faz o Ministério Público. Na comissão de inquérito parlamentar, por cuja existência pugnei bastante sozinho, o PSD indicou como seu porta-voz Agostinho Branquinho, que depois de assistir à inquirição dos responsáveis da Ongoing, envolvidos na trama de Sócrates, acabou por ir para lá trabalhar como assalariado. Mas a verdade, é que quando se tratou de chegar às conclusões do inquérito, por uma intervenção pessoal de Branquinho, Miguel Relvas e Passos Coelho, travaram tudo o que incriminava Sócrates, porque não era politicamente conveniente e era um ataque pessoal. Repito o que já escrevi há muitos anos sobre Sócrates e as cumplicidades do PSD: estamos conversados... "

Identificados com a mestria ímpar que lhe é própria os verdadeiros responsáveis pela ascensão e pelas malfeitorias do Sócrates enquanto primeiro-ministro, a direita e o PSD, há que chamar a atenção para o facto de o comentador Pacheco Pereira ser, acumulando com a militância reconhecidamente leal no PSD, uma espécie de comentador avençado do governo do primeiro-ministro António Costa, que simbolicamente o galardoou com a sua primeira nomeação política ao fim de apenas duas semanas de governo para o Conselho de Administração da Fundação de Serralves. O comentário é genial mas não lhe saiu a despropósito nem como um mero acaso. Saiu-lhe com o propósito bem definido de evitar questionar a associação entre o seu amigo, colega de antigas tertúlias televisivas, e padrinho de nomeações António Costa, e toda a máquina de cumplicidades socialista que mantém no terreno e manteve no passado, e o Sócrates que, com o tempo, se transformou num passivo político, e a substituir essa interrogação comprometedora pelo apontar de dedo aos eternos suspeitos nas suas crónicas, a direita e o PSD. Duplamente genial, no conteúdo, e em colocá-lo ao serviço do propósito.

Este comentador é uma p., mas uma p. que f. bem!

 

PS: Para o caso de andarem por aí esbirros da polícia dos costumes, que não há mas eles gostavam que houvesse, a vasculhar as redes sociais à procura de oportunidade para me colocar um processo em cima por abuso da liberdade de expressão, neste novo tempo socialista a liberdade de expressão é uma excentricidade de que se tende a abusar, esclareço desde já que o título desta publicação significa "Uma pessoa, mas uma pessoa que fala bem".

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:06
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Domingo, 11 de Dezembro de 2016

Guerras do passado

Num texto confuso Pacheco Pereira pinta a traço grosso uma história superficial das ideias políticas nas democracias europeias nas últimas décadas, para concluir com desgosto que as condições materiais de vida não estão actualmente a melhorar. Nas palavras dele:

 

"Foi isso que permitiu um aprofundamento e melhoria da democracia e é isso que hoje emperrou e nos faz voltar para trás. É porque o melhorismo que é intrínseco ao objecto das democracias, o bem comum, está em crise, que estamos a voltar para trás. O mundo novo que está a vir é um recuo no modo de pensar, nas palavras e infelizmente nas acções. Lá vou eu ter que voltar a falar de esquerda e de direita, o que bem atravessado me está. Mas se o mundo se tornou cavernícola, não posso agora pedir-lhe que pare às cinco horas para tomar chá".

 

Temos portanto que o mundo actual está ficando "cavernícola" mas, felizmente, Pacheco, e presumivelmente um exército de Pachecos que se erguerão do Atlântico aos Urais, moverá uma incansável guerra, reeditando as gloriosas lutas esquerda/direita, que culminarão no assalto ao Palácio de Inverno ou, vá lá, entre nós, ao Quartel do Carmo ou ao Regimento de Lanceiros 2.

 

Como programa para a terceira idade não está mal; e vejo decerto com muito melhores olhos Pacheco a contribuir com o seu verbo inflamado e a sua juba marxiana do que o veria montado numa bicicleta TT com um equipamento de lycra a oprimir-lhe as adiposidades, que é o que costuma fazer quem quer recuperar os verdores da juventude.

 

Sucede que o retrocesso a que Pacheco assiste, pasmado, decorre de consultas eleitorais recentes e outras que se adivinham, todas levando ao Poder gente que não está no centro - esse centro que aprecia e que, segundo ele, foi responsável pelo "melhorismo" que dantes havia e agora não há. E como não consta que tenha havido falsificações de resultados, ou falta de democraticidade nos processos, resulta que são os eleitorados que estão a perpetrar estes atentados ao "bem comum".

 

Os eleitorados estão, portanto, cegos, ou são vítimas de circunstâncias novas cujas causas não percebem. E seria talvez o papel dos intelectuais identificar essas causas, primeiro, e, se fossem atrevidos ou ambiciosos, indicar soluções novas para problemas que são, possivelmente, novos.

 

É defensável, por exemplo, dizer-se que a União Europeia é um cadáver adiado, ferida de morte pelo Brexit, e que a fuga para a frente, que as burocracias europeias ensaiam, e a opinião europeísta defende, apenas acelerará o óbito; que a Europa tem um problema demográfico e que, portanto, ou o corrige ou reforma os seus estados sociais escleróticos, que sufocam a economia com o peso de impostos confiscatórios; que a política de portas abertas à imigração muçulmana é um suicídio civilizacional porque nem os muçulmanos são integráveis nas nossas sociedades laicas nem deixarão, logo que atinjam uma proporção relevante do total da população que as suas superiores taxas de natalidade entre nós lhes garantem, de entrar em choque com valores que rejeitam; e que a globalização (que, de resto, já ultrapassou o seu pico), combinada com a automatização dos processos produtivos, cria desemprego que talvez venha a ser, ou não, reabsorvido, mas que entretanto obriga a conviver com exércitos de desempregados.

 

A estes problemas podemos acrescentar outros, e hierarquizá-los de forma diferente. E decerto sem os resolver não regressaremos ao "melhorismo", assim como os eleitorados não deixarão de testar soluções novas que o supermercado da política lhes oferecerá, se novos actores falharem.

 

O que não podemos é julgar que estas múmias do pensamento conseguem melhor do que aqueles generais que combatem sempre numa guerra anterior; e pior se nem em qualquer guerra anterior jamais tiveram um desempenho que fosse convincente.

publicado por José Meireles Graça às 20:18
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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

A Quadratura do Circo

mw-800.jpg

Com o tremendismo típico de um charlatão de feira, de um vendedor de aspiradores Rainbow, ou de um pastor de almas, que anunciam aos seus ouvintes catástrofes iminentes que só podem ser evitadas in-extremis, respectivamente, pelos elixires milagrosos que tem para vender, pelo filtro HEPA que afoga os ácaros, e pelas rezas que fazem retroceder o demo, o tele-evangelista José Pacheco Pereira fez à seita de adoradores que lhe bebe piamente a Palavra uma revelação extraordinária e assutadora: que o partido a que ele sempre dedicou o melhor que tinha para dar "está hoje, com direções distritais todas na maçonaria". Todas!

Os adoradores, está de ver, já esperavam a revelação que, como todas as outras revelações deste profeta, confirmam sempre as suas suspeitas mais lúcidas. É disso que gostam nele, de lhes dizer com eloquência aquilo que eles já sabem, que o PSD é, desde que deixou de o considerar para cargos directivos ou internacionais, um antro de malandros, com excepção de um pequeno núcleo de resistentes, os últimos dos social-democratas do partido, de que fazem parte ele próprio, a Manuela Ferreira Leite e o Rui Rio. E quanto mais ele lhes confirma isso, mais acreditam nele, e naquilo em que já acreditavam antes de ele lhes dizer. Quando tudo se confirma, tudo está bem.

Confirmaram eles, mas não consegui confirmar eu. Pois se um desses presidentes de distrital é amigo de há quase 40 anos, compadre e comensal regular desde que veio para Lisboa para o parlamento, e só usa avental na cozinha, tal como eu quando me aventuro nessas artes, mas nunca o vi de avental fora da cozinha, e sei que não usa, como podem ser os presidentes das distritais todos maçons? Não podem.

Eles próprios também não conseguem confirmar que são todos maçons. Alguns deram-se mesmo ao trabalho de chamar os jornais para o desmentir, apelo a que pelo menos o Correio da Manhã, mas o Correio da Manhã não é da seita, toda a gente sabe, respondeu publicando o desmentido.

Ora até o Jorge Jesus é, pelo menos desde que começou a estudar os filósofos chineses, capaz de dominar a lógica aristotélica e de perceber que quando se diz que são todos e há pelo menos um que não é, se mentiu. O Pacheco Pereira mentiu.

O que vai ser dos adoradores, agora que o seu profeta foi apanhado a mentir?

Nada de especial. Como dizia o senhor Osgood Fielding III na lendária frase final do Some Like it Hot, "Nobody is perfect...".

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 02:05
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Domingo, 11 de Setembro de 2016

Pacheco Pereira ontem, hoje e amanhã

Ao só ter saído da clandestinidade maoista para onde tinha entrado em 1972, não no próprio dia 25 de Abril de 1974, mas apenas depois do 11 de Março de 1975 e de se terem dissipado todas as dúvidas sobre a progressão da revolução portuguesa da democracia burguesa para a ditadura do proletariado, o Pacheco Pereira prometia, e nunca desmereceu a esperança dos que nele a depositaram.

Ontem, ou no tempo do José Sócrates e da Maria de Lurdes Rodrigues a governar, para ser mais preciso, denunciava que...

  • "...as escolas vão estar de novo nas mãos dos sindicatos que só têm obtido vitórias, obteram vitórias contra o PS..."

 

Hoje, ou ontem, para ser mais preciso, explicou o "ajustamento" na sua coluna no Diário do Governo, não como o resultado da falta de dinheiro, como pensam as pessoas normais e menos dotadas para a compreensão das conspirações obscuras que determinam a evolução do mundo, mas como um combate épico entre o bem e o mal, entre a virtude e o vício, entre o pecado e o castigo...

  • "...dizem-nos que o único meio de sair deste passado que nos aprisiona é uma purga nacional, uma espécie de acto punitivo e doloroso, que nos últimos anos se chamou de “ajustamento”. O “ajustamento” destinava-se a fazer voltar o estado, o povo, as elites a um estado natural de “pobreza”, que é o que é Portugal, um país “pobre”, e que foi “desonrado” pelas suas elites, que criaram uma riqueza artificial para o seu próprio usufruto, garantindo assim que, “vivendo acima das suas posses”, o país permanecesse “estagnado”. O “ajustamento” ao restituir a “verdade” à economia e à sociedade, eliminando os sinais dessa falsa riqueza, ou seja cortando nas despesas e prestações sociais, criava um ponto de partida para um recomeço sadio. Esse crescimento não se preocupava em ser distributivo, mas agravava as desigualdades, entendidas como um efeito colateral. A ideia de que o “ajustamento” poderia ser no fundo uma deslocação maciça de recursos de muitos para uma pequena minoria, seria irrelevante. Não por acaso teria que ser um processo longo, de décadas, e não poderia ser afectado pelas escolhas eleitorais, que estragariam tudo, como parece que estragaram. Tinha uma componente punitiva do “mal” e de abertura de oportunidades para os “bons”. Era e é um caminho tendencialmente autoritário, para pôr na ordem os conflitos sociais ...
    ... Aquilo que em Portugal são os grandes interesses económicos ... não fazem parte da elite malfazeja, o que os poria ao lado da CGTP. Excluída dessa elite, está também o “círculo de confiança” do poder económico e político, dos jornalistas “bons” aos advogados de negócios, aos “empreendedores” do Compromisso Portugal, ou seja, essa elite acaba por ser nos dias de hoje o PS, o PCP, o BE, os malvados críticos de Passos Coelho no PSD, a CGTP, os professores da FENPROF, os funcionários públicos e os reformados e pensionistas..."
    .

... devolvendo aos sindicatos, de prévios inimigos dos governos democraticamente eleitos, à condição de inimigos da conspiração neoliberal pró-ajustamento, ou seja, amigos do povo representado pelo PS, pelo PCP e pelo BE, o que pode talvez indiciar que ele, afinal, ainda não chegou a sair completamente da clandestinidade e apenas andava a disfarçar infiltrado como social-democrata na democracia burguesa à espera da oportunidade para relançar a ditadura do proletariado.

E amanhã? Só Deus sabe o que esperar dele, e para onde vão soprar os ventos de Leste. Se calhar, ainda o vamos ver criticar a invasão do Iraque, que, o liberalismo económico, já foi um amanhã que cantou.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:50
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Domingo, 31 de Julho de 2016

Ele até pode matar a mãe, mas como é dos “nossos” não há problema

O Pacheco Pereira, antigo cão de fila do Durão Barroso que, between jobs milionários arranjados pelo Durão Barroso no Parlamento Europeu e na UNESCO, se prestou a trabalhos sujos como defender a invasão do Iraque, descobriu com as nomeações do Durão Barroso para a Goldman Sachs e do Paulo Portas para a Mota Engil que há políticos que "podem matar a mãe, a família toda (que foi de alguma maneira o que fizeram), que há-de haver sempre quem os defenda.".

Ah, pois há! Pagando bem, aparecem sempre defensores.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:04
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Quarta-feira, 4 de Maio de 2016

O plano B

Já está tudo combinado com a Quadratura do Círculo, e desta vez não vai ser a Lehman Brothers, nem os mercados, isso foi chão que já deu uvas, nem, até ver, as agências de rating, se bem que possam vir a ser um filão a explorar mais adiante. Vai ser a famigerada Europa, o que vai permitir sacar aplausos à turma da reestruturação da dívida e à turma da saída do euro. Uma coisa assim em forma de três em um.
publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:22
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Sábado, 30 de Abril de 2016

Pacheco responde a Pacheco

 

  

Em Outubro de 2005, repito, 2005Pacheco responde a Pacheco:

 

Pacheco-Abrupto-2015-10-29 - Largura.jpg

 

 

Ficamos à espera de ver se Pacheco tem barba na cara para responder a Jorge Costa. Ou se os pêlos que a gente ali vê só servem para ajoelhar nas sessões espíritas do dr. Fernando Rosas.

 

 

__________

 

Com um penhorado agradecimento a Terry Malloy.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:31
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Segunda-feira, 29 de Fevereiro de 2016

Uma certa tristeza nestes dois

Pacheco Pereira diz melancolicamente que há uma certa tristeza nisto tudo: na mãe que afoga as filhinhas na maré, no corrupto magistrado que vai de cana, no vereador que quer pôr umas árvores e na câmara que quer arrancar outras, na actrizinha que vem mostrar os progressos do cancro de que padece aos fãs, no pescador que morre afogado, no namorado traído que significa o seu desagrado com duas facadas na moça arredia - e, sobretudo, na televisão que nos serve estas misérias em doses cavalares, nos intervalos de sessões intermináveis de futebol.

 

Mas isto ainda não é nada. Que a grande maçada, o que transtorna Pacheco, é "a impotência do poder político democrático face ao poder económico [que] castrou governos eleitos e submeteu-os a entidades obscuras como os mercados".

 

Tivessem os mercados nome e outro galo cantaria. Mas os malvados vinham à sorrelfa emprestar-nos dinheiro, a taxas de juro proibitivas, e punham-se na Senhora da Alheta com os proveitos, que escondiam "numa caixa de correios das ilhas Caimão".

 

Tudo isto para salvar a banca, que no fim não salvaram: "Uma mistura de interesses, negligência, incompetência e uma nonchalance ideológica com custos gravíssimos, deixou de herança uma crise de milhares de milhões, que todos sabem de quem foi a responsabilidade. É por isso que Passos fala dizendo enormidades, como as que disse sobre o Banif, o banco que dava lucro e por isso não se tocava, e Maria Luís está lá no fundo da bancada muito silenciosa a ver se ninguém a vê".

 

Um verdadeiro pesadelo. E interminável porque, agora que o governo tem a bênção do BE e do PCP, e é dirigido pelo compagnon de Quadratura, poder-se-ia razoavelmente esperar que, finalmente, se começasse a "bater o pé aos credores" e a famosa TINA (there is no alternative) fosse remetida para o caixote da história, que é o destino fatal de todas as políticas que não têm o beneplácito de Pacheco.

 

Mas não. O Orçamento recentemente aprovado pela maioria é filho de pai incógnito, porque nem é o que o PS levou a Bruxelas, e que era saudavelmente "expansionista", nem, t'arrenego, o do PCP e do BE, nem muito menos o da Oposição. Isto Pacheco, por acaso, não diz. O que diz é que "é 'normal' o ministro das Finanças de Portugal receber ordens por email de Danièle Nouy, uma alta-funcionária bancária francesa com funções no BCE, mandando entregar o Banif ao Santander".

 

Dito de outra forma: Costa, como Passos, cumpre ordens de Bruxelas, precisamente o que se dizia ser o principal pecado do governo defunto. É certo que a contragosto - e isso chega para continuar a ter o apoio de Pacheco, até mais ver. Mas, entretanto - entristece.

 

Quem é mais afoito é Anacleto Louçã, que difere de Pacheco pelo facto de, dizendo basicamente as mesmas coisas, delas retirar consequências. Acha assim que "a liberdade de circulação de capitais é uma forma de regulação" (é mesmo, precisamente da mesma forma, e pelas mesmas razões, que a liberdade de comércio protege o consumidor), que "a única condição para que um Estado tenha condições para uma política de emprego e distribuição social é ser capaz de controlar os capitais" (tradução: para o Estado se apropriar do capital privado e instaurar a sociedade socialista é necessária a autarcia económica) e que a "banca privada será a forma de permitir a fuga de capitais" (entre outras coisas, Louçã, entre outras coisas. E ainda bem que os capitais podem fugir, senão desapareceriam, depois de confiscados, sob a forma de consumo e dos elefantes brancos do investimento público - enquanto durassem).

 

Há sim uma certa tristeza nisto tudo - e nestes dois também.

 

 

 

publicado por José Meireles Graça às 13:06
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2015

Pregador da má fé

 

Rev Jim Pacheco Jones.jpg

 

As interpretações crapulosas de Pacheco Pereira têm um lado instrutivo:

 

Marcelo não se podia candidatar, porque veio do comentário político, o que é uma "mancha ética". Mas Costa pôde candidatar-se a líder do PS e a primeiro-ministro, mesmo vindo da Quadratura do Círculo; e pode preparar-se para forçar um governo seu, coligado com 2 partidos que se opõem activamente a toda a estrutura da nossa vida política, económica, social, e cultural, mesmo nunca tendo mostrado essa intenção ao eleitorado e apesar de ter perdido as eleições.

 

O próximo Presidente da República não pode convocar eleições ao fim de 6 meses, porque isso seria fazer um servicinho à coligação, que está desejosa de obter a maioria absoluta. Mas entre 2011 e 2015 todas as quintas-feiras Pacheco pediu eleições antecipadas, a bem da "saúde democrática", porque o governo tinha "perdido a legitimidade", e não percebia esta sobrevalorização da estabilidade "pantanosa".

 

Espremendo, foi isto. Pacheco ajudou a legitimar a situação miserável do país; ouvindo-o com cuidado, percebe-se como e porquê.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 15:42
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