Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

MBA rápido em Jornalismo, na especialidade Entrevista Política

2017-04-07 Pacheco Pereira Bom trabalho, mau traba

Hoje lanço aqui um MBA rápido em Jornalismo, na especialidade de Entrevista Política, com uma garantia de empregabilidade de 100% na Impresa, o grupo de comunicação social do dr. Pinto Balsemão. O curso é gratuito, mas ofereço a garantia de devolução das propinas se o candidato não conseguir o tão desejado lugar nos quadros deste afamado grupo.

O curso é suportado cientificamente numa investigação empírica exaustiva conduzida ao longo de anos na observação de percursos profissionais de sucesso de jornalistas lambe-botas e lambe-cus, fundamentação científica que permite assegurar os resultados prometidos.

O estudo de caso que se propõe como exercício é preparar um guião para uma boa entrevista ao líder da oposição. Para os alunos não gastarem os neurónios, a abundância de neurónios não é um pré-requisito para o ingresso no grupo Impresa, a resolvê-lo, apresenta-se desde já a solução e despacha-se o curso mais repidamente.

 

Guião para uma boa Entrevista ao Líder da Oposição.

  • O senhor está com raiva por causa dos sucessos do Governo a resolver problemas que o senhor deixou por resolver?
  • O senhor, que disse que o governo nunca conseguiria atingir o deficit, o que é que diz agora, engole as palavras?
  • O senhor continua a torcer para haver a necessidade de um segundo resgate?
  • O senhor está à espera de a geringonça estoirar para conseguir finalmente regressar ao governo?
  • Se voltar ao governo, o senhor vai voltar a cortar os salários e as pensões?

[Se incluiu estas perguntas na sua solução, o entrevistador já obteve a aprovação no curso e um lugar garantido nos quadros da Impresa. A resposta seguinte permite ascender à classificação de Aprovado com louvor e Distinção e dá acesso directo ao ingresso na Quadratura do Círculo e a sete mil e quinhentos euros por mês a título de direitos de autor, que pode acumulaar com outros rendimentos e lhe dá um desconto no IRS]

  • O senhor continua a ser um neoliberal que faz tudo para desvirtuar a matriz social-democrata do PPD/PSD e a herança ideológica do dr. Sá Carneiro?

Obrigado pela vossa comparência no curso, espero que vos tenha sido útil e proveitoso, e deixo-vos a sugestão de levarem sempre convosco a imagem de São Pacheco, o santo padroeiro dos vira-casacas, que neste mundo nada é imutável e a capacidade de adaptação a circunstâncias que se alteram dinamicamente é crucial para os lambe-botas e lambe-cus de sucesso.

 

* Imagem do santo tomada de empréstimo ao seu suposto autor, o blogue wehavekaosinthegarden.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:50
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Os trabalhos do Pedro Passos Coelho

Estas linhas destinam-se a uma espécie em vias de extinção, a fazer fé na generalidade dos jornalistas e comentadores de quase todos os jornais e canais de televisão, incluindo os que foram dirigentes e até presidentes do partido mas deixaram de o ser por, entre outros motivos, nunca teram conseguido ganhar eleições legislativas, os militantes, dirigentes e eleitores do PSD. Se já não houver nenhum entre os leitores, há pelo menos este que as escreve.

Está em plena execução uma campanha mediática com exactamente o mesmo objectivo, remover a liderança de um partido incómoda para os autores da campanha, o mesmo alvo, os militantes, dirigentes e eleitores desse partido, o mesmo argumentário, sugerir fragilidades e isolamento dessa liderança para sustentar a ideia que ela não é suficientemente forte para ganhar eleições apesar de as ter ganho sempre até aí, os mesmo actores, jornalistas e comentadores notáveis de diversos partidos e has-been e adversários internos do mesmo partido, todos unidos no incómodo que o sucesso do dirigente a remover lhes proporciona, e os mesmos meios, uma série conhecida de jornais e canais de televisão que dão palco aos actores, que a que foi montada, e resultou, para derrubar o anterior líder do PS António José Seguro e o fazer substituir pelo actual, o António Costa. E o mesmo autor, o mesmo António Costa que, na altura, tinha deixado o Seguro fazer sozinho a travessia do deserto de uma legislatura na oposição e construir uma alternativa credível ao governo e estava na altura de colher os frutos antes que ele mesmo os colhesse, e agora perdeu as eleições e preferiria disputar as próximas contra um adversário a quem as consiga ganhar, e até tem uma proposta bem definida nesse sentido. O objectivo da campanha, os leitores já identificaram, é a remoção e substituição do Pedro Passos Coelho como presidente do PSD.

A campanha contra o Seguro resultou, apesar de ele ter ganho todas as três eleições a que o PS concorreu enquanto foi liderado por ele, duas delas de âmbito nacional, as autárquicas de 2013 e as europeias de 2014, e o PS, infectado pelo receio de que ele ser incapaz vir a ganhar as legislativas de 2015, substituiu-o em eleições directas pelo Costa, que depois as veio mesmo a perder.

A campanha actual, lançada pela equipa do Costa ainda antes das eleições legislativas ao identificar como seu adversário preferido no PSD o Rui Rio, para além da participação natural de agentes da política, do jornalismo e do comentariado dos adversários políticos, envolve inimigos políticos na definição de Winston Churchill, os do próprio partido, inúmeros figurões do PSD incluindo a maioria dos antigos presidentes do partido ainda vivos, começando pelo Pinto Balsemão com a sua máquina de propaganda declaradamente criada para vender presidentes como se fossem sabonetes, se bem que nunca o tenha conseguido vender a ele como presidente, o doutor Rebelo de Sousa, que tem usado todo o magistério de influência que as actuais funções colocam à sua disposição para louvar e defender o primeiro ministro e criticar e menorizar o líder da oposição, a Manuela Ferreira Leite e a sua facção, incluindo o Pacheco Pereira, o mais esforçado detrator do Passo, e o Rio, o mais interessado na substituição dele por si próprio, e até o Marques Mendes no seu programa semanal de divulgação de mexericos da política. Dos ex-presidentes vivos, só se têm matido de fora da campanha o Cavaco Silva, que ganhou três eleições legislativas, o Durão Barroso, que ganhou umas, os únicos ex-presidentes do PSD vivos que, tal como o Passos por duas vezes, ganharam eleições legislativas, e o Santana Lopes e o Luís Filipe Menezes, que nunca ganharam nenhumas, tal como todos os que participam na campanha.

Mas a campanha tem o handicap do dejá vu que filtra os que caem nela segundo o princípio da ciência das campanhas na primeira caem todos, na segunda só cai quem quer.

Mesmo assim, e apesar de o Passos ser, lado a lado com o Sá Carneiro e o Cavaco, o único presidente do PSD que conseguiu ganhar segundas eleições legislativas depois de ter governado, e em condições de submissão a um programa de assistência financeira externa incomparavelmente mais duras do que aquelas em que eles tinham governado, a campanha actual tem conseguido inocular alguma dúvida entre militantes, dirigentes e eleitores do PSD, para além, obviamente, dos que participam nela de alma e coração por pretenderem devorar o cadáver se ela resultar, sobre a sua capacidade de ganhar eleições legislativas. E por três razões:

  • As sondagens, que dão vantagem sistemática ao Costa e ao PS, nalgumas delas suficiente para formar maioria com apenas o apoio parlamentar do BE, noutras poucas próximo da maioria absoluta.
  • A aparente inabilidade política do Passos, ou indisponibilidade para fazer demagogia, que parece afugentar eleitores que, com um bocadinho mais de manha, seria possível reter ou conquistar.
  • A aparente passividade do modo de estar e fazer oposição do Passos, que a alguns chega a parecer saudosismo ou ressentimento por ter sido afastado do governo apesar de ter ganho eleições, e inaptidão para recuperar a maioria a partir da oposição. 

Todas estas razões são importantes e têm indícios a sugeri-las, pelo que todas merecem ser analisadas para perceber até que ponto são mesmo fundamentadas, ou meros enganos que a campanha inocula habilmente nas suas vítimas.

 

As sondagens

2017-01-16 Songagens desde Junho 2011.jpg

Depois de nas eleições de Outubro de 2015 a coligação PàF ter derrotado claramente o PS, com 38,5% dos votos contra 32,3%, neste primeiro ano de governação socialista o PS tem conseguido recuperar nas sondagens essa desvantagem e ultrapassar, não apenas o PSD, mas até o PSD e o CDS somados, obtendo actualmente uma média próxima de 40% das intenções de voto declaradas contra cerca de 30% do PSD e 7% do CDS.

Esta recuperação de intenções de voto parece sugerir que o governo está a governar de modo popular, e bem, e o PSD está a fazer oposição de modo impopular, e mal, e suscita dúvidas com algum sentido em dirigentes, militantes e eleitores do PSD, que não os que participam na campanha, sobre a capacidade da actual liderança do partido dar a volta a uma desvantagem que já é significativamente expressiva. E tanto mais quanto a ambição do PSD é voltar a governar e, para isso, com a mudança de paradigma operada nesta legislatura em que a esquerda radical passou a estar disposta a apoiar governos do PS e o PS a acolher as exigências que esse apoio lhe custa, tem que conseguir uma maioria absoluta de deputados nas eleições legislativas, pelo menos em conjunto com o CDS com quem consegue tradicionalmente entender-se para formar governo.

Uma análise um pouco mais ponderada revela que a desvantagem actual do PSD (e do CDS) face ao PS não é muito, ou mesmo nada, diferente da desvantagem que teve ao longo de toda a legislatura anterior desde que o programa da troika entrou a doer no bolso dos portugueses, sendo natural que muitos atribuissem as dificuldades por que estavam a passar, não ao governo que tinha mergulhado o país na crise, mas ao que estava a tentar tirá-lo da crise, e que não impediu a vitória da PàF nas eleições de Outubro de 2015.

Uma análise um pouco mais atenta revela que as sondagens em Portugal tendem a convergir para o resultado das eleições apenas nas últimas semanas antes da sua realização, o que parece atestar o rigor e a seriedade das empresas que as realizam, mas a ter resultados muito diferentes até poucas semanas antes das eleições. O que sugere que a predisposição para responder a sondagens não se distribui sempre de modo uniforme por todo o espectro político, parecendo que às sondagens distantes das eleições os eleitores da direita tendem a recusar responder mais que os de esquerda, o que faz os resultados terem um peso exagerado da esquerda face à realidade, e à medida que as eleições se aproximam tendem a aceitar responder, proporcionando resultados bastante fiáveis nas últimas sondagens que precedem as eleições. Ou seja, sugere a existência real de uma maioria silenciosa, até para efeitos de resposta a sondagens.

Revela ainda que, mesmo sem permitir aferir as consequências que poderia vir a ter nas eleições seguintes, até porque ele foi afastado antes de elas ocorrerem, uma campanha de descredibilização como a que foi lançada sobre o Seguro resulta numa violenta queda nas intenções de voto declaradas nas sondagens, como se pode verificar imediatamente a partir do desafio à sua liderança que o Costa formalizou no dia seguinte às eleições europeias de 2014, assinalado pela seta mais à esquerda na figura. Ou seja, demove pelo menos os eleitores dispostos a responder nas sondagens.

Lição? Deduzir dos resultados das sondagens actuais que o PS se prepara para obter uma vitória eleitoral em 2019 e que a actual liderança do PSD é incapaz de o levar à vitória eleitoral é uma previsão de grande risco não sustentada pelos factos verificados em eleições passadas.

 

A inabilidade política

O Passos distinguiu-se em toda a legislatura anterior por fazer o que pensava que era preciso fazer para resolver o gravíssimo problema financeiro, económico e social que tinha que ser resolvido em Portugal, mesmo que isso lhe viesse a custar o apoio de grupos de interesses importantes na sociedade portuguesa e a simpatia dos eleitores e, consequentemente, a reeleição, modo de estar na política que resumiu cristalinamente na frase

  • "Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal".

A frase evidencia uma coragem política rara e o traço de carácter mais nobre que se pode ter na política: colocar os interesses de Portugal e dos portugueses à frente do seu interesse pessoal como político que pretende continuar a ser eleito, e do do partido. Muitos políticos disseram coisas nobres como esta, mas raros foram capazes de ser tão coerentes com este princípio como ele foi. Até porque a coragem política nem sempre é apreciada na política. Na série Yes, minister, quando um dos assessores comentava com o ministro que uma decisão sua mostrava grande coragem política, o ministro tratava logo de a mudar para não correr riscos. Era mesmo o melhor argumento que eles tinham para o fazer mudar de ideias a propósito de qualquer iniciativa dele de que eles não gostassem. O Sá Carneiro definiu a sua posição sobre este tema, correr riscos para lutar pelas suas convicções, com outra frase cristalina,

  • "A política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha".

Apesar de ter corrido o risco de governar com ética, o Passos Coelho acabou mesmo por ganhar as eleições. Não conseguiu obter maioria absoluta, e por isso foi derrubado no parlamento. A vitória não foi suficiente para o novo paradigma inaugurado pelo governo actual, de que não se consegue governar com maiorias relativas. Mas não deixou de ser uma vitória impossível, a primeira de um primeiro-ministro português ou europeu que teve que governar sujeito a um programa de assistência tão violento, e impondo tanto dano e sofrimento aos portugueses como o da troika. A ética e o risco compensaram.

Mesmo assim, podem-lhe ser apontados alguns excessos de honestidade política que alguns consideraram ingénuos e pensam que lhe podem ter feito perder votos e, desse modo, impedido de obter a maioria absoluta que necessitava para vir a assegurar a sobrevivência do segundo governo. E um dos exemplos que lhes parecem mais gritantes desta inabilidade política foi o anúncio pela Maria Luís Albuquerque em 16 de Abril de 2015, a menos de seis meses das eleições de Outubro, da necessidade de cortar mais 600 milhões de euros anuais na despesa da Segurança Social para assegurar a sua sustentabilidade. O anúncio foi um dos temas mais usados pelos socialistas e por toda a esquerda durante a campanha eleitoral, e ainda hoje continua a ser.

É verdade que se pode dizer a quem aponta ao Passos falhas como esta que não se pode ambicionar ter um candidato que consiga ganhar as eleições por ter um sentido de ética e de risco ímpares, e ao mesmo tempo desejar que fosse um bocadinho demagógico para as ganhar por mais. Isso não existe.

Mas, mais do que isso, vale a pena tentar perceber se, como parece evidente, este anúncio terá mesmo afectado negativamente o resultado das eleições? Sendo impossível de determinar sem perguntar a cada eleitor se deixou de votar na PàF por causa dele, pode-se, no entanto, testar a hipótese olhando para os resultados das sondagens, e para o modo como foram afectados pelo anúncio, que está marcado na figura pela seta da direita. E o que se pode verificar é que o anúncio não alterou em nada, nem os níveis de resultados, nem as suas tendências, que se mantiveram estáveis até ao início de Setembro antes de convergirem para valores próximos do resultado real das eleições. O anúncio provocou grande alarido mediático e a condenação unânime dos do costume, mas não há evidência de ter feito perder votos.

Lição? A honestidade não é tão penalizadora na política como se costuma pensar.

 

A passividade a fazer oposição

Alguns militantes, dirigentes e eleitores do PSD têm manifestado alguma inquietação relativamente ao modo aparentemente demasiado passivo como o PSD liderado pelo Passos tem feito oposição ao PS.

Parece-lhes pouco, nomeadamente, o PSD não desmentir todas e cada uma das mentiras e enganos dos governantes, dos deputados socialistas e dos outros partidos da esquerda, e dos militantes e porta-vozes desses partidos, para não falar de todos os jornalistas e comentadores que participam na sua disseminação, para louvar e justificar as medidas do governo e desculpabilizar os seus insucessos atrás de responsabilidades do governo anterior, não propor permanentemente alternativas para as propostas políticas do governo e da maioria que o apoia, até não mandar para a puta que os pariu os governantes e deputados socialistas que dedicam as suas intervenções no parlamento a fazer piadolas e insultar os dirigentes dos partidos da oposição, a que o Passos normalmente reage levantando-se e saindo da sala em vez de confrontar directamente os seus autores como fez em tempos, por exemplo, o deputado comunista Bernardino Soares, num episódio semelhante com um governante socialista. Parece-lhes pouco, no fundo, o PSD não se deixar orquestrar pela batura do governo e da maioria parlamentar que o sustenta na definição da sua agenda política, e não procurar ganhar no espaço mediático todas as discussões que lhe são propostas e todas as sondagens.

Acontece que, ao contrário do que podia parecer previsível no início da legislatura, até porque a maioria parlamentar exige o apoio permanente do BE e do PCP, partidos com interesses antagónicos, até mais do que posições divergentes, a coligação de apoio ao governo socialista tem-se mantido muito coesa, mesmo quando encena fracturas em domínios especialmente impopulares para os eleitorados de um ou outro dos partidos minoritários em que eles contrariam o governo no parlamento, e basta um deles não o apoiar para o fazer perder uma votação, esperando que a oposição de direita a viabilize, e basta a abstenção de um dos partidos da oposição para a viabilizar, para não haver disrupção na governação. Deste modo conseguem fazer parecer aos seus eleitorados que as medidas populares se devem à sua influência na governação, e as impopulares aos socialistas que eles tentaram sem sucesso demover e à direita que apoiou os socialistas. Para eles é um bom negócio. Para o Costa, que salvou politicamente a pele in extremis quando se preparava para ser esfolado por ter perdido as eleições que tinha prometido ao partido ganhar, e ficou com os negócios públicos à mão de semear para distribuir pelos seus melhores amigos pessoais e políticos, ainda melhor.

Pelo que, a não ser que os partidos de esquerda o decidam e cumpram a decisão, o governo não será derrubado e a legislatura durará os quatro anos até 2019.

Ora, tal como uma maratona não é uma sequência de 421 sprints de 100 metros e um de 95, mas uma corrida contínua que é ganha por quem chega à frente ao fim dos 42.195 metros, uma legislatura de 4 anos não é uma sucessão de vitórias diárias em debates no parlamento e na opinião pública e mensais em sondagens, mas um processo longo e continuado em que o vencedor só é apurado nas eleições legislativas para a legislatura seguinte, no caso actual em 2019.

Mesmo assim, os militantes, dirigentes e eleitores do PSD mais apreensivos têm-se deixado invadir pela dúvida  se a falta de resposta imediata e permanente do partido às provocações e humilhações regulares dos socialistas e dos outros será apenas estratégica, ou se indiciará uma falta de combatividade que, a arrastar-se até ao fim da legislatura, lhe poderá ser fatal nas eleições. Deixavam. Na última semana tiveram direito a três decisões inequívocas sobre a capacidade de afirmação política do Passos como político na oposição:

  • O PSD garantiu que se vai opor à nacionalização do Novo Banco, mesmo que temporária.
  • O PSD negou terminantemente a possibilidade de viabilizar no parlamento a redução da TSU para as empresas que pagam salário mínimo, uma das partes do acordo de concertação social apresentado mediaticamente como um sucesso brilhante da capacidade negocial do governo, apesar de o governo ter oferecido o que não podia cumprir, e também uma das fracturas encenadas entre o governo e os partidos da esquerda para lhes permitir desresponsabilizarem-se da medida, impopular entre os seus eleitorados, contando no entanto com a sua viabilização pelo PSD e o CDS.
  • O PSD desfez qualquer equívoco relativamente à hipótese de apoiar a candidatura da Assunção Cristas à Câmara de Lisboa, que foi uma excelente iniciativa do CDS para marcar território mas foi lançada como facto consumado à revelia de qualquer acordo prévio com o PSD para fomalizarem uma candidatura conjunta, o que faria do eventual apoio do PSD uma mera submissão seguidista à iniciativa liderada pelo CDS.

Estas decisões levantaram um coro de indignação universal que juntou em uníssono todos, de esquerdistas radicais a dirigentes de associações empresariais, de banqueiros a jornalistas, de dirigentes costistas ao presidente da república, de economistas anti-austeritários à aristocracia ressabiada do PSD, de sondagens a centrais sindicais, todos a apelarem ao Passos para dar mais uma vez colinho no parlamento ao Costa em vez de o obrigar a negociar com os partidos que o apoiam o apoio que precisa para concretizar a promessa que fez e não estava em condições de fazer, ou a sugerir-lhe uma candidatura suicida, porque seria facilmente derrotável como candidatura oportunista para ocupar o lugar a prazo até voltar a concorrer a primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas, à CML. Todos a apelarem-lhe à coerência para respeitar os seus princípios, que eles detestam, a quebrar o seu isolamento político, que eles sonham promover, e a salvar a credibilidade do PSD, que eles tentam demolir.

Todos? Todos menos os militantes, dirigentes e eleitores do PSD, para quem estes anúncios, e o repúdio generalizado que resulta do receio que eles suscitaram nos adversários e inimigos do partido, foram o sinal que precisavam para acordarem, perceberem que têm mesmo liderança para levar o PSD à vitória que necessita para voltar a governar, e voltarem a galvanizar-se em torno desse objectivo. Ou seja, todos, menos todos os que realmente interessam, que são os que vão estar até ao dia das eleições a lutar pela vitória necessária para afastar esta gente manhosa e ressabiada do poder.

Por uma excelente razão, aliás, ou mesmo duas: esta gente está de má-fé e pretende enfraquecer o PSD, ao contrário do que lhe acena nas sugestões que lhe faz, e tem experiência, não em ganhar eleições legislativas, mas em perdê-las, e é nisso que tem capacidade de lhe dar lições.

Lição? A melhor coisa para eles, para os portugueses e para Portugal, que o PSD e o Passos Coelho podem fazer com os apelos e conselhos desta gente que não vota nem nunca votará neles é agradecê-los e fazer exactamente o contrário do que lhes sugerem.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:00
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Domingo, 18 de Setembro de 2016

A arte de escrever um best-seller

Hoje o Gremlin Literário vai-se dedicar ao serviço público de apoio à criação literária, oferecendo um conjunto de preciosas sugestões aos jovens escritores e editores que queiram escrever e editar um best-seller, atingindo rapidamente um sucesso de vendas que lhes permita acumularem dinheiro a tempo de o pôr a salvo num paraíso fiscal antes que a ministra das finanças em exercício perca a vergonha de o ir buscar.

Escrever sobre sexo

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O sexo vende. Ninguém está interessado em saber o que é que o escritor pensa, ou sente, ou as conversas que teve com outras pessoas. A gajada quer é sexo. Querem um sucesso de vendas? Escrevam sobre sexo.

Garantir que toda a gente sabe que é sobre sexo

Além do conteúdo do livro, o marketing é essencial. Se o livro fala sobre sexo mas o público não sabe, não vai a correr comprá-lo, e o livro nunca será um best-seller. O filme "The Seven Year Itch", cuja personagem principal é justamente um editor, mostra um bom inventário de técnicas de melhorar o potencial de vendas de um livro apimentando-o, e aconselha-se o seu visionamento aos jovens escritores e editores com ambições de sucesso.

O lançamento é crucial

O lançamento do livro é crucial para garantir o sucesso de vendas, principalmente quando se querem resultados rápidos. Quanto mais reacções apaixonadas suscitar, sejam de voyeurismo, sejam de indignação, mais vai mais rapidamente vender. Que é o que se quer.

Como conseguir essa reacção do público? Não queremos enganar ninguém com sugestões ligeiras, opinativas e não baseadas em factos, de modo que vamo-nos basear no estudo científico empírico para escolher as soluções que funcionam comprovadamente.

O livro "Eu e os Políticos" do jornalista arquitecto José António Saraiva, é já um caso de sucesso, apesar de ainda não ter sido lançado. É o relato de conversas privadas que políticos tiveram com o jornalista ao longo dos anos sem acautelarem se corriam o risco de um dia ele vir a publicar as coisas que lhe estavam a dizer, toda a gente sabe que há conversas que expõem a vida sexual de pessoas famosas, não se sabendo se é só uma de um político a falar da homossexualidade do irmão, se é o tema central de quase todas as conversas, como se pode deduzir dos títulos de todos os jornais que falam do livro, e relata conversas com pessoas que, por já terem morrido, não estão cá para contradizer que lhe disseram o que ele diz que lhe disseram. E vai ser apresentado pelo Pedro Passos Coelho, que aceitou o convite do autor sem conhecer o conteúdo da obra mas já fez saber que, tendo aceitado, não voltará com a palavra atrás e não deixará de o apresentar. Esta conjugação de circunstâncias suscitou uma explosão de reacções de indignação que garantem que o livro vai ter vendas fenomenais, que vai ser um best-seller.

Mas qual destes três factores é mais determinante para o sucesso que o livro está a ter medido pela indignação que suscita?

  • Expor a vida sexual de pessoas famosas sem o consentimento delas

Sujeitar pessoas famosas ao voyeurismo do público sem o seu consentimento parece um excelente motivo para ultraje e indignação, para além de ser um excelente apelo ao voyeurismo.

Mas este não é o primeiro livro que expõe a vida sexual de pessoas famosas sem o consentimento delas. Nos últimos anos, foram lançados, pelo menos, o "Bilhete de Identidade" da socióloga Maria Filomena Mónica, que descrevia (não me peçam para confessar que não o li e que isto não é mais do que conhecimento de diz-que-disse) o desempenho dos seus vários maridos (pelo menos os anteriores) e namorados na cama, sem o consentimento deles, e "Os Homossexuais no Estado Novo", da jornalista São José Almeida do Diário do Governo Público, que revela listagens e histórias de pessoas famosas do Estado Novo que, sem o terem assumido em vida, eram afinal homossexuais.

Nenhum destes livros suscitou a indignação do "Eu e os Políticos", de modo que não será a exposição da vida sexual de pessoas famosas sem o consentimento delas o factor chave para o sucesso de vendas desejado pelos nossos jovens escritores e editores.

  • Citar pessoas que, por já terem morrido, não podem contradizer a citação

Citar conversas privadas com pessoas que já morreram também é um excelento motivo de indignação. É mais cobarde do que citar conversas privadas com pessoas vivas, que podem contradizer a citação ou, simplesmente, desprezar o autor da citação por violar a privacidade dessas conversas.

Mas, também neste domínio, o "Eu e os políticos" está longe de ser inédito. "Os homossexuais e o Estado Novo" é, todo ele, baseado em testemunhos e relatos de pessoas que já morreram. "O Botequim da Liberdade", livro do escritor Fernando Dacosta a recordar conversas com a grande Natália Correia é todo isso mesmo, a citação de conversas privadas com uma pessoa que já morreu. Tem até citações que tudo leva a crer que sejam imaginárias, como a crítica ao neoliberalismo, que traduz a orientação política actual dele, supostamente feita por ela, que morreu muitos anos antes de o termo "neoliberalismo" se ter começado a usar, nomeadamente com o sentido que tem hoje. Mas ela não está viva para contradizer o autor do livro.

Indignação? Zero. A citação de pessoas que já morreram não é também um factor suficiente para levantar a onde de indignação necessária para fazer do livro um best-seller.

  • O apresentador do livro

O livro "Eu e os políticos", com sucesso de vendas já garantido pelos níveis de indignação conseguidos mesmo antes do lançamento,  vai ser apresentado pelo Pedro Passos Coelho. O "Bilhete de Identidade" foi apresentado nos nossos vizinhos do Grémio Literário pelo Rui Ramos, o João Bénard da Costa e o Lourenço Correia de Matos. Um horror, indignação zero. E "Os homossexuais e o Estado Novo" pela Raquel Freire e a Ana Luísa Amaral. Nem se deu pelo lançamento.

Afinal, o único factor distintivo do estrondoso nível de indignação que vai garantir o sucesso de vendas do "Eu e os Políticos" é, não a exposição da vida sexual de pessoas famosas sem o seu consentimento, nem a citação de pessoas que já não estão vivas para confirmar ou renegar as afirmações que lhes são atribuídas, mas sim a apresentação pelo Pedro Passos Coelho.

E é este o conselho, relembramos que fundamentado num estudo científico empírico, que deixamos aos jovens escritores e editores que querem atingir um sucesso de vendas rápido através de uma explosão de indignação que torne os seus livros conhecidos e apetecíveis:

  • Convidem o Pedro Passos Coelho para apresentar os vossos livros.

Bons livros e melhores sucessos!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:39
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Le petit Nicolas, encore...

O jumento que o Dr. Balsemão não despediu com justa causa quando sujeitou à humilhação pública o seu grupo de comunicação social arrastando-o para o golpe do vigário em que ele próprio caiu que nem um patinho, por motivos que o Dr. Balsemão conhecerá, mas que não andarão longe de ele sonhar o seu grupo de media mais no domínio da propaganda do que no da informação, e jornalistas burros e rafeiros serem os ideais para rosnarem às canelas de quem o chefe os manda morder, lembrou-se de, mais uma vez, tentar ajudar o PSD a aumentar a sua votação num próximo acto, ou ato, como ele escreve, eleitoral, substituindo o Pedro Passos Coelho por, não chega a esclarecer mas pode-se subentender? outro fantoche do chefe, como ele, ou o que o chefe conseguiu vender para primeiro-ministro como vende sabonetes, se bem que não para ganhar nenhuma das eleições a que concorreu desde que foi conduzido aonde chegou, ou mesmo um fantoche deste fantoche. Enfim, escreveu:

2016-08-29 Nicolau Santos.jpg

O PSD, e é o PSD e as suas estruturas de militantes que escolhem o presidente do partido e não os jornalistas, comentadores ou governantes que gostariam de o escolher, não liga a ponta de um corno a este jumento, mas isso nem é importante, porque ele nem se apercebe bem do que anda cá a fazer.

Mas as pessoas desse imenso povo, não o oprimido das favelas, mas o indignado dos condomínios privados e do eixo Príncipe-Real - Estrela, que estão borradas de medo do resultado que o Passos Coelho possa vir a ter nessa tal eleição, quando ela tiver lugar, sentem-se reconfortadas com rezas como esta e republicam-nas e republicam-nas na esperança de que, repetida muitas vezes, a reza acabe por resultar. Seria tão bom se o PSD lhes fizesse a vontade. Bem hajas, Nicolau.

Na próxima reza vou ajudar a encontrar um substituto para a Assunção Cristas no CDS.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:26
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Segunda-feira, 2 de Março de 2015

Para que servem os gabinetes?

 

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Pedro é primeiro-ministro, devia umas misérias à Segurança Social, e pagou a correr quando percebeu que os jornalistas encontraram a dívida antes dele. A culpa foi, com toda a probabilidade, "dos serviços". António era ministro da justiça, comprou uma casa para se instalar em Lisboa, não pagou sisa nem contribuição autárquica, e a culpa é "do banco", "da secretária" que lhe preencheu a declaração de rendimentos, e "de uma série de lapsos". Preside alegadamente a Câmara Municipal de Lisboa e prepara-se para nos chefiar a todos.

 

Formaram gabinetes com abundância de cavalheiros sábios e prudentes, do mais recomendável que há em matéria de aptidões para extorquir fotocópias à "Europa", que é no que consiste o exercício designado em Portugal pelo eufemismo "governar". Não se lembrou Pedro nem António de os mandar investigar o seu passado contributivo, em todos os cantinhos da nossa administração, à procura de vergonhas destas. E consertá-las antes que nós soubéssemos.

 

__________

 

Actualização:

 

António enviou um desmentido ao jornal Expresso.

(2015.03.03, às 02:10)

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 22:51
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Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013

Enfrentar a RTP

 

(*)

 

A aldrabice que mansamente nos impuseram anteontem, na forma de um programa de "perguntas", deu pretexto ao sr. Primeiro-Ministro para falar do que lhe apeteceu fingindo que enfrentava "o povo". Passos Coelho estava radiante. No seu fatinho de domingo, cabelo apartado ao lado, dirigiu-se às pessoas pelo primeiro nome e não se inibiu de perguntar a uma senhora desempregada se era "mãe solteira". Fiquei com a impressão que Pedro se tornou primeiro-ministro por insistência (ou chantagem?) da avó dele, e um pouco contrariado. Por sua vontade, Pedro seria apresentador de televisão e passaria as manhãs a entreter os acamados, num programa diário transmitido a partir de Trás-os-Montes.

 

Há um par de semanas o sr. Vice-Primeiro-Ministro serviu-se do mesmo apetrecho para "esclarecer" o país sobre os resultados do último encontro com a tróica. Nestas coisas convém deixar tudo muito bem explicado, e por isso contrataram uma loira indecifrável e um moço dócil para estabelecer o necessário contraste. Paulo Portas apresentou-se bem disposto e sorridente como se tivesse boas notícias para nos dar. Respondeu aos jornalistas como se fossem (ele lá sabe) uma turma de crianças. Confortável e mundano, tratou a "dignidade humana" com familiaridade e garantiu que ninguém soubesse o que vem no orçamento.

 

Estou convencida que não tive um único cliente que se abstivesse de me dizer: "Eu também sou um bocadinho arquitecto". As pessoas gostam de mostrar os seus talentos, às vezes imaginados, e contam com isso para obter a admiração e o respeito dos outros. Ainda que a natureza dos talentos não venha a propósito e a plateia, obrigada a assistir, não esteja interessada em conhecê-los.

 

É imoral reduzir os ordenados dos funcionários públicos e não eliminar organismos do aparelho administrativo. É demagógico, errado, e politicamente desonesto, apresentar medidas de "contenção estrutural" e não tocar no mapa dos municípios. É manhoso defender a "reabilitação urbanística" mas manter os licenciamentos na dependência de várias entidades incompatíveis; e o "enquadramento" e o "traçado" como conceitos jurídicos (a decidir por burocratas). É uma vigarice chamar "eficiência energética" a uma legislação que obriga os consumidores a gastar mais energia. É um insulto chamar "requalificação" ao purgatório dos desempregados do Estado. É irresponsável manter a Educação numa bandalheira mas considerar que o entretenimento do povo (como festas, cantorias, teatrinhos, "instalações", fungagás, piquenicões, concertinas e foguetórios) é uma função do Estado Social. É inconcebível cortar na saúde e subsidiar, a níveis dementes, as empresas de transportes. É miserável cortar os víveres aos velhos mas manter a RTP.

 

No entanto, a RTP não pode fechar. Uma direcção de informação domesticada, meia dúzia de "jornalistas" dispostos a representar um papel humilhante, e 200 milhões de euros por ano, não são dispensáveis quando se trata de exibir os comportamentos narcisistas dos governantes em funções.

 

__________

 

* Imagem: The Spectator, 27 July 2013

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:56
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Quarta-feira, 3 de Julho de 2013

Tragédia à portuguesa

 

 

Mário Nogueira, sem esforço, fez o que melhor sabe e deitou ao chão o primeiro pino. Ganhando, sem concessões, a greve dos professores ao ministro Crato, obteve para a sua corporação todas as exigências e impossibilitou que se tocasse no resto dos funcionários públicos. Em matéria de "reforma" do Estado a conversa acaba aqui.

 

Vítor Gaspar, derrubado por Mário Nogueira com a ajuda de Crato, regressa a Bruxelas (ou a Frankfurt?) onde continuará a mandar em nós sem se incomodar com "negociações" e pessoas em geral. Dependerá, como gosta, dos seus frascos de teorias, do sr. Schäuble, e das condições meteorológicas. Demitiu-se publicamente, deixando uma carta em que reconhece o fracasso da sua política económica e em que diz que o Primeiro-Ministro não tem capacidade de liderança.

 

Assim saíu aquele que era "evidentemente" o "número 2" do governo, segundo Passos Coelho, e que aos olhos do país era efectivamente o número 1.

 

O Primeiro-Ministro não se inquietou e, no mesmo dia, contra a vontade expressa do parceiro de coligação, decidiu substituir Gaspar (a quem agradeceu os serviços prestados à pátria) pela subordinada de Gaspar, como quem vai à feira de Estremoz e compra uma ministra por 2 euros. Portas demite-se "irrevogavelmente". Num discurso solene, Passos Coelho comunica ao país a gravidade do problema e aplica-se a tranquilizar os portugueses com o seu sentido de Estado: não aceita a demissão de Portas e garante que vai conversar com o CDS, fazendo "tudo o que está ao seu alcance" para evitar "esta instabilidade" (deduz-se que provocada por Portas).

 

Por outras palavras, o "número 2" vira Portugal do avesso, insulta publicamente o Primeiro-Ministro, e sai pelo sossego da tarde levando na algibeira uma carta de recomendação. Foi fácil substitui-lo por uma serviçal. O "número 3" é, no entender do estadista, um irresponsável.

 

Assiste-se agora ao espectáculo sinistro da execução. Entusiasmadas, as tricotadeiras comentam a degolação de Passos Coelho. As mais feias temperam Portas com borrifos de cicuta rançosa. A ver Portugal ruir.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:13
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

Persistir no erro, evidentemente

 

 

Há uns dias, numa entrevista à televisão, o Primeiro-Ministro disse que o nr. 2 do Governo era "evidentemente" o Ministro das Finanças. E quando lhe perguntaram pelo "parceiro" de coligação, respondeu que Paulo Portas era o nr. 3. A Lei Orgânica do Governo, publicada a 12 de Julho de 2011, confirma.

 

Não está, como é natural, nos hábitos dos portugueses ler o Diário da República. Nem interessa, neste momento, o aspecto jurídico do problema. Interessa o significado político desta afirmação, de cuja substância já toda a gente desconfiava. O que as pessoas perceberam agora, algumas com espanto, foi a naturalidade com que o Primeiro-Ministro persiste no aborto que criou.

 

Se houvesse jornalismo em Portugal, o "detalhe" tinha feito um escândalo no dia em que se conheceu a constituição do Governo. O que agora veio a ser do conhecimento público é um erro grosseiro e um ataque à democracia.

 

Em caso de coligação, os dirigentes máximos de cada partido têm obrigação, perante o eleitorado, de ser os principais responsáveis pelo Governo que formam. Ninguém elegeu o Ministro das Finanças. Vítor Gaspar é um funcionário, e sobre ele deviam ter autoridade Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Por esta ordem.

 

Estava escrito que isto tinha de azedar. De resto, azedou no passado; o erro repete-se, com mais gravidade. Como se não bastasse a este Governo ter a oposição exterior, inflacionada pelas presentes circunstâncias, ainda conseguiu arranjar-se para ofender o seu próprio eleitorado. É legítimo que quem votou no CDS se sinta ofendido pela submissão de Paulo Portas a um técnico contratado. Esta submissão nunca é exclusivamente "formal", porque (como ficou provado) a forma é indissociável do conteúdo. Por maioria de razão, é legítimo que quem votou no PSD se sinta humilhado de ver o primeiro-ministro subordinado a um funcionário. Resta que nenhum destes "detalhes" será indiferente no apuramento de responsabilidades, que não poderão ser atribuidas a quem, formalmente, não as tem.

 

Não vem ao caso a proporcionalidade dos votantes em cada partido (podia ser de 1 para 9 sem abalar o conceito: se o partido mais pequeno lá está é porque o partido maior precisou dele). O Ministro das Finanças é um "funcionário", na medida em que são "funcionários" todos os membros do Governo quando não foram eleitos. Independentemente da sua contratação corresponder ou não a uma opção política. Não faço parte do coro de "críticos" que lhe apontam a "burocracia" e a "tecnocracia" como pecados principais. Efectivamente, nem lhe aponto pecado nenhum; mais do que fazer o papel dele, está a fazer o de Primeiro-Ministro - por delegação de competências. A ideia de "responsabilidade piramidal" impede-me de me referir a ele. Porque ele, perante o eleitorado, não é ninguém.

 

A centralidade da pasta das Finanças justifica-se sempre na articulação com os restantes Ministérios. Agora tanto ou mais do que no passado. Nunca se justifica a sua sobreposição aos responsáveis políticos. Agora mais ainda do que em qualquer Governo anterior.

 

Todas as alterações ao Memorando têm sido negociadas ao nível do Ministro das Finanças com os funcionários da "troika". Muitas delas já deviam ter sido negociadas a um nível superior. E Paulo Portas, enquanto representante máximo do segundo partido da coligação, tinha o dever e a obrigação de estar envolvido nelas. É grave que Paulo Portas não tenha sido ouvido no que estas negociações têm de fundamental, porque delas depende a liberdade do Governo para decidir sobre a vida do país. O eleitorado não tem ferramentas institucionais para responsabilizar politicamente um Ministro das Finanças que não depende do seu voto. Paulo Portas não pode ser responsabilizado pelas decisões de um Ministro que lhe é hierarquicamente superior.

 

Esta história não vai, evidentemente, ficar por aqui. Paulo Portas não deve a sua formação política à escola da JSD. A "carta fechada" que vai enviar à "troika" com as suas recomendações mostra que as responsabilidades que aceitou perante o eleitorado não lhe são indiferentes.

 

O tempo dirá quem tinha razão. Como sempre acontece em política.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 02:34
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Sábado, 20 de Outubro de 2012

Um serão português

 

 

O magnífico Luis Delgado foi hoje convidado a deixar cair sobre os portugueses os seus comentários às "tensões no seio da coligação" (corre o boato que até lhe pagam para isso). Faço os possíveis por não perder, sempre que tenho tarefas domésticas compatíveis. Esta noite apanhou-me sentada no sofá, em frente à televisão, com um alguidar em cima dos joelhos a tirar o fio ao feijão-verde.

 

Conheço pessoas que, como eu, gostam de acompanhar programas imbecis ao fim do dia que é "para espairecer", ou "para descansar a cabeça", e assim se justifica a presença das telenovelas, dos concursos de perguntas, dos jogos de bola, dos documentários da BBC, do Prós & Prós, das "mesas redondas", e das "entrevistas de fundo" nas casas de alguns portugueses depois do jantar. Tenho as minhas preferências. Inclino-me para a "Quadratura do Círculo" (confesso que não resisto às momices de Pacheco Pereira, que é quem mais me diverte), para o "Expresso da Meia-Noite" (eles garantem uma boa média de politólogos por semana), e para aquelas emissões relativamente curtas, a seguir aos noticiários, em que as raparigas contratadas pivoteiam comentadores "presentes em estúdio". Se for dia de Luis Delgado, dou logo o serão por ganho.

 

Recordo com doçura o dia em que este loiro de crâneo sedutor alertou o país para a existência de "empresas de utilidades", que eram, no seu entender, a EDP, a PT, e a GALP (entre outras), com poder para fazer coisas diabólicas. Mas o risco era muito reduzido, porque se essas empresas "se atrevessem" a alterar a sua residência fiscal para fora do país "seria uma revolta social de todo o tamanho", e "o facebook dava cabo delas". Foi a 3 de Setembro de 2011, sei bem, que suspirei de alívio enquanto me entretinha a descascar ervilhas.

 

Hoje, Luis Delgado estava mais apreensivo. Parecia-lhe inacreditável que o primeiro-ministro "não tivesse mão" no seu parceiro de coligação, uma vez que este representava um partido muito mais pequeno. Era inadmissível que Pedro Passos Coelho estivesse, desta maneira, subalternizado por Paulo Portas. E sugeria "em estúdio" uma série de descomposturas que ele, Luis Delgado, teria dado a Paulo Portas caso estivesse no lugar do primeiro-ministro: "Eu tinha-o chamado e tinha-lhe feito apenas 3 perguntas" - e punha Paulo Portas na ordem. "Mainada".

 

Gostei de o ouvir. Eu estava apoquentada porque me parecia inacreditável que o primeiro-ministro se apresentasse subalternizado por Vítor Gaspar, um funcionário contratado por ambos. Mas eu não sou como dizem que são todas as mulheres: não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo. Ou me ocupo do país ou tiro o fio ao feijão-verde.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:00
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

Tás porreiro, pá?

 

 

Há não muito tempo o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça foi filmado enquanto, em passinhos apressados no Terreiro do Paço (salvo erro), dava uma entrevista a um jornalista malcriado sobre a interferência de Sócrates na TVI. Ficou-me na retina a imagem do mais alto magistrado judicial a balbuciar umas coisas mal amanhadas, enquanto contrariado se encolhia perante a saraivada de perguntas.

 

Os jornalistas acham que, se forem insolentes, puserem de lado normas elementares de trato, atalharem o passo, interromperem raciocínios e discursos, transformarem entrevistas em debates - interpretam o sentir e os desejos do público. Terão talvez razão: pelo menos para o público das caixas de comentários dos jornais on-line, onde a indignação em maiúsculas vai de par com o insulto rasca, a linguagem desbragada e o pontapé na Gramática.

 

Os políticos, os nossos e os dos outros, julgam que assim se aproximam do "povo". Engano deles: o povo que berra e esperneia também é povo, mas não é o Povo. E não se pode respeitar quem não se dá ao respeito.

 

Numa versão mais tecnológica deste equívoco, há as páginas do Facebook. Nelas, o governante "ouve" os dislates, as irrelevâncias, a graxa ou as piedades de quem imagina que ele tem tempo para o ouvir.

 

De um líder espera-se que seja mais lúcido do que os liderados; e que trabalhe, estude, ouça especialistas, pondere, avalie - e decida.

 

Não é que um privatus esteja necessariamente errado e os especialistas necessariamente certos. É que no dia em que os homens de Estado forem marionetas de uma opinião pública volúvel, sentimental, ignorante e espectadora do Preço Certo, estaremos perdidos. Não se pode confiar num tribunal no qual possamos dizer ao juiz, se discordarmos da sentença: és burro como uma porta, ó caramelo!

 

E pior se o Juiz se dirigir à parte decaída e lhe disser, compungido: ai queridos, o tanto que me custou esta sentença! Eu bem queria decidir de outra maneira, mas não pude, ai!, não pude, que ele há o Direito, e as minhas obrigações, e a ponderação dos interesses em presença, e tal.

 

Passos Coelho e quem o aconselha poderiam talvez lembrar-se que há modas que mais vale não copiar. Senão, um destes dias tem que ser filmado com os pés em cima da mesa, a beber coca-cola e a fingir que é um de nós.

 

Isso funciona com Americanos. Nós bebemos vinho, mesmo que seja uma zurrapa.

 

publicado por José Meireles Graça às 20:17
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