Domingo, 19 de Março de 2017

Uma p., mas uma p. que f. bem

2017-03-19 Pacheco sobre Sócrates.jpg

Todas as profissões têm, pese embora o princípio da igualdade plasmado no Artº 13º da Constituição da República Portuguesa, os seus expoentes e os seus membros mais fracos, e a de comentador não escapa a esta infeliz regra.

No Diário do Governo Público de hoje o comentador (do PSD, para as estatísticas destinadas a provar a presença sufocante e a carecer de limpeza urgente do PSD no espaço do comentariado) José Pacheco Pereira publicou um comentário sobre a Operação Marquês com críticas à condução do processo, nomeadamente por fazê-lo crescer de modo exponencial sem produzir acusação em vez de ir levando a tribunal as acusações que já estão solidamente provadas e ir investigando paralelamente as novas suspeitas que vão surgindo, e a riqueza opulente do currículo do arguido propiciará o aparecimento regular de novas suspeitas durante pelo menos as próximas décadas, que genericamente eu sou capaz de subscrever e tenho muitas vezes manifestado a quem me lê.

Para contextualizar a sua opinião sobre o processo que critica, o comentador começa por fazer um breve resumo das qualidades do arquido José Sócrates, focada nas cumplicidades políticas que permitiram a sua ascenção e o exercício das malfeitorias que dedicou a sua passagem pelo poder a fazer. Em quais?

  • Na do presidente Jorge Sampaio, que nomeou um governo para lhe dar tempo de tomar conta do partido e, quando ele ficou pronto para concorrer às eleições, derrubou o governo que tinha nomeado a pretexto de se ter fartado dele? Não.
  • Na do Partido Socialista, que o elegeu para o chefiar e para se candidatar a primeiro-ministro e sempre o defendeu heroicamente enquanto exerceu o seu mandato? Também não.
  • Nas dos seus colaboradores mais próximos no governo ou no partido, ou mesmo nos dois, como a do actual primeiro-ministro e seu companheiro de tertúlias televisivas e então número dois do Sócrates, António Costa? Nunca, Deus o livre!

Mas isto são perguntas de retórica, porque todos os leitores já adivinharam que cumplicidades com o Sócrates é que poderiam alguma vez ser denunciadas pelo Pacheco Pereira: a cumplicidade da direita e, especificamente, do PSD.

É preciso ser senhor de um nível superlativo de trafulhice, comparativamente com o qual o Sócrates é um mero menino de coro provinciano para, num relato sucinto do seu percurso de ascenção e queda, só apontar como referência ao papel de outros agentes políticos:

  • "...A direita que o louvou como o social-democrata do PS, como aquele que tinha roubado o programa ao PSD, que andou ali a fazer-lhe a corte nos interesses e na política, agora, certamente por complexo de culpa, vai lá apedrejá-lo como se nada tivesse que ver com o homem. Mais, em vários momentos cruciais, protegeu-o de acusações muito semelhantes àquelas de que hoje lhe faz o Ministério Público. Na comissão de inquérito parlamentar, por cuja existência pugnei bastante sozinho, o PSD indicou como seu porta-voz Agostinho Branquinho, que depois de assistir à inquirição dos responsáveis da Ongoing, envolvidos na trama de Sócrates, acabou por ir para lá trabalhar como assalariado. Mas a verdade, é que quando se tratou de chegar às conclusões do inquérito, por uma intervenção pessoal de Branquinho, Miguel Relvas e Passos Coelho, travaram tudo o que incriminava Sócrates, porque não era politicamente conveniente e era um ataque pessoal. Repito o que já escrevi há muitos anos sobre Sócrates e as cumplicidades do PSD: estamos conversados... "

Identificados com a mestria ímpar que lhe é própria os verdadeiros responsáveis pela ascensão e pelas malfeitorias do Sócrates enquanto primeiro-ministro, a direita e o PSD, há que chamar a atenção para o facto de o comentador Pacheco Pereira ser, acumulando com a militância reconhecidamente leal no PSD, uma espécie de comentador avençado do governo do primeiro-ministro António Costa, que simbolicamente o galardoou com a sua primeira nomeação política ao fim de apenas duas semanas de governo para o Conselho de Administração da Fundação de Serralves. O comentário é genial mas não lhe saiu a despropósito nem como um mero acaso. Saiu-lhe com o propósito bem definido de evitar questionar a associação entre o seu amigo, colega de antigas tertúlias televisivas, e padrinho de nomeações António Costa, e toda a máquina de cumplicidades socialista que mantém no terreno e manteve no passado, e o Sócrates que, com o tempo, se transformou num passivo político, e a substituir essa interrogação comprometedora pelo apontar de dedo aos eternos suspeitos nas suas crónicas, a direita e o PSD. Duplamente genial, no conteúdo, e em colocá-lo ao serviço do propósito.

Este comentador é uma p., mas uma p. que f. bem!

 

PS: Para o caso de andarem por aí esbirros da polícia dos costumes, que não há mas eles gostavam que houvesse, a vasculhar as redes sociais à procura de oportunidade para me colocar um processo em cima por abuso da liberdade de expressão, neste novo tempo socialista a liberdade de expressão é uma excentricidade de que se tende a abusar, esclareço desde já que o título desta publicação significa "Uma pessoa, mas uma pessoa que fala bem".

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:06
link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

A Quadratura do Circo

mw-800.jpg

Com o tremendismo típico de um charlatão de feira, de um vendedor de aspiradores Rainbow, ou de um pastor de almas, que anunciam aos seus ouvintes catástrofes iminentes que só podem ser evitadas in-extremis, respectivamente, pelos elixires milagrosos que tem para vender, pelo filtro HEPA que afoga os ácaros, e pelas rezas que fazem retroceder o demo, o tele-evangelista José Pacheco Pereira fez à seita de adoradores que lhe bebe piamente a Palavra uma revelação extraordinária e assutadora: que o partido a que ele sempre dedicou o melhor que tinha para dar "está hoje, com direções distritais todas na maçonaria". Todas!

Os adoradores, está de ver, já esperavam a revelação que, como todas as outras revelações deste profeta, confirmam sempre as suas suspeitas mais lúcidas. É disso que gostam nele, de lhes dizer com eloquência aquilo que eles já sabem, que o PSD é, desde que deixou de o considerar para cargos directivos ou internacionais, um antro de malandros, com excepção de um pequeno núcleo de resistentes, os últimos dos social-democratas do partido, de que fazem parte ele próprio, a Manuela Ferreira Leite e o Rui Rio. E quanto mais ele lhes confirma isso, mais acreditam nele, e naquilo em que já acreditavam antes de ele lhes dizer. Quando tudo se confirma, tudo está bem.

Confirmaram eles, mas não consegui confirmar eu. Pois se um desses presidentes de distrital é amigo de há quase 40 anos, compadre e comensal regular desde que veio para Lisboa para o parlamento, e só usa avental na cozinha, tal como eu quando me aventuro nessas artes, mas nunca o vi de avental fora da cozinha, e sei que não usa, como podem ser os presidentes das distritais todos maçons? Não podem.

Eles próprios também não conseguem confirmar que são todos maçons. Alguns deram-se mesmo ao trabalho de chamar os jornais para o desmentir, apelo a que pelo menos o Correio da Manhã, mas o Correio da Manhã não é da seita, toda a gente sabe, respondeu publicando o desmentido.

Ora até o Jorge Jesus é, pelo menos desde que começou a estudar os filósofos chineses, capaz de dominar a lógica aristotélica e de perceber que quando se diz que são todos e há pelo menos um que não é, se mentiu. O Pacheco Pereira mentiu.

O que vai ser dos adoradores, agora que o seu profeta foi apanhado a mentir?

Nada de especial. Como dizia o senhor Osgood Fielding III na lendária frase final do Some Like it Hot, "Nobody is perfect...".

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 02:05
link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 21 de Março de 2013

Não é da nossa conta

 

 

As "redes sociais" estão em alvoroço. Uma parte grita porque a RTP "abandonou" o "serviço público" para gastar o dinheiro dos contribuintes com um novo "conteúdo" semanal, protagonizado por Sócrates. Outra parte grita com a primeira, porque Sócrates foi "diabolizado" em detrimento de outros bandidos. Outra ainda espuma de ódio satisfeito porque "agora é que vai ser", para "equilibrar" a saliência de Marcelo e de Marques Mendes. Esta rapaziada encontra ainda uma segunda fonte de prazer; daqui para a frente, já não teremos só "Relvas a mandar na RTP".

 

Quando ninguém esperava, surgiu a correspondente "petição" que desta vez se chama "Recusamos a presença de José Sócrates como comentador da RTP" (parece que já vai assinada com abundância). Nos últimos dois anos, a "cidadania" alojou-se com doçura no coração dos portugueses.

 

Neste cenário, discute-se o adorado problema da "liberdade de expressão" e do "pluralismo" no "espaço público". E investiga-se, com pertinácia, se Sócrates vai ou não ser "remunerado" pelos "serviços" que se prepara para "prestar à RTP".

 

Aparentemente, não vai ser "remunerado". O que deixa à vista toda a explicação para a manobra. Porque torna claro que a "participação" no programa é totalmente do interesse de Sócrates.

 

Resta perguntar como é que Sócrates obtém o melhor palco que se pode dar a um político para iniciar o seu processo de reabilitação. E a resposta não é difícil: isto só pode acontecer com a conivência de quem manda na RTP.

 

Esclarecidos que ficamos sobre o entendimento de Sócrates com Miguel Relvas, fica por saber o que é que o PS dará ao PSD por troca deste servicinho, sem o qual o PS tão depressa não deixaria de se arrastar por uns valores embaraçantes do queijo eleitoral.

 

Seja como for, não é da nossa conta. Tudo o que os portugueses têm a fazer é esperar pelas eleições e continuar a escolher entre Dupond e Dupont.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 18:15
link do post | comentar | ver comentários (4)
Quarta-feira, 25 de Julho de 2012

A marcha de um líder

 

 

Em 1980 a economia britânica estava em recessão. Os números do desemprego tinham subido para 2 milhões, em relação aos 1,5 milhões no ano anterior. E continuariam a subir até ultrapassar os 3 milhões em 1982, ano em que acabou a recessão. Margaret Thatcher era chefe do governo desde 1979, e a oposição à liberalização da economia gritava por uma "inversão de marcha" (U-Turn). Ted Heath, ex-primeiro-ministro, protagonizava essa oposição dentro do Partido Conservador, que também tinha liderado até 1975 - ano em que perdeu as eleições internas para Margaret Thatcher, tornando-se um dos seus críticos mais activos.

 

No dia 10 de Outubro de 1980, durante o Congresso do Partido Conservador, Margaret Thatcher fez um discurso longo. E respondendo aos seus opositores, disse:

 

"To those waiting with bated breath for that favourite media catchfrase, the "U turn", I have only one thing to say: You turn if you want to. The lady's not for turning. I say that not only to you, but to our friends overseas as well, and also to those who are not our friends."

 

A frase "The lady's not for turning" passou a designar o discurso completo. E tornou-se um dos lemas mais conhecidos de Margaret Thatcher, que se manteve à frente do governo até 1990.

 

No passado dia 23, o Primeiro-Ministro reuniu-se com os deputados do PSD. Além destes, estavam presentes alguns ministros, a presidente da Assembleia da República, e mais uns quantos figurões do PSD.

 

Considerando que havia quem sugerisse que "já chega de ser bom aluno" e de "fazer sacrifícios" porque se aproximam actos eleitorais e não convém perder votos, Pedro Passos Coelho disse aos presentes que "a verdade é que nenhum dos senhores ou das senhoras foi eleito para esse mandato". E que "nenhum dos que aqui estão foi eleito para ganhar as próximas eleições, ou para ajudar a ganhar autárquicas, nem as regionais deste ano nos Açores, nem as europeias que aí vêm a seguir, não foi para isso que fomos eleitos. Foi para responder ao país."

 

Foi simples, foi directo e tem toda a razão: os deputados não são eleitos para voltar a ganhar eleições. São eleitos para fazer o que tem de ser feito pelo país. Quando a presente maioria foi eleita, sabia-se da situação trágica em que que o país se encontrava, sabia-se que era necessário pôr ordem nas contas, e era conhecido o programa da troika. E toda a gente sabia, porque foi afirmado repetidamente durante o período eleitoral, que o governo concordava com o programa e tencionava cumpri-lo até ao fim.

 

Para que não ficasse qualquer dúvida, Pedro Passos Coelho esclareceu ainda que "se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal".

 

Ou seja, não basta pôr ordem nas contas. Para isso, é necessário pôr o PSD na ordem, e foi isso que o Primeiro-Ministro se mostrou na disposição de fazer. Para bem do país e para grande surpresa minha.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 16:35
link do post | comentar | ver comentários (2)

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Senhoras donas Carina Quintas DA Costa e Ana Rosa ...
Olá,eu sou a Carina Quintas DA Costa ,conheci um f...
Como é possível que uma pessoa que escreve tolices...
Cabeça socialista ? vexa tem mesmo em muito má con...
De facto, é um fulano completamente obtuso, já não...

Arquivos

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter