Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015

Morte na urgência

Sobre os mortos, ou moribundos, por causa da hepatite C, José Manuel Fernandes diz coisas sensíveis e acertadas. E conclui: "Mas gostava que no meu país, se um dia eu próprio me vir numa situação semelhante, a decisão não fosse casuística (e não sei sequer se foi o que aconteceu neste caso), gostaria que a decisão fosse informada por critérios éticos e acompanhada por boas práticas médicas. Infelizmente tenho pouca esperança que isso aconteça".

 

Também eu. Mas acrescento que, por muito lúcido que seja o ministro do dia, muito trabalhador o secretário de Estado, muito competente o Diretor-geral, e muito dedicado o Director do Hospital, nunca o Serviço Nacional de Saúde funcionará bem, por assentar em pressupostos errados: a saúde universal e gratuita para todos não é possível, por a demografia, os limites fiscais, e os custos da evolução tecnológica, não o permitirem; por muita norma e protocolo que todos os dias se emitam, sempre haverá uma situação imprevista, um medicamento ou procedimento novo, que a burocracia avaliou mal ou não acompanhou; e sempre algum funcionário, em alguma parte, deixará de pôr no desempenho das suas funções o empenho que poria se a sua carreira e os seus ganhos dependessem disso.

 

Depois, os hospitais-gigantone não funcionam nem podem funcionar bem; e o centralismo, a normatização das compras e dos procedimentos, a complicação das hierarquias, dos grupos de pressão e das interferências, tudo concorre para a monstruosidade de uma máquina que mostra as suas engrenagens roídas e perras mal alguém, movido pelo estado de necessidade do País, decidiu começar a pô-la a trabalhar com menos, quando ela, pela sua natureza pública, só sabe trabalhar com mais.

 

Mas não vale a pena pensar em sistemas alternativos. O País comprou, há décadas, a ideia de que o papel da iniciativa privada na Saúde era complementar e subsidiário; e que aquele bem público deve ser assegurado por um serviço público, ficando para a iniciativa privadas as sobras, e a medicina para ricos, que não estão para aturar demoras, descasos e abusos. Esse caminho teve sucesso: houve melhoria de muitos indicadores, dada a crescente parcela dos recursos públicos que foi afecta ao SNS; e pensou-se que o limite era o Céu, e não a dura realidade da troica e da parede em que, tarde ou cedo, batem todos os socialismos.

 

A concorrência é pouca. E, por vezes, inexistente: não nascem facilmente iniciativas privadas para competir com oferta pública grátis. Por que razão se imagina que a ausência de verdadeira concorrência e a troca da relação cliente/fornecedor pela de utente/funcionário é uma receita para o sucesso ultrapassa o entendimento.

 

Alguém imagina o que sucederia a uma companhia de seguros que deixasse morrer pessoas com seguro de saúde por causa do preço dos medicamentos? E alguém imagina que os poderes públicos não interfeririam sempre que houvesse nas apólices (como fatalmente haveria, dada a natureza congénita de quadrilhas de ladrões que é a marca das seguradoras) cláusulas abusivas?

 

Resta que estamos perante uma morte, e uma morte escusada. E o mínimo que se exige é que estas perguntas ("É verdade que a doente recusou medicamentação convencional mas com alguma eficácia? Porquê? Porque levou a autorização do Infarmed tanto tempo a chegar?") sejam respondidas rapidamente e sem a conversa de chacha do costume - rolando sem apelo nem agravo as cabeças que forem necessárias se alguém não agiu com a diligência que era exigível, incluindo no hospital onde a senhora morreu.

 

Quanto aos outros doentes, é claro que o sofosbuvir vai aparecer. E, por caridade, não comento a forma como os responsáveis políticos se comportaram - uns, do lado do Governo, menoscabando a gravidade do que aconteceu, outros, da Oposição, a aproveitar a boleia do escândalo.

 

Quanto ao comportamento da Gilead, talvez devesse haver alguma frieza na apreciação: os ganhos milionários são a melhor garantia de que se investe o suficiente na investigação. E, entretanto, este conselho de David Marçal, que aconselha o Estado à prática de um crime, não o deito fora. Não porque seja sequer pensável que o nosso débil Estado possa, com impunidade, praticar crimes. Mas sim porque, com secretas, bancos, e laboratórios clandestinos, talvez fosse possível engendrar alguma coisa, nem que fosse contrabando do Egipto. Por uma vez, a nossa considerável experiência de trapaceiros seria bem-vinda; e a tradicional inércia da nossa investigação criminal faria o resto.

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publicado por José Meireles Graça às 23:11
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

Ordem para asneirar

Sou já suficientemente velho para me lembrar ainda dos agentes técnicos de engenharia, dos arrumadores de automóveis e dos furriéis-enfermeiros. As duas primeiras categorias desapareceram, uma por as escolas superiores apenas formarem engenheiros, na variedade turbo que é para o que dão três aninhos; a outra porque, correspondendo a uma saudável evolução semântica que traduz o respeito devido a todas as profissões, os seus membros são agora designados por técnicos de parqueamento automóvel; e a terceira terá também desaparecido porque, dela não ouvindo referências há anos, posso legitimamente presumir que todos os antigos militares com aquela graduação terão sido promovidos a sargentos-médicos.

 

Outras profissões não menos dignas têm visto a sua designação tradicional substituída: por exemplo, ao meu falecido Pai, se renascesse, teria o prazer de dizer: Pai, já não é guarda-livros, é técnico de contas! - ao que este muito provavelmente responderia: Deixa-te de palermices, rapaz, mudar o nome às coisas não muda a natureza delas. Pobre pai, que se informado que agora tinha uma Ordem, com um Bastonário a expectorar volta e meia na praça pública o seu sentir de socialista em relação ao Plano Oficial de Contabilidade, a reforma do IRC e a justiça social, haveria de sentir não orgulho mas embaraço.

 

Esta evolução é imparável; e tempos virão em que os mancebos, na altura em que dantes iam à Inspecção, receberão uma licenciatura da sua preferência e a inscrição numa Ordem, em simultâneo com a renovação do Cartão de Cidadão.

 

Já não vou ver esse tempo, infelizmente. E no meu caso será de dizer que nasci cedo de mais porquanto, dados os meus conhecimentos sobre hititologia, uma disciplina de tal modo rara que a sua designação nem sequer existe em Português, seria da mais elementar justiça a outorga de uma licenciatura em Antiguidades Obscuras. Munido do diploma, o meu discurso sobre os carros de combate hititas, a propósito dos quais li para cima de um livro, revestir-se-ia de uma autoridade acrescida, que de momento me falece.

 

A verdade, porém, é que ninguém é obrigado a ouvir ninguém; e alterar, no discurso e nas folhas de salários, a designação de cada um para outra que imaginariamente enobrece, não dá realmente grande trabalho.

 

Sucede porém que doravante, ainda antes de uma consulta médica, já o paciente pode ser submetido a exames porque um moço licenciado em suturas, injecções intramusculares e desinfecções com mercúrio-cromo, sentado diante de um computador softuérizado com um algoritmo, assim determinou. Parece que é para agilizar a caranguejola das urgências, reduzindo os tempos de espera.

 

Não é preciso ser médico, nem enfermeiro, nem doente, para perceber que com esta medida o que vamos ter é um desparrame de exames inúteis, conflitos escusados (ao senhor Secretário Leal da Costa - sempre ele, este homem inevitável - não ocorreu que haverá doentes que se recusarão a fazer exames determinados por um enfermeiro), e guerra entre enfermeiros e médicos.

 

E isto os senhores doutores enfermeiros, a respectiva Ordem, e o Secretário Leal, que me perdoem, mas eu não vejo com olhos pacíficos.

publicado por José Meireles Graça às 22:12
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Serviço Nacional de Inimputabilidade

O caso vem contado aqui e é difícil não o ler sem uma surda suspeita de que alguém fez borrada, assim como os quase vinte anos já decorridos desde que Pedro Vilela nasceu, para chegar a uma decisão judicial quase definitiva (falta o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, se os pais tiverem recursos), não podem senão despertar nojo e desprezo pelo nosso sistema judicial.

Não estou em condições de dizer que houve (para além do palpite de que sim, que houve) negligência médica e quem tiver a coragem de ler a sentença - um documento interminável e prolixo com o nº processo 0445/13, data do Acórdão  16-01-2014, descritores HOSPITAL PÚBLICO, PRESUNÇÃO DE CULPA e RESPONSABILIDADE POR ACTO MÉDICO (estas indicações são necessárias para obter a sentença através do motor de busca no site e só disponho delas por causa de um comentador ao post acima referido) - não chegará, creio, a uma conclusão satisfatória.

E isto porque nela se discute não apenas o que se passou no Hospital de S. Marcos, em Braga, há vinte anos, que levou a que Pedro ficasse com uma incapacidade de 100% (não fala, não ouve, não vê), mas também quem tem que fazer a prova da culpa do hospital ou ausência dela. O STA acha, ao contrário das instâncias inferiores, que, tratando-se de um hospital público, esse ónus recai sobre o utente, isto é, na prática, são os pais de Pedro que têm que provar que as lesões decorrem de falhas ocorridas desde que a mãe deu entrada no hospital, às 17H49 do dia 18-12-1994, até às 10H45 do dia seguinte, quando teve lugar o parto por cesariana.

Acha muito mal. E digo-o não por causa da autoridade jurídica que não tenho, mas porque o bordão "dura lex, sed lex", se se justificou historicamente como um progresso em relação à lei não escrita; e se se justifica ainda hoje em nome da segurança jurídica: não pode ofender aquele sentido de Justiça que todas as pessoas bem formadas têm consigo, e que lhes diz que uns pais que têm por filho um vegetal (com perdão da imagem) têm direito a que se não lhes diga que, se fossem a um hospital privado, não teriam que provar o que não podem, nem sabem, mas, como foram a um hospital público, o ónus da prova recai sobre eles.

Assim não o entendeu o Tribunal Constitucional, em sentença que não li (para ver as sentenças é precisa uma inscrição no site do TC e indicar uma password, vá lá o diabo saber porquê) e ficarei assim sem saber por que forma se ignorou o artº 13º da Constituição, que reza:

  1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
  2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Quer-me parecer que se num hospital privado não há dúvidas, havendo indícios de más práticas médicas que tenham originado lesões, que o estabelecimento tem que provar que essas práticas ou não existiram ou não originaram aquelas lesões; igual obrigação deve recair sobre um hospital público.

Porque, a entender-se o contrário, os utentes de hospitais públicos têm menos direito de acesso à Justiça do que os utentes dos hospitais privados, quando são, real ou imaginariamente, maltratados.

Não é que eu seja um entusiasta do SNS - não sou. Mas sou um entusiasta da igualdade dos cidadãos perante a Lei.

publicado por José Meireles Graça às 12:26
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Segunda-feira, 19 de Maio de 2014

Bico calado

Acho, preconceituosamente, que o Serviço Nacional de Saúde não é uma conquista do regime democrático, mas um seu equívoco: porque pôde melhorar o estado de saúde da população apenas enquanto o Estado pôde aumentar a sua dívida e a sua punção fiscal; porque não teve em conta nem a evolução demográfica, que consiste em nascerem cada vez menos bebés, e em haver cada vez mais velhos, por isso e pela evolução tecnológica, que faz com que se morra cada vez mais tarde, a preços porém crescentemente insuportáveis para manter as pessoas vivas; e porque, embalados pelos indicadores positivos, se pôde acreditar que, sem concorrência, nem falências, nem apetite pelo lucro, os serviços podiam ser realmente eficientes.

 

Agora, diz-se tranquilamente que há gente que morre porque faltou o medicamento, ou não aguentou a espera pela cirurgia, ou o medicamento mais eficiente é demasiado caro, ou, ou.

 

Entretanto, a ideia de que todos, quer possam quer não possam pagar, devem ter iguais condições de preço de tratamento, porque a destrinça entre uns e outros já foi feita em sede de progressividade dos impostos sobre o rendimento, criou raízes - tão sólidas que ninguém as discute fora da arena política porque não vale a pena, e dentro dela porque quem o fizer se suicida politicamente.

 

Dar tudo a todos através de serviços públicos é um objectivo socialista clássico. E, classicamente, falha mais tarde ou mais cedo quando acaba o dinheiro dos outros, porque já não confiam para emprestar, uns, nem têm recursos para, continuando a viver habitualmente, pagar mais impostos, outros.

 

Claro que quem pode foge e vai ao privado. Mas os que podem são muito menos do que os que poderiam se não tivessem entretanto sido esmagados por impostos; e o sector privado é portanto muito menos pujante do que seria noutras circunstâncias.

 

Nos regimes socialistas genuínos, a insignificante parcela da população que pertence à nomenclatura tem direito a tratamento de excepção. E é o que tendencialmente vai suceder entre nós, fazendo os muito ricos, para este efeito, aquele papel.

 

Faltam porém ainda alguns elementos: por exemplo, até agora ainda os profissionais podiam dizer, por motivações políticas ou outras, que o rei vai nu. Agora não: Os profissionais de saúde devem "guardar absoluto sigilo e reserva" sobre o que se passa nas instituições onde trabalham, e "absterem-se de emitir declarações públicas" sobre esses assuntos.

 

Queriam um serviço socialista com liberdades? Sorry, folks, isso não existe - a água não se mistura com o azeite. E se acham razoável a exigência de bico calado, pergunto: achariam o mesmo se os estabelecimentos fossem privados?

 

Ah. 

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publicado por José Meireles Graça às 17:27
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Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Quem espera desespera

Esta notícia já deu origem a um inquérito, o inquérito dará origem a um relatório, o relatório dará origem a outra notícia, com muito menor relevo se, como de costume, não houver castigos, e em devido tempo serão tomadas "medidas". Medidas é o que os responsáveis tomam, tradicionalmente, para corrigir os erros de medidas anteriores, ao que se seguem efeitos perversos que, naturalmente, requerem novas medidas.

 

A senhora em questão poderá talvez morrer por causa de não lhe terem marcado a consulta, e a colonoscopia, em tempo útil. Mas não será para já, que entretanto andam a tratá-la para diminuir o tamanho do tumor para dimensões operáveis. E se entretanto houver notícias sumarentas, escandaleiras, greves, desastres naturais, o carago, será esquecida - as notícias de vítimas do aparelho de Estado, seja na saúde, nos impostos, na recolha do lixo ou nos licenciamentos de tudo o que mexa, têm começo para cumprirem o seu papel de encher papel; mas raramente lhes conhecemos o fim.

 

Fosse eu um defensor do Serviço Nacional de Saúde e, com as cordoveias do pescoço inchadas de indignação, gritaria: ai que a austeridade está a assassinar as pessoas! E reclamaria o regresso ao Poder, já não digo do paizinho do SNS, que julgo ainda exercer advocacia em Coimbra, mas dos beneméritos colegas partidários dele, coautores, aliás em quase universal companhia, do monstro.

 

Monstro, sim. Porque um serviço que, à força de ser gratuito mesmo para os que o podem pagar, não pode desembocar senão em dívidas; à força de ser gigantesco, burocrático e gerido pelo Estado, não pode senão desembocar em ineficiência; e à força de depender de financiamento do Estado, não pode senão desembocar, agora que o crédito acabou, em cortes.

 

Uma parte dos cortes é a mesma que as mesmas unidades de saúde fariam se fossem privadas: fazer mais com menos, que o capital tem que ser remunerado e tem que haver reservas para investir. Mas o Estado nem cortes sabe fazer, nem aliás verdadeiramente existe - o que existe são os responsáveis, grandes e pequenos, que agem em nome dele. E estes não vão à falência, nem os serviços que dirigem - por isso é que são tão maus.

 

Mas enfim, o eleitor pobre diria, se me conhecesse: o que este gajo quer é fazer negócio à conta da Saúde, o que eu quero é igualdade; e o médio: o quê, já pago impostos que chegue, e ainda por cima progressivos, era o que mais faltava se agora  tivesse que encostar a barriga ao balcão para ter acesso ao que a Constituição garante; e o rico: não tenho nada a ver com essa merda, eu trato-me na clínica de Pamplona.

 

Isto diriam os eleitores. Os credores, esses, dizem: paga o que deves, com juros. E não podemos, infelizmente, responder: agora não, que temos uma colonoscopia marcada.

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publicado por José Meireles Graça às 19:43
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012

A lista de Leal

Não sei, nem quero saber, quem é o meu médico de família. E se isso não me tivesse sido exigido a propósito de uma merda qualquer, nem cartão de utente teria.

 

A ideia de que o cidadão deve escolher, de uma curta lista de médicos que o Estado disponibiliza para a zona xis, aquele que será o seu médico de família (e mesmo isso dependendo de um certo número de concidadãos não terem já esgotado a disponibilidade de tempo do médico em questão, se por artes do diabo conhecer algum da lista que efectivamente agrade) é uma ideia perversa.

 

Pode o acaso, se tiver um acidente e for parar a um serviço de urgência, destinar-me um médico ou um pateta licenciado em Medicina, um departamento bem organizado e equipado ou uma rebaldaria. Mas isso é o acaso - para morrer todos sabemos que basta estar vivo.

 

Agora, a ideia de que qualquer médico serve, desde que seja funcionário público, desafia o senso e ofende a liberdade de escolha: os médicos não se equivalem uns aos outros, e a obrigação de ir ao serviço xis e não ao ípsilon anula a concorrência. E mesmo que os "utentes" (palavra maldita, que a visão de esquerda para a Saúde cativou para o cidadão doente), se livres de escolher, nem sempre fizessem a melhor escolha, sempre seria a escolha deles.

 

Claro que há quem não possa pagar médicos e actos médicos, bons ou maus. E para esses a liberdade de escolha está, por definição, limitada. Mesmo assim, os estabelecimentos públicos poderiam encontrar no facto de a eles recorrerem sobretudo, mas não apenas, os que não podem pagar, razões de emulação. E ocorre lembrar que, sendo a Saúde importante, a Justiça não o será muito menos. Porquê então este sistema não ter sido adoptado para o acesso a advogados e tribunais?

 

A gratuitidade e igualdade de todos na Saúde, que o gigantesco SNS "garante", foi e é uma fantasia voluntarista para a qual só houve dinheiro enquanto o crédito não acabou. Agora é a ressaca, o tempo dos cortes.

 

Pensando o que penso, deveria talvez estar contente com isto: és embirrento, não és hipocondríaco, ou simplesmente tens saúde? Pois então o Estado exclui-te da lista. Se a ela quiseres regressar, tás quilhado, man, que a Administração tem para ti um mar de papéis e incómodos: no fim da via dolorosa, pode ser que haja ainda um médico ronhoso, com vagas.

 

O SNS era inviável a prazo, mas coerente. Esta iniciativa de Leal da Costa, o homem fatal do asneirol contumaz, vem remendar um tecido roto. Não se remendam tecidos rotos: deitam-se fora.  

publicado por José Meireles Graça às 12:08
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012

O escândalo pouco escandaloso

Há dias, a propósito de uma carta de um senhor de um Observatório (a palavra faz-me instintivamente apalpar a magra carteira de contribuinte desconfiado) pronunciei-me com profundidade e acerto sobre o Serviço Nacional de Saúde. Confesso que a profundidade não era tal que requeresse, digamos assim, escafandro, e o acerto resulta de uma opinião que, ainda que me mereça o maior respeito, não é completamente isenta, e que é a minha própria.

 

Noutro blogue onde também publiquei o texto, um leitor empenhou-se em demonstrar, com pertinácia e arreganho (e só por me ter dado o pretexto para usar estas duas refulgentes palavras já lhe estou grato) a superioridade do sistema público, referindo, entre outros argumentos, que nos E.U.A. os indicadores de saúde não são tão bons como os dos países onde há sistemas públicos do género do nosso, e que não notava nenhuma diferença sensível de tratamento entre o público e o privado, a julgar pela experiência pessoal que tinha.

 

A esses argumentos, e outros, respondi o que entendi.

 

Sucede que ontem li este post de Joaquim Couto e, curioso, segui o link que lá vem. A história é arrepiante, e consiste na eutanásia de 130.000 idosos por ano, no Reino Unido, por sofrerem de doenças que, aparentemente com ligeireza, são consideradas incuráveis. O "tratamento" liquida as pessoas, em média, em 33 horas.

 

Não pretendo sobre isto formular juízos definitivos, o assunto é certamente complexo e uma notícia de jornal vale o que vale. Mas não creio que vá haver grande escândalo: é um "serviço nacional", é público, é apresentado há muito como uma conquista e um triunfo - uma bandeira, em suma.

 

Imaginemos por um instante que a mesmíssima notícia dissesse respeito a uma cadeia de hospitais de um qualquer grupo privado. Assassínios em massa, investigações, processos-crime, detidos, escândalo, o diabo a quatro, não é verdade?

 

Não vemos nem ouvimos apenas com os olhos e os ouvidos, o preconceito distorce a imagem e o som: eutanásia em nome do interesse público - discretamente aborrecido; em nome da eficiência económica e do lucro - criminoso. 

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publicado por José Meireles Graça às 02:46
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