Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Tenha vergonha, doutor Rebelo de Sousa!

2017-02-07 Mercelo troika banca.jpg

O doutor Rebelo de Sousa vem a público apontar mais uma falha da troika.

Sabemos muito bem que a crítica não é dirigida à troika, mas faz parte de um pacote de críticas ao governo anterior por não ter resolvido os problemas da banca, recitado, em uníssono ou com variações, com os socialistas, os bloquistas e, em menor grau, os comunistas.

Um pacote inteligente. Quanto mais se discutir o problema da resolução do problema, menos se discute o problema da origem do problema, as vigarices concertadas pelo anterior primeiro ministro socialista para financiar as políticas económicas do seu governo, ou apenas para fazer chegar dinheiro aos seus amigos, ou ambas, envolvendo maioritariamente a CGD, banco público tutelado pelo governo, a tolerância do regulador, mas também outros grupos financeiros que, entre o deve e o haver de cruzamentos de interesses variados, encontravam estímulo para também apoiarem as políticas económicas do governo. E quando a discussão se orienta para a origem do problema, por exemplo na comissãos parlamentar de inquérito aos negócios ruinosos da CGD, barram-na na medida das suas possibilidades e dos limites da legalidade.

E ganham todos com este concerto. Os socialistas por encobrirem as vigarices que promoveram e arruinaram a banca, pública e privada. Os bloquistas e comunistas por encobrirem que é tanto ou mais fácil arruinar bancos públicos, com os mecanismos de regulação que têm e a sua porosidade aos interesses privados dos governantes, como privados, quando caem nas garras de pequenos grupos de accionistas de referência determinados a usá-los para financiarem as suas aventuras negociais e empresariais privadas. O doutor Rebelo de Sousa porque tem que se livrar do líder da oposição antes das próximas eleições presidenciais e do seu provável desapoio explícito, que é muito diferente do anterior apoio discreto pela máquina do partido a pedido do candidato sem apoio oficial que levantasse dúvidas sobre a independência do candidato, à sua recandidatura.

Unidos nos interesses e no propósito, também facilmente encontram mensagens comuns, e as críticas à troika, atingindo o governo que implementou o programa acordado entre o anterior gocerno socialista e as instituições da troika, são um dos temas mais comuns.

Só que são tão estúpidas como desonestas. A troika enviou para cá meia dúzia de funcionários entre técnicos e dirigentes, ou que fossem duas dúzias, que trabalharam com a informação que lhes foi dada pelo governo (Sócrates) e pelas instituições com quem reuniram, não trouxe batalhões de auditores para passarem a pente fino balanços de bancos, validando se cada crédito era cobrável ou incobrável, se a apreciação que dele faziam os auditores e reguladores era realista ou optimista, nem andaram a fazer contagens de armazém em empresas para validar os seus balanços. Quando alguém sugere que a troika falhou na detecção da verdadeira situação da banca não está interessado na detecção da verdadeira situação da banca, mas na ocultação da verdadeira situação da banca. Ainda hoje, como se tem visto no esforço para esconder a da CGD.

O doutor Rebelo de Sousa lamenta que a troika não tenha descoberto há mais tempo as fragilidades da banca.

Pois eu lamento que não as tenha descoberto há mais tempo o mais notável comentador televisivo dos últimos quarenta anos, próximo, por amizade e mesmo parentesco, do grupo de vigaristas que, logo a seguir à quadrilha Sócrates, Constâncio, Santos Ferreira e Vara, que conseguiram atirar a gigante CGD ao tapete, maiores prejuízos causou à banca portuguesa, os banqueiros do BES, ou que se sabia delas se calou muito caladinho, não se sabe se para proteger os amigos e parentes eventualmente envolvidos neles. É que, se da sua posição de observação privilegiada próximo dos principais actores, e de arauto de influência absolutamente firmada na opinião pública a nível de até ter feito tombar governos, as tivesse denunciado em tempo, muito dinheiro de poupanças de gente séria teria sido poupado a ser derretido em negócios familiares dos banqueiros, muito dinheiro dos contribuintes teria sido poupado a indemnizar estes lesados pelas vigarices que os banqueiros lhes fizeram, e muito mais seria poupado se eventualmente os socialistas, bloquistas e comunistas vierem a conseguir levar avante a sua intenção de nacionalizar o banco.

Tenha vergonha, doutor Rebelo de Sousa!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:20
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Sexta-feira, 15 de Julho de 2016

O Louçã resolve

Juntaram-se as melhores cabeças de Portugal para resolver o problema do deficit, e resolveram-no.

Quem são elas? Toda a gente sabe. O professor Francisco Anacleto Louçã, conselheiro de estado no reinado do professor Marcelo e bloquista eterno, os investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra coordenado pelo conhecido sociólogo rapper Boaventura "de" Sousa Santos e que deu à Pátria figuras como a eurodeputada Marisa Matias, o deputado José Manuel Pureza ou a ministra Maria Manuel Leitão Marques, para não falar do histórico sindicalista Manuel Carvalho da Silva, coordenador do Observatório de Crises e Alternativas, em cujo âmbito as Oficinas sobre Políticas Alternativas desenvolveram nos anos de bruma da troika a solução política salvífica agora divulgada, e mais alguns ajudantes de escritor dos quais me permito salientar um tal de Manuel Pires para esclarecer que não sou eu. Sem esquecer o prefaciador, o presidente da Assembleia da República Eduardo Ferro Rodrigues.

E como é que o resolveram? Fácil. Tivesse-se retirado a troika do caminho e o desemprego ter-se-ia reduzido automaticamente, e "Nós damos um exemplo no livro: se um em cada cinco dos desempregados e um em cada dois dos que saíram de Portugal durante a 'troika' estivessem a trabalhar cá, o défice português seria zero, porque se pagariam menos cinco mil milhões de euros de subsídio de desemprego e o aumento da receita da segurança social – por causa das pessoas que estariam a trabalhar – seria de 1.300 a 2.700 milhões de euros. Não teríamos défice simplesmente". Como diz o outro, só não vê quem não quer ver.

Encontrada a solução, e entendido que a solução se refere ao passado mas pode facilmente ser transposta para o futuro pela aplicação do princípio que menos austeridade resulta em mais emprego, e está de facto a ser usada para fazer crescer o investimento, o emprego e a economia com os resultados conhecidos através da devolução dos rendimentos aos portugueses, ainda pode haver mentes mesquinhas e economicistas que duvidem do princípio. Que desconfiam que, se a troika não tivesse vindo com o programa de austeridade, o desemprego teria na mesma aumentado em consequência da insustentabilidade dos desequilíbrios económicos e financeiros que a antecederam, e não da tentativa de os eliminar com o programa de assistência. Que desconfiam que o mal-estar do doente se deve, não à quimioterapia, mas aos cigarros que fumou até lhe ter sido diagnosticada a doença. Dúvidas mesquinhas de pessoas mesquinhas.

Tanto mais que a solução enunciada é realmente inovadora e formidável. Conseguir, reduzindo o desemprego em apenas um quinto, cortar cinco mil milhões de euros no subsídio de desemprego que custa menos de dois mil milhões para todos os cinco quintos é obra, já não do domínio da ciência económica, mas do domínio da alquimia, como dizia por aí um companheiro do Gremlin Literário. Ou, talvez, e para ser mais rigoroso, já que estamos a falar de cientistas sociais e não de vendedores da banha da cobra e eu sou mais dado às matemáticas que às ciências dos materiais, é a aplicação dos números imaginários à Economia para a libertar das grilhetas dos números reais.

OE 2016 - Segurança Social.jpg

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:00
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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

Tetra-buraco

O caso é pior, Subir: nem novas nem velhas iniciativas. O que vias, e deixaste de ver, foram cortes - reformas que se vissem, nem agora nem antes.

Culpa dos teus colegas que, aquando da negociação do Manifesto, deviam ter tido o cuidado de, antes de falar com o ministro Teixeira e o ex-ministro Catroga, terem vindo ter comigo. Ter-lhes-ia dito: ora bem, seja lá qual for o acordo a que cheguemos, não vai ser cumprido; a intransigência da troica resulta do choque da realidade do calote e da crise, da maioria que circunstancialmente está no Poder nos países do Norte, das ilusões do BCE, que se imagina independente, e da novidade de tudo isto. Mas tudo isso pode mudar e mudará, antes, muito antes, de acabar o Programa. E acrescentaria:

Portugal é socialista, da variedade em que a maior parte do eleitorado depende, directa ou indirectamente, do Orçamento de Estado, e em que parte gorda da classe dirigente ou está nele empregada ou só nominalmente é privada, em ambos os casos tendo como certo que não há forças criativas no País para nenhuma espécie de verdadeiro progresso. E portanto basta que no horizonte apareça algum módico de alívio nas contas de cá, e algum baixar de guarda nas exigências de lá, para as coisas regressarem ao status quo ante, que é o de, com dirigismos sortidos, se preparar uma nova falência.

Portanto, man, se queres fazer obra de mérito, não te limites a traçar objectivos: tens que dizer como lá chegar, e em pouco tempo. Porque a dependência da opinião pública que os políticos têm que ter levará a que tentem agradar, ao mesmo tempo que pisam os calos a toda a gente; e que, com eleições à vista, alarguem o cinto, pelo que a reforma ou se faz já ou não se fará nunca. Se queres que se reforme o Estado, vai pelas Páginas Amarelas e, em topando com algum serviço público ou organismo de capitais total ou parcialmente públicos (Agência, Autoridade, Câmara, Direcção, Fundação, Instituto, Observatório, etc. etc.) obriga os responsáveis a responder a meia dúzia de perguntas: i) Precisamos mesmo disto?; ii) Não há outro serviço que faça a mesma coisa?; iii) Que acontece se extinguirmos? iv) Não pode ser feito por privados, desde que em concorrência?; v) Se não pode desaparecer, nem ser privatizado, como pode viver com menos? E vi) No caso de o estaminé fechar, quanto seria preciso para o pessoal ser indemnizado de modo a que não se criasse um exército de revoltados?

Isto não foi feito, e pelo contrário aumentaram os tropeços à vida das empresas; cresceu a punção fiscal; e o Governo, que começou por fazer uma diminuição ao número de pastas, com valor simbólico - mas os símbolos importam - ostenta hoje com orgulho um Ministério do Ambiente, uma entidade daninha que já começou a fazer estragos e a lançar as bases para mais um nó górdio de burocracias metediças, serviços pletóricos e palavreado demagógico e pedante, mesmo quando os responsáveis acreditam no que dizem.

Não se fez, ponto. E aqueles que, como eu, veem o copo meio vazio (há a parte meio cheia, mas essa guardo-a para mais perto das eleições, que corremos o risco de escolher, em vez do medíocre que temos, o péssimo que poderemos ter) assistem com desgosto ao levantar da cabeça da retórica nebulosa, ou das formulações de intelectual profundo da esquerda afrancesada ("A partir daqui podemos partir para coisas mais importantes: a economia pública, a igualdade, mas já com rituais de conflito e assertividade, de que a esquerda precisa como de pão para a boca"), ambas tendo como consequência o escaqueirar da nova cornucópia de fundos da UE que começarão a chegar.

Mais valera que eles, os fundos, abatessem à dívida pública. Sempre os socialistas, se ganharem, teriam menos tempo para dar com os burros na água - pela quarta vez.

publicado por José Meireles Graça às 23:17
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

Persistir no erro, evidentemente

 

 

Há uns dias, numa entrevista à televisão, o Primeiro-Ministro disse que o nr. 2 do Governo era "evidentemente" o Ministro das Finanças. E quando lhe perguntaram pelo "parceiro" de coligação, respondeu que Paulo Portas era o nr. 3. A Lei Orgânica do Governo, publicada a 12 de Julho de 2011, confirma.

 

Não está, como é natural, nos hábitos dos portugueses ler o Diário da República. Nem interessa, neste momento, o aspecto jurídico do problema. Interessa o significado político desta afirmação, de cuja substância já toda a gente desconfiava. O que as pessoas perceberam agora, algumas com espanto, foi a naturalidade com que o Primeiro-Ministro persiste no aborto que criou.

 

Se houvesse jornalismo em Portugal, o "detalhe" tinha feito um escândalo no dia em que se conheceu a constituição do Governo. O que agora veio a ser do conhecimento público é um erro grosseiro e um ataque à democracia.

 

Em caso de coligação, os dirigentes máximos de cada partido têm obrigação, perante o eleitorado, de ser os principais responsáveis pelo Governo que formam. Ninguém elegeu o Ministro das Finanças. Vítor Gaspar é um funcionário, e sobre ele deviam ter autoridade Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Por esta ordem.

 

Estava escrito que isto tinha de azedar. De resto, azedou no passado; o erro repete-se, com mais gravidade. Como se não bastasse a este Governo ter a oposição exterior, inflacionada pelas presentes circunstâncias, ainda conseguiu arranjar-se para ofender o seu próprio eleitorado. É legítimo que quem votou no CDS se sinta ofendido pela submissão de Paulo Portas a um técnico contratado. Esta submissão nunca é exclusivamente "formal", porque (como ficou provado) a forma é indissociável do conteúdo. Por maioria de razão, é legítimo que quem votou no PSD se sinta humilhado de ver o primeiro-ministro subordinado a um funcionário. Resta que nenhum destes "detalhes" será indiferente no apuramento de responsabilidades, que não poderão ser atribuidas a quem, formalmente, não as tem.

 

Não vem ao caso a proporcionalidade dos votantes em cada partido (podia ser de 1 para 9 sem abalar o conceito: se o partido mais pequeno lá está é porque o partido maior precisou dele). O Ministro das Finanças é um "funcionário", na medida em que são "funcionários" todos os membros do Governo quando não foram eleitos. Independentemente da sua contratação corresponder ou não a uma opção política. Não faço parte do coro de "críticos" que lhe apontam a "burocracia" e a "tecnocracia" como pecados principais. Efectivamente, nem lhe aponto pecado nenhum; mais do que fazer o papel dele, está a fazer o de Primeiro-Ministro - por delegação de competências. A ideia de "responsabilidade piramidal" impede-me de me referir a ele. Porque ele, perante o eleitorado, não é ninguém.

 

A centralidade da pasta das Finanças justifica-se sempre na articulação com os restantes Ministérios. Agora tanto ou mais do que no passado. Nunca se justifica a sua sobreposição aos responsáveis políticos. Agora mais ainda do que em qualquer Governo anterior.

 

Todas as alterações ao Memorando têm sido negociadas ao nível do Ministro das Finanças com os funcionários da "troika". Muitas delas já deviam ter sido negociadas a um nível superior. E Paulo Portas, enquanto representante máximo do segundo partido da coligação, tinha o dever e a obrigação de estar envolvido nelas. É grave que Paulo Portas não tenha sido ouvido no que estas negociações têm de fundamental, porque delas depende a liberdade do Governo para decidir sobre a vida do país. O eleitorado não tem ferramentas institucionais para responsabilizar politicamente um Ministro das Finanças que não depende do seu voto. Paulo Portas não pode ser responsabilizado pelas decisões de um Ministro que lhe é hierarquicamente superior.

 

Esta história não vai, evidentemente, ficar por aqui. Paulo Portas não deve a sua formação política à escola da JSD. A "carta fechada" que vai enviar à "troika" com as suas recomendações mostra que as responsabilidades que aceitou perante o eleitorado não lhe são indiferentes.

 

O tempo dirá quem tinha razão. Como sempre acontece em política.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 02:34
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Terça-feira, 5 de Junho de 2012

Uma resposta traduzida

 

 

Camilo Lourenço, em crónica publicada no Jornal de Negócios, pergunta: "Porquê tanto pessimismo?". Aparentemente, esta foi a pergunta que lhe fizeram dois jornalistas estrangeiros que lhe telefonaram na semana passada. Estavam estes senhores muito espantados porque o Financial Times elogiava as exportações portuguesas, a Moody's teria dito que havia "razões para optimismo", e nós não tínhamos ligado nenhuma. Queriam também saber o que estava por trás do "bom comportamento das exportações e da paz social". E Camilo Lourenço partilha com eles desta perplexidade, entre outras razões porque "nem os elogios da insuspeita Moody's, que ainda há pouco tempo nos atirou para o "lixo", mexem conosco", concluindo que o caso "não tem sido suficientemente analisado" pelos nossos jornalistas. E que, a continuar assim, aos portugueses que pretendam "fugir à depressão" só lhes resta consultar a imprensa estrangeira.

 

Concordo com Camilo Lourenço. Se quiserem fugir à depressão, os portugueses têm muita imprensa estrangeira para consultar. Até estou convencida que têm alguma imprensa local para se entreterem, se quiserem de facto fugir à depressão. Revistas de moda, por exemplo. São hilariantes. Ou o Auto-Motor (eu gosto do Auto-Motor). Mas se os portugueses, em vez de fugir, quiserem combater a depressão, só conheço duas maneiras: resolver os seus problemas ou consultar um especialista no sentido de tomarem a medicação apropriada. Muitas vezes uma delas não dispensa a outra.

 

Mas eu, como não sou do ramo, vou fugir à psicologia e tentar explicar ao dr. Camilo Lourenço porque é que os portugueses têm razões de sobra para não estarem optimistas.

 

Pessoalmente, considero que a Moody's está longe de ser insuspeita. Não conheço a Moody's senão dos bitaites que tem largado, de há uns anos a esta parte, qual pitonisa embriagada. E os primeiros de que me dei conta datam de 2008. Classificavam de "Triple A" as empresas americanas que vieram a falir, no dia seguinte, funcionando como causa próxima de toda esta marmelada em que estamos enfiados até às narinas. Daí em diante, encarei com igual suspeição toda a conversa respeitante às agências de rating, desde o que diziam as próprias ao que se dizia delas. E tal como uma previsão, lida (por exemplo) na gordura que libertam as alheiras durante o processo de fritura, ou obtida com a certeza que dá Saturno quando se encontra na casa de não sei quem, às vezes acerta: Portugal, quando a Moody's classificou o país de "lixo", não me inspirava confiança para emprestar à República um único euro.

 

Mas há mais especialistas e mais oráculos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou o relatório da última visita a Portugal, no âmbito da quarta missão de avaliação do programa económico, com a União Europeia e o Banco Central Europeu. Está muito alegre, este relatório. E quem leia os títulos até fica convencido que o pior já ficou para trás. Aconselho toda a classe jornalística a ficar por aqui, e não se dar ao trabalho de ler nem mais uma linha; talvez começassem a servir para alguma coisa, e eu não me governo a alimentar um blog com jornalistas competentes.

 

Logo no final do primeiro parágrafo, cujo título diz "The program remains on track amidst continued challenges" (a palavra "challenges" seduziu-me de imediato), pode-se ler:

 

"The authorities are implementing the reform policies broadly as planned end external adjustment is proceeding faster than expected".

 

Ou seja, eles estão convencidos que, de uma maneira geral, as reformas em Portugal estão a ser executadas a uma velocidade muito razoável. Do meu ponto de vista, se eles estivessem convencidos que as reformas em Portugal estão a ser executadas já estariam enganados. Pelo que a questão da velocidade se torna perfeitamente decorativa. Mas continuemos.

 

O segundo parágrafo chama-se "Growth in 2012 may hold up better than expected" (eu avisei: os títulos são todos bestiais). Diz, a certa altura:

 

"However, with domestic demand weak and pressures on firms to reduce high indebtedness, unemployment has increased sharply as part of the adjustment process, and could peak at close to 16 percent in 2013. Continued tensions in the euro area represent a risk clouding the external outlook".

 

Traduzindo: grosso modo, eles detectam que a procura interna está fraca, e que as empresas portuguesas sofrem pressões para que reduzam os altos níveis de endividamento, o que tem levado à subida brusca do desemprego. E que esta subida pode situar-se num valor máximo aproximado de 16% em 2013. Concluem este parágrafo observando que as tensões na zona euro representam um risco a enevoar a perspectiva do exterior. Duvido do valor de 16%, que considero optimista. Mas no restante quer-me parecer que têm razão.

 

O título do terceiro parágrafo é "The ambitious 2012 fiscal deficit target remains within reach". Pois sim, "talvez" ainda esteja ao nosso alcance. Mas depois diz:

 

"Reforms of state-owned enterprises and public-private partnerships are on track. Efforts to strengthen public financial management, bolster tax compliance, and streamline public administration are continuing at good pace".

 

Aqui parei de ler. Ao FMI, à UE e ao BCE parece-lhes que as reformas no sector público do Estado e nas PPPs vão sobre rodas. Devem ter visto documentos de outro país, porque aos portugueses o que são apresentadas são notícias de barbaridades com o Tribunal de Contas, empresas públicas irreformáveis, e moscambilhas com os contratos das PPPs. E do pouco que se apurou, percebeu-se que dos efeitos mais brutais destes contratos sobre o contribuinte ainda não se lhes sentiu mais do que o cheiro.

 

De resto, dr. Camilo Lourenço, não precisamos consultar mais relatórios, previsões, horóscopos ou borras de café. A Justiça foi reformada, ou encontra-se em vias de uma alteração histórica que vai garantir aos investidores que um processo em Portugal não demora mais do que, vá lá, um ano a ser decidido e executado? Não. A burocracia, designadamente no que toca aos licenciamentos, foi desimbecilizada? Não. O sistema fiscal garante hoje que as empresas podem não só sobreviver, mas também competir? Ou sequer perceber, com a antecipação razoável, quanto é que o Estado vai subtrair à sua facturação? Também não. A Banca está em condições de assegurar o crédito necessário para as empresas se financiarem? Não está. E a reforma das autarquias, vai de vento em poupa? Não falo de juntar meia dúzia de Freguesias, como é evidente. Pergunto se há notícia de se fundirem Câmaras Municipais. Ouviu falar de alguma que se prepare para desaparecer? Não, ainda não é desta.

 

Então, dr. Camilo Lourenço, da próxima vez que lhe telefonarem do estrangeiro a perguntar porque é que os portugueses estão pessimistas, não se estenda por muitos detalhes. Não vale a pena, e a única economia que vai alavancar é a das empresas operadoras de telecomunicações. Responda-lhes apenas: "Porque sabem do que a casa gasta" (em inglês, "bicóz dei nao avuó di ráuze çependz"). Eles vão perceber.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:46
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