Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

A entrevista

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Deve estar mais ou menos por estes dias a fazer mais ou menos não sei quantos anos um dos episódios mais enigmáticos e emblemáticos do Processo Revolucionário em Curso, o PREC, a entrevista concedida pelo Álvaro Cunhal à jornalista italiana Oriana Fallaci.

[Antes de mais, cabe aqui agradecer ao blogue Porta da Loja, cujo trabalho de investigação recolheu o que há disponível para documentar esta importante entrevista, a cópia da versão integral que foi publicada na revista Paris Match de 28 de Junho de 1975, e sugerir a consulta directamente no blogue às imagens da entrevista, que se conseguem ampliar de modo a ficar perfeitamente legíveis, em Francês, o que para a rapaziada do meu tempo eram favas contadas mas agora é uma língua morta, mas é o melhor que consegui arranjar]

[Mais útil ainda, acabei de descobrir noutro blogue, o Curiosidades de Imprensa e Afins, a estrevista publicada em Português no Jornal do Caso República de 27 de Junho de 1975, de que sugiro a leitura no blogue, onde as cópias das páginas do jornal podem ser ampliadas para um tamanho de letra legível]

A entrevista foi muito importante e muito elucidativa mas, acima de tudo, muito surpreendente, porque, sendo certo que o Álvaro Cunhal foi, podemos dizer que com o António de Oliveira Salazar com alguma benevolência para este último, porque é muito mais duro sê-lo na oposição do que na situação, o político português mais profissionalizado e profissional do século XX, nesta entrevista ele afirmou com uma candura inédita na sua longuíssima carreira o que toda a gente sabia mas ele nunca tinha dito ao público nem podia dizer naquela altura: que estava cá para implantar a ditadura. Porque o fez? Não sei, eu nem sequer sou um intérprete especialmente informado da personalidade e da biografia do Álvaro Cunhal, mas posso especular que, perante uma mulher com uma personalidade forte e fascinante, não resistiu ao instinto do macho ibérico desafiado na sua coutada de se mostrar ainda mais forte e fascinante do que ela tentando impressioná-la através da gabarolice, apresentando-se como o Dono Disto Tudo que tinha estado muito perto de ser mas, naquela circunstância, estava a travar um combate de vida, se perdesse, ou morte, se ganhasse, para continuar a pretender ser. Felizmente para nós, e também para ele, perdeu e o combate acabou por ser de vida para nós, para ele, e para generalidade dos, mas infelizmente não todos, que o combateram. Porque, se o tivesse ganho, muita gente teria morrido mais cedo, e ele próprio não teria certamente chegado vivo à bonita idade a que chegou.

O que disse de importante o Álvaro Cunhal nesta exibição desenfreada de fanfarronice?

  • Que em Portugal quem dominava era quem tinha a força bruta dos militares na mão,
  • que, e esta resultava da outra, os comunistas se estavam nas tintas para as eleições, que tinham acabado de perder inesperadamente para quem dominava nos quartéis, nos jornais, nas empresas e nas ruas, com uma minoria humilhante de 12,5%, cerca de 20% se se somassem todos os votos de partidos à esquerda do PS,
  • que o PS com 40% dos votos e o PSD com 27% não tinham maioria nenhuma, a não ser estatística,
  • que não sabia quantos presos políticos havia nessa altura em Portugal, só sabia que eram poucos e eram rapidamente, demasiado rapidamente, libertados depois de serem presos,
  • que em Portugal nunca haveria uma assembleia legislativa depois da constituinte, e isto afirmava-o como uma promessa,
  • que num processo revolucionário não se obedece à lei, faz-se a lei,
  • e que nunca haveria em Portugal uma democracia do tipo das que existiam (e existem) na Europa Ocidental ("Ocidental" queria dizer, nas décadas que mediaram entre o fecho da Cortina de Ferro e o derrube do Muro de Berlim, não-comunista).

Ou seja, e isto continua a ser tão actual no século XXI como nos anos 70 do século XX, que a tolerância dos comunistas pela democracia liberal e pelas liberdades democráticas não passava de um estágio temporário, de um compasso de espera estratégico, no caminho para o socialismo, que as larga logo que deixem de lhe ser úteis (e tenha força para as largar).

Se ele se quis mostrar um galã à fascinante jornalista italiana, acabou por se mostar um facínora, e os poucos que ainda não tinham percebido com as sucessivas intentonas e inventonas, prisões e deportações, fechos de jornais e nacionalizações, que o Portugal do PREC estava nas mãos de bandidos altamente organizados que instrumentalizavam o poder militar e do qual só se conseguiria livrar, também, recorrendo à violência, perderam qualquer ilusão. E a partir daí, não necessariamente por causa de, mas provavelmente com alguma contribuição de, foi o Verão Quente, o só por cima do meu cadáver, as invasões e destruição de sedes do PCP por meios violentos como incêndios e bombas, as mocas de Rio Maior, na sociedade civil, ao mesmo tempo que os partidos democráticos faziam o seu trabalho de construção de equilíbrios no campo político, nomeadamente com os militares não-comunistas, diplomático, negociando apoios com as grandes democracias mundiais que já estavam dispostas a deixar este pequeno país marginal cair nas mãos do comunismo internacional, e popular, organizando manifestações maiores do que as dos comunistas que dominavam a rua.

O resultado deste processo conhecêmo-lo, e Portugal acabou mesmo por se transformar numa democracia do tipo das que existem na Europa, e a história chegou mesmo tornar irrelevante o qualificativo Ocidental quando toda a Europa se libertou das ditaduras comunistas que governavam a Oriental. Mas nunca chegámos a descobrir ao certo o que teria acontecido se os comunistas tivessem mantido o controlo do PREC e tivessem passado do degrau da democracia liberal para o da ditadura do proletariado. E ainda bem que não descobrimos.

O que diria Cunhal numa entrevista subsequente se tivesse ganho? Nunca soubemos, mas temos agora uma oportunidade de perceber. A Vanezuela está há muitos anos a atravessar um Processo Revolucionário em Curso que correu com alguma tranquilidade, o que não significa que não houvesse presos políticos, alguns assassinatos, censura e apropriação dos meios de produção e comunicação social pelo Estado, enquanto o dinheiro do petróleo o alimentou. Mas, como é sabido, o socialismo dura até se acabar o dinheiro dos outros, e com o petróleo mais barato e o controlo da economia pelo Estado a economia simplesmente ruiu, e com ela a sociedade. Mas não o sistema político socialista.

No meio deste processo de degradação do que antes era mantido pelo dinheiro do petróleo que deixou de chegar de fora, o regime venezuelano cometeu o mesmo erro que os sectores mais progressistas das forças armadas afectos aos comunistas tinham cometido em 1975: aceitou organizar eleições livres, ou tão livres quando possível num regime que mantém os opositores mais notáveis na cadeia (em 1975 era o MRPP que estava quase todo na cadeia e foi impedido de se candidatar) e controla toda a comunicação social. E o resultado foi o mesmo: as forças de direita ganharam as eleições com uma maioria esmagadora e conquistaram mais de dois terços dos lugares no parlamento, suficientes para, entre outras coisas, alterar a constituição e reconfigurar o regime, democratizando-o no sentido de o aproximar de uma das tais democracias que existem na Europa com liberdades democráticas e, como lhes chamava o Cunhal, no que parece um exercício de humor por toda a organização económica socialista se basear sempre em monopólios do Estado, monopólios.

Como é que o regime venezuelano resolveu este problema bicudo? Recorrendo a um truque jurídico genial. Os juízes do Supremo Tribunal, o Constitucional lá do sítio, que tinham sido nomeados pelo regime socialista e seriam gradualmente substituídos ao longo da legislatura, à medida que os seus mandatos fossem terminando, por novos juízes escolhidos pela nova maioria de direita [atenção, isto não significa que os juízes portugueses não sejam totalmente isentos e independentes do poder político e dos partidos, assunto que não me interessa desenvolver aqui], demitiram-se em bloco e foram substituídos, in-extremis, ainda pelo velho parlamento de esquerda imediatamente antes da tomada de posse do novo parlamento com maioria de direita, para mandatos com a duração da legislatura, desse modo blindando o supremo contra a entrada de juízes designados pela nova maioria que tinha acabado de ser eleita. Com o supremo completamente seguro em boas mãos, todo o poder legislativo do parlamento, que tinha legitimidade constitucional até para mudar o regime, foi esvaziado. E o regime, aprendendo com o erro de ter permitido realizar eleições mais ou menos livres, entrincheirou-se e radicalizou-se.

Como?

  • Formou e armou mais 500 mil milicianos "nos campos, universidades, na classe operária, para conseguir um sistema organizado de logística, para garantir a sua dispersão permanente". Nada que os revolucionários portugueses não tivessem feito no Verão Quente de 1975, entregando 1000 armas G3 à conhecida endocrinologista Isabel do Carmo e ao marido para partilharem com a sua organização, o Partido Revolucionário do Proletariado / Brigadas Revolucionárias (PRP/BR), organização terrorista mas do lado certo da história, como confirmou o xerife da revolução Otelo Saraiva de Carvalho ao tranquilizar o país "Sei pelo menos que as armas se encontram à esquerda e isso é uma satisfação muito grande. Se elas se encontrassem à direita, é que era perigoso. Como se encontram à esquerda, para mim estão em boas mãos". Os militares do lado certo da história ainda tentaram levantar mais 3000 G3, mas o Otelo disse que não. O número de 1000 G3 em boas mãos veio a revelar-se claramente insuficiente para defender a revolução, e o regime venezuelano conseguiu perceber para se defender da contra-revolução seriam precisas muitas mais.
  • Condenou a penas de prisão de décadas os principais opositores. O regime revolucionário português tinha feito o mesmo, e com a grande liberalidade dos mandatos de detenção em branco, a empresários, gestores, e respectivas famílias, dos grandes grupos económicos do Portugal anterior à revolução, foi perseguindo os que acusava de contra-revolucionários fascistas nas intentonas ou inventonas que foram ocorrendo ou sendo encenadas ao longo do PREC, prendeu em Maio de 1975 todos os militantes do MRPP a quem conseguiu deitar a mão depois de ter conseguido ilegalizar o partido a tempo de impedir a sua participação nas eleições de Abril de 1975, em Maio de 1975 havia mais presos políticos em Portugal do que nos tenebrosos tempos de Março de 1973, mas nunca tinha ousado prender os dirigentes dos partidos democráticos, o PS e o PPD, nem sequer os do CDS, que nessa altura era oficialmente catalogado pelos sectores que lideravam a revolução como um partido fascista. Um erro que o regime venezuelano não cometeu.
  • Organizou novas eleições livres dos erros e das fragilidades do pluralismo democrático, nomeadamente por a oposição se ter recusado a participar, para eleger uma nova Assembleia Constituinte com legitimidade para perpetuar o regime, para a qual conseguiu eleger cem por cento dos membros. Os comunistas portugueses nunca conseguiram chegar a este estágio.
  • A nova Assembleia Constituinte criou a Comissão para a Verdade, a Justiça, a Paz e Tranquilidade Pública para declarar os opositores que convocaram manifestações contra o regime como responsáveis pelas centenas de assassinatos de manifestantes e opositores e os perseguir e levar à justiça. O COPCON do PREC tinha algumas competências de natureza semelhante, e práticas bastante eficientes, mesmo aos olhos do século XXI, como por exemplo os mandatos de captura em branco que podiam ser usados livremente à medida das necessidades circunstanciais e alguma tortura em instalações militares, se bem que menos eficazes que as implantadas desde os anos 30 do século passado nas ditaduras europeias socialistas e nacional-socialistas, e continuadas até aos anos 80 nas democracias da Cortina de Ferro.

Tendo-se o PCP também entrincheirado e tendo feito durante o PREC mais ou menos tudo o que deve ser feito para assegurar a tomada do poder e que, noutras revoluções como a venezuelana, resultou, e tendo a oposição venezuelana também feito mais ou menos o mesmo que fez a oposição democrática portuguesa durante o PREC, não é fácil perceber porque é que a revolução bolivariana na Venezuela foi um sucesso que permitiu mesmo a eternização, que talvez se venha a revelar efémera mas até este dia é sólida, do poder pelos socialistas e a portuguesa foi um fracasso em que o poder acabou por desaguar nas mãos dos democratas?

Não tendo recebido a graça da Fé, o mais sobrenatural em que eu consigo acreditar é na mão invisível que nos faz chegar a comida ao prato apesar de o talhante só querer enriquecer à nossa custa, e sendo completamente incapaz de formular uma hipótese em que o divino possa ter tomado um papel determinante na derrota dos comunistas e na vitória da democracia na revolução portuguesa, só posso mesmo especular que elas se devem à resistência, incluindo armada e até terrorista, mas essencialmente da atitude de intolerância anti-comunista absoluta da maioria do povo português, às mocas de Rio Maior?

Se calhar foi, e se calhar podemos ter esperança de, se um dia outras formas de revolução socialista nos montarem um cerco, nem que seja por via da imposição pela força do politicamente correcto, elas voltarem a ser retiradas das estantes onde actualmente estão expostas como objectos decorativos para voltar a defender a, não há que ter receio nem hesitação a usar este termo, Liberdade.

E, quase a terminar, volto a lamentar que a Constituição da República Portuguesa, por um erro estúpido decorrente do medo em que se vivia na época em que foi redigida, tenha proibido no nº 4 do Artigo 46º, não todas as organizações que perfilham ideologias totalitárias, mas apenas a que perfilham a ideologia fascista, abrindo as portas da permissividade a todos os fascismos que têm outras designações, a começar pelo fascismo socialista.

E acabo com uma sugestão. Da próxima vez que os proprietários das mocas de Rio Maior as retirarem da estante para lhes limparem o pó e as voltarem a expôr, talvez valha a pena relembrarem uma das frases mais actuais da entrevista ao Álvaro Cunhal:

  • "num processo revolucionário não se obedece à lei, faz-se a lei".

 

PS: e por falar nisso, os estatutos do BPI sempre se blindaram? A Altice sempre vai ser impedida de transferir trabalhadores? Just asking...

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:13
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

A madrassa de Coimbra

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A madrassa com mais sucesso em Portugal é o Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra dirigido pelo conhecido académico das ciências sociais Boaventura Sousa Santos.

Uma das funções que a notabilizam é oferecer lugares de retaguarda como investigadores a políticos, sindicalistas, académicos e activistas do marxismo, dotando-os dos meios de subsistência, financiados pelos contribuintes, necessários para prosseguirem condignamente a revolução socialista quando secam os meios de subsistência, igualmente financiados pelos contribuintes, decorrentes dos lugares que ocasionalmente ocupam no sistema que combatem. E o CES tem os seus ilustres investigadores espalhados por instituições como o Parlamento, o Parlamento Europeu ou mesmo o Governo da República.

Mas uma madrassa não se limita a tornar mais confortável a vida material dos líderes para se poderem dedicar melhor à causa espiritual, tem um papel importante na radicalização de fiéis. O CES acolhe, e até oferece doutoramentos, a candidatos à radicalização, criaturinhas fracas de espírito e de carácter que acreditam na superioridade do seu credo, de estar no lado certo da história, que, para mostrar a sua fé inabalável na ditadura do proletariado, papagueiam para defender uma ditadura como a venezuelana as palavras de ordem do velho testamento marxista como "oposição de direita e extrema-direita", "suposto regime ditatorial", "carácter fascista e golpista da oposição", "episódios de violência instigados e executados por forças paramilitares organizadas pela direita", "oposição de oligarcas golpistas", e, claro, "imperialismo dos Estado Unidos da América", para além de uma algarviada que me abstenho de seguir, à uma, por falta de espaço, às duas, por falta de tempo, e às três, porque não tem ponta por onde se lhe pegue e não vale a pena continuar a gastar tinta, mesmo virtual, com ela. Com o toque modernaço de designar a imprensa que não está alinhada com eles como mainstream, modernidade que partilham, aliás, com a alt-right. Uma boa redacção no esquerda.net que junte todos estes ingredientes e que apoie solidamente outra recente do imã garante um lugar na academia ao candidato.

Qual é o segredo da sobrevivência destas madrassas? A Constituição da República Portuguesa que, por um erro estúpido decorrente do medo em que se vivia na época em que foi redigida, proibiu no nº 4 do Artigo 46º, não as organizações que perfilhem a ideologia totalitária, mas apenas as organizações que perfilhem a ideologia fascista, abrindo as portas da permissividade a todos os fascismos que têm outras designações e que esta e outras madrassas como ela defendem, nomeadamente o socialismo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:34
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Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

El pajarito de Chávez

Seria um grande exagero dizer que Portugal não tem, nas Nações Unidas, muito maior importância que o Vanuatu, desde logo porque parece estatisticamente improvável que os menos de 300.000 habitantes daquelas ilhas produzissem um vulto como António Guterres. Esta personalidade, que reúne aqueles requisitos de vacuidade, habilidade oratória e ausência de princípios que são necessários para o desempenho das funções de Secretário-Geral, já se pronunciou sobre os sucessos venezuelanos, apelando previsivelmente ao diálogo.

 

E é com alguma desenvoltura que declaro que, na União Europeia, ocupamos um lugar de maior relevo que o da Eslovénia, desde logo porque somos cinco vezes mais numerosos, e cada um de nós deve mais 10.000 Euros do que cada um dos eslovenos.

 

Sucede que ninguém sabe o que pensa o Vanuatu ou a Eslovénia da crise na Venezuela. E seria talvez o caso de imaginarmos que o mundo não sabe o que pensam aqueles países mas sabe o que pensamos nós, não se desse a circunstância de sobre a posição, por exemplo, da Polónia, que tem o quádruplo da nossa população e mais do dobro do PIB para menos de metade da dívida em percentagem daquele, tudo se ignorar.

 

Quem tem uma posição conhecida é a União Europeia e os Estados Unidos. E nos dois casos de condenação do regime bolivariano e das suas mascaradas pseudodemocráticas.

 

Sucede que destas duas posições a primeira não nos convém e a segunda não se entende. Vejamos:

 

  1. Maduro não é essencialmente diferente de Chávez senão nas circunstâncias, e nestas avulta a queda do preço do petróleo.
  2. A legitimidade democrática do governo e do regime chavista foi comprada com a distribuição de benefícios aos mais pobres enquanto se lançavam as bases para uma economia dirigida, à boa maneira socialista, que produziu os mesmos resultados de destruição da capacidade de produzir riqueza que produz sempre.
  3. Não é diferente o processo venezuelano do brasileiro de Lula, senão no grau, nas instituições locais (que apesar da corrupção generalizada têm mais anticorpos contra o caudilhismo), na composição do eleitorado e no facto de a economia brasileira ser muito mais diversificada e resistente. Logo que os preços das matérias-primas caíram nos mercados de exportação a economia começou a dar sinais negativos e o regime entrou em convulsões.
  4. Quanto à nossa opinião pública, o PCP é o PCP, e não tem estados de alma: apoia sempre quem, caso a caso, lhe pareça estar mais perto de facilitar a construção da sociedade totalitária que defende. Se a sociedade em questão já existir, como na Coreia do Norte ou Cuba, nega-lhe os defeitos, que não vê, e exalta-lhe as virtudes, que imagina.
  5. A doutrina económica do PS actual é enquadrada pela União Europeia, as suas referências ideológicas são as da social-democracia, mesmo que a entenda mal, e não se imagina que aquele partido, apesar da aliança com comunistas, compactuasse com derivas descaradamente antidemocráticas. Os socialistas não venderam a alma ao diabo, apenas lhe deram uma quota minoritária para prejudicar o sócio maioritário e abocanhar as mordomias do conselho de administração.

Mas, caso singular: a prática de comprar votos com benesses, a ideia de que o Estado é o verdadeiro motor da economia, a demagogia ululante de Costa, a naturalidade com que mente, até mesmo a sua compleição, tudo compõe o quadro do que de mais parecido na Europa se pode encontrar com o regime venezuelano. Quem tiver dificuldade em aceitar o ponto não tem mais que imaginá-lo de bigode e fato de treino, a açular as massas de dependentes na defesa da Conxituição, e logo vê as semelhanças com o antigo motorista de autocarro.

O aumento de pensões e de salários da função pública, compensado com o crescimento dos impostos indirectos, que são menos visíveis; e o exemplo actual de actualização das pensões para dois milhões de reformados ao mesmo tempo que se cria um adicional ao IMI para 200 mil proprietários (o imposto Mortágua) são tudo manifestações do espírito chavista, cujo pajarito deve aparecer, em sonhos, ao nosso Ronaldo das Finanças.

   6. Não há diferenças significativas de filosofia entre o regime chavista, o de Lula e aquele a que teríamos direito sob a férula do nosso Bloco de Esquerda, que defende a mesma mistura de esbulho dos mais ricos com compra de votos através de benefícios concedidos aos mais pobres. O fosso histórico, geoestratégico, de literacia, de desenvolvimento económico, de tradições, hábitos e processos mentais, que separa estes três países, torna esta comparação esquemática. Nem por isso menos real, porém: não é um acaso a simpatia que o Bloco costumava ter tanto por Lula como por Chávez.

    7. Se isto é assim, surpreende agradavelmente o recente desligar do apoio a Maduro, com artigos veementes de Daniel Oliveira e de uma das gémeas Mortágua (este último não consegui encontrar). Claro está que o pretérito apoio a Chávez, que não faria coisas muito diferentes das que o seu sucessor anda a fazer, traduz a incapacidade de o BE perceber as consequências das políticas económicas que Chávez protagonizava, tal como não percebe as consequências das políticas que defende para Portugal. Mas o respeito pelos formalismos da democracia significa que a prazo o Bloco, ou parte dele, pode vir a fundir-se no PS: não faltam lá maluquinhos com a mesma agenda fracturante nem com delírios voluntaristas em matéria económica. E um só partido, o PCP, para federar todos os raivosos, e todos os radicais comunistas, é suficiente, e seria uma desejável clarificação.

 

Resta portanto que, não fosse o caso dos emigrantes portugueses que correm o risco de se transformarem em retornados em massa, e a situação importar-nos-ia tanto como a prisão de gays na Chechénia: é lá coisa deles, que se amanhem. Mas a União Europeia falou, como acima se disse, virtuosamente indignada, e sobre os nossos disse nada.

 

Em bom rigor, não tinha nada que falar: a que propósito é que a União Europeia tem que reconhecer ou deixar de reconhecer a legitimidade de um processo eleitoral noutro continente? Acaso tem a mesma assertividade quanto a eleições na China, em Angola, ou, já agora, em muitos dos países representados na ONU, cuja maioria não é democrática? Se Federica Mogherini, que finge ser ministra dos Negócios Estrangeiros da União, quer ser levada a sério, não faz ameaças que não pode cumprir; e, se as quiser fazer e houver acordo para sanções, alguma coisinha tinha que dizer sobre Portugal ou a Portugal. Por exemplo, que haveria apoio significativo para os nacionais regressados e seus descendentes, e que seriam bem-vindos porque por uma vez haveria um influxo de cristãos fáceis de integrar, e não de comunidades para viver em ghettos inassimiláveis.

 

No tempo da Guerra Fria os EUA não se podiam dar ao luxo de deixar de interferir na vida dos países sul-americanos. Cuba, que imprudentemente permitiram que se transformasse numa ditadura comunista, pôs o mundo à beira de uma guerra nuclear; e a multiplicação de Cubas no quintal das traseiras seria portanto um perigo mortal.

 

Mas a União Soviética já não existe; a superpotência que se segue é a China, e esta continua a parecer mais interessada em adquirir dimensão económica do que em sustentar regimes subsidiários para alimentar um conflito prematuro (para manter os EUA em cheque já tem várias cartas, das quais a mais óbvia é a Coreia do Norte). Sobra que a intervenção através de sanções económicas sofre de quatro defeitos: um é que penaliza a população, não os próceres do regime; outro é que serve para que Maduro jogue, como já está a fazer, as cartas da ameaça externa e do nacionalismo; o terceiro é que é ineficaz, e mesmo contraproducente, como Cuba demonstra; e o quarto é que o cidadão, americano e estrangeiro, a quem se atordoam os ouvidos com a defesa da democracia, haverá de coçar a cabeça e perguntar a si mesmo porque não a defendem na Arábia Saudita.

 

Talvez o filme em tempo real da miséria a que conduz o voluntarismo revolucionário, e a retórica e prática da esquerda anticapitalista, tenham um efeito de vacina na América do Sul e noutras paragens; ou talvez a pobre Venezuela consiga, com ou sem empurrão dos Estados Unidos, soltar-se do negro destino da sociedade comunista para a qual o regime caminha; e certamente não nos deve ser indiferente a sorte dos nossos que lá estão.

 

Não se nos peça porém que ponhamos likes nos textos em que, sem arrependimento, se verbera Maduro quando se enalteceu Hugo Chávez. Porque sem perceber que os dois são iguais, tal como eram no essencial iguais Lenine e Estaline, não se percebe nada.

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publicado por José Meireles Graça às 12:00
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Terça-feira, 1 de Agosto de 2017

Venezuela, meu amor

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Tantos portugueses assassinados depois de vidas inteiras de trabalho honesto e duro para tentarem, e nalguns casos conseguirem, construir na Venezuela a vida decente que não conseguiram construir cá, e tantos filhos da puta que mereciam ser abatidos em assaltos ou por snipers milicianos em vez deles nas ruas de Caracas acolitados em departamentos de ciências humanas de universidades europeias para, e sempre à custa de dinheiro dos contribuintes, inventarem folhas de cálculo com indicadores cientificamente calibrados para defender os assassinos.

Pronto, o desabafo já está cá fora, passemos à discussão.

A esquerda portuguesa, ou melhor, as esquerdas portuguesas, partilham entre si um grande amor à revolução socialista venezuelana e diferentes níveis de adaptação ao air du temps que lhe identifica uma ditadura indefensável.

Os socialistas sempre viram na Venezuela uma oportunidade de negócio na implementação das suas políticas e estratégias económicas. Fosse para impingir navios construídos em estaleiros assassinados economicamente por negociatas de compra, rescisão e aluguer a outros do, então, presidente do Governo Regional dos Açores, agora, presidente do partido, fosse para passar contratos de construção de habitação social de biliões ao, anteriormente, ministro socialista das obras públicas, então, presidente de uma das construtoras do regime socialista, e agora, o mais moderado anti-passista dos paineleiros costistas da Quadratura do Círculo, fosse até para impingir o computador Magalhães ao povo venezuelano. É verdade que nenhum destes negócios miraculosos montados pelos socialistas se concretizou, e o dinheiro da Venezuela nunca chegou, nem enriqueceu nenhum empresário, nem criou nem salvou nenhum emprego. Vicissitudes recorrentes e mesmo típicas das políticas e estratégias económicas socialistas. Isto enquanto havia o dinheiro do petróleo que, agora, não há dinheiro, não há palhaços. Os socialistas puseram-se ao fresco.

Os comunistas são o que são, andam cá para fazer a revolução socialista e não para serem engraçadinhos nem telegénicos. Mesmo quando se torna impossível disfarçar que o resultado mais notável do socialismo venezuelano foi ter transformado num inferno, em que não se conseguem comprar nas lojas os bens essenciais mais básicos, se mata por meia dúzia de carcaças, e já nem sequer há os medicamentos mais simples nos hospitais, a vida dos milhões de venezuelanos, no entanto os habitantes do país com as maiores reservas de petróleo do mundo, ou seja, o socialismo matou a economia venezuelana, os comunistas continuam a apoiar o regime venezuelano, quer directamente, quer através das suas organizações satélite, dizem uns, fantoches, dizem outros, saídas do jurássico da guerra fria, como o Conselho Português para a Paz e Cooperação que organiza matinés musicais de solidariedade com a revolução bolivariana abrilhantadas pela Banda do Exército. Apoiam o regime venezuelano aconteça o que acontecer, como apoiam o angolano ou o coreano, não para conquistar adeptos mas porque esse apoio faz parte do caminho para a revolução que um dia ambicionam vir a abençoar-nos as vidas.

Já os bloquistas, mais sensíveis às questões de telegenia, e desde sempre, não nos devemos esquecer que o primeiro combate político do BE quando chegou pela primeira vez ao parlamento em 1999 foi contra o PCP por um lugar na primeira fila do hemiciclo, e apesar do amor que sempre lhes despertou a revolução bolivariana e de ela implementar o grosso da sua visão e ideias para a sociedade e a economia, a bloconomics, esmoreceram as suas manifestações de afecto quando a brutalidade do regime se tornou tão gritante que qualquer apoio, mais do que incómodo, passou a constituir para os apoiantes o lastro do apoio a uma ditadura, fama de que o BE se tenta livrar como pode, apesar de não lhe faltar vontade de as apoiar a todas.

Como é que descolou mediaticamente do regime? Com a retórica habitual, o regime deixou-se corromper pelo dinheiro do petróleo, deixou-se vencer pela chantagem imperialista, deixou os reaccionários levantar a cabeça, deixou, em resumo, de ser socialista, e depois não teve como resistir à contra-revolução sem o habitual recurso à violência. Deixou de ser uma democracia, como dizem agora as figuras mais proeminentes do BE, como a mais discreta das manas Mortágua, que baptizou, sem desconfiar, este texto, ou a própria Catarina Martins. O BE podia ter descoberto há muitos anos que o regime populista venezuelano exibia todos os sinais de vir a fazer batota eleitoral e a usar a força bruta quando fosse necessário por a propaganda se tornar insuficiente para se manter no poder, mas mais vale tarde que nunca e descobriu-o agora, quando já há mortos demais a comprová-lo. O que os bloquistas ainda não perceberam é que a miséria em que o regime bolivariano mergulhou o país não resultou de nenhum desvio ao socialismo, nem de boicotes do imperialismo ianque, nem sequer da queda dos preços do petróleo, resultou integralmente das receitas socialistas usadas para controlar a economia do país, da bloconomics, como resultou sempre em todas as experiências socialistas que foram realizadas, e resultará sempre em todas as que se vierem a realizar, para além de períodos limitados em que a economia é inundada de dinheiro em abundância, e até ele ser gasto. Como dizia uma saudosa governante britânica, "The problem with socialism is that you eventually run out of other people's money". Na Venezuela, acabou.

De qualquer modo, não é o encorajamento fraternal dos comunistas nem a descolagem dos bloquistas que fazem do regime bolivariano o que ele é, não é por causa das manifestações do CPPC nem dos textos críticos no esquerda.net que o regime armou dezenas de milhares de milicianos, incluindo snipers, para reprimir as manifestações da oposição, nem que decide se mantém os opositores em prisão domiciliária, ou na prisão, ou mesmo numa vala comum se chegar a sentir vantagem nesta solução, nem que recorre à mais reles batota jurídica e constitucional para contornar a pesadíssima derrota que teve nas eleições que, por distracção, organizou em 2015. Eles não contam para nada na Venezuela.

Mas há quem conte.

Muito do modelo social e económico bolivariano que resultou na desgraça que resultou brotou, não apenas daquelas cabecinhas ocas bolivarianas de onde só podia sair desgraça, mas de crânios lúcidos e informados de académicos europeus. O Centro de Estudios Políticos y Sociales (CEPS), embrião de onde sairam quase todos os dirigentes do Podemos, tem um longo histórico de assessorias ao regime bolivariano nos domínios de "promover los conceptos de emancipación popular, conciencia anticapitalista y controlaría social", ou seja, organização e propaganda, desde 2003, ao longo do qual acumulou proveitos de mais de 7 milhões de euros, parece que nem todos declarados ao fisco espanhol, com o propósito, não apenas de assessorar a revolução, mas também de financiar a criação do partido. Como veio a acontecer. E um dos assessores económicos mais influentes, e também mais radicais, do presidente Nicolás Maduro é outro académico espanhol, também oriundo do CEPS onde foi coordenador, o economista Alfredo Serrano. O regime bolivariano não é apenas uma experiência socialista que apela e interessa a académicos de esquerda radical, agora está na moda designarem-se a si próprios como social-democratas, da área das ciências sociais de universidades europeias, é também a obra deles, das suas ideologias, o laboratório onde conduzem as suas experiências científicas com soluções socialistas. Sem nunca tirarem conclusões da experiência, sem nunca eliminarem as hipóteses que as experiências vão todas demonstrando que conduzem à desgraça, diga-se de passagem. Estes contam para a Venezuela.

Por tudo isto, é retemperador o apoio público que o nosso incontornável Boaventura Sousa Santos, o criador de outro centro de estudos políticos e sociais, o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, aliás um dos mais bem dotados antros de bloconomicists de Portugal, acabou de dar ao regime bolivariano nestes tempos de miséria, batota política e banho de sangue. Significa que não há fronteiras geográficas nem linguísticas que separem esta corja de académicos sem vergonha que promovem, apoiam e defendem ditaduras socialistas. Mereciam ser premiados com viagens só de ida para fazerem a revolução socialista nas ruas de Caracas e, se levassem um balázio de um assaltante ou de um sniper, poder-se-ia escrever nas suas lápides que morreram em nome dos ideais de sociedade pelos quais lutaram. Assim, apenas se pode dizer que contribuem para a desgraça de outros mas vivem agarrados à mama gorda do capitalismo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:37
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2016

Memórias de um burro

2017-06-28 Stiglitz.jpg

Qual das seguintes profecias é da autoria do Nobel da Economia Joseph Stiglitz?

As duas.

Se quiserem saber a opinião real de um Nobel da Economia sobre economia, não lha perguntem, vejam onde é que ele guarda o seu dinheiro. Se ele transferir os seus investimentos pessoais para Portugal e sugerir a saída de Portugal do euro, é porque acredita mesmo naquilo que diz. Se sugerir a saída de Portugal do euro mas mantiver os seus investimentos em praças financeiras sólidas e em moeda forte, é apenas mais um aldrabão a sugerir a cobaias palermas, e se em Portugal não há falta delas? o mergulho no abismo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:50
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2016

O trabalho liberta

Nas democracias burguesas neoliberais, os bloquistas organizam acampamentos "Liberdade" onde, para desafiar os papéis do género, as casas de banho binárias são substituídas por balneários LGBTQIA+ onde as meninas ficam admiradas por ver meninos a olhar para elas, certamente por não lhes terem ensinado nas aulas de educação sexual, que é onde essas coisas agora são ensinadas, que os rapazes gostam de ver mulheres nuas, e onde se podem desconstruir algumas ideias tocando em pessoas do mesmo género.

Nos regimes socialistas, organizam acampamentos "Trabalho Forçado".

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:58
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2016

Conversas no Minipreço

Já vos disse que a água de Penacova é a melhor e, vendida com marca branca Dia (mas com a origem identificada) nos supermercados Minipreço, mais barata (a 42¢ o garrafão de 5 litros) água de mesa à venda em Portugal?

Na sexta-feira fui comprar água de Penacova ao Minipreço.

Chegado à caixa, a menina da caixa com sotaque espanhol, vai daí...

- A senhora (a menina da caixa devia andar pelos 20 anos, mas é assim que eu me dirijo às pessoas) é espanhola?

- No, sô dê Benezuelá.

- Vem de longe! Antigamente iam muitos portugueses para a Venezuela.

- Más agora nô, que aquilo está muito mal. Nem se consegue comprar comida.

- Eu sei, eu sei... E como é que veio aqui parar, tão longe?

- Porque os meus pais são portugueses, e o meu pai foi assassinado.

- ... (foda-se) ...

Eu pensei isto, mas não disse. Alias, não disse nada, fiquei uns segundos que me pareceram minutos, com ar provavelmente aparvalhado, ao fim dos quais me saiu um inútil "lamento muito".

E pensei palavras ainda mais feias, e eu passei todas as férias grandes da infância e da adolescência em Melgaço e lá aprendem-se algumas, dos anormais que, em Portugal e por esse mundo fora, admiram o regime venezuelano, louvam o regime venezuelano, sonham um dia implantar cá um regime como o venezuelano, participaram também, a troco de honorários milionários pagos com dinheiro que agora o regime não tem para comprar papel higiénico nem remédios, na construção da vertente de organização e propaganda daquela catástrofe humanitária, e mereciam ser largados nas ruas da Venezuela para serem assassinados no lugar de cidadãos pacatos e trabalhadores como o pai daquela menina que, com uns 20 anos, tem mais vida vivida do que eles todos somados. A puta que os pariu!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:30
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2016

Livres das grilhetas do euro, poderemos ser felizes e socialistas

Ao contrário de Portugal, cujo governo persiste em ignorar teimosamente as sugestões construtivas do Bloco de Esquerda e aumentou o salário mínimo em apenas 5%, deixando inquietas as pessoas que "sentem que a sua experiência, a sua competência, a sua responsabilidade é completamente desconsiderada", o governo da Venezuela acabou de aumentar o salário mínimo em 30%.

Não é só por má vontade. É também porque o governo português, apesar de socialista, está agarradinho pelas grilhetas do euro. Ao contrário, o governo socialista venezuelano pode imprimir, enquanto tiver dinheiro para papel e tinta, notas de bolívar.

Também é verdade que a inflação na Venezuela anda pelos 700%. O que significa que, para comprar o que um bolívar conseguia comprar há um ano, agora são necesssários oito. Como os venezuelanos foram aumentados 30%, agora ganham 1,30 bolívares por cada bolívar que ganhavam há um ano. Recebem mais, a vantagem de serem aumentados por um governo socialista bolivariano. Mas o que recebem vale seis vezes menos do que valia o que recebiam há um ano, ou seja, quem tinha dinheiro para comprar um quilo de carne há um ano, agora tem dinheiro para comprar um quilo de arroz. O que não chega sequer a ser um problema, porque já não há carne nem arroz nas lojas. Enfim, tudo junto resulta naquilo que os assessores do Podemos ensinaram, a troco de modestíssimos honorários, o governo venezuelano a designar pela "Suprema Felicidad Socialista".

Como chegar então ao ambicionado patamar da suprema felicidade socialista em Portugal? Uma solução prometedora seria marimbarmo-nos para o pagamento da dívida, lançar a bomba atómica e deixar o banqueiro alemão com as pernas a tremer. Mas as palavras terão sido fortes, com uma imagética excessiva, e o próprio proponente hoje em dia esmoreceu o ímpeto reformista da cruzada. A melhor alternativa parece ser sairmos do euro e retomarmos a impressão de escudos, com que podemos pagar salários cada vez mais elevados, até deixarmos de ter dinheiro para imprimir mais dinheiro.

É verdade que, sem o euro e a senhora Merkel (a senhora Merkel é doutorada em Química quântica, mas nem por isso deixa de ser senhora) e o senhor Schäuble a tomarem conta dele, governos de demagogos irresponsáveis poderão devolver livremente os rendimentos aos portugueses aumentando os salários para cima de uns trinta por cento à custa de desvalorizar a moeda para um oitavo do valor que tinha. Mas o que é isso comparado com a suprema felicidade socialista de voltar a ter aumentos, contratos colectivos de trabalho, e lojas vazias, mas com a felicidade de poder atribuir a responsabilidade de estarem vazias aos especuladores e inimigos da revolução?

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:48
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Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Os preços máximos e o salário mínimo

O Governo da Venezuela resolveu promover a indústria de louças sanitárias, em particular o bidé, aproximar os cidadãos da natureza e da higiene, recomendando o consumo de água e sabão, e preservar as florestas, poupando no papel.

 

É este o significado da escassez de papel higiénico naquele país, que a bloga nacional tem verberado com piadas de gosto duvidoso, que além do mais deixam no ar suspeitas sobre a brancura de alguma roupa interior de muito blogger prestigiado.

 

Mas não apenas entre nós: o Guardian declara solenemente que "First milk, butter, coffee and cornmeal ran short. Now Venezuela is running out of the most basic of necessities – toilet paper".

 

A mais básica das necessidades?! Só se for para vós, ó filhos da Ilha! Que um verdadeiro cavalheiro ou uma verdadeira senhora não acham o rolo de papel absolutamente indispensável nem dele fazem grande uso, excepto se tiverem o azar de aterrarem em instalações mal equipadas, caso em que o risco é grande de se entupirem os esgotos.

 

Contudo, não é destes assuntos escatológicos que me quero ocupar, mas do salário mínimo: este senhor acha que a falta de papel deriva do controle de preços, e que, tal como o preço máximo ignorando o mercado provoca escassez, o salário mínimo provoca desemprego.

 

A mim convenceu-me, embora converter convertidos não requeira grandes esforços de argumentação.

publicado por José Meireles Graça às 16:19
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