Terça-feira, 15 de Novembro de 2016

Temos que ver, temos que falar!

Dirigi uma empresa, durante mais de duas décadas, na qual periodicamente inquiria os numerosos proprietários sobre as escolhas estratégicas que era necessário fazer. Os ditos cujos ficavam em geral pasmados, aguardando com respeito a opinião daquele de entre eles que detinha uma magistratura de influência. Este, invariavelmente, falava muito, mas infelizmente quase nunca foi capaz de formular uma proposta de decisão, porque para tanto carecia sempre de alguma informação que não estava disponível, alguma opinião terceira que era preciso ouvir, alguma variável que merecia adequada consideração, algum risco que uma escolha implicava, algum outro em alternativa, uma sensibilidade que a decisão num sentido iria ofender, e outra se o sentido fosse outro, concluindo gravemente: Temos que ver, temos que falar! — posição que recolhia geral assentimento, até porque a esse passo já eram normalmente horas de jantar. Esta simpática não-decisão constituía-me na obrigação e no embaraço de escolher por todos, mas o sócio em questão veio a redimir-se propondo a certa altura, para um problema grave em concreto, escolhas que, por serem diametralmente opostas às minhas, e para que a empresa pudesse dar um passo em frente, implicavam a minha saída, que de imediato teve lugar. E deu, de facto, em direcção ao abismo, vindo a falir cinco anos mais tarde.

 

Lembrei-me deste passado distante e desta figura egrégia a propósito de Jorge Sampaio, que estampou no Público um texto palavroso e repleto de banalidades, que nem por isso deixou de beneficiar de um agradecimento amanteigado do director do jornal. Nele, "debruça-se" sobre a "questão europeia" para "tentar desbravar um caminho de interrogações e perplexidades".

 

Sampaio tem uma história de interrogações e perplexidades: num tempo em que o problema de Portugal era a probabilidade de à ditadura salazarista suceder uma ditadura comunista, pertenceu a um movimento (o MES) de idiotas úteis ao PCP, que abandonou em 1978 para ir adornar a ala esquerda do PS. Veio a ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa, de 1989 a 1995, onde se distinguiu por a deixar exactamente como a encontrou, e chegou a presidente da República, em 1996, funções que exerceu até fins de 2005. Como presidente da República, proferiu inúmeros discursos, cujos volumes não se sabe se já engordam os tombos invendáveis dos alfarrabistas; e é sobretudo lembrado por ter dito, quando o país estava de tanga, que havia "mais vida para além do défice", e por ter nomeado de má-fé como primeiro-ministro um político ao qual tirou o tapete logo que, quatro meses mais tarde, outro da sua preferência ficou disponível. Antes e depois de ser presidente falou, falou muito, inclusive no desempenho de funções na Comissão Europeia e na ONU, e chegou a fundar um think-tank internacional em Arraiolos, que todavia não se ocupava da confecção de tapetes.

 

Pois este homem, que se confessa "militante europeu", está aflito, por causa do Brexit, que "constituiu um ponto de não retorno no projecto europeu", e porque "a eleição de Donald Trump para Presidente dos EUA traz consigo um lote acrescido de imprevisibilidade e de incertezas". Porque a evolução da CEE para a UE foi um passo precipitado, feito à revelia dos povos, do senso e dos prognósticos razoáveis que estadistas razoáveis devem fazer? Porque a criação do Euro, sem orçamento europeu comum, que não era possível na altura, e ainda é menos possível agora, foi um passo precipitado? Porque a manutenção da NATO terá talvez de custar mais aos orçamentos europeus, para custar menos ao americano, e portanto isso trará dificuldades acrescidas ao celebrado estado social, que Sampaio tem, juntamente com outros santinhos, no altar da sua casa?

 

Nada disso. É verdade que "a confiança hoje está abalada de forma sistémica e sistemática - e, no fundo, a questão que se coloca é se esta desconfiança está já demasiado cimentada para ser reversível e evitar o alastramento dos populismos de toda a sorte". E é inegável, continua Sampaio com argúcia, que "é impossível não olhar já para as eleições de 2017 em França e na Alemanha como próximas etapas prováveis desta corrida para o abismo". Mas, apesar destas evidências, o articulista o que quer não é exactamente assustar-nos. Não, isso nunca, pelo contrário: "Não quero com isto vaticinar um destino trágico para a União Europeia — o que é dizer para todos nós —, mas sim, ao invés, lançar um apelo veemente para que se faça algo para inverter esta corrida para o abismo em que parecemos lançados".

 

O homem apela a "que Portugal inicie um processo de reflexão interno — dentro das mais variadas sedes e foros, designadamente no plano das instituições de segurança e defesa — sobre como assegurar uma participação de qualidade na União Europeia. Temos de ser contribuintes líquidos para o debate europeu." 

 

Ui que susto, contribuintes líquidos. Mas calma, contribuintes líquidos mas de paleio, matéria-prima da qual entre nós há uma muito maior abundância do que o volfrâmio com que se fizeram fortunas na II Guerra Mundial. E após doses abundantes de seminários, encontros, workshops, conferências e debates, a cujos encerramentos Sampaio presidirá com distinção e discurso, qual deverá ser a conclusão? Que "dever-se-ia começar por solidificar a União entre os 19 da zona euro por forma a relançar a construção europeia pela base — ou seja, através de um compromisso claramente político no sentido de reforçar os mecanismos económicos e financeiros da zona euro".

 

Ah bom, os alemães pagam — não está mal lembrado, não senhor, mesmo que não seja exactamente uma novidade, assim como não será uma novidade que os boches não estarão pelos ajustes.

 

E, afora estas piedades, Sampaio tem alguma outra proposta? Tem: "Em suma, atravessamos um momento especialmente crítico para o nosso futuro colectivo — no plano nacional, mas também europeu e até mundial. Mas, qualquer que seja o sentido futuro da integração europeia — e sabemos que há vários cenários —, o que me parece importante sublinhar aqui é a necessidade de se aprofundar a discussão sobre que Europa queremos, que modelo para a reformatação da zona euro e que actualizações pretendemos fazer dos nossos compromissos europeus".

 

É como aquele antigo sócio: Temos que ver, temos que falar! 

publicado por José Meireles Graça às 13:07
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2 comentários:
De Anónimo a 15 de Novembro de 2016 às 14:05
Não se preocupe, é só mais um texto do Presidente Sampaio laboriosamente composto com o precioso adminículo do Grande Dicionário da Asneira, da Banalidade e do Lugar-Comum, ninguém leva muito a sério.
De ccz1 a 18 de Novembro de 2016 às 06:41
" agradecimento amanteigado"

muito bom

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