Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

Tetra-buraco

O caso é pior, Subir: nem novas nem velhas iniciativas. O que vias, e deixaste de ver, foram cortes - reformas que se vissem, nem agora nem antes.

Culpa dos teus colegas que, aquando da negociação do Manifesto, deviam ter tido o cuidado de, antes de falar com o ministro Teixeira e o ex-ministro Catroga, terem vindo ter comigo. Ter-lhes-ia dito: ora bem, seja lá qual for o acordo a que cheguemos, não vai ser cumprido; a intransigência da troica resulta do choque da realidade do calote e da crise, da maioria que circunstancialmente está no Poder nos países do Norte, das ilusões do BCE, que se imagina independente, e da novidade de tudo isto. Mas tudo isso pode mudar e mudará, antes, muito antes, de acabar o Programa. E acrescentaria:

Portugal é socialista, da variedade em que a maior parte do eleitorado depende, directa ou indirectamente, do Orçamento de Estado, e em que parte gorda da classe dirigente ou está nele empregada ou só nominalmente é privada, em ambos os casos tendo como certo que não há forças criativas no País para nenhuma espécie de verdadeiro progresso. E portanto basta que no horizonte apareça algum módico de alívio nas contas de cá, e algum baixar de guarda nas exigências de lá, para as coisas regressarem ao status quo ante, que é o de, com dirigismos sortidos, se preparar uma nova falência.

Portanto, man, se queres fazer obra de mérito, não te limites a traçar objectivos: tens que dizer como lá chegar, e em pouco tempo. Porque a dependência da opinião pública que os políticos têm que ter levará a que tentem agradar, ao mesmo tempo que pisam os calos a toda a gente; e que, com eleições à vista, alarguem o cinto, pelo que a reforma ou se faz já ou não se fará nunca. Se queres que se reforme o Estado, vai pelas Páginas Amarelas e, em topando com algum serviço público ou organismo de capitais total ou parcialmente públicos (Agência, Autoridade, Câmara, Direcção, Fundação, Instituto, Observatório, etc. etc.) obriga os responsáveis a responder a meia dúzia de perguntas: i) Precisamos mesmo disto?; ii) Não há outro serviço que faça a mesma coisa?; iii) Que acontece se extinguirmos? iv) Não pode ser feito por privados, desde que em concorrência?; v) Se não pode desaparecer, nem ser privatizado, como pode viver com menos? E vi) No caso de o estaminé fechar, quanto seria preciso para o pessoal ser indemnizado de modo a que não se criasse um exército de revoltados?

Isto não foi feito, e pelo contrário aumentaram os tropeços à vida das empresas; cresceu a punção fiscal; e o Governo, que começou por fazer uma diminuição ao número de pastas, com valor simbólico - mas os símbolos importam - ostenta hoje com orgulho um Ministério do Ambiente, uma entidade daninha que já começou a fazer estragos e a lançar as bases para mais um nó górdio de burocracias metediças, serviços pletóricos e palavreado demagógico e pedante, mesmo quando os responsáveis acreditam no que dizem.

Não se fez, ponto. E aqueles que, como eu, veem o copo meio vazio (há a parte meio cheia, mas essa guardo-a para mais perto das eleições, que corremos o risco de escolher, em vez do medíocre que temos, o péssimo que poderemos ter) assistem com desgosto ao levantar da cabeça da retórica nebulosa, ou das formulações de intelectual profundo da esquerda afrancesada ("A partir daqui podemos partir para coisas mais importantes: a economia pública, a igualdade, mas já com rituais de conflito e assertividade, de que a esquerda precisa como de pão para a boca"), ambas tendo como consequência o escaqueirar da nova cornucópia de fundos da UE que começarão a chegar.

Mais valera que eles, os fundos, abatessem à dívida pública. Sempre os socialistas, se ganharem, teriam menos tempo para dar com os burros na água - pela quarta vez.

publicado por José Meireles Graça às 23:17
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