Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

The world's funniest joke

2017-02-07 Centeno limpeza banca.jpg

O ministro das finanças acabou de anunciar que está na iminência de resolver o problema da limpeza do balanço dos bancos sem custos para os contribuintes.

É uma boa notícia, e à primeira vista até parece simples e credível. Afinal, a limpeza da banca é uma mera operação contabilística em que créditos incobráveis que estavam contabilizados no balanço pelo seu valor nominal, ou por um valor inferior ao nominal se já tivessem sido parcialmente provisionados para uma eventual dificuldade de cobrança, passam a estar contabilizados pelo valor de zero, aquilo que se espera que se venha a arrecadar deles, sendo a redução do valor de cada crédito lançada nos resultados como um prejuízo. No ano em que é feita a limpeza o banco apresenta o prejuízo correspondente a esta redução, mas não fica mais rico nem mais pobre, com mais nem menos dinheiro nos cofres. É uma operação no papel.

Infelizmente, não é disto que se fala quando se fala da limpeza do balanço dos bancos. O que se designa por limpeza do balanço é compensar os bancos pelos créditos incobráveis que, por azar, falta de prudência ou mera trafulhice, concederam no passado, como se tivessem concedido créditos isentos de risco e de reembolso garantido em vez de créditos de risco que muitas vezes recompensaram a peso de ouro os banqueiros que os concederam. Anular o valor no balanço dos créditos incobráveis, mas compensá-los com entradas em dinheiro ou outros activos com o valor por que eles estavam contabilizados, sem valerem. É uma operação que envolve a entrada de dinheiro, verde ou de outras cores e feitios.

E de onde é que vem esse dinheiro? Por mais historietas que se inventem a sugerir que ele aparece vindo de algures no sistema, ou que cai do céu, não aparece nem cai, resulta mesmo de dinheiro ou outros activos que são transferidos de alguém que existe neste mundo real para os bancos beneficiários.

E quem? Os contribuintes dos países-formiguinha do centro e norte da Europa estão fartos de dar para os países-cigarra do sul, e os populistas estão atentos a qualquer deslize que irrite os eleitores, de modo que os governos, por mais boa vontade e espírito de solidariedade europeia de que estejam imbuídos, têm as mãos atadas e não vão pagar. Não se pode ir buscar à banca, porque é preciso ir buscar para a banca. Os ricos que estão sempre disponíveis para pagar mais impostos nas fantasias da esquerda folclórica, se o têm por taxar, já o têm a salvo. Restam os contribuintes portugueses. Mesmo que se criem redes impenetráveis de circulação do dinheiro, on- e off-shore, é a eles que, finalmente, acabará por ser apresentada a factura.

Esta revelação do ministro das finanças é, pois, uma excelente anedota.

Tão boa, tão boa, que nos pode matar de riso.

Ao contrário de outras anedotas mortais celebrizadas pela história, esta não matou o seu autor, talvez por ser tão ingénuo que não tenha conseguido atingir a sua própria piada? Felizmente, o Jornal de Negócios reservou a anedota completa para assinantes, negando, e deste modo salvando a vida, a sua leitura integral aos leitores ocasionais.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:20
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