Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Três macacos sábios

O governo tenciona injectar, se Bruxelas lhe permitir, quatro mil milhões de euros dos contribuintes na Caixa Geral dos Depósitos para tapar a cratera aberta por sucessivos governos que, sempre que quiseram brincar aos capitalistas, o fizeram com o dinheiro da CGD. Coisa insignificante, cerca de 400 euros por português, 1.200 por cada agregado familiar de 3 pessoas, como o meu.

Sem pretender ser exaustivo, vêm-me à memória algumas dessas brincadeiras com expressão sonante:

  • O take-over hostil do BCP pelo Partido Socialista através de um sindicato de voto informal, de modo a contornar as limitações de voto dos estatutos do banco, formado por testas de ferro financiados a fundo perdido pela CGD para comprar lotes de acções, oferecendo como garantia apenas as acções compradas com o financiamento, e era só o que faltava que os testas de ferro tivessem que dar garantias pessoais para participar num plano montado pelo mandante, sob a batuta do primeiro-ministro José Sócrates e do governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio, que resultou na conquista da presidência e da vice-presidência do conselho de administração do BCP pelo presidente e pelo vice-presidente da CGD, Santos Ferreira e Armando Vara. Como as centenas de milhões de acções foram compradas a cerca de 4 euros cada e ontem valiam 4 escudos, toda a operação resultou em buraco que pode ter perto de mil milhões de euros de extensão.
  • A nacionalização do BPN, deliberada pelo governo do José Sócrates, e a cobertura do respectivo buraco, com uma dimensão da ordem dos 5 mil milhões de euros, com o dinheiro da CGD, para variar.
  • A recusa do governo actual em vender em leilão, tapando uma parte, ainda que pequena em termos relativos, do buraco do BPN aberto na CGD, parte do património adquirido pela administração do BPN, que o ajudou a abrir, nomeadamente a colecção de Mirós que esteve para ser alienada por um valor próximo dos 100 milhões de euros mas cuja alienação foi protelada por providências cautelares de, entre outros, deputadas do grupo parlamentar do PS, até ser definitivamente anulada pelo novo governo que os ofereceu ao Pacheco Pereira para mostrar ao povo.

O que têm em comum todos estes buracos tapados pela CGD à custa de uma cratera na própria CGD? Foram todos deliberados pela tutela, sendo a tutela governos do PS. Terá havido certamente mais buracos, e provavelmente da responsabilidade de outros governos, e de governos de outros partidos, mas os que me vêm à memória a partir da informação pública são estes. A quem conhecer outros exemplo, agradeço a enumeração.

A esquerda parlamentar tem, no que já é quase uma tradição, montado comissões de inquérito parlamentares para tudo e mais alguma coisa relacionado com problemas de gestão de bancos privados, que funcionam como autênticos circos mediáticos onde as estrelas, frágeis jovens domadoras bloquistas, comunistas e socialistas, enfrentam as feras, banqueiros que antes eram os donos disto tudo mas agora são submetidos ao respeitoso "senhora deputada para aqui, senhor deputado para ali", e nem podem responder com um "cresce e aparece".

Tinha agora uma oportunidade ímpar de montar uma comissão de inquérito à CGD para, juntando todos os buracos privados, discutir a cratera pública que resultou deles. Mas não lhe está a apetecer. O macaco Tiago não quer ouvir, o macaco Galamba não quer falar e a macaca Mortágua não quer ver. A CGD não lhes interessa.

Já se lhes levantam acusações de incoerência, admitindo que eles gostam de ir até ao fundo na denúncia de casos de má gestão privada de bancos, mas não se entusiasmam por aí além por expôr e aprofundar casos de má gestão pública de bancos, pelo que não querem investigar os problemas da CGD.

Mas não, não se trata de incoerência. Trata-se simplesmente de um gesto de cumplicidade com a quadrilha que abriu a cratera na CGD para esconder o roubo que esteve por trás do rombo. Não são macacos sábios, são apenas macacos aldrabões a proteger o macaco ladrão e permitir-lhe a continuação da actividade criminosa.

Que, aliás, reconhecendo que a mama da CGD secou de tanto espremida, já tratou de diversificar, e se prepara para fazer o próximo grande rombo nos fundos da Segurança Social para financiar operações de especulação imobiliária reabilitação urbana. É preciso pôr o dinheiro dos reformados a circular, e nada melhor do que entregá-lo aos amigos da construção civil para o reciclar. Se o dinheiro se perder, algum governo neoliberal tratará de fazer as reformas no sistema de pensões para ele não colapsar. Os neoliberais são suficientemente cruéis para isso.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:13
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1 comentário:
De cristof a 8 de Junho de 2016 às 05:06
eu gosto do post; tirava o macaco que desvaloriza o que foi bem dito.

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