Domingo, 1 de Maio de 2016

Um conto de 1º de Maio neo-realista, ou, a contribuição dos vínculos laborais precários para a gestão eficiente dos recursos humanos

"Era nos Paços de Santa Ireneia, por uma noite de inverno, na sala alta da Alcáçova...".

Qual Gonçalo Mendes Ramires sentado na minha torre à espera do lampejo de inspiração que me permitirá passar da primeira linha d"o" primeiro poste memorável, vou entretendo o tempo com uma história que publiquei, aqui recuado, no Facebook...

 

O António nasceu dois anos antes da implantação da República, filho bastardo de um baronete beirão e da sua governanta. Sempre foi bem tratado naquela casa mas, aos 16 anos, decidiu que aquilo não era vida para ele e decidiu partir à aventura para Moçambique.

Chegou a Moçambique um jovem em busca de aventura mas, durante os anos que passou entre Moçambique e a África do Sul, as injustiças e indignidades a que assistiu fizeram dele um comunista.
Regressado a Portugal, levou uma vida de militância comunista, entre a prisão e a clandestinidade. Já andava pelos 50 anos quando conheceu a Emília, criada de servir na pensão onde vivia na altura, que tinha crescido num orfanato, e nunca tinha conhecido outra vida que não fosse servir. Casaram-se, a Emília ficou em casa, e o António iniciou uma vida menos aventureira, só esteve preso mais uma vez, e acabou por arranjar um emprego estável como tipógrafo no Diário de Lisboa, onde ficou até se reformar. Com a reforma própria de quem, entre a prisão e a clandestinidade, teve uma carreira contributiva modestíssima.
Quando o António morreu por volta de 1980, a Emília, com cinquenta e poucos anos, viu-se forçada a voltar a trabalhar para sobreviver. O tio Baião, vizinho, camarada e amigo de décadas do António, foi-lhe dizer que o partido ia abrir uma livraria na Amadora e precisava de uma empregada de limpeza. A Emília relatava com lágrimas a solidariedade do partido, que lhe dava a mão naquela altura de necessidade. E foi fazer limpezas na livraria da Editorial Caminho que estava em obras para abrir na Amadora.
Fazer limpezas de uma loja em obras era trabalho duro mas que a Emília fazia com gosto, reconhecida ao partido por lhe ter dado a mão e contando que, quando acabassem as obras, o trabalho de limpezas da livraria seria bem mais leve e permitir-lhe-ia levar uma vida modesta, mas sem grandes receios do amanhã. E contava os dias até à abertura da livraria.
No dia em que a livraria abriu, a Emília foi dispensada.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:43
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