Quarta-feira, 20 de Julho de 2016

Uma mulher às direitas

Sempre fui, e sigo sendo, leitor de numerosos blogues de esquerda: há gente manifestamente inteligente que me fascina por, em economia, acreditar em disparates como supor que a existência de ricos é a razão por que existem pobres (e que, portanto, acabando com os primeiros se acaba com os segundos) ou que o capitalismo pode ser depurado dos seus defeitos sem que se lhe eliminem as vantagens; em política, que o Bloco seria capaz de gerir o país sem completamente o venezuelizar, ou que o PCP não faria o que os partidos comunistas, nos lugares em que conquistaram o Poder, fizeram - empobrecer todos, aprisionar uma parte dos cidadãos, expulsar outra, e todo um cortejo de horrores associados; e, em questões sociais, aderir a quanta moda fracturante ande no ar desde que o que quer que tenha o selo da tradição se extinga, as minorias vejam os seus valores não apenas reconhecidos como impostos às maiorias, e se afirme sempre o direito dos pobres contra os ricos, dos empregados contra os patrões, dos animais contra os caçadores, dos puros contra os poluidores, dos negros, ciganos ou asiáticos contra os brancos, dos comedores de tofu contra os comedores de bifes - em suma, desde que se realize a sociedade igualitária em que toda a gente tem direito à opinião, desde que dentro do leque autorizado, ao emprego desde que de funcionário público, à saúde desde que o tratamento seja tão mau como o do vizinho, à educação desde que não sirva para fomentar a competição, à cultura desde que subsidiada, e à justiça desde que o não seja.

 

Na época em que tinha tempo para ser comentador residente (fascista residente me chamaram algumas vezes, com exagero não isento de alguma propriedade) encontrei gente, pouca, com quem fiz genuína amizade internética; e tenho saudades de uma tal Morgada de V. que escrevia muitíssimo bem num blogue de comunas assanhados mas que - diabos a carreguem - nunca cheguei a saber quem era.

 

Agora não comento mas leio, quase sempre na diagonal. E não dou por desperdiçado o meu tempo porque encontro às vezes, no meio da virtuosa indignação e do palavreado típico de várias seitas de esquerda, informação útil: aqui, por exemplo, escaqueira-se a nova primeira-ministra do Reino Unido, e remete-se para as notícias que a vão tornar objecto de ódio do bem-pensismo de todos os quadrantes.

 

Transcrevo alguns parágrafos, deliciosos:

 

"The ECHR can bind the hands of parliament, adds nothing to our prosperity, makes us less secure by preventing the deportation of dangerous foreign nationals – and does nothing to change the attitudes of governments like Russia’s when it comes to human rights."

 

“When I first came to this job one of my two questions was: 'Is climate change real?' and the other was 'Is hydraulic fracturing safe?' And on both of those questions I am now completely persuaded.”

 

“I would absolutely commit to holding a vote to repeal the hunting ban. It has not proven to be in the interests of animal welfare whatsoever".

 

"However, The Independent can reveal the Government is considering allowing coal-fired power stations to continue to operate if they can reduce their emissions by a certain amount using fledgling carbon capture and storage (CCS) technology. This would not necessarily be 100 per cent of the plant's emissions".

 

E sobre a bomba atómica Theresa May, em vez de dizer que - credo! - nunca, jamais, em tempo algum, a utilizaria, disse o óbvio: "O objetivo de meios de intimidação como esse é deixar claro aos inimigos que o país está preparado para os usar".

 

Como?! É eurocéptica, não é devota da religião do aquecimento global, não se deixa governar pelos lobbies das energias renováveis, não acha bem que o sistema de justiça europeu se sobreponha ao caseiro (uma medida que eu não aprovaria para nós mas aceitaria se fosse inglês), acha a caça um direito dos caçadores, ignora a sensibilidade citadina de gente que, de animais, aprecia sobretudo gatos fofinhos e cãezinhos giros, e não é pacifista militante nem tola contumaz?

 

Theresa, Ma'am, I wish you well.

publicado por José Meireles Graça às 16:13
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