Domingo, 11 de Outubro de 2015

União da Esquerda Sem Memória e Cicatrizes.

A convergência à esquerda estava a ser preparada já há algum tempo. Não se sabe exactamente há quanto nas mentes de alguns socialistas, mas já havia sinais públicos em Julho de 2015.

Este artigo no JN "Vamos acabar com o PREC" de Tiago Barbosa Ribeiro lista justificações e aponta a estratégia. Extractos:

"A esquerda portuguesa vive um bloqueio histórico: sendo maioritária no país, não consegue encontrar as pontes necessárias para uma acção comum.

(...)

"Existem várias razões para que assim seja. Entre as mais evidentes estão uma maior ideologização dos partidos de esquerda, a notória dispersão eleitoral à esquerda (logo, mais factores concorrenciais que promovem o fechamento), a preservação de nichos, o entrincheiramento em famílias políticas com ramificações internacionais antagónicas e experiências históricas muito conflituantes. Porém, estes traços são comuns a toda a esquerda mundial, e em especial às várias tradições das esquerdas europeias, não impedindo entendimentos para a governação noutros países. Portugal é a excepção.

(...)

"A especificidade portuguesa resulta do PREC e do papel que o PS assumiu na estabilização revolucionária com a opção por uma democracia pluralista ocidental. Esse combate fez-se com democratas de muitas cores, com os socialistas e muitos outros, mas introduziu o anticomunismo (hoje um anacronismo da Guerra Fria) como matriz de uma parte do PS e, por outro lado, transformou o PS numa casa de inimizades comuns para outras esquerdas que, digladiando-se entre si, sempre se entenderam sobre o «revisionismo» (outro anacronismo) representado pelo PS como tampão a uma via revolucionária.

(...)

"Foi com esse espírito que, em nome do PS Porto, enviei uma carta a vários partidos, sindicatos e movimentos representativos da esquerda portuguesa. O caminho não é fácil, mas está dado um passo importante para o diálogo. As respostas até ao momento são encorajadoras e as reuniões que já ocorreram (com BE, Renovação Comunista, CGTP, UGT, APRE!, e outras agendadas) demonstram que não há interditos e que a esquerda pode somar à sua maioria social o capital de uma maioria política, sem preocupações com aritméticas eleitorais nem com ciclos de curto prazo. O objectivo, já conseguido, é alargar o campo de possíveis.

(...)

"A esquerda portuguesa não está condenada a manter-se dividida. As novas gerações de dirigentes dos partidos e movimentos de esquerda não têm as feridas da memória histórica e por isso não têm de carregar as suas cicatrizes. Vamos acabar com PREC.

..."

Sobre o autor, Francisco Assis, do PS, através de Miguel Noronha no Insurgente em 2014, refere:

"O autor deste texto, publicado nas redes sociais, é um jovem dirigente socialista portuense destinado a exercer a muito curto prazo altíssimas responsabilidades no plano local. Se o cito é porque descortino no seu pensamento algumas das principais características configuradoras da identidade de uma corrente política que me suscita enorme apreensão, pelas razões que passo a apresentar: insuportável arrogância moral, indisfarçável propensão para o simplismo doutrinário, preocupante valorização de uma linguagem emocional em detrimento da argumentação racional, inquietante incompreensão da realidade contemporânea. Se virmos bem, estamos perante um discurso construído a partir de clichés, de antagonismos puramente retóricos, de proclamações quase integralmente vazias."

 

Duas considerações:

a) A maioria relativa da coligação e a posição de Costa serviram exactamente os propósitos;

b) não se pode dizer que no PS não se sabia o que vinha por ali.

 

PS: Se alguém souber onde está essa carta que "enviei (...) a vários partidos, sindicatos e movimentos representativos da esquerda", agradecia o link ou cópia do documento.

publicado por João Pereira da Silva às 06:29
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2 comentários:
De Adérito Troufa de Barros Ramos a 11 de Outubro de 2015 às 15:55
Bom post. Coloca o dedo em várias feridas, nomeadamente a de que os famosos "submarinos" comunistóides ou afins, se acobertaram no PS numa táctica bem conhecida dos estalinistas, fascistas vermelhos. Chapelada.
De João Pereira da Silva a 13 de Outubro de 2015 às 07:50
Obrigado. A história repete-se, embora os autores neguem o facto.

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