Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

Socialismo e propriedade privada, uma contradição de termos

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Eu sou do tempo em que os militares barbudos que andavam pelo país a alfabetizar as populações ensinando-lhes os princípios básicos do socialismo não punham os pés no Alto Minho. Com razão ou sem razão, os minhotos partiam do princípio que a finalidade dos comunistas era expropriar-lhes as terras. Provavelmente os governantes da época nunca o terão chegado a proclamar preto no branco, nem sequer o truculento Vasco Gonçalves, mas o facto de terem deixado os comunistas ocupar e expropriar os grandes latifúndios do Alentejo, e não só do Alentejo, não constituía uma prova sólida em contrário da hipótese. Na dúvida os minhotos optavam por uma prudente atitude de eles que venham, mas só entram por cima do meu cadáver, destruiram com violência algumas sedes do PCP, racharam algumas cabeças, e a mensagem foi percebida e nem os soldados barbudos nem os comunistas lá apareceram a fazer ocupações. Nem faziam falta, que a sociedade civil minhota não precisava deles para nada.

Mas isto era no tempo e que eu tinha 18 anos, e o mapa de resultados das eleições, entre as de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte e as Autárquicas de 1 de Outubro de 2017, nomeadamente no Minho, evoluiu e ganhou tons de rosa onde não os tinha.

2018-02-11 Eleições 1975 e 2017 mapa de resultad

Evoluiu o mapa, e evoluiram as mentalidades.

Em 2018 o primeiro ministro socialista diz coisas sobre a propriedade privada como "Os municípios têm todo o poder para entrar nas propriedades privadas e fazerem o cus [os leitores mais atentos à pureza ortográfica que me perdoem mas, aderindo parcialmente, se não ao Acordo Ortográfico, pelo menos aos seus princípios de ortografia segue pronúncia, é assim que se escreve] proprietários não fizeram. E mais. Têm o direito de tomar posse daquelas terras e de se cobrarem, seja pela venda do material lenhoso, seja pela exploração daquelas terras, das despesas que tiverem por conta dos proprietários que não fizeram o que têm que fazer até ao próximo dia 15 de Março.", que não me lembro de alguma vez terem sido ditas por um primeiro-ministro no tempo do PREC, e no tempo do PREC teriam sido mais do que suficientes para os minhotos racharem cabeças e rebentarem com sedes, se fossem ditas por comunistas mais voluntariosos no local, ou, quem sabe? organizarem uma invasão militar de Lisboa, se fossem ditas pelo primeiro-minstro.

Traduzindo, as palavras do primeiro-ministro têm sempre que ser traduzidas para Português para serem devidamente interpretadas, os proprietários têm até 15 de Março para limparem de matos os terrenos em redor das casas e em redor dos agregados habitacionais, quer os terrenos lhes proporcionem rendimentos para pagar a limpeza, quer não, quer os proprietários tenham dinheiro para a fazer, quer não, e se não o fizerem as autarquias têm legitimidade, e um encorajamento do primeiro-ministro, para tomar posse dos terrenos privados para fazerem elas a limpeza e não os devolverem até extrairem deles rendimentos que paguem o custo da limpeza, que pode ser no dia de São Nunca.

Ou seja, exactamente aquilo porque os minhotos no tempo do PREC estavam dispostos a defender a sua propriedade, se necessário recorrendo à força das armas. Vamos a caminho do socialismo.

E os minhotos?

Os minhotos estão mansos. Tenho muita pena.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:09
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

Autoridade e Obediência

Podia vir aqui opinar sobre a recomendação ontem divulgada do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, aos católicos recasados de viverem em continência, e especular sobre quantos se terão conformado a obedecer a esta recomendação que nem anacrónica chega a ser por simplesmente anti-natural, mas a entrevista ao padre Feytor Pinto, sacerdote igualmente respeitável, ainda antes do cair do dia a autorizar-lhes a fornicação desfez as condições para se fazer um teste à obediência à autoridade deste grupo de católicos, e vou opinar sobre a odebiência à autoridade noutros meios.

Eu, tinha 17 anos acabados de fazer quando aconteceu o 25 de Abril de 1974, cresci num mundo onde o conformismo e a obediência à autoridade eram valores da direita, e, com a informação disponível, o inconformismo e o desafio à autoridade da esquerda. Poucas semanas de revolução foram suficientes para perceber que a última parte estava redondamente errada, mesmo sem atender aos casos extremos e patológicos de autoridade que já tinha havido, incluindo genocídios, e continuava a haver mas eu ainda não conhecia, e os ainda mais extremos que ocorreram depois, incluindo genocídios. Pelo que é um local bom para se procurarem casos ilustrativos da autoridade e da obediência.

Um dos episódios mais ricos para ilustrar o conformismo e a obediência genéticos da esquerda foi a substituição, a 31 de Agosto de 2013, da deputada Ana Drago, essa mesma que no parlamento tinha gestos de aparente inconformismo, como dar palmadas na mesa quando não estava de acordo com o orador, pela então assessora do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda e co-autora com o professor Francisco Louçã de livros sobre a necessidade de repudiar a dívida, Mariana Mortágua.

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O Estatuto do Deputado determina que quando um deputado eleito renuncia é substituído pelo primeiro candidato não eleito da mesma lista no círculo que o elegeu. Em caso de impedimento temporário deste, e apenas enquanto durar o impedimento, o lugar é ocupado pelo candidato seguinte, e por aí adiante, até esgotar a lista de candidatos.

Em 2011, o BE tinha conseguido eleger três deputados no círculo de Lisboa. Quando Francisco Louçã renunciou, foi substituído pela 4º candidata, Helena Pinto, como determina o estatuto.

Já quando a deputada Ana Drago renunciou ao seu mandato, a primeira candidata não eleita da lista de candidatos eleita pelo BE no círculo de Lisboa, a 5ª da lista, Rita Maria Oliveira Calvário, engenheira agrónoma, 33, declarou um impedimento temporário para assumir o cargo, que foi aceite pela direcção do grupo parlamentar, determinando a subida do candidato seguinte, o 6º, Francisco Alves da Silva Ramos, escriturário, 55. Que também declarou um impedimento temporário. Tal como o 7º, Bruno Reinhold de Moraes Cabral, cineasta, 30, a 8ª, Beatriz Gebalina Pereira Gomes, professora, 40, a 9ª, Heloísa Maria Pereira Perista, socióloga, 48, o 10º, André Aurélio Marona Beja, enfermeiro, 33, a 11ª, Maria Deolinda Marques Dias Martin, 54, a 12ª, Maria José Vitorino Gonçalves, professora bibliotecária, 55, e o 13º, José Manuel Marques Casimiro, rectificador, 53. Até chegar à 14ª candidata, Mariana Rodrigues Mortágua, economista, 24 (em 2011, 27 na altura da ocorrência), a primeira da lista que aceitou o fardo de servir a Nação como deputada. Ou deu àquela lista de candidatos uma coisa má e contagiosa e tiveram todos impedimentos ao mesmo tempo, ou montaram uma grande aldrabice para contornar a lista votada pelos eleitores e eleger antes o candidato escolhido pela direcção do partido. Mas pronto, a colaboradora do Francisco Louçã lá trepou pela lista acima até chegar a deputada, como tinha sido determinado pela direcção coordenação do partido e foi respeitosamente obedecido pelos nove deputados eleitos conformistas que renunciaram ao lugar de deputado ainda antes de chegar a tomar posse.

O esquema da fraude eleitoral em pirâmide é mais simples de explicar e de fazer do que o esquema da fraude fiscal em pirâmide. E tem outras qualidades. Não é criminalizado. Não desencadeia a indignação dos pastores das redes sociais, e muito menos, a dos seus fiéis seguidores. E permite dar a volta ao voto do povo e promover os amigos. E, a melhor das suas qualidades, não exige mais do que uma equipa conformista e disciplinada pronta a deturpar o resultado das eleições e a sacrificar a possibilidade de tomar posse como deputada eleita para obedecer às ordens da autoridade partidária.

Mas, por mais que os bloquistas se esforcem por, debaixo de uma capa pública de inconformismo, dar provas de obediência cega à autoridade dos chefes coordenadores, está para nascer quem ultrapasse o Partido Comunista Português em obediência cega à autoridade.

E na Assembleia Municipal do Porto desta semana a CDU acabou de bater o recorde nacional de substituição de deputados municipais ao fazer ascender o 30º membro da lista de candidatos eleita ao grupo de três deputados municipais que têm lugar na Assembleia Municipal, através, não de nove, mas de vinte e sete substituições.

Por mais que o BE se esforce, e o BE pode estar na eminência de ocupar responsabilidades governativas no próximo ano se o António Costa não conseguir nas eleições uma maioria absoluta e não se interessar pelo apoio do PSD para sustentar uma solução governativa, tem muito que aprender no domínio da disciplina e da obediência com o PCP, que exibiu nesta substituição o triplo do conformismo que o BE tinha exibido na outra.

E a direita? A direita que em tempos assumia o mote Deus, Pátria, Autoridade?

Em obediencia à autoridade a direita anda pelas ruas da amargura. O melhor que se pode arranjar por estes dias é o Pacheco Pereira a denunciar e lamentar "o sector que emergiu à volta de Passos e Relvas e depois ganhou outros mentores, que se comporta como dono do aparelho, e que fará tudo para não o perder" que em vez de "fazer críticas ou discutir orientações" pretende "organizar grupos e frações para manter o poder interno". Fracote, nem parece coisa do militante comunista (no sentido estrito de militante e lato de comunista, que não meramente o de obediência à URSS) que mesmo com o 25 de Abril de 1974 não saiu da clandestinidade porque não estava seguro de ter sido mais do que uma revolução burguesa, e só saiu da clandestinidade depois do 11 de Março de 1975, quando finalmente sentiu a tranquilidade de viver em democracia popular liderada inequivocamente pelos comunistas.

A direita, em matéria de Autoridade e Obediência, tem tudo para aprender. Se quiser ser igual à esquerda.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:23
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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018

Dois pesos, duas medidas, mais uma achega

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Em Portugal pode uma juiza de quem já foi provado em tribunal que um solicitador subornou para comprar uma sentença, e por se ter provado o crime o solicitador foi condenado a pena de prisão, se bem que a juiza nem sequer tenha sido submetida a julgamento porque o Supremo Tribunal de Justiça não considerou as provas que o condenaram a ele suficientemente credíveis para sequer a levar a ela a julgamento e arquivou o processo, chegar ao Supremo Tribunal de Justiça? Pode.

Em Portugal a magistratura funciona como uma corporação que protege os seus mesmo quando são apanhados a cometer crimes, mesmo crimes no exercício das suas funções de magistrados? Cada um que tire as conclusões que a sua consciência lhe ditar e que profira a sua opinião em público se considerar que em Portugal e liberdade de expressão é suficientemente respeitada para a poder proferir em público sem receio de ser penalizado por ela.

Em Portugal a magistratura confronta judicialmente cidadãos poderosos? Já confronta judicialmente cidadãos poderosos como governantes socialistas, grandes banqueiros ou dirigentes desportivos mas, no domínio de confrontar judicialmente magistrados judiciais, ainda tem tudo para provar. E não é pouco.

 

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:00
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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

A importância da falta de vergonha e do sentimento de impunidade na capilaridade da corrupção, ou, "só temos dois anos para mamar"

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Desta vez calhou aos secretários de Estado do anterior governo socialista José Conde Rodrigues e José Magalhães.

Não parece ser um caso de grande corrupção, não há indícios de terem acumulado a troco de favores governativos uma fortuna em paraísos fiscais através de testas de ferro, mas usaram os cartões de crédito da função para comprar livros e revistas que depois terão levado para casa. Os montantes envolvidos, catorze mil euros em livros por um deles, e quatrocentos em livros e revistas pelo outro, sugerem pelo menos que o primeiro é um grande leitor e o segundo também não é nada sovina, pelo menos com o dinheiro dos outros, e prefere variar entre a leitura de livros, só com letras e mais pesada, e a de revistas, enriquecidas com ilustrações.

Esta história tem pelo menos dois lados para onde vale a pena olhar.

Um dos lados é que a investigação judicial que descobriu esta utilização ilegítima dos cartões de crédito dos governantes para o seu benefício material pessoal resultou directamente de uma acção de luta sindical da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, cuja proximidade com a justiça lhe oferece vantagens comparativas com outros sindicatos na luta pelos direitos dos associados, nomeadamente a possibilidade de recorrer à chantagem judicial credível através da ameaça de abertura de processos judiciais que são julgados pelos próprios associados do sindicato.

Foi uma reacção ao corte de privilégios dos magistrados pelo governo do primeiro-ministro José Sócrates quando se iniciou nas lides da austeridade, especificamente ter passado a sujeitar a IRS o subsídio de renda dos juízes até aí isento, que motivou a queixa do sindicato e a investigação às despesas realizadas com os cartões de crédito dos governantes. Outros funcionários e sindicatos levaram a pancada da austeridade, ou conformados por terem noção que não havia como escapar a ela, ou com grande alarido por defenderem que era um ataque de má-fé do governo aos seus direitos inalienáveis, estes fizeram uma espera ao governo para na primeira curva o fazer despistar.

Que um sindicato recorra à vantagem de os seus associados deterem poderes públicos que lhes são delegados pelo Estado para uma finalidade pública para potenciar a sua luta sindical em defesa dos interesses dos associados que a resolvem recorrendo a esses poderes é uma questão de ética e de cidadania que não vou debater aqui. Deixo apenas o registo dos factos.

O outro lado é que os governantes socialistas, numa sucessão monótona crescente e cada vez mais generalizada ao longo do tempo à medida que estes pequenos casos se vão tornando públicos, se parecem entregar furiosamente, como crianças com acesso à montra de uma pastelaria, ao usufruto de todos os perks que a profissão lhes pode proporcionar, seja usando cartões de crédito da função, que só deviam ser utilizados para liquidar despesas de função que não podem ser sujeitas ao moroso procedimento administrativo que vai da encomenta ao pagamento, para pagar despesas pessoais, seja pedindo ou aceitando borlas para a bola, em Portugal ou no estrangeiro, seja fazendo viagens de cortesia com vagas e esfarrapadas justificações de que têm utilidade para o exercício dos seus cargos, seja fintando as regras para conseguirem ter acesso a subsídios de função, ou seja, agem como se isto fosse tudo deles, sem vergonha nem medo de ser apanhados.

E isto não é corrupção, que a há, não é a compra de favores que no caso de governantes podem valer pequenas ou mesmo grandes fortunas, que os há, não é a transferência disfarçada por testas de ferro ou por labirintos em paraísos fiscais de benefícios para governantes, que a há, e que vai sendo de vez em quando investigada e descoberta pelas autoridades judiciais. Isto não é o equivalente em Portugal à riqueza incalculável acumulada na grande corrupção pelos generais angolanos em património escondido ou à vista em Portugal e, provavelmente, noutras paragens.

Isto é o equivalente à pequeníssima corrupção espalhada por capilaridade até ao mais pequeno servidor público angolano, ao polícia de fronteira que só pára de folhear o passaporte quando encontra a nota de 20 dólares ou ao polícia de trânsito que só pára de olhar para os documentos da viatura quando encontra a mesma nota.

Isto é a consequência natural da constatação de que "se todos recebem, porque é que eu não hei-de receber também?", que junta a mais absoluta amoralidade a uma tranquilizadora sensação de impunidade, que faz procurar e receber benefícios sem qualquer consciência ética, sem receio de ser exposto, sem noção da dimensão ridícula de um governante ser apanhado a aceitar pequeníssimos favores completamente desporporcionais à sua capacidade de os retribuir, chegando a considerar ridículo serem investigados judicialmente e considerados suspeitos de miudezas tão insignificantes. Que, no entanto, procuraram e praticaram. Isto não é corrupção, é apenas putrefacção.

Esta indulgência com o aproveitamento das funções governativas para usufruir de pequenos benefícios pessoais será exclusiva de socialistas, como a estatística de casos que têm vindo a público esmagadoramente sugere? Não é de certeza absoluta, e de certeza absoluta que todos os partidos têm entre os seus militantes muitos que se aproximam da política pela ambição de virem a usufruir desses benefícios. Será que a diferença esmagadora na estatística de pequenos casos de favorecimento pessoal entre socialistas e militantes de outros partidos com vocação governativa se deve a diferenças de estilo nas lideranças, por exemplo entre um primeiro-ministro que proíbiu os membros do seu governo de viajar em classe executiva, ou de se deslocarem a reuniões no partido no automóvel do Estado que têm à sua disposição, e outro primeiro-ministro que vai à bola de Falcon? Talvez.

Em todo o caso, o status quo actual é, de novo, nas sábias palavras dos próprios, "só temos dois anos para mamar".

 Pois que mamem, que lhes faça bom proveito, e que se engasguem no próprio bolçado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:21
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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2018

O bairrismo no Norte

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O Dr. Rui Rio tem mantido algum recato desde a sua eleição para presidente do PSD, prudente e até recomendável a quem tem algum passado de ser encorajado e depois citado a fazer afirmações que, ou por excesso de espontaneidade, ou por falta de cuidado, nem sempre são fáceis de explicar politicamente como propostas de um partido de poder para resolver os problemas que comenta. Não tem caído nas armadilhas da espontaneidade que certamente lhe têm sido espalhadas pelos jornalistas. Tem estado bem.

Esta semana quebrou finalmente o silêncio para se pronunciar sobre um assunto da actualidade nacional e fazer a respectiva crítica.

E que assunto escolheu para inaugurar a sua voz como presidente eleito do PSD? O caminho de insustentabilidade que está a ser dado às finanças públicas por o governo estar a assumir compromissos de aumento da despesa estrutural, como aumentos salariais ou do quadro da função pública que nunca poderão ser revertidos, com base no aumento circunstancial da receita que o ciclo económico está a proporcionar agora, mas não proporcionará sempre? Não. Sobre a aparentemente intenção de demolição do Serviço Nacional de Saúde por desinvestimento, suborçamentação e calotes a fornecedores que começa a ter consequências gritantes na qualidade do serviço não prestado aos utentes? Não. Sobre o ataque sistemático do governo socialista a todas as entidades independentes através de guerrilha mediática contra os seus dirigentes e da sua substituição por socialistas, que recentemente foi reforçado pelo anúncio da intenção de substituir no final do mandato a Procuradora-Geral da República que investigou governantes e banqueiros como base no argumento, falso, que a lei só lhe permite cumprir um mandato? Também não. Nenhum destes assuntos graves ou mesmo gravíssimos lhe mereceu um comentário até agora.

O Dr. Rui Rio inaugurou a sua voz como presidente eleito do PSD pronunciando-se sobre a intenção da Google de fazer um investimento em Portugal em Oeiras, e criticando a decisão por ter optado por "Lisboa" para o fazer.

Independentemente de ser esperada ou não, esta escolha de tema está longe de ser inesperada, e mostra que o seu autor assume, como muitos outros políticos oriundos no Norte, genericamente, e do Porto, especificamente, o papel de provedor do Norte, ou do Porto, contra a macrocefalia de Lisboa.

Ao significado e implicações políticas já lá vamos, mas vou primeiro passar pelo bairrismo do Norte, ou do Porto.

Tendo raízes minhotas, e das que vão beber directamente às aguas do Rio Minho, o meu pai era de Melgaço e a minha mãe de Monção, e sendo lisboeta de nascimento e de toda a vida ter vivido à volta de Lisboa, tenho experiência de picardias de bairrismos regionais nos seus diversos ângulos suficiente para achar que valha a pena tomar partido, ou melindrar-me com elas, ou solidarizar-me com quem se melindra, e muito menos para as arbitrar, picardias de que posso dar um exemplo publicável com a piada "Sabes porque é que os lisboetas se chamam alfacinhas e não saladinhas? Porque não têm tomatinhos", e de que podia passar alguns anos a citar outras, quase todas com um sentido de humor e colorido de linguagem mais ricas do que esta. Não as coloco muito longe das picardias, a que autores muitas vezes também atribuem uma importância que escapa a quem lhes dá menos, sobre a bola.

Mas independentemente da virtude comparativa das picardias bairristas, há diferenças entre os bairrismos que uma observação objectiva me foi permitindo identificar ao longo da vida.

E uma delas é na intensidade. Passei muitos serões na juventude a ouvir enumerar, a minha pronúncia de alfacinha não enganava ninguém, sobrepunha-se sempre às raízes minhotas e despertava em várias pessoas a necessidade de as enumerar, vantagens do Porto sobre Lisboa. E nunca passei nenhum serão a procurar convencer quem quer que fosse de vantagens de Lisboa sobre o Porto. Talvez por não as haver, talvez por haver mas eu não estar devidamente preparado de argumentos para as enumerar, talvez por ser assunto que nunca me tinha preocupado nem me continuou a preocupar pela vida fora. Em todo o caso, mesmo descontando eventuais falhas na representatividade que eu, por um lado, e as pessoas que mas enumeravam, pelo outro, pudessemos ter relativamente às populações que representávamos, sempre me pareceu que era assunto que as gentes do Porto levavam mais a peito que as de Lisboa.

Outra é a identificação das populações com as lideranças. Não me lembro de um Presidente eleito da Câmara do Porto que não parecesse, pelo menos visto de longe, inamovível enquanto se continuasse a candidatar. Pelo menos desde que o Fernando Gomes lá chegou em 1989 que nenhum é deposto em eleições. O Fernando Gomes saiu por ter ido para o governo, o Nuno Cardoso perdeu as eleições mas nunca tinha chegado a ser eleito, o Rui Rio por ter atingido a limitação de mandatos, e o Rui Moreira no segundo mandato parece tão inamovível como os que o precederam nestas décadas. E para além dos resultados eleitorais é mesmo frequente assistir a testemunhos de cidadãos que confirmam uma grande identificação com o Presidente da Câmara e com o seu papel de defesa dos interesses do Porto, coisa que não acontece em Lisboa com a mesma intensidade, mesmo relativamente a autarcas que também ganham eleições.

Na campanha para as eleições internas do PSD foi bem visível esta identificação de cidadãos do Porto, nomeadamente a elite liberal e cosmopolita da cidade tão bem representada pelo presidente actual, com o seu ex-presidente, e terá sido mesmo determinante para definir o resultado das eleições, atendendo ao resultado esmagador que o candidato atingiu no Porto e distritos limítrofes, e no peso que esses distritos têm a nível nacional em número de militantes no partido.

Tudo junto, não é inesperado que os Presidentes da Câmara do Porto se afirmem pelo bairrismo especial da cidade e da região e que se assumam como campeões da defesa dos seus interesses contra o centralismo de Lisboa, o que é apreciado pelos munícipes que lhes retribuem em votos.

O que está é longe de se poder dar como provado que a afirmação de bairrismo traga vantagens aos políticos que se querem afirmar na política nacional ou, pelo contrário, expõe fragilidades ideológicas e políticas de quem a faz.

Ideológicas, porque a crítica se insere numa linha de pensamento que toma por bom que todas as decisões, mesmo as dos agentes económicos privados, são determinadas ou influenciadas pelo governo, de modo que de todas se podem assacar responsabilidades ao governo, sendo que a crítica foi implicitamente dirigida ao governo por ter levado o investimento da Google para Lisboa.

E uma das vertentes frequentes da afirmação do bairrismo do Norte é justamente o apelo ao governo para influenciar decisões de empresas privadas no sentido de respeitarem os interesses do Norte em vez de obedecerem aos do Sul ou se deixarem conduzir pela procura do lucro. Coisa que acontece recorrentemente por exemplo com a problemática das rotas da TAP. Ora esta é uma visão socializante da sociedade e da economia, que é legítima, mas faz duvidar do liberalismo e do cosmopolitismo de quem a tem. E até os socialistas a desmontam facilmente, neste caso específico esclarecendo que a Google não recebeu qualquer tipo de apoios ao investimento que colocasse o governo em posição de influenciar a decisão de localização. Terá sido uma decisão puramente empresarial, o mercado a funcionar.

Políticas, porque se a crítica pode ter consolidado a popularidade do presidente eleito do PSD entre o seu eleitorado regional, interno ao partido, que o elegeu e onde é preponderante, mas também externo, onde está longe de ter a proponderância que tem no universo partidário, também pode ter suscitado dúvidas no eleitorado de outras regiões, que é mais preponderante a nível eleitoral do que no universo de militantes do partido, e onde a crítica parece mais própria de um líder regional do que de um que se quer nacional.

Aliás, nem sequer é difícil a um governo suficientemente demagógico combater politicamente líderes regionais nas suas causas bairristas. Basta-lhe afirmar de modo credível intenções, mesmo que não tenha a intenção de as levar a cabo e espere que as circunstâncias acabem por impossibilitá-las contra os seus esforços aparentes. Basta-lhe anunciar a mudança para o Porto da sede de um instituto público. Mesmo que o instituto acabe por não mudar, a boa intenção fica para a história e bem esticada chega até às próximas eleições.

Posto isto tudo, não me parece que tenha sido uma boa ideia o Dr. Rui Rio ter inaugurado a palavra como presidente eleito com uma crítica bairrista.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:06
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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2018

O 25 de Abril não chegou às casernas

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Uma das consequências da consolidação do Tempo Novo e dos seus calores progressistas é o despertar gradual dos dinossauros do PREC jurássico que se julgavam extintos mas apenas tinham recolhido às suas tocas para hibernar ao longo destas últimas décadas para conseguir sobreviver à obscura democracia do tipo das que existem na Europa ocidental a que Portugal tem sido brutalmente submetido desde o fim desse glorioso período da nossa história em que pudemos ter a ambição de virar socialistas.

Uma das tocas onde a espécie encontrou abrigo para hibernar protegida das agressões e desilusões ideológicas externas ao longo destas décadas de democracia burguesa é justamento o jornal Público, e é de lá que vão chegando notícias dos despertares.

Tal como em tempos Arnaldo, o Pós-Cataléptico, militante maoista que foi despertado do coma a que tinha recolhido vinte anos antes por ter sido lançado ao Tejo numa escaramuça com militantes comunistas pelas manifestações de entusiasmo da família com a chegada do novo PC a casa, que o desassossegaram mesmo no coma a que se tinha remetido, às vezes estes despertares fazem-se acompanhar de dissonâncias cognitivas resultantes de demasiado tempo de hibernação.

Este que despertou hoje no Público ao despertar trazia nos lábios a célebre palavra de ordem "O 25 de Abril não chegou às casernas" que tratou de aplicar à notícia da actualidade que o ocupava no momento de despertar, o roubo de armas do paiol de Tancos e os esforços do governo e da hierarquia militar para manter sobre os acontecimentos a obscuridade suficiente para não ser possível extrair deles conclusões nem responsabilidades.

Mas não faz mal, como diz um dirigente político da actualidade a gente está aqui para resolver, e eu próprio me prontifico para esclarecer em regime de voluntariado o jornalista confundido pela hibernação.

  • Sim, o 25 de Abril chegou às casernas.

As casernas encheram-se de soldados barbudos que primeiro faziam plenários e depois não cumpriam ordens, que andaram pelo país, mais pelo Sul do que pelo Norte porque nalguns locais do Norte não eram assim muito bem-vindos e eles também não queriam andar à porrada por isso, a evangelizar o povo sobre as virtudes do socialismo em campanhas de alfabetização, que se dedicaram a prender e a torturar reaccionários em quartéis mais progressistas, e quem prendia e torturava reaccionários também podia prender e torturar maoistas que faziam o jogo da reacção, até a assassiná-los em barragens nas ruas e nas estradas. Não houve falta de 25 de Abril nas casernas.

  • Não, já não está lá, desde que foi mandado para casa no 25 de Novembro.

Explicar o 25 de Novembro a dinossauros a sair da hibernação a que se submeteram no PREC jurássico é que já sai do domínio das minhas capacidades, nomeadamente a parte de o partido político que foi mais determinante para a construção da relação de forças populares, políticas, militares e até diplomáticas que tornaram possível a erradicação da ameaça comunista, o PS de Soares ou Salgado Zenha, ter sido o partido que hoje eles vêem do seu lado e está mesmo do lado deles, nomeadamente no boicote às celebrações do 25 de Novembro em todas as assembleias onde tem expressão numérica suficiente para as conseguir boicotar, desde a Assembleia da República às Assembleias Municipais às Assembleias de Freguesia. O melhor que eu lhes consigo explicar é que foi mandado para casa pelos comandos do Jaime Neves, e que obedeceu à sugestão. Esta parte, alguém que lhes explique melhor do que eu.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:02
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Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

...ainda bem que não pisei.

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Esta é a história que me contaram, real ou imaginária, ou mesmo complexa, como os matemáticos chamam ao que junta um bocadinho de real a um bocadinho de imaginário, se bem que a história seja até simples, de um transeunte que um dia andava a passear e viu no passeio o que parecia ter sido deixado por um cão daqueles cujos proprietários não são adeptos do saquinho.

  • Parece m.,

disse ele com os seus botões. Mas este transeunte não era daqueles que se satisfazem com as primeiras impressões para tirar conclusões, era exigente com elas, e dotado do grau de curiosidade característico dos gatos, das pessoas inteligentes, e dos homens de quem as mulheres não se costumam arrepender por lhes ter tolerado em vez de repudiado a colocação de uma mão no joelho. De modo que passou à fase de investigação. Agachou-se, passou os dedos pelo que estava no passeio, cheirou e apreciou:

  • Cheira a m..

Mas ainda não era suficiente para formular a conclusão definitiva. Pôs os dedos na boca e disse:

  • Sabe a m.,

e só então se sentiu suficientemente bem informado para formular uma conclusão definitiva:

  • É mesmo m., ainda bem que não pisei.

E a que propósito é que eu me recordei agora desta história de um transeunte que, à força de não se deixar levar pelas primeiras impressões, era um bocado lento de compreensão e continuava a não perceber nas segundas, que me contaram há décadas?

 

O meu companheiro de partido Rui Rio que acabou de ganhar as eleições directas e será nomeado presidente do partido no congresso de Fevereiro disse no primeiro debate da campanha eleitoral que ninguém pode dizer jamais a um governo de bloco central de coligação com os socialistas, por exemplo em circunstâncias excepcionais de emergência nacional, por exemplo, o pedido de resgate a que o percurso actual de aumentar despesa estrutural permanente impossível de reduzir, como a ampliação dos quadros da função pública ou o aumento dos salários e pensões, com base num pico de receita circunstancial proporcionado pelo ciclo económico que reverterá um dia, conduzirá inapelavelmente. Colocar a hipótese de co-habitar no governo com os socialistas actuais que impediram o PSD de governar depois de ter ganho as eleições, e é com os socialistas actuais liderados pelo António Costa que se pode colocar a hipótese de co-habitação, porque são os que há, é muito mau para quem se candidata à liderança de um partido que tem como objectivo maior regressar ao governo expulsando estes socialistas.

  • Parece m..

Mas toda a gente sabe que os debatentes e jornalistas mais experientes e maliciosos conseguem colocar na boca de debatentes menos experientes afirmações que, descontextualizadas e deformadas no sentido, parecem significar o que não era o seu significado original, de modo que o nosso transeunte não cedeu à tentação de tirar conclusões rápidas e, porventura, prematuras, desta afirmação talvez descuidada do Rui Rio. E o próprio Rui Rio esclareceu numa entrevista a jornalistas do Público e da Rádio Renascença poucos dias depois que admitia apoiar um governo minoritário do PS se o PS ganhasse as eleições de 2019. Governo minoritário do PS, leia-se, governo minoritário do António Costa, que não é previsível ser apeado do PS até às eleições de 2019. E justificou este apoio com uma questão de coerência: se o PSD acha que o PS do António Costa o devia ter deixado governar a seguir às eleições de 2015 que ganhou, também deverá deixar o PS do António Costa governar se ganhar as eleições de 2019. O argumento da corência é excelente no plano moral, mas de uma ingenuidade e de uma tonteria infinitas. Porque conduz ao resultado de, se o PS ganhar as eleições com maioria simples, conseguirá governar, se necessário for, com apoio do PSD. E se o PSD ganhar as eleições com maioria simples o PS também conseguirá governar, mas com o apoio dos partidos da esquerda radical. O que faz das eleições de 2019, não eleições para escolher quem governa, que fica já escolhido à partida, mas para escolher quem apoia o governo socialista, ou o PSD ou a esquerda radical.

  • Cheira a m..

Entretanto, e ainda antes das eleições, o próprio António Costa esclareceu que não está nada interessado em formar um governo com apoio do PSD, até porque não precisa, porque já tem o apoio da esquerda redical e está bem assim, aproveitando ainda para ridicularizar ambos os candidatos do PSD por andarem a discutir qual deles gosta mais dele, apesar de apenas um deles ser elegível para enfiar a carapuça da piadola, o que declarou estar disposto a deixá-lo governar sem maioria absoluta.

Mas o nosso transeunte ainda não estava suficientemente esclarecido, e foi a antiga presidente do PSD e apoiante mais notável do Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, que veio definitivamente esclarecer o assunto já depois de conhecido o resultado das eleições: o PSD deve vender a alma ao diabo, leia-se, viabilizar um governo minoritário do António Costa, para pôr a esquerda na rua. Ou seja, não deve haver dúvidas que, a não ser que o PSD consiga uma maioria absoluta com o CDS nas eleições de 2019, será o PS do António Costa a governar, e o PSD deverá tentar convencê-lo de que o seu apoio será melhor do que o apoio do BE, ou do do BE e do PCP. O PSD deverá competir no campeonato da segunda divisão contra estes partidos menores. Esta boa intenção da Manuela Ferreira Leite, expressa com a sua conhecida capacidade de expressão, parece ignorar que pôr a esquerda na rua no contexto politico-partidário actual significa pôr o PS do António Costa na rua, que não se distingue em nada ideologicamente do BE nem do PCP, consoante os colaboradores mais próximos do António Costa que o controlam. O governo actual tem trabalhistas pró-CGTP, defensores da re-estruturação da dívida, e polícias dos costumes moralmente toleráveis. Não lhe fazem falta nem diferença bloquistas e comunistas encartados. Também não se percebe bem como é que o PSD pode ambicionar apoiar um governo do António Costa que não está interessado no seu apoio? Ou seja, regressando ao nosso transeunte,

  • Sabe a m..

O pior é que desta vez não tem por onde passar para evitar pisá-la, porque ela está por todo o lado. A não ser que lhe cresçam asas, vai chegar a casa com os sapatos a cheirar mal.

  • É mesmo m., que chatice vou sujar os sapatos..

E quem não percebeu à primeira pode continuar a fingir que não percebe, mas à força de acumular evidências continuar a não perceber passa por ser lento de compreensão.

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:44
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Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2018

O ódio da esquerda radical às empresas e aos negócios

2018-01-15 Fidel e Che.jpg

Quem é que em Portugal distila mais ódio genuíno e puro às empresas e aos negócios e parte sempre do princípio que são geridos por delinquentes, nomeadamente fiscais, com quem o Estado deve ter mão pesada?

a) O Partido Comunista Português

b) O Partido Comunista Português

c) O Partido Comunista Português

Qualquer das hipóteses de resposta é uma boa aproximação à realidade.

Mas a pergunta continha o advérbio o mais, modo superlativo relativo de superioridade que significa que a resposta certa exige identificar o que é mais do que todos os outros, e não o mero superlativo absoluto analítico que seria conferido pelo advérbio muito, para cuja satisfação ser muito seria suficiente.

E a iniciativa governativa mais odiosa para as empresas e os negócios desde o 25 de Novembro de 1975, a mais motivada pela desconfiança de raiz dos governantes relativamente à ética, honestidade ou simples plausibilidade de cumprimento da lei pelos governados, a mais shumpeteriana por destrutiva dos mais pequenos em maiores dificuldades, foi o aumento em 2003 de 150% (e chamo a atenção para o facto de, não sendo eu um jornalista económico português, um aumento de 150% num texto meu não significar um aumento de 100 para 150, mas de 100 para 250, ou duas vezes e meia o valor de origem) do valor mínimo do Pagamento Especial por Conta (PEC) criado pelo governo de António Guterres em 1998, de 500€ para 1.250€, às empresas, mesmo micro-empresas, mesmo sem lucros, mesmo com prejuízos, para as assassinar pelo sufoco da tesouraria.

E contra este sufoco das pequenas empresas e negócios até o PCP protestou em devido tempo, o que é meritório pela chamada de atenção para o papel determinante das pequenas empresas e negócios para a sobrevivência do tecido económico e social do país e para a importância de as manter vivas, pelo menos até à chegada da revolução socialista, mas lhe retirou qualquer possibilidade de vitória nesta competição.

E quem merece a distinção?

A ministra das Finanças do governo social-democrata de matriz liberal chefiado pelo Durão Barroso, ele actualmente um banqueiro de investimento, e ela um dos últimos especimens juntamente com o seu mentor ideológico José Pacheco Pereira de uma espécie em vias de extinção no PSD, ou talvez não tanto a partir de sábado passado, os social-democratas. Ela mesma, a Manuela Ferreira Leite.

A Manuela Ferreira Leite pode ser social-democrata, pode ser liberal, pode querer viabilizar governos minoritários socialistas liderados pelo António Costa, pode dizer piadas falhadas porque não tem assim muito jeito para a ironia, pode-se travestir daquilo que muito bem entender, até de bahiana, se quiser. Mas em matéria de liberdade económica para os agentes económicos até com o PCP tem lições a aprender.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:19
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Domingo, 14 de Janeiro de 2018

O discurso da derrota

2018-01-13 Rui Rio Cova da Moura.jpg

Ontem fui derrotado, ou melhor, o candidato que eu apoiei, em quem votei e que queria que ganhasse, foi derrotado nas eleições internas do PSD.

Vou fechar este parêntesis de exposição da minha vida partidária no Gremlin Literário, que abri na sexta-feira, com o meu discurso da derrota, em que com humildade democrática pretendo homenagear os vitoriosos, e que sugiro que leiam mais nas linhas do que nas entrelinhas.

Dou os parabéns ao Rui Rio pela sua vitória nas eleições do PSD. Ele foi a escolha dos militantes do partido.

Registo do seu discurso da vitória que ele pretende re-unir o partido, e espero que ele e a sua equipa continuem a vasta obra que já têm conseguida nesse desígnio.

Registo que ele não vai admitir que o partido seja um clube de amigos nem uma agremiação de interesses individuais, e também espero que a equipa que o rodeia e levou à vitória honre o seu notável passado neste domínio.

Registo que pretende dar um banho de ética ao partido, e sei que está rodeado de referências que o ajudarão a dá-lo.

Ontem realizaram-se, para além das eleições para o presidente do partido e para os delegados ao congresso, as eleições para a comissão política da secção de Lisboa, em que a lista que o apoiava foi derrotada e afastada da liderança da secção. Espero que, em nome dos valores superiores da união do partido, consiga repescar estes notáveis apoiantes com provas dadas e comprovadas para as responsabilidades que eles merecem na estrutura de liderança do partido.

A acabo a desejar-lhe os maiores sucessos eleitorais, significando este voto a conquista do cargo de primeiro-ministro com uma vitória eleitoral por maioria absoluta, do partido sozinho ou com apoio parlamentar do CDS, já que o de segundo-ministro substituindo a esquerda parlamentar num apoio a um governo socialista minoritário parece pouco provável de conseguir, por manifesto desinteresse do primeiro-ministro socialista.

Viva o PSD, viva Portugal.

 

PS: Para que não haja qualquer dúvida, a visita guiada do candidato Rui Rio ao bairro da Cova da Moura na Amadora foi acompanhada pelo meu companheiro de secção do partido Jorge Humberto, apoiante de primeira hora deste candidato que aparece na fotografia a dar-lhe explicações sobre o bairro que conhece muito bem. E tudo o que conheço do trabalho dele, tanto político, como social, é de uma ética inatacável e não há aqui qualquer espécie de insinuação de qualquer associação dele aos factos que as notícias revelam sobre outros apoiantes do candidato, inclusivamente que também aparecem na fotografia.

 

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:03
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Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2018

Declaração de voto

2018-01-12 Santana Lopes.jpg

O PSD perdeu o presidente mais ético, corajoso e determinado da sua história.

E como eu sou militante, e talvez haja outros militantes entre os leitores, deixo aqui a minha declaração de voto nas eleições internas para o substituir, e o meu compromisso.

Dos candidatos a substituí-lo, um é apoiado pelo pior que existe no partido, os barões que sempre o usaram como palco para se projectarem ou como instrumento para fazerem negócios privados, os literalmente gangsters com condenações por agressões ou casos de malas de dinheiro, os sectários que quando o lideraram excluiram todos os que os tinham confrontado em eleições internas, incluindo o Pedro Passos Coelho, e os traidores que passaram a última legislatura a combater o partido e a promover a oposição socialista ou mesmo bloquista. Ser apoiado por esta gente não faz dele vigarista ou gangster, porque sectário e traidor foi ele mesmo pessoalmente, mas sinaliza que com ele na liderança se sentem mais à vontade do que com o adversário. Neste nunca votaria, e a minha escolha fica limitada a um candidato único.

O Santana Lopes não foi o melhor primeiro-ministro da história de Portugal. Nem podia ter sido, foi usado como um precário para dar tempo aos socialistas para se reorganizarem para as eleições e depois destituído no acto mais sectário de toda a história da presidência em democracia, a dissolução de um parlamento com maioria absoluta para permitir a eleição de um socialista que depois arruinou o país, para além dos crimes por que um dia será condenado. Na época pareceu-me que tinha aceitado ser primeiro-ministro sem legitimidade eleitoral por se deslumbrar com a possibilidade de lá chegar. Hoje sei que se sacrificou pessoalmente por pressão do partido que o colocou na posição de não ser capaz de lhe dizer que não. Era, e já foi, mais imaturo do que é hoje. Mas é um combatente político de muitas décadas, e quando se viu mal representado pelo partido ponderou sair e formar outro partido em vez de ficar por dentro a miná-lo, como fizeram os do outro lado. Não foi por ele que eu me filiei no PSD, mas voto nele sem hesitação e com entusiasmo.

Se os militantes do PSD amanhã optarem pelo PSD dos barões, dos gangsters, dos sectários e dos traidores, desejo-lhes uma boa viagem, é o partido com a base de militantes mais extraordinária, decente e representativa da sociedade portuguesa, mas fico no cais.

Para os que votam, votem bem. Eu voto bem, e voto Santana Lopes.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:38
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