Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

Quando vigariza um português, vigarizam logo dois ou três

2017-06-26 Solução lesados BES.jpg

"A geringonça, através do amigo do Primeiro-Ministro arranjou uma solução que se resume em ilibar vigaristas que venderam banha da cobra aos clientes bancários...", disse na sexta-feira no plenário do parlamento o deputado do PSD Carlos Silva pelo meio de muitos protestos e uma pateada das bancadas de PS, PCP, PEV e BE, a que respondeu "Pergunto ao Partido Socialista se o Dr. Ricardo Salgado não foi um vigarista?".

O deputado Carlos Silva, que conheci circunstancialmente há 4 anos e com quem privo regularmente e de quem me tornei amigo desde que há quase 2 me tornei militante da mesma secção do PSD onde ele milita, não tem modos de menino de coro, mas é aquilo a que se chama uma pessoa correcta e educada e, mesmo entre amigos e companheiros (é assim que se chama aos camaradas de partido no PSD) de partido, nunca lhe tinha ouvido usar o termo vigarista, e posso-lhe já ter ouvido dizer merda mas nunca o ouvi dizer caralho, o que pode ser útil para lhe aferir os modos, pelo que posso testemunhar que, para a medida dele, foi uma afirmação extraordinariamente violenta.

E a que se deveu esta violênca verbal que ele usou? Recuemos para tentar perceber.

A família Espírito Santo foi expropriada e expulsa de Portugal na ponta das baionetas durante o PREC.

Quando, uns anos mais tarde, o regime democrático saído da revolução, é um milagre sair de uma revolução um regime democrático mas, goste-se ou não delas, e deles, e especificamente deste, foi isso que aconteceu em Portugal, decidiu que seria mais útil do que pernicioso trazer de regresso a Portugal as famílias que tinham dominado a economia portuguesa no tempo do velho regime, e lhes proporcionou nos processos de reprivatização facilidades na recuperação do seu antigo património empresarial entretanto nacionalizado, a família Espírito Santo foi uma das que regressou e conseguiu recuperar o seu activo mais emblemático, o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, que depois rebaptizou Banco Espírito Santo.

E durante anos, e não sei se isto será o primeiro conto do vigário mas, se tiver sido, chamemos-lhe o conto do vigário número zero, a família recuperou a influência que antes tinha, não apenas pelo crescimento do Banco Espírito Santo até se tornar num banco de referência, ainda que não o maior dos bancos privados, mas também na tomada de posições do Grupo Espírito Santo noutros sectores igualmente estratégicos na economia portuguesa, tendo conseguido feitos heróicos como assessorar processos de privatização em que conquistava posições de accionista de referência através de trocas de participações com termos de troca milagrosos, ou de ver reconhecidos como projectos de interesse nacional empreendimentos turísticos com campos de golf em zonas de paisagem protegida onde durante décadas os proprietários tinham tido que penar o calvário da burocracia ambiental para conseguirem sequer substituir uma telha partida. Guardado estava o bocado para eles o comerem.

A este crescimento não terá sido alheio o modo exemplar como a família sempre se relacionou diplomaticamente com o(s) poder(es) político(s), nunca se viu alguém da família criticar um governo que fosse, qualquer que fosse a sua cor, e certamente que não da mesma cor da família, ao contrário de alguns empresários de referência de fortuna mais recente que nunca se coibiram de criticar, às vezes contundentemente, quem na política se lhes atravessava ou apenas não lhes reconhecia a importância que eles consideravam que mereciam ver reconhecida. Quem não se lembra das críticas cruzadas entre o empresário Belmiro de Azevedo e o líder da oposição Marcelo Rebelo de Sousa que escalaram a um nível que sugeria que nunca mais seriam capazes de dirigir a palavra um ao outro, de tal modo que as televisões chegaram a andar a entrevistar políticos para lhes perguntar justamente se alguma vez eles dirigiriam a palavra um ao outro, tendo o deputado do PCP António Filipe dado uma resposta de antologia que talvez ainda hoje se possa considerar como o pináculo do cinismo político, e também da lucidez, quando respondeu "depende de quem ganhar as eleições". Em todo o caso, questiúncula que nunca se poderia ter colocado envolvendo empresários com o savoir-faire dos da família Espírito Santo.

E o grupo foi crescendo, crescendo, até o seu líder Ricardo Salgado se ter tornado conhecido como o Dono Disto Tudo. Usufruindo de alguns favores do poder político que, como se viu acima, mereceu inteiramente. Ponto.

Mas, e agora entramos no domínio do primeiro conto do vigário, que cronologicamente é o segundo, o grupo cresceu mais do que tinha pulmão financeiro para crescer, até se ver na necessidade de se capitalizar para conseguir dispor de um fundo de maneio suficiente para gerir, sem deixar cair, o gigantesco império empresarial que passou a dominar.

E, esgotada a sua capacidade de endividamento pelas vias normais, o mercado, cujos agentes não costumam conceder crédito sem olhar para as contas de quem o solicita para avaliar se tem previsivelmente capacidade para o vir a reembolsar, começou a recorrer às vias anormais: o BES começou a colocar junto dos seus clientes, tanto de retalho, que acreditavam na solidez do banco aferida pelos reguladores, com o Banco de Portugal à cabeça, ou na confiança que depositavam nos seus gestores de conta, para guardar em segurança as suas poupanças, como de private banking, que acreditariam na capacidade da família Espírito Santo de multiplicar o seu investimento, assim como junto de grandes empresas do regime em cuja gestão tinha colocado ao longo dos anos gestores que lhe deviam favores, dívida do GES que não valia a ponta de um corno, porque o GES não tinha nenhuma capacidade para alguma vez a vir a reembolsar, prolongando assim artificialmente a vida de um projecto empresarial que estava morto.

Até se ter visto na necessidadede ir pedir ao governo que a CGD também lhe comprasse dívida incobrável, por azar durante a legislatura em que o governo foi liderado pelo Pedro Passos Coelho, que lhe disse que não. E, nesse dia, o castelo de cartas da família Espírito Santo ruiu, e deixou sem dinheiro todos os que, de boa ou de má fé, lho tinham confiado. Criando a legião de lesados do BES. Este foi o conto do vigário número um, que está mais do que documentado e analisado.

Até ter entrado em cena o primeiro-ministro António Costa.

Como é habitual nele, prometeu ao país uma solução milagrosa para resolver o problema dos lesados do BES, e só há uma solução para o problema deles, é reembolsá-los do dinheiro que confiaram ao BES para guardar ou investir, ou para o investir enganando-os e simulando que o ia guardar, e que a família Espírito Santo fez desaparecer nas suas aventuras empresariais, sem custos para os contribuintes. Mais um número de ilusionismo em que se parece conseguir tirar dinheiro da manga como se o dinheiro aparecesse por geração espontânea e não viesse de algum lado e de algum bolso. E como tem sido habitual nestes números de ilusionismo, convidou o seu amigo Diogo Lacerda Machado para o realizar.

E em que consiste o truque preparado pelo amigo do António Costa?

  • Institui-se um fundo privado, sem custos para os contribuintes.
  • Os lesados do BES, titulares de créditos no valor total de cerca de 430 milhões de euros, transferem para o fundo privado a titularidade dos seus créditos sobre a massa falida do BES.
  • O fundo paga-lhes por esses títulos de crédito valores que vão de 75% do valor do título com um máximo de 250 mil euros para títulos de valor inferior a 500 mil euros, a 50% para os títulos de valor superior a 500 mil euros. O custo total desta aquisição de créditos aos lesados do BES é de 258 milhões de euros. 
  • Para lhes pagar, o fundo vai obter um crédito junto da banca.
  • Quando for liquidada a massa falida e o fundo receber o que tinha a receber dos títulos de que os lesados lhe tinham cedido a titularidade, reembolsa o crédito obtido junto da banca, e se sobrar dinheiro ainda o distribui pelos lesados.

Parece impossível. De um ponto de partida em que os lesados não tinham qualquer esperança de reaver o que tinham investido, chega-se a um ponto em que os lesados serão reembolsados em percentagens que vão de 50% a 75%, dependendo dos valores investidos, podendo ainda ser maior se sobrar dinheiro no fim da liquidação. E isto sem recorrer ao dinheiro dos contribuintes. Sem contribuir para o deficit.

Parece, e é. Porque se a massa falida fosse suficiente para reembolsar os credores eles já teriam sido ou estariam para ser reembolsados, e não haveria sequer lesados do BES. A origem do problema reside exactamente no facto de a massa falida não ser suficiente para reembolsar os credores. E, não sendo a massa falida suficiente para reembolsar os credores, o fundo também não terá capacidade para liquidar o crédito obtido junto da banca para reembolsar os lesados que lhe transferiram a titularidade dos seus créditos sobre o BES. E não tendo o fundo essa capacidade, nenhum banco lhe concederá esse crédito.

Como se vai ultrapassar este problema que mataria a solução à nascença? O Estado, os contribuintes, vai conceder ao fundo uma garantia para avalizar o crédito obtido para reembolsar os lesados. O que significa que quando for feita a distribuição da massa falida e se verificar que o fundo não obteve dinheiro suficiente para reembolsar o crédito, a parte em falta será reembolsada pelo Estado. Pelos contribuintes. A contribuir para o deficit de daqui a alguns anos, tantos mais quanto mais tempo demorar a justiça a resolver o processo de falência. Que a solução para os lesados do BES não tem impacto no deficit este ano é verdade. Que não envolve custos para os contribuintes é o conto do vigário número dois.

E a coisa fica por aqui? Não fica. O acordo com os lesados do BES prevê que eles, além de cederem ao fundo a titularidade dos seus créditos sobre o BES, e de serem parcialmente reembolsados por essa cedência, também abdiquem do direito de litigar contra o Banco de Portugal, a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários e o Governo, assim como contra o BES e o Novo Banco, ou seja, contra as administrações destes bancos, incluindo a liderada pelo banqueiro Ricardo Salgado. Os lesados que adiram ao acordo não poderão colocar o banqueiro em tribunal pelos danos que lhes causou. Mas nada os impede de colocarem em tribunal os empregados de balcão, gestores de conta ou gerentes de dependência que lhes venderam os produtos financeiros que não puderam ser reembolsados. Quem lhes montou o conto do vigário fica ilibado, quem o devia ter impedido de os vigarizar através da regulação pela qual tinha responsabilidade também, mas não os funcionários que, pressionados pela gestão do banco para lhes venderem os produtos financeiros em causa de modo a atingirem os seus objectivos comerciais, podem vir a ser responsabilizados. É o conto do vigário número três.

E, chegados aqui, podemos, com conhecimento de causa, repetir em coro com o deputado Carlos Silva "A geringonça, através do amigo do Primeiro-Ministro arranjou uma solução que se resume em ilibar vigaristas que venderam banha da cobra aos clientes bancários". E, com o que já sabemos, até podemos afirmar que o banqueiro Ricardo Salgado não é o único vigarista que aparece nesta história, e que a pateada das bancadas da maioria tinha toda a justificação. Também eles estavam a defender vigaristas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:35
link do post | comentar
Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Procura-se!

2017-06-23 Fernanda Câncio - El Mundo.jpg

O Komissariado para a Reposição da Verdade sobre as Grandes Realizações do Socialismo e para a Denúncia dos Bandidos que as Difamam lançou uma caça ao homem sobre o jornalista que, cobardemente escondido por trás do pseudónimo Sebastião Pereira, escreveu no El Mundo que a reacção do governo português ao incêndio de Pedrogão Grande foi uma sucessão contínua de trapalhadas e omissões, e chegou mesmo ao descaramento de sugerir o derrube do nosso querido líder António Costa.

Um popular, membro das brigadas O Povo Está Atento, fez uma análise meticulosa ao pseudónimo do difamador e conseguiu identificar e denunciar que se tratava do célebre renegado Sebastião Bugalho, conhecido pelas suas torpes provocações à revolução socialista.

Como é próprio dos da sua laia, o cobarde nega os seus crimes.

Enquanto o governo decide se é preferível prendê-o para o investigar ou investigá-lo para o prender, deixamos aqui claro que no colectivo Gremlin Literário estamos com a revolução socialista, e a reacção não passará!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 08:30
link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 22 de Junho de 2017

Para que serve o SIRESP?

2017-06-22 Siresp - estacao_movel.jpg

O SIRESP do António Costa, e digo do António Costa porque foi ele que o adjudicou por 485 milhões de euros contra o parecer que tinha solicitado ao Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República de declarar nula a adjudicação feita pelo seu predecessor Daniel Sanches com o governo em funções de gestão e, portanto, sem competência formal para fazer uma adjudicação desta importância, custou, mais coisa, menos coisa, tanto como um dos dois submarinos do Paulo Portas, aqueles que imergem e emergem no parlamento e nos jornais em função das marés dos ciclos eleitorais.

Pelo custo do SIRESP teria sido possível disponibilizar a cada um dos seus cerca de 50 mil utilizadores potenciais um iPhone 7 com chamadas ilimitadas, e ainda um automóvel utilitário com alta-voz para evitarem telefonar ao volante.

Para que serve então o SIRESP, que justifique a exorbitância que nos custou e continua a custar?

Vou ver se consigo esclarecer a população sem recorrer a termos como "dispositivo" ou "meios", sem o jargão hermético que os especialistas usam para dar às pessoas de fora a impressão que lidam com conceitos tão complexos que não lhes vale a pena tentar sequer perceber, quanto mais dominar com auto-confiança suficiente para os criticar a eles, que os dominam.

A explicação para ser necessário montar uma rede própria sem dependência das redes comerciais já existentes e que servem mais do que satisfatoriamente os dez milhões de portugueses está no próprio nome do sistema, Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança em Portugal. Era necessário disponibilizar às forças responsáveis pela segurança do país, incluindo protecção civil e bombeiros, um sistema que assegurasse as comunicações em situações de emergência, em que as redes dos operadores comerciais de telecomunicações podem ter falhas, por exemplo por uma antena de retransmissão ser destruída por um fenómeno da natureza, um raio, por exempo, ou os cabos que asseguram a ligação das antenas à rede serem cortados por outro, um terramoto, por exemplo. Era necessário assegurar o funcionamento da rede em condições de emergência custasse o que custasse, e custou-nos 485 milhões de euros.

2017-06-22 Siresp - força maior.jpg

Tendo a sua existência baseada nesta necessidade, devia ser um bocadinho surpreendente que o contrato assinado entre o Estado e o consórcio tivesse a habitual cláusula 17ª - Força Maior * a isentar o consórcio de continuar a assegurar o funcionamento da rede nos casos de força maior,

  • "Constituem, nomeadamente, casos de força maior actos de guerra ou subversão, hostilidades ou invasão, rebelião, terrorismo ou epidemias, raios, explosões, graves inundações, ciclones, tremores de terra e outros cataclismos naturais que directamente afectem as actividades objecto do Contrato",

que correspondem, como é norma, exactamente às situações de emergência que justificam a existência do sistema, mesmo quando um oportuno raio cai do céu. É a cláusula de pára-raios.

Devia, mas não é, e por duas boas razões. A primeira é que o contrato tem a assinatura da Lintlakers, uma das mais reputadas sociedades de advogados a operar em Portugal, pelo que é de se presumir que todos os interesses do Estado, e os nossos, foram devidamente salvaguardados. A outra é que, com 60 anos, já não tenho a capacidade que antes tinha de me deixar surpreender.

Não se pense, no entanto, que por ter a salvaguarda da cláusula 17ª - Força Maior o consórcio se desobrigou de assegurar o funcionamento da rede, mesmo em casos de emergência. Para o assegurar, o consórcio dispõe de quatro estações móveis, as elegantes carrinhas ilustradas na fotografia desta publicação, mesmo se no Pedrogão Grande só uma estava operacional para substituir as antenas que ficaram desligadas devido ao incêndio, porque a outra das duas originais está avariada e as duas mais recentes ainda não estão equipadas para funcionar.

Os nossos 400 milhões que, em números redondos, o António Costa deu pelo SIRESP a mais do que teria custado recorrer a telemóves banais valem, se por outras razões não fosse, por estas quatro carrinhas. Por elas e por, certamente, terem feito alguém feliz. Na medida em que o dinheiro traz felicidade. Mesmo o dinheiro de sangue.

 

* Cópia do contrato roubada ao Carlos Guimarães Pinto no Facebook.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:07
link do post | comentar | ver comentários (15)
Domingo, 11 de Junho de 2017

Lembranças

2017-06-11 Lacerda Machado.jpg

Lembram-se porque é que, depois de uma laboriosa recuperação da falência pela administração do gestor Fernando Pinto, a TAP se voltou a estatelar numa nova falência, que teve como consequência a privatização, porque o Estado estava impedido pelas regras da concorrência de recapitalizar a empresa? Lembro-me eu.

No dia em que, esta gente não tem um pingo de vergonha e só será travada se a justiça um dia fizer o que tem para fazer mas quando ela está envolvida nunca tem feito, a raposa é nomeada para tomar outra vez conta do galinheiro, e é óbvio que os activistas do "Não TAP os olhos" não vão tugir nem mugir, porque o objectivo deles nunca foi a sobrevivência da TAP, mas sempre a do António Costa, vale a pena lembrarmo-nos todos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:10
link do post | comentar | ver comentários (1)
Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

Um pequeno passo para um governo, um gigante salto no abismo para o país

2017-06-09 Teodora Cardoso.jpg

Hoje o António Costa teve a sua maior vitória política da toda a legislatura.

Conseguiu que entidades independentes do governo, o Banco de Portugal e o Tribunal e Contas, cedessem à pressão que o governo e os partidos da maioria fizeram sobre eles para nomear para o Conselho Superior do Conselho de Finanças Públicas, não personalidades notáveis com um currículo técnica e eticamente inatacável, como a Doutora Teresa Ter-Minassien, a italiana do FMI que veio em 1983 salvar o país da falência resultante da irresponsabilidade financeira criminosa dos governos que o conduziram à inevitabilidade de um programa de assistência financeira internacional, alô, doutor Pinto Balsemão! mas dois conhecidos economistas da linha ideológica da Economia da Quimera, ou seja, daqueles que dizem que a austeridade é, não o estado natural de quem gastou todo o dinheiro que tinha e esgotou a capacidade de se endividar ainda mais para continuar a gastar, mas uma maldade dos credores que impedem a economia de crescer utilizando as mesmas fórmulas que antes a conduziram à depressão e à falência mas agora de certezinha que iria crescer, ou que deixar de pagar aos credores é uma opção viável, contando que quando for preciso mais dinheiro eles não deixarão de o continuar a emprestar.

Conseguiu que lhe propusessem para aprovação o economista Paul de Grauwe, que depois de ter sido conselheiro do presidente Durão Barroso na Comissão Europeia, o que já não constituía grande referência curricular, passou toda a legislatura anterior a fazer profecias idiotas como "Os portugueses é que estão a pagar aos alemães", "Portugal não deverá escapar a reestruturar dívida" ou "Portugal errou ao querer ganhar o concurso de beleza da austeridade", que poderiam perfeitamente ter sido ditas por outras sumidades do mundo do espectáculo como a actriz Catarina Martins ou o comentador Anacleto Louçã, e pelo professor Miguel St Aubynor, de que nunca ouvi falar, mas um dos autores do recente relatório sobre a sustentabilidade da dívida pública produzido pelo grupo de trabalho criado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda que, à falta de propor o calote aos credores, ou de lhes impor a renegociação à força para aumentar os prazos e reduzir os juros da dívida, propôs uma gestão da dívida no arame e sem rede, baseada em mais dívida de curto prazo, de juros mais reduzidos actualmente mas com exposição ao risco de aumentarem, e de mínimos históricos não há caminho que não seja o de começarem a aumentar, e de em qualquer crise de crédito não se conseguirem colocar emissões em volume suficiente para reembolsar as emissões que atingem a maturidade, ou seja, de falhar reembolsos.

Salvo as devidas proporções, conseguiu o equivalente a o PSD desistir de propor a deputada Teresa Morais para presidir ao Conselho de Fiscalização dos Serviços de Informações da República Portuguesa e propor em vez dela o comentador José Pacheco Pereira. Ou a nomear o economista Francisco Louçã para o Conselho Consultivo do Banco de Portugal. Que já lá está, aliás. Gente que assuma o papel, não de fiscalizar, mas de apoiar o governo. Alô, presidente Rebelo de Sousa?

A estratégia do primeiro-ministro é clara: impedir independentes de assumirem responsabilidades em entidades de fiscalização independentes, de modo a que a independência em demasia não as encoraje a levarem a sério as suas responsabilidades de fiscalizar quem fiscalizam, nomeadamente, o governo a que preside. Este risco é tanto mais elevado no domínio das finanças públicas quanto se percebe que o aumento da dívida líquida dos depósitos, que devia correponder ao deficit real por uma equação aritmética simples, tem andado a corresponder ao dobro do déficit contabilizado, o que indicia um elevado grau de criatividade na contabilização do deficit. Que é indesejável, na óptica de quem o calcula e apresenta assim, ver desmascarada.

E agora abro um parêntesis para dirigir uma pergunta a eventuais capitalistas que haja na plateia. E a respectiva resposta.

  • Querem deixar falir as empresas onde investiram o vosso dinheiro e perder o vosso investimento? Nomeiem para o Conselho Fiscal, não pessoas tesas e de contas certas que assumam a missão de estar lá para proteger o vosso dinheiro, mas pessoa simpáticas sugeridas pelo Conselho de Administração cujas contas têm, ou teriam, a responsabilidade de fiscalizar.

Portanto, e tendo uma noção do caminho que podemos tomar com probabilidade crescente com o esvaziamento das entidades de fiscalização independentes, o caminho que se toma quando elas fecham os olhos ao que deviam fiscalizar, vamos ter um Conselho de Finanças Públicas que, além de ser alvo permanente de apoucamento na figura da sua presidente pelos jagunços mediáticos do grupo parlamentar do PS, sempre apoiados, como se estivessem concertados, pelas piadolas oportunas do palerminha dos afectos, além de legiões de atrasados mentais que nas redes sociais manifestam incómodo pela dissonância entre a apresentação da senhora e as exigências da moda actual, tudo junto preparando o povo para não se indignar por, antes achar louvável, o governo mandar às malvas as críticas e recomendações do conselho e continuar a gastar o que tem e o que não tem, com os retoques contabilísticos para parecer que gasta pouco, mas acabando sempre por aparecer na dívida, onde o governo não tem capacidade, ou até tem mas é financeiramente mais sofisticado, alô swaps? para dar retoques, porque a dívida é o que os credores exigem contratualmente e não o que o governo decide dizer ao país que deve.

Demos então o salto no abismo. Mas sejamos felizes!

 

PS: Coloco aqui as figuras que servem para ilustrar a resposta a um comentário de um leitor que não sei como colocar na caixa de comentários, pedindo deste facto desculpa aos restantes leitores.

  • Recuperação do deficit ao longo da legislatura anterior

2017-06-10 Pordata deficit percent.jpg

O deficit passou de 11,2% em 2010 para 2,9% em 2015, tendo sido aumentado para 4,4% já na legislatura actual com o resgate do Banif decidido e concretizado pelo governo actual no final do ano. O valor de 2014 está afectado pelo empréstimo ao Fundo de Resolução para resgatar o BES, o banco do regime socrático, sem o qual o deficit teria sido de 4,5%.

  • Evolução da dívida pública nas últimas legislaturas

2017-06-10 Pordata dívida euros.jpg

A dívida pública aumentou 90 mil milhões de euros durante o governo do José Sócrates nos 6 anos de 2005 a 2011, ao ritmo de 15 mil milhões por ano. Aumentou 35 mil milhões nos 4 anos da última legislatura, ao ritmo de 8,75 mil milhões por ano, tendo sido o aumento em 2015 de 5,5 mil milhões. E aumentou 10 mil milhões no primeiro ano de governo actual do António Costa.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:14
link do post | comentar | ver comentários (5)

Doidas doidas, doidas andam as galinhas

2017-06-09 Metro Madrid piernas abertas.jpg

A Empresa Municipal de Tranportes de Madrid vai lançar uma campanha apoiada em sinalética, tenho que me ir habituando gradualmente a usar estes termos do novi-Português, para desincentivar os passageiros do Metro de Madrid de ocuparem um espaço excessivo nos lugares onde se sentam à custa da redução do espaço que fica disponível para os seus vizinhos de banco.

Estou cien por ciento de acuerdo, como diria o nosso primeiro-ministro que tanto tem inovado na língua Portuguesa sempre que abre a boca, é uma questão básica de civismo lado a lado com outras, como estar atento à entrada de passageiros com mais dificuldade de locomoção para lhes ceder o lugar sentado franzindo o sobrolho aos que fingem que não os vêem para não se levantarem, principalmente se apresentam sinais exteriores de terem sido educados num contexto social em que isso lhes devia ter sido devidamente ensinado. Ocupar mais do que um lugar, no Metro ou num parque de estacionamento, é uma falta de civismo e, para alguns, em que me incluo, um indício de deficiência, neste caso, mental.

Mas isto era bom demais se a história ficasse por aqui, nomeadamente tendo em atenção que a cidade de Madrid é governada pelo partido que ficou em segundo lugar nas eleições municipais, o Podemos, depois de o partido que as ganhou, o PP, ter sido impedido de governar o município por uma coligação negativa do Podemos com o PSOE, que, andando aos caídos depois de um passado glorioso, preferiu apoiar o bando de doidos que lá se instalou a deixar governar o partido eleito pelos madrilenos.

E quando digo "bando de doidos" sei que a minha credibilidade é diminuída pelo desamor que nutro por essa formação partidária criada com base no financiamento do regime bolivariano miserável e assassino em troca de assessorias de alguns dos mais ilustres dirigentes do partido em domínios como a organização e a propaganda, os filhos da puta deviam ser obrigados e viver na Venezuela para experimentarem ao lado do desgraçado do povo venezuelado as suas próprias ideas e conselhos, mas não posso deixar de usar a expressão porque se trata mesmo de um bando de doidos, de gente que nas redes sociais incentiva a tortura e o assassinato de adversários políticos, coisa que só não fazem porque lhes sobra em garganta o que lhes falta em, desculpem-me a expressão, tomates. Enfim, uma espécie de guerrilheiros urbanos do teclado.

Mas, regressando ao Metro, a campanha contra a utilização de espaço excessivo identifica um alvo preciso para a sua mensagem, os homens que se sentam de pernas abertas, que são caricaturados na sinalética e estão na base do hashtag, outra palavra do novi-Português que significa "palavra ou palavras sem espaços a separar precedidas de um #", ou almofadinha, como já lhe ouvi carinhosamente chamar, #MadridSinManspreading.

Chegado aqui, tenho que confessar que, apesar de ter sessenta anos de idade e mais de cinquenta de utente do Metro de Lisboa, já tinha dado pelo problema ocasional da falta de civismo de alguns passageiros que ocupam mais do que o seu próprio lugar, mas nunca por homens de pernas abertas. Ou por uma improbabilidade estatística, ou por os homens lisboetas sentirem menos necessidade de arejar os tomates que os madrilenos e manterem as pernas fechadas, os casos a que assisti foram de senhoras com sacos de compras ou a carteira pousados no banco do lado, ou pessoas muito gordas que parecia impossível caberem na largura que o banco lhes disponibilizava, por mais civismo que tivessem, e nunca os tais homens das pernas abertas. Nem senhoras, acrescente-se para repor a neutralidade de género. Mas, com a minha tradicional boa-fé, tenho de admitir que pode haver especificidades das cidades que resultem em que, numas, os homens gostem de se sentar de pernas abertas e, noutras, as prefiram trazer fechadas.

E fui investigar, lendo a notícia. E, boa notícia, não foi difícil identificar o motivo da especificidade. 

Diz a notícia que "La Empresa Municipal de Tranportes (EMT) incorporará un pictograma específico en el panel acompañado de la frase "respeta el espacio de los demás" y recoge así la propuesta del colectivo Mujeres En Lucha, que haces unos días inició la campaña #MadridSinManspreading para pedir al consistorio y a la Comunidad de Madrid que incorporara carteles contra esta actitud en los autobuses y en el metro, al igual que ocurre en otras ciudades como Nueva York o Tokio.". Ou seja, não foi uma qualquer comissão de utentes do Metro fartinhos de lhes ocuparem o lugar sem necessidade que sugeriu a campanha #MadridSinManspreading, mas um "colectivo", o "colectivo Mujeres En Lucha". Já se começa a parecer com um município governado pelo Podemos.

Diz também que o Ayuntamiento de Madrid se associou à campanha sugerida pelo colectivo e emitiu uma recomendação que pode bem ficar escrita na pedra, "por respeto a los demás, los usuarios masculinos no deben sentarse abriendo las piernas ocupando dos asientos". E por intermédio de que departamento? Do Departamento dos Transportes ou outro qualquer que garanta a articulação do ayuntamiento com a EMT? Não. Da Área de Políticas de Género y Diversidad. Num município Podemos é onde se tomam as grandes decisões. E diversidade não falta à recomendação, que estipula que os homens não se devem sentar de pernas abertas mas omite qualquer preceito para as mulheres, que assim se podem sentar com as pernas como muito bem entenderem.

E agora? perguntam-me os leitores mais sensíveis às questões da igualdade de género, temos aqui uma recomendação que pode criar situações de desigualdade por permitir às mulheres abrirem as pernas nos lugares sentados onde os homens têm que as fechar?

A pergunta é pertinente. Mas a resposta é fácil, e foi dada por "una de las ideólogas de la campaña" a senhorita Alejandra de la Fuente: "es una práctica que también realizan mujeres, pero es en una medida ínfima comparada con los hombres porque es una cuestión de cómo nos han educado. A nosotras siempre nos han dicho que debemos ocupar el menor espacio o a que se nos vea lo menos posible y a ellos no". As espanholas foram educadas para fecharem as pernas para não se lhe verem as partes, de modo que não há o risco de as abrirem, mesmo sendo-lhes permitido. Já os espanhóis, em contraste, abrem-nas se lhes for permitido, sendo a ideóloga omissa na explicação de as abrirem por terem sido educados para mostrar as partes ou simplesmente por usarem calças que as tapam melhor do que as saias.

O que não lhes ensinaram, às espanholas como ela ou as colegas do colectivo Mujeres En Lucha, foi a manter a boca fechada quando não têm nada para dizer, para evitar a emissão e propagação de asneiras. Elas e eles, não me vá aparecer aqui algum colectivo a fiscalizar os textos à procura de conteúdos sexistas. Mas não era a mesma coisa, e não teríamos a oportunidade de verificar numa experiência de laboratório o modo como esta gente é capaz de transformar uma grande cidade num manicómio à sua imagem.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:07
link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 6 de Junho de 2017

O óbvio é inimigo do provado

2017-06-05 Manuel Pinho cornos.jpg

É óbvio que a EDP obteve benefícios avultados do regime dos CMEC que lhe foi concedido pelo governo do José Sócrates.

É óbvio que a bolsa para leccionar uma cadeira na Universidade de Columbia concedida ao ministro Manuel Pinho quando saiu do governo (por ser parvo, sublinhe-se) é uma compensação por ter beneficiado a empresa enquanto foi governante, mesmo se não é tão óbvio como as nomeações para presidentes das empresas que fizeram enriquecer dos ex-ministros Ferreira do Amaral e Jorge Coelho.

O que não é tão óbvio é que haja matéria para uma condenação judicial dos envolvidos, mesmo se é apetecível vê-los condenados por ser óbvio que prevaricaram beneficiando a empresa e beneficiando-se a si próprios, e prejudicando todos os consumidores.

É que a justiça não condena pelo que é óbvio, condena pelo que é provado, e para provar a ligação entre dois factos é necessário mais do que a verificação de ela ser óbvia e de eles se terem sucedido um ao outro no tempo. Aliás, se funcionasse pelo que é óbvio, ou pelo que é óbvio para muita gente, muita gente considera obviamente corrupto o Pedro Passos Coelho, no entanto o mais honesto ex-primeiro-ministro de Portugal e o único que leva uma vida, e acumulou um património, de classe média, e ele poderia bem ser condenado por corrupção.

E provas de que os factos estão ligados por correntes de corrupção podem, por exemplo, consistir em registos de promessas, concretas (se isto correr bem a gente concede-te uma bolsa) ou mesmo genéricas (se isto correr bem para a gente também corre bem para ti), dos gestores da empresa aos governantes de que seriam beneficiados se o negócio se concretizasse. Não a minha convicção, que é de que estão mesmo ligados, ou a vossa.

De modo que os que têm uma confiança infinita nos agentes da justiça para moralizar a rebaldaria em que se deixou impunemente, também pela passividade da justiça, transformar a relação entre os negócios e a política em Portugal podem acreditar que efectivamente a justiça tem provas das suspeitas que tornou públicas ao fim destes anos todos e vai entregar ao tribunal um processo à prova de bala que resultará em condenações judiciais dos criminosos. Eu, que não a consigo ter, acredito que as têm se, e quando, as vir.

Se não tiverem é pena, porque mais uma vez os criminosos continuarão impunes.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:34
link do post | comentar
Sexta-feira, 2 de Junho de 2017

Justiça e liberdades

Há décadas atrás, o advogado António Pinto Ribeiro foi o rosto mais mediático do Forum Justiça e Liberdades, uma associação de advogados que se dedicava a denunciar abusos e arbitrariedades da justiça e do estado portugueses que punham em causa direitos fundamentais e liberdades de cidadãos. Entretanto, o advogado transformou-se numa figura do regime, pelo menos nas suas fases socialistas, ora como administrador não-executivo de empresas com capital público, ora como governante, e o Forum deixou de ter uma voz pública para além de referências melancólicas em entrevistas. Que, aliás, vale a pena ler.

Mais recentemente tem germinado em Portugal um populismo judicialista, a reboque de a justiça ter passado a perseguir, às vezes exemplarmente, o que significa mais do que a medida certa e recorrendo a truques baixos que passam para além do rigor e da lealdade processual que deve ser característica da administração da justiça, alguns, repito, alguns, dos ricos e poderosos que durante décadas ela própria deixou andar descaradamente impunes.

Ter passado de os deixar impunes a persegui-los foi uma grande vitória da sociedade, mesmo se se pode suscitar alguma dúvida sobre a bondade da motivação para esta mudança, se se terá devido à nobre preocupação de fazer justiça? ou à menos nobre de limpar uma imagem pública de tolerância excessiva construída ao longo de décadas de passividade ou, pior ainda, de concessão implícita de imunidade pela mesma justiça que agora se mostra dura?

Mas a euforia com que a sociedade tem acolhido este recente rigor na perseguição aos ricos e poderosos pelos mesmos que até há poucos anos lhes davam rédea solta, e é preciso perceber que a primeira é a consequência directa da segunda, também a tem encorajado a fechar os olhos a abusos que a justiça continua a cometer. Como se os bananas que antes se desprezavam por fechar os olhos ao crime se tivessem transformado por milagre em justiceiros exemplares em quem se deve confiar cegamente e que é censurável criticar.

Quem é que, por fazer críticas à violação do segredo de justiça, que é um crime, pela própria justiça (e pelo menos as violações feitas em fases processuais em que só a justiça tem acesso ao processo são mesmo feitas pela justiça), nunca ouviu respostas como "agora estás a defender os pedófilos?" ou "agora és amigo do Sócrates e ele é um anjinho e a justiça é que é má?"? Ou aos avisos de que alguma justiça, a que salta para o palco mediático a divulgar a torto e a direito suspeitas e suposições como se fossem factos provados, parece mais esforçada em obter condenações na opinião pública, onde é fácil acreditar em tudo o que pareça plausível e confirme suspeitas prévias, do que nos tribunais, onde as suspeitas e suposições não passam disso e não têm valor se não forem provadas, e que a consequência disto é a censura social mas a imunidade judicial dos suspeitos? Eu ouvi.

Quem é que vê alarme social quando magistrados apanhados a cometer crimes em casos de corrupção mediáticos em que os restantes implicados são constituídos arguidos, acusados e, se a justiça acabar mesmo por funcionar como agora sugere que funciona, condenados em tribunal, são retirados do processo e alvo de processos autónomos que os tribunais superiores sistematicammente prescindem de levar a julgamento, oferecendo-lhes corporativamente uma impunidade que não está no espírito nem na letra da lei? Eu não vejo, excepto nalgumas das publicações que eu faço aqui e têm as mesmas consequências que o discurso de um bêbedo a um candeeiro de rua a altas horas da madrugada.

Quem é que se indigna com o facto de crimes económicos e fiscais, em que só está em causa dinheiro, receberem em tribunal condenações mais pesadas que muitos crimes de sangue, e dos mais terríveis, como violações ou homicídios, o que é o outro lado de os crimes de sangue serem penalizados de forma mais leve do que os crimes de dinheiro? Uma ínfima minoria, a das pessoas excêntricas como eu que dão mais valor à integridade e à vida humanas do que ao dinheiro, e logo são esmagadas pela censura dos que, ou porque atribuem aos crimes económicos as consequências mais terríficas que merecem as penalidades mais radicais, ou porque consideram que não se perde grande coisa quando se perdem vidas, consideram a indignação aberrante e os tribunais virtuosos.

Etc, etc, etc...

Qual é o segredo deste populismo judicialista que endeusa os magistrados e censura qualquer crítica que se lhes faça ou sequer dúvida sobre a excelência do trabalho que fazem? É o mesmo de todos os populismos. Parte de um problema sério que as pessoas levam a sério, a impunidade judicial dos ricos e poderosos, promete-lhe uma solução, passar a puni-los duramente, e usa muita comunicação para credibilizar a promessa com base na autenticidade do problema, e não na capacidade de o resolver. De tão entusiasmadas com a promessa de mudança, as pessoas não se dão à maçada de duvidar dela para perceber se é promessa credível ou enganosa, nesta caso específico nem sequer de reparar que a promessa de erradicar o problema vem dos mesmos que o causaram, e têm raiva a quem se dá. Com mais atenção, a credibilidade percebida da promessa assenta na presunção de que os que prometem são tão íntegros e capazes que conseguirão cumprir. Presunção que não é necessariamente comprovada pelos factos.

E qual é o resultado esperado desta inflexão da justiça no sentido de perseguir duramente quem antes deixava seguir em paz? É conseguir garantir condenações nos jornais, mas não necessariamente nos tribunais. Sendo que esta última não é muito grave se entretanto se conseguirem enumerar boas desculpas, como os excessos de garantismos da lei que os políticos eleitos fizeram, ou os alçapões que lhes deixaram, ou a falta de meios racionados pelos políticos austeritários. Ou melhor, é grave, porque a justiça continuará a não funcionar, mas não para os populistas que a prometem, porque a culpa cai em cima dos políticos.

O normal dos populismos.

Entretanto, no mundo real, vão sendo cometidos atentados a direitos fundamentais e às liberdades de cidadãos, nomeadamente à liberdade de expressão.

Do lado dos políticos, o José Sócrates tornou-se lendário por mandatar os advogados mais ilustres para colocarem processos judiciais pedindo indemnizações milionárias que arruinariam qualquer cidadão comum para aterrar os jornalistas que o criticavam. Surpresa nenhuma, é de políticos como ele que contamos com os magistrados para nos defenderem, e a boa notícia é que defenderam mesmo, os jornalistas acabaram absolvidos, e a liberdade de expressão acabou por vingar.

E do lado dos magistrados? Os magistrados também processam com pedidos de indemnização milionários jornalistas que os criticam. Mais requintado ainda, processam os jornalistas e as mulheres deles. A má notícia é que, sendo estes processos julgados por colegas dos magistrados que os colocam, a liberdade de expressão é atirada às malvas e os jornalistas, e as mulheres deles, acabam por ser condenados em tribunal.

A boa notícia são duas.

Uma, que o Tribunal Europeu, a que os cidadãos condenados pelos tribunais nacionais podem recorrer quando acham que não lhes foi feita justiça, tem privilegiado sistematicamente a liberdade de expressão ao direito dos estadistas e dos magistrados de não serem criticados pelos outros cidadãos. E tem condenado o estado português por desrespeitá-la.

Outra, que o advogado Francisco Teixeira da Mota, que já tinha intervenção pública no tempo do Forum Justiça e Liberdades, em que era impopular fazê-lo, também para denunciar abusos da justiça e do estado e atropelos aos direitos fundamentais e à liberdade dos cidadãos, continua a tê-la, agora que é de novo impopular fazê-lo. E vai dando conta dos casos que vê. Faz mais pela exigência de rigor na administração da justiça portuguesa sem o qual ela não faz justiça do que os justiceiros que dão espectáculo nos jornais em vez de trabalharem para obter condenações em tribunal e os que vêem neles a salvação.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:12
link do post | comentar | ver comentários (4)
Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

A bolsa ou a vida? Para a justiça portuguesa, a bolsa...

2017-05-25 Oliveira Costa - Marido a machado.jpg

Eu bem sei que depois de décadas da mais absoluta impunidade dos corruptos, dos poderosos e dos ricos, a população estava sequiosa de alguém que lhes pusesse a mão em cima.

Eu bem sei que a justiça portuguesa, num sentido lato que abrange desde os legisladores, aos orgãos de investigação criminal, às magistraturas, estava condenada ao descrédito absoluto se não desse um golpe de rins nesta impunidade que deixou correr ao longo de décadas.

Eu bem sei que nos últimos anos a justiça arrepiou caminho e começou a perseguir alguns dos realmente corruptos, dos realmente poderosos e dos realmente ricos, não tenho a certeza se, por vezes, não ultrapassando a boa administração da justiça para montar um espectáculo mediático à base de violações do segredo da justiça, de entrevistas a magistrados que deviam permanecer discretos e têm poderes que dispensam a popularidade, e da ampla divulgação de meras suspeitas da investigação ou hipóteses por provar como se fossem as acusações solidamente provadas.

Eu bem sei que neste tempo novo judicial em que a justiça passou a perseguir os corruptos, os poderosos e os ricos, quem critique a justiça ou questione se ela não ultrapassa por vezes os limites da legitimidade e mesmo da legalidade neste espectáculo mediático corre o risco de ser apontado como lacaio ao serviço dos corruptos, dos poderosos e dos ricos por todos os que passaram décadas a ambicionar vê-los um dia ser perseguidos e para quem qualquer condenação é sempre insuficiente para o que considera que eles merecem.

Eu bem sei que qualquer iniciativa de legisladores no sentido de impedir ou limitar os abusos, se é que os há, da investigação criminal será fulminada pela suspeita pública de constituir uma tentativa de os políticos se protegerem uns aos outros, o que constitui um incentivo muito sério para deixar correr a administração da justiça tal e qual ela está.

Mas, porra!*, não há mais ninguém que ache uma inversão de valores aberrante, perversa e mesmo desumana, autores de crimes de colarinho branco que não atentaram contra mais do que o dinheiro dos outros, ou o de todos nós, e por múltiplos e maiores que possam ser os crimes contra o dinheiro que tenham cometido, serem condenados judicialmente a penas mais pesadas do que autores de crimes horríveis contra a vida? Mais ninguém acha que se está a valorizar mais o dinheiro do que a vida?

Eu acho, e sinto nojo por isso.

 

* Para quem sabe que sou um minhoto de raízes e coração, caralho!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 17:40
link do post | comentar | ver comentários (6)
Terça-feira, 23 de Maio de 2017

A arte de viver (e sobreviver) fora do Procedimento por Deficit Excessivo

2017-05-22 PDE Público.jpg

A Comissão Europeia tornou pública ontem a recomendação de retirar Portugal do Procedimento por Deficit Excessivo (PDE).

Talvez não fosse essa a intenção do jornal que hoje em dia mais se aproxima da função que um dia foi assegurada pelo Acção Socialista, mas, de tudo o que foi ontem publicado sobre o tema, os dois títulos que melhor sintetizam os desafios que esta retirada nos colocam são justamente do Público: "Portugal cresce e fica hoje sem alguns travões de Bruxelas. E agora?" e "Centeno feliz: Vamos poder fazer o que não podíamos fazer até agora".

Estes títulos significam que se podem dar os parabéns ao governo socialista, porque sem o policiamento de proximidade do Eurogrupo e das instituições europeias, sem "travões", vai ter mais liberdade para fazer as vontades aos partidos que o sustentam, PS incluído, se não fazendo crescer o deficit, já que é mais fácil controlar o deficit através de artifícios contabilísticos, e tem sido historicamente feito com requintes de fenómeno do Entroncamento pelos governos socialistas, do que controlar a dívida, até porque a dívida não é só contabilizada e divulgada pelos devedores mas também pelos credores que são tradicionalmente relutantes em esquecê-la ou perdoá-la, acumulando dívida a um ritmo ainda maior do que tem vindo a acumular. E que em 2016 já foi bastante superior a dois vírgula tal por cento do PIB.

Aliás, os partidos que sustentam o governo no parlamento não perderam tempo a apresentar exigências para que, uma vez que o deficit contabilizado deixou de ser excessivo, se utilize a folga na vigilância orçamental das instituições europeias para o fazer elevar de novo à categoria de excessivo. E, sem travões, esta gulodice é irresistível e vai ser satisfeita na medida em que o governo a consiga satisfazer.

Pelo que é algo duvidoso que, mesmo se o governo português está de parabéns, os portugueses também estejam, nomeadamente as gerações mais novas a quem vai calhar no fado servir e pagar a dívida que a nossa geração lhes está a deixar.

  • Deixando de ter o travão do controlo mais apertado das instituições europeias decorrente do PDE, quem vai defender os interesses dos contribuintes, nomeadamente das próximas gerações, desta voracidade de os depenar para comprar apoios e votos no curto prazo?

As entidades independentes, como o Banco de Portugal e o Conselho de Finanças Públicas, podem dar uma boa ajuda.

Em teoria, porque na prática já se percebeu que o governo, além de as procurar ridicularizar sistematicamente perante a opinião pública do modo grosseiro que é o seu, e é decalcado dos modos e da educação do primeiro-ministro, e de o presidente da república não mexer um dedo para o confontar com aquilo onde outros vêem uma intolerável falta de respeito institucional por essas entidades e em vez disso ir também soltando a sua piadinha ocasional sobre elas, está também a fazer o que está ao seu alcance, que não é tudo, mas é alguma coisa, para bloquear o seu funcionamento, nomeadamente pela recusa em nomear para as constituir e dirigir personalidades que não façam parte da sua maioria de sustentação parlamentar. Também sem qualquer reacção do presidente da república, pelo que a eficácia das entidades independentes vai ser reduzida a nível de não terem capacidade para defender os contribuintes.

Terão que ser eles próprios, os contribuintes, ou a opinião pública, a publicada esforça-se mais por apoiar entusiasticamente o governo, ou por agenda política ou porque isso a beneficia em interesses onde o governo tenha uma palavra a dizer, do que os contribuintes.

  • E o que podem os contribuintes fazer para fiscalizar um governo socialista sem travão?

A medida que tradicionalmente é mais observada para avaliar a sustentabilidade das finanças públicas é o deficit público.

  • Mas será o deficit público a medida que deve ser acompanhada com mais cuidado?

O último governo socialista, de que fizeram parta grande parte dos governantes actuais, conseguiu demonstrar que é possível ir apresentando deficits públicos razoáveis até à iminência de uma catástrofe.

O deficit é, como os resultados negativos nas empresas, um indicador contabilístico calculado de acordo, mas o acordo pode ser mais ou menos fiel, com um conjunto de normas e critérios. Uma empresa pode, com as mesmas despesas e receitas mas ajustando critérios contabilísticos, apresentar resultados diferentes em função do que lhe for mais vantajoso: quando faz uma compra, se e a sua maior preocupação for reduzir os impostos, contabiliza a compra como custo e reduz o resultado; se a sua maior preocupação for o marketing financeiro dirigido aos accionistas e bancos, contabiliza-a no imobilizado e apresenta um resultado melhor. Os governos têm a mesma flexibilidade, e os governos socialistas têm provas dadas de que conseguem dar a volta ao deficit, mesmo quando são controlados pelas instituições europeias.

Não é, pois, acompanhando cuidadosamente a evolução do deficit público apresentado pelo governo socialista que os contribuintes portugueses vão conseguir detectar riscos de catástrofes a tempo de as evitar. O deficit público não é suficientemente eficaz como sinal de alarme para evitar catástrofes financeiras.

E, sendo a causa inegável de problemas de sustentabilidade das finanças públicas, gastar mais do que se ganha origina problemas no futuro, quer seja a uma dona de casa, a uma empresa ou a um governo, o deficit público também não é "o" problema em si. Se eu gastar mais do que ganho até consigo ter uma vida melhor, e ter uma vida melhor não é para mim um problema. Se alguém me oferecer o que gasto em excesso do que ganho, não é até problema nenhum, é, pelo contrário, um prazer. O problema é que, se ninguém mo oferece, tenho que me endividar para o financiar, o que também não é em si um problema, apenas mais uns envelopes com contas todos os meses na caixa do correio. O problema real é que um dia terei mesmo que pagar a dívida. Não em percentagem do meu rendimento nessa altura, mas em euros.

Pelo que, se os contribuintes portugueses querem doravante incrementar a vigilância sobre a sustentabilidade financeira da acção de um governo com apetência e estímulos para ser populista, e tentar compensar a redução da vigilância das instituições europeias decorrente da saída do PDE, devem observar com o máximo cuidado, não o deficit público, que o governo pode facilmente manipular para lhe dar aparência de controlado, mas a evolução da dívida pública, que representa precisamente o ónus que eles e as gerações futuras terão que suportar pelos excessos populistas dos governos actuais e passados.

  • Querem ver uma aplicação deste critério à execução orçamental de 2016?

Em 2016 o governo português conseguiu um déficit público de dois vírgula poucos por cento. Merece que lhe dêem os parabéns!

Em 2016 a dívida pública de que os portugueses têm que pagar os juros e terão um dia mais tarde que reembolsar cresceu 9,5 mil milhões de euros, ou seja, cerca de 5% do PIB. Mil euros por português, três mil para um agregado familiar de três pessoas como o meu, seis mil para uma família numerosa com quatro filhos. Merecem que lhes apresentem os pêsames.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:05
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Don’t try to have the last word. You might get it....
Se calhar não percebeu.E o seu interesse por espre...
A PGR era Cândida de Almeida, conhecida por arquiv...
O seu interesse pelo meu nome de baptismo faz-me l...
Ho f. bai-te f., primeiro vamos tratar de identifi...

Arquivos

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter