Sábado, 24 de Junho de 2017

Heterónimos sebastianistas

Primeiro foi Hélder Ferreira a confessar que era Sebastião Pereira; a seguir veio Vítor Cunha; de imediato Fernando Melro dos Santos; e finalmente Pedro Correia. Depois surgiram avatares como cogumelos, todos pouco plausíveis e evidentemente oportunistas.

 

Pedro Correia nega a autoria do ominoso texto que saiu no El Mundo a dois dos outros, que reivindica ostensivamente para si. Que pensar?

 

Vejamos: Hélder foi denunciado há tempos por Pacheco Pereira como sendo um indivíduo de extrema-direita que se exprime recorrentemente em artigos com inadmissível falta de respeito pelas autoridades; Vítor Cunha escreve no Blasfémias, um blogue tolerado em nome da política oficial de liberdade de expressão mas que é na realidade um coio de personalidades antissociais; Pedro Correia é conhecido pelo seu incansável labor na publicação de trabalhos e notas sobre livros, música, cinema, blogosfera, assuntos da actualidade, actividade que todavia disfarça mal as suas simpatias pelo PSD, as quais ocasionalmente se atreve a confessar; e Fernando Melro dos Santos roça perigosamente a criminalidade, felizmente em artigos inacessíveis, pelo hermetismo da redacção, à compreensão da juventude, que pretende transviar para doutrinas individualistas, liberais e anárquicas.

 

Toda esta gente partilha uma visceral aversão ao Poder consagrado nas urnas, entre muitas outras razões porque não o foi; está irmanada numa acidental negação do brilhantismo de Fernanda Câncio, tida como dona do nariz com mais visibilidade no espaço da opinião pública, ainda que segundo muitos encimando uma boca que expele com regularidade asneiras, o que aliás só lhe reforça o encanto; e pertence ao espaço do que, com grande latitude, se pode chamar a direita, aquela parte do espectro político que é responsável pelas injustiças ainda presentes na nossa sociedade e pelo relativo atraso do país.

 

É provável que as pessoas, perplexas, concluam que não podem todos estar a falar verdade na reivindicação da identidade de Sebastião Pereira. Mas sem razão, porque estes quatro nomes se inserem numa tradição portuguesa, bem firmada, de personalidades múltiplas, da qual os exemplos mais conhecidos são Fernando Pessoa e Miguel Abrantes. Muito diferentes entre si (o primeiro sabia escrever e o segundo recebia subsídios), nem por isso estes percursores deixaram de estabelecer ontologicamente a possibilidade de um autor com diferentes personalidades e várias personalidades com a mesma identidade.

 

Creio ter cabalmente esclarecido o mistério e com isso prestado um serviço à comunidade e a Fernanda, à primeira satisfazendo a curiosidade legítima e à segunda libertando-a para se dedicar à defesa do injustiçado Sócrates.

publicado por José Meireles Graça às 16:12
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Fogos políticos

Muitos especialistas em ideias gerais, categoria a que pertenço num lugar de merecido anonimato, pronunciaram-se publicamente desde o princípio do incêndio de Pedrógão Grande e foram num crescendo até ao rescaldo. Presumivelmente, continuarão.

 

Helena Matos, Maria João Marques, José Manuel Fernandes, Rui Ramos, Henrique Raposo, muitos outros menos conhecidos, tiveram palavras de perplexidade e indignação contra o desastre da Protecção Civil, a anedota obscena do SIRESP dos 500 milhões, a actuação inacreditável da GNR, as manobras de contenção de danos de imagem por parte de Costa e da sua patética ministra da Administração Interna, a inépcia ostensiva do presidente da Liga dos Bombeiros, o desequilíbrio histórico entre os gigantescos recursos públicos afectos ao combate a incêndios e as migalhas guardadas para a prevenção... tudo isto e muito mais, quem quiser que procure os textos destes e doutros no Observador, no Facebook, no Insurgente e no resto da blogosfera e imprensa.

 

Perplexidade desde logo porque não deve ter escapado à argúcia do espectador médio que a presença obsessiva do primeiro-ministro, da ministra da Administração Interna, do secretário de Estado que com ela disputava a visibilidade pública, todos encafuados no posto de comando, não podia senão agravar a confusão: a condução política de uma situação de calamidade pertence ao poder político; e a operacional ao comando, que aliás ficamos a perceber não é sequer unificado. E perplexidade também porque todas as declarações de responsáveis afinaram pelo mesmo diapasão: as causas são naturais, o que aconteceu foi inesperado, os meios estiveram à altura com um ou outro pequeno contratempo e o combate abnegado.

 

Subscrevo quase tudo o que aqueles três colunistas escreveram. E não duvido que subscreverei também o que vierem a dizer Vasco Pulido Valente e Alberto Gonçalves, se e quando lhes calhar pronunciarem-se sobre o Portugal oficial, institucional, político, que estadeou em directo na televisão para perplexidade dos cidadãos, por alguns dias afastados de concursos, futebóis, telenovelas e vidas dos famosos, e estarrecidos por perceberem que aquela gente a quem o Estado falhou e que perderam uns vidas, outros bens, e os restantes a paz, poderíamos ter sido nós.

 

O presidente da Republica deu o mote, logo no dia 18, declarando que "o que se fez foi o máximo que se podia fazer". A afirmação era pornográfica no contexto, e mesmo que mais tarde a tentasse corrigir, quando o número de mortos começou a escalar, terá tido um, provavelmente inconsequente, efeito, o de um número indeterminado de portugueses se ter começado a aperceber da incurável superficialidade e do porreirismo imbecil da personalidade que elegeram.

 

Outros efeitos terá tido esta tragédia. Pode parecer um exercício cínico conseguir ver algum lado que não seja esmagadoramente trágico nos mais de 60 mortos, mais de 200 feridos e um número indeterminado de desaparecidos, mas não: o melhor serviço que podemos prestar à sua memória é que não tenham morrido em vão. E como a legislação que regula a propriedade e todos os aspectos da prevenção e combate de incêndios é a moldura necessária para qualquer reforma, e as alterações decorrerão não de um unanimismo impossível mas de escolhas políticas, convém perceber como estamos. Eis alguns aspectos:

 

i) O PCP e o Bloco distinguiram-se todo este tempo por um impressionante silêncio. Parece que Catarina Martins implorou no twitter, imagina-se que intimamente a um xamã da sua devoção, por chuva; e o bom do Jerónimo, já quase no rescaldo, disse umas coisas anódinas; mas foi tudo. O contraste entre esta contenção e o berreiro que atordoaria o país caso não fossem aliados do governo, de mais a mais liderado por um político profissional que tem pesadas responsabilidades passadas tanto nos escândalos ligados a meios (SIRESP, helicópteros KAMOV) como na forma como (não) foi posto em prática o famoso Relatório de 2005 elaborado pelo Instituto Superior de Agronomia, escancaram perante quem não for indefectível apoiante daquelas agremiações o seu carácter basicamente oportunista. Tanto o PCP como o Bloco têm um discurso de superioridade moral em relação aos outros partidos, que este tacticismo desmente.

[O texto do Relatório é de difícil leitura, por estar redigido em catedratês, mas as melhores vozes de técnicos (Paulo Fernandes, António Salgueiro, as dezenas de participantes no estudo, o próprio Coordenador, Cardoso Pereira) ou de amadores - classificação dele - esclarecidos (como Henrique Pereira dos Santos, que tem feito um trabalho notável de divulgação dos problemas do abandono do campo e da floresta, do ordenamento do território, fogos e seu combate, meios, organização, soluções, etc.) lamentam que tivesse sido amputado, desfigurado e só muito parcialmente aplicado].

ii) No comentariado de esquerda a tónica foi, declinada em textos sentimentais quando não piegas, a de que discutir o assunto de Pedrógão Grande era inoportuno enquanto não acabasse o incêndio e um não especificado período de nojo; e que a crítica às evidentes falhas da Prevenção Civil, e de modo geral à barafunda da gestão desta crise, era uma grande falta de respeito pelos mortos e pelos soldados da paz e uma precipitação, por o ambiente não ter aquela serenidade que as grandes decisões profícuas exigem. Daniel Oliveira, por exemplo, tem um texto (falo de memória) nesse sentido, adequadamente replicado nas redes sociais por quem navega nas mesmas águas governamentais. Miguel Sousa Tavares aproveitou, na televisão, para exorcizar alguns dos seus fantasmas e declarou, peremptório, que a culpa era de Cavaco Silva e Álvaro Barreto, o primeiro porque acabou com a agricultura e o segundo porque promoveu o eucalipto. Que o abandono dos campos era inelutável, com ou sem Cavaco, e que tal facto foi positivo para os fugitivos, não lhe ocorre, e que haja muito boas razões para não vilipendiar o eucalipto também não. Sousa fala muito com o coração de esquerda, uma víscera que usa com frequência em lugar da cabeça.

Não é provável que este silêncio se mantenha mas o seu carácter interesseiro, e não generoso e nobre, decorrente do incómodo de saberem que o Governo não está isento de culpas sérias, de algum modo pode ter passado para a opinião pública ofuscada pelo bombardeio da propaganda de um governo supostamente eficaz.

iii) O senso comum não chega para perceber as causas dos incêndios, mas os culpados tradicionais, e que aliás vão mudando (madeireiros, fogueteiros, incendiários, celuloses, mais recentemente alterações climáticas) têm vindo a ser substituídos, à medida que sucessivos técnicos vão sendo entrevistados e lidos, pela conclusão de que a fuga dos campos, e o correspondente abandono da exploração dos subprodutos da floresta, com a inerente proliferação de matos secos que não são limpos, é que está na origem da gravidade dos incêndios. Vão continuar a ouvir-se estas pessoas quando acabar a época dos incêndios e vier outra novidade qualquer que excite e comova a opinião pública? Seria vantajoso para o Governo que assim acontecesse. Há porém muitas vozes, mesmo entre os técnicos, mesmo em comentadores ditos de direita, como Lobo Xavier, que defendem formas de atropelo ao direito de propriedade que, podendo ser necessárias para a eliminação do perigo de incêndio, comportam oportunidades para a gestão pública, companhias majestáticas, lugares de nomeação política, prebendas e gestão ruinosa. Numa palavra, oportunidade para socialismo de contrabando, isto é, que não resulta de escolha consciente. E essa perspectiva pode talvez manter o assunto na actualidade.

 

É desejável que o assunto não saia do radar da opinião pública por três razões: uma é que o problema da época de incêndios precisa de ser resolvido, como já o foi noutros lados, não tanto para que nos livremos completamente deles (coisa que, aliás, segundo o melhor entendimento, não é sequer possível ou desejável) mas para que nos poupemos tragédias evitáveis e prejuízos escusados; outra é que nas várias soluções, ou mistura delas, para o inevitável ordenamento do território, fique claro que há escolhas que ofendem mais, e outras que ofendem menos, a racionalidade económica e o direito de propriedade; e a terceira é que aqueles mortos que serviram em vida para pagar impostos e ansiavam talvez por uma selfie com Marcelo têm direito a que se lhes honre a memória não com evocações líricas mas com a certeza de que não haverá novos defuntos pelas mesmas razões.

publicado por José Meireles Graça às 12:33
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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

Ronaldismos

Desde sempre que gosto de ver os jogos da Selecção Nacional. Além destes, um ou outro entre países terceiros, por ocasião do Campeonato do Mundo, sobretudo os do Brasil porque aquela gente tende a jogar bonito, e por ocasião do Campeonato da Europa, sobretudo os da Alemanha porque aquela gente tende a jogar eficiente e nunca desistir, mesmo quando as coisas correm mal.


Em casa, as arbitragens suspeitas, claramente enviesadas a favor dos grandes, a preguiça, o calculismo ou a falta de preparação física dos jogadores, para não falar da mediocridade da maior parte, levam a que não veja nada, excepto ocasionalmente o Porto, porque sim.


Debates não, por razões sanitárias; jornais desportivos nunca, por medo do que a falta de superfície do assunto, e o tráfico de influências, fazem a uma prosa destinada a fanáticos; dos dirigentes sei que é gente que no geral só se poderia convidar para jantar tendo o cuidado prévio de esconder as pratas; dos treinadores que são pessoas muito interessantes durante meia hora; e dos jogadores que não se lhes deve permitir o convívio com filhos adolescentes, não vão fascinar os moços com os seus penteados ridículos, e as moças com o seu encanto de efebos acéfalos.


O mundo do futebol adquiriu no nosso país uma importância absurda: nas programações das estações televisivas ocupa horas infinitas; gente séria dedica-lhe a profundidade das suas considerações eruditas; os jornais desportivos vendem-se muito mais do que os comuns; os poderes públicos disputam a simpatia dos amantes da bola, e atribuem aos clubes benefícios que outras colectividades não têm; e, nos dias de jogos grandes, suspendem-se as regras de estacionamento, e as da civilidade, para acomodar a mole excitada dos adeptos, que vai para os estádios procurar o consolo da diluição da individualidade na camaradagem da tribo.


O outro lado deste quadro é que o país tem internacionalmente, no mundo da bola, uma importância e sucesso que não tem em nenhum outro domínio; dezenas de milhares de miúdos praticam desporto atrás do sonho de serem craques; exportamos regularmente futebolistas e treinadores, a peso de ouro; e o turismo beneficia da notoriedade que estes deuses da contemporaneidade adquirem.


Deuses da contemporaneidade. E, neste Olimpo decadente, o Zeus incontestado é, merecidamente, Ronaldo. Não podemos por isso deixar de ter em atenção o que Zeus faz. Não tanto por ele, mas pelo exemplo que dá.


Ronaldo comprou dois Nenucos, um menino e uma menina, nos Estados Unidos. É provável que o preço impressione muita gente porque sabendo-se cada vez mais o preço de tudo, e o valor de nada, a quantia excite a inveja de algum esquerdista mais militante, e menos apreciador do craque.


Mas o preço não importa ̶ se fosse dez vezes mais Ronaldo poderia com a mesma facilidade pagar; e com dez vezes menos, como será provavelmente o caso com outras incubadoras de menor prestígio, o artigo ficará acessível a gente de poucas posses, o que será possivelmente considerado mais igualitarista e democrático.


Este contrato de compra, em Portugal, não seria para já possível. Infelizmente, não há tendência, moda, comportamento, doutrina, que não chegue às nossas costas, ainda que com algum atraso. E em se tratando de produtos da tecnologia, modernidade, e engenharia social, o atraso é cada vez menor  ̶  não se pode parar o pugresso.


Os engenheiros sociais têm entre nós uma Ordem, liderada pelo Bloco de Esquerda, que acha que o papel dos pais e o das mães é comutativo, um pai e uma mãe são perfeitamente equivalentes a dois pais ou duas mães, a ascendência biológica está exactamente no mesmo plano que a ascendência de encomenda, a família tradicional é uma obsolescência a combater; e que a normalidade não existe, nem as excepções, porque a regra é não haver excepções, ou as excepções serem a regra.


Podem, sobre esta matéria, escrever-se, e têm-se escrito, tomos. Mas um tipo que manda fazer um filho (no caso, dois, porque a Natureza não respeitou a encomenda) a preço certo, por não estar disposto a aturar mulheres nem o que elas custam se as reconhecermos como mães que engravidamos, pode ser descrito como um inconsciente, ou um pulha se quisermos ser severos. E uma mulher que aluga o seu corpo, sem estar em estado de necessidade, só não merece ser tratada como prostituta porque estas cumprem uma função socialmente útil e não prejudicam terceiros.


Vai gostar muito dos gémeos, decerto  ̶  são filhos dele e decidiu tê-los. Talvez um dia um deles lhe diga, como eu diria: deste-me tudo o que uma criança e um adolescente podem ter mas tu, não o destino, escolheste que não teria mãe. Não tinhas esse direito, e bardamerda para tudo o mais.


Pois não, não tinha. E mesmo que o prestígio de Cristiano, os ventos da modernidade e as blocas ganhem o dia da Família Nova, que é em parte o Homem Novo com outras vestes, continuará a haver quem diga: Bardamerda.

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publicado por José Meireles Graça às 21:26
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Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

Pontos de vista

Sadiq Khan, presidente da câmara de Londres, declarou que os ataques terroristas da semana passada na ponte de Londres e no mercado de Borough foram deliberados e cobardes, não esquecendo de incluir a habitual referência à inocência das vítimas.

 

Estas palavras de circunstância conseguiram combinar o erro com a banalidade, acha Theodore Dalrymple, no essencial porque não se imaginam atentados que não sejam deliberados, se há vítimas a respeito das quais se invoca a inocência conviria indicar que vítimas é que poderiam ser culpadas naquele contexto, e os terroristas cobardes não são com toda a certeza, porque o que podiam razoavelmente esperar era a morte, mesmo que no Além os esperassem 72 virgens.

 

Fiz um comentário foleiro lá no sítio, salientando que as opiniões divergem, por haver quem ache que as virgens são apenas 42, que o stock delas já deve estar por esta altura substancialmente reduzido, e que aqueles loucos terroristas deveriam saber que uma única virgem, mesmo que apaixonada, é o cabo dos trabalhos, sendo largamente preferível uma mulher experiente e receptiva.

 

Piadas minhas à parte, Dalrymple tem razão. E foi ligeiramente mais meigo com Theresa May mas sem deixar de frisar que o clássico "os nossos pensamentos e orações estão com as famílias" é uma evidente aldrabice e o "já basta o que basta" uma incógnita, por não explicar o que tenciona fazer.

 

Sobre o que é preciso fazer, opiniões, há muitas: o major-general Carlos Martins Branco, por exemplo, que não conheço mas em cujas declarações tropecei por acaso na SicN, disse umas coisas terra-a-terra que me pareceram sensatas. E suponho que não abundou em considerandos porque as televisões têm o tempo tomado para as grosserias dos dirigentes desportivos, os intermináveis "debates" dos respectivos comentadores, os abraços, selfies e discursos ocos do nosso mercurial presidente, e todo o restante lixo com que os espectadores mobilam o vazio que têm nas cabeças.

 

Disse coisas práticas, e outras serão precisas. Do que não precisamos é de teorias grandiosas e impraticáveis. Rui Ramos, um excelente autor que sigo com gosto, proveito e geral concordância, acha que "os europeus têm de conceber a Europa como parte do mundo do Médio Oriente e Norte de África, e de reconhecer que a viabilidade do modo de vida ocidental passa por o tornar viável em toda essa região".

 

Acha isto porque constata que a integração da comunidade muçulmana intra-muros europeia é impossível (por se filiar numa tradição civilizacional diferente) e por haver uma clivagem nas sociedades europeias, entre "o que afirma a tradição cristã e iluminista e o Estado de direito" e "o que nega e desvaloriza tudo isso como uma abjecção sexista e racista, e reconhece ao jihadismo o direito de retaliação das 'vítimas".

 

Esta Europa dividida é incapaz de resolver as suas contradições, pensa Ramos. Apesar disso, deve ir fora de portas matar no ovo a serpente que tem cá dentro. Como isso se fará, fica por explicar; e fica por explicar também por que motivo o Médio Oriente e o Norte de África têm de ter o seu futuro inextricavelmente ligado ao nosso (salvo no caso de Israel).

 

Na realidade, de substantivo na argumentação sobra que é impossível que a Europa com os seus 191 milhões de habitantes se defenda dos 489 milhões que tem o norte de África e a Ásia ocidental; e a necessidade da eliminação dos "focos de galvanização e treino do terrorismo", aparentemente com operações militares, visto que "era assim que pensava George W. Bush".

 

Por que razão a diferença de populações haverá de ser relevante, se evitarmos invasões de imigrantes, não se percebe; e Bush filho assim pensava, de facto, faltando apenas demonstrar que tenha tido bons resultados.

 

Por mim, sem nenhuma reserva de princípio no que toca a acções militares (com que forças armadas, já agora?), prefiro acreditar que nem a diferença entre europeus que se descrevem como mais ou menos crentes na tradição cristã e iluminista é tão significativa como se supõe, nem a ameaça que o islamismo, como corpo estranho a essa tradição, representa, deixará de despertar reacções crescentes, como já está a suceder, nem creio que o problema seja insolúvel, precisamente porque ainda é, dentro de portas, sobretudo um conjunto de casos de polícia. Não têm sido assim vistos por pusilanimidade dos políticos, teorias delirantes do politicamente correcto e da equivalência das culturas que uma parte da intelectualidade defende, tudo coisas a corrigir á medida que as opiniões públicas vão afinando o seu ponto de vista, por  constatarem que têm sido lideradas por patetas que confundem tolerância com suicídio civilizacional.

 

Talvez nesta maré tenhamos alguma coisa a aprender, mas com Israel, que está cercado de inimigos muito mais numerosos e tem alguns dentro de portas. Com Bush filho  ̶  não me parece.

publicado por José Meireles Graça às 12:23
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Quinta-feira, 1 de Junho de 2017

Trumpofilia cautelosa

Imaginemos que Trump sabia falar um inglês com mais de cinquenta vocábulos, manejar o garfo e a faca em simultâneo, escolher gravatas, alguma coisa de geografia, de história e de literatura; e que desprezava o twitter, que aliás nem era capaz de usar, tinha uma vida profissional exemplar, e não era uma estrela manhosa de talk-shows pirosos mas um construtor civil de sucesso que se tornara conhecido sem todavia o prodigioso mau-gosto, até mesmo para padrões americanos, que o caracteriza.

 

Pergunta-se: teria ganho as eleições? A meu ver, talvez sim. O eleitor americano não tem, como o português, um excessivo respeito por doutorices, e portanto não adere a paleio que não entende; acha normal que os presidentes se deixem fotografar com os pés em cima da mesa da sala oval, vestidos de cowboys, porque levam a falta de maneiras à conta de simplicidade, e a de toilette à de homenagem à epopeia do faroeste; pode o twitter ter criado a ilusão de o candidato, e agora presidente, ter criado uma espécie de ligação directa ao homem comum, mas esse efeito está longe de provado; as falências e respectivas histórias obscuras nem foram nunca adequadamente contadas por uma comunicação social, de resto inteiramente desacreditada, nem teriam o mesmo significado que na Europa, onde a falência é um estigma, em vez do ritual de passagem que é nos EUA; e os programas televisivos poderiam ser outros onde tivesse ganho notoriedade e a aura de sucesso que é lá, mais do que noutros lugares, a medida da qualidade.

 

Na realidade, Trump ganhou porque convenceu um número suficiente de americanos que ia conseguir altas taxas de crescimento, diminuir o medo do desemprego e restaurar o elevador social, combater a imigração e a criminalidade e acabar com o enjoativo palavreado modernaço e esquerdista da nata de Washington, da comunicação social e da elite democrata, onde se inclui a (para muitos) corrupta Hillary e respectiva clique de plutocratas.

 

Na vitória deixei, espero, claro que se fosse americano teria, entre Hillary e Trump, preferido este (lá como cá os meus candidatos não chegam a pesar seriamente no resultado final) sem todavia deixar de prevenir contra a imprevisibilidade do homem e sem ilusões sobre a sua natureza, carácter e incógnitas.

 

Depois desse momento já o defendi, embaraçado, algumas vezes. Porque não é fácil defender um tipo que sistematicamente se comporta como o clássico elefante na loja de louça, faz declarações públicas via, sobretudo, twitter, onde a imprudência se casa com a contradição, que gere o seu staff como se estivesse ainda no The Apprentice a despedir candidatos a tycoons e, de forma geral, carece por completo de um módico de gravitas que mesmo nos EUA dantes se requeria a estadistas.

 

Sucede porém que as fake-news são sobretudo originárias de uma comunicação social que esmagadoramente detesta o republicanismo em geral e Trump em particular. Do que significa o viés das notícias sabemos nós alguma coisa, que nos lembramos do que foi o clima de tragédia dos anos da troica e é o do Eldorado noticioso que hoje nos é servido para uma realidade que não é substancialmente diferente, senão por circunstâncias alheias às medidas do Governo.

 

Já se percebeu que Trump ficará muito aquém do que prometeu. Todos os presidentes ficam, mas este talvez menos que o celebrado Obama, cujos discursos muitíssimo bem escritos, e magistralmente lidos, são o melhor do seu legado, além da quebra do tabu que a sua eleição representou. Num caso portanto como exemplo do olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço; e no outro como prova de que com o conjunto de circunstâncias adequado a sociedade americana já estava madura para aceitar um negro cujo talento para ganhar eleições fosse pelo menos igual ao de um branco com o mesmo perfil. Obama confirmou que um negro é capaz de ser tão medíocre como um branco, como no seu tempo Kennedy provou que ser católico não era um impedimento para ser eleito, e no futuro um Gutierrez ou Li Ping provarão que ser hispânico ou asiático também não.

 

Obama era, porém, a versão americana de um socialista. E, se tivesse tido mais tempo e mais poderes, teria imposto, por exemplo, o Obamacare, uma espécie de serviço nacional de saúde à americana, que Trump já dinamitou.

 

Dinamitou, como prometeu, e fez muito bem. Porque os Estados Unidos são a superpotência por antonomásia não por causa das suas riquezas naturais, nem da sua dimensão (factores necessários mas não suficientes), mas por causa das instituições que os pais fundadores legaram e que têm quase miraculosamente sobrevivido, combinadas com um afluxo de imigrantes que chegam e aceitam a língua, o império da Lei, o respeito da propriedade e o salve-se quem puder da economia de mercado sem excessivas peias estatais.

 

Obama não quer isto. Queria uma Dinamarca, ou Áustria, em ponto grande, mesmo que não conhecesse nenhum dos dois países (para visitar o segundo, aliás, preocupou-se por não saber falar austríaco, encantador detalhe que provou a sua simpática ingenuidade, e que em Trump teria evidenciado a sua espessa ignorância). O famoso Estado Social Europeu poderá ser a conquista civilizacional que o resto do mundo inveja, mas é também uma pedra dependurada ao pescoço da competitividade.

 

Trump quer um regresso ao passado, que é o que Make America great again significa. Quando a dívida pública não era de mais de 100% do PIB (da qual um terço detida por países estrangeiros), os imigrantes queriam integrar-se e não pulverizar o consenso social em nome do respeito à diferença, dos direitos das minorias e do multiculturalismo, e o país era o maior credor do mundo, tão recentemente como em 1960, enquanto hoje é o maior devedor.

 

Não vai conseguir, claro: o mundo dos anos 60 não existe, Mao morreu, a URSS implodiu, a Europa, com a sua patética União, todos os anos pesa menos no PIB mundial, a América do Sul já não é exactamente o quintal das traseiras, até a África está a acordar, a tranquilidade da guerra fria com os seus campos perfeitamente definidos esfumou-se há muito, o mundo muçulmano está a transportar para o Ocidente a sua irredutível incompatibilidade connosco, e o progresso tecnológico e a evolução demográfica todos os dias dão sinais de que não sabemos, nem temos maneira de saber, que raio de mundo é que está a nascer.

 

Trump quer tratar da América, que não quer ser, porque já não pode, o polícia, o pagador, o cliente, do resto do mundo. Vasco Pulido Valente, com característica lucidez, explica o que foi ele dizer a Bruxelas aquando da inauguração do edifício da NATO, e não perdeu um parágrafo para falar das gaffes, das toilettes, dos desencontros com Melania, do twitter, e de todas as outras coisas com que se atafulha a comunicação social, no afã de demonstrar que o homem é irremediavelmente imbecil, e a sua remoção uma imperiosa necessidade para a paz no mundo e a tranquilidade do povo de esquerda universal.

 

Ontem, a notícia era que os EUA iriam denunciar os Acordos de Paris, e urbi et orbi se gelou de espanto e indignação. Como?! Este carroceiro não leva a sério os avisos da comunidade científica, cuja esmagadora maioria costumava há mais de vinte anos prometer que íamos morrer uns afogados (os que viviam nas terras baixas), outros assados (os restantes), e entretanto afinou os modelos para incluir os levados pelo vento, por causa dos tornados, e os transidos de frio, porque a temperatura aumenta nuns sítios e baixa noutros? E acha que a temperatura média talvez esteja a subir, mas não são convincentes as provas de que seja a nossa actividade que influi significativamente nesse processo, porque a temperatura sempre subiu e baixou, com ou sem queima de combustíveis fósseis e até com e sem homens? Escândalo: devemos criar regras infinitas para atrapalhar as empresas; impostos para orientar comportamentos; subsídios para alimentar universitários dedicados não a descobrir a cura para o cancro, mas a cura para a Terra; e fazer em torno de tudo isto muito barulho, porque o barulho vende jornais e tempo de antena, mas o silêncio não.

 

E, finalmente, como as alterações climáticas são um cavalo de batalha de esquerda, a que a maioria dos cientistas (mas não na mesma proporção que existe entre os climatologistas) dá cobertura, convém que se perceba que, no clima e no resto, a esquerda é pela ciência; e a direita pelo obscurantismo. Esta chantagem funciona: as pessoas de direita hoje passam a vida a justificar-se, não vão os mandarins da opinião julgar que elas são broncas.

 

O bronco do Trump está até agora a cumprir o que prometeu: no Obamacare, no orçamento (irrealizável, provavelmente, por excesso de optimismo no crescimento, mas contemplando reduções de impostos), na viagem muitíssimo bem-sucedida à Arábia Saudita, ao Vaticano, a Israel e a Bruxelas, deixando claro em todo o lado que tem um lema que é mais do que retórica: America first.

 

America first quer dizer os outros depois. E como os outros somos também nós, e uma tal personagem na Europa dificilmente seria eleita senão para presidir a um clube de futebol, vai por toda a parte uma grande indignação.

 

A indignação não é boa conselheira, nem tem utilidade prática. E àqueles que, como eu, dão ao homem, desde o princípio, o benefício da dúvida e, mais do que julgar, querem entender, será talvez precipitado tachá-los de imbecis trumpistas.

publicado por José Meireles Graça às 19:10
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Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Ratos e homenzinhos

Dantes ter um furo nos pneus era vulgar, hoje raro. Mas antes, agora e no futuro até que os carros levitem, nunca ninguém me viu ou verá a mudar uma roda se tiver ao lado uma pessoa que acha que o sabe fazer melhor do que eu.

 

Por esta razão nunca preenchi uma declaração de IRS, tarefa que sempre cometi a um antigo colaborador a quem de há muito tolero uma quantidade inverosímil de asneiras, por troca com a paz de espírito que advém de, com o Estado, seus agentes, impressos e procedimentos, manter a maior distância que for possível.

 

No ano passado, paguei uma pipa (para os meus recursos) de dinheiro, que atribuí a algumas pequenas alterações nos rendimentos do agregado familiar, por herança, e à natural rapacidade de um governo socialista, de mais a mais coligado com duas associações de bandidos e malfeitores.

 

Este ano, a simulação do imposto a pagar, que o meu colaborador em questão me enfiou debaixo do nariz com perversa satisfação, teve um efeito súbito e deletério na minha tensão arterial, que geralmente se comporta com uma serenidade budista.

 

Tanto que com o mesmo suporte documental fui pedir a simulação a um gabinete contabilístico, que chegou a um resultado mais de um terço inferior.

 

Feito o cotejo das duas declarações foi fácil concluir que numa estava piscado um quadradinho que dizia desejar o casal "englobar rendimentos" e na outra não.

 

Qualquer uma das lamentáveis personalidades que têm ocupado o lugar de Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, incluindo o actual com a sua rotundidade falsamente bem-disposta, o anterior com a sua rigidez obtusa, e os outros que desde Paulo Macedo (que não foi SEAF mas deixou grata memória aos esquerdistas como Director-geral dos Abusos, Exacções e Tropelias do Estado) achará que um tipo que põe numa merda de um papel oficial, por ignorância ou distracção, uma cruzinha onde não deve merece severo castigo, e um agravamento dos impostos parecer-lhes-á adequada punição. Se fossem familiares do Santo Ofício decerto veriam hereges em todos os cantos, e se fossem membros do Politburo da URSS reaccionários por toda a parte, uns merecedores da fogueira e os outros do gulag.

 

Isto acham eles com certeza. Já eu, que os desprezo ainda mais do que eles desprezam inconscientemente o Estado de Direito, acho que a porcaria dos programas informáticos em que torram milhões bem poderiam, a partir das informações que os contribuintes e os serviços disponibilizam, optar SEMPRE pela taxa legalmente mais baixa, sem contar, com esperteza saloia, que incautos, distraídos e ignorantes caiam numa ratoeira.

 

Porque as ratoeiras fazem-se para apanhar ratos. Dos ratos não se deveria esperar,  mesmo que fossem para o Governo, que fizessem ratoeiras para apanhar cidadãos.

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publicado por José Meireles Graça às 14:19
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Sábado, 13 de Maio de 2017

Mamadou deu uma entrevista

Mamadou deu uma entrevista.  E eu, que não conhecia este filósofo social, fui lê-la por a ver citada encomiasticamente.

 

Venho impressionado porque Mamadou não diz senão asneiras, e asneiras incomodativas porque se inserem na vasta tendência para policiar o pensamento que, com origem nos Estados Unidos, chega agora, com o atraso da praxe, às nossas costas, juntamente com garrafas de plástico, hidrocarbonetos e outros detritos.

 

E como este pensador é, pelos vistos, assessor do Bloco de Esquerda, as patetices que expectora têm potencial para afectar a nossa vida e as nossas liberdades. A razão, circunstancial, é simples: a economia que o Bloco deseja contraria a que os nossos patrões europeus consentem, e portanto o PS não pode dar à Sara Bernhardt da Companhia de Teatro de Visões Úteis (não estou a inventar, semelhante coisa existiu sem ser o departamento de teatro do Hospital Conde de Ferreira), nem aos restantes dementes que compõem o grupo parlamentar do BE, o que ela quer. E como na economia e nas finanças não pode ser, haverá que ser noutras áreas, seja a protecção dos animais, o combate à evasão fiscal, a igualdade entre os sexos, as novas formas de parentalidade, as modernas teorias pedagógicas, o racismo e quanto disparate o marxismo recauchutado inventou para fazer um homem novo - se não podes para já, enquanto o IRS não chega aos 100%, ser materialmente igual ao teu vizinho, que ao menos penses sob ameaça o mesmo que ele em áreas sensíveis.

 

Que diz então Mamadou? "Denuncia o racismo estrutural existente em Portugal, visível nas demolições em bairros sociais como o 6 de maio, na Amadora, ou na forma de atuação das autoridades, isto numa altura em que as imagens de uma agressão de um militar da GNR a um cidadão brasileiro, em plena repartição das Finanças, no Montijo, estão a dividir a opinião pública. Para o dirigente do SOS Racismo, o racismo que existe no nosso país é fruto do 'imaginário colonial' que subsiste nos dias de hoje, uma vez que Portugal ainda não foi capaz de fazer a sua 'catarse histórica'. Neste sentido, critica o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, por ainda “não ter descolonizado a sua mente”.

 

Não conheço felizmente o bairro 6 de Maio, de nome aliás suspeito (que raio se passou em 6 de Maio?), nem sei quem lá vive, mas, mesmo sem conhecer, e sem estar seguro de que a entidade que deliberou a demolição saiba o que está a fazer, há maneiras de reagir contra decisões ilegais. E se essas maneiras nem sempre são acessíveis a quem é pobre, sê-lo-ão certamente a uma associação. É isso que o SOS Racismo vai fazer? Não, que ideia.

 

Envolvi-me numa discussão no facebook com um polícia que defendia com os argumentos de caserna e corporativos que seriam de esperar a atitude do seu colega do Montijo, de resto sob os aplausos da escumalha justiceira que pulula nas redes sociais. Nem ele, que defendia a selvajaria, nem eu, que a atacava, alguma vez mencionámos a condição de estrangeiro, e menos ainda a de provável gay, que o "arruaceiro" aparentava ter. E não fiquei de modo nenhum com a impressão que isso tivesse para o polícia qualquer relevância: era perfeitamente capaz de adoptar o mesmo procedimento abusivo em relação a qualquer outro cidadão que estivesse a ofender o respeitinho que ele imagina ser devido à autoridade. Mas mesmo que o factor "estrangeiro" ou "paneleiro" tivesse pesado, não deve isso ter qualquer relevância nem sequer como agravante: todos os cidadãos merecem tratamento igual e a sanção das ofensas aos seus direitos não deve ser agravada ou aliviada por causa das convicções dos seus autores. É isto que defende Mamadou? Claro que não.

 

Mamadou, ou outras cabeças pensadoras, vão fazer trabalhos de investigação e publicar livros onde se vertem teses dolorosas e convincentes para corrigir o "imaginário colonial" e promover a necessária "catarse histórica"? Que trabalheira, credo, há maneiras mais expeditas de convencer as pessoas. A toque de caixa, por exemplo.

 

Que o presidente Marcelo "precisa de descolonizar a sua mente" - não poderia estar mais de acordo. Mas Mamadou não parece entender muito de processos mentais: semelhante operação implicaria que Marcelo removesse previamente a prodigiosa quantidade de ficheiros inúteis que lhe entopem o disco duro, mais uma grande acumulação de bugs, após o que estaria em condições de instalar o software do Bloco. Mas nem o novo software é recomendável segundo as opiniões mais avisadas nem o disco duro em questão tem tamanho para uma operação de tal envergadura.

 

"Prova disso é que as questões raciais 'deixaram de ter centralidade na intervenção dos partidos políticos' e que o Governo português não foi, ainda, longe o suficiente no que diz respeito à lei da nacionalidade ou à criminalização do racismo, considera Mamadou Ba".

 

Não estou muito familiarizado com esses momentos abençoados em que as questões raciais tiveram "centralidade", e portanto igualmente não me apercebi de quando deixaram de ter. E como o ilustre, e até agora ignoto, entrevistado explica lá para o fim que ir mais longe no que diz respeito à lei da nacionalidade significa que quem nasce em Portugal é português, vejo-me coagido a fazer-lhe um processo de intenção, declarando: se é para entupir o país de Mamadous, não, obrigado, já sustentamos uma quantidade mais do que razoável de inúteis. Quanto à criminalização do racismo receio bem que seja exigível previamente uma definição objectiva do que por tal conceito se entende, e em que consiste o crime: se é para proibir as pessoas de terem, e emitirem, opiniões racistas, sou contra, por privilegiar o direito à livre manifestação da opinião; se é para proibir comportamentos discriminatórios com base na cor da pele, ou na religião, ou nas convicções políticas, ou na orientação sexual, tais proibições já estão contempladas na lei.

 

"Temos o 'racismo ordinário' e o 'racismo subtil' - apesar de eu não gostar muito desta expressão. O 'racismo subtil' está na atuação das instituições públicas e privadas, está presente no acesso aos serviços mais básicos e está nas relações sociais quotidianas. Quando eu, por exemplo, pretendo alugar uma casa e o proprietário ou agente [imobiliário] descobre que eu sou diferente, ou pelo sotaque, pela cor da pele ou pela origem, é uma forma de racismo".

 

Em matéria de ilícitos e crimes não há lugar para presunções, mais ou menos ou assim-assim. Portanto, o agente imobiliário não alugou a casa a um preto mas arrendou-a a um branco com a mesma situação económica e que oferecia as mesmas garantias? Provem e queixem-se. Dá muito trabalho, custa dinheiro, e consome tempo? A Justiça funciona mal para todos, tenham paciência, brancos, pretos, pobres, ciganos e tutti quanti; e funciona um pouco menos mal para quem tem recursos e advogados, situação que só nos deve interessar se o seu remédio não for pior do que a doença. Agora, não me venham cá com distinções especiosas entre racismos ordinários e subtis: as mesmas distinções de atitude existem para mulheres bonitas e feias, ou ricos e pobres, sem que para toda a discriminação subtil exista remédio, e sem que todas as categorias de ofendidos andem por aí a gemer e a reclamar uma especial atenção à sua condição.

 

"Temos uma violência policial muito enraizada no racismo. Vários jovens foram mortos pela polícia, em circunstâncias absolutamente indefensáveis do ponto de vista da absolvição dos códigos de procedimento da atuação da polícia, simplesmente porque eram negros ou ciganos".

 

As polícias, em Portugal, têm uma tradição de abuso e impunidade, que resulta das deficiências da sua formação, do militarismo dos seus comandos, dos reflexos condicionados das magistraturas (que tendem a não castigar o exercício abusivo da autoridade por suporem que isso pode diminuir a sua própria), do justicialismo presente na opinião pública, e da cobardia do poder político que só quer defender princípios na medida em que com isso não perca votos. Isto será assim, é o meu palpite. Mas nem Portugal é um caso particularmente assinalável pela negativa, nem o problema é fácil de resolver, nem o fundamento racista das atitudes policiais em relação a comunidades "diferentes" está demonstrado. Caberia perguntar, por exemplo, por que razão a comunidade chinesa, aqui e em toda a parte, está relativamente ao abrigo de incidentes.

 

Em vez das críticas gemebundas do entrevistado, que são aliás as comuns na área política a que se acolhe, o SOS Racismo faria bem em dedicar-se a perceber por que razão a criminalidade é mais alta em certas comunidades do que noutras. E se encontrar como resposta que as famílias estão mais desestruturadas e que a taxa de desemprego é muito maior faria melhor em tentar remediar esses males - dentro de si e não na imposição de comportamentos de discriminação positiva a terceiros.

 

"A opinião pública está formatada pela opinião publicada. E isto é um problema. A opinião publicada tem procurado criar uma narrativa de perigosidade em determinadas classes sociais e em determinados lugares no nosso país. Há bairros que são considerados perigosos por serem habitados por determinadas pessoas. Essa retórica e todo o circo mediático que se constrói em torno do perigo que existe nestes bairros, da ameaça à ordem pública que representam as pessoas de determinadas características culturais e fenotípicas, faz com que, obviamente, haja a ideia de que a atuação da polícia condiz com a necessidade de garantir a ordem pública".

 

Lá que a opinião pública está formatada pela opinião publicada estou, em parte, de acordo. A opinião publicada portuguesa, por exemplo, acha há quarenta anos que em tirando aos ricos e dando aos pobres ficam todos remediados, e a opinião pública acha consequentemente o mesmo, donde nem o país cresce, nem a dívida diminui, nem a classe média se alarga, nem os ricos existem em maior quantidade. Mas é inegável que Trump foi eleito contra a opinião publicada, e que Marine Le Pen teve muito mais votos nas urnas do que os indiciados pelo apoio nos meios de comunicação social. Vamos fazer o quê? Um catálogo de ideias acertadas para os jornalistas papaguearem? Mas o catálogo de quem? O meu ou o de Mamadou e Mariana Mortágua?

 

"No entanto, o que as pessoas se esquecem é de perguntar porque é que a policia não atua da mesma forma quando entra na [avenida] 24 de julho e quando entra na Cova da Moura. Obviamente que o que determina a musculatura da intervenção das forças de segurança é o preconceito racial. Há uma espécie de espaço de sessões jurídicas em determinadas zonas do país onde as forças de segurança acham que, por estas serem habitadas por determinadas pessoas, não são obrigadas a cumprir determinadas práticas deontológicas. Isto tem que ver, efetivamente, com a questão racial, e as pessoas esquecem-se, muitas vezes, de que Portugal ainda é um país que tem uma cultura bastante colonial. Enquanto não for feita a catarse histórica relativamente à escravatura e ao colonialismo obviamente que teremos sempre pessoas que vão continuar a justificar o seu racismo".

 

Épá, realmente tenho-me esquecido de perguntar isso. Mas estive a reflectir durante quase dois minutos e ainda vou a tempo de responder: a polícia vai aos sítios onde é mais provável encontrar drogas, armas, traficantes e bandidos, de forma diferente da que usa quando vai a sítios onde encontra bêbedos e tipos sem carta de condução. Abusa em ambos os lugares, e abusa de forma diferente porque nos primeiros é mais provável levar um balázio e em ambos os atropelos ficam impunes. Será por racismo? Tretas.

 

O resto é mais do mesmo e consiste basicamente nisto: o colonialismo foi um horror e os descendentes dos colonizadores devem levar a mão à consciência e ao bolso, pedindo desculpa aos descendentes dos colonizados ao mesmo tempo que rapam da carteira de cheques.

publicado por José Meireles Graça às 20:49
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Quarta-feira, 10 de Maio de 2017

Em casa

Tirando os comunistas e os bloquistas (e mesmo assim sem conseguirem esconder que a senhora Le Pen lhes dá calafrios) quase toda a gente em Portugal se felicitou pelo resultado das presidenciais francesas.

 

Costa, que já tinha ganho as eleições gregas quando ainda não havia perdido as portuguesas, ganhou também estas. O homem está condenado a ganhar tudo e o seu oposto, pela razão de que, ao contrário dos políticos vulgares, que são oportunistas na medida das suas necessidades tácticas, preservando todavia um núcleo de valores distintivos, Costa não tem outro valor que não seja a sua sobrevivência. Donde, a sua táctica é o oportunismo, com um grande sucesso, reconhecível pela descrição, pacífica na comunicação social e no comentariado, de homem de grande habilidade política. Deixemos porém estes assuntos putrefactos para responder a uma questão que me afligiu por espaço de quase meia hora - a mim e outros espíritos sãos e inquisitivos: se fôssemos franceses votávamos como?

 

Marine Le Pen, no seu programa, diz, a abrir, isto: Retrouver notre liberté et la maîtrise de notre destin en restituant au peuple français sa souveraineté (monétaire, législative, territoriale, économique). Pour cela, une négociation sera engagée avec nos partenaires européens suivie d’un référendum sur notre appartenance à l’Union européenne. L’objectif est de parvenir à un projet européen respectueux de l’indépendance de la France, des souverainetés nationales et qui serve les intérêts des peuples.

 

Nos pontos sob a epígrafe ÉRADIQUER LE TERRORISME ET BRISER LES RÉSEAUX FONDAMENTALISTES ISLAMISTES (29 e seguintes) enumera algumas medidas de combate ao islamismo, que subscrevo quase integralmente. Sucede que:

 

A boa da Marine quer dinamitar o projecto europeu, e eu também. Infelizmente, porém, conjugando esta entrada de rompante com as outras 143, percebe-se que não quer liberdade de circulação de pessoas, nem capitais, nem mercadorias, nem trabalho. E eu quero estas coisas todas, desde que aplicáveis apenas aos cidadãos da UE, e com as derrogações que cada Estado entenda dever fazer; assim como, sendo aceitáveis mecanismos supranacionais para dirimir conflitos no âmbito dos tratados ou jurisdicionais no âmbito dos Direitos Humanos, já não o serão órgãos legislativos supranacionais  ̶  de mais a mais integrados por funcionários apátridas que ninguém conhece, ninguém elegeu e que não respondem portanto senão perante outros burocratas igualmente cobertos de privilégios e igualmente especializados na moscambilha carreirista.

 

O que ela quer é que a França assuma o estatuto de superpotência que julga lhe pertence por direito histórico, por ter assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e a bomba atómica. E por isso defende a saída da OTAN, a construção de um novo porta-aviões (que decerto impressionaria imenso os naturais do Senegal e os da Reunião) e o reforço da dotação orçamental das forças armadas e dos seus efectivos.

 

Defende também um elevado grau de autarcia económica e um impressionante rearranjo dos serviços e funções do Estado, em nome de generosos benefícios para o trabalhador francês, e em particular o funcionário ou o aposentado, sem todavia dedicar quase nenhuma linha à diminuição da despesa ou da dívida pública (que anda nuns estonteantes 100% do PIB).

 

Isto, mais um ou outro ponto rebarbativo, como a restauração da prisão perpétua, que seria um retrocesso civilizacional, ou o reforço dos poderes das polícias, desnecessário fora do âmbito do combate ao terrorismo e que é apenas um tique caro a uma certa direita bastante selvagem, chega para, em balanço, dizer: Marine Le Pen - não.

 

E Macron? O homem foi ministro de um governo de Valls, sob o patético Hollande, e distinguiu-se por querer reformar. A sua carreira como inspector de finanças e bancário internacional, em princípio, não o recomendava para reformador, menos ainda se acumuladas com a sua condição de vice-presidente do PS local: um pot-pourri de contra-indicações que faria supor que nos dois aninhos que esteve no governo teria tempo para operar uma razoável série de asneiras. Mas não: diz-se que foi amigo das empresas e que apenas deu à sola em Agosto do ano passado para preparar a sua candidatura à presidência.

 

Vejamos o seu programa. Começa com uma frase inspiradora (RETROUVER NOTRE ESPRIT DE CONQUÊTE POUR BÂTIR UNE FRANCE NOUVELLE) que não significa absolutamente nada e dirige-se aos franceses e às francesas, naquela formulação perifrástica irritante em uso por políticos patetas a fingir que são modernos. Continua com uma impressionante série de banalidades, ao abrigo dos vários "estaleiros" (lamento mas a palavra é dele) sob os quais se propõe infundir na sociedade francesa a confiança que lhe falta.

 

Diz que "há mais de 30 anos que não conseguimos resolver o problema do desemprego de massa nem o da integração. Transformações radicais novas abalam as nossas vidas e as nossas certezas. A revolução numérica muda as nossas maneiras de produzir, consumir e viver em conjunto. As mudanças climáticas obrigam-nos a repensar a nossa organização e os nossos modos de vida. A nova ordem mundial etc. etc."

 

Tretas, isto parece um discurso de Marcelo. E basta lembrar que a única forma que ocorre pela qual as mudanças climáticas terão tido influência na vida dos franceses haverá de ter sido algum aumento da temperatura média que tenha prejudicado a maturação dos queijos.

 

Primeiro estaleiro, o da educação e cultura: "Quero repor a transmissão de saberes fundamentais, da nossa cultura e dos nossos valores no coração do projecto da nossa escola e das nossas universidades". Não está mal.

 

E como não está mal fui procurar as medidas onde estes nobres objectivos estariam vertidos e, ó surpresa, o arranjo das medidas não é o mesmo da introdução. De tal modo que o que encontrei sobre este assunto, perdida numa floresta de intenções, foi uma página sob o título "Les mêmes chances pour tous nos enfants", onde se lista uma quantidade de medidas impressionante, umas razoáveis, outras nem por isso, e outras simplesmente tolas, como esta: "Nous créerons un 'Pass Culture'. Il permettra à chaque Français de 18 ans d’effectuer 500 euros de dépenses culturelles (cinéma, théâtre, livres...)". Onde é que o bancário Macron vai buscar dinheiro para isto o programa não diz, como não diz de onde vem o pognon para construir 80.000 alojamentos para jovens.

 

Tentar comentar o programa ocuparia uma dúzia de posts porque as iniciativas são às centenas, quase sempre implicando encargos novos que não estão quantificados, e intervencionismos sortidos. Mas não é possível deixar de notar que em quase todas as páginas há promessas de despesa nova, incluindo uma intitulada "Bem viver do seu trabalho e inventar (sublinhado meu) novas protecções".

 

Os programas eleitorais não são para cumprir, já se sabe. Mas a demasia inculca a ideia que este tipo é um aldrabão, e os franceses que o elegeram uns pombos. E como este enarca bancário e socialista, com fama de liberal, é o chouchou dos europeístas, importa ver o que, sobre a União Europeia, diz ele.

 

QUER um orçamento para a zona euro votado por um parlamento e executado por UM ministro da economia.

 

QUER que se lute contra os arranjos fiscais entre Estados e empresas multinacionais, como entre a Apple e a Irlanda.

 

QUER reservar o acesso aos mercados públicos europeus às empresas que tenham pelo menos metade da sua produção na Europa.

 

QUER propor à Alemanha uma Europa da defesa associando países voluntários, criando um fundo europeu de defesa que financiará equipamentos militares comuns e um Quartel-General permanente.

 

QUER uma Europa que proteja as indústrias estratégicas (francesas, entenda-se).

 

QUER um mecanismo de controle dos investimentos estrangeiros na Europa a fim de preservar os "nossos" (deles) sectores estratégicos.

 

QUER que, na discussão do Brexit, seja defendida a "integridade" do mercado único europeu, que haja um mercado único do "numérico" e um fundo de capital de risco que permitirá financiar o desenvolvimento de start-ups europeias, e que seja fixado um preço "plancher" do carbono nos países da União.

 

E também quer dar a palavra ao povo, propondo convenções cidadãs em toda a Europa para voltar a dar um sentido ao projecto europeu.

 

Costa quer por certo a quase totalidade destas coisas. E, no que não queira, venderá o seu apoio por alguns milhões, na boa tradição portuguesa desde 1986.

 

Isto é Macron. E é claro que, se fosse francês, não votaria em semelhante demagogo, até porque o homem presume de imaginar para a França um papel de liderança na UE, que nunca poderá ter, e que os mais de 25% que se abstiveram, mais os 33% (33% de 75%, entenda-se) que votaram Le Pen, lhe compram os delírios.

 

Então, se fosse francês votaria em quem, na segunda volta? Não votava, claro. Porque Marine iria fazer implodir a Europa, tal como a conhecemos, substituindo-a pelo caos. E Macron, como este ingénuo aqui, acredita que a geringonça europeia tem conserto pelo expediente de lhe aprofundar os erros.

publicado por José Meireles Graça às 01:32
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Domingo, 30 de Abril de 2017

O meu 26 de Abril

Nos meus dois posts anteriores informei com humildade a que actividades dediquei a ponte e o feriado do 25 de Abril, num dia passeando na cidade com o nariz no ar, com a tranquila certeza de não topar com manifestações, porque já não há, e no outro carregando cestos de compostagem.

 

O meu verdadeiro 25 de Abril, porém, foi a 26, um dia memorável. O BPI, uma instituição daninha, trespassou-se para Espanha. E do novo gestor, Pablo Forero, que não conheço, posso dizer o que o palhaço Tiririca dizia de si mesmo, pedindo o voto: pior não fica!

 

O dia não foi perfeito: Fernando Ulrich, um ser pertencente à multímoda espécie humana, sobre cujas qualidades me pronunciei inúmeras vezes (aqui e aqui, por exemplo) recebeu uma indemnização de 465,5 mil euros, em vez das 100 chibatadas que mais adequadamente coroariam a obra que deixou em herança, para não falar do risco de continuar a poluir as instalações da sede com a sua presença remunerada; Santos Silva, uma conhecida rolha do regime, que pelo menos uma vez já honrei com a atenção que não merece, também junta uma prebenda às que já tem, ficando como presidente honorário e a presidir a uma nova comissão dedicada à responsabilidade social. Seria desejável que, em troca do estipêndio que decerto irá receber, e que o artigo, por pudor, omite, fizesse um voto de silêncio. Mas não, é de presumir que se venha a aliviar junto da comunicação social dos lugares-comuns que o tema da responsabilidade social haverá de inspirar naquela calculista cabeça - as rolhas, como é sabido, não afundam.

 

E falta ainda Lobo Xavier, um histórico do CDS que vai vice-presidir a não sei quê e que, da Quadratura do Circulo, um programa que por inércia continuo a ver, não cessa de gabar as virtudes da geringonça, os méritos de Costa, a habilidade política de Costa e a bondade dos novos caminhos que imprimiu ao país em geral, e à banca em Portugal. Sim, percebo.

 

Pode de tudo isto inferir-se que detesto esta gente? Claro que não, que ideia: eu, Ulrich, odeio, Santos desprezo e para Xavier guardo a secreta admiração que sempre tive por videirinhos.

publicado por José Meireles Graça às 17:27
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Sábado, 29 de Abril de 2017

Efeméride

No feriado do 25 de Abril, da parte de tarde, estive no meu quintal a transferir compostagem de um lado para outro, razão principal porque não ouvi os discursos. De toda a maneira, motivos de força maior desta natureza têm-me impedido há muito de os ouvir, salvo num ocasional resumo nas notícias e mesmo assim apenas aqueles, do lado direito do espectro, de onde pode, em momentos de sorte ou acaso, vir alguma coisa não direi memorável, mas ao menos apropriada e justa.

 

As portas que Abril abriu foram duas que valem a pena, a da liberdade de expressão e a da possibilidade periódica de despedirmos quem nos pastoreia (na realidade a motivação não era abrir porta nenhuma mas fechar a da guerra colonial, porém deixemos esquisitices); e outras que melhor fora terem continuado fechadas, como as da cave onde se guardava o ouro do Banco de Portugal, a do défice, do calote, do crescimento anémico, da dívida pública sem precedentes, da estrangeirização das grandes empresas e dos bancos, da destruição quase total dos capitalistas de substância e portanto da capacidade de investimento indígena, da moeda própria (que era uma válvula de segurança que protegia a economia do excessivo asneirol das decisões de política económica), e a da infantilização de uma parte considerável dos cidadãos, que é hoje incapaz de conceber a sua vida sem depender do Estado para o ordenado, a pensão, a saúde, e até mesmo as regras de comportamento nos aspectos comezinhos do dia-a-dia, cada vez mais opressivas.

 

Não é impossível, ainda que pouco provável, que o défice real (isto é, sem aldrabices) venha a estancar; que o calote, ou seja, o quarto resgate, não venha a materializar-se; e que o crescimento, à boleia do crescimento dos outros e do turismo, pareça durante algum tempo menos tíbio. Mas, digam os liberais o que disserem, não é a mesma coisa sermos explorados por empresas monopolistas nacionais ou estrangeiras, porque no segundo caso os lucros não ficam cá; não é garantido que a gestão bancária internacional seja menos inepta que a portuguesa, nem que o BCE seja menos parasitário, ou mais lúcido, ou mais competente, que a filial portuguesa, que aliás mantém e manterá a mesma gordura que tinha quando servia para alguma coisa; e que, finalmente, os cidadãos tão ferozmente europeístas não mudem de opinião se a UE, por se estar a esfarelar ou outra razão, deixar de pingar. Porque ela pinga, pinga todos os dias, e é com esse bodo, do qual já se espatifaram desde 1986 incontáveis biliões, que se sustentam milhares de parasitas, se investe alguma coisa, e se juntam tostões do Orçamento do Estado para o país se cobrir de realizações que, com a devida propaganda, levam o cidadão a acreditar que é apenas uma questão de tempo até ficarmos como a mítica Dinamarca.

 

A formação da opinião, porque é feita geralmente por dependentes directos ou indirectos do mesmo Estado, que entretanto deixou ele próprio de conceber a sua perpetuação fora do quadro da União Europeia, é quase sempre de índole europeísta e esponjosa, no sentido de absorver e veicular quanta ideia moderna igualitarista, burocrática, revolucionária nos costumes, e estatista nas escolhas, anda no ar internacional.

 

Na prática, Portugal é menos independente dos poderes de Bruxelas ou Frankfurt (não falo de Estrasburgo porque aí se acolhe a secção dos treteiros pagos a peso de ouro para aceitarem fingir que mandam ou representam alguma coisa) que o Montana dos de Washington; e os únicos verdadeiros patriotas que restam são quase exclusivamente uns senhores que só o são porque já não há URSS para liderar o movimento comunista internacional, caso em que seriam abjectos agentes a soldo de uma potência estrangeira. Estes, em conjunto com os filhos e netos de Maio de 68, que se distinguem dos primeiros pelo acne, o práfrentex dos costumes, e a doença infantil da revolução, têm por ambição transformar Portugal numa Venezuela um pouco menos miserável, com um pouco mais de história e de hábitos de civilização. E entretanto vão vivendo com um conforto razoável, à sombra dos jogos que a democracia que desprezam, e do PS que oportunisticamente os usa, lhes proporcionam.

 

Este nó será desatado daqui a vinte meses ou vinte anos: a casta dirigente europeia não quer nenhuma reforma que lhe diminua os poderes, e por isso contará as derrotas, como o Brexit, como um incentivo para reforçar a integração, e as vitórias, como a possível de Macron, como a confirmação do bem fundado do seu caminho. E o bom povo português no momento próprio comerá a erva que tiver que comer, e apertará o cinto em quantos furos forem necessários, ao mesmo tempo que se tiver um culpado que possa plausivelmente designar o cruxificará, e cairá de joelhos perante o salvador da circunstância, se houver, ou desatará à batatada, se não aparecer.

 

Pode ser assim ou de outra maneira mas entretanto é preciso viver. E regresso aos discursos porque tropecei na notícia sobre este, da candidata do PSD à câmara de Lisboa, e, movido pela curiosidade, fui ouvi-lo.

 

Foi o último de entre os dos representantes dos partidos, e enquanto procurava não pude evitar ouvir partes do impressionante chorrilho de banalidades com que cada um entendeu útil assinalar a data. Com o de Teresa pasmei: Portugal não tem um problema de impostos a menos, tem um problema de impostos a mais; não tem um problema de evasão fiscal, nem de offshores, tem um problema de falta de capital para evadir; não tem um Fisco ineficiente, tem um Fisco terrorista; não tem corrupção a mais por os locais terem uma especial propensão para a corrupção, tem corrupção a mais porque o polvo do Estado, que patrocina, subsidia, autoriza, proíbe, atrasa, licencia, legisla diarreicamente, está por toda a parte; e tem uma desconfiança do cidadão em relação à classe política porque o instituto do enriquecimento ilícito, que poderia servir para a diminuir, evitando o arrastar inadmissível de casos como o de Sócrates ou Dias Loureiro, é apresentado como devendo ser aplicável à generalidade dos cidadãos, o que nem o Tribunal Constitucional, um órgão caracteristicamente de esquerda, pôde aceitar. O PSD é isto: socialistas mais sérios e mais competentes do que os genuínos, com um spin muito menos eficiente e mais escrúpulos na manipulação da comunicação social  ̶  mas iguais na essência.

 

Toda a legislação para combater abusos dos grandes serve, em Portugal, para perseguir os pequenos, sempre que implique inversões do ónus da prova, diminuição de direitos e reforço dos poderes da Administração. Diz-se que uma imagem vale mais do que mil palavras, e digo eu, para ilustrar o ponto, que 500 palavras, se verdadeiras e sentidas, como estas aqui, mais do que um ensaio. E é no dia da liberdade que sai um discurso destes?

 

Portugal é, por razões que aqui não cabem, um país de esquerda. Essas razões creio não ter dificuldades em percebê-las, mas por que motivo pessoas do PSD e do CDS defendem (e põem em prática, quando no poder) ideias que a esquerda coerentemente subscreve é atitude cujo racional me escapa. Será para ganhar eleições?

 

Se é, trata-se de um equívoco. O eleitorado, e bem, acaba sempre, a prazo, por preferir os originais às cópias. E não vale a pena ser governo, mesmo que seja apenas duma câmara, para se fazer o contrário daquilo que se acredita ser o bem comum. Ou então acha-se que o bem comum é o mesmo quando a informação de que se dispõe é a mesma, como entendia o infeliz Cavaco, que se fartou de ganhar eleições porque as circunstâncias históricas lhe correram de feição e acreditava genuinamente - lá está - nas tolices que expelia.

publicado por José Meireles Graça às 14:16
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