Quinta-feira, 23 de Março de 2017

Sexo, verdades e dívidas

Um militante do PSD, facção Passos, na versão holandesa, que localmente tem a designação de Partido Socialista Holandês, segundo certos tradutores, e Partido Trabalhista, segundo outros, levou um banho nas recentes eleições: o partido (PvdA) perdeu 29 deputados, passando a ter apenas 9, num parlamento que tem 150. Quem ganhou as eleições foi o CDS, embora tenha perdido 8 lugares, segundo uns; ainda que segundo outros o CDS local não seja o VVD, que ganhou, mas o CDA, que apenas ficou em terceiro, com 19 lugares. O partido de Heloísa Apolónio, que naquelas terras baixas dá pelo nome de Esquerda Verde, ganhou 10 deputados, tendo ficado com 14, um resultado espectacular explicável talvez pelos factos de ser liderado por um senhor que nem é comunista nem fala aos gritos e de o país correr o risco de, se o aquecimento global não for uma aldrabice, ficar, como a Atlântida, debaixo de água.

 

Em segundo lugar, tendo ganho mais cinco lugares, ficou o PNR indígena, cujo líder se distingue à vista desarmada do português por ser loiro (diz-se que pintado) e conhecido, mas que já se sabe não fará parte do governo, por os potenciais colegas, embora lhe comprem sorrateiramente boa parte das ideias, o acharem pestífero.

 

Por este bosquejo se vê que a política holandesa é uma grande baralhação. E vê-se também que pouco tem a ver com a portuguesa: as ideias são as mesmas, mas o peso delas é completamente diferente: o espaço da opinião e o do poder não se encontram poluídos, até à surdez, com fósseis como Jerónimo, libelinhas mutantes como Catarina Martins, caloteiros oleosos como Costa, Houdinis do défice como Centeno ou papagaios hiperactivos como Marcelo.

 

Pois bem: o derrotado do PSD, compreensivelmente nervoso, disse o seguinte numa entrevista: "Na crise do euro, os países do norte da zona euro mostraram-se solidários para com os países em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade da maior importância. Porém, quem a exige também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu".

 

Para um leitor mediano, isto é, excluindo a maior parte dos jornalistas, políticos e comentadores, que são analfabetos funcionais quando calha não serem analfabetos tout court, quer dizer que o preço da solidariedade (ou seja, dos empréstimos) é a austeridade. A imagem é pouco feliz? É, mas devemos dar um desconto: Dieselcoiso, assim se chama o político em questão, é holandês e ministro das finanças, da variedade séria. Alimenta-se portanto de batatas e queijo de vaca e queima as pestanas a compulsar o livro do Deve e Haver - não se pode razoavelmente esperar nem que tenha grande sentido de humor, nem sentido diplomático, nem queda para embarcar em fantasias segundo as quais a melhor maneira de emagrecer (a dívida) é alargar o cinto (do consumo).

 

Caíram-lhe em cima. E por todos Costa, o primeiro-ministro golpista, que se distinguiu, como é a sua marca de água, pela grosseria politicamente correcta: "Numa Europa a sério, o sr. Dijsselbloem já estava demitido. É inaceitável que uma pessoa que tem um comportamento como ele teve, uma visão xenófoba, racista e sexista sobre parte dos países da União Europeia possa exercer funções de presidência de um organismo como o Eurogrupo”.

 

Por partes:

 

A "Europa a sério" é uma realidade geográfica e histórica. Já a União Europeia, com a qual Costa a confunde, é uma construção política de 1992, que se pretendeu tornar irreversível e indestrutível com o Euro, o qual começou a circular em 2002. A União vai ser amputada de um dos seus membros em breve; e o Euro já teria acabado se alguém fosse capaz de conceber uma maneira de o liquidar sem que países como Portugal, ou a Itália, comessem terra durante alguns anos, sem que os credores ficassem a arder, e sem que os países que dele beneficiam por ser uma moeda mais fraca do que a que teriam se a tivessem própria, como a Alemanha, ficassem a perder. A "Europa a sério" que Costa defende é apenas um negócio desonesto que consiste nisto: compramos o voto com benesses que damos ao eleitor; os estrangeiros financiam; e a dívida resultante alguém a pagará, em nome da solidariedade, mas nós não.

 

Quanto à xenofobia, se Jeroen acha que os europeus do sul são diferentes dos europeus do norte, no sentido de terem sobre as mulheres, a aguardente e as contas públicas, comportamentos diferentes, tem razão: os portugueses (os meus conterrâneos conheço, dos outros sulistas não quero falar) gostam com certeza mais das holandesas do que os próprios holandeses; bebem aguardente, ou mais exactamente bagaço, sem dia certo para se emborracharem; e têm uma muito maior generosidade em gastarem o que não lhes pertence do que teriam se tivessem nascido numa sociedade calvinista.

 

Se isto os faz inferiores ou superiores não sei. O que sei é que, sendo todos os humanos, em média, iguais nas suas capacidades e nos seus impulsos, as circunstâncias históricas, geográficas e culturais fazem os países diferentes, e disso não vem por si mal ao mundo. Tachar todo o reconhecimento das diferenças que felizmente existem de atitude xenófoba é um simplismo. E fazer disso bandeira política é estupidez.

 

Quanto ao alegado racismo, onde é que ele se vê na constatação de um facto? Jeroen é socialista e acha, e com ele o partido a que pertence, que as contas públicas devem ser equilibradas e a dívida pública diminuída se excessiva, em todos os países; Costa, que é socialista mas de outra galáxia, acha que não pode haver progresso sem défice, e que portanto os contribuintes do norte da Europa devem financiar os do sul, como sucede, quando sucede, dentro de cada país das regiões ricas para as pobres. Entre nós, por exemplo, quando se cortaram apoios da República à Madeira, nem o alucinado Jardim se lembrou de achar o contenente racista. Talvez porque Jardim não era verdadeiramente desonesto - mas Costa é.

 

Resta o sexismo. Não estou em condições, por falta de trabalhos de campo aos quais tenha tido acesso, de garantir que os portugueses sejam mais inclinados do que os holandeses para se endividarem para agradar a mulheres. Se for porém o caso, a alegação de sexismo parece francamente exagerada: então o pobre diabo arruína-se  para agradar e é sexista?

 

Está visto que Costa, de mulheres, ainda entende menos do que de economia. Resta-nos a consolação de que, se Dijsselbloem cair fora do barco, como merece, não será por causa das declarações da nossa rotundidade primo-ministerial, cujo peso na Europa, ainda que bastante superior ao do primeiro-ministro da Eslovénia, não é suficiente para derrubar ninguém; é porque perdeu as eleições e, ao contrário de Costa, não deve ocupar um lugar que pertence a outros.

 

publicado por José Meireles Graça às 12:21
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Segunda-feira, 20 de Março de 2017

Ventos de xenofobia

Porque é que o problema nunca se colocou antes, se o que não falta são pessoas de cruz ao pescoço?  ̶ pergunta a senhora, e vai respondendo que "a jurisprudência europeia permite que se consagre a ideia de que há religiões 'nossas', 'neutras', e as outras. A xenofobia pode incubar onde menos se espera".

 

Neste caso, a xenofobia incubou, pelos vistos, no tribunal de Justiça da União Europeia. Fernanda Câncio não tem dúvidas - nunca tem, Deus a abençoe, que eu não posso  ̶  e vai daí saem mais uns juízes xenófobos, a juntar à mole imensa, e crescente, dos cidadãos que no Ocidente encaram os muçulmanos, a religião deles, as igrejas deles, os hábitos e os símbolos, como uma ameaça.

 

O tribunal, é claro, não hierarquizou as religiões, nem podia, porque a União é laica e todas as religiões estão cobertas pela liberdade de culto. Limitou-se a garantir que "as empresas têm o direito de, em nome de uma política de 'neutralidade' face aos clientes, proibir aos empregados que lidem com o público a exibição de quaisquer símbolos religiosos".

 

Bem visto. Porque hoje impor-se-ia aos patrões que aceitassem o hijab, em nome da liberdade de culto. E amanhã, à boleia da mesma liberdade, o xador ou a burca, bem como as paragens rituais para a oração, em locais separados conforme os sexos, que as imagens das fiéis de rabo para o ar impediriam decerto a unção deles. Depois, é apenas uma questão de tempo e de quantidade (e no que toca à quantidade convém lembrar que as comunidades muçulmanas têm uma taxa de natalidade várias vezes superior às das ocidentais que imprudentemente as acolhem) até que a religião muçulmana, afirmada em nome da nossa liberdade, a anule, por dela ter um entendimento diferente.

 

Temos um problema parecido com a democracia e os comunistas: estes reclamam, e bem, todas as liberdades burguesas, até que conquistam o poder. Logo a seguir, a única liberdade consentida é a de pensar o que pensa o vizinho, dizer o que diz o controleiro do comité de vigilância cidadã, e fazer o que o Partido manda. Com a diferença de que os comunistas não se reproduzem a taxas diferentes das dos restantes cidadãos, as suas quantidades são manejáveis sem perigo fora de situações revolucionárias, e a democracia tem provado ser robusta o bastante para conviver com os seus inimigos.

 

Ser realista em relação ao perigo islâmico quer dizer não ignorar o que disse, num deslize de sinceridade, este paxá: as famílias turcas exiladas devem ter, pelo menos, cinco filhos.

 

Fernanda Câncio julga, coitadinha, que o véu islâmico tem a mesma importância que uma blusa, um top ou um boné; e que as mulheres islâmicas teimam nas toilettes que a tradição lhes impõe por acharem que lhes fica bem.

 

Eu quero que Fernanda vista o que ache que vai com ela; que, se tiver uma amiga ou amigo que use um crucifixo ao pescoço, ou uma quipá na cabeça, se lembre que esse amigo ou amiga, bem como as igrejas que esses símbolos representam, não lhe negam o direito de ser ateia ou agnóstica; e que abunde no asneirol, como é seu hábito, com toda a liberdade.

 

Em troca desta generosidade Câncio trata as pessoas que pensam como eu - trata-me, portanto, a mim! - de xenófobo e trumpista.

 

Não sou católico mas a caridade cristã não me fica mal: perdoo-lhe. E o que é mais (conto com isto para desconto dos meus pecados) sem sequer ter a esperança de que o Espírito Santo a ilumine, infundindo algum senso naquela cabeça socialista.

publicado por José Meireles Graça às 23:55
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Quarta-feira, 15 de Março de 2017

Banha da cobra

"Marcelo Rebelo de Sousa diz que 'a peça chave para o crescimento é o investimento público e, sobretudo, privado português e estrangeiro', sendo que este depende de 'coisas muito simples como estabilidade política, social, legal, fiscal e na legislação laboral, além da aposta na qualificação das pessoas e na menor lentidão da justiça".

 

Um paisano lê um parágrafo destes e pasma: como é que no Governo, no Parlamento, nos jornais, até mesmo nas universidades, ninguém se lembrou disto? E que criminosa desatenção fez com que estas "coisas muito simples" tivessem não apenas sido ignoradas mas decerto agravadas, visto que a posição de Portugal no Índice Global de Competitividade se deteriorou em 2016 (era a 38ª em 140 países, em 2015, e passou a ser a 46ª em 138).

 

Marcelo recorda que "o Presidente não tem poderes executivos" e pode apenas "exercer o seu magistério de influência". Isto é uma grande contrariedade, dado que como semelhante magistério deixou, neste particular, de ser exercido no ano findo, sem dúvida por ter sido orientado para outros assuntos momentosos, perdeu-se tempo; e é uma infelicidade que, em vez de contarmos no Executivo com alguém que sabe perfeitamente o que fazer, tenhamos que nos resignar ao exercício naturalmente canhestro do aluno em vez da luminosa experiência do professor.

 

Porém, o país teria muito a ganhar se o senhor Presidente não fosse avaro de concretizações, e explicasse: i) Como se assegura a estabilidade política quando os dois partidos comunistas que sustentam a maioria defendem, quanto à União Europeia, ao Euro, à legislação do trabalho, e à economia de mercado (et j'en passe) posições opostas ou muito diferentes das do PS? ii) Que garantias pode haver de paz social se a ausência de manifestações, tumultos e greves decorre dos ossos que se vão atirando ao PCP e à CGTP, cujo apetite, por insaciável, em algum momento no futuro tem que deixar de ser satisfeito? iii) Por que motivo o último orçamento, tal como todos os anteriores, dinamitou qualquer ideia de estabilidade fiscal ou de contenção da voracidade do Fisco, e por que motivo devemos acreditar que no futuro, sendo os governantes os mesmos, e Sua Excelência o mesmo também, as coisas serão diferentes? iv) Todos os presidentes, todos os primeiros-ministros, todos os ministros da Justiça, presidentes do STJ e procuradores gerais da República, para não falar de especialistas a granel, se pronunciaram desde há décadas, com gravidade, sobre os males da Justiça. E esta mantém-se teimosamente, com perdão da palavra, uma merda. Mesmo reconhecendo a transcendência do génio do presidente Marcelo, as propriedades miríficas do seu deslumbrante sorriso e o fascínio que exerce sobre as donas de casa da classe média, os empregados do comércio e os espectadores da tv, não parece excessivo duvidar que, onde tanta gente falhou, ele acerte. Sobretudo não tendo, como diz o próprio, poderes executivos, nem tendo deixado rasto de obra que prestasse quando os teve; e v) É praticamente impossível fazer mais e melhor pela qualificação das pessoas do que o muito que tem sido feito. E com justiça se reconhece que a actual geração é a mais bem formada de sempre, faltando-lhe apenas, se quisermos ser perfeccionistas, aprender a escrever, fazer contas e raciocinar.

 

Marcelo ganhou as eleições com uma mistura de notabilidade de famoso, simpatia, vacuidades, à-vontade genuíno e simplicidade falsa. Pode-se ganhar empreendedores ricos com isso? Pode - quem pretenda investir em banha da cobra.

publicado por José Meireles Graça às 23:44
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Sexta-feira, 3 de Março de 2017

Milagre da multiplicação da asneira

Não pareço um terrorista islâmico, não me ocorreria apresentar-me num órgão de soberania trajado de camiseta da feira de Espinho, não acho que o confisco da riqueza do senhor Bill Gates ou Alexandre Soares dos Santos tivesse qualquer benefício para os americanos ou os portugueses, não desejo impedir, seja por que forma for, que qualquer democrata, ou comunista ou fascista (mesmo que seja um genuíno, não apenas as pessoas meramente de direita que são assim designadas) emita livremente a sua opinião, não acho que as pessoas pobres tenham um par de asas nas costas e as ricas cornos e rabo, não tenho inclinação para ser generoso com o que não me pertence, não sou fiel de uma seita com livros sagrados, santinhos e crenças lunáticas, não tenho uma concepção determinista do processo histórico nem uma visão conspiratória do mundo e não defendo doutrinas responsáveis invariavelmente por miséria e opressão no presente e por quantidades recorde de mortos no passado.

 

Ou seja, não sou comunista. E como também não sou ingénuo não acho que os comunistas sejam adversários - são inimigos. Inimigos porque enquanto defendo para eles a mesma liberdade de que gozo, e os mesmos benefícios de que usufruo, ou maiores, se a eles tiverem tido acesso sem crimes, a um pobre diabo como eu seria negado, no mínimo, o exercício da profissão e da opinião na sociedade deles. Isto não exclui que, pessoalmente, possa ser amigo de comunistas (já fui amigo de um que, incidentalmente, se veio a revelar um patife) mas sem ilusões: o bem maior, para eles, é a sociedade comunista, e em nome dela não hesitam, se for necessário, em sacrificar qualquer noção de decência burguesa, incluindo a amizade e seus deveres.

 

Portanto, não tenho nada de comum com Miguel Tiago. É por isso com grata surpresa que concordo com ele. Não no sentido de Teodora Cardoso ter dito algo que não subscreva - pelo contrário, a senhora está coberta de razão - mas por me parecer que o Conselho de Finanças Públicas não deve, enquanto organismo na esfera do Estado, existir.

 

Não deveria existir, tal como o Conselho Permanente de Concertação Social ou a generalidade dos organismos de supervisão ou consulta, quando sejam suportados pelo Orçamento de Estado.

 

Portugal não tem economia para tanto Conselho, Comissão, Observatório e a miríade de organismos que vivem sentados à mesa do Orçamento. E a circunstância de Teodora Cardoso ser uma senhora sensata e competente, com idade para ser independente (a independência é mais fácil, em Portugal, para quem não se importar de não ter lugar futuro se no exercício do seu mandato ofender os poderes do dia), não nos deve fazer esquecer que hoje temos uma Teodora mas, amanhã, teremos um desses economistas yes-man, que são a variedade corrente, ou, pior, um maquiavel de trazer por casa, se na nomeação Marcelo tiver a sua néscia palavra a dizer.

 

Vem pois aos meus braços, Tiago, se juntamente com a aposentação da senhora quiseres a extinção do organismo (mas, já agora, toma banho e põe uma camisa lavada, que os fachos, às vezes, são uma gente muito dada a manias).

publicado por José Meireles Graça às 23:22
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Quarta-feira, 1 de Março de 2017

Fábula do escorpião e da rã

Sérgio Vasques, inquisidor-geral, lavrou em 2010 um despacho que constituiu a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos (hoje "Autoridade Tributária", uma designação ominosa) na obrigação de publicar informação estatística relativa às transferências financeiras feitas para paraísos fiscais, uma prática herética que nem por ser bastante vulgar deixa de ofender os sãos princípios de uma sociedade organizada sob o lema "tudo dentro do Estado socialista, nada fora do Estado socialista".

 

Os jornais estão recheados de familiares do Santo Ofício. E portanto esta iniciativa, mesmo não sendo do Grande Inquisidor, modernamente designado como Secretário de Estado dos Impostos, estava fadada a ter grande sucesso: do que se tratava não era de perseguir os marranos, que disso se ocupavam ordinariamente os santos frades no exercício do seu múnus - era de confirmar no espírito daqueles familiares e seus leitores a ideia de que há pobres porque há ricos; que a maneira de acabar com os primeiros é acabar com os segundos; que o fardo desta vida, para os deserdados, fica aliviado pelo expediente de só se poderem comparar com outros miseráveis; e que, salvo prova em contrário, e mesmo assim, não apenas um rico tem mais dificuldade em entrar no reino dos céus do que um camelo em passar pelo buraco de uma agulha, como merece ainda antes da duvidosa justiça do Além ser desde já imolado nesta.

 

Que o propósito era unicamente publicitário e doutrinário prova-o o facto de a estatística não discriminar a natureza das transacções, misturando no mesmo saco a empresa que quer pagar um bem ou serviço onde o credor lho exige e o cidadão que quer pôr ao abrigo da rapacidade do Estado, do risco de falência dos bancos ou do fim do Euro as suas poupanças; e incluindo, sem nomear, os suspeitos de tráfico de drogas, de armas ou de corrupção. Tudo com o evidente propósito de, enquanto não há meios, nem coragem, nem consenso na opinião pública, para acabar com as transferências para offshores, a ir moldando a este sincretismo interesseiro.

 

A frei Vasques sucedeu frei Azevedo; e foi este clérigo (um fanático conhecido pelas teses delirantes) que, provavelmente, municiou o actual governo com a denúncia da inexistência da tal lista de transferências no pelourinho do Público e dos outros lugares mal frequentados, a fim de a bomba poder ser usada quando a Situação se sentisse apertada.

 

Foi agora o caso - ao escândalo da CGD, que corria o risco de expor à opinião pública a lista de patifes, na sua maior parte de extracção socialista, que lideraram a Caixa, e o manto de silêncio hipócrita de comunistas e bloquistas, necessário para minarem com os seus o aparelho de Estado, era preciso opor uma merda qualquer. Fosse o que fosse, desde que contivesse os ingredientes certos. Uma lista com uns números ininteligíveis, originada por despacho abusivo de um funcionário menor, que deixou de ser publicada por decisão de um político que, em vez de dominicano, era jesuíta, serve, se bem trabalhada por uma comunicação social acéfala e esquerdista - como está a ser.

 

Bem jogado, Costa: da Caixa e dos cinco mil milhões que lá vamos enterrar já não se fala; e com jeito deve ser possível encontrar, no universo dos dez mil milhões de Euros em dúvida, uma coisinha qualquer que confirme que foi a falta de publicação de uma lista que a possibilitou. Cinco ou dez milhões já eram suficientes - quando os zeros são muitos as pessoas baralham tudo.

 

Resta dizer que há nisto tudo, em relação a Paulo Núncio, uma justiça poética. Que das duas explicações que deu para, sem clareza nem coragem, bloquear a publicação do papel, a segunda deve ser a verdadeira: não queria espantar a caça. Nunca explicou, nem sabe explicar, nem bem entenderia a pergunta se lha fizessem, de que forma se distingue de Paulo Macedo, ou do grotesco sucessor socialista que lá está agora, quando entre outras coisas passou um prazo ordinário de prescrição de ilícitos fiscais de quatro anos (tempo mais do que suficiente) para doze anos, precisamente no caso das transferências para offshores, além de toda uma impressionante série de malfeitorias com o mesmo denominador comum: o contribuinte é um infractor salvo se provar o contrário; a administração fiscal é inimputável e os erros e abusos são sempre consequência de falhas informáticas; um bom secretário de Estado aumenta a receita; e o bom cidadão fiscaliza o seu semelhante, tendo por prémio a miragem de um automóvel de luxo - pior ainda que o católico fervoroso que denunciava o seu vizinho cristão-novo para se lhe apropriar do quintal e das hortaliças viçosas.

 

De Pepedês e Cêdeesses que não se distinguem dos seus confrades do PS senão pelo conservadorismo em questões fracturantes pode dizer-se o mesmo que da fábula do escorpião e da rã: a rã só se pode queixar da sua própria estupidez.

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publicado por José Meireles Graça às 20:05
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

Velhinhos tratados a bastão

"O estudo mostra que há uma percentagem mais elevada de desnutrição ou risco da mesma nos idosos que vivem em lares".

 

O estudo? Qual estudo? O artigo não diz mas ficamos com fortes suspeitas de que seja da Ordem dos Nutricionistas, um conhecido organismo cuja bastonária está aflita com a situação dos pobres velhinhos e lhes quer acudir.

 

O jornalista, esse, pergunta sem rodeios, indo com argúcia ao cerne do problema: "É preciso criar uma estratégia de intervenção?"

 

E aqui a gente, que esperava que a senhora bastonária dissesse que sim, é preciso dar de comer aos velhos, proporcionar assistência odontológica aos que têm "problemas de mastigação" e estabelecer um plano que garanta que os responsáveis pelos lares são devidamente expulsos se com culpas próprias no descaso, ou pendurados pelas orelhas os supervisores públicos que por preguiça ou incúria nada fizeram para tentar resolver o problema, lê com surpresa:

 

Que "era importante" que os lares que ainda os não têm (e a maior parte está nessa lamentável situação) tivessem nutricionistas, visto que nos Centros de Saúde há apenas cem; que exista um "diagnóstico precoce" (quer dizer, presume-se, antes de o velhinho morrer de fome); e que, finalmente, "o que importa é um plano desenhado à medida de cada um. Essa é a grande nota".

 

Grande nota, realmente. Se bem que, no fim da vida, o "plano" talvez devesse ser cada um comer o que lhe apeteça, até onde for possível porque decerto os recursos disponíveis não permitem luxos. E ainda os permitirão menos se forem desviados para pagar salários a gente que quer fazer planos para dizer a velhos indefesos o que podem e não podem comer.

 

É possível, como existe a promessa de criação de 55 vagas para esta especialidade, que a agudeza do problema venha a esbater-se. Razão por que sugiro que o jornalista, na mesma senda de se ocupar com as preocupações das classes profissionais, entreviste o senhor Bastonário da Ordem dos Técnicos de Parqueamento Automóvel, cuja situação é dramática: existe uma absurda, e impune, quantidade de utentes que se abstêm de contribuir para o sustento daquela prestigiada classe, por a achar inútil. 

publicado por José Meireles Graça às 12:23
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2017

Liberdade vigiada

Numa consulta popular, muito mais portugueses saberiam quem é Alex Ferguson do que Nigel Farage, mesmo que o primeiro destes senhores esteja reformado há anos e o segundo se entretenha, desde 1999, a escavacar o Parlamento Europeu de que faz parte.

 

Os seus discursos, em que ridicularizava Durão Barroso e Van Rompuy, são excelentes peças de oratória. Que os portugueses nunca viram porque num país tão ferozmente europeísta, e sempre tão orgulhoso dos nossos, que triunfam lá fora, decerto não cairia bem ver uma assembleia tão patentemente exposta na sua imensa vacuidade, e o nosso Barroso com a cara de tacho que afivelava por cima da sua habitual, de panela, quando Farage o interpelava.

 

Só durante a campanha do Brexit, e mesmo assim de raspão, Farage começou a ser mencionado entre nós, sempre com a precaução de o indicar de extrema-direita. Qualificação que naturalmente nos impedia de o ouvir porque o espectador deve ser poupado a extremistas fascistas. Se forem comunistas, está bem: primeiro não são bem extremistas - Jerónimo de Sousa não dá um avô muito querido para qualquer um, e Catarina não é uma moça desempoeiradíssima e moderna? - e segundo porque, como toda a gente sabe, o fascista diz coisas impossíveis e o comunista sempre tem a vantagem, em juntando-lhe alguma água de rosas, de dar um social-democrata bastante aceitável.

 

Sucede porém que a televisão vive do espectáculo, e não hesita em passar qualquer reportagem sumarenta do mundo da política desde que haja suspeitas de corrupção, ou acrimónia, ou berreiro, ou exaltações, ou manifestações e caçoadas - em resumo, paixão: um grupo de senhoras e senhores a imputarem-se reciprocamente horrores com grande delicadeza não é tão bom como se se tratassem uns aos outros de pulhas e andassem à estalada, e o ideal seria que houvesse mais mulheres e o jogo da política se passasse também entre lençóis, connosco a ver, mas enfim, faz-se o que se pode.

 

É verdade que em matéria de espectáculo político para consumo de massas temos Marcelo, o entertainer da República. Mas, a julgar pela audiência à comunicação de fim de ano, é um cómico que começa a cansar, e qualquer dia se quiser regressar a grandes níveis de audiência terá que dar despacho no meio do Tejo, com a Guarda Costeira a afastar diligentemente a imundície para não o atrapalhar na promulgação de dejectos.

 

Ora tudo isto é estranho. Que se o vistoso, o espampanante, o diferente, vende, Nigel Farage é boicotado porquê? E não é só ele: Geert Wilders, que ainda há pouco foi julgado por discriminação racial e incitamento ao ódio, mereceu umas quantas referências apressadas porque o assunto era notícia em todo o mundo, mas não tivemos direito a ouvi-lo - quem quiser que vá ao YouTube. O espectador português é poupado a ouvir os horrores que incansavelmente debita o, possivelmente, político mais popular da Holanda, como foi aos do inglês que mais tenazmente defendeu o Brexit - e ganhou.

 

Que a televisão, por apenas querer vender, difunda horas infinitas de debates sobre os jogos que vai haver, os que houve, e, sobretudo, as trincas e mincas dos ídolos do dia, dos árbitros, dos casos, dos comentadores, e dessa fauna pouco recomendável que são os dirigentes, confere: o público quer isso, e quanto mais vê mais quer porque mais se enfarinha. E quem não dá para esse peditório tem bom remédio, que canais no cabo para outros interesses é o que não falta.

 

Então, em que ficamos? Os donos das televisões saneiam sistematicamente estes estrangeiros fascistas, ao mesmo tempo que promovem chatos que ninguém já tem paciência para ouvir, incluindo comunistas, porquê?

 

Está bom de ver: em todas as áreas a televisão vende espectáculo, mas os senhores que a dirigem, sobretudo quando são jornalistas, tomam-se por ideólogos e têm portanto ideias políticas. O futebol, os concursos, as telenovelas não são de esquerda nem de direita, e portanto podem ser servidos em doses cavalares. Mas estes jornalistas são anti-europeus, se forem comunistas; europeístas, se pertencerem a qualquer das outras igrejas; mas educadores do povo sempre, e quase sempre serventuários do poder do dia. E como o regime nasceu e se afirmou como a antítese do que estava antes, e criou uma imensa mole de dependentes sob a forma de pensionistas e funcionários públicos, já duas gerações de profissionais foram educadas no pânico de que os considerem fascistas, para o que basta que não papagueiem nenhum dos discursos que os partidos do sistema aprovam, e não defendam a manutenção do que está. Que se lixem as audiências - ir atrás delas está muito bem desde que com isso não se perca o emprego nem se ofendam os pais da Constituição, que são os donos disto tudo.

 

Daí que só se e quando Wilders chegar ao poder e começar, como quer, a pôr um travão na imigração, o possamos ouvir - para o ridicularizar, nós que não temos imigrantes porque eles cavam daqui a toda a pressa.

publicado por José Meireles Graça às 17:07
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

Lepra

A sabedoria convencional diz-nos que a táctica seguida inicialmente pelo PSD de martelar incessantemente a ilegitimidade originária do governo Costa, que só nasceu porque apoiado numa maioria com comunistas que não foi aventada na campanha eleitoral nem tinha precedentes, foi arrastada durante demasiado tempo. Já o CDS, após Portas ter anunciado o óbvio (óbvio quer dizer que se tornou fácil de ver para toda a gente depois de o ter dito), isto é, que de futuro só seriam possíveis governos de direita com maioria absoluta, deixou rapidamente cair a lamúria.

 

O eleitorado vive no presente e quer que lhe garantam o próximo fim do mês melhor que o de há um ano, e para o resto do futuro contenta-se com promessas vagas desde que risonhas - o que lá vai lá vai. É por as coisas serem assim, e o PS ser delas um óptimo intérprete, que as sondagens que andam por aí não penalizam o governo golpista, donde pessoas de representação deduzem que o PSD e o CDS se devem esforricar em projectos, iniciativas e propostas alternativas.

 

Tretas. Que no campeonato da diarreia legislativa, lançamento de novos serviços públicos, manutenção dos existentes, dinamização da economia a golpes de subsídios e voluntarismo, desarme de conflitos sociais com cedências, e criação artificial de um clima de optimismo - o PS ganha, e o PSD muito, e o CDS alguma coisa, sempre o acompanharam no esforço, com excepção do tempo da tutela da troica.

 

É por as coisas serem assim que a dívida pública chegou ao nível a que chegou, e que não pára de crescer, a despeito da propaganda sobre a suposta redução do défice, na qual as instâncias europeias fingem acreditar (para explicar a discrepância - a dívida cresce mais do que proporcionalmente ao défice apresentado - os economistas dizem candidamente que não percebem); e que, a menos que surja um basta! dos credores, sob a forma de juros incomportáveis, ou um basta! dos comunistas, por perderem cada vez mais votos a troco de cada vez menos novas cedências, Costa continuará de vitória em vitória até à derrota final. Que infelizmente será também a do país.

 

Até lá, o regime vai apodrecendo. E a novela bufa destes dias em torno do banco público, que cobre de lama o presidente da República, cuja hiperactividade, incontinência verbal, e ausência completa do mais elementar sentido de Estado, estavam à espera de uma oportunidade para se tornarem evidentes, mesmo para o mais furioso apreciador de selfies parvas; que desprestigia o Parlamento, por as necessidades da coligação se terem sobreposto aos poderes de uma comissão de inquérito, eliminando o elemento de contrapoder que estas alguma vez tiveram; que impede que o cidadão conheça os nomes dos responsáveis, e dos beneficiários, do descalabro que fez com que aquele banco precise de cinco mil milhões de reforço de capital, sem que se perceba que parte é que cabe à crise, que parte cabe a exigências dos dementes de Frankfurt, e que parte cabe a salteadores e ineptos; e que trouxe para a praça pública uma litania de personagens menores, desde bancários de imaginária competência pagos a peso de ouro com dinheiro público, ministros que subcontratam a feitura de leis a privados que delas directa e exclusivamente beneficiam, apresentando a conta ao contribuinte, para já não falar de alguns parlamentares televisivos que se prostituem em nome da disciplina partidária ou da estratégia de um bem maior, e de comentadores cuja independência está comprometida pela necessidade de agradarem ao governo:

 

Vem provar que o pecado original deste governo, isto é, o apoio de comunistas (os que são e os que fingem não ser), não tem apenas o preço das reversões, da conservação deletéria do poder dos sindicatos, e da paralisia de qualquer esforço sério de reforma.

 

Mesmo sendo Costa um depositário de todas as ideias erradas que levaram à falência do país, às quais faz as entorses necessárias para os nossos patrões europeus continuarem a bancar o forró, e mesmo sendo um mentiroso contumaz, como abundantemente já demonstrou, nunca um governo minoritário da PàF, com a abstenção do PS, ou até mesmo incluindo alguns socialistas mais apresentáveis na boa sociedade, levaria o país a estes extremos de abjecção.

 

Não é que uma tal solução pudesse resolver os nossos problemas; nem eles jamais começarão a ser resolvidos senão quando a esquerda - toda - for varrida do universo decisório. Até lá, a chamada direita faria bem em pensar com paciência no day after; e ocasionalmente lembrar-se, e lembrar-nos, que Costa tem lepra - contraiu-a logo a seguir às últimas eleições.

publicado por José Meireles Graça às 12:30
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017

Depois de mim, o Dilúvio

Paulo de Almeida Sande, um terrorista europeu que escreve no Observador, defende naquele jornal os seus patrões apátridas com argumentos que convencem os convencidos mas podem influenciar negativamente cidadãos distraídos que calhem de lhe ler a prosa capciosa. Vejamos:

 

"Houve, na escolha da primeira Presidente francesa da História da velha nação de Vercingétorix, uma sensação de déjá vu: tal como na eleição de Donald Trump, uns meses antes, ou na opção eurífuga dos britânicos no verão de 2016, o resultado foi uma surpresa. Ou teria sido, não fora essas precedentes surpresas".

 

Os eleitores ingleses que optaram por sair da União nunca, presumivelmente, elegeriam um Trump inglês, embora entre aqueles filhos da Ilha haja uma considerável quantidade de originais de toda a sorte e feitio, incluindo loiros ricos com penteados ridículos, por terem um compreensível receio de que o eleito, pela sua grosseria, pudesse ofender Sua Majestade, por não quererem ser representados por cockneys com sucesso e porque para governar a pérfida Albion há que ter a maçada prévia de passar pelo Parlamento, onde os impulsivos não vão longe; e a velha nação de Vercingétorix finou-se há muito - os franceses são tão celtas como nós. Donde, a mistura no mesmo parágrafo de três fenómenos tão diferentes não serve o propósito de ilustrar a falta de surpresa de uma possível vitória de Marine Le Pen, pretende insinuar que esta seria tão imprudente como o Brexit e as duas coisas tão loucas como Trump.

 

Bem visto, Paulinho. Salvo que o Brexit, até agora, não se materializou em nenhuma das desgraças anunciadas, Trump não causou nenhum estrago que os seus eleitores não aprovem e Marine... não foi eleita e, se o for, causará grandes danos à França e bastante maiores aos milhares de apparatchiks que vivem à sombra da União. Ou seja, os Franceses calçar-lhe-ão os devidos patins em tempo útil e ela deixará possivelmente em herança os Estados Unidos da Europa num frangalho - óptimo, pode ser que a famosa flexibilidade europeia consista desta vez em encostar a famosa bicicleta de Delors, na qual este celebrado pai da "pátria" europeia nunca devia ter pedalado, e se faça marcha atrás - a pé.

 

"Ambas as escolhas apontavam para um novo paradigma: o de um Mundo que reconstrói fronteiras no sentido mais inflexível do termo, com muros, interdições e vistos. Um Mundo em que o Outro é suspeito e mal-vindo. Em que patriotismo e nacionalismo se confundem, pois um bom patriota não pode senão colocar o seu país primeiro, contra tudo e todos, e onde esses todos são, por definição e até prova em contrário, a ameaça".

 

O mundo que reconstrói fronteiras é o dos cidadãos que veem o que a casta dirigente não quer ver: hordas de emigrantes que a comunicação social classifica sempre como refugiados, inassimiláveis se muçulmanos, em demasia e oferecendo mais problemas que soluções se admitidos sem critério. O resto é a definição idiota de patriotismo moderno: gostar do seu país desde que não seja seu.

 

"Um Mundo de barreiras oposto a um Mundo sem barreiras. Curioso é que, sempre que fecho as portas ao Mundo, ele fecha-mas a mim; ora o Mundo é muito maior do que eu, não é? Maior do que Trump, a Europa ou o Ocidente, até. Durante 500 anos fizemos de conta que ele cabia no espaço da civilização que criáramos; sabemos hoje que somos, portugueses, europeus, ocidentais, uma parte pequena da Humanidade, que há muito deixámos de dominar".

 

O Mundo de portas sempre abertas para todos sofre do defeito, além de ser uma miragem, de ter a detestável tendência de toda a gente querer emigrar para os mesmos sítios. E se é de liberdade de comércio que estamos a falar talvez venha a propósito lembrar que a União Europeia é proteccionista - tão proteccionista que ameaça com sanções quem se atreve a querer abandoná-la, como fazem os gangues aos trânsfugas; e que a CEE servia perfeitamente, dentro da Europa, o propósito da livre troca, não tendo que evoluir para coisa alguma. Quanto aos "portugueses, europeus, ocidentais" que deixaram de dominar o mundo convirá lembrar que do facto não decorre a necessidade de os portugueses deixarem de o ser; e que o mundo que já não é dominado inclina-se a querer ser cada vez mais parecido com os antigos dominadores.

 

"... e a Holanda, paraíso fiscal por excelência, escolhera um primeiro-ministro de extrema-direita, islamofóbico e proteccionista".

 

Ainda bem que a Holanda (como a Irlanda) tem uma fiscalidade mais amiga das empresas. Que a única garantia que ainda há na triste Europa de que fundar uma empresa não seja, como em boa parte já acontece, uma maneira de ser escravo do Estado, é haver concorrência fiscal. E, a propósito, longa vida aos paraísos fiscais (que infelizmente a Holanda não é) porque neles mora não apenas dinheiro de tráficos obscuros mas também o que se quer subtrair à rapacidade demencial de burocratas rentistas e esquerdistas invejosos. Finalmente: Geert Wilders é islamofóbico? Pois parece que um crescente número de holandeses aos quais não assistem as luzes que iluminam a cabeça civilizadíssima de Paulo também.

 

O resto é um cenário de horror, que consiste basicamente na mesma mensagem aos eleitores:

 

A coisa pública é demasiado complicada para que o eleitor médio a entenda, e pior se o português tivesse alguma coisa a decidir sobre a vida do polaco, ou o polaco sobre o italiano, ou o alemão sobre o espanhol. Quem sabe o que convém a todos são funcionários polacos, italianos, alemães, espanhóis, e Paulos Sandes, que ninguém escolheu e que não respondem perante ninguém. Para fingir que não é assim há umas eleições europeias, cujos resultados, país a país, têm tudo a ver com a situação local e nada com a Europa. Depois, os felizes eleitos vão torrar milhões para Bruxelas e Estrasburgo e tratar de reformas - sobretudo a deles. Se porém o eleitor quiser pôr fim a este estado de coisas cai-lhe o céu na cabeça, porque o terreno está minado.

 

Estará. E devia ser o papel dos políticos fazer como obedientemente fez Theresa May e a maioria do Parlamento britânico - o povo decidiu, está decidido, há que negociar o melhor possível. País a país ou, quando for necessário, na própria União.

 

Será a burocracia europeia capaz?

 

A julgar por este artigo, não. Que o que diz até agora é isto: nós é que sabemos quantos emigrantes da África, do Médio Oriente, do resto do mundo, cada qual deve acolher, e nós é que sabemos de história, de economia, de finanças, e das dimensões convenientes para as sanitas; ingleses, holandeses, franceses, são povos assolados pelo mesmo vírus que infectou os americanos, se bem que não seja certo que a epidemia alastre. Graças a Deus poupou o bom aluno Portugal - a sua opinião pública, a publicada, a sua classe política, e Paulo.

 

Não é que tenhamos alguma coisa a escolher: um país pequeno, remoto e falido, se perguntado, diria que enquanto não formos contribuintes líquidos - e nunca o seremos - a Europa está muito bem como está.

 

Há o risco de parar de pingar. Mas isto ainda é o menos porque, diz Paulo:

 

"A minha máquina do tempo, como os amigos leitores sabem, falha algumas vezes. Ainda pode ser de outra forma, perguntarão? Pode, claro. Mas depende do que fizerem os homens e mulheres de boa vontade, cientes do abismo aberto sob os nossos pés. Não, o populismo triunfante, nacionalista e exclusivista, não é coisa leve, efémera e benigna que passará se formos pacientes e obedientes. Sabemos o que acarreta esquecer o que a História nos ensina".

 

Atenção, homens e mulheres de má vontade, holandeses, franceses e tutti quanti (ingleses não, que são um caso perdido): Paulo não tem que mudar, quem tem que mudar sois vós. Acabem lá com essas ideias peregrinas de saberem o que vos convém. Quem está ao corrente do que é melhor para todos, de Lisboa a Bucareste, de La Valeta a Helsínquia, é a classe dos Paulos, que é modesta a ponto de nem precisarem de os conhecer, e que se sacrifica anonimamente a troco de uma vida confortável. Os lúcidos são portanto estes, devidamente acolitados pelos homens e mulheres de boa vontade.

 

Como é que distinguem os bons cidadãos dos maus? É fácil: os bons garantem a paz e as sinecuras de quem os pastoreia; os maus não. E todos, com excepção dos pastores, recebem em suas casas aqueles de quem querem distância.

publicado por José Meireles Graça às 13:00
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017

Novos velhos e velhos novos

Miguel Sousa Tavares, um conhecido comentador que tem por hábito asneirar com grande liberdade e franqueza, nisso se distinguindo dos seus colegas socialistas que costumam ser mais calculistas, disse na SicN que "quando a vontade do povo é qualquer coisa que vai contra aquilo que nós temos como o bem comum e as melhores ideias, não é preciso ceder à vontade do povo, é preciso resistir à vontade do povo”.

 

Isto eu ouvi e disse para os meus botões que aquele ilustre residente há décadas nos lugares cativos da opinião na falida comunicação social precisava que lhe cascassem - a gente de senso sujeita-se a opiniões de comunistas e às fracturas expostas dos adolescentes do Bloco e protege-se com o comando à distância, tirando-lhes o pio, mas ainda vai ouvindo socialistas para se inteirar dos novos asneiróis da governação. E vai ele e sai-se, a propósito de Trump, com uma destas - o presidente alaranjado tira pelo visto a esquerda, e muita direita, do sério.

 

José Mendonça da Cruz acertou-lhe o passo, tão completamente que partilhei o texto no facebook e, relendo-o, não tem lá nada com que não concorde.

 

Da esquerda estamos conversados, mas fiquei a pensar. Há demasiada gente à direita (e não, não estou a pensar no PSD, que contrasta com o PS sobretudo por gostar de contas equilibradas, nem no CDS, que contrasta com os dois sobretudo por achar que o bom cidadão vai à missa) que, ainda antes de Trump se estatelar, dar o dito por não dito, ou mudar de penteado, ou cancelar a conta de twitter, nem sequer lhe dá o benefício da dúvida, e pelo contrário exibe desde já um ódio furioso.

 

Não pode ser por causa do proteccionismo. Isso aflige talvez os chineses, os japoneses e todos os que tenham um superavit comercial, além dos liberais clássicos, que aliás entre nós não chegariam a encher o estádio do Dragão. Mas mesmo entre estes há vozes que lembram que os tratados comerciais longamente negociados têm três problemas: um é que ninguém, salvo os especialistas, os entende; o outro é que há suspeitas de que estão recheados de cláusulas que favorecem grandes empresas, e que foram lá plantadas por lobbies; e o terceiro é que a liberdade de comércio permitiu a saída da pobreza a uma quantidade de pessoas sem precedente (diga lá o papa Francisco o que disser, convencido que está de que calça realmente os sapatos do santo de Assis) - mas o emprego no Ocidente já não é para a vida, e enquanto dura é relativamente mal pago. Que interessam lá os chineses, ou vietnamitas, ou os pretos, que estão todos melhor? Nós temos menos esperança no futuro que os nossos pais, e isso não pode ser. Não, não é o proteccionismo que justifica tanta exaltação.

 

Não pode ser a NATO, que Trump parece não querer bancar, nem os gestos de compreensão em relação a Putin, que a União Europeia execra, nem o evidente descaso da própria ideia daquela União, nem o alinhamento com Israel, nem muito menos a adivinhada sobranceria na relação com a ONU. Os europeístas frenéticos (com perdão da redundância) veem nestas inflexões uma excelente desculpa para o reforço da integração, agora com uma componente militar, por causa do alegado expansionismo russo, e esfregam as mãos; a perspectiva do reforço da integração, mesmo para os que a não desejam, não explica a vasta coligação anti-Trump, nem a sua veemência; contra Israel está apenas a esquerda e uma faixa minúscula da direita; e a ONU não conta, salvo para Guterres, por lá estar a bolsar irrelevâncias, e o professor Adriano Moreira, por não falar doutra coisa.

 

E também não pode ser a evidente componente anti-islâmica do discurso trumpista porque a direita sabe que o Islão é uma ameaça, e não ignora que quando as comunidades muçulmanas atingem uma certa dimensão não apenas não se integram como rejeitam a tolerância, a igualdade entre os sexos e os outros valores que fazem com que no Ocidente se viva no séc. XXI e nos países islâmicos algures entre o VII e o XVIII. Que haja alguns ingénuos que, por causa da igualdade religiosa, não queiram ver as coisas assim, não monta.

 

Não pode também ser a posição de Trump sobre o waterboarding e o reforço dos poderes das polícias. As selvajarias americanas nunca incomodaram excessivamente as direitas no tempo de Bush, e de todo o modo não faltam, à direita, justiceiros acéfalos.

 

O quê, então?

 

Trump é, como o Brexit antes dele, o novo - o mundo velho está a ruir. Está a ruir com o regresso dos fantasmas dos nacionalismos, e dos equilíbrios geoestratégicos, e das alianças, e da importância da história - uma horrorosa complicação.

 

Sousa Tavares queria que a história acabasse, a União se aprofundasse, a ONU fosse mais respeitada, os muçulmanos se integrassem, os países fossem mais solidários, os cidadãos menos desiguais, os impostos mais baixos com um Estado Social mais amplo, e que as touradas continuassem, mas sem sofrimento do touro.

 

Queria isto. E a direita tradicional, com cambiantes, não queria a parte lírica disto, pelo que se definia, nessa parte, contra.

 

No nosso mundo antigo podíamos tranquilamente sonhar com uma sociedade nova, se fôssemos comunistas; ou em mudar de sexo a expensas do Estado, se fôssemos da esquerda festiva; ou em comprar eleitores com benesses, enquanto a economia crescia como por milagre, se fôssemos socialistas; ou em gerir com um módico de sensatez a coisa pública, se não fôssemos nenhuma daquelas abominações.

 

Quer dizer que nos entendíamos perfeitamente no rotativismo em torno do que está.

 

Mas o que está vai desaparecer. E podemos recuar assustadamente à procura da segurança do antes, a golpes de manifestações, artigos, desinformação, berreiro na comunicação social e ofensa dos eleitorados; ou agir sensatamente, tirando o melhor partido das circunstâncias.

 

Dito de outro modo: os velhos que o são, e os que só têm quarenta anos, mesmo que pareçam trinta, mas não estão a ver o filme, querem pôr um dedinho no furo da barragem, imaginando que por isso ela não vai abrir brechas. Já os velhos que o não são, mesmo que tenham sessenta anos e imaginem parecer ter apenas cinquenta, e os novos lúcidos, compreendem a futilidade do exercício.

 

Por natural modéstia, que espero se me desculpe, omito qual é destas a faixa etária a que pertenço.

 

publicado por José Meireles Graça às 15:47
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