Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

Agenda cultural

Vivo, desde 1975, num sítio que dantes ficava na periferia da cidade. Antes disso, e salvo umas ausências esporádicas de uns quantos anos no Porto, morei numa freguesia rural e em várias casas, duas delas na praça mais antiga, então decrépita e hoje reabilitada.

 

Comecei a minha vida profissional na Câmara local, e por lá fiquei quase onze anos.

 

Quer dizer que deveria ser um arreigado bairrista, mas não: sempre a minha vidinha me interessou muito, a do país bastante, a do mundo alguma coisa e a do concelho quase nada. Vou a ponto de confessar, compungido, que se o Vitória de Guimarães fosse para a segunda divisão (que agora se chama de Honra, possivelmente pela sua clamorosa escassez) o facto só me aborreceria por ter de aturar a sentida tristeza de alguns amigos; e que dispensaria as honras pacóvias de que os meus conterrâneos se  ufanam (capital europeia disto e daquilo) se elas não tivessem palpáveis vantagens para o comércio, a cujos interesses não sou, em abstracto, alheio, e para a conservação do património.

 

Há uma dúzia de anos saio de casa e viro à esquerda, salvo seja, em direcção ao concelho vizinho, onde trabalho; e como o bar onde durante mais de vinte anos ia ao fim da tarde conviver com parte das forças vivas da terra fechou, pouco menos seria ignorante da vida da terra se vivesse em Phnom Penh.

 

Aos sábados de manhã, vou, há mais de vinte anos, ao outro extremo da cidade, com frequência a pé, à mesma esplanada, pacificamente considerada um lugar fino; e aí lia o Público, quando Vasco Pulido Valente ainda lá escrevia, e leio agora o correio, a blogosfera, o facebook, o Alberto Gonçalves (VPV mudou de dia e de jornal) e coisas várias.

 

Hoje lá fui pachorrentamente, fumando; e, ao passar na rua da Rainha, reparei neste prédio. Pasmei para o cartaz, que anuncia a instalação de "residências para investigadores". E, como fiquei curioso, ao chegar ao destino apropriei-me da agenda cultural do mês, publicação municipal profusamente distribuída cuja leitura habitualmente evito, por razões de higiene, a ver se encontrava notícia do empreendimento. Nada: a agenda em questão, aliás, não se chama assim, dizendo singelamente na capa "Guimarães Arte e Cultura", sobre fundo de fotografia desmaiado em azul ciano de uns piolhosos com ar fortemente artístico.

 

Um portento, o livrinho de quarenta páginas, fora o encarte, com 30, específico do "Centro Cultural de Vila Flor". Logo na capa listam-se alguns dos organismos que, além daquele Centro, se ocupam da cultura dos munícipes: são eles a "Plataforma das Artes e da Criatividade", a "Casa da Memória", o Centro da Criação de Candoso", o "Espaço Oficina", a "Fábrica Asa", o "Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitectura" e finalmente o "Laboratório das Artes".

 

Espiolhando a Internet encontram-se notícias do que se faz nestes organismos; e alguns já visitei com a secreta, e desiludida, esperança de não confirmar os meus preconceitos. Dou, pela leitura da Agenda, alguns exemplos:

 

No Grande Auditório vai uma peça de Máximo Gorki, assim apresentada, juro: "Veraneantes é uma tapeçaria de desejo e frustração que autopsia a nossa impotência perante o desenrolar da vida". Deve tratar-se, imagino, de um tapete estragado a embrulhar o cadáver de um cavalheiro que se suicidou em razão de problemas de índole sexual. Passo.

 

Estreia absoluta de "Vespa", de Rui Horta, um solo interpretado pelo próprio, após 30 anos de ausência do palco. "Vespa é uma peça sobre uma cabeça a explodir, sobre o que nem sequer falhámos porque nos coibimos de cumprir. Na dupla condição de voyeur, a do outro e a de si próprio, o público compõe o tétris do personagem em cena, desafiando a sua própria concepção do registo público e privado". Não li o resto, e portanto não estou em condições de explicar o que Rui se propõe fazer em palco (nem possivelmente estaria mesmo que lesse porque nem sequer o primeiro parágrafo entendi). Não obstante, a referência aos trinta anos de ausência lança sobre o artista uma luz favorável, por não ser impossível que tenha estado em meditação num mosteiro budista. Mesmo assim, o risco é demasiado grande: passo.

 

Há muito mais: Numa coisa chamada "Bufos", um tal José Almeida Pereira, com a participação de Cristina Mateus e Max Fernandes, propõe-se "contra a fugacidade do tempo incitar a imaginação do observador e convidá-lo a demorar-se no espaço sensível da sua subjectividade para escapar à luz estroboscópica das imagens". Ainda li mais um bocadinho, a ver se não seria um ménage à trois com luzes psicadélicas, caso em que o assunto mereceria alguma ponderação, mas parece que se trata de pintura: "O que se coloca diante de nós são simples espectros, pequenos vestígios, rastos de um conjunto de imagens que teimam em permanecer para sempre na memória".  Uma coisa destas ficar na memória não parece um perigo muito plausível, mas a prudência aconselha a não menosprezar a ameaça: passo.

 

No meio da cangalhada, há uma ou outra coisa com interesse: teria sido capaz de ir ver a Orquestra de Guimarães, para ouvir Mendelssohn, desde que arranjasse um lugar na coxia, para o caso de a orquestra em questão, que não conheço, ter som de cana rachada, e poder dar à sola discretamente. E é com certeza impossível que ninguém faça, nesta floresta de organismos, obra de mérito e trabalho respeitável. De resto, este esparramar de dinheiro com o que se toma por cultura, e esta abundância de vacuidades, não são um exclusivo da terra, nem português.

 

Mas não preciso de ver contas para saber que tudo isto dá prejuízo; e não se requerem grandes rasgos de lucidez para perceber que o fio condutor destes organismos é a criação de empregos públicos e o sustento de artistas que o mercado não alimenta.

 

Pessoas que o poder nomeia para terem empregos permanentes na vaca marsupial pública, e que escolhe para terem apoios e subsídios que são negados a outros, como se houvesse outro critério que não seja a filiação partidária e o amiguismo. E isto numa amálgama pornográfica (no caso de Guimarães) com a recuperação do património, que tem sido feita com sucesso, critério e resultados.

 

Conservar e restaurar o património é função do Estado. Patrocinar o ensino da música ou das artes plásticas, também. Mas a produção artística - não. É claro que o Estado pode ocasionalmente comprar peças de Arte contemporâneas, para efeitos de arranjo ou enriquecimento de espaços, como sempre fez; assim como mandar fazer edifícios, quando necessário, não sendo indiferente que seja o arquitecto A ou B a projectar. Isto mesmo tendo presente que a única maneira segura de investir em Arte contemporânea seria a de pagar com promissórias a validar em 100 anos, no caso improvável de os nossos trinetos subscreverem o que sobre Arte se pensa agora.

 

Mas no nosso país falido, muito mais do que num país normal, o rateio dos dinheiros públicos deveria estar ao abrigo de equívocos. Quem quer pintar que pinte, quem quer representar que represente, quem quer escrever que escreva, quem quer esculpir que esculpa, quem quer compor que componha. Mas quem quer mamar que espere - espere pelo restauro dos monumentos a cair, dos acervos de museus e bibliotecas que se deterioram e não crescem, pelas obras nas escolas que não se fazem. Espere, em suma, pela cultura que não tem voz e por isso não berra, não reclama, não faz reivindicações nem, graças a Deus, exposições, workshops e agendas culturais.

 

Então os seis investigadores da Rua da Rainha, para cujo alojamento se vai gastar à cabeça para cima de um milhão de Euros, vão investigar o quê? Isso é segredo, o que a notícia diz é que vão "interagir" com a população local.

 

Não deve ser para apurar o destino que a Câmara dá ao IMI que rouba. Isso já sabemos.

publicado por José Meireles Graça às 23:17
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

Victor Lustig dos pequeninos*

Sabe-se que o governo resulta de um imaginativo golpe de rins do PM, que trocou uma possível luta de faca nos dentes dentro do PS, decorrente da sua surpreendente derrota eleitoral, pelo poder de distribuir lugares no governo e no aparelho do Estado, que garante o sossego e a unanimidade das hostes. Fê-lo com o expediente simples, e inesperado, de atrelar comunistas a uma maioria parlamentar.

 

A jogada não havia sido prevista, e menos ainda discutida, na campanha, e não tinha precedentes. E como o PCP sempre se distinguiu, desde há quarenta anos, pela sua adaptação meramente tática à democracia parlamentar, que aliás nos seus textos doutrinários continua a desprezar; nem se nota qualquer quebra de disciplina entre o seu pessoal político, que é inteiramente recrutado nas suas coudelarias privativas, que asseguram a opacidade e a reprodução do pessoal político por cissiparidade - são todos iguais: resulta que trazer comunistas para o poder não foi cousa pouca.

 

Acharam muitos, e eu também, que um governo destes não podia durar: António Costa, e com ele a camarilha dirigente do PS, não tem, sobre o governo do país, ideias substancialmente diferentes das que tinha Sócrates; a negociação permanente com o PCP e as vedetas bolivarianas do BE só podia reforçar o pendor despesista, estatista e terceiro-mundista da situação; e a UE cedo cortaria cerce as veleidades no derrapar da despesa, no aumento do défice e na continuação do financiamento.

 

O Orçamento confirmou as presunções: era inexequível sem agravamento do défice, não continha medidas sérias de reforma do Estado que facilitassem o crescimento e, cria-se, Bruxelas não o deixaria passar.

 

Mas deixou, com reservas e vigilância. O Orçamento foi o segundo golpe de rins de Costa, e desta vez duplo: aldrabou os patrões europeus pelo expediente de garantir o cumprimento das metas, custasse o que custasse, com a consciência de a UE não querer, por estar ela própria periclitante, dar as mesmas provas de intransigência que deu aquando do programa da tróica; e obteve aprovação dos seus parceiros apresentando-lhes um orçamento incompatível com as metas que traçava, que depois adulterou comprimindo as despesas mais caras à esquerda, aumentando os impostos que a mesma esquerda considera mais injustos, e dando um bodo fiscal às empresas, sob a forma de perdão fiscal e reavaliações. Para garantir o apoio da massa dos votantes retocou pensões e salários da função pública, mesmo ficando sempre aquém da propaganda que uma imprensa obsequiosa veicula, e estancou a redução de pessoal empregado no Estado.

 

Com isto, mais cativações e aldrabices menores, às quais de resto os governos da democracia sempre recorreram, apresentou o menor défice da democracia. Não foi, claro: O Conselho de Finanças Públicas acha que não, mas o que o eleitor vê e ouve todos os dias não é aquele Conselho, nem os discursos cépticos de economistas sérios, nem a Oposição que ainda há pouco deprimia toda a gente por não prometer um futuro radioso. O que vê é o optimismo nas declarações oficiais, a taxa de desemprego que baixa, a paz nas ruas que a CGTP garante e os bancos que recomeçaram a dar crédito ao consumo.

 

Jogada de mestre. Tão de mestre que eu, se fosse comunista, começava a perguntar aos meus botões se não estava a pagar caro demais o apoio: as sondagens mostram que o PS sobe nas intenções de voto e Costa, se tiver uma maioria absoluta, não hesitará em reverter, à menor pressão europeia, as cedências que já fez aos bandos à sua esquerda, porque não tem mais norte do que seja o interesse público do que as galinhas, que entendem que aquele interesse é onde estiver o milho.

 

Entretanto, a dívida pública continua a derrapar. E suponho que os Centenos, Trigos Pereira, mais a vasta floresta de académicos e funcionários que servem o poder do dia, muito devem coçar as pensativas cabeças sobre como aldrabar este indicador, que não cola com o resto. Se houver alguma maneira, encontrá-la-ão. E têm para isso suporte teórico: não é verdade que a economia vive da confiança e das expectativas? Pois então, dourar os números é, bem vistas as coisas, quase um dever patriótico. Sê-lo-ia, também, o trabalho de explicar como é possível que a dívida pública cresça mais do que o défice, mas os economistas ditos de direita têm-se poupado, que eu saiba, a esse excessivo trabalho, decerto por não terem acesso a números que estão escondidos nalgumas gavetas.

 

Estamos assim. E como a população só vê ao perto, e não tem nem quer ter óculos para ver ao longe; como a Europa finge que é míope, porque corrigir as dioptrias causaria de momento alguma perturbação noutros órgãos; e como a comunistada ou foi apanhada na sua própria armadilha ou aposta que quanto pior a prazo, melhor:

 

Portugal hoje está um torpor, tanto que Costa pode talvez durar. Para mim, isto é uma grande maçada, não tanto por estar excessivamente preocupado com as futuras e garantidas desgraças dos meus concidadãos - têm o que merecem - mas porque me enganei.

 

A União Europeia, o PCP, o Bloco, a maioria dos eleitores e eu - somos muita gente a ser enganada. Este homem ou é um génio, ou um crápula, ou um crápula de génio.

 

Génio não creio, porque lhe falta esta estatura.

 

* Publicado também aqui

publicado por José Meireles Graça às 17:04
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Domingo, 16 de Abril de 2017

Infernos fiscais

Podemos portanto ficar descansados: Uma vez por ano teremos direito a saber quanto dinheiro foi transferido para as Ilhas Caimão, e as do Canal, e poderemos sonhar com esses lugares inacessíveis aonde os famosos e os poderosos se deslocam nos seus aviões privados, ou no mínimo nas suas viagens em primeira classe, para se encontrarem com outros plutocratas em festas babilónicas onde mulheres esculturais com menos roupa ainda que princípios se cruzam com jovens atléticos, igualmente proficientes no court de ténis e nos tálamos vagos momentaneamente de maridos.

 

Jornalistas agudos explicarão porém que a maior parte do dinheiro se destinou a transacções comerciais, sendo os paraísos fiscais locais onde os credores chineses, ou sauditas, ou de outras nacionalidades, exigem, decerto por razões suspeitas, ser pagos; e, para quem for além dos cabeçalhos, explicarão que na realidade os paraísos em questão são em geral lugares pouco aprazíveis e as empresas lá sedeadas meras caixas de correio.

 

Resta que o propósito da lei não é, como não era o do despacho anterior de Sérgio Vasques, uma das sinistras figuras que ocupou o lugar de secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, exercer qualquer espécie de fiscalização: dizer aos cidadãos todos os anos quanto dinheiro saiu do país para destinos onde os seus donos não são esbulhados demencialmente contribui zero para a fiscalização da evasão fiscal; mas ajuda muito à ideia de que os paraísos fiscais não deveriam sequer existir, como pensa o PCP e se esganiça a dizer o BE; e predispõe o público para a ideia de que o contribuinte é dono apenas do que a autoridade democrática entende que pode conservar do que é seu, sendo tudo o mais um roubo.

 

É isto que explica que pouco importa que os secretários de Estado deem aulas na Católica ou sejam até do CDS: todos acham que a medida do seu sucesso é o aumento do esbulho; que a riqueza cresce pelo efeito de a transferir para o Estado; que, a despeito das evidências, se todos pagarem o que "devem" todos pagarão menos; e que a diminuição dos direitos dos contribuintes é um mal necessário, em nome do bem maior que é o combate à evasão fiscal. Combate tão importante que já hoje se dá como pacificamente aceite que a inversão do ónus da prova, inadmissível em processo penal para o crime de furto, ou outro qualquer, é rotineira para o mesmo crime se praticado por qualquer funcionário por excesso de zelo, deficiente interpretação da lei ou enquadramento dos factos tributários.

 

Não é o mesmo crime, dirá por aí algum jurista, porque não foi praticado para benefício próprio, mas sim o da comunidade. E isto se aceita com naturalidade, sem perceber que os maiores crimes do século passado foram cometidos em nome de um bem maior. Ontem a igualdade material dos cidadãos ou a pureza racial, hoje a justiça fiscal. Um progresso, sem dúvida, porque ninguém morre, a não ser talvez de fome, porque as mesmas regras que permitem perseguir ricos, que se podem defender, não o permitem aos pobres, porque a defesa é cara.

 

Daí que a autoridade fiscal possa impunemente, se estiver para aí virada, enviar cartas a exigir o pagamento de impostos já pagos a milhares de contribuintes, e estes se vejam coagidos a pagar de novo se não tiverem o papelinho que prove que pagaram; ou que existam duas fiscalidades para empresas, as que têm e as que não podem ter aconselhamento fiscal.

 

Abençoado mundo novo: perseguem-se os ricos porque o são, com a legislação que os pobres sancionaram por inveja e ressentimento; e os segundos com os mesmos instrumentos porque o Estado é insaciável ainda que não imprudente ao ponto de atacar todos, ou sequer a maioria, da mesma forma, nem ao mesmo tempo. Para isso usa outras formas, que são as taxas e os impostos indirectos embutidos nos preços.

 

A Assembleia aprovou e Marcelo promulgou sem reservas e sem surpresa: seria decerto muito pouco afectuoso da parte dele ter uma opinião diferente da da maioria da opinião pública, que lidera em estima na exacta medida em que a serve com abjecto seguidismo; daqui a um ano haverá uma listinha no Expresso, que terá tanta utilidade como a que tiveram os Panama papers; e o inquérito rigoroso que se ia fazer aos 20 maraus que tiveram o arrojo de pôr dinheiro ao fresco sem serem fiscalizados entre 2011 e 2014 terá o mesmo destino que tiveram todos os outros inquéritos rigorosos que o Estado manda fazer a si próprio. De resto, o papel do incidente já está cumprido: confortou as pessoas na ideia de que os paraísos fiscais são cavernas de Ali-Babá, quem para lá transfere dinheiro ladrões, e quem supervisiona o processo corruptos.

 

Provas não são precisas porque a acusação está feita. E, no caso de Paulo Núncio, com uma certa justiça poética: o homem é sério mas burro. Só um burro prossegue políticas socialistas com a esperança de que os seus, que não são socialistas, o aprovem porque são seus, e os socialistas porque são socialistas; só um patarata suspende a publicação de umas listas inócuas na prática, salvo na sua carga ideológica, que provavelmente não percebe, sob pretexto de não alertar os infractores; e só um ignorante julga que o aumento da receita fiscal pela via da diminuição dos direitos dos contribuintes (e pela transformação do cidadão comum em fiscal com o engodo de prémios sorteados) seria, mesmo no contexto da troica, alguma obra que ajudasse seriamente, a prazo, na recuperação do país.

publicado por José Meireles Graça às 22:03
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Quarta-feira, 29 de Março de 2017

Grilo falante

Não fazia ideia de que ainda houvesse mercado de ganhões. Mas tropecei nesta entrevista e, como a notícia era curta, calhou lê-la até ao fim.

 

Em princípio, manda a prudência que não se leiam entrevistas de ex-ministros da Educação: há décadas que o lugar é cativo de lunáticos, intelectuais de pacotilha e doutorandos em ciências de tretas pedagógicas. Com excepções, claro: Manuela Ferreira Leite não pertencia a nenhuma destas categorias, mas à de encarregada da intendência; nunca ninguém soube em que escola de pensamento encaixar Guilherme de Oliveira Martins, por o homem levitar intelectualmente no vácuo; e o actual encarregado da pasta não se ocupa realmente de questões de educação mas de assuntos sindicais.

 

Marçal Grilo é geralmente respeitado por ter ideias próprias, ou ao menos compradas a autores menos conhecidos, uma raridade; e universalmente se lhe reconhece um entranhado amor à formação científica, para a qual deu um grande impulso sob a égide de António Guterres, o famoso estadista que vivia consumido por uma ardente paixão pela educação.

 

O esforço dos dois não foi esquecido. E é hoje consensual que para o país sair da crise, ou progredir, ou apanhar o pelotão da frente da União Europeia, como dizia o saudoso Cavaco, ou ser um país a sério, como diz com frequência o ex-ministro e actual comentador Coelho, há que investir na educação.

 

Tem-se investido na educação, graças a Deus e a estas luminárias. E com excelentes resultados - tanto que a geração actual é pacificamente descrita pel'A Bola, o Bloco de Esquerda e o comentariado como a geração mais bem preparada de sempre.

 

O progresso é que, desgraçadamente, não se tem materializado, a tal ponto que há dez anos que a dívida vai a galope, por contraponto às três décadas anteriores, em que se limitava a trotar.

 

Isto, em alguns espíritos cépticos, faz nascer a dúvida: se a geração mais bem preparada de sempre é contemporânea da maior dívida de sempre, e dos crescimentos mais anémicos de há muito, talvez a educação, só por si, não garanta nada. E a constatação de que, geralmente, nas sociedades que muito progridem a educação progrida também, poderia ter como explicação que o progresso exige educação, mas não é causado por ela.

 

Ideia perturbadora. Porque, se for assim, o exangue contribuinte português sustenta um ensino pletórico para dar formação a gente que na realidade vai alimentar outras economias. E isto sem quaisquer garantias de retorno, porque o emigrante português actual, ao contrário dos seus pais e avós, não manda dinheiro para a família, nem sonha construir uma maison no terrunho. Pior: dantes exportávamos os excedentes de mão-de-obra não qualificada que nada tinham custado à comunidade a produzir, e era portanto tudo lucro; e agora mandamos enfermeiros para Inglaterra, arquitectos para o Dubai e engenheiros para a Alemanha, e eles, que já não vivem em bidonvilles, descobrem - ingratos - que Portugal é bom, apenas, para vir de férias fora da época da neve.

 

Apesar disto, e do país falido e exangue, Marçal e todos os outros grilos avisam para "risco de desinvestimento no ensino". E insistem que devemos gastar, gastar cada vez mais, porque o crescimento até agora não veio, mas virá com os netos. Os netos de quem? Ora, é bom de ver: da tal geração, a mesma que, devido a contrariedades sobre as quais Grilo não cogita, não quer ter filhos, ou tem-nos lá fora.

 

Daí que o lamento "formamos gente de topo e os alemães levam aos 30 engenheiros" seja uma involuntária autocrítica: faço parte de uma geração de imbecis que confunde correlações com causalidades; não tenho ideia nenhuma que preste sobre o que realmente trava o desenvolvimento do país; os alemães só não levarão, em vez de 30, trezentos engenheiros, porque não haverá; entretanto, faço feiras de mão-de-obra para exportar carne tenra, e sobre elas dou entrevistas a beócios que me bebem o asneirol como se fosse néctar.

publicado por José Meireles Graça às 21:16
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Quinta-feira, 23 de Março de 2017

Sexo, verdades e dívidas

Um militante do PSD, facção Passos, na versão holandesa, que localmente tem a designação de Partido Socialista Holandês, segundo certos tradutores, e Partido Trabalhista, segundo outros, levou um banho nas recentes eleições: o partido (PvdA) perdeu 29 deputados, passando a ter apenas 9, num parlamento que tem 150. Quem ganhou as eleições foi o CDS, embora tenha perdido 8 lugares, segundo uns; ainda que segundo outros o CDS local não seja o VVD, que ganhou, mas o CDA, que apenas ficou em terceiro, com 19 lugares. O partido de Heloísa Apolónio, que naquelas terras baixas dá pelo nome de Esquerda Verde, ganhou 10 deputados, tendo ficado com 14, um resultado espectacular explicável talvez pelos factos de ser liderado por um senhor que nem é comunista nem fala aos gritos e de o país correr o risco de, se o aquecimento global não for uma aldrabice, ficar, como a Atlântida, debaixo de água.

 

Em segundo lugar, tendo ganho mais cinco lugares, ficou o PNR indígena, cujo líder se distingue à vista desarmada do português por ser loiro (diz-se que pintado) e conhecido, mas que já se sabe não fará parte do governo, por os potenciais colegas, embora lhe comprem sorrateiramente boa parte das ideias, o acharem pestífero.

 

Por este bosquejo se vê que a política holandesa é uma grande baralhação. E vê-se também que pouco tem a ver com a portuguesa: as ideias são as mesmas, mas o peso delas é completamente diferente: o espaço da opinião e o do poder não se encontram poluídos, até à surdez, com fósseis como Jerónimo, libelinhas mutantes como Catarina Martins, caloteiros oleosos como Costa, Houdinis do défice como Centeno ou papagaios hiperactivos como Marcelo.

 

Pois bem: o derrotado do PSD, compreensivelmente nervoso, disse o seguinte numa entrevista: "Na crise do euro, os países do norte da zona euro mostraram-se solidários para com os países em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade da maior importância. Porém, quem a exige também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu".

 

Para um leitor mediano, isto é, excluindo a maior parte dos jornalistas, políticos e comentadores, que são analfabetos funcionais quando calha não serem analfabetos tout court, quer dizer que o preço da solidariedade (ou seja, dos empréstimos) é a austeridade. A imagem é pouco feliz? É, mas devemos dar um desconto: Dieselcoiso, assim se chama o político em questão, é holandês e ministro das finanças, da variedade séria. Alimenta-se portanto de batatas e queijo de vaca e queima as pestanas a compulsar o livro do Deve e Haver - não se pode razoavelmente esperar nem que tenha grande sentido de humor, nem sentido diplomático, nem queda para embarcar em fantasias segundo as quais a melhor maneira de emagrecer (a dívida) é alargar o cinto (do consumo).

 

Caíram-lhe em cima. E por todos Costa, o primeiro-ministro golpista, que se distinguiu, como é a sua marca de água, pela grosseria politicamente correcta: "Numa Europa a sério, o sr. Dijsselbloem já estava demitido. É inaceitável que uma pessoa que tem um comportamento como ele teve, uma visão xenófoba, racista e sexista sobre parte dos países da União Europeia possa exercer funções de presidência de um organismo como o Eurogrupo”.

 

Por partes:

 

A "Europa a sério" é uma realidade geográfica e histórica. Já a União Europeia, com a qual Costa a confunde, é uma construção política de 1992, que se pretendeu tornar irreversível e indestrutível com o Euro, o qual começou a circular em 2002. A União vai ser amputada de um dos seus membros em breve; e o Euro já teria acabado se alguém fosse capaz de conceber uma maneira de o liquidar sem que países como Portugal, ou a Itália, comessem terra durante alguns anos, sem que os credores ficassem a arder, e sem que os países que dele beneficiam por ser uma moeda mais fraca do que a que teriam se a tivessem própria, como a Alemanha, ficassem a perder. A "Europa a sério" que Costa defende é apenas um negócio desonesto que consiste nisto: compramos o voto com benesses que damos ao eleitor; os estrangeiros financiam; e a dívida resultante alguém a pagará, em nome da solidariedade, mas nós não.

 

Quanto à xenofobia, se Jeroen acha que os europeus do sul são diferentes dos europeus do norte, no sentido de terem sobre as mulheres, a aguardente e as contas públicas, comportamentos diferentes, tem razão: os portugueses (os meus conterrâneos conheço, dos outros sulistas não quero falar) gostam com certeza mais das holandesas do que os próprios holandeses; bebem aguardente, ou mais exactamente bagaço, sem dia certo para se emborracharem; e têm uma muito maior generosidade em gastarem o que não lhes pertence do que teriam se tivessem nascido numa sociedade calvinista.

 

Se isto os faz inferiores ou superiores não sei. O que sei é que, sendo todos os humanos, em média, iguais nas suas capacidades e nos seus impulsos, as circunstâncias históricas, geográficas e culturais fazem os países diferentes, e disso não vem por si mal ao mundo. Tachar todo o reconhecimento das diferenças que felizmente existem de atitude xenófoba é um simplismo. E fazer disso bandeira política é estupidez.

 

Quanto ao alegado racismo, onde é que ele se vê na constatação de um facto? Jeroen é socialista e acha, e com ele o partido a que pertence, que as contas públicas devem ser equilibradas e a dívida pública diminuída se excessiva, em todos os países; Costa, que é socialista mas de outra galáxia, acha que não pode haver progresso sem défice, e que portanto os contribuintes do norte da Europa devem financiar os do sul, como sucede, quando sucede, dentro de cada país das regiões ricas para as pobres. Entre nós, por exemplo, quando se cortaram apoios da República à Madeira, nem o alucinado Jardim se lembrou de achar o contenente racista. Talvez porque Jardim não era verdadeiramente desonesto - mas Costa é.

 

Resta o sexismo. Não estou em condições, por falta de trabalhos de campo aos quais tenha tido acesso, de garantir que os portugueses sejam mais inclinados do que os holandeses para se endividarem para agradar a mulheres. Se for porém o caso, a alegação de sexismo parece francamente exagerada: então o pobre diabo arruína-se  para agradar e é sexista?

 

Está visto que Costa, de mulheres, ainda entende menos do que de economia. Resta-nos a consolação de que, se Dijsselbloem cair fora do barco, como merece, não será por causa das declarações da nossa rotundidade primo-ministerial, cujo peso na Europa, ainda que bastante superior ao do primeiro-ministro da Eslovénia, não é suficiente para derrubar ninguém; é porque perdeu as eleições e, ao contrário de Costa, não deve ocupar um lugar que pertence a outros.

 

publicado por José Meireles Graça às 12:21
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Segunda-feira, 20 de Março de 2017

Ventos de xenofobia

Porque é que o problema nunca se colocou antes, se o que não falta são pessoas de cruz ao pescoço?  ̶ pergunta a senhora, e vai respondendo que "a jurisprudência europeia permite que se consagre a ideia de que há religiões 'nossas', 'neutras', e as outras. A xenofobia pode incubar onde menos se espera".

 

Neste caso, a xenofobia incubou, pelos vistos, no tribunal de Justiça da União Europeia. Fernanda Câncio não tem dúvidas - nunca tem, Deus a abençoe, que eu não posso  ̶  e vai daí saem mais uns juízes xenófobos, a juntar à mole imensa, e crescente, dos cidadãos que no Ocidente encaram os muçulmanos, a religião deles, as igrejas deles, os hábitos e os símbolos, como uma ameaça.

 

O tribunal, é claro, não hierarquizou as religiões, nem podia, porque a União é laica e todas as religiões estão cobertas pela liberdade de culto. Limitou-se a garantir que "as empresas têm o direito de, em nome de uma política de 'neutralidade' face aos clientes, proibir aos empregados que lidem com o público a exibição de quaisquer símbolos religiosos".

 

Bem visto. Porque hoje impor-se-ia aos patrões que aceitassem o hijab, em nome da liberdade de culto. E amanhã, à boleia da mesma liberdade, o xador ou a burca, bem como as paragens rituais para a oração, em locais separados conforme os sexos, que as imagens das fiéis de rabo para o ar impediriam decerto a unção deles. Depois, é apenas uma questão de tempo e de quantidade (e no que toca à quantidade convém lembrar que as comunidades muçulmanas têm uma taxa de natalidade várias vezes superior às das ocidentais que imprudentemente as acolhem) até que a religião muçulmana, afirmada em nome da nossa liberdade, a anule, por dela ter um entendimento diferente.

 

Temos um problema parecido com a democracia e os comunistas: estes reclamam, e bem, todas as liberdades burguesas, até que conquistam o poder. Logo a seguir, a única liberdade consentida é a de pensar o que pensa o vizinho, dizer o que diz o controleiro do comité de vigilância cidadã, e fazer o que o Partido manda. Com a diferença de que os comunistas não se reproduzem a taxas diferentes das dos restantes cidadãos, as suas quantidades são manejáveis sem perigo fora de situações revolucionárias, e a democracia tem provado ser robusta o bastante para conviver com os seus inimigos.

 

Ser realista em relação ao perigo islâmico quer dizer não ignorar o que disse, num deslize de sinceridade, este paxá: as famílias turcas exiladas devem ter, pelo menos, cinco filhos.

 

Fernanda Câncio julga, coitadinha, que o véu islâmico tem a mesma importância que uma blusa, um top ou um boné; e que as mulheres islâmicas teimam nas toilettes que a tradição lhes impõe por acharem que lhes fica bem.

 

Eu quero que Fernanda vista o que ache que vai com ela; que, se tiver uma amiga ou amigo que use um crucifixo ao pescoço, ou uma quipá na cabeça, se lembre que esse amigo ou amiga, bem como as igrejas que esses símbolos representam, não lhe negam o direito de ser ateia ou agnóstica; e que abunde no asneirol, como é seu hábito, com toda a liberdade.

 

Em troca desta generosidade Câncio trata as pessoas que pensam como eu - trata-me, portanto, a mim! - de xenófobo e trumpista.

 

Não sou católico mas a caridade cristã não me fica mal: perdoo-lhe. E o que é mais (conto com isto para desconto dos meus pecados) sem sequer ter a esperança de que o Espírito Santo a ilumine, infundindo algum senso naquela cabeça socialista.

publicado por José Meireles Graça às 23:55
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Quarta-feira, 15 de Março de 2017

Banha da cobra

"Marcelo Rebelo de Sousa diz que 'a peça chave para o crescimento é o investimento público e, sobretudo, privado português e estrangeiro', sendo que este depende de 'coisas muito simples como estabilidade política, social, legal, fiscal e na legislação laboral, além da aposta na qualificação das pessoas e na menor lentidão da justiça".

 

Um paisano lê um parágrafo destes e pasma: como é que no Governo, no Parlamento, nos jornais, até mesmo nas universidades, ninguém se lembrou disto? E que criminosa desatenção fez com que estas "coisas muito simples" tivessem não apenas sido ignoradas mas decerto agravadas, visto que a posição de Portugal no Índice Global de Competitividade se deteriorou em 2016 (era a 38ª em 140 países, em 2015, e passou a ser a 46ª em 138).

 

Marcelo recorda que "o Presidente não tem poderes executivos" e pode apenas "exercer o seu magistério de influência". Isto é uma grande contrariedade, dado que como semelhante magistério deixou, neste particular, de ser exercido no ano findo, sem dúvida por ter sido orientado para outros assuntos momentosos, perdeu-se tempo; e é uma infelicidade que, em vez de contarmos no Executivo com alguém que sabe perfeitamente o que fazer, tenhamos que nos resignar ao exercício naturalmente canhestro do aluno em vez da luminosa experiência do professor.

 

Porém, o país teria muito a ganhar se o senhor Presidente não fosse avaro de concretizações, e explicasse: i) Como se assegura a estabilidade política quando os dois partidos comunistas que sustentam a maioria defendem, quanto à União Europeia, ao Euro, à legislação do trabalho, e à economia de mercado (et j'en passe) posições opostas ou muito diferentes das do PS? ii) Que garantias pode haver de paz social se a ausência de manifestações, tumultos e greves decorre dos ossos que se vão atirando ao PCP e à CGTP, cujo apetite, por insaciável, em algum momento no futuro tem que deixar de ser satisfeito? iii) Por que motivo o último orçamento, tal como todos os anteriores, dinamitou qualquer ideia de estabilidade fiscal ou de contenção da voracidade do Fisco, e por que motivo devemos acreditar que no futuro, sendo os governantes os mesmos, e Sua Excelência o mesmo também, as coisas serão diferentes? iv) Todos os presidentes, todos os primeiros-ministros, todos os ministros da Justiça, presidentes do STJ e procuradores gerais da República, para não falar de especialistas a granel, se pronunciaram desde há décadas, com gravidade, sobre os males da Justiça. E esta mantém-se teimosamente, com perdão da palavra, uma merda. Mesmo reconhecendo a transcendência do génio do presidente Marcelo, as propriedades miríficas do seu deslumbrante sorriso e o fascínio que exerce sobre as donas de casa da classe média, os empregados do comércio e os espectadores da tv, não parece excessivo duvidar que, onde tanta gente falhou, ele acerte. Sobretudo não tendo, como diz o próprio, poderes executivos, nem tendo deixado rasto de obra que prestasse quando os teve; e v) É praticamente impossível fazer mais e melhor pela qualificação das pessoas do que o muito que tem sido feito. E com justiça se reconhece que a actual geração é a mais bem formada de sempre, faltando-lhe apenas, se quisermos ser perfeccionistas, aprender a escrever, fazer contas e raciocinar.

 

Marcelo ganhou as eleições com uma mistura de notabilidade de famoso, simpatia, vacuidades, à-vontade genuíno e simplicidade falsa. Pode-se ganhar empreendedores ricos com isso? Pode - quem pretenda investir em banha da cobra.

publicado por José Meireles Graça às 23:44
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Sexta-feira, 3 de Março de 2017

Milagre da multiplicação da asneira

Não pareço um terrorista islâmico, não me ocorreria apresentar-me num órgão de soberania trajado de camiseta da feira de Espinho, não acho que o confisco da riqueza do senhor Bill Gates ou Alexandre Soares dos Santos tivesse qualquer benefício para os americanos ou os portugueses, não desejo impedir, seja por que forma for, que qualquer democrata, ou comunista ou fascista (mesmo que seja um genuíno, não apenas as pessoas meramente de direita que são assim designadas) emita livremente a sua opinião, não acho que as pessoas pobres tenham um par de asas nas costas e as ricas cornos e rabo, não tenho inclinação para ser generoso com o que não me pertence, não sou fiel de uma seita com livros sagrados, santinhos e crenças lunáticas, não tenho uma concepção determinista do processo histórico nem uma visão conspiratória do mundo e não defendo doutrinas responsáveis invariavelmente por miséria e opressão no presente e por quantidades recorde de mortos no passado.

 

Ou seja, não sou comunista. E como também não sou ingénuo não acho que os comunistas sejam adversários - são inimigos. Inimigos porque enquanto defendo para eles a mesma liberdade de que gozo, e os mesmos benefícios de que usufruo, ou maiores, se a eles tiverem tido acesso sem crimes, a um pobre diabo como eu seria negado, no mínimo, o exercício da profissão e da opinião na sociedade deles. Isto não exclui que, pessoalmente, possa ser amigo de comunistas (já fui amigo de um que, incidentalmente, se veio a revelar um patife) mas sem ilusões: o bem maior, para eles, é a sociedade comunista, e em nome dela não hesitam, se for necessário, em sacrificar qualquer noção de decência burguesa, incluindo a amizade e seus deveres.

 

Portanto, não tenho nada de comum com Miguel Tiago. É por isso com grata surpresa que concordo com ele. Não no sentido de Teodora Cardoso ter dito algo que não subscreva - pelo contrário, a senhora está coberta de razão - mas por me parecer que o Conselho de Finanças Públicas não deve, enquanto organismo na esfera do Estado, existir.

 

Não deveria existir, tal como o Conselho Permanente de Concertação Social ou a generalidade dos organismos de supervisão ou consulta, quando sejam suportados pelo Orçamento de Estado.

 

Portugal não tem economia para tanto Conselho, Comissão, Observatório e a miríade de organismos que vivem sentados à mesa do Orçamento. E a circunstância de Teodora Cardoso ser uma senhora sensata e competente, com idade para ser independente (a independência é mais fácil, em Portugal, para quem não se importar de não ter lugar futuro se no exercício do seu mandato ofender os poderes do dia), não nos deve fazer esquecer que hoje temos uma Teodora mas, amanhã, teremos um desses economistas yes-man, que são a variedade corrente, ou, pior, um maquiavel de trazer por casa, se na nomeação Marcelo tiver a sua néscia palavra a dizer.

 

Vem pois aos meus braços, Tiago, se juntamente com a aposentação da senhora quiseres a extinção do organismo (mas, já agora, toma banho e põe uma camisa lavada, que os fachos, às vezes, são uma gente muito dada a manias).

publicado por José Meireles Graça às 23:22
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Quarta-feira, 1 de Março de 2017

Fábula do escorpião e da rã

Sérgio Vasques, inquisidor-geral, lavrou em 2010 um despacho que constituiu a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos (hoje "Autoridade Tributária", uma designação ominosa) na obrigação de publicar informação estatística relativa às transferências financeiras feitas para paraísos fiscais, uma prática herética que nem por ser bastante vulgar deixa de ofender os sãos princípios de uma sociedade organizada sob o lema "tudo dentro do Estado socialista, nada fora do Estado socialista".

 

Os jornais estão recheados de familiares do Santo Ofício. E portanto esta iniciativa, mesmo não sendo do Grande Inquisidor, modernamente designado como Secretário de Estado dos Impostos, estava fadada a ter grande sucesso: do que se tratava não era de perseguir os marranos, que disso se ocupavam ordinariamente os santos frades no exercício do seu múnus - era de confirmar no espírito daqueles familiares e seus leitores a ideia de que há pobres porque há ricos; que a maneira de acabar com os primeiros é acabar com os segundos; que o fardo desta vida, para os deserdados, fica aliviado pelo expediente de só se poderem comparar com outros miseráveis; e que, salvo prova em contrário, e mesmo assim, não apenas um rico tem mais dificuldade em entrar no reino dos céus do que um camelo em passar pelo buraco de uma agulha, como merece ainda antes da duvidosa justiça do Além ser desde já imolado nesta.

 

Que o propósito era unicamente publicitário e doutrinário prova-o o facto de a estatística não discriminar a natureza das transacções, misturando no mesmo saco a empresa que quer pagar um bem ou serviço onde o credor lho exige e o cidadão que quer pôr ao abrigo da rapacidade do Estado, do risco de falência dos bancos ou do fim do Euro as suas poupanças; e incluindo, sem nomear, os suspeitos de tráfico de drogas, de armas ou de corrupção. Tudo com o evidente propósito de, enquanto não há meios, nem coragem, nem consenso na opinião pública, para acabar com as transferências para offshores, a ir moldando a este sincretismo interesseiro.

 

A frei Vasques sucedeu frei Azevedo; e foi este clérigo (um fanático conhecido pelas teses delirantes) que, provavelmente, municiou o actual governo com a denúncia da inexistência da tal lista de transferências no pelourinho do Público e dos outros lugares mal frequentados, a fim de a bomba poder ser usada quando a Situação se sentisse apertada.

 

Foi agora o caso - ao escândalo da CGD, que corria o risco de expor à opinião pública a lista de patifes, na sua maior parte de extracção socialista, que lideraram a Caixa, e o manto de silêncio hipócrita de comunistas e bloquistas, necessário para minarem com os seus o aparelho de Estado, era preciso opor uma merda qualquer. Fosse o que fosse, desde que contivesse os ingredientes certos. Uma lista com uns números ininteligíveis, originada por despacho abusivo de um funcionário menor, que deixou de ser publicada por decisão de um político que, em vez de dominicano, era jesuíta, serve, se bem trabalhada por uma comunicação social acéfala e esquerdista - como está a ser.

 

Bem jogado, Costa: da Caixa e dos cinco mil milhões que lá vamos enterrar já não se fala; e com jeito deve ser possível encontrar, no universo dos dez mil milhões de Euros em dúvida, uma coisinha qualquer que confirme que foi a falta de publicação de uma lista que a possibilitou. Cinco ou dez milhões já eram suficientes - quando os zeros são muitos as pessoas baralham tudo.

 

Resta dizer que há nisto tudo, em relação a Paulo Núncio, uma justiça poética. Que das duas explicações que deu para, sem clareza nem coragem, bloquear a publicação do papel, a segunda deve ser a verdadeira: não queria espantar a caça. Nunca explicou, nem sabe explicar, nem bem entenderia a pergunta se lha fizessem, de que forma se distingue de Paulo Macedo, ou do grotesco sucessor socialista que lá está agora, quando entre outras coisas passou um prazo ordinário de prescrição de ilícitos fiscais de quatro anos (tempo mais do que suficiente) para doze anos, precisamente no caso das transferências para offshores, além de toda uma impressionante série de malfeitorias com o mesmo denominador comum: o contribuinte é um infractor salvo se provar o contrário; a administração fiscal é inimputável e os erros e abusos são sempre consequência de falhas informáticas; um bom secretário de Estado aumenta a receita; e o bom cidadão fiscaliza o seu semelhante, tendo por prémio a miragem de um automóvel de luxo - pior ainda que o católico fervoroso que denunciava o seu vizinho cristão-novo para se lhe apropriar do quintal e das hortaliças viçosas.

 

De Pepedês e Cêdeesses que não se distinguem dos seus confrades do PS senão pelo conservadorismo em questões fracturantes pode dizer-se o mesmo que da fábula do escorpião e da rã: a rã só se pode queixar da sua própria estupidez.

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publicado por José Meireles Graça às 20:05
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

Velhinhos tratados a bastão

"O estudo mostra que há uma percentagem mais elevada de desnutrição ou risco da mesma nos idosos que vivem em lares".

 

O estudo? Qual estudo? O artigo não diz mas ficamos com fortes suspeitas de que seja da Ordem dos Nutricionistas, um conhecido organismo cuja bastonária está aflita com a situação dos pobres velhinhos e lhes quer acudir.

 

O jornalista, esse, pergunta sem rodeios, indo com argúcia ao cerne do problema: "É preciso criar uma estratégia de intervenção?"

 

E aqui a gente, que esperava que a senhora bastonária dissesse que sim, é preciso dar de comer aos velhos, proporcionar assistência odontológica aos que têm "problemas de mastigação" e estabelecer um plano que garanta que os responsáveis pelos lares são devidamente expulsos se com culpas próprias no descaso, ou pendurados pelas orelhas os supervisores públicos que por preguiça ou incúria nada fizeram para tentar resolver o problema, lê com surpresa:

 

Que "era importante" que os lares que ainda os não têm (e a maior parte está nessa lamentável situação) tivessem nutricionistas, visto que nos Centros de Saúde há apenas cem; que exista um "diagnóstico precoce" (quer dizer, presume-se, antes de o velhinho morrer de fome); e que, finalmente, "o que importa é um plano desenhado à medida de cada um. Essa é a grande nota".

 

Grande nota, realmente. Se bem que, no fim da vida, o "plano" talvez devesse ser cada um comer o que lhe apeteça, até onde for possível porque decerto os recursos disponíveis não permitem luxos. E ainda os permitirão menos se forem desviados para pagar salários a gente que quer fazer planos para dizer a velhos indefesos o que podem e não podem comer.

 

É possível, como existe a promessa de criação de 55 vagas para esta especialidade, que a agudeza do problema venha a esbater-se. Razão por que sugiro que o jornalista, na mesma senda de se ocupar com as preocupações das classes profissionais, entreviste o senhor Bastonário da Ordem dos Técnicos de Parqueamento Automóvel, cuja situação é dramática: existe uma absurda, e impune, quantidade de utentes que se abstêm de contribuir para o sustento daquela prestigiada classe, por a achar inútil. 

publicado por José Meireles Graça às 12:23
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