Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Manda quem pode, obedece quem tem juízo

Exmo. Senhor Presidente do Instituto de Mobilidade e dos Transportes:

 

O signatário, José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça, portador do cartão de cidadão nº xxxxxxxx e residente na xxxxxxxx xx xxxx, nº xxx, xxxx-xxx Guimarães, vem expor e requerer a V. Exª o seguinte:

 

No dia 28 de Novembro último foi objecto do auto de contraordenação xxxxxxxx, EA xxxxxxxxxx, cuja cópia anexa, porquanto se alega que o veículo de sua propriedade, e que conduzia, teria instaladas nos vidros, além das películas constantes no certificado de matrícula, sem coloração, outras películas de cor escura.

 

Semelhante alegação é falsa por três razões: não só os vidros nunca tiveram películas sem coloração (que estariam lá a fazer?) como as películas instaladas não eram de cor escura (se fossem realmente não se poderia ver para o interior, o que não era o caso) como o concessionário da marca informa que as películas coloridas estão homologadas. O signatário não sabe, nem lhe é exigível que saiba, interpretar os algarismos e letras gravados nos vidros, o que significam exactamente as observações que a este propósito constam presumivelmente no documento único automóvel (aliás apreendido) nem apurar se este último documento está ou não conforme com as homologações de que o veículo tenha sido objecto.

 

Na altura, significou ao agente da GNR que o autuou, xxxxx xxxxx, a sua perplexidade por um veículo recentemente inspecionado ter sido dado apto para circular pelo organismo que faz inspecções periódicas obrigatórias; que a falta do selo que atesta aquela inspecção, e que ele diligentemente tinha apurado se estava colado no para-brisas – estava - implica uma coima de 250 euros; e que não se compreendia que um serviço concessionado pelo Estado certificasse, sob ameaça de multa, algo que outro serviço, aplicando multa, nega.

 

Mas não ficou por aqui a desastrada intervenção do agente, porquanto na mesma ocasião lavrou um auto de apreensão de veículo, e uma guia de substituição de documentos, esta válida por vinte e quatro horas, cujas cópias também se anexam.

 

Estamos já no domínio da prepotência e do abuso de autoridade, porquanto deveria ser óbvio que a existência de uma leve coloração dos vidros de modo nenhum constitui perigo para a circulação automóvel, senão nunca seria homologável – e é. E deveria ser evidente que a correcção da falha lesiva da segurança deveria ser, se a falha não fosse imaginária, a prioridade, e não a sôfrega aplicação de multas e interditos, sendo que a correcção não era compaginável com as meras 24 horas fixadas.

 

Apesar disto, o signatário promoveu no mesmo dia a remoção das películas em questão, trabalho descrito na nota de serviço de oficina em anexo. Para o fazer dentro daquele apertado prazo teve aliás que recorrer à sua influência pessoal, visto que as oficinas não costumam estar disponíveis para, de imediato, satisfazer exigências inopinadas.

 

No dia seguinte promoveu diligências para apurar junto da delegação desse Instituto em Braga a forma como desenlaçar o imbróglio.

 

A primeira reacção foi que o documento apreendido, e cópias dos autos, só chegariam na terça-feira seguinte, e que portanto até lá não estariam em condições de prestar quaisquer esclarecimentos.

 

Seguiram-se algumas trocas de informações que desembocaram na extraordinária notificação recebida em 7 do corrente mês, cuja cópia se anexa, para no dia 20, pelas 9H00, o veículo ser submetido a inspecção em Braga, numa localidade denominada “Celeirós”, sem indicação de rua nem número de porta (o funcionário que a subscreve suporá porventura que é da obrigação de todos os habitantes do distrito saber onde fica um “CIMA”) e na informação de que deverá ainda pagar aquele “serviço” e os custos de emissão de nova documentação.

 

A multa de 250 euros foi paga no mesmo dia 7, não por achar que fosse devida mas por ter concluído que a reclamação implicaria o risco de ver o automóvel apreendido não apenas quase um mês, como será o caso, mas possivelmente muito mais tempo, que seria o de recorrer aos tribunais e obter satisfação.

 

Crê que este assunto merece aprofundamento, além do mais para evitar que agentes da autoridade desprestigiem o Estado por adoptarem, por ignorância ou instruções deficientes, comportamentos lesivos dos direitos do cidadão.

 

Razões por que requer:

 

A restituição do montante indevidamente pago, e a anulação do que ainda lhe virá presumivelmente a ser exigido para a inútil, e abusiva, inspeccão, e para a desnecessária emissão de novo documento de circulação;

 

Proposta razoável de um valor justo de indemnização pelas despesas incorridas, perdas de tempo de trabalho, imobilização abusiva do veículo e danos morais;

 

Informação sobre as diligências feitas ou a fazer junto dos agentes da autoridade que tão mal a exercem, para prevenir o risco de outros abusos junto de condutores;

 

Informação sobre as diligências feitas ou a fazer junto da vossa delegação em Braga para a sensibilizar, porventura, para o facto de que o papel dos funcionários públicos não consiste em utilizar interpretações capciosas da lei e dos factos para agravar prepotências, nem dar cobertura corporativa a desmandos, juntando o ridículo ao abuso.

 

Informação sobre as diligências feitas ou a fazer junto da entidade que efectuou a última inspecção periódica, no caso de os serviços teimarem, e demonstrarem, que o veículo não estava em condições de circulação, sobre as razões pelas quais não detectou a alegada falha.

 

Está o signatário certo de que V. Exª convirá em que, de longe em longe, é salutar lembrar aos agentes de autoridade, e aos outros funcionários, que o poder que o Estado lhes confere é para servir os cidadãos e não para lhes infernizar a vida em nome da angariação de receitas e da satisfação das suas rotinas cegas de imposição arbitrária de conformismos.

 

Esclarece finalmente que esta exposição é também dirigida às entidades abaixo mencionadas e que dela fará uso público quando entender apropriado, não pela relevância do seu caso, que é diminuta, mas porque acredita ser crescentemente numeroso o grupo dos que, sob um pretexto ou outro, são vítimas dos pequenos incidentes com que se constrói um Estado arrogante e, com perdão do exagero, totalitário.

 

CC: Comando-Geral da GNR; ministério da Administração Interna; ministério do Planeamento e das Infraestruturas; Provedor de Justiça.

publicado por José Meireles Graça às 19:48
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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017

À bomba

Pois é, apreenderam-me o carro. E está ali, na garagem, sereno e grave, como convém a quem aguarda pacientemente regressar ao serviço do dono e esquecer o convívio do Estado pulha.

 

Talvez pudesse ter sido ontem, mas não, não houve notícias.

 

Porém o dono teve, na sexta-feira passada, uma ideia luminosa: que tal mandar pôr em ordem de marcha o carro anterior, que nunca chegou a vender?

 

Meu dito meu feito. E na verdade com uma bateria nova, umas abraçadeiras e substituição de um tubo de gasolina, o velho Audi, pimpão no seu quase meio milhão de quilómetros, estava ontem ali para as curvas – é o caso de dizer.

 

Haveria que fazer o seguro e a inspecção periódica – desta provação estava o pobre automóvel livre há mais de dois anos.

 

Portanto, telefonema para o corrector, para reavivar a antiga apólice, entretanto cancelada. E resposta compungida: Senhor Fulano, tudo bem mas tem que fazer a inspecção antes do seguro, sem inspecção o seguro não pode fazer-se.

 

Hãa? E como levo o carro à inspecção – sem seguro?

 

Ora bem, talvez arranjando alguém que tenha um seguro de carta, diz o corrector.

 

Feito, já arranjei, para ontem, pagando, que isto ninguém trabalha de graça. Foi pena não ter havido aprovação, por falta daquele colete com que as pessoas se disfarçam de bombeiros, em caso de avaria ou acidente. Os malditos coletes estão no carro apreendido.

 

Estou aqui a pensar que o Estado Socialista talvez ainda tenha conserto – à bomba.

publicado por José Meireles Graça às 16:12
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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

Chega de sono

Desejei à senhora ministra um sono descansado, mas constato com desgosto que Maria Manuel Leitão Marques me tomou ao pé da letra quando apenas pretendi ser simpático.

 

De 13 de Novembro até agora já teria havido tempo, supunha, para consertar a porcaria do sistema informático. E como, ao contrário do prometido, não recebi nenhuma chamada telefónica, lá fui ontem mais uma vez ao Registo Civil do costume a ver se o sistema aceitava a correcção de morada (correcção, entenda-se, de um erro dos serviços, pela qual já paguei a taxa que me foi exigida, e deslocação necessária em obediência ao ofício que a intima, sob pena de caducidade da alteração em 5 de Janeiro próximo).

 

Tive sorte porque só tinha nove pessoas à minha frente, e mais sorte ainda porque duas faltaram. A delicada senhora que me atendeu repetiu os passos já bem conhecidos de inserir o cartão na maquineta e digitar os códigos obscuros que figuram num dos ofícios que lhe levei; e como a coisa não funcionasse levantou-se e foi repetir a operação na banca de um colega. Nicles.

 

Regressou desalentada, informando que estavam fartos de reclamar mas a situação continuava igual, e que por isso é que não me telefonaram; que o sistema deixava muito a desejar porque com frequência dava mensagens de erro mas não ligavam, iam ver pela porta do cavalo e afinal as alterações estavam feitas; e que no meu caso, como no de outros, a mensagem era a de que havia um problema na internet, pelo que não havia outro remédio senão continuar a esperar, embora a coisa estivesse a ficar preocupante porque a alteração caducava a 5 de Janeiro.

 

Já não conto as horas que perdi, nem os incómodos, nem as despesas. Mas ando desde Setembro para renovar um cartão que não precisava de renovação alguma senão por uma caducidade oportunista e abusiva, e sem o qual, no Estado Socialista, não se consegue viver, a menos que se seja sem-abrigo. E apesar de pagar o que me exigem, e fazer o que me mandam, continuo a patinar.

 

Razões por que te sugiro, Nelinha, que faças uma de três coisas:

 

  1. Acorda;
  2. Demite-te;
  3. Suicida-te.
publicado por José Meireles Graça às 21:24
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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2017

Desventuras de Segismundo

Se eu fosse uma personagem de banda desenhada o autor desenhava-me com ar de guarda-livros, de óculos, careca, um pouco sobre o gordo e de meia-idade.

 

Se a acção se iniciasse de manhã com a personagem, chamemos-lhe Segismundo, a sair de casa, aparecia com os olhos inchados e meio fechados, em particular o esquerdo; e sobre a cabeça uma nuvem escurenta pairava, cheia de raios e coriscos.

 

Segismundo guiava, sem pôr o cinto de segurança, até à bomba de gasolina distante aí uns 500 metros, parava à porta da casinha, por onde irrompia resmungando um bom dia! pouco convincente, para ouvir a funcionária dizer, como diz sempre: Bom dia sr. Segismundo. Dois e um?

 

Isto é um código, e destina-se a confirmar um laço de cumplicidade criativo de uma barreira contra outros clientes que porventura estejam no estabelecimento, carentes do privilégio de a empregada saber antecipadamente o que querem, no caso dois maços de tabaco e um café.

 

Na televisão, ligada todo o santo dia demasiado alto, Gouxa àquela hora grasnava e Cristina não-sei-quê gania; e Segismundo sabia de ciência certa que no outro café, na vilória de destino, onde dentro de meia hora emalaria mais três cafés de enfiada, veria ao cabo deles as mesmas duas personagens numa televisão igual, mas com olhos de respeito por quem tanto trabalha, espanto pelo novo fato de Manuel Luís, que o muda todos os dias, distraída admiração pelas coxas de Cristina, que graças a Deus as conserva sempre iguais, e compreensão pelos milhares de donas-de-casa a quem aqueles chilreios inanes aliviam a maçada das tarefas matutinas.

 

O dia de anteontem foi porém diferente para Segismundo. Porque na rotunda 200 metros acima estavam dois cobradores de impostos na versão guardas nacionais republicanos, e um deles mandou-o encostar, evidenciando alguma suspeita excitação. Segismundo preparou a carta de condução e o cartão de cidadão e abriu o porta-luvas e o vidro para ouvir um simpático jovem dizer, ao mesmo tempo que pegava nos documentos já disponíveis: Bom dia sr. condutor, posso ver os documentos da viatura?

 

Aberta a pasta onde se encontravam, quis apenas o documento único, que era aliás o primeiro. E com ele foi conferir os selos que estão no para-brisas, após o que regressou para dizer com bons modos e usando o sobrenome de Segismundo, ao contrário do que os seus colegas costumam fazer, que havia um problema.

 

Havia, ai.  E após demorado exame dos vidros e dos números que lá se encontram gravados, Segismundo foi confrontado com a informação de que aqueles estavam recobertos por uma película escurecedora que não estava homologada, coisa que aliás o senhor condutor podia confirmar na viatura da GNR onde um ominoso PC atestava com uma série de números incompreensíveis que, de facto, aquela alteração não constava da ficha de não sei quê. Razão pela qual era devida uma multa de 250 euros.

 

Segismundo não conta nas suas numerosas qualidades a de um excessivo respeito pelas cominações das autoridades. E mansamente inteirou o agente da sua perplexidade: se as coisas eram assim, como se compreendia que ainda há poucas semanas a inspecção periódica obrigatória tivesse, a troco de uns modestos trinta e poucos euros, certificado o mais completo respeito do veículo pela legislação aplicável? Tanto mais que a própria GNR, na falta do selozinho que certificava aquela conformidade, aplicava uma multa de 250 euros? Não não, Segismundo não pagava, ia reclamar.

 

O agente declarou com desgosto que realmente aquelas entidades que fazem a inspecção deixavam a desejar, parecendo ignorar a legislação; e que ele, agente, discordava que fossem entidades privadas com aquela missão porque não tinham interesse em afugentar o inspecionado que, se incomodado, da próxima ia a outro centro. Isto não obstante, informou melancolicamente, também lhe parecer que, se fossem públicas, se calhar o resultado não seria muito melhor.

 

A Segismundo neste ponto começou a parecer que o agente, com o qual já estava favoravelmente impressionado, destoava bastante do ordinário dos seus colegas, que tendem a lembrar por demais a digna enxada que nunca deveriam ter largado. E por isso lançou-se numa amena troca de impressões, com o fito de apurar até onde ia a lucidez do moço.

 

Não ia muito longe: confrontado com a informação de que, em países como os Estados Unidos, os vidros fumados eram usados frequentemente e muito mais escurecidos sem que isso fosse considerado uma grave quebra de segurança, retorquiu que os polícias americanos tinham muito mais poder, num salto de raciocínio lógico que não pôde acompanhar. E como o senhor condutor tinha a declarada intenção de não pagar mas discutir, informou o diligente militar, teria que apreender a viatura.

 

Seguiu-se a emissão do auto de contraordenação, do auto de apreensão do veículo e da guia de substituição de documentos, esta válida por 24 horas.

 

Segismundo, com a manhã quase esgotada com estas actividades, foi trabalhar como de costume; e, a seguir ao almoço, levou o automóvel ao concessionário para efeitos de remover as películas em questão.

 

Foi um trabalhão, e o solícito mecânico informou prescientemente que o veículo iria ficar a cheirar a diluente, por causa da remoção da cola. Ficou. E quando o cheiro desaparecesse haveria ainda que desmontar o vidro de trás, visto que o serviço não tinha ficado perfeito por causa da resistência eléctrica – fumado já o vidro não estava mas tinha uns teimosos restos de cola.

 

A operação custou a ninharia de 102,09 euros.

 

Restava portanto ir levantar os apreendidos documentos a Braga, ao IMTT, se aquele prestigiado departamento os entregasse sem o pagamento da multa, pormenor sobre o qual os extensos textos das notificações, redigidos em legalês de funcionário, deixavam pairar uma dúvida angustiante.

 

Entretanto o concessionário em pessoa, inteirado destes sucessos, achou toda a história obscura. E, inquiridos os serviços por causa da falha que de algum modo lhes era imputável, veio o esclarecimento de que não apenas os vidros em questão estavam perfeitamente legais como inclusive dispunham do respectivo certificado de homologação.

 

Como porém a viatura já não pudesse circular, sendo Segismundo fiel depositário e guardando-a em nome do Estado na sua residência, pessoa amiga prontificou-se a inquirir junto do organismo como proceder.

 

Bem, uma coisa ficou certa, e essa é a de que os documentos lá não estão, só talvez para a próxima terça-feira.

 

Neste ponto da história o autor não sabe bem que saída haverá de dar à embrulhada em que Segismundo se meteu e requer o concurso dos leitores pacientes. Pergunta-se:

 

Deve Segismundo pagar a multa?

 

Se sim, e se mesmo assim reclamar, pode ter alguma esperança de recuperar o que pagou?

 

Se o concessionário tiver, como parece, razão, a remoção das películas tornou o veículo desconforme com a homologação. Não implica isso que um outro zeloso agente autue e apreenda por os vidros terem ficado brancos?

 

Nestes dias em que Segismundo usa um veículo emprestado, quem o indemniza pelo favor que fica a dever e pelo transtorno de se deslocar num desportivo que lhe dá cabo das costas? E quem o vai ressarcir das despesas na oficina, das perdas de tempo e dos transtornos escusados?

 

Deve Segismundo, que tem o vício de escrever, fazer doravante textos acerbos sobre o estado a que o Estado chegou no seu afã de angariar receitas de qualquer maneira por processos desonestos e abusivos que o desprestigiam, apoucam os agentes da autoridade que têm que agir como esbirros de uma quadrilha de ladrões, e degradam a cidadania?

 

Estas as dúvidas excruciantes do autor.

publicado por José Meireles Graça às 20:34
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Sábado, 25 de Novembro de 2017

Ao pé da porta

Os telejornais, as redes sociais, as entrevistas de rua, a rapidez de reacção, a simpatia, a efusividade e as indignações encontram-se entre as piores pragas da política contemporânea.

 

Entendamo-nos: dos telejornais não se pode esperar muito mais do que as notícias do dia editadas a correr, os atropelos ao português, a absurda preponderância do tempo dedicado às trincas e mincas do futebol, o enviesamento governamental e de esquerda do alinhamento, ou a prevalência da faca e do alguidar, consoante os canais.

 

Está muito bem assim. E estaria melhor, sem corrigir um único destes vícios, se não existissem canais sustentados pelos contribuintes, porque nunca a televisão pública se distinguiu da privada senão por nos, aos contribuintes, custar dinheiro.

 

Vozes autoritárias e intervencionistas têm ideias claras sobre o que a televisão deveria ser, e estão dispostas, a golpes de organismos públicos e decretos-lei, a conformá-la de modo a aprimorar o gosto, garantir a independência, promover os valores que cada tribo acha deveriam ser os da grei, e de modo geral fazer uma televisão de qualidade, que consiste quase sempre em ignorar o que o patego do espectador quer e impingir-lhe o que se acha que ele deveria querer, com o louvável intuito de educar as massas e, de caminho, sustentar artistas sem mercado e lisonjear o poder do dia.

 

Já eu quereria que não houvesse canais públicos, nem ERC, nem limitação do número de canais que não decorresse de considerações técnicas de disponibilidade do espectro, nem processos obscuros de rateio de publicidade e de concessão de entrevistas; e apreciaria que os canais, em vez de serem alegadamente isentos e equidistantes, assumissem com clareza as suas simpatias e os seus parti-pris, políticos e outros.

 

As redes sociais são os gigantescos cafés e tertúlias da contemporaneidade; e nelas se forma, no meio do griteiro e do vozear com frequência asneirento de todos os que até ao advento delas estavam reduzidos ao silêncio, boa parte da opinião pública. São isto; e são também o que João Pires da Cruz diz aqui.

 

Está bem assim, e estaria melhor se o puritanismo americano e os poderes governamentais não exercessem explícita ou encapotadamente um controle de contornos nem sempre evidentes.

 

Qualquer jornalista acha normal, e mais do que isso de sua obrigação, agredir um político ou famoso ou vítima de qualquer coisa com um microfone que lhes põe debaixo do nariz, fazendo a pergunta estúpida, ou indiscreta, que julga que a opinião pública precisa de ver respondida.

 

Também está bem assim. Salvo que enquanto os famosos apenas o são quase sempre por exporem a sua intimidade para disso tirarem dividendos, e portanto renunciam ao direito à sua privacidade, já seria o tempo de os anónimos começarem a maltratar jornalistas atrevidos, dando-lhes com o microfone na cabeça em vez de exibirem um sorriso alvar para as câmaras; e que os políticos, em vez de coonestarem a falta de educação e maneiras do quarto poder, teriam talvez a ganhar em gravitas se se dessem ao respeito não malbaratando as suas palavras pelo hábito de as proferirem, sem estudo nem preparação, a torto e a direito e em qualquer lugar. O exemplo acabado entre nós desta modernidade pateta é Marcelo, e certamente tem ganho muito em popularidade em aliviar-se de inanidades que sublinha com um sorriso de plástico e uma solidariedade de fachada. Mas falta demonstrar que aquela resista a ventos adversos, se for chamado a tomar decisões grávidas de consequências; e nem a autoridade da presidência, nem o bem da comunidade, ganharam até agora um vintém com o exercício festivo do múnus presidencial popularucho.

 

Fenómeno estranho: existe hoje uma indústria da indignação, com especialistas, publicações dedicadas e meios de comunicação social atentos. Basicamente, do que se trata é sempre da luta do fraco contra o forte, do pobre contra o rico, do indefeso contra o poderoso, do puro contra o poluidor, do pacífico contra o violento, em suma, do inocente contra o culpado.

 

E como toda a gente aprecia imaginar-se virtuosa e encontra satisfação em diluir-se na massa dos bons, vagas sucessivas de indignações percorrem o país ou o mundo. A esquerda, de modo geral, é campeã a lançar ou cavalgar a maior parte destas ondas porque lhe pertence, e não à direita conservadora e antropologicamente céptica, o monopólio do amanhã das sociedades perfeitas; e porque o contraste entre o que, quando está no poder, consegue, e o que promete, necessita da designação permanente de inimigos, culpados e bodes expiatórios.

 

Vai por aqui uma grande amálgama, porque o que eu queria era falar da transferência do Infarmed para o Porto.

 

A decisão de o transferir é uma idioteira de tal modo gritante que espanta que tenha defensores.

 

Fica o Infarmed mais barato se sair de onde está? Não, fica mais caro porque nem tudo pode ser transferido (parece que tem um laboratório onde se enterraram milhões, o qual evidentemente tem de permanecer) e a separação física de centenas de quilómetros entre pessoas pertencentes ao mesmo organismo ocasiona despesas escusadas. As empresas que precisam do Infarmed ganham alguma coisa se deixar de estar em Lisboa? Não, e de resto nem se pronunciaram nem ninguém curou de saber ou de as inquirir. A transferência pode fazer-se sem custos significativos? Não, não pode, e mesmo que não se tenha, como eu não tenho, uma excessiva preocupação com os interesses dos trabalhadores, a convulsão decorrente da transferência origina por si um custo humano que tem consequências negativas no funcionamento. Foi isto ponderado? Não, não foi. E a instalação no Porto é coisa barata? Não, não é: transferir e instalar mesmo que apenas uma parte de um organismo que tem quase 400 (!) funcionários  custa por si uma tal fortuna que, se houvesse juízo, o Infarmed teria de homologar um novo analgésico mais potente para as dores do contribuinte, um antipirético para a febre de indignação que assaltaria as pessoas conscientes e viagra cerebral para Costa e a sua entourage, a ver se espigam.

 

E então como é que se liga o longo introito das pragas que assolam a política e esta decisão de transferência?

 

Parece óbvio que Costa se precipitou ao anunciar a candidatura do Porto, e não Lisboa, na sequência de uma série de trapalhadas, todas inexplicáveis, a sede da Agência Europeia do Medicamento. E precipitou-se, como se precipita sempre, para aparecer no telejornal a uma luz favorável depois da barulheira que no Norte se estava a desenhar porque o vaidoso presidente de câmara local acha com razão que não é preciso muito para assoprar as brasas do bairrismo tripeiro, aliás com fortes e boas razões de queixa. As redes precisavam também de ser desarmadas, a patrulha do PS não é suficiente para as encomendas. E como a tal agência foi parar a Amsterdão, antes que se pusesse em causa o empenho das autoridades, e antes que ficasse a nu o amadorismo da operação, convinha dar um verniz de respeitabilidade ao conjunto do asneirol, fazendo crer que a regionalização, ou desconcentração, ou lá como se chama o processo de transferência de poderes para as regiões, era o verdadeiro motivo da ideia peregrina da mudança do Infarmed.

 

António Costa foi rápido desde o princípio. Mas depressa e bem há pouco quem. E ainda há menos, e certamente não ele, quem tenha uma ideia do interesse público que não coincida todos os dias com o que a volúvel opinião pública acha que se deve ou não fazer.

 

Isto se a história não envolver combinações obscuras com Rui Moreira e cálculos mesquinhos do que o eleitor portuense poderia ficar a pensar do governo geringôncico.

 

É possível que vá para o Porto alguma coisa, para fingir que Moreira sabe bater o pé e que a regionalização não é uma letra morta; ou pode acontecer que o assunto fique esquecido por ser substituído por uma nova indignação a respeito de outra irrelevância qualquer. Veremos.

 

O que não veremos, e aliás ninguém pergunta, é por que razão, se já existe uma agência europeia, cuja sede vai deixar de ser em Londres e que tem um orçamento de 322 milhões de euros para 113 milhões em despesas com o pessoal (2016), é necessária uma filial portuguesa com quase 60 milhões de euros de receita em 2016 e mais de dez milhões de despesas com o pessoal.

 

É que a receita destes elefantes vem da indústria do medicamento, o que significa que são os doentes que a pagam. E mesmo, como é provavelmente o caso, que estes organismos sejam indispensáveis, cabe perguntar se em Portugal se justifica um tal mastodonte ou se não será mais outra avantesma obesa e antro de parasitas do contribuinte, como é o banco de Portugal, este intocável por ser uma filial do BCE, o anjo da guarda do nosso desregramento financeiro.

 

Perguntas espúrias, claro. Que o que nos anima é saber exactamente se os nossos recursos são torrados na capital, parasitária por antonomásia, ou ao pé da porta, mesmo que neste último caso o esbulho fique ainda mais pesado.

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publicado por José Meireles Graça às 14:41
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Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017

Barjona de Freitas

Barjona de Freitas tem avenidas em Lisboa e Vieira do Minho, e ruas em Barcelos, Cabeceiras de Basto e Penacova. Em Cabeceiras de Basto tem também um largo, e uma travessa em Penacova, mas em Coimbra, de onde era natural, não tem nada - pelo menos é o que se retira do google maps.

 

Em Lisboa, aliás, a avenida é uma ruazeca ali para os lados de Benfica, que vai dar à rua Conde de Almoster, este uma personagem ao que parece ilustre sobretudo por se ter dado ao trabalho de nascer.

 

Barjona de Freitas foi o pai da abolição da pena de morte e a sua ausência de popularidade e notoriedade compreende-se: ainda hoje não é certo que a maioria da população, se consultada, não fosse a favor da restauração daquela pena, sobretudo se ao cabo de uma campanha em que a imprensa, e a televisão, bombardeassem todos os dias a opinião pública com os pormenores escabrosos de quanto assassinato ominoso se comete, em Portugal como em toda a parte.

 

E daí talvez não. Que os crimes da moda não são bem os mesmos do séc. XIX. Dantes, os crimes eram contra a propriedade e contra a integridade física das pessoas, mas agora são mais a corrupção, a evasão fiscal, o racismo e a violência doméstica.

 

Para estes é que se reclamam os furores do Código Penal, para estes é que existem polícias especializadas: a Autoridade Tributária tem poderes inquisitoriais, que incluem a inversão do ónus da prova e a impossibilidade prática de quem não tenha meios de se poder defender em tribunal; a corrupção pode dar origem a penas demenciais, como os famosos 17 anos do sucateiro Godinho; gente paga com dinheiro do contribuinte atroa os ares com acusações generalizadas de racismo, e em lado nenhum figura o direito a ter, e manifestar, ideias racistas, embora se possa, com inteira liberdade, defender ideias comunistas, ou que a terra é plana, ou que a ida dos americanos à Lua foi uma invenção da CIA; e o cidadão a quem roubaram o automóvel ou estroncaram a cabeça vai para o tombo geral dos queixosos, mas se a cabeça em questão tiver sido objecto dos cuidados do cônjuge tem direito a uma secção especial da PSP.

 

Mundo admirável este, em que as cadeias continuam cheias mas crescentemente de gente que infringiu a modernidade.

 

Seja, cada época tem direito à sua galeria de brutidões e patetices, até ao tempo em que as substitui por outras. Mas no vaivém das leis penais havia um progresso civilizacional que consistiu em eliminar a tortura como método de investigação; em admitir que a necessidade de prevenção geral não se deve realizar com penas infamantes, nomeadamente corporais; em partir do princípio que todo o acusado se presume inocente até prova em contrário; e em concluir que os presos perdem a sua liberdade, ao cabo de uma sentença transitada em julgado, mas não a sua dignidade humana.

 

A inversão do ónus da prova em processo fiscal foi uma inovação demoníaca, por se partir do princípio que pena é apenas a privação da liberdade. Ficar um cidadão sem parte ou a totalidade do seu património, quando o ladrão seja o Estado, não é uma pena, e portanto para se defender do esbulho o assaltado tem que provar tudo, e o ladrão não tem que provar nada.

 

Por ela foi entre nós responsável o celebrado Paulo Macedo, com a geral e cobarde aquiescência dos poderes da época, e o aplauso da massa dos cidadãos. Estes foram convencidos de que as vítimas de tais processos seriam os ricos, de cujos bens o Estado, e portanto eles, se apropriariam, com o inerente aliviar da carga fiscal, que todavia nunca se materializou.

 

Foi um retrocesso civilizacional, desde logo porque desequilibrou a relação entre o Estado e o cidadão: se aquele, com todos os meios ao seu dispor, não consegue provar que o cidadão fez, como se espera que este consiga provar que não fez?

 

A opinião pública aceitou isto, e o que seria natural vindo de um comunista passou por razoável por o governo da época ser democrático e o Paulo em questão passar por social-democrata. Os sucessores, por sua vez, com a gritante, e incompreensível, saliência de Paulo Núncio, aprimoraram ainda os requintes dos processos da Santa Inquisição, agora denominada Autoridade Tributária, reforçaram os poderes dos familiares do Santo Ofício, agora denominados inspectores, e acabrunharam os direitos dos judeus, agora designados, para efeitos de geral opróbrio, como evasores fiscais.

 

Neste clima geral talvez não seja surpreendente que tenha quase passada despercebida a notícia de que para a alimentação de cada recluso estejam previstos para 2018 um euro e trinta cêntimos por dia.

 

Ninguém se escandalizou por a ministra ter dito que a alimentação não seria tão boa como a que existe à disposição dos senhores deputados no Parlamento, num acesso de piadismo tão mais frequente quanto menos os ministros são oriundos das bancadas, e ocupam os seus lugares em homenagem à competência técnica que quase sempre se revela imaginária.

 

Claro que a diminuição de verbas é apenas mais uma manifestação do negócio abjecto de cortar nas despesas do Estado para poder contentar as multidões de funcionários e pensionistas, cujos advogados são o PCP e o Bloco.

 

E não duvido nada que, se o caso chegasse às redes sociais em forma de escândalo, vozes virtuosas se levantariam a dizer que se cidadãos inocentes morrem em incêndios porque o Estado cortou nos meios de defesa (não foi sobretudo isso, claro, mas não sou eu a dizer) e se cada vez mais “utentes” do SNS morrem à espera de operações, ou simplesmente infectados por falta de manutenção dos equipamentos, então os presos bem podem rebentar de fome – não fazem cá falta nenhuma.

 

É, não fazem falta, o que faz falta é animar a malta, como dizia o outro. Bem vistas as coisas, o tal Barjona não se lembrou que um dia haveria comunistas no governo, e lentamente a civilização começaria a fazer marcha-atrás.

 

Dever-se-ia ter lembrado. Porque no seu tempo comunistas não havia. Mas já havia maçãs podres e estas, já então, faziam apodrecer as restantes quando no mesmo cesto.

publicado por José Meireles Graça às 21:27
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Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

O sono de Nelinha

No sábado fui a uma festa e encontrei outro convidado que me perguntou se os problemazinhos com o cartão de cidadão já estavam resolvidos.

 

É meu leitor, coitado, portanto pessoa de gostos duvidosos, mas nem por isso deixei de o informar que depois da minha cunha à ministra Nelinha tinha esperado e nada.

 

Assim foi, e a razão haverá de ter sido porque não pus nenhum link para o blogue do marido e portanto este momentoso assunto não lhe terá chegado aos ouvidos atentos às necessidades do cidadão.

 

Meter uma cunha é o remédio tradicional para problemas com a administração pública portuguesa. Mas é preciso saber a quem. Pelo que, depois de cogitar, resolvi falar a uma funcionária da empresa onde trabalho que sabia ser amiga de um carteiro, que por sua vez é colega do da minha área de residência.

 

A cartinha que não estava em lado nenhum apareceu em dois dias. E fui com ela, orgulhoso, regularizar a minha situação.

 

Foi o caneco: tive que ir estacionar aos quintos dos infernos e estava uma maralha na repartição, pelo que depois de tirar a minha senhazinha vim cá para fora espairecer. E como me desse conta de que havia muitíssimo espaço para aparcamento em frente à repartição mas estava lá a polícia municipal a enxotar os atrevidos que queriam estacionar, resolvi fotografar a zona com o intuito de fazer uma exposição à câmara local a significar-lhe a conveniência de pôr em surdina, naquele sítio, a sua sanha anti-automóvel.

 

Por um excesso de delicadeza informei um agente do que ia fazer, e que se não quisesse ficar na fotografia só tinha de se afastar uns metros.

 

O que fui dizer? O moço, exaltado, informou-me que se o tentasse fotografar apreenderia o telefone; que eu nunca deveria ter ouvido falar do direito à imagem; e que os contornos de tal direito deveriam ser, mas como se via não eram, ensinados nas universidades.

 

Esta última parte deixou-me incomodado, por admitir que o agente da autoridade estivesse a a assacar-me a condição de professor universitário, possivelmente por influência de ideias erróneas segundo as quais os professores em questão têm necessariamente óculos e um aspecto distinto.

 

Apressei-me a informar o jovem de que não era apenas o ensino universitário que sofria de graves carências, o secundário, como ele próprio ilustrava, não estava melhor; que para me apreender o telemóvel lhe faltava a competência; e que, não o conhecendo de lado nenhum, o tratamento de “você” não me parecia o mais indicado.

 

Relatei o incidente com mais detalhe, por e-mail dirigido no passado dia 6 ao comandante da força. E aguardo pacientemente que este me responda.

 

E então, o cartãozinho? Lá fui atendido, simpaticamente como de costume, e informado de que agora só tinha que esperar uma nova carta, com a morada corrigida, e com ela comparecer no Registo, acompanhada da anterior onde constavam os códigos, e o cartão.

 

Esta última carta veio hoje. E informa-me que posso “proceder à confirmação da nova morada” até ao dia 05.01.2018. E não fica por aqui a atenção: também fiquei inteirado de que nem sequer preciso de ir à repartição, podendo eu próprio promover a alteração via internet desde que seja o feliz proprietário de um “leitor de cartões compatível com o Cartão de Cidadão”.

 

Tenho um micro-ondas, uma manta eléctrica e numerosos outros electrodomésticos que testemunham o meu amor à modernidade, mas realmente leitor de cartões não. E, pior, só poria a hipótese de adquirir um se tivesse a funcionalidade de dar choques eléctricos a quem superintende neste labirinto obsceno.

 

Razão pela qual lá fui, a seguir ao almoço, ao registo civil, lá tirei a senhazinha e lá esperei.

 

Chegada a minha vez,  correu tudo muito bem mas o computador não dava o serviço por pronto. E a funcionária, desalentada, perguntou para os lados onde estava o Tó.

 

Fiquei inicialmente aflito, temeroso de que fosse de minha responsabilidade saber onde o Tó estaria. Mas não: consultado aquele ser mítico, que não  cheguei a ver, veio o veredicto: para estes novos cartões com validade de dez anos o sistema não estava a responder. Teria de lá voltar.

 

Quando? Ai isso não era possível saber, a situação já tinha sido denunciada mas sem resposta nem solução.

 

Mansamente, fui dizendo que já ali tinha estado uma quantidade de vezes; que o meu tempo, sem ser precioso, não é tão completamente inútil que o possa gastar a frequentar repartições; e que me comprometia a lá ir novamente, desde que me marcassem dia e hora, mas não para mais uma deslocação vã.

 

A senhora tomou nota do meu número de telemóvel, para passar a um colega que tem a espinhosa missão de informar os cidadãos de quando os serviços estarão em condições de corrigir os erros que não deveriam ter cometido.

 

Tenho fortes suspeitas de que tanto receberei uma chamada do prestigiado Instituto dos Registos e Notariado como uma resposta do senhor comandante da polícia municipal, acima referido.

 

Ou talvez não. E a Nelinha, entretanto?

 

Ora, estou certo, e francamente desejo, que durma descansada. Merece-o: é voz corrente, e pacificamente aceite, que é um dos melhores ministros deste governo.

 

Pelo menos, é o que diz a comunicação social isenta, que é quase toda. Portanto, deve ser verdade.

publicado por José Meireles Graça às 21:09
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Quinta-feira, 26 de Outubro de 2017

Nelinha

Nosso Senhor, que me marcou, algum defeito me achou.

 

Em 2012 tornei-me um cidadão de parte inteira por ter passado a ser portador, ao cabo de um processo conturbado, do cartão que atesta aquela condição.

 

O cartão caducou. E em Setembro último, ao intentar renová-lo, tropecei em inesperados obstáculos, que aqui relatei.

 

Acabei por os ultrapassar no dia 26 daquele mês, a troco de mais de uma hora e 15 euros. E fiquei à espera da abençoada carta que me habilitaria a ir à repartição, pagar o estacionamento, e esperar o tempo que os monitores de televisão mandassem para trocar o velho plástico caducado pelo novo que atesta o meu renascimento para as alegrias da cidadania.

 

A carta nunca mais veio e confesso, confundido de vergonha, que esqueci o assunto. Porém, foi-me pedido há dias que assinasse um recibo para receber uma indemnização de uma companhia de seguros.

 

As companhias de seguros exigem que se lhes entregue um recibo que diz que recebemos, uns dias antes de efectivamente pagarem - portanto um documento falso. Mas esta prática é pacificamente aceite por toda a gente, incluindo advogados e a entidade de supervisão, pelo que o segurado precavido alinha na aldrabice porque não tem outro remédio.

 

Mas, ó horror, no mesmo dia fui inteirado de que a assinatura não valia porque o cartão estava caducado. Portanto, de indemnização nicles, para já.

 

É bom de ver que fui asinha à internet para desenlaçar a meada no site do Instituto dos Registos e do Notariado. Mas perdi-me na salganhada internético-oficial e optei por ligar para o número que constava no certificado do pedido.

 

De lá veio o palavreado das opções (marque o número um se quer isto, o número dois se quer aquilo, e assim por diante; após o que, feita a escolha, há uma nova lista de números para optar), seguido de música e da generosa sugestão de que, como o tempo de espera previsto era superior a cinco minutos, o melhor seria talvez ligar mais tarde.

 

Enfim, lá consegui. E a simpaticíssima funcionária que me atendeu, Isabel Xavier de seu nome, explicou ao "senhor José Maria" que o novo cartão tinha sido emitido três dias depois do pedido, portanto há muito, e que a abençoada carta ou estava extraviada ou tinha sido devolvida. Porém, de momento não podia verificar, pelo que me ligaria para o telemóvel mais tarde. Enviar-me um e-mail não podia, para levantar o cartão era precisa a cartinha pelo correio.

 

Não ligou. E no dia seguinte repeti de manhã os passos nos quais já estava a ficar perito, atendendo-me um Sr. Aquiles que, inteirado do historial, foi de parecer que o melhor era fazer uma segunda via do pedido. Signifiquei ao funcionário uma parte dos meus sentimentos a respeito da opinião dele, que retorquiu ao "meu amigo" qualquer coisa. Esclarecido pelos meus bons ofícios de que não era amigo dele, separamo-nos, creio que sem ter criado laços de amizade.

 

Mas segui-lhe o conselho. E, de tarde, desloquei-me à repartição onde já seria um velho conhecido do porteiro, se o houvesse, tirei a senha com a ajuda de uma jovem, por sinal atraente, que estava ao corrente de que era preciso pescar o papel um pouco acima de onde ele deveria estar na maquineta, e ao cabo do tempo de fumar um cigarro, se se pudesse fumar, fui atendido.

 

O funcionário deu-se ao trabalho de verificar se a cartinha, por artes do diabo, estaria lá - não estava -, sugeriu que talvez nos CTT estivesse, explicou o complicado trajecto das cartas que são devolvidas (aparentemente estas andam de maço para cabaço antes de chegarem ao sítio onde ninguém as encontra) e foi rapidíssimo. Antes porém que preenchesse a papeleta, chamei-lhe a atenção para o facto, de que me havia apercebido na conversa com a sua colega lisboeta Isabel, de o meu número de porta estar registado como sendo o 119 quando é o 118.

 

Fez-se luz: se calhar era isso que explicava o descaminho. Olhei-o, dubitativo, esclarecendo que a rua (aliás uma travessa) só tem três casas, o número 119 não existe e vivo ali há mais de quarenta anos; mas que, de toda a maneira, com o novo pedido, pela diferença de um algarismo é que a preciosa cartinha não se extraviaria.

 

O homem, um tanto contrafeito, confidenciou-me que isso não ia poder ser. E porquê? Ora, porque para alterar a morada era preciso o cartão novo. Trémulo, disse que tinha ali o cartão velho, onde a morada estava bem, se é que estava, porque ela não figura no cartão, só na parte secreta lá duns alçapões. Mas nada feito.

 

Pelos vistos, sem o cartão novo não posso receber o novo cartão.

 

Estamos nisto, pelo que creio que é altura de meter uma cunha.

 

Quem superintende nesta área dos cartões, dos serviços públicos, da internet e do simplex, é a ministra Maria Manuel Leitão Marques, que não conheço pessoalmente. Porém, dá-se a feliz circunstância de ser casada com um colega da blogosfera, Vital Moreira, que também não conheço pessoalmente, mas ao qual já me aconteceu fazer referências favoráveis, por, pertencendo à ala direita do PS, lhe acontecer desalinhar do asneirol típico do partido. Tanto, aliás, que não é descabido pensar que fosse a esperança média de vida aí de uns cento e vinte anos, e não apenas oitenta, Vital, que foi deputado à Constituinte pelo PCP, ainda acabava na direita.

 

Tenho portanto uma ligação ao ilustre casal. E isso me autoriza alguma familiaridade:

 

Nelinha, o teu lugar existe para ajudar, com anestesia, a tornar o cidadão completamente dependente do Estado, e criar as condições para um dia, quando a democracia acabar, a ditadura ter uma panóplia de instrumentos ao dispor que fariam a Stasi corar de inveja.

 

Com anestesia. O que quer dizer que não é boa política tornar desde já a vida dos cidadãos num inferno.

 

Vê lá se dás um jeitinho, Nelinha.

publicado por José Meireles Graça às 20:22
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017

Lugares reservados

Em 25 de Janeiro do ano que vem uma deusa desloca-se a Lisboa e, sabedor do facto, apressei-me a reservar dois bilhetes para a aparição, um para mim e outro para a pessoa que me vai aturar e à artista.

 

É relativamente diminuta a quantidade de gente que gosta de música clássica. Em Portugal, então, é praticamente inexistente.

 

Daí que quem ache mal este estado de coisas, e não entenda que deva ser melhorado, como se entende sempre, despejando-lhe dinheiro público por cima, gostasse que quando nos visita uma estrela do firmamento mundial, a peça escolhida estivesse mais próxima daquela gente, que é quase toda, que tem o gosto, e os ouvidos, formatados na música popular. Piano de Tchaikovsky, Brahms, Beethoven, Schumann, Liszt, Grieg, estariam bem. Agora, Prokofiev?

 

Yuja Wang, que tem um repertório vasto, vem tocar um concerto para piano daquele contemporâneo de Estaline e, a menos que tenha sido escolha sua, já estou daqui a ver o intelectual metido a besta que acha que é mesmo isso o que convém a Lisboa - ouvir Prokoviev, aplaudir muito, suspirar de alívio no fim, e concluir que a música clássica é um género para gente esquisita.

 

Enfim, seja, a oportunidade não se pode desperdiçar. Lá fui comprar os bilhetes, via internet que eu moro longe.

 

Já os tenho, graças a Deus. Mas a Gulbenkian não é o Concertgebouw, lá isso não, pelo menos a julgar pela minha experiência, que se infere do e-mail que enviei àquela prestigiada instituição. Figura abaixo:

 

"Boa noite.

 

Tentei no v/ site http://www.bilheteira.gulbenkian.pt/selectTicketSeat.do seleccionar dois lugares para o concerto no dia 25 de Janeiro do próximo ano. Escolhi portanto dois da Zona 1, dos três a azul indicados como disponíveis. A mensagem de resposta foi "Não é possível escolher os lugares".

 

Passando para o quadro seguinte sem escolher lugares, a mensagem passou a ser "Não indicou o número de bilhetes".

 

Acabei por adquirir dois lugares na Zona 2, sem problemas. Aparentemente, na Zona 1 há lugares indicados como livres mas que na realidade não o estão. Ou estão mas o site funciona mal.

 

Em nenhum dos casos fico surpreendido: a organização é portuguesa e o local Lisboa. Se a propriedade fosse pública nem me incomodava a escrever.

 

Mas não é pública. Conviria que o não parecesse".

 

Não teve, é claro, resposta. Também não esperava.

publicado por José Meireles Graça às 21:14
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Encosta a tua cabecinha ao meu ombro e chora

Marcelo deu um violento raspanete ao Governo, há dias, e o que se chama a direita reconciliou-se com ele.

 

Eu também: pareceu-me que o calculismo de Costa e as suas declarações desastradas, o cinismo das duas seitas que lhe sustentam o consulado, o modo controlo de danos da comunicação social a ruir à medida que as horas passavam, os erros de casting evidentes da ministra Urbano e das personagens que povoavam o aparelho da protecção civil, tudo fazia um contraste demasiado evidente com o colapso do Estado, o número de mortes sem precedentes, e o imenso desespero dessa gente mal lavada e pobreta, nas suas casas de blocos de cimento rematados aqui e além com azulejos de mau gosto que o fogo consumiu. A mesma gente que Marcelo não hesitava em abraçar por entre lágrimas e que ficava, e fica, genuinamente grata pela atenção presidencial, que interpretava como sinal da solidariedade que a comunidade lhe devia, e que o Governo não cessou de trair.

 

Perguntado por um amigo que sabe que tenho por Marcelo uma consideração, digamos assim, muito moderada, sobre o que pensava da forma como se conduziu, disse-lhe aprovadoramente que Marcelo agiu como um rei popular.

 

Foi de facto assim. Costa percebeu a mensagem e fez o que sabe fazer: despiu a pele de bonomia ou arrogância que lhe é natural, consoante as situações, e vestiu a de contrito e comovido cidadão com que se apresentou no Parlamento.

 

Isso, é claro, não chegava. E há dias lá vieram as medidas do Governo que garantirão o dispêndio de incontáveis milhões, que não se resolverá satisfatoriamente o problema, e que teremos novas grandes desgraças daqui a uma dúzia de anos (v.g, a série de posts que Henrique Pereira dos Santos não cessa de dedicar a este assunto, por exemplo este).

 

Deixemos Costa, as suas moscambilhas, a sua patética corte, e o séquito de comentadores que não lhe vê nas proclamações a vacuidade que lá está, mas vê o sentido de Estado e a clarividência na gestão da economia que lá não estão, que eu quero é falar de Marcelo.

 

Esteve bem, já disse. Mas Marcelo não tem, nem sobre a vida rural nem sobre coisa alguma da res publica, nenhuma ideia que preste. Importa portanto saber por que razão acertou e se isso representa alguma mudança grávida de consequências positivas.

 

Convirá talvez lembrar que aquando dos incêndios de Pedrogão a primeira reacção do nosso monarca foi dizer que "o que se fez foi o máximo que podia ser feito". Isto quando era patente, e há muito, para quem lesse quem valesse a pena ser lido, que as únicas coisas realmente feitas eram um rosário de asneiras. Marcelo, que não é um homem bem informado senão de rodilhices que tenham que ver com tácticas políticas, e mesmo essas apenas de curto ou médio prazo, é todavia um grande farejador - a isso deve a carreira, o sucesso e taxas de aprovação sem precedentes.

 

Não compro o sentimentalismo dos abraços, das selfies, e todo o folclore enjoativo associado aos afectos. Nem acho que esse seja um fundamento sólido para qualquer mudança que valha a pena, e menos ainda para quaisquer reformas, que para serem úteis desagradarão a muitos, senão à maioria.

 

Mas suponho que à força de andar no meio do povo miúdo, e de ver de perto o espectáculo indecoroso de um país desconhecido abandonado à sua sorte, Marcelo, que é um intuitivo, percebeu que dar cobertura ao Governo era a negação de uma interpretação correcta do sentimento popular. E ele está para isso, para interpretar o sentimento popular, e, não sabendo mais nada, isso sabe fazer bem.

 

Então, pode a direita contar com ele? Marcelo mudou? Sim e não: não, se Costa recuperar, como creio fará, a credibilidade seriamente beliscada; sim, se os danos tiverem sido permanentes.

 

Para já, a chuva dos milhões, de mais a mais com a imprudente garantia de que não contarão para o défice (um tipo de música que, caindo em ouvidos socialistas, é um passe-vite quase certo para o deboche), abafará a revolta e comprará votos transviados; a corrupção, como de costume, abocanhará o seu quinhão; e as reformas desenhadas, mais a área ardida que não arderá de novo senão quando a legislatura for outra, e outras as restantes circunstâncias: tudo garantirá que a geringonça tem pela frente mais do mesmo, até onde a vista alcança.

 

Quer dizer que o novo Marcelo que a paisagem física destruída revelou só renascerá quando a economia der de si, ou quando por qualquer outra razão a paisagem política mostrar labaredas e fumo.

 

Até lá conviria persuadirmo-nos de que vivemos numa monarquia electiva: o rei está acima dos partidos; ou abaixo; ou ao lado; em suma, onde estiverem os populares que lhe chorem no ombro, desde que em quantidade suficiente.

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publicado por José Meireles Graça às 11:58
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