Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2015

Vitória de Pirro

Henrique Monteiro, pessoa com a qual tendo geralmente a concordar, preencheu a sua coluna no Expresso com um texto apaixonado que fui lendo com gosto até tropeçar na seguinte frase: "Que ganharam com isto, seus parvos? Pensam que vamos dar força aos que querem expulsar os islâmicos da Europa? Não vamos. São bem vindos, porque como costumamos dizer, Bem vindo seja quem vier por bem!"

Tenho dúvidas, Henrique, muitas dúvidas. De adquirido, sabemos que a maioria esmagadora dos Muçulmanos é feita de gente pacífica, que veio para o Ocidente à procura de vida melhor. Nisso, não são diferentes dos Portugueses, que tradicionalmente dão à sola da terra apertada e pobreta em que viram a luz.

Mas os Portugueses levam o caldo verde, o galo de Barcelos, a língua, a saudade, a memória da grandeza pretérita do seu país, e o desejo de voltar. E voltam, se não ficarem amarrados pela geração seguinte, que foi educada noutras paragens, criou laços locais e que em muitos casos já não se sente, nem é, verdadeiramente portuguesa. Na condição de trabalhadores estrangeiros, tendem a distinguir-se por não se notarem, guardando pela cultura, as regras, os hábitos, as leis do país de destino, o maior respeito. A revolta, que não expressam de outra maneira senão com desabafos doridos, guardam-na para o seu país de origem, que lhes parece, quando é e quando não é, irremediavelmente inferior.

Isto é assim quer em pequenas quer em grandes comunidades. Mesmo que a dimensão seja suficiente para haver secções inteiras de produtos portugueses em certos mercados, como sucede em Paris, ou que haja clubes de futebol e associações de todo o tipo, ou certas profissões com uma representação desproporcionada de Portugueses (no Brasil, na África do Sul, na Venezuela), nunca a comunidade é percebida como um corpo ameaçador.

Outro tanto não sucede com as comunidades muçulmanas. Estas não se distinguem apenas por toilettes diferentes, coisa que as sociedades ocidentais encarariam sem pestanejar. Não: os próprios trajos, na diferença que impõem às mulheres, impedindo-as de mostrarem o cabelo, e em muitos casos a cara ou as pernas, traduzem a rejeição de algo que nos é essencial e que representa o culminar de um longo e doloroso processo, e que vem a ser a igualdade em direitos dos sexos.

Os Muçulmanos negam esta igualdade. E negam-na não apenas na mesquita (direito que aliás lhes assiste, em nome da liberdade religiosa) mas nas casas, na rua e nas suas leis, que pretendem sobrepor às nossas logo que tenham a massa crítica, conjugada com a cega tolerância do relativismo cultural que deixamos medrar entre nós, que lhes permita ter os seus bairros, os seus estabelecimentos e as suas escolas.

Todas as outras liberdades e direitos passam igualmente pelo crivo do Alcorão, dos Hadiths e da Sharia. E estes textos medievos, comportando embora leituras diferentes segundo as tradições, as seitas e as escolas, diferem dos equivalentes cristãos num ponto essencial: a César o que é de César, disse Cristo - e as igrejas que falam em nome Dele fazem o possível para que César verta na lei, nas escolas e na prática os ensinamentos da interpretação eclesiástica das Escrituras. Coisa que César (que nas sociedades democráticas, por muito mediata que seja a representação, é o povo, quando não a volúvel opinião pública) umas vezes faz e outras não.

Maomé não disse nada de parecido. E pelo contrário, como era um chefe civil e militar, quis ser, e foi, ao mesmo tempo, César e Papa, deixando essa herança aos crentes.

Isso, conjugado com o relativo atraso das sociedades muçulmanas de origem, faz com que a sociedade muçulmana seja muito mais difícil de reformar: o chefe civil sabe que não pode ofender o chefe religioso, porque isso abana todo o edifício. O imigrante traz esta carga consigo: o governante que ignora Alá não é, por definição, legítimo.

Como e quando se vai remover este obstáculo no caminho da tolerância não faço ideia. E, de resto, cada país e cada região do globo tem os seus problemas - cada qual sabe do que lhe convém, com excepção dos Americanos, que sabem o que convém a todos.

Portanto, meu caro Henrique, alguns de nós são a favor da expulsão dos que, não tendo a nacionalidade, pratiquem crimes; de quotas na imigração que impeçam que as comunidades muçulmanas adquiram demasiada importância; do respeito rigoroso das leis, e de investigações sérias do que se passa com coisas como excisões de clitóris, incitamentos no púlpito e nas redes sociais à violência, casamentos forçados e toda a parafernália de abusos e atropelos em que as comunidades muçulmanas, quando de dimensão significativa, são férteis.

Entre nós o problema, praticamente, não existe. Mas, por um dia, também fui francês. E lá estas e outras medidas vão, creio, suceder, com Marine ou sem Marine. Se era isso o que os terroristas queriam - ganharam.

publicado por José Meireles Graça às 12:06
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