Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015

Zola doméstico

Nem de propósito: diz-se aqui que "geralmente, credita-se a introdução do termo 'intelectual' a Georges Clemenceau durante o caso Dreyfus". E este famoso caso é a inspiração para Pacheco Pereira, o nosso intelectual por antonomásia (completo com o exílio na Marmeleira, a pose de buda cabeludo, a biblioteca que se diz imensa e a obra obscura sobre a história do PCP) se lançar num texto prolixo e contraditório sobre o papel dos intelectuais no nosso tempo.

 

Por um lado, lamenta que homens como Zola, Raymond Aron, Sartre ou Bertrand Russell já não existam; e insinua, com razão, que Krugman, Stieglitz, Piketty e Varoufakis (!) não se lhes comparam.  Por outro, reconhece que "a maioria dos intelectuais do século XX mostrou um fascínio com tudo o que era errado, tudo o que representou um imenso sofrimento para a maioria das pessoas comuns, que era suposto a sua voz proteger. Refiro-me à enorme capacidade de justificação e legitimação que os intelectuais do século XX tiveram com o comunismo e o fascismo".

 

Um detalhe: suponho que por "fascismo" Pacheco tenha querido dizer "nazismo". Porque, na hierarquia da abominação, o fascismo foi um parente pobre e, se usa tanta treta para dizer tão pouco, conviria ao menos que fosse rigoroso no uso das palavras. Mas o argumento principal não convence: porque se a maioria dos intelectuais do século passado sofreu do vício que lhes é atribuído - o não perceberem a inerente desumanidade dos regimes totalitários - então estamos melhor com as nulidades que Pacheco lista como expoentes do pensamento contemporâneo, e nada há por conseguinte a lamentar.

 

Tudo isto é um disparate pegado. As personalidades citadas são todas economistas, e nem os próprios imaginarão decerto que a dimensão económica é tudo o que conta nos nossos dias, ou que todas as coisas têm uma dimensão económica. Mas Pacheco, podendo escolher outros, escolheu aqueles.

 

Porquê? Porque todas aquelas notabilidades são contra a austeridade. E Pacheco também.

 

Ou seja, conhecendo o seu público, Pacheco embrulha o seu ódiozinho de estimação à crença e prática dos seus inimigos políticos actuais numa tese abstrusa que mete personagens históricas ilustres, nomes sonantes da contemporaneidade opinativa, e zás - toma lá Passos, que já almoçaste.

 

Foi o que sempre fez - olhai pra mim, que sou diferente e profundo e por isso não penso o que os demais pensam, excepto se me derem importância, caso em que estou disposto a fazer cedências.

 

Na juventude, podia ter sido um comunista como os que não eram diletantes, mas não - no PCP entra-se pela porta baixa, e por isso navegou em organizações obscuras (OCMLP, PCP(ml) ou lá o que foi), grupelhos hoje esquecidos; quando se converteu às alegrias da democracia burguesa podia ter ido para o PS, mas outros antifascistas havia lá muitos - por isso foi para o PSD, que o recebeu de braços abertos, e veio a ser um feroz cavaquista, apoiou a invasão do Iraque, e passeou a sua superioridade pela Assembleia da República e pelo Parlamento Europeu.

 

Recentemente, tinha o ouvido de Manuela Ferreira Leite e outros próceres do partido a que ainda pertence. Mas no saco de gatos que aquela agremiação sempre foi a facção a que pertencia perdeu. E ei-lo de braço dado com a oposição interna, e a externa, até que tome o poder alguém que lhe pergunte: qual o caminho, divino Pacheco? - caso em que, rendido, ministrará os seus preciosos conselhos, que consistem em geral em estar do lado errado da história e apostar em cavalos perdedores.

 

Exagero? Há por aí alguém que acredite que, caso Manuela tivesse tido o encargo de aplicar o programa da tróica, as coisas teriam sido muito diferentes, salvo talvez num pequeno grau e com uma retórica um pouco mais doce? E que imagine que o celebrado Pacheco, desde que fosse ouvido pelo Poder, teria o mesmo discurso que hoje tem, e não referiria, em vez de Krugman, os seus críticos?

 

O homem abastarda a função dos intelectuais - deles se espera que, certos ou errados, defendam ideias, que poderão ser ou não as dos seus amigos, e não que defendam amigos, usando as ideias como armas.

 

Isto é uma forma particular de corrupção. E, de tão transparente, é também uma forma de burrice. Mas esta não é em geral reconhecida: o homem sabe quem foi Zola, e Dreyfus - aquilo é uma cabeça.

publicado por José Meireles Graça às 12:12
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