Segunda-feira, 16 de Abril de 2018

Os "subsídios" à prospecção do petróleo no Algarve

Os consumidores portugueses pagam uma das energias mais caras da Europa por a energia de origem renovável ser generosamente subsidiada através de tarifas de venda garantidas acima do preço de aquisição de energia em vigor no mercado grossista e, para algumas tecnologias de produção, largamente superiores ao preço de venda aos consumidores, que asseguram o retorno aos investidores que apenas investiram nas centrais de energia renovável graças a essa garantia.

E esses subsídios são pagos pela carteira dos consumidores actuais, através dos sobrecustos da Produção em Regime Especial, uma das parcelas dos Custos de Interesse Económico Geral que são debitados nas facturas de energia, e pela dos consumidores futuros, na parte deste sobrecusto que não é imediatamente debitada aos consumidores mas é transferida para o deficit tarifário. E pelo corpo das pessoas que não têm dinheiro para aquecer as suas casas no Inverno, nomeadamente pelo das que morrem de doenças evitáveis cuja incidência cresce significativamente quando há vagas de frio, as vítimas colaterais silenciosas dos esplendorosos sucessos das energias renováveis em Portugal.

Os CIEG ascendem a cerca de um terço do custo total da energia, e a parcela do sobrecusto da PRE custuma oscilar entre mil e mil e quinhentos milhões de euros por ano.

Um dia, e se o poder político lho permitir, a justiça chegará talvez a alguma conclusão sobre se o caso de sucesso das energias renováveis em Portugal, que é o tema das palestras patrocinadas pela EDP leccionadas pelo ministro que montou este negócio na Universidade de Columbia, foi apenas populista e imoral, por as vantagens e as conquistas da energia renovável serem largamente divulgadas mas os custos escondidos em rúbricas da factura de energia com siglas que os consumidores tendem a não entender, ou mesmo atirados para os consumidores futuros sem lhes perguntar se estarão dispostos a suportá-los, ou se envolveu também a prática de crimes.

Para já limitamo-nos a registar sucessivas e sonantes vitórias, celebradas por todos, a começar pelos ambientalistas que acreditam que com o incremento das energias renováveis o planeta se salvará do inferno do aquecimento global e das alterações climáticas, pelos geo-estrategas que aceditam que com ele a nossa dependência dos produtores de combustíveis fósseis, quase todos pouco recomendáveis, se libertará, e pelos tolos que vibram com o anúncio de recordes, sejam eles da maior feijoada cozinhada numa ponte suspensa ou da maior número de horas a consumir exclusivamente energias renováveis, e pagam silenciosamente por eles.

Este ambiente de celebração universal tem, no entanto, uma interrogação irritante a perturbá-lo: e se nós, em vez de importarmos petróleo, tivessemos possibilidade de exportar petróleo? e se em vez de o dinheiro do petróleo queimado longe da vista noutras paragens do mundo para onde o exporta fazer de nós um paraíso socialista, como Angola ou a Venezuela, fizesse de nós um inferno capitalista como a Noruega, o país mais verde do mundo, aquele que segundo reza a lenda que tem mais Tesla per capita e onde já está instituída a proibição de cortar árvores?

Como em quase todas as perguntas, a resposta certa é depende.

Antes e acima de tudo, depende de haver petróleo explorável em condições economicamente competitivas. Como a generalidade dos mercados de commodities, o petróleo é produzido em diferentes partes do mundo recorrendo a diferentes tecnologias adaptadas às condições de extracção de cada local, umas de custo mais reduzido e outras de custo mais elevado, e a produção ajusta-se à procura desactivando ou reactivando os produtores de custo mais elevado em função de os custos de produção deixarem de ser ou voltarem a ser cobertos pelos preços de venda no mercado. Se um local tem petróleo que se pode extrair com custos menos elevados pode valer a pena investir na extracção, porque o investimento terá um retorno assegurado por uma produção permanente. Se não, nem vale a pena pensar no assunto.

Depois, se o retorno do investimento estiver assegurado, depende dos danos ambientais e paisagísticos resultantes da exploração. A que distância é da costa? as plataformas seriam visíveis ou estariam para lá do alcance visual? a extracção em condições normais polui significativamente? a poluição em condições normais é neutralizável e a que custos? quais são os riscos de ocorrerem acidentes? quais são as consequências de acidentes, se ocorrerem? quais os custos?

Estas duas questões seriam as mais determinantes para se fazer um primeiro juízo do que poderíamos ganhar, tanto em termos económicos, como até ambientais, e é atentar ao exemplo na Noruega para o perceber, e de quanto nos custaria, tanto em custos directos, como em custos ambientais, produzir petróleo.

Mas há outras de enquadramento menos linear.

E a contribuição do petróleo português para o aquecimento global, ou efeito de estufa, ou alterações climáticas? Há quem acredite que está provado que o consumo de combustíveis fósseis contribui para estes fenómenos e que estes fenómenos se estão a verificar e constituem ameaças credíveis, há quem não acredite neles nem nelas, e há quem ache que não tem informação suficiente e suficientemente credível para perceber se eles são reais e se as ameaças que colocam são credíveis.

Para os segundos, as duas primeiras questões permitem responder à pergunta inicial sem mais considerandos: se as receitas esperadas ultrapassam os custos esperados, avança-se.

Para os primeiros, as duas primeiras questões nem sequer se chegam a colocar: qualquer que seja o balanço entre proveitos e custos, a ameaça à sobrevivência do planeta torna qualquer novo invstimento na exploração de petróleo indesejável.

Os terceiros, os indecisos, podem ainda acrescentar dúvidas às que já têm. Se Portugal começasse a produzir petróleo em condições de custos competitivas o consumo global de petróleo, e os danos consequentes que eles não têm informação para dar por garantidos mas também não para excluir, seria significativamente incrementado? Não seria aumentado na dimensão da produção portuguesa, porque o incremento de produção a custos competitivos colocaria fora de mercado os produtores com custos mais elevados, e o aumento do consumo seria limitado ao resultante da redução de preço de mercado que a saída destes produtores poderia determinar no custo marginal de produção, que passaria a ser determinado pelo produtores com os custos mais elevados, mas inferiores aos deles, que ficassem no mercado. Sem conhecer as formas das curvas da oferta e da procura os terceiros indecisos não têm modo de estimar o aumento do consumo que a entrada de um novo produtor provocaria no mercado, mas sabem que seria marginal e não da dimensão do acréscimo de capacidade de produção do novo produtor.

E que influência têm estes três grupos nos processos de tomada de decisão pública sobre este assunto?

2018-04-16 Petróleo Algarve.jpg

Os primeiros têm a superioridade moral do lado deles. Estão a salvar o planeta e a humanidade. A sua missão é tão importante que não têm espaço para duvidar da sustentação científica que a justifica. Claro que há aquecimento global, e claro que, se a tendência monótona crescente verificável nas estatísticas no caso de haver aquecimento global não for tão evidente assim, há pelo menos alterações climáticas, uma hipótese à prova de bala porque o clima se altera permanentemente. Claro que quem não acredita ou sequer duvida do aquecimento global ou das alterações climáticas é tão burro que também deve acreditar no creacionismo ou no geocentrismo do sistema solar. Além de ser egoísta por se estar nas tintas para o destino da humanidade, é mau como as cobras porque está ao lado da Santa Inquisição que não hesitava em torturar e matar para impedir o progresso científico. E é claro que quem está nesta posição de superiordade moral a combater a maldade e o obscurantismo é mais ruidoso do que quem não está, e os argumentos que esgrime no debate são tão convincentes que é arriscado para os poderes públicos atravessarem-se no seu caminho. É melhor ser-se reconhecido por salvar o planeta do que por destruí-lo. Este grupo tem, portanto, alguma capacidadede influenciar os decisores públicos, se não pelo endoutrinamento, pelo menos pelo receio de parecerem politicamente incorrectos.

Os segundos não a têm, pelos mesmos motivos porque os primeiros a têm. Podem ser ruidosos na mesma medida em que os foguetes e os ranchos folclóricos nas festas de Verão o são, mas não conseguem recolher grande reconhecimento como credíveis. Publicamente são associados a gente egoísta, burra e má, e, pior ainda, ligados aos interesses dos negócios. Nenhum político ousa confessar simpatia por eles, com a excepção que confirma a regra do Donald Trump.

Se os políticos se interessam pelo mundo dos negócios, e mesmo pelas variantes mais inconfessáveis do mundo dos negócios, a melhor alternativa que têm é declarar-se publicamente do lado dos primeiros e montarem discretamente negócios com os segundos. Aliás, foi assim que foi montada a indústria das energias renováveis em Portugal.

E eu? Eu sou dos terceiros. Não tenho informação suficiente para acreditar para além de qualquer dúvida que esteja a ocorrer aquecimento global ou da dimensão que possa estar a atingir, que resulte da actividade humana e por isso possa ser controlado intervindo nela, e que tenha as consequências catastróficas que lhe são apontadas. Não tenho a certeza que se Portugal fosse produtor de petróleo o consumo global de petróleo pudesse ter um incremento significativo. Não gostaria de ter plataformas de exploração de petróleo no horizonte visual de uma das regiões mais bonitas e bem preservadas de toda a costa portuguesa, mas não sei a que distância é que há intenção de as colocar se se vier a descobrir petróleo na região e se seriam visíveis ou não. Admito que se fossem instaladas teriam condições de segurança ambiental e de prevenção de acidentes tão rigorosas como as melhores. Não sei se a eventual exploração de petróleo na costa portuguesa seria pouco, ou razoavemente, ou muito rentável.

Se todas estas dúvidas tivessem respostas positivas gostaria que Portugal fosse um produtor de petróleo, tanto pelo incremento da qualidade de vida que poderia proporcionar às gerações actuais e às futuras, como principalmente pela oportunidade de libertar as gerações futuras da dívida que as actuais miseravelmente lhes legaram. Incluindo mais uma, a dívida tarifária.

Mas isto tudo veio a propósito de quê?

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A Climate Action Network Europe, uma associação internacional de 120 associações ambientalistas de 25 países, acabou de atribuir a Portugal a medalha de ouro nos European Fossil Fuel Subsidies Awards 2018, que denuncia os apoios financeiros a energias sujas por governos de países europeus, pela atribuição ao consórcio Galp/ENI da licença para fazer uma sondagem de prospecção de petróleo ao largo da costa de Aljezur, galardão que foi prontamente noticiado e comentado pelas associações ambientalistas portuguesas associadas, nomeadamente a Associação Sistema Terrestre Sustentável, Zero, agora representada e presidida pelo eterno ambientalista Francisco Ferreira, recém transferido da Quercus. As associações embientalistas parecem ter uma dinâmica multiplicadora semelhante à que exibiam durante o PREC os partidos maoistas ou, de uma maneira mais geral, os da esquerda revolucionária, mas adiante.

Estes prémios têm uma clara intenção de paródia, na linha que agora tem estado na moda nas esquerdas modernas que em Portugal têm sido condignamente representadas pelas engraçadinhas do Bloco, e sobre a preferência pela comédia como estratégia de comunicação para denunciar atentados ambientais não tenho nada a apontar.

Mas, que eu tivesse dado pelo fenómeno nas minhas leituras em diagonal, o consórcio Galp/ENI não vai receber nenhum subsídio do Estado português para fazer a prospecção para que lhe foi atribuída uma licença, que provavelmente até lhe terá custado bom dinheiro. Vai financiá-la do seu bolso, e vai assumir integralmente o risco de não encontrar nenhuma jazida suficientemente prometedora para valer a pena explorar. E irá, assumo eu, ficar numa posição privilegiada para, se a encontrar, obter a licença para a explorar, pagando ao Estado português a parte justa do valor do petróleo que conseguir aí produzir. Assumirá o risco todo da prospecção, e será remunerada pela margem obtida na comercialização do petróleo, se a prospecção tiver sucesso, ou a fundo perdido, se não tiver. Já o Estado português não assumirá risco nenhum, e ficará com uma fonte de rendimento abundante se a prospecção tiver sucesso, e com a informação que não tem, se não tiver. Vai ganhar sempre, em dinheiro ou em conhecimento, sem gastar nada.

Sem receber nenhum subsídio, porque carga de água haveria o consórcio Galp/ENI de conquistar um prémio pelo subsídio que não recebeu? O site da associação explica. A associação assume como subsídio "any form of government action or public intervention which lowers the cost of fossil fuel energy production or consumption", ou seja, qualquer licença para prospecção de petróleo, seja ela paga por um governo, seja exclusivamente a expensas da empresa licenciada para a fazer, tenha ela sucesso e encontre jazidas de petróleo exploráveis a custos competitivos, tenha insucesso e seja um investimento perdido pela empresa, por ter o potencial de encontrar jazidas de petróleo que pode ser produzido a custos inferiores aos de outros produtores, é considerada um subsídio. Com uma definição destas tudo o que o governo faz pode ser considerado subsídio desde que contribuia para reduzir o custo de algum bem. Menos os subsídios às energias renováveis, estes por não caberem na definição de "fossil fuel energy production".

Chamar subsídio à licença para pesquisar petróleo na costa algarvia é uma burla. Que o populismo ambientalista vai tratar de pôr a render nestes dias sem tratar de esclarecer o público sobre o que é que designa exactamente por "subsídio". E o público vai acreditar que os contribuintes andam mesmo a transferir dinheiro que lhes custa tanto a ganhar para os cofres as grandes empresas petrolíferas. As burlas costumam resultar, e tanto melhor quanto mais burros são os burlados..

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:17
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2018

Uma colecistectomia por via laparoscópica no privado demora menos que mostrar as análises no público

Eu podia-vos contar que tirei a vesícula por ter uma pedra.

Mas, habituado que estou a instruir-me lendo comentadores e cronistas com a cultura e a eloquência de um Pacheco Pereira, e não estou a falar de honestidade intelectual nem de lucidez, que podendo dar a uma crónica que resumidamente chama mongos aos trumpistas um título como "A vitória do Pavlov", lhe chama antes "A vitória do dr. Ivan Petrovich Pavlov", um título que a qualquer pessoa menos culta do que ele obrigaria a uma pesquisa prévia na Wikipedia para descobrir o nome completo do homem, e não sei se ele próprio não terá necessitado de o fazer para nos enriquecer o conhecimento com esta preciosa informação, e a semeia com palavras complicadas como  "factóides", "Ersatz" ou "tribalização", não me resigno a contá-lo nestes termos simples.

Vou-vos antes revelar que fui submetido a uma colecistectomia por via laparoscópica para resolver sem mais problemas uma litítase vesicular sintomática. E vou também procurar dizer uma ou outra asneira para o mimetizar, que também as diz, por exemplo quando, por se sentir suficientemente à vontade, chama, sem previamente ter confirmado no Google, Cambridge Analytics à Cambridge Analitica.

E porque é que vos conto isto, que irá directamente para o meu dossier na Cambridge Analytica, se é que ela se interessa por mim e pelo que eu digo? Por razões pessoais e por razões colectivas.

 

Primeiro vamos às razões colectivas.

Como se devem lembrar, na penúltima consulta a que recorri da minha médica de família do Centro de Saúde do SNS de que sou utente para me passar o atestado médico necessário para revalidar a carta de condução, no dia 29 de Agosto de 2017, ela tinha-me receitado, apesar de eu não me queixar de nada e aquela consulta ter motivações meramente administrativas, uma série de análises e exames para avaliar em profundidade a minha situação clínica. Que eu decidi, por não sentir urgência especial nessa avaliação, realizar em estabelecimentos públicos ou com convenção com o SNS, demorassem o tempo que demorassem. Algumas, as análises e o electrocardiograma, fi-las logo no dia 1 de Setembro. Para a ecografia abdominal contactei vários prestadores convencionados e o mais cedo que consegui fazer a marcação foi para o dia 6 de Dezembro. No decorrer do exame o radiologista revelou-me que tinha uma pedra na vesícula que pode provocar inflamações com alguma gravidade pelo que me aconselhou a ponderar extrair a vesícula por laparoscopia. Logo no dia da realização desse exame dirigi-me ao centro de saúde para marcar a próxima consulta e consegui marcação para o dia 23 de Fevereiro de 2018.

Ou seja, entre a consulta em que a médica de família do SNS me receitou análises e exames e a consulta em que lhe pude mostrar os respectivos resultados mediaram 178 dias, meio ano em números redondos.

Na consulta a médica explicou-me as vantagens de realizar preventivamente a extracção da vesícula para não correr o risco de ter que a fazer de urgência no caso de ocorrer uma inflamação que pode evoluir para grave, explicou que o procedimento cirúrgico da laparoscopia é relativamente pouco traumático, se bem que realizado com anestesia geral, e prontificou-se a passar-me uma guia para marcar uma consulta de cirurgia no hospital de minha área de residência. Eu agradeci-lhe a oferta, mas expliquei-lhe que andava aterrado com a incidência de infecções hospitalares fatais em hospitais públicos, que os tempos de espera típicos para consultas de especialidade em hospitais públicos não eram encorajadores para quem ambicionava fazer uma intervenção que, para ser efectivamente preventiva, devia ser realizada com brevidade, e que tinha possibilidade de a realizar num estabelecimento privado, de modo que declinei.

Ao chegar a casa telefonei primeiro a um amigo médico para me recomendar um cirurgião que desse conta da coisa, e depois para o hospital privado onde esse cirurgião dá consultas e opera, e marquei consulta com ele para o dia 26 de Fevereiro, o dia útil seguinte. E na consulta marcámos uma consulta de anestesiologia para o dia 2 de Abril e a cirurgia para o dia 5 de Abril, que depois foi adiada para o dia seguinte.

Ou seja, entre a primeira tentativa de marcação da consulta de cirurgia e a realização da cirurgia num hospital privado decorreram 42 dias, mês e meio em números redondos.

Eu não vou sequer especular quanto tempo esperaria pela minha cirurgia se optasse, nomeadamente por ser forçado a optar por falta de alternativas, pela sua realização num estabelecimento público, nem os riscos que poderia eventualmente correr de agravamento da situação clínica ao longo dessa espera, ou se a esperança de vida restante aos quase sessenta e um anos seria suficiente para ainda poder ter esperança de chegar a ser operado.

Basta-me constatar que no sistema público o ciclo consulta, análises e exames, consulta, demora meio ano, e no privado o ciclo marcar consulta, ser operado, dura um mês e meio para saber sem a mais ténue sombra de dúvida que em Portugal construímos uma sociedade com classes, onde socialistas, bloquistas e comunistas sem classe nenhuma fazem o que podem, e na circunstância actual são eles que podem, para impedir as pessoas que não têm meios, os pobres, de ter acesso aos cuidados de saúde minimamente dignos acessíveis aos que os têm, incluindo eles próprios, não hesitando em negar-lhes o direito humano mais básico, o direito à vida, para satisfazer o capricho de ter um sistema exclusivamente público que não dê lucro a privados.

 

Depois, as razões pessoais, que podem ter alguma utilidade a quem eventualmente se vier a encontrar numa situação semelhante.

A vesícula não é um orgão vital, é apenas um reservatório para a bílis que é produzida no fígado, e não a ter não perturba por aí além a qualidade de vida, e a extracção da vesícula, que antigamente se fazia pelo método clássico de cortar a barriga, tirar e coser, faz-se hoje por um procedimento cirúrgico muito menos agressivo, a laparoscopia.

Consiste na introdução através de um furinho feito na região do umbigo de uma câmara dotada de iluminação que permite mostrar num écran a imagem do interior do ventre, e de mais três furinhos em três pontos da barriga onde são introduzidos os instrumentos que permitem cortar e extrair a vesícula. A cirurgia é feita com anestesia geral, e os furinhos não são suturados mas tapados com uma espécie de cola que, como qualquer cicatriz, sai com o tempo. A anestesia geral dura cerca de uma hora e meia, e poucas horas depois da cirurgia deve-se experimentar levantar e ensaiar pequenos passeios a pé, acompanhado da coluna de soro fisiológico. Normalmente fica-se internado uma noite, até porque no pós-operatório são administrados medicamentos injectáveis, e tem-se alta no dia seguinte, mas também pode ser feita em ambulatório. Tem-se alta sem recomendações especiais de inactividade ou dieta, a não ser respeitar o desconforto que eventualmente se sentir se se fizer um esforço que não se deve.

Os meus três maiores receios eram, por ordem de importância, que é inversa da ordem pela qual os verbalizava, a dor, a anestesia geral, porque nunca tinha feito nenhuma, e as infecções hospitalares.

Dor, não posso dizer que tenha sentido. Não é mentira dizer que o momento mais doloroso foi o da introdução do cateter na veia do pulso ao chegar ao bloco operatório. Quando acordei da anestesia sentia a barriga vagamente dorida, se bem que com a noção que se espirrasse ou tossisse ou meramente pigarreasse podia ter uma dor violenta. E quando a enfermeira do recobro me veio perguntar por dores na escala de zero a dez respondi-lhe, depois de lhe ter primeiro perguntado se ainda estava sob o efeito de algum analgésico para perceber se devia esperar que piorasse e ela ter esclarecido que já não estava sob o efeito de nada, com um um. E quando a enfermeira do piso apareceu no quarto às sete da manhã a oferecer analgésicos para o caso de estar a sentir dores, disse-lhe que não estava. Algum cuidado para não correr riscos, mas nada de traumático.

A anestesia geral também não me perturbou. Quando estava no bloco perguntei ao anestesista se já estava a ser anestesiado quando comecei a ver o tecto em movimento e ouvi-o responder que sim, e no momento de vigília seguinte o tecto era diferente, pelo que percebi que já tinha terminado a cirurgia e estava no recobro. Como podia mexer o pescoço sem desconforto entreti-me a ver os écrans com os sinais vitais que tinha por trás da cama, prestando especial atenção às medidas de tensão arterial que eram feitas a intervalos de mais ou menos 10 minutos e tinham valores que me pareciam catitas, depois consegui localizar o relógio na parede oposta da enfermaria e expandi o meu âmbito de análise vendo passar o tempo, e ainda consegui ampliá-la mais a analisar também os écrans dos sinais vitais dos outros doentes do recobro cujos écrans conseguia ver da minha cama. Manias de engenheiro. Fiquei com algumas falhas nas memórias da cirurgia. Quando veio falar comigo a tal enfermeira do zero a dez contei-lhe que a primeira recordação que tinha depois da anestesia era de alguém a perguntar "vamos-lhe dar antibiótico?" e de alguém a responder que não, e ela contou-me que tinha assistido à cirurgia e essa conversa tinha sido no início e não no fim. Também lhe perguntei se estava na cama ou na maca, porque tinha reparado nas protecções laterais, e ela confrmou que estava na cama e que quando me tinham mudado da maca para a cama estava acordado ede olhos abertos, e tinha colaborado na mudança, facto que não me ficou na memória. Algumas falhas na memória, portanto, mas nada de problemático.

Infecções hospitalares também parece que, por estar vivo, vos posso dizer que não apanhei.

2018-04-11 Hospital da Luz.jpg

De resto, nunca tinha dormido hum hospital, mas tive a sorte de apanhar um vizinho catita e conversador, um fiscal de finanças reformado que mal eu cheguei do bloco operatório pediu à filha para recolher a cortina para nos conhecermos, e depois ficámos em amena cavaqueira até que à uma da manhã uma auxiliar nos veio pedir para falarmos mais baixinho porque a nossa conversa se ouvia no corredor, e nunca tinha comido num hospital, mas o jantar até não foi nada mau, umas tiras de carne de porco envolvidas em couve lombarda à maneira de salsichas em couve lombarda, acompanhadas de arroz, tanto elas, como ele, bastante aceitáveis. Ao pequeno almoço ainda estava em dieta hipolipídica mas fui almoçar em casa e a dieta acabou, aliás com a concordância e mesmo incentivo do médico quando me deu alta: "Faça o que se sentir confortável a fazer, defenda-se quando o corpo lhe sinalizar que está a passar o risco".

De modo que deixo aqui uma palavra de conforto a quem se veja na iminência de fazer uma colecistectomia por via laparoscópica. Não há razão para grandes preocupações.

 

PS. Repararam? Eu disse entreti-me, recortando as duas letras ve à palavra entretive-me. O Pacheco Pereira diz obteram, recortando as duas letras iv à palavra obtiveram. Eu acho que ve e iv se podem bem considerar equivalentes, pelo que se me esforçar consigo chegar aos pés dele, pelo menos nas asneiras em Português. Estou motivado e confiante.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:50
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

Uma lady

2016-12-08 Catarina Martins - 667 o vizinho da bes

A coisa passou-se num palácio, convento em tempos idos, ali para os lados da Rua de São Bento.

Tinha ido tratar de um assunto que não vem ao caso com um amigo que lá trabalha, M., caminhávamos por um longo corredor com uma porta envidraçada no meio, e vinha do outro lado uma senhora.

Como somos ambos do tempo de heteropatriarcado ele, que ia à frente, abriu a porta e esperámos que a senhora passasse antes de continuarmos o nosso caminho. A senhora passou pela porta aberta por ele sem uma palavra, de cumprimento e muito menos de agradecimento, sem sequer um olhar para a porta ou para o porteiro circunstancial que lha tinha aberto e segurava aberta para passar, sem nada. Não desviou o andar nem o olhar e seguiu em frente como se aquela porta e aquela gentinha não existissem no mundo dela. E depois de ela passar nós continuámos o nosso caminho e a nossa conversa, não sem eu ter agradecido ao M. por me ter aberto a porta.

Foi o que me pareceu. Mas eu tenho um metro e oitenta, e a senhora caminhava quase dois palmos abaixo.

[Aqui faço uma breve interrupção para esclarecer que, mesmo julgando muitas vezes pela primeira impressão, não gosto de julgar pela primeira impressão e exijo de mim mesmo confirmar tudo o que vou sabendo antes de o dar por sabido, até porque na minha infância nas redes sociais cheguei a matar a Simone de Oliveira e percebi rápida e definitivamente que nem tudo o que se diz é verdade. E rodeio-me de alguns cuidados para validar as informações que vou recolhendo, de que dei conta de alguns aqui.]

De modo que ao chegar a casa telefonei a M., que por não chegar a ter um metro e setenta usufruiu de uma panorâmica mais favorável do que a minha dos acontecimentos do corredor do palácio, e perguntei-lhe:

- M., será que me falhou alguma coisa por ir distraído, ou a senhora a quem seguraste a porta no corredor não agradeceu, nem sequer com um olhar, e seguiu em frente sem tugir nem mugir?

- Não estavas distraído. Ela é mesmo assim.

E, naquele dia, naquele palácio, tive a experíência inesquecível de me cruzar com uma verdadeira Senhora.

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:54
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Terça-feira, 10 de Abril de 2018

A bola é redonda

Tem sido no facebook um sem-fim de piadas foleiras sobre o Beppe Grillo do Sporting, para o qual tenho dado com gosto o meu contributo. Bruno de Carvalho terá como dirigente desportivo bastantes qualidades e pessoalmente muitas, mas como figura pública tem uma que sobreleva as demais, que consiste em ser um cómico involuntário, a variedade que dá mais vontade de rir. O homem julga que aquele mundo da bola, em que vive, tem mais importância do que o Serviço Nacional de Saúde; o Sporting mais do que a Autoridade Tributária ou a Santa Casa; ele mais do que o procurador-geral da República; e as tricas em que não cessa de se enredar mais do que os sarilhos de que Trump não se consegue libertar.

 

Queria, o pobre, reformar o futebol, um mundo tradicionalmente corrupto, como se isso estivesse ao alcance de um chefe de claque, uma contradição tão patente como a de um comunista querer assegurar a liberdade de expressão para não-comunistas.

 

Não conseguiu, nem podia. A corrupção no futebol existe porque satisfaz necessidades: vende horas intermináveis de debate e a notoriedade de não-pessoas que, sem isso, seriam anónimas, além de quantidades invejáveis de jornais desportivos que sustentam uma miríade de jornalistas; engrandece dirigentes, que adquirem o estatuto equívoco de Al Capones de trazer por casa, porque se se desse o caso de serem sérios seriam trucidados como ingénuos; unta as mãos e alimenta as carreiras de figuras obscuras de empresários e facilitadores, quando não os próprios dirigentes; fornece uma desculpa, e confortáveis sentimentos de auto-compaixão, às massas de fãs de clubes menores, que não veem a caterva de jogadores preguiçosos e ineptos que recheiam o plantel da equipa da terra mas veem, porque para não ver precisavam de ser cegos, as arbitragens tendenciosas em favor dos três grandes; e reforça o sentimento tribal de pertença a um dos três clubes que inclinam tradicionalmente o campo a seu favor, e que por serem os com maiores recursos discutem entre si o campeonato, atribuindo-se a vitória a um deles consoante o sucesso das manobras que nos bastidores garantem em certas épocas árbitros amigos.

 

Previsivelmente, sportinguistas que noutras áreas da vida se portam com um módico de gravidade reagem como os católicos fanáticos quando se lhes goza o Papa, os economistas quando se lhes discute a ciência e as feministas quando se lhes põem reservas às quotas: ficam possessos. Um amigo, cordato e civilizado, destratou-me por ter dito, no Facebook, que

 

Os sócios do Sporting são cómicos: queixam-se da demência do demente que elegeram. Os socialistas que reelegeram Sócrates também se queixam da desonestidade dos políticos.

 

Não faz mal: uma das razões porque os adeptos vão ao futebol é porque nos estádios se podem comportar como selvagens, que ninguém leva a mal. E a paixão clubista, bem vistas as coisas, é uma desculpa muito melhor do que outras para a malcriadez: seria decerto um consolo saber, quando Costa insulta Cristas no Parlamento, que o faz por ser do Benfica, e não pela razão chã de ser simplesmente grosseiro e mal-educado.

 

Terei pena se Bruno for embora: o homem é o bruto mais simpático que conheço e escasseiam, no nosso país onde crianças cancerosas recebem quimioterapia em corredores gelados, motivos de galhofa. E a única consolação, e esperança, é que se fala, para o substituir, do bombeiro Marta, homem com a truculência bastante, o verbo inspirado e a grosseria q.b. para fazerem um digno sucessor. Milita a favor deste candidato ainda o facto de, sobre a sua especialidade, que são incêndios, não dizer praticamente senão asneiras, donde talvez os sportinguistas concluam que, de futebol, é capaz de entender alguma coisa.

publicado por José Meireles Graça às 22:52
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Quinta-feira, 5 de Abril de 2018

Funcionários da cultura

Ontem uma actriz queixava-se amargamente na SicN de que os actores também precisam de comer, pagar a renda da casa, fazer compras e educar os netos (tinha idade para os ter, e não lhe foi perguntado se essa seria uma obrigação típica dos avós). A senhora falava com o coração nas mãos e inquiria, dramática: se toda a gente tinha um ordenado, se até os empregados dos bancos os tinham, não obstante nós todos passarmos a vida a lá pôr dinheiro, por que razão é que os actores haviam de ficar numa situação desesperada?

 

Sobre os bancos não vou responder à senhora com detalhe, salvo para dizer que o preço de não os apoiar é ainda maior do que apoiá-los.

 

Mas mesmo que haja, e há, boas razões para supor que a gestão desastrada dos bancos não foi, e continua a não ser, adequadamente penalizada; que uma parte (menor) da destruição do seu valor resultou não apenas do rebentar de uma bolha especulativa mas também de negócios de contornos ilícitos ou inacreditavelmente ineptos, que não são denunciados por envolverem um número demasiado grande de indivíduos que pertencem ao grupo da dança das cadeiras dos gestores públicos, académicos da economia e finanças, e políticos e advogados do Centrão: não se segue que todo o cão e gato tenha o direito de viver à custa do Estado sob pretexto de que custa, comparativamente, pouco.

 

E foi isso que a senhora disse: eu tenho o direito que o Estado me sustente já que sustenta outros com muito menos merecimento.

 

Menos merecimento porquê? Porque a senhora, e a caterva dos seus colegas, são agentes da cultura, que é por definição algo de superior. E, como diz este senhor, numa afirmação lapidar que Marcelo, e todos os outros papagueadores de banalidades, decerto subscreve, “não colhe o argumento da subsidiodependência pois só um Estado inculto não investe em cultura”.

 

Se corrermos os jornais por estes dias tropeçamos com um ror de queixas e reclamações, por exemplo aqui e aqui. E indo o clamor em crescendo, e sendo o governo do dia o que é, esta berrata já está a dar resultado, pelo que se alargarão os cordões à bolsa do contribuinte até ao ponto em que, se houver uma companhia de teatro que queira levar à cena Ionesco em Freamunde, para ilustração dos operários da indústria de mobiliário, o Estado investe e os beneméritos actores forrarão as barrigas famélicas com um bom jantarinho de capão, que por aqueles lados se assa de forma superlativa.

 

É claro que o Estado não se deve demitir da cultura. Mas esta, sendo muitas coisas, não é certamente a prodigiosa colecção de piolhosos que gritam em nome dela, e em nome dela se espolinham num palco em peças que ninguém entende e, por ninguém entender, ninguém quer ver; ou a compor peças musicais exotéricas para disfarçar a incapacidade de interpretar os clássicos; ou a preservar teatrinhos de marionetes e promover exposições de lixo sob a designação genérica de arte contemporânea, das quais a melhor parte seria o catálogo, se por milagre estivesse redigido em bom português.

 

Isto poderia ser talvez assim se o país pudesse alocar a estas festividades mais do que os 0,4% do PIB que lhes dedica; e poderia ser sobretudo se não houvesse monumentos em ruínas, bibliotecas onde chove, escolas essenciais, como o Conservatório, num caco, ou investigação séria que não tem patrocínio; mas houvesse educação que formasse para criar uma massa crítica de cidadãos  que garantisse os mínimos de mercado para a existência de formas superiores de cultura, em vez de analfabetos, ignorantes contumazes, duros de ouvido, vesgos e socialistas sortidos, com perdão da amálgama.

 

Desta vez, à boleia do clima económico de euforia, em boa parte artificial, que a propaganda tem criado, não vai fechar nenhuma das prestigiadas associações que a população dispensa, muito menos as companhias de bandeira a que Santana Lopes, numa engenhosa comparação, se referia há dias na televisão, e que não foram contempladas com subsídios; nem aquela malta do Norte, capitaneada pelo presidente da câmara do Porto, deixará de ser servida; assim como Évora, uma cidade comunista, deixará de ver revisto o descaso a que foi votado o teatro local – Jerónimo de Sousa, com ar soturno, já rosnou umas coisas ameaçadoras sobre a distribuição do bolo.

 

A grande ambição de toda esta gente é regressar aos níveis de 2009. Ignoro o que se terá passado naquele ano que permita afirmar que a cultura se distinguiu, pelo seu brilho, da sucata que estava antes e do esterco que veio depois.

 

Mas eu, se tivesse a ambição de viver à custa do contribuinte para o efeito de o ilustrar com a minha superioridade mal agradecida, escolhia talvez outra época para comparação: uma em que não estivéssemos às portas da bancarrota.

publicado por José Meireles Graça às 16:39
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Histórias da Carochinha: a história da Carochinha

2018-04-04 Carochinha João Ratão.jpg

A Carochinha descobriu que a casa dela valia um milhão e veio à janela anunciar:

- Quem quer casar com a Carochinha, que é gira e tem uma bruta casinha?

Veio um camponês e disse:

- Quero eu, construimos um lar com o suor do nosso rosto e temos muitos filhos.

E a Carochinha disse:

- O caraças é que casas comigo, vai replicar os estereótipos de género para a tua terra!

Veio um operário e disse:

- Quero eu, vamos ser explorados na cintura industrial de Lisboa e desenvolver actividade sindical.

E a Carochinha disse:

- Olha, filho, o Povo é ali com a vizinha do lado que até escreve livros, mas isto é uma casa de um milhão e eu não quero cá homens das obras a sujar os tapetes.

Veio o João Ratão e disse:

- Casa comigo, que eu levo-te a passar férias a Formentera e a ver casas no buraco do Chiado.

E a Carochinha disse:

- Buraco és tu, mas está bem, podemos casar.

E casaram e foram muito felizes entre a Itália, Paris e o Chiado, até que o João Ratão teve mais olhos que barriga e caiu no caldeirão.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:04
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Terça-feira, 3 de Abril de 2018

Aquecimento global ou alterações climáticas? Ou coisa nenhuma?

Não sei se deva confessar isto, porque têm-me dito que quem não acredita no aquecimento global é como se acreditasse que a Terra é plana ou se defendesse o geocentrismo e o criacionismo. Eu até confesso, mas peço-vos o favor de não divulgarem nas redes sociais para as pessoas não suspeitarem desta minha triste condição.

2018-04-04 ISS Portugal.jpg

Eu posso garantir que a Terra é redonda porque já vi fotografias. E domino a física newtoniana suficientemente bem para garantir que o sistema solar é heliocêntrico. E consigo acompanhar a plausibilidade estatística do evolucionismo, pelo que acredito mais no evolucionismo do que no criacionismo, em que aliás não acredito mesmo nada, até porque não recebi a graça da Fé.

Mas não estou convencido que o aquecimento global seja real. Não por estar convencido que não seja real, mas por saber que não tenho informação suficiente para acreditar que seja.

Mas nas alterações climáticas acredito.

Mas não vale a pena terem esperança na minha redenção antes de lerem até ao fim.

O clima era, quando eu dei Ciências Naturais nos primeiros anos do Liceu, uma estatística de longo prazo das condições meteorológicas, o tempo, em períodos de pelo menos 30 anos. E suspeito que continua a ser. O que não simplifica a tarefa de tentar perceber se está a mudar, e muito menos a quem tenha pressa para chegar a conclusões.

Não basta estar mais quente à hora de almoço do que de madrugada, nem hoje estar mais quente do que ontem por esta hora, ou do que nos conseguimos lembrar ou registámos que estava neste mesmo dia há um ano atrás, ou nos últimos 5 ou 10 anos. O clima hoje é o tempo que esteve de 1988 a 2018, com todas as oscilações sistemáticas ou caóticas que sofreu.

Com esta definição, para avaliar se o clima está a mudar é necessário recorrer a estatísticas do tempo de pelo menos 60 anos, por exemplo, comparar o período de 1988 e 2018 com o de 1958 a 1988. Isto porque acompanhar a evolução de médias móveis, por exemplo, os últimos 30 anos terminados em 2018 com os 30 terminados em 2013, apenas permite comparar o período final do período mais recente com o período inicial do período mais antigo, ou seja, no exemplo, os cinco anos de 1988 a 1993 com os cinco de 2013 a 2018, todos os outros anos de 1993 a 2013 estando presentes nas duas amostras, e de amostras de apenas 5 anos não se podem tirar conclusões que exigem amostras de pelo menos 30 anos.

Com a complicação de saber que valores usar, medidos em que locais e como, se as medidas são comparáveis ao longo do tempo, que valores se desprezam na estatística por serem considerados outliers, tudo variáveis metodológicas que dão uma certa liberdade de manipular os números para chegar a um valor preferido quando se prefere usar a ciência para sustentar uma mensagem a usá-la para perceber o que acontece.

Mesmo com estas dificuldades e armadilhas metodológicas todas, é hipoteticamente possível aferir a hipótese do aquecimento global, através do aumento da temperatura global: se a hipótese for verdadeira alguma tendência de aumento nas estatísticas de temperatura tem que aparecer. Se o cientista for rigoroso e honesto há razões para acreditar na estatística que apresenta. Se tiver uma agenda política, para não acreditar. Na ausência de informação, para manter um prudente cepticismo. Mas mesmo com todas as condicionantes é possível testar a hipótese de a temperatura estar a aumentar.

Mas é impossível aferir, e, aferindo, poder rejeitar, a hipótese de o clima estar a sofrer alterações climáticas. O clima está garantidamente sempre a mudar, não porque o tempo está sempre a mudar, que está, mas porque é virtualmente impossível todas as estatísticas relativas a condições meteorológicas permanecerem imutáveis 30 anos depois.

A grande vantagem de substituir o aquecimento global, que é possível ir tentando aferir apesar de ser muito complicado fazê-lo num fenómeno tão oscilatório e caótico como o clima, pelas alterações climáticas é que, estando o clima em alteração permanente, se bem que não necessariamente no sentido de aumento da temperatura global, acerta-se sempre na previsão.

Se eu só consigo acreditar no aquecimento global se vir informação credível que o demonstre, dou de barato as alterações climáticas mesmo sem olhar para estatísticas. Se o tempo num Novembro menos frio me parece sustentar a hipótese do aquecimento global tanto quanto o tempo num Março mais chuvoso me encoraja a duvidar dela, qualquer tempo me parece compatível com a hipótese de haver alterações climáticas. É uma hipótese credível que nem necessita de confirmação.

Já se a utilidade de saber que há aquecimento global é mais ou menos evidente, porque é possível antecipar que problemas é que o aumento sistemático da temperatura poderá possivelmente provocar e preparar alguma prevenção contra eles, a de saber que há alterações climáticas parece de utilidade menos evidente, porque sem se saber que alterações serão ao certo também não se pode fazer grande coisa para lhes prevenir as consequências.

Os defensores do aquecimento global e das alterações climáticas ganharam em credibilidade com a mudança o que perderam em utilidade do alerta.

Outra coisa, de que não falei, é se o hipotético aquecimento global, ou as garantidas alterações climáticas, são determinados pela actividade humana e se podem, alterando mentalidades, evitar e, evitando-os, evitar também os perigos que colocam se forem hipótese reais? Daqui a 30 anos volto a este assunto.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:07
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Sábado, 31 de Março de 2018

E se a investigação criminal fosse concessionada a privados?

Isto são os restos mortais de um telemóvel que a minha mulher adorou e cuja história dava um filme.

2018-03-31 Nikia 8210 Isaura.jpg

É, ou era, uma vez que já faleceu há muitos anos, um Nokia 8210, um telemóvel tão pequenino, e na época a moda nos telemóveis era a miniaturização, como compacto e robusto, podia cair ao chão e saltarem-lhe as tampas e a bateria, que logo que se voltassem a juntar funcionava perfeitamente, e corria o software Nokia, que na época, para quem se interessava pela comparação das qualidades dos telemóveis, era o melhor.

O filme começou numa tarde em que deixou o telemóvel dentro do carro estacionado ao lado das Amoreiras e, quando regressou ao carro, tinha sido furtado pelo método da quebra isolada de vidros.

Telefonou-me para o escritório a noticiar a tragédia e eu tratei de imediato de iniciar uma investigação ao caso. O site da Vodafone, ela era cliente da Vodafone, disponibilizava muito rapidamente o registo das chamadas efectuadas, e fui consultar se o telefone tinha efectuado alguma chamada com o cartão dela depois de lhe ter sido roubado. Tinha duas para o mesmo número. Configurei o meu telefone para fazer uma chamada anónima e liguei para esse número. Atendeu-me uma voz feminina, mas não demasiado, que ao meu silêncio retorquiu dizendo "Caralho, ligam para uma gaja e não dizem nada!", após o que me dei por satisfeito com a informação recolhida e desliguei. Tinha percebido logo que não era gente de bem. Pelo que aconselhei a minha mulher a apresentar queixa na PSP incluindo a informação sobre as chamadas feitas pelo alegado gatuno, que ela fez prontamente.

Lá teve que se lhe comprar outro Nokia, já não me lembro qual, mas ela não teria aceitado outro de outra marca qualquer, e a vida continuou a correr.

Até que uns bons meses depois, talvez mais de um ano, recebemos a carta que esperávamos da PSP, a tradicional comunicação de que "por falta de prova o caso foi arquivado, bla bla bla, bla bla bla, bla bla bla...". Mas, surpreendentemente, a carta não dizia isso, mas que o telemóvel tinha sido recuperado e que podia ser levantado na Divisão de Investigação Criminal da esquadra da PSP não me lembro qual.

Por razões que já não me recordo fui com ela levantar o telemóvel recuperado, e questionei o agente que o devolveu, daqueles que não trabalham fardados mas andam de roupa normal a arriscar a segurança e mesmo a vida pela segurança dos cidadãos como eu, sobre o método que seguiam para conseguir encontrar telemóveis roubados, explicação que ele me deu:

  • Solicitavam às operadoras informação sobre com que cartão ou cartões de chamada andava a ser utilizado o aparelho identificado pelo respectivo IMEI.
  • Não sendo esses cartões de assinantes registados mas recarregáveis, solicitavam à SIBS que cartão ou cartões bancários andavam a ser utilizados para fazer carregamentos nesses cartões de chamada.
  • Finalmente solicitavam ao banco emissor desses cartões a identificação do titular da conta.

Nada de inexequível nem excessivamente complicado nem time consuming relativamente ao valor que a diligência permitia recuperar.

O filme não teve, no entanto, o final feliz que podem estar a imaginar. Apesar de adorar o telemóvel mais do que o sucessor ela não o conseguiu utilizar vindo soubesse-se lá de onde e usado por quem? sem pelo menos lhe mudar as capas, já não conseguimos encontrar à venda capas originais da Nokia mas apenas capas de marca branca e ajustamento sofrível numa loja do chinês, que são as que se vêem na fotografia, e aquela chama não foi imortal e apagou-se. Não o voltou a usar.

 

Ao longo do tempo mais telemóveis nos foram roubados, essencialmente aos filhos na fase da juventude em que já têm idade para exigir telemóvel mas ainda não têm corpo para dominar um assaltante ou um grupo deles, e cheguei a acompanhá-los à tal Divisão de Investigação Criminal e até à Polícia Judiciária para ver se conseguiam reconhecer os assaltantes naquelas cadernetas de cromos de assaltantes referenciados que a PJ tem, mas nunca mais nenhum foi recuperado. O postalzinho da PSP ou do Ministério Público passou a ser sempre o da ordem, "por falta de prova o caso foi arquivado, bla bla bla, bla bla bla, bla bla bla...".

E no entanto até teria sido simples recuperá-los, bastanto para tal a tramitação que me foi explicada e descrevi acima. Eu percebo que os orgãos de investigação criminal têm coisas mais importantes para resolver no tempo que têm disponível do que roubos de telemóveis a adolescentes, e nunca ambicionei que prescindissem de investigar um crime de violência doméstica ou de corrupção para recuperar um telemóvel aos meus filhos. Mas é um bocado frustante ter a noção que a recuperação teria sido possível e até simples, até porque a opção sistemática por não investigar um determinado tipo de crime constitui uma Via Verde para os criminosos, que assim o podem cometer com garantia de impunidade, enquanto ao contrário a percepção que determinado tipo de crime é regularmente resolvido constitui um poderoso desincentivo à sua prática. Do modo como as coisas ocorrem, era igual o código penal isentar explicitamente da definição de roubo o roubo de telemóveis.

E é tão mais frustante quanto eu mesmo, que nunca disparei uma arma de fogo nem frequentei cursos de andar à porrada nem fazer condução defensiva, em suma, seria uma desgraça como polícia, seria capaz de resolver estes crimes, solicitando às operadoras a informação sobre os cartões de chamadas usados no meu telemóvel, à SIBS sobre os cartões bancários usados para os recarregar, e ao banco emissor a identidade do titular.

Podia, mas elas não me responderiam. Porque só respondem aos orgãos de investigação criminal e a pedidos devidamente autorizados pelas autoridades judiciais. O monopólio do Estado na investigação criminal associado à opção legítima num contexto de escassez de meios dos orgãos de investigação de não investigarem determinado tipo de crimes menores resulta na impunidade garantida dos criminosos que os cometem.

E a investigação criminal poderia ser exercida por outros que não os orgãos de investigação criminal, por privados?

Os sindicatos diriam que não, que seria um atentado aos direitos dos cidadãos entregá-los nas mãos de privados incompetentes para assegurarem com qualidade o serviço público prestado pelos orgãos públicos de investigação criminal. No que teriam toda a razão, com a insignificante excepção dos casos em que os orgãos públicos optam por não prestar esse serviço e, quando não o prestam, mais ninguém o pode prestar.

Aquela esquerda que nos protege mesmo quando não lhe pedimos das terríveis ameaças aos nossos direitos civis constituídas pelas democracias liberais, a que compara a Espanha que deteve independentistas por desobediência a um tribunal à Turquia que dizima populações no Curdistão, também a que detesta a bófia para ir direito ao assunto, ou a videovigilância para dar um exemplo, diria que não por atentar contra o direito à privacidade e a mais alguns direitos dos gatunos.

Os dirigentes dos orgãos de investigação criminal e das magistraturas diriam que não, porque são eles que detêm o monopólio e prescindem de concorrência nos seus quintais.

E os ladrões, se lhes perguntassem, também diriam que não, mal por mal mais vale deixar sossegado.

Eu não me ralava nada mas, reconhecendo que estou em minoria absoluta, tenho que ter paciência. Não se fala mais nisso e fica o assunto resolvido!

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:32
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Sexta-feira, 30 de Março de 2018

Meter o nariz onde não se é chamado ou, o dinheiro não é do Estado, é deles.

A genética dotou-nos de uma tendência irresistível para metermos o nariz onde não somos chamados.

Desde tempos imemoriais que opinamos, à saída da igreja ou à mesa do café, sobre as mini-saias da paroquiana recém-separada, seja por maus motivos, a galdéria ao mostrar-se assim quer desencaminhar os maridos das outras, ou por bons, até que as pernas dela não são nada feias e a mini-saia fica-lhe bem, e todos sentimos a legitimidade e mesmo o dever de manifestar uma opinião, de tomar uma posição sobre o comprimento das saias que ela usa, de prescrever o que devia usar.

Com as redes sociais o alcance da nossa intervenção cívica tornou-se planetário, e passámos a discutir a cama, além da mesa, de presidentes e reis e a ditar-lhes as regras de conduta que lhes exigimos, na cama como à mesa.

Vem isto a propósito da comoção nacional que está a causar o caso do GPS, um grupo económico formado por um antigo deputado socialista para construir uma rede de colégios privados que conseguiu celebrar com o Ministério da Educação durante o mandato de um governo social-democrata e centrista vários contratos de associação para disponibilizar turmas à rede pública e, descobriu-se há anos em investigação jornalística e agora chegou finalmente à justiça, usou o dinheiro do Estado para proporcionar aos seus gestores hábitos de consumo somptuoso como carros de luxo, cruzeiros, passagens de ano, refeições e estadias em hotéis, bilhetes para o Mundial de Futebol, telemóveis, vinhos, cortinados e utensílios e mobiliário para casa, e até uma refeição para três pessoas onde foram consumidas trinta e seis garrafas de vinho. Para resumir sem entrar em detalhes.

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Um cabaz deste calibre de apetecíveis regalias proporcionadas pelo dinheiro do Estado, o nosso dinheiro, não poderia escapar à reprovação dos paroquianos à saída da missa, e depois à análise crítica à mesa do café.

Só que as comoções colectivas raramente acertam no alvo.

O dinheiro do Estado pago aos colégios com contratos de associação não é um subsídio, que obriga o subsidiado a cumprir uma série de requisitos legais para ser elegível para o receber. É o pagamento de um serviço, sendo o serviço a disponibilização por um preço fixado por lei de um determinado número de turmas de alunos da rede pública que as frequentam gratuitamente como se fossem escolas da rede pública.

Onde é que nós, enquanto cidadãos, temos uma palavra a dizer sobre este caso?

Temos uma palavra a dizer sobre a legalidade da celebração dos contratos. Temas como se os colégios do grupo reuniam os requisitos legais definidos para celebrar os contratos, ou se foram beneficiados na celebração por alguma discriminação por terem sido preferidos a outros colégios que nas mesmas condições tenham sido preteridos. Questões que certamente a justiça esclarecerá, mas que não têm a ver com a opulência que nos escandaliza.

Temos uma palavra a dizer sobre o cumprimento dos contratos. Temas como se as turmas contratadas abriram e funcionaram mesmo, se a qualidade do ensino prestado foi a exigida contratualmente, se os serviços pagos foram integralmente prestados. Questões que certamente a justiça esclarecerá, mas que não têm a ver com a opulência que nos escandaliza.

Mas não temos nenhuma palavra a dizer sobre o modo opulento como, uma vez prestado o serviço e recebido o pagamento, os gestores do grupo o gastam. O meu oftalmologista tem um Porsche 911 Turbo 4 de matrícula recente. E a senhora que durante mais de trinta anos fez a limpeza da escada aqui no prédio vinha de Audi A3 1.9 Tdi, e a que a veio substituir vem de Smart For Two. E o que é que eu tenho a ver com isso? Não tenho nada! Prestam-me os serviços que lhes encomendo nos termos que acordámos e ao preço que acordámos, eu pago-lhes, e a partir do momento em que lhes pago o dinheiro deixou de ser meu e passou a ser deles e têm toda a legitimidade para o gastarem como entendem. Qualquer interesse adicional meu pelo modo como eles o gastam é calhandrice.

Se os gestores du grupo GPS se apropriaram para benefício pessoal ou de familiares ou amigos de património das empresas que gerem, e neste caso apropriaram-se para além de qualquer dúvida razoável, cometeram actos de gestão danosa que prejudicaram, não a nós que estamos sentados à mesa do café a escandalizarmo-nos com a chico-espertice deles, mas às empresas do grupo e aos seus accionistas, que parecem não ter grandes queixas dos gestores até por serem os mesmos. Os prejuízos que causaram a essas empresas e aos seus accionistas serão certamente esclarecidos pela justiça, mas não são eles que nos indignam.

Se  beneficiaram de regalias atribuídas pelas empresas sem o benefício ter sido tributado nos termos da lei, e neste caso beneficiaram para além de qualquer dúvida razoável, é assunto para ocupar o fisco, mas a que eu pessoalmente não me sinto em condições de superioridade moral para atirar a primeira pedra por, durante muitos anos, além de ter beneficiado da atribuição de carros da empresa para uso pessoal, os ter adquirido no fim do período de atribuição a preços substancialmente inferiores aos preços que eles valiam sem este benefício me ter sido tributado até ao século XXI. Os prejuízos que causaram ao fisco, e portanto a nós, que o fisco não é gente nem tem prejuízos, ao beneficiarem de rendimentos em espécie sem os declarar serão certamente esclarecidos pela justiça, mas também não são eles que nos indignam.

O que nos indigna é a má utilização que fizeram de dinheiro do Estado.

Ora o dinheiro que gastaram não era do Estado, a menos que as duas primeiras questões que levantei sobre a legalidade e o cumprimentos dos contratos tenham respostas negativas, o que não há informação pública que indicie, quanto mais sustente, pelo que a expressão da nossa indignação nos pode aliviar do sentimento de indignação mas não tem justificação. Aquilo com que nos indignamos não é da nossa conta.

 

Resta que temos uma palavra a dizer sobre a ética e o bom senso dos governantes que aceitam lugares em entidades que tutelaram, nomeadamente relativamente às quais participaram na tomada de decisões. A mera aceitação faz deles presumíveis culpados a quem passa a caber o ónus da prova de que as decisões que tomaram foram legais e que a oferta de trabalho posterior resultou numa prestação de trabalho efectivo pago a preços razoáveis no mercado de trabalho e não foi uma recompensa pelas decisões que tinham tomado. Pelo que se têm ética não têm bom senso, e se tem bom senso não têm ética.

Resta outra, que este caso vai ser usado pelos detractores do Estado Social, que coloca à disposição dos cidadãos serviços essenciais independentemente da capacidade económica deles, os que o confundem com Estado Socialista, que produz obrigatoriamente os serviços que coloca à disposição dos cidadãos, independentemente de os produzir com mais eficiência e menos fardo para a economia e os contribuintes, ou com menos eficiência e com custos mais elevados para os contribuintes e menos sustentabilidade económica a prazo do que se fossem prestados por prestadores privados, que o vão usar como uma ilustração pretensamente significativa das burlas dos privados com o dinheiro do Estado que sustenta que o Estado não deve recorrer a prestadores de serviços de privados. Nem é significativa, nem é dinheiro do Estado, nem recomenda, mas é disto que o populismo vigente se vai alimentar nos próximos tempos. E se formos atrás dele somos nós que nos vamos acabar por lixar e, como sempre, só nos aperceberemos disso quando for tarde para o evitar.

Quando a cabeça não tem juízo a perna é que as vai pagar.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:45
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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

Mainstream "merdia" e fontes de informação fidedignas, ou falta de juízo é coisa que não falta

"Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed it has been said that democracy is the worst form of Government except for all those other forms that have been tried from time to time.…", disse um velho amigo meu em mais um dia em que se achou particularmente disposto a filosofar.

É tão estranho que a democracia, em que os votos de um velhaco ou o de um ignorante valem tanto como os de um santo ou de um sábio, todos vivem em liberdade e seja o que Deus quiser, seja menos má do que todos os outros sistemas políticos, que tendem a ser liderados por sábios santos e esclarecidos dedicados a promover o bem de todos e onde os inimigos do povo e do bem-estar são cuidadosamente neutralizados, como que a economia de mercado, em que os agentes económicos são movidos exclusivamente pelo egoismo e pela ganância do lucro, permita às suas vítimas usufruir, apesar da maldade deles, de prosperidade como nunca se viu no passado nem no presente, inclusivamente nos sistemas instituídos para oferecer o bem-estar e a prosperidade a todos, mesmo os que não são fundados num mero empirismo voluntarioso mas sempre falível mas num ramo da ciência económica, o Socialismo Científico. Mas a evidência empírica de uma e da outra é tão esmagadora que é preciso alguma dose de falta de juízo para não a reconhecer.

Mas falta de juízo é coisa que não falta.

E a democracia, para além de todos os defeitos estruturais inerentes à sua natureza, ainda tem outro circunstancial: uma grande permeabilidade à rejeição. Se outros sistemas políticos se dotam de meios para assegurar a sobrevivência, sempre baseados na gestão da informação, para evitar a disseminação de ideias subversivas, e na restrição da liberdade, para evitar a sua prática, é muito fácil derrubar uma democracia: basta convencer metade mais um dos eleitores a optarem por uma coisa diferente.

E falta de juízo é coisa que não falta.

A gestão da informação é pois um dos campos de batalha dos zangados com a democracia e no mundo da globalização mediática travam-se batalhas épicas e globais por ela e as armas mais letais usadas nesta guerra são as teorias da conspiração, historietas baseadas em algum fundo factual real que explicam as ligações entre os factos com base em relações especulativas que não são sempre plausíveis, algumas são até simplesmente delirantes, mas que encontram sempre crédulos prontos a acolhê-las como boas, principalmente se lhes confirmarem receios ou convicções prévias.

Um exemplo ilustrativo de uma boa teoria da conspiração é a denúncia recente por um whistleblower da actividade da empresa privada Cambridge Analytica que, com base em grandes volumes de informação que lhe foram facultados pelo Facebook pensando que se destinavam a fins académicos, oferecia serviços comerciais de manipulação de resultados de eleições através da colocação cuidadosa de mensagens cientificamente geradas e dirigidas para condicionar a opinião de cada eleitor.

O conceito reune todos os factores críticos para constituir uma formidável teoria da conspiração: é revelado por um informador interno, tem escala global, tem poderes assustadores, tem interesses ocultos e passa a mensagem que a democracia é incapaz de representar a vontade do povo porque apenas representa o que lhe foi inoculado pelos seus manipuladores. E, acima de tudo, dá vontade de acreditar nela: os assessores do candidato populista que ganhou as eleições alegadamente graças a esta manipulação dos eleitores por a iniciativa fazer deles assessores geniais com um valor de mercado superlativo, os eleitores populistas que o elegeram pela superioridade na acção do populismo sobre a superioridade moral democracia que representa ganhar eleições manipulando eleitores, e os que perderam as eleições pelo conforto de as terem perdido, não por não as merecerem ganhar, mas porque o candidato que não merecia as ganhou à custa de batota.

Até eu tenho vontade de acreditar na teoria. Falta-me apenas acreditar que de facto os eleitores que elegeram o candidato populista decidiram o seu voto por terem sido cientificamente manipulados, manipulados são sempre os eleitores e é exactamente para oferecer uma oportunidade de os manipular fazendo acreditar no que os candidatos insinuam que há campanhas eleitorais, e não por a candidata incumbente ter, ao longo da campanha eleitoral e até ao fim, tido a postura demasiado confiante que lhe sugeriam as sondagens que lhe previam uma vitória folgada e menos esfoçada que o concorrente que, pelo mesmo motivo, lutou mais, e até ao fim? Estou até longe de acreditar que foi a Cambridge Analytica que deu a vitória ao candidato vencedor e que sem ela ele teria perdido. Ganhou porque se esforçou mais por ser o número dois na corrida.

Mas o facto de eu não acreditar não tira mérito a esta teoria da conspiração pela conjugação de factores que enumerei.

Regressando às guerras pela gestão da informação, um dos modos mais usados para aumentar a permeabilidade do público às teorias da conspiração é criar canais de comunicação alternativos à comunicação social instituída para as divulgar, simples blogues ou mesmo sites noticiosos com organização e estética semelhantes aos dos sites dos orgãos de comunicação social, e desacreditar esta para evitar que a informação fornecida pelos meios tradicionais lhe dê bases para duvidar delas. Os alt-media contra a mainstream media, na terminologia dos activistas dos primeiros, ou maistream merdia, feliz trocadilho que a língua portuguesa lhes ofereceu para clarificarem melhor o sentido das suas ideias.

Abrindo de novo um parêntesis pessoal, a informação veiculada pelos meios de comunição tradicional deve ser cuidadosamente interpretada. Há jornais com agendas políticas institucionais e há jornalistas com agendas políticas pessoais, nem todas coincidentes, mesmo quando se verificam tendências maioritárias, e todas as notícias podem ser objecto de alguma manipulação no sentido de, a partir dos factos que normalmente são reais, retirar interpretações e conclusões que são determinadas, não por eles, mas pela agenda política do jornal ou do jornalista. Cuidados básicos para não se deixar enganar por esta frequente tentativa de manipulação são, por exemplo, ter alguma cultura de base e sensibilidade à plausibilidade ou implausibilidade dos factos, verificar se os factos apresentados numa notícia são confirmados por notícias noutros jornais, se o título reflecte a informação contida no corpo da notícia ou se não passa de uma mensagem ideológica para enganar quem lê apenas os títulos, se comparativamente com toda a informação disponibilizada pelos outros jornais há uma filtragem de informação para sustentar aparentemente a mensagem que o jornalista pretende fazer passar. Em resumo, googlar abundantemente e pensar um bocadinho. Mas onde os mainstream media podem ter agendas políticas que recomendam cuidado na interpretação da informação que veiculam, os alt-media não passam de agendas politicas. O Breitbart tem exactamente as mesmas finalidades que o esquerda ponto net ou do Avante, que não são as mesmas do Diário de Notícias ou da Bola.

Regressando de novo ao tema, há estratégias mais eficazes do que outras para desacreditar os mainstream media. Uma alternativa laboriosa é pegar em notícias específicas e explicar detalhadamente como são manipuladas para enganar os leitores. É a estratégia bottom-up. Uma alternativa mais económica é convencer os leitores que tudo o que é noticiado por um jornal é falso. A estratégia top-down. É muito mais económica e em públicos reverentes e acríticos é possível conseguir resultados, e o exemplo mais acabado de sucesso neste exercício é a multidão que se recusa a acreditar em qualquer notícia do Correio da Manhã e toma por ignorante, por lumpen do leitor de jornais, qualquer leitor que não tenha a convicção que nesse jornal de massas é tudo falso.

Neste contexto das guerras pela gestão de informação todos os mainstream media são apontados como falsos, e o argumento mais forte para o demonstrar é que se recusam a noticiar as notícias que os alt-media noticiam e que provam a acentuada degeneração da democracia, ou do sistema, e recusam-se a noticiá-las para esconder a verdade aos leitores. Por mais que se folheiem os prestigiados Expresso ou Público, ou até o infecto Correio da Manhã, não se encontram as notícias da guerra civil que está a destruir a Escandinávia, nem das violações em massa de meninas alemãs por refugiados muçulmanos, nem da remoção das iluminações de Natal ou da imposição de ementas halal a todos os meninos das escolas andaluzas por exigência dos muçumanos. No limite informam-nos que a Junta de Freguesia de Belém tem optado por não instalar iluminações de Natal, mas dão-nos o falso pretexto de o fazer para desviar o dinheiro que elas custariam para iniciativas de solidariedade social. São temas censurados. Pior. Se temos amigos que foram recentemente à Escandinávia e lhes perguntamos pela guerra civil, dizem não a viram. Sabemos bem que é por as suas deslocações internas terem sido acompanhadas por controleiros que evitaram cuidadosamente que fossem aos campos de batalha, mas eles nem deram por isso e pensam que andaram livremente por onde queriam. Pobres inocentes. Andam-lhes, e andam-nos, a esconder a realidade.

Já os alt-media informam-nos diariamente destas realidades que os mainstream media nos escondem. Todos escondem? Todos. Com excepção dos russos, que furam este embargo para nos darem a conhecer o que se passa no mundo. Russia Today, Agência Sputnik, as sucessoras das velhas RIA Novosti e Voz da Rússia, são os únicos media tradicionais em que podemos confiar, os únicos que aceitam denunciar o demoronamento iminente do sistema.

Ora se acreditar em tudo o que os jornais dizem é demasiado crédulo e acrítico, não acreditar em nada é um bocado esquizofrénico. Uma amiga do Facebook, uma das pessoas mais informadas e lúcidas que não conheço, escreveu recentemente que as pessoas que acreditam nos boatos mais delirantes são também as que se recusam a acreditar em qualquer notícia de jornal, e que quanto mais da primeira, mais da segunda.

Esquizofrénico, delirante, já estou a insultar os activistas e os consumidores dos alt-media, e injustamente, como passo a provar com um caso exemplar.

2018-03-28 Karen Hudes RT.png

Durante a crise dos mercados financeiros a Russia Today conseguiu desencantar uma whistleblower no Banco Mundial, a grande instituição no coração do sistema financeiro mundial, uma dirigente que tinha sido despedida da instituição por denunciar escândalos de corrupção e que explicou que a crise financeira global tinha sido propositadamente desencadeada pela elite financeira que domina o mundo para obter ganhos que ela explica, e escuso-me a repeti-la passando a convidar os leitores a ouvi-lo da boca dela. 

A revelação do Russia Today abalou o mundo de uma maneira geral, e Portugal em particular por ter sido uma das vítimas desta conspiração financeira de elite mundial, e mesmo a referência de objectividade e rigor informativo que constitui o esquerda ponto net não deixou de dar voz a esta denúncia que mostrava preto no branco a origem da crise e o fundamento mais forte para renegarmos a dívida, reforçando a doutrina preconizada pelo célebre coordenador da ONU, o professor Artur Baptista da Silva, no Expresso do jornalista Nicolau Santos.

Além de denunciar a conspiração financeira, a whistleblower Karen Hudes explicou também o motivo pelo qual ela era escondida do mundo: as mentiras dos mainstream media que são dominados pela mesma elite que domina o mundo financeiro.

Mas Karen Hudes não se ficou por aqui. Talvez por se sentir inebriada pela projecção mediática que lhe estava a ser proporcionada depois de ter sido afastada e silenciada pelo Banco Mundial encheu-se de coragem e também denunciou que quem está na origem de todas as conspirações é uma second species de humanóides de origem extra-terrestre dotados de alta inteligência, baixa competência para as artes, e crânios oblongos que dominam o Vaticano, tese que se pode provar observando a forma oblonga das mitras ou das tiaras papais, os Jesuítas e ... o Banco Mundial!

Sim, a crise financeira foi provocada pelos extra-terrestres que dominam o Banco Mundial.

Pelo que, tendo ficado provado que qualquer insinuação de falta de juízo a quem renega os meios tradicionais e se informa pelos meios alternativos é injusta, encerro esta publicação a apresentar-lhes as mais sentidas desculpas por qualquer coisinha.

Eppur, falta de juízo é coisa que não falta.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:34
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