Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

Roleta russa

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O Brasil tem mais de 11 mil médicos cubanos que, como é habitual, não são contratados individualmente mas através de um protocolo celebrado com o governo cubano, o programa "Mais Médicos" , e com direitos laborais e sociais limitados pelo seu patrão, o governo cubano que, entre outras condições contratuais, lhes paga um salário várias vezes inferior aos honorários que recebe do governo brasileiro pelo serviço que eles prestam e lhes limita, nomeadamente, a liberdade de movimentos, e a das suas famílias. É a gestão socialista dos recursos humanos, assunto que considero fascinante por vários motivos e constituiu mesmo o tema do primeiro texto que publiquei neste blogue.

O programa "Mais Médicos"  foi lançado pelo governo brasileiro Dilma em 2013 acompanhado de uma intensa campanha de propaganda mediática a título de fazer chegar a assistência médica a populações desfavorecidas em regiões remotas para onde era difícil recrutar médicos brasileiros, incluindo reportagens apoteóticas à chegada do contingente de médicos cubanos a cada aeroporto brasileiro. E alguma utilidade tem para além do fogo-de-vista mediático, por ter feito chegar médicos a zonas efectivamente desprovidas deles.

É aliás semelhante a um protocolo celebrado com muito menos circo mediático entre o governo português Sócrates e o governo cubano em 2009 para acolher médicos cubanos em Portugal, também para colocar em zonas onde de facto era e é difícil recrutar médicos portugueses, que actualmente abrange umas dezenas de médicos, perto de cem. E também sujeitos a condições salariais e sociais típicas de um regime socialista, recebendo de salário poucas centenas de euros dos mais de quatro mil que o governo cubano cobra por cada um, para além das despesas de alojamento suportadas pelas autarquias, e sendo cada grupo de quatro médicos coordenado por um chefe de missão cuja função primordial é a vigilância dos restantes membros. A sua presença em Portugal foi essencialmente contestada pela Ordem dos Médicos que, numa reacção corporativa típica e expectável, alegava que eles estavam sujeitos a um regime de quase-escravatura, a preocupação com o bem-estar dos outros é sempre a primeira que se deve evidenciar quando se fazem reivindicações corporativas populistas, e que se pagasse a médicos portugueses quatro mil euros por mês o governo conseguiria recrutá-los para essas regiões, a verdadeira motivação para a sua reacção.

Um dos sinais distintivos dos populismos é o recurso sistemático a medidas simbólicas, mais motivadas pela mensagem que fazem passar, e quanto mais facilmente passa a mensagem mais eficazes são, do que pela eficácia social, que no limite até pode ser contrária à intenção declarada. Foi para isso, para dar um exemplo, que o BE apresentou logo no primeiro dia desta legislatura em que a esquerda recuperou a maioria parlamentar que não tinha desde 2011 a proposta de eliminar a taxa moderadora para o aborto, cujo efeito prático é nulo, por a taxa ter nessa altura um valor meramente simbólico de 7,50€ e apenas abranger a minoria de cidadãos com rendimentos que não os isentam de taxas moderadoras, mas que serviu para o BE sinalizar que agora quem manda aqui somos nós.

No Brasil o governo mudou e o novo presidente também tem a preocupação de recorrer a medidas de forte carga simbólica, no caso dele anti-comunista, para mostrar que o tempo do petismo acabou e que quem manda ali é ele.

E uma das medidas que elegeu para exibir este simbolismo foi o programa "Mais Médicos". Que, aliás, é uma escolha feliz no domínio da carga simbólica, por ser uma medida do governo Dilma e por envolver o regime cubano.

Além de manifestar, ou de dar voz a manifestações de, dúvidas àcerca das qualificações profissionais dos médicos cubanos, que no Brasil, ao contrário de Portugal, não são obrigados a fazer um exame na Ordem dos Médicos para ficarem habilitados para o exercício da Medicina, também denunciou as condições laborais a que estão sujeitos pelo governo cubano. E a pretexto de garantir a qualidade do serviço prestado por eles e de exigir para eles direitos laborais e sociais que não têm, o presidente Bolsonaro anunciou que vai reformular o programa para passar a exigir que os médicos cubanos façam um exame para poderem exercer Medicina no Brasil e vejam os seus direitos laborais e sociais ampliados, recebendo por inteiro o salário pago pelo governo brasileiro e tendo liberdade para trazerem as suas famílias para o Brasil. Nada de radicalmente diferente do que foi reivindicado em Portugal pelo Bastonário da Ordem dos Médicos, e certamente com a mesma preocupação pelos direitos deles e pelo bem-estar dos seus utentes.

Às ameaças anunciadas de imposição de alterações ao protocolo o governo cubano respondeu declarando-as inaceitáveis e ameaçando por sua vez rescindi-lo e fazer regressar os médicos a Cuba.

E à ameaça do governo cubano de fazer regressar os médicos a Cuba o presidente Bolsonaro respondeu com a promessa de acolher como refugiados todos os que queiram ficar no Brasil.

E é nisto que se está.

Sendo que, se desta circunstância resultar uma grande parte dos médicos cubanos aceitar o acolhimento no Brasil como refugiado, não haverá uma disrupção no serviço que prestam às populações em áreas carenciadas de assistência médica e o presidente Bolsonaro terá uma vitória política de monta, nomeadamente no domínio simbólico da luta contra o comunismo no continente americano, sem penalizar os utentes.

Se a maioria dos médicos obedecer à ordem do seu governo de regressar a Cuba, por motivos que só cada um poderá conhecer mas pode haver vários plausíveis, nomeadamente o bem-estar e a segurança das suas famílias que ficam em Cuba, poderá haver uma disrupção na prestação dos serviços de saúde que poderá ser dramática para as populações servidas por eles, mas o presidente terá uma saída airosa alegando, como já alegou, que foi o governo cubano, comunista, a rescindir unilateralmente o protocolo, ou seja, que abandonou estas populações.

Para o presidente Bolsonaro poderá ser uma grande vitória ou uma pequena vitória. Para as populações servidas pelos médicos cubanos poderá ser um pequeno contratempo ou um grande drama.

Tem todos os ingredientes de uma roleta russa.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:24
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

Sentados no muro

Há hoje uma doença, que afecta comentadores, políticos e articulistas tidos como de direita, que consiste na mania de ficarem em cima do muro do centrismo. Nota-se em relação, por exemplo, às causas fracturantes, ao feminismo na versão MeToo, como a Trump, Bolsonaro e a certos políticos neonacionalistas da antiga Europa comunista.

 

O muro está muito sobrecarregado. E quem o ocupa está lá porque, julga, vê melhor para os dois lados. Mas deveria lembrar-se que do muro pode cair-se; e do chão não.

 

Este equilibrismo decorre do horror a ser considerado fascista, ou extremista, ou reaccionário. Ou seja, decorre da chantagem da esquerda, que há décadas detém o monopólio das classificações do opróbrio, das quais porém exclui a mais infamante de todas, que seria o ser tachado de comunista, se a história da doutrina e das suas realizações pretéritas e presentes fosse bem conhecida.

 

Mas há mais: todo o discurso de esquerda repousa na ideia da superioridade moral, vertida nos anseios pela igualdade (como se outra que não a perante a lei não desse necessariamente origem a violências, esbulhos e exacções), pela justiça social (interpretada como se toda a diferença material, conquistada ou herdada, fosse ilegítima), pela engenharia de costumes (como se toda a tradição devesse ceder o passo às crenças das franjas mais inovadoras da sociedade, portadoras do facho da modernidade) e pelo determinismo histórico (a história tem um sentido, e esse é o da superação do capitalismo, não para algo que ainda se não conheça, mas para fórmulas que se conhecem bem demais).

 

Isto é tudo evidente, para quem não tenha a cabeça feita pela propaganda sufocante do bem-pensismo. Não é tão evidente o peso das relações pessoais: à força de conviver e debater com comunistas e bloquistas, que enquanto pessoas não são melhores nem piores do que as com ideias decentes, acaba-se por achar que uns e outros são adversários como quaisquer outros. Não são: comunistas e bloquistas defendem, com graus diferentes de hipocrisia (esta decorre de se apresentarem sempre como querendo melhorar o capitalismo, que todavia querem destruir), modelos alternativos de sociedade. E nestes não cabem os que estejam dispostos a resistir, o que faz com que, objectivamente, comunistas e bloquistas sejam inimigos dos democratas, não adversários. Pessoalmente, conto com alguns espécimes de quem sou sinceramente amigo, mas sem ilusões: na minha sociedade eles têm lugar; na deles eu não teria.

 

A forma temporária de que hoje se reveste o progresso esquerdista é o reforço dos poderes do Estado e o aumento do esbulho fiscal. As duas tendências vão na mesma direcção: é preciso que a sobrevivência fora do Estado, e sobretudo contra ele (isto é, contra quem o representa) não seja possível; e é necessário que ninguém acumule recursos que lhe permitam investir ou que só o possa fazer se puder contar com a benevolência dos poderes públicos.

 

É por este conjunto de razões que as taxas de IRS, para rendimentos que nem sequer podem ser considerados altos senão por comparação com a modéstia generalizada, se aproximam de 50%; que a maior parte dos contribuintes nada paga a este título; que do remanescente qualquer consumo origina 23% de imposto; que certos impostos, como o IRS ou o IVA, são pagos ou adiantadamente ou sem nenhum facto tributário real que lhes subjaza; que para certos bens, todavia essenciais à actividade económica, como os combustíveis, o imposto anda pelos 60%; que existe uma gigantesca floresta de taxas sem qualquer relação com o serviço que teoricamente remuneram; que as multas para um extenso e crescente catálogo de infracções são demenciais; que se  falsifica a relação entre o cidadão e o Estado pelo expediente de fazer crer que são as empresas que pagam a maior parte da segurança social (não são, ficariam exactamente na mesma se essa responsabilidade fosse do trabalhador, com os salários aumentados em igual montante ao que resulta da taxa da responsabilidade do empregador); e que o sistema fiscal é uma absurda moxinifada só inteligível a especialistas, e às vezes nem a estes dada a instabilidade e diarreia legislativas, com a única constante de os impostos aumentarem sempre em valor e ocasionalmente diminuírem em relação ao PIB, até ao dia em que este se retrai por uma qualquer crise, caso em que a punção fiscal passa para um novo patamar.

 

É aqui, na evolução do papel do Estado, que entronca o enriquecimento ilícito (agora crismado de “injustificado”). Este é um velho cavalo de batalha de toda a esquerda e toda a direita envergonhada: quem é que ousará dar a impressão, por causa de esquisitices ligadas a conceitos jurídicos e civilizacionais que poucos entendem, de defender o enriquecimento “injustificado”?

 

Ninguém defende. E todavia, o problema não é, nem nunca foi, o de defender ilícitos, é o de saber a quem incumbe prová-los.

 

Ninguém tem dúvidas que se um indivíduo for acusado de um dos crimes da extensa lista do Código Penal, ou legislação avulsa, quem acusa tem de provar. Teoricamente, o acusado pode até fechar a matraca que nem por isso o crime se dá como automaticamente provado.

 

O Tribunal Constitucional acha que com o enriquecimento injustificado o problema não é diferente, em acórdão cuja leitura não recomendo, dada a extensão e a prolixidade pedante. Acha bem, a meu ver. Todavia, há quem assim não entenda e, ó surpresa, é um corifeu do comentariado de direita. E então, que diz João Miguel Tavares?

 

Começa por afirmar que “os senhores deputados estão tão interessados em reforçar a transparência como eu estou em arrancar os dentes do siso”, e isto porque “está prometido um novo código de conduta dos deputados, regras mais apertadas quanto à exclusividade de funções e a regulação do lobbying”, e esses preciosos diplomas não há maneira de saírem.

 

A Tavares, que opina sob o signo do simplismo, não ocorre que tais matérias não sejam fáceis, desde logo porque a exclusividade, se levada ao extremo, pode convir ao PCP, cujos deputados são funcionários do Partido, e cujos lugares estão na disponibilidade da direcção, mas se aplicada aos outros não fará mais do que estreitar o leque dos potenciais candidatos a deputados. Nem toda a gente estará interessada em suspender as suas carreiras para se dedicar ao trabalho parlamentar, a troco de uma remuneração que não é competitiva com o que ganham muitas pessoas capazes e bem sucedidas, e isto durante anos, para no final voltar ao ponto em que estava, como se o mundo e o mercado estivessem em suspenso, à espera do regresso.

 

De resto, o mesmo comentador já se terá por certo queixado da falta de ligação à vida real de muitos deputados e do carreirismo de outros, porque é o que toda a gente diz, com o cenho franzido de preocupação e o dedo acusador espetado, contando com aguerrido e indignado apoio nas redes sociais. A exclusividade melhora esses aspectos? Não, e pelo contrário reforçaria o stock de advogados, funcionários públicos, professores com vínculo e jotinhas.

 

Quanto à regulação do lobbying, ela não se aplica, que eu saiba, a deputados, que já estão impedidos de o praticar. A menos que o conceito abranja a defesa de certas empresas, actividades, organismos e regiões, caso em que eu temeria pelo futuro do queijo limiano e da CGTP.

 

O lobbying será regulado, sim. E a regulação será inteiramente inútil, na minha opinião, porque com as nossas tradições em matéria de cunhas, na versão soft, e de tráfico de influências, na hard, a única maneira de combater a corrupção é diminuir o peso do Estado regulador e empreendedor. Isso vai suceder com governos de esquerda? Não, absolutamente. E com governos de direita? Sim, um poucochinho.

 

Aqui chegamos ao prato de resistência, assim: “E, no entanto, poucas coisas são tão importantes quanto a criminalização do enriquecimento injustificado, reclamada por quase todos os sectores da Justiça, com a excepção (óbvia) da Ordem dos Advogados. É verdade que o Tribunal Constitucional chumbou as propostas anteriores devido à inversão do ónus da prova, já que o crime era (erradamente) aplicável a qualquer cidadão. Mas o Parlamento pode ultrapassar essa objecção se  centrar o crime na falta de veracidade das declarações de património e rendimento, obrigatórias para titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos”.

 

O chumbo do TC não ficou a dever-se à aplicabilidade da inversão do ónus a todos os cidadãos, mas sim ao facto de anular a presunção de inocência, que é um princípio estruturante do nosso direito penal. A excepção, “óbvia”, da Ordem dos Advogados, a Tavares não faz impressão, mas faz-me a mim. Porque são os advogados quem defende os cidadãos injustamente acusados, não as polícias, nem as magistraturas, nem a opinião pública, nem as redes sociais, nem os Tavares deste mundo.

 

Acresce que, com geral satisfação da parte invejosa, igualitarista e justicialista da sociedade, já existe essa inversão no domínio do Direito Fiscal. E saberá Tavares que ao abrigo dela se acusam empresários cujas vidas são destruídas enquanto os processos se arrastam em tribunal até à eternidade, que nem sempre se pode sequer aceder à Justiça porque para isso é necessário pagar ou apresentar garantias, que os funcionários interpretam abusivamente disposições legais para alargarem os seus poderes enquanto são premiados porque o abuso é elogiado e as acusações delirantes incentivadas?

 

Tavares não sabe. Eu sei. E sei também que provar o acusado que não fez isto e aquilo é com frequência ainda mais difícil do que a prova do acusador. E que a verdadeira razão porque o desastre da inversão do ónus da prova não chegou à opinião pública é que o empresário não quer, porque isso lhe diminui o crédito, que se saiba do que é acusado; os trabalhadores não sabem, porque a informação apenas lhes causaria ansiedade; os advogados não têm interesse em divulgar porque isso iria prejudicar o seu cliente, nem outra maneira de reagir que não seja o caminho deliberadamente eriçado de escolhos da impugnação ou recurso; os juristas mais cínicos porque a legislação abstrusa, obtusa e abusadora lhes aumenta a clientela; os católicos, que são mais ou menos quase toda a gente, porque acreditam que de toda a maneira é mais difícil entrar um rico no reino dos céus do que passar um camelo pelo buraco de uma agulha; e os comunistas e primos sortidos porque acreditam ou fingem acreditar, e disso convenceram toda a gente, que empresário quer dizer gatuno – salvo prova em contrário que o próprio tem de fazer. E todos, como é normal quando o Estado se transformou num monstro iníquo, porque acreditam que os problemas apenas acontecem aos outros – a eles não porque são virtuosos.

 

Fecha Tavares com um tropo grandiloquente: “Mas o Parlamento pode ultrapassar essa objecção se centrar o crime na falta de veracidade das declarações de património e rendimento, obrigatórias para titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos. As próprias Nações Unidas têm alertado para a necessidade de criminalizar o enriquecimento injustificado, e qualquer pessoa compreende que existe uma desproporção gigantesca entre a facilidade com que um político inocente comprova a licitude dos seus rendimentos ao Ministério Público e a dificuldade que o Ministério Público tem em comprovar a ilicitude dos rendimentos de um político corrupto”.

 

Ponhamos de lado a invocação disparatada das Nações Unidas, uma associação escrava das suas maiorias de Estados anti-democráticos, retrógrados e terceiro-mundistas, liderada nominalmente por um papa-açorda e coio de organizações enxeridas, corruptas e lunáticas. Quer Tavares que as diferenças entre as declarações de património e rendimentos no início e no fim dos mandatos, ou periodicamente, sejam fiscalizadas exaustivamente por um organismo especializado (por exemplo o Tribunal de Contas, desde que provido dos meios materiais e humanos) e que, nesse contexto, e para esse grupo delimitado de pessoas detentoras de imperium, possa exigir a inversão do ónus de prova quando haja manifesta evolução desproporcionada?

 

Nada a opor. Mas não é disso que Tavares, singelamente, está a falar. O que quer é, batendo no peito assumidamente de direita, poder pertencer orgulhosamente à parte dela dita civilizada, que é a que a esquerda tolera. Fazia melhor em dar uma vista de olhos ao que, já em 2009, dizia Francisco José Viegas, num texto hoje em parte desactualizado por entretanto a gente que está sentada em cima do muro a que me referia acima ter consentido no avanço aparentemente imparável do combate à evasão fiscal, e da justiça social, e da equidade, e de todos os outros bolos com que se enganam tolos.

publicado por José Meireles Graça às 17:26
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018

Para acabar de uma vez por todas com os ricos.

2018-11-12 Caetano Veloso Paris.jpg

Acabados de ressuscitar e chegados directamente da caverna onde hibernavam desde os tempos da revolução dos capitães em que o Otelo queria acabar com os ricos, ao contrário do Olof Palme que queria acabar com os pobres, uns assanhados que defendem a revolução do capitão contra todos os inimigos andaram a espirrar nas redes sociais ódio ao cantor Caetano Veloso porque quando vai a Paris se hospeda num hotel e come foie-gras, sugerindo-lhe que para ser coerente "devia partilhar a riqueza com os pobres que defende".

Sendo que, com uma carreira profissional de sucesso em que ao longo de mais de 50 anos vendeu milhões de discos e actuou em milhares de concertos, o Caetano Veloso é um homem bastante rico.

E que "defender os pobres" não significa neste caso defender a revolução comunista, a expropriação colectiva dos meios de produção e a ditadura do proletariado, que nunca se lhe ouviu defender, não significa sequer "odiar os ricos", que nunca se lhe viu odiar, mas apenas não ter aderido à revolução do capitão Bolsonaro. Ser um reaccionário.

E não terá aderido, e aqui só posso especular, talvez por ter sido preso político e exilado da ditadura militar que o capitão Bolsonaro louvou genericamente e criticou especificamente por ter torturado e matado menos do que devia? Não sei dizer, mas parece-me um motivo atendível para ele considerar o capitão uma besta sem sentir necessidade de perder algum tempo a documentar-se sobre os discursos recentes e o programa eleitoral dele para perceber bem se é mais autoritário ou mais liberal.

Em todo o caso, a má notícia para estes comunistas ressuscitados é que no Brasil, como em Portugal, já há redistribuição de riqueza, através da fiscalidade, que apesar de ser governado por socialistas há 15 anos a taxa máxima do imposto sobre o rendimento, de 27,5%, é bastante moderada comparativamente com as da generalidade dos outros países, mesmo os capitalistas, e que há poucas esperanças de conseguirem redistribuir toda a riqueza dele sem primeiro levarem a cabo com sucesso uma revolução mais socialista do que a que levou a cabo o Partido dos Trabalhadores ao longo dos últimos 15 anos. No máximo podem ambicionar a que o novo governo aumente as taxas máximas de imposto para lhe ficar com metade, ou mais, do rendimento que aufere.

Como prémio de consolação deixo-lhes uma canção do Caetano Veloso. A obra dele, pelo menos, podem-na partilhar, ao contrário da riqueza acumulada, que tem dono.

 

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 08:56
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018

Banco de estiramento IV

Exmo. Senhor Anónimo:

 

Notei a V/ carta de 23 de Outubro pºpº, recebida anteontem, sobre o assunto em epígrafe [Necessidade de actualização do Comprovativo de Identidade e Assinatura].

.

 

VV. Exªs têm o desplante de me notificar para comparecer num dos vossos balcões/lojas para o efeito de exibir o meu Cartão de Cidadão, que “se encontra expirado”. Ou seja, acham normal que vá perder tempo e dinheiro a um dos vossos estabelecimentos para o efeito de cumprir uma exigência meramente burocrática, ao abrigo de um diploma legal, a Lei 83/2017, cuja disposição pertinente não invocam (nem poderiam, tal disposição não existe).

 

Não se encontra o Cartão em apreço caducado, porque foi tempestivamente renovado. E do facto dei em devido tempo, porque me foi pedido, informação, esclarecendo que o número permanecia o mesmo. Acrescento agora que a minha assinatura continua igual, porque não fui entretanto vítima de qualquer acidente de índole vascular ou outra que me tivesse alterado a escrita, e que eu próprio guardo as feições com que tenho vivido desde a primeira e todas as várias vezes que perdi tempo com inutilidades no vosso balcão de Fafe.

 

Fui ler a lei que referem (em diagonal, que tem 191 artigos que só por si terão feito o ganha-pão de milhares de burocratas e parasitas sortidos), que se destina a combater o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo (o que bastava para considerar grotesca e até insultuosa a invocação de uma tal lei para me obrigar  a incomodar-me para exibir um documento a um funcionário cujo tempo decerto poderia ser destinado a actividades mais úteis), e apenas encontrei um artº, o 23º, que remotamente poderiam invocar, quando reza, na alínea d): “Existam dúvidas sobre a veracidade ou a adequação dos dados de identificação dos clientes previamente obtidos”.

 

Claro que VV. Exªs não têm dúvidas, nem razão para a as ter, apenas inventaram uma maneira cómoda para os vossos serviços, e incómoda para os clientes, de passarem a imagem, imagino que para a entidade de supervisão, de grande empenho no referido combate.

 

Mas como pudicamente solicitam que que me desloque a um vosso balcão, mas logo a seguir formulam ameaças, e portanto o que estão a fazer é exigir, informo o seguinte:

 

Estou disponível, em qualquer dia e hora, para receber um funcionário vosso, na minha residência ou no meu local de trabalho, para lhe exibir o meu Cartão de Cidadão actual, exactamente igual ao anterior que serviu para abertura da conta, salvo na data de validade, que é agora 25/09/2022.

 

Recebam VV. Exªs, como habitual, de cumprimentos, quanto baste.

 

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça.

CC nº xxxxxxxx

Contribuinte nº xxxxxxxxx

Travessa xx xxxx xxxxx, nº xxx, xxxx-xxx Guimarães.

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publicado por José Meireles Graça às 19:26
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2018

Clonagem do boato

2018-11-05 O boato é a arma da reacção.jpg

O Blasfémias, um dos melhores blogues portugueses, abriu uma secção Alt-Right com uma linguagem panfletária e uma relação aberta com os factos que não é habitual nos outros participantes do blogue.

Um dos artigos publicados recentemente a propósito das eleições brasileiras continha a frase "...Endeusaram Haddad, um bandido com mais de 100 processos judiciais activos por corrupção e branqueamento de capitais..." que me suscitou, mais pela quantidade do que pela qualidade, alguma curiosidade. Curiosidade neste contexto significa duvidar da veracidade de alguma coisa que pareça boa demais para ser verdade ao seu público alvo, entenda-se, e provavelmente má demais para ser verdade a outros públicos adversos a este.

De modo que encetei um diálogo com a autora do artigo para a questionar sobre a veracidade desta estatística, perguntando-lhe se era capaz de enumerar os mais de 100 processos a que se tinha referido.

Ela simpaticamente disponibilizou-me um link para o resultado de uma pesquisa pelo nome "Fernando Haddad" no Portal de Serviços do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que de facto devolve uma lista de 118 processos.

Mas depois de dar uma vista de olhos pela lista verifiquei que, além de Fernando Haddad, que é o nome completo do candidato às eleições presidenciais do Brasil citado no artigo do blogue, também continha processos relativos a outros nomes como Rui Fernando Haddad, Fernando Nami Haddad, Luiz Fernando Haddad, Fernando Bittencourt Haddad, Antonio Fernando Haddad Marques, Fernando Haddad Garcia, Fernando Azzi Haddad, Fernando Paro Haddad, Jose Fernando Cherubini Haddad, Fernando Haddad Favero, José Fernando Haddad, Jose Fernando Haddad Ferreira, Fernando Antonio Haddad, Fernando Jorge Haddad, Fernando Ferreira Addad, Fernando Luiz Haddad e Fernando Haddad de Lima.

O motivo é simples, e não é preciso ter ensinado Bases de Dados numa universidade no milénio passado para o compreender. A pesquisa por "Fernando Haddad" devolve todos os registos que contêm "Fernando Haddad" no campo pesquisado, e não apenas os que contêm apenas "Fernando Haddad". Neste caso até se dá o caso de ser possível pesquisar no portal os processos que referem apenas Fernando Haddad, assinalando a opção de pesquisa "Pesquisar por nome completo", e o resultado fica limitado a 28 processos.

Chamei à autora a atenção para este facto  e ela prontificou-se a corrigir o erro factual no artigo.

E também me explicou onde é que tinha recolhido a informação sobre os mais de 100 processos do Fernando Haddad e o modo de os enumerar através da pesquisa no portal do tribunal: num vídeo disponível no Youtube.

 

 

Neste vídeo, publicado no dia 12 de Outubro entre as duas voltas da eleição presidencial brasileira em formato de aula, ou webminar, está a começar o Web Summit e temos de aprender esta novilíngua, o autor esclarece os alunos sobre a quantidade e qualidade dos processos judiciais sobre o candidato Fernando Haddad, interroga inclusivamente a sua motivação para concorrer a eleições que lhe poderiam conferir imunidade judicial se as ganhasse, sugere consultas no Google para perceberem melhor a tipificação dos crimes de que ele é indiciado e para recolherem informação em notícias de jornal sobre os casos específicos que originaram os processos, em resumo, ensina-os a fazer activismo nas redes sociais subordinado ao tema "Haddad criminoso".

E mostra detalhadamente o modo de acesso ao portal do tribunal e de lançamento da pesquisa, sem sequer se esquecer de lembrar os alunos de escreverem "Haddad" com dois "dd". No minuto 2:46 diz furtivamente que também podem assinalar a opção "Pesquisar por nome completo", se quiserem, sem se deter a explicar em que medida esta opção altera os resultados, e continua a aula, podendo os alunos mais atentos ter reparado que ele assinalou a opção, e aos mais distraídos ela ter-lhes entrado por um ouvido e saído pelo outro.

A ligeireza do tratamento da questão do nome pode ter sido uma falha pedagógica, se o professor pretendia esclarecer os alunos sobre a sua importância e não foi capaz, ou um caso de pedagogia da falha, se pretendia mesmo que os alunos não se apercebessem do que estava em causa para posteriormente não virem a ter o cuidado de ser rigorosos na aplicação prática dos princípios ensinados, ou seja, que propagassem boatos mesmo sem dar por isso.

A verdade é que houve alunos que não tiveram e, por não terem tido, divulgaram um boato em vez da notícia que pretendiam divulgar. Também o podem ter divulgado tendo a noção que pecava por exagero relativamente à base factual, mas é matéria sobre a qual não vale a pena especular por só cada um deles saber a verdade.

Pelo que desto caso se podem tirar duas conclusões:

  • Há activistas que se dão ao trabalho de preparar materiais pedagógicos para apoiar outros activistas a passar a mesma mensagem com os mesmos argumentos e os mesmos fundamentos, num processo de clonagem do activismo político.
  • Entre esses activistas há-os que são insuficientemente claros na pedagogia a que recorrem e desse modo estimulam a propagação de boatos que reforçam a mensagem que pretendem divulgar e fazer divulgar, transformando este processo num de clonagem do boato.
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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 17:29
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2018

O genial Costa

Este artigo de Luís Aguiar-Conraria parece cheio de senso comum, mas senso é precisamente o que não tem. E como Conraria é socialista mas com frequência zurze no asneirol mais evidente do governo PS, foi objecto de apreciação favorável nos meus lados. Trata-se todavia de uma peça de propaganda embrulhada em raciocínios capciosos. Vejamos:

 

“Ou melhor, pensava que seria aprovado [o orçamento], rejeitado por Bruxelas e que, quando Portugal tivesse de fazer as devidas alterações, o PCP se recusaria. Enganei-me, portanto”.

 

O PCP andava atarefado, quando o autor nasceu em 1974, a ocupar o aparelho de Estado e o da comunicação social. É sabido que acumulou nestas meritórias tarefas grandes sucessos e que foi de vitória em vitória até à derrota no 25 de Novembro de 1975. Os outros partidos queriam uma democracia ocidental, portanto com liberdade para a existência de partidos comunistas, e o PCP sobreviveu intacto. Ao PS, por outro lado, convinha um PCP relativamente forte, para poder apresentar-se como o partido charneira do sistema e manter à distância a concorrência. Isso, mais o pendor esquerdizante do eleitorado da época, explica por que razão as revisões da Constituição tardaram e foram (ainda hoje são) insuficientes.

 

O PCP passou a ter como tarefa a manutenção, e se possível o reforço, da sua influência no aparelho do Estado, em particular a Educação, na esfera sindical e nas empresas públicas.

 

Tem tido sucesso: não há nenhum outro partido comunista em democracias ocidentais com tanta influência nas políticas públicas. Imaginar que este partido agarrou a mão oportunista que Costa lhe estendeu sem medir bem as consequências e que sairia ao fim de uns meses sem nenhum ganho palpável só se compreende com um absoluto desconhecimento do que o PCP foi e é. No que toca ao passado, a ignorância só é compreensível se sobre o apogeu da comunistada naquela época nada tivéssemos lido e andássemos de bibe; e no que toca ao presente apenas se continuarmos a andar.

 

“A solução mais fácil teria sido formar um governo minoritário à imagem do de Cavaco Silva em 1985. É provável que o PS se abstivesse no primeiro orçamento. É altamente improvável que o segundo orçamento alguma vez conseguisse passar. Voltávamos aos tempos de instabilidade, com a agravante de ser extraordinariamente improvável que as eleições fossem esclarecedoras. Enquanto uma fórmula governativa estável não fosse encontrada, a instabilidade inerente facilitaria a criação de movimentos populistas. Não que o nosso sistema político não precise de uma regeneração, mas, idealmente, não será esse o caminho”.

 

A estabilidade é útil e necessária quando sirva para promover políticas úteis, mas não é, nem se percebe porque houvera de ser, um valor em si. O PS estava disponível para respeitar as instruções de Bruxelas; o PSD e o CDS também. Com isso adquirido, as clivagens só poderiam ser sobre a forma de as respeitar sem comprometer o crescimento económico, e é absurdo imaginar, para quem não seja socialista, que a solução lógica e respeitadora da nossa tradição eleitoral seria pior que o patético governo que temos.

 

Luís não explica quais seriam os contornos da necessária regeneração do nosso sistema político. Mas não é difícil imaginar: será algo em que tenha protagonismo e lugares, em conjunto com outros pensadores que são muito críticos da direita, muito compreensivos com a esquerda, nada comunistas, muito europeístas, e imensamente modernos e lúcidos.

 

“Uma solução menos fácil, mas que era a preferida pelos líderes da PàF e pelo Presidente da República da altura, era ter um governo “pafiano” com o apoio do PS, que até poderia estar representado no governo. Esta solução, apesar de preferida, seria a pior possível. Com grande probabilidade, grande parte do eleitorado do PS sentir-se-ia traído e procuraria alternativas à esquerda. O Bloco de Esquerda não perderia a oportunidade de se tornar ainda mais populista para captar os votos dos descontentes. Tal como aconteceu em vários outros países, havia o risco de o Partido Socialista implodir. Sendo o PS um dos pilares da nossa democracia, as consequências seriam imprevisíveis”.

 

O PS poderia implodir? Olha que bênção. E os herdeiros seriam frei Anacleto Louçã, a Sarah Bernhardt do teatrinho das Visões Úteis e as manas Mortágua? A sério? 

      

“Com a geringonça, conseguiu-se não só um governo estável, em que o essencial dos compromissos europeus foi cumprido, mas alcançou-se mais do que isso. O BE e o PCP sujeitaram-se à realidade. E se não é de esperar que o PCP, dada a sua matriz ideológica bem definida, mude, é bem possível que o BE faça o caminho dos Verdes alemães. Este é um aspecto muitas vezes frisado por Nuno Garoupa no programa que tem comigo (e com outros) na Rádio Renascença, Conversas Cruzadas. Na Alemanha, os Verdes começaram por ser um partido anti-sistema de esquerda, que gradualmente se tornou num partido confiável. Neste momento, é até o partido que mais tem crescido na Alemanha e é cada vez mais claro que sem ele a esquerda não voltará a recuperar a chancelaria. Em conversa privada, Garoupa pôs mesmo a hipótese de que ‘o Bloco percorra em 20 anos o caminho que levou 40 aos Verdes alemães”.

 

 

Que o BE se “sujeitou à realidade” não se duvida, se com isso se quer dizer que hoje procura, de forma com frequência cómica na sua evidência, acaparar uns lugares no governo e, mais tarde, nas empresas públicas. Aburguesaram-se, benza-os Deus, e se herdassem o eleitorado do PS isso quereria dizer que seriam o PS com outro nome, outras caras e outras toilettes. Ou seja, ficávamos na mesma, salvo talvez com um pouco mais de retórica fracturante e toilettes mais modernas.

 

Agora, que ao PCP tenha sucedido o mesmo implica acreditar que desistiu do comunismo, do colocar de pedras no xadrez do poder, e dos seus objectivos primários e secundários. Ou o autor não sabe o que diz, mas devia, ou sabe, e deveria abster-se de, para branquear a tropa repugnante que nos pastoreia, dar estes tratos de polé à história e à realidade.

 

António Costa domesticou o principal foco de populismo em Portugal, o Bloco de Esquerda, transformando-o num partido institucional. Daqueles que se curvam perante a realidade. Ou seja, politicamente, a geringonça não se limitou a cumprir o que prometeu: fez bem mais do que isso”.

 

Viva Costa, o estratega Costa, o incomparável Costa, o genial Costa. Meteu o PCP e o BE no bolso.

 

Não foram só aqueles dois infelizes partidos.

publicado por José Meireles Graça às 14:32
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

Bolsonaro

Assunção Cristas, perguntada sobre em quem votaria se fosse brasileira, respondeu que não votaria …  porque não seria capaz de escolher entre um partido que "destruiu o sistema democrático brasileiro" e um candidato de "extremismos" em que não se revê.

 

Respondeu mal. Porque um candidato ao lugar de primeiro-ministro deveria dizer algo do género: não tenho de, nem devo, pronunciar-me sobre preferências eleitorais em países amigos.

 

Deixemos de lado o detalhe de Assunção, se fosse brasileira, e tendo menos de 70 anos, ter de votar, sob pena de multa. E dêmos-lhe o benefício exculpatório de hoje todo o responsável, de Trump a Juncker passando pelo incontinente e irrelevante Marcelo, comentar sem rebuço a vida política de estados terceiros.

 

Não deveria comentar porquê? Por várias razões: i) Portugal, país pequeno e dependente, não precisa de inimigos. E mesmo que as relações pessoais, de amizade ou inimizade, contem menos do que os interesses, não é um bom ponto de partida que em Brasília venha a morar quem gratuitamente se hostilizou. Nem em Brasília, nem em Luanda, nem em Pequim, nem em Washington, nem em qualquer outro lugar; ii) Os cidadãos portugueses que se interessam por algo mais do que o destino da selecção e o valor exacto da sua pensão ou ordenado não precisam que os dirigentes políticos lhes digam o que pensar sobre os sucessos noutras terras que não a nossa, excepto se e quando algum interesse nacional corra o risco de ser afectado. Não precisam porque estão abundantemente servidos de comentadores, mesmo que na comunicação social haja, como há, uma superabundância de comentadores de esquerda, e uma não negligenciável dos que se dizem de direita mas não se distinguem substancialmente dos primeiros; iii) O CDS é há mais de 40 anos uma espécie de reserva da república para quando o país ganhar juízo ou as circunstâncias o forçarem a tê-lo. E tendo várias capelas (a católica, a europeísta, a negocista, a nacionalista, a liberal, a conservadora, fora as misturas e as oscilações tácticas) sempre teve o cuidado de praticar a tolerância interna, quando não há muito seria o MRPP da direita. Declarações que impliquem divisão são inevitáveis quando se trate de estabelecer um rumo necessário, porque agradar a todos é o caminho mais seguro para a inoperância e para não agradar a ninguém. Mas a gente cá em baixo não precisa de ajudas para se zangar por questões alheias.

 

Sucede que nas redes logo se estabeleceram duas correntes, uma a favor da abstenção, que concorda com Cristas, e outra a favor de Bolsonaro, que não concorda. E já havia os que votariam Haddad porque são de esquerda, ou porque não são fascistas, e os que votariam Bolsonaro porque são de direita, ou não são comunistas, para não falar em José Manuel Fernandes, que não sabe se votaria num ou noutro porque, votando em branco, dependeria de quem lá pusesse a cruzinha.

 

Tenho-me divertido a acompanhar a polémica, sem me comprometer. Instintivamente, as minhas simpatias vão para Bolsonaro, mas não faltam declarações do candidato num sentido autoritário, troglodita e primário, que fazem com que, em levando a sério o que o homem diz, se fuja a sete pés. Evidenciar simpatia pela tortura e pelos torturadores do tempo da ditadura militar, por exemplo, já seria suficiente, em tempos normais, para esperar que o autor se refugie num qualquer grupo ultra-minoritário onde os membros se confortem uns aos outros nos seus ódios medievais e nas suas certezas de selvagens.

 

Os tempos, no Brasil, porém, não são normais. O PT pode não ter instaurado uma ditadura comuno-bolivariana como na Venezuela, e ter preservado os mecanismos da democracia. Mas criou uma vasta clientela de dependentes do Estado que sufocam a economia exangue pelo fim da alta dos preços das matérias primas que o país exporta e pelo intervencionismo dirigista, ao mesmo tempo que promoveu a corrupção a níveis intoleráveis.

 

Pergunta-se: Haddad tem condições para redimir o Brasil? Não, não tem, absolutamente nada no seu programa, no seu passado e nas suas declarações, na parte em que são credíveis, permite pensar que o PT aprendeu alguma coisa e remediará alguma coisa. Pelo contrário: os lulistas raivosos, de lá e de cá, acrescentariam à gestão inerentemente inepta da economia o revanchismo contra o sistema judicial. E este, que deu provas de ser um baluarte contra o Estado clientelar, passaria a vítima, e com ele o Estado de Direito. O que significaria que, se o Brasil com o PT ficou de joelhos mas não se venezuelizou, desta vez bem correria esse risco.

 

Então, se eu fosse brasileiro e católico, faria o sinal da cruz e votava Bolsonaro; e, se fosse agnóstico, substituía o sinal da cruz por figas.

 

Haddad é que nunca, em que pese aos meus amigos bem-pensantes, como o Adolfo Mesquita Nunes, o Alexandre Homem Cristo, o Bruno Alves, a Maria João Marques (esta amiga a 50%, porque a aprecio sem que retribua), outros muitos ainda aos quais escapa o que está em jogo no Brasil, como lhes escapou o que estava em jogo nos EUA.

 

É aliás o mal das posições ao centro: costuma ser o lugar geométrico de coisa nenhuma. Mas isso fica para outra maré.

publicado por José Meireles Graça às 23:23
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A incrível e triste história de Catarina Martins e do seu Patek Philippe desalmado

Desde que comecei a frequentar as redes sociais tenho-me dedicado esforçadamente ao combate aos boatos, porque tenho a convicção absoluta que quem faz política ou passa mensagens à custa de boatos é pura e simplesmente escroque, quaisquer que sejam as ideologias que defende ou lutas políticas que apoia.

No início os boatos enquadravam-se maioritariamente em dois tipos:

  • Boatos a difamar o sistema democrático português, como por exemplo o da cantina da Assembleia da República que serve refeições de luxo a preços económicos, que chegou a dar origem a uma rábula dos "jornalistas" Hernani Carvalho e Júlia Pinheiro no programa da SIC Querida Júlia, ou falsas citações de personalidades respeitadas como o professor Adriano Moreira ou o actor Ruy de Carvalho a acusar os políticos portugueses de indignidades várias, ou uma série de quadros que sugeriam que um deputado ganhava tanto como centenas de professores somados;
  • Boatos a difamar políticos de direita, como por exemplo o falso Cartão de Informador da PIDE do presidente, e nessa altura re-candidato às eleições presidenciais de 2011, Cavaco Silva, que aliás resultou de algum trabalho relativamente profissional pela campanha do candidato Manuel Alegre às mesmas eleições, em que concorreu apoiado pelo PS e pelo BE, que se deu ao trabalho de ir à Torre do Tombo copiar a ficha do presidente na PIDE, ou fotomontagens que juntam o professor Marcello Caetano e o candidato às eleições presidenciais de 2016 Marcelo Rebelo de Sousa com recurso a retratos tirados com décadas de separação entre eles, ou inúmeros sobre a vida pessoal e familiar do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

Eu combatia-os deixando comentários a desmenti-los onde os via publicados, e os desmentidos eram, com raríssimas excepções, rejeitados pelos autores das publicações como meras defesas sectárias dos malfeitores alvo dos boatos, fossem os deputados que nos roubam, fossem políticos de direita que tiravam dinheiro aos pobres para o entregar aos banqueiros, ou sujeitos ao desafio de provar o desmentido por parte de quem, assimetricamente, não se tinha dado nem estava disposto a dar ao trabalho de provar as insinuações que partilhava. Era um esforço relativamente inglório mas de dimensão exequível, atendendo à frequência com que esses boatos eram partilhados.

Principalmente desde a vitória do presidente Trump nas eleições americanas apareceu um novo tipo de boatos com uma temática e uma frequência e intensidade diferentes: boatos sobre políticos de esquerda, alguns do mais puro delírio, como o que insinuava ao presidente Barak Obama e à secretária de estado e depois candidata a sucessora Hillary Clinton a gestão de uma rede de pedofilia que operava a partir de uma pizzeria em Manhattan, que deu origem a um atentado de um cidadão que, convencido da veracidade, decidiu fazer justiça por suas próprias mãos, boatos sobre refugiados muçulmanos acolhidos na Europa que lhes atribuem desde violações em massa em massa em países como a Alemanha, à instauração do estado de sítio e mesmo de guerra civil em países como a Suécia, à organização de manifestações de refugiados para exigir a instauração da Sharia nestes paises e noutros, ou insinuações que políticos de esquerda promovem iniciativas legislativas delirantes, como legalizar a pedofilia, no âmbito da "ideologia do género". Mas desta vez em volumes impossíveis de identificar e desmentir em proporções significativas. Com a chegada dos alt-media da alt-right o boato nas redes sociais transformou-se de artesanal em industrial e o combate artesanal aos boatos deixou de ter a pouca eficácia que tinha antes.

O combate à base do desmentido individual, com comentários como confirmou essa notícia em sites de jornais?, tem a certeza que a pessoa na fotografia disse mesmo o que a legenda insinua?, tornou-se insuficientemente produtivo para sequer fazer qualquer diferença na torrente de boatos que passaram a aparecer diariamente, até porque os desmentidos continuaram a ser recebidos pelos divulgadores dos boatos com o mesmo tipo de acolhimento que tinham antes com um argumentário adaptado a esta nova circunstância, com a insinuação de estar a fazer o jogo da esquerda, ou do islamismo, ou dos pedófilos, ou o desafio a provar que o boato era mentira.

É, aliás, assunto que tenho discutido frequentemente com amigos igualmente críticos do ambiente de boato permanente em que se têm transformado as redes sociais, na procura de sugestões de metodologias de abordagem do problema mais produtivas, algo infrutífera por não ser fácil estancar a corrente com a intensidade que tem.

A fábrica de boatos vai-se adaptando à actualidade política, essencialmente quando há processos em que participam políticos populistas de direita que são sempre apoiados por ela, e nas últimas semanas dedicou-se ao lançamento de boatos sobre o candidato da esquerda à segunta volta das eleições residenciais brasileiras Fernando Haddad.

E mais um dos que apareceu nesta última vaga mostra uma montagem fotográfica com retratos dos dois candidatos que sugere que Jair Bolsonaro usa um relógio Casio de poucas dezenas de euros, que usa realmente e no Brasil esses modelos até são designados por Casio Bolsonaro, e Fernando Haddad usa um relógio Patek Philippe cronógrafo de calendário perpétuo que custa cerca de cem mil euros. É uma tontice acreditar que Fernando Haddad use um relógio desse valor, mas achei que valia a pena desmenti-lo. E para o desmentir dediquei algum tempo a pesquisar fotografias do candidato em que o relógio fosse minimamente visível, tendo depois ampliado que encontrei com melhor definição até conseguir, pela mancha do logotipo, identificar a marca e o modelo do relógio, um Longines cujo custo ronta os dois mil euros.

2018-10-12 Fernando Haddad Longines.jpg

E qual foi a utilidade do tempo gasto a fazer isto, não menos de uma hora? Nenhuma. A quem disse que o relógio não era um Patek Philippe respondeu com um desafio de provar o desmentido, a quem mostrei que era um Longines respondeu com o desafio de provar que era o mesmo relógio.

De modo que decidi experimentar uma abordagem menos convencional com a esperança de ser mais convincente:

  • Desenvolver um boato dirigido ao público a quem o boato do Patek Philippe do Haddad era dirigido, o internauta de direita que tem esperança que os politicos da esquerda sejam corruptos e, por isso, está mais aberto a acreditar em publicações que "provem" como são corruptos, que exemplifique os mecanismos da construção de insinuações em boatos que o conseguem enganar, mas ao mesmo seja tão incrível que se torne ridículo acreditar nele, de modo a mostrar-lhes com um exemplo como estão expostos a acreditar em boatos.

As características essenciais do boato forjado eram a inverosimilhança extrema e o público alvo.

Sendo o público alvo de direita com propensão para acreditar em boatos sobre políticos de esquerda era essencial que o político vítima do meu boato fosse de esquerda. Se a vítima fosse de direita o público de direita tenderia a pensar que este era um boato inventado pela esquerda para difamar políticos de direita e desse modo vingar as histórias verdadeiras que circulam sobre políticos de esquerda, e apenas reforçar a sua convicção que estes boatos são mesmo reais.

Dentro da esquerda era essencial escolher uma vítima que o público gostasse de acreditar que seja hipócrita e corrupta mesmo sem mostrar grandes indícios que confirmem a parte da corrupção, o que tornaria o boato mais apelativo por lhes oferecer esses indícios. Os bloquistas por, por um lado, serem praticantes permanentes da política de casos em que difamam políticos de direita através de insinuações e da encenação dessas insinuações no palco político e até no parlamento, como fizeram repetidamente ao longo da legislatura anterior com o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, e, por outro, assumirem sistematicamente uma posição de superioridade moral sobre os políticos de direita, e até sobre os de esquerda mais próximos do arco da governação, eram o tema ideal para este boato. Daí a escolha da deputada Catarina Martins.

Depois era necessário arranjar uma história incrível, tão incrível que mesmo os que gostassem de acreditar nela acabariam por não acreditar. A condição de bloquista ajudava na inverosimilhança, não por os bloquistas serem necessariamente mais honestos que outros políticos de esquerda do arco da governação, mas porque não ocupam posições executivas em que tenham acesso a grandes desvios de fundos que possibilitam o enriquecimento de políticos desonestos. A inverosimilhança foi então baseada em mostrar um bem de valor completamente fora do alcance da vítima do boato. No caso de Catarina Martins, um relógio de luxo com o preço de mais de 20 milhões de euros. Atendendo a que cerca de 20 milhões de euros é o que se estima que um primeiro-ministro alegadamente corrupto alegadamente conseguiu desviar em proveito pessoal ao longo de duas legislaturas em que governou um país, fica completamente fora do alcance de alguém que na política nunca teve qualquer função executiva, mesmo que fosse alguém extraordinariamente corrupto. Uma impossibilidade. Para ajudar a inverosimilhança ainda deixei um erro no comentário ao escrever que é um relógio marca Worldtimer, que não é a marca nem o modelo do relógio mas a firma do comerciante que publicou o anúncio de venda online. Escolhi o relógio para o boato com base no preço, era o mais caro do site, e o anúncio é mesmo real.

2018-10-12 Catarina Martins Patek do Facebook.jpg_

Quando publiquei a imagem sem o aviso no dia 12 de Outubro de manhã percebi que começou a ser partilhada por pessoas que conheço e estimo, e que a inverosimilhança lhes passava ao lado. De modo que lhes deixei comentários a avisar que era uma imagem falsa nas partilhas que elas tinham feito, e acrescentei o comentário de aviso na imagem original talvez uma hora depois de a publicar sem aviso. Deste modo, o comentário completo com o aviso passou para todas as partilhas da imagem, mesmo as que tinham sido feitas antes de o completar.

  • "[Esta notícia é, obviamente, FALSA, e destina-se a chamar a atenção para a facilidade de enganar pessoas insinuando, através de comentários ou símbolos gráficos como setas, associações entre imagens que pura e simplesmente não existem. Espero que contribua para todos serem mais atentos e críticos quando têm a tentação de acreditar em algo em que gostariam de acreditar, e para deixarem de ser tão crédulos nos boatos que circulam todos os dias nas redes sociais para os enganar.]
    Diz que defende os pobres e usa um relógio Worldtimer de milhões de euros.
    #NãoNosCalamos"

Três dias depois fui avisado por um amigo que a imagem estava partilhada no site de combate ideológico Direita Política como se fosse autêntica acompanhada de um texto assinado por Regina Cunha. Não dei autorização a ninguém para utilizar a imagem, nem me foi pedida, nem sei se é habitual esta deferência ética, nem conheço a autora, nem nas redes sociais, nem faço ideia sobre se a sua identidade é verdadeira ou falsa. O estilo literário, de que me permito transcrever o primeiro parágrafo, é relativamente comum naquela área de combate ideológico e já me cruzei nas redes sociais com quem pratica estilos semelhantes, até na colocação criativa das vírgulas. Mas não faço ideia de quem se trate.

  • "O que mais me enoja, me dá asco, repulsa é a falsa superioridade moral com que a Esquerda se exibe, perante o eleitorado e os meios de comunicação social. Gente repulsiva, verdadeiros estercos humanos a tentarem passar a imagem, de que partilham valores e conceitos éticos".

Deixei lá de imediato um comentário a avisar que a imagem era falsa e a explicar a intenção de a ter criado.

  • "Esta montagem fotográfica é falsa e foi montada exactamente para denunciar a disseminação de notícias falsas na internet em que há pessoas que acreditam, por mais inverosímeis e incríveis que sejam. O relógio que a senhora tem no pulso não tem nada a ver com o relógio do anúncio, e é preciso ser completamente destituído de bom senso para acreditar que ela alguma vez teria capacidade para comprar um relógio do preço do do anúncio".

Apesar do aviso a imagem não foi removida do site, e só dei pela sua remoção na véspera da publicação do artigo do jornalista Paulo Pena no Diário de Notícias no dia 20 de Outubro sobre esta publicação do boato, percebi ao ler a notícia que o dono do site a substituiu depois de ser contactado pelo jornalista.

Desta história tirei algumas conclusões, umas menos boas do que outras.

A pior, ter-me apercebido que um boato, por mais incrível e mesmo impossível que seja, encontra sempre quem acredite nele. O que faz desta luta contra a disseminação de boatos tão importante como sempre a considerei. A disposição do público para acreditar em boatos que lhe confirmem as opiniões que já tem é assustadora.

A melhor, que a denúncia do boato, e das correntes de boatos que o inspiraram, ultrapassou em muito o alcance limitado da minha rede social, onde poderia esperar avisar umas boas dezenas de pessoas que tenho noção que lêem regularmente o que publico, no limite umas poucas centenas, para se tornar nacional graças à sua publicação não-autorizada no site Direita Política onde coloquei o desmentido que ainda lá está, sem grande esperança de os frequentadores o levarem a sério, mas essencialmente graças ao artigo do jornalista Paulo Pena no Diário de Notícias que deu origem a notícias em quase todos os jornais de maior circulação, para além de sites de combate ideológico como o esquerda.net.

O meu aviso chegou muito mais longe do que sonhava, e espero que tenha contribuído para alertar alguns milhares de pessoas para desenvolverem algum sentido crítico quando, perante uma notícia em que gostariam de acreditar, ponderam sobre a sua veracidade.

Finalmente, hoje fui contactado telefonicamente pelo jornalista Paulo Pena, que não faço ideia onde descobriu o meu número de telefone fixo que ninguém usa para me contactar mas os jornalistas terão as suas artes de descobrir estas coisas, que simpaticamente me explicou que tinha tomado conhecimento que tinha sido eu o autor do boneco do relógia da Catarina Martins e me pediu para trocar impressões com ele e lhe contar a história e autorização para publicar o esclarecimento, que eu, também simpaticamente, acedi a contar e autorizar. Sendo a primeira vez que algum jornalista me contactou para me pedir declarações sobre qualquer assunto tenho toda a confiança que o que for publicado será fiel à nossa longa conversa, e disponibilizo-lhe este artigo para o ajudar a garanti-lo.

O facto de já esta semana ter voltado a ver notícias sobre relógios de políticos brasileiros indicia-me que este combate pela verdade contra a mentira pode ser uma causa perdida. Mas é a minha.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 01:16
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018

Banco de estiramento (continuação da continuação)

Senhora xxxxx xxxxxxx:

 

Notei a carta de V. Exª da refª supra, com data de 12 de Outubro mas apenas hoje recebida, redigida na língua de pau a que já me habituou, e usando liberalmente da costumeira má-fé.

 

Com efeito:

 

  1. O “comerciante” junto do qual dizem ter diligenciado não sei quem é. Já anteriormente pedi que o identificassem, quando hipocritamente me sugeriram que o contactasse, mas nada feito, também agora. Tudo o que sei é o que consta do lançamento na conta-corrente relativa ao mês de Julho último, no dia 11, onde reza: PAYPAL CHERRYCHINA35314369001 – Terminal Internacional – Cartão 1473;
  2. Não estou nem nunca estive inscrito na PAYPAL, e nunca fiz ou recebi pagamentos através dessa organização;
  3. Existem denúncias na internet sobre esta moscambilha (suponho que já terá ouvido falar, trata-se de uma rede mundial de informação), por exemplo aqui: http://chargesure.com/c/paypal-cherrychina-on;
  4. A cláusula 10.6 das Condições Gerais que terei subscrito ignoro o que diz (ninguém em seu juízo perfeito perde tempo a ler contratos de adesão, redigidos normalmente por advogados manhosos para desequilibrarem a relação contratual, pondo todos os direitos de um lado, e as obrigações do outro). Porém, não há nenhuma redacção aceitável que ponha o banco ao abrigo dos seus deveres de diligência e correcção, e certamente nestas não se inclui a prodigiosa quantidade de palavreado que já me dirigiram para escamotear um facto simples:

 

O meu cartão de débito, que nunca perdi de vista, foi utilizado abusivamente, sem que a segurança que deve rodear a sua utilização a isso tenha obstado, por um “comerciante” que se recusam a identificar.

 

Donde eu concluo que VV. Exªs não contactaram verdadeiramente ninguém, não sabem do que estão a falar e tomam como prática normal da relação fornecedor/cliente a simples aldrabice.

 

Dos bancos antigos todos sabem o que pensar. Dos novos, pelo visto, é ingenuidade esperar que sejam um pouco melhores.

 

Passe V. Exª muito bem, que eu fico melhor graças a Deus.

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publicado por José Meireles Graça às 20:00
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2018

Conselhos às senhoras

Há uns bons anos, estava com uma senhora na cama, altas horas, e ela lia, apercebi-me, as cartas de Eça à sua futura mulher; eu um ensaio qualquer sobre um recanto obscuro do passado, ou umas tretas sobre as tendências do presente, que são as coisas que me entretêm há que tempos.

 

A senhora, às tantas, depositou o livro aberto na barriga e, fitando sem ver a parede em frente, murmurou no silêncio sepulcral do quarto: se um homem me escrevesse cartas assim apaixonava-me por ele!

 

Aquilo não me caiu bem. E, a despeito de Eça ser um dos santos no altar exíguo das minhas devoções, embarquei numa doutoral dissertação sobre a hipocrisia do autor, e o seu casamento por interesse na família dos condes de Resende. Creio até ter chamado à colação o exemplo de Teodorico Raposo que, depois de caído em desgraça, na Relíquia, casou com a irmã abonada do amigo Crispim. Conclui informando que Eça era incapaz de, escrevendo, não ser admirável. E que, se o papel era o de apaixonado, então era bem capaz de despertar a atracção romântica da madre Teresa de Calcutá, ainda por nascer.

 

Não convenci. E ficou por apurar se o silêncio desaprovador resultava de sono ou da constatação de uma putativa ciumeira.

 

Lembrei-me desta história por causa do texto da Spiegel que acusa Ronaldo. Está bem feito, o texto. E é tão convincente, como aliás todas as outras peças da mesma proveniência, que todas as feministas que conheço dão como adquirido que ele violou sem sequer se darem ao trabalho, as mais raivosas, de deixarem a clássica ressalva de ser necessária a provazinha da culpa em tribunal.

 

Sucede que nem todas as mulheres compram, sem mais, a tese da culpabilidade. E esta, por exemplo, que não tem frio nos olhos nem consta que sofra da doença do machismo denunciada pelo movimento Metoo, vê no relato  mais buracos do que num queijo Gruyère.

 

Eu também vejo. E como tenho pelo movimento feminista um respeito excessivamente moderado e pelos homens que nele se alistam, incluindo amigos meus, a forte suspeita de que o que querem é, enrolados na bandeira da modernidade pateta, agradar ao belo sexo a qualquer preço, acrescento:

 

O MeToo é uma americanice grotesca e interesseira que, a coberto de casos reais de violação e abusos, pretende dar às mulheres vantagens indevidas, que consistem no poder não sindicado de arruinar carreiras e reputações, e no deixar passar para a consciência social a ideia de que quem é acusado por uma mulher, se o crime for de índole sexual, tem os seus direitos de defesa automaticamente diminuídos;

 

O feminismo é de esquerda, mesmo quando subscrito por pessoas de direita, porque cede ao discurso dos “fracos” e dos “oprimidos” contra os “poderosos” e os “opressores”. É uma bandeira fabricada pela indústria de causas, a mais dinâmica neste dealbar do séc. XXI, alimentada pela comunicação social para vender e pelas redes sociais para que os cidadãos possam ventilar a sua indignada virtude;

 

Os inimigos expostos à execração são os mesmos de sempre, isto é, os que detêm poder e riqueza. É isto que explica que a empregada que diz que o patrão a assediou tenha automática audiência e serviços públicos prestimosos a investigar, mas o mesmo empenho não se verifique na repressão de práticas medievais como a mutilação genital feminina ou os casamentos forçados em comunidades muçulmanas ou ciganas;

 

Há cada vez mais mulheres educadas que, na competição por lugares que são naturalmente menos numerosos do que os pretendentes, descobriram que a reivindicação de quotas elimina concorrentes. Uma guerra dos sexos vem a calhar, sobretudo se o inimigo, por ser filho de umas, e marido, amante ou irmão de outras, não perceber que é de uma guerra que se trata.

 

Pergunta-se: todos os que viram e veem as suas carreiras destruídas por acusações eram culpados dos crimes de que foram acusados, e algum beneficiou realmente da presunção de inocência? Não, porque sofreram uma pena sem processo legal. Ou seja, o movimento feminista defende um retrocesso civilizacional, que é a equiparação dos putativos agressores sexuais a cristãos-novos acusados de judaísmo, e a consagração do princípio de que, para certos crimes, mais vale a eliminação de todos os potenciais criminosos do que o risco de que alguns fiquem por condenar.

 

De resto, não faltam por aí excitadas a defender que a violação, tal como a define o código penal português, precisa de ver a sua definição legal alargada, e a sua moldura penal agravada. Como se o agravamento da sanção penal para os crimes da moda alguma vez em algum lado tivesse feito mais do que arrastar consigo o agravamento de outras penas para outros crimes; e como se as grandes taxas de encarceramento, e a violência da resposta penal, fossem apanágio de sociedades pacíficas.

 

Querem importar americanices, minhas senhoras? Fiquem-se pelos blue jeans justinhos, se estiverem bem servidas de pernas, e pela coca-cola light, se não estiverem.

publicado por José Meireles Graça às 23:48
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