Sexta-feira, 6 de Julho de 2018

As guerras das tarifas

O estilo errático dos anúncios, essencialmente através de tweets, do presidente Donald Trump não aconselha prognósticos antes do fim dos jogos, porque o que ele diz hoje não é parecido nem coerente com o que disse ontem, e certamente que amanhã dirá outra coisa diferente destas duas e eventualmente contraditória.

Os detratores do presidente americano atribuem esta variabilidade a falta de juízo, mas os apoiantes mais entusiastas acreditam que é pura estratégia negocial, e até é plausível que o seja, porque com quem não diz coisa com coisa ninguém gosta de discutir e as pessoas normais querem é distância, o que facilita os processos negociais por falta de comparência da outra parte, e pelo meio de um processo negocial pode ter havido tweets tão delirantes que qualquer proposta final que pareça minimamente razoável lhes pode parecer uma conquista inesperada da sensatez sobre a loucura, e aceitável, mesmo que não seja a desejada ou a ideal. E assim, simulando loucura, pode-se ganhar uma negociação.

Um dos domínios onde a sucessão de posições aparentemente erráticas tem sido evidente é no comércio internacional. Entre anúncios de ameaças de tarifas sobre os inimigos comerciais dos EUA, que incluem sempre a Europa e o Canada, as proposta de erradicação total das tarifas, as recusas em subscrever acordos que incluem compromissos de as reduzir, anúncios de novas ameaças de tarifas, e anúncios de intenção de afinal não as introduzir, nenhum dia é igual ao anterior e a única constante é a inconstância.

Um dos campos de batalha mais importantes é o da indústria automóvel, uma das que são comulativamente grandes e sexy. Saindo dos anúncios e das especulações sobre intenções que todos os dias há dados novos para ilustrar, e ficando pelos factos, a UE impõe uma taxa de 10% sobre a importação de automóveis americanos e os EUA impõem uma taxa de 2,5% sobre a importação de automóveis europeus, e uma taxa mais elevada sobre os pesados que não vale a pena discutir aqui. Outro facto, que não tenho quantificado mas que é tão evidente que não vale a pena googlar para quantificar, é que os americanos importam muito mais automóveis europeus, principalmente alemães, do que os europeus automóveis americanos. E outro ainda para baralhar as contas, mas que pode não valer a pena trazer à discussão, dois grandes produtores de automóveis na Europa, a Opel e a Ford, são americanos, e a fábrica que exporta mais automóveis dos EUA é europeia, da BMW.

Primeira constatação, a taxa é assimétrica, e a UE penaliza mais a importação de automóveis americanos que os EUA a de automóveis europeus, o que justifica inegavelmente algum desagrado do governo americano.

Segunda, que é provável que a desproporção nos volumes de importações cruzadas seja tão elevada que, apesar de a taxa ser de apenas um quarto da simétrica, é provável que o governo americano arrecade mais taxas pela importação de automóveis europeus do que os governos europeus pela de automóveis americanos.

Terceira, que as tarifas alfandegárias não são um imposto imposto aos exportadores para o país que o impõe, são um imposto pago pelos consumidores desse país que compram produtos importados, um acréscimo aos impostos ao consumo pagos por eles. Quando nos dizem que as exportações americanas vão pagar uma tarifa alfandegária estão-nos a dizer na realidade que os consumidores europeus vão pagar mais caro por essas importações, não que os exportadores americanos a vão pagar, e vice-versa. O que significa que a imposição de tarifas às importações, comulativamente com agradar aos produtores locais de bens concorrentes com os bens importados taxados que podem ser favorecidos pelo aumento dos preços de venda deles aumentando as suas quotas de mercado, também desagrada aos consumidores que vêem os preços dos produtos que preferem consumir aumentar por causa de um novo imposto.

Quarta, e decorre da anterior, a imposição de tarifas alfandegárias traz a uma sociedade ganhos, e até pode criar empregos, principalmente se não houver retaliação, mas também pode destruir empregos se houver, com um balanço final indeterminado, também lhe traz perdas, até políticas, por ser paga pelos consumidores do país que as impõe. Se eu tiver o sonho de possuir um BMW e tiver dinheiro para o comprar mas de repente, por o preço do BMW ter aumentado, me vir forçado a optar por um Chevrolet, posso ficar chateado com o governo que me estragou o sonho com o seu aumento de impostos.

A quinta, digo-a no fim.

Neste mundo de notícias todos os dias diferentes das do dia anterior e que não indiciam o que dirão as do dia seguinte torna-se quase impossível acompanhar para discutir informadamente o enredo do filme, mas podem-se analizar e discutir fotogramas. E o fotograma de hoje diz o quê? Diz "Bruxelas admite baixar tarifas às importações de eutomóveis para agradar a Trump", ou "Recuo de Trump impulsiona bolsas e BCE ajuda euro", adaptando a mesma notícia às preferências dos trumpistas por uma vitória negocial do Trump ou dos europeistas por um recuo do Trump.

2018-07-05 Guerra das tarifas.jpg

Traduzido em miúdos, que a UE vai reduzir a tarifa alfandegária de 10% sobre as importações de automóveis americanos, provavelmente para um valor idêntico ao aplicado às importações de automóveis europeus nos EUA, e que o governo americano vai desistir da intenção anunciada de aumentar as tarifas alfandegárias sobre os automóveis europeus para 20%. Ou mesmo que as vão anular, o que irá conduzir mais ou menos ao mesmo.

O que se segue não é aconselhável aos que olham para a política internacional como um combate de wrestling entre o Donald Trump e a Angela Merkel, nomeadamente aos que, por parecerem andar a tomar esteróides que lhes dão força, ou anfetaminas que lhes dão a sensação de força, distribuem murros metafóricos no ar traduzidos em insultos e ameaças enquanto assistem ao combate.

Deixar cair a taxa alfandegária actual de 10% sobre a importação de automóveis americanos em troca de o governo americano não lançar uma de 20% sobre os automóveis europeus parece uma medida inteligente, e até cínica, da UE. É que não é a taxa de 10%, e o consequente aumento de 10% no preço de venda, que desencoraja os consumidores europeus de comprarem automóveis americanos, mas o facto de acharem que eles não prestam, de modo que a eliminação desta taxa não vai certamente desencadear uma invasão de importações americanas que prejudique a indústria europeia. Não é a tarifa alfandegária que a protege, mas a diferença na qualidade percebida pelos consumidores europeus que justifica que os automóveis europeus, e principalmente os alemães, e principalmente os alemães de fabricantes europeus como a Mercedes, a BMW, a Audi, a VW ou a Porsche, sustentem um preço premium comparativamente com os americanos.

Já a taxa de 20% sobre os automóveis europeus importados nos EUA aumentaria o seu preço de venda de modo a afectar certamente as exportações da indústria automóvel europeia, mesmo que os consumidores americanos estejam dispostos, como estão, a pagar preços premium pelos automóveis europeus por considerarem que são melhores que os oferecidos pela indústria local.

O acordo registado no fotograma de hoje é pois favorável à indústria automóvel europeia que estava na iminência de ser prejudicada no mercado americano sem a penalizar no mercado europeu. Não é desfavorável à indústria americana comparativamente com a situação actual, se bem que possa ser aparentemente menos favorável que a imposição de tarifas mais elevadas às importações de automóveis europeus no mercado americano, mas também não a vai favorecer significativamente no mercado europeu, por não ser a tarifa de 10% que desincentiva os europeus de comprar automóveis americanos mas a sua falta de qualidade percebida comparativamente com a produção europeia. Dá aos adeptos do status quo europeu alguma estabilidade. E dá aos adeptos do Donald Trump um título de jornal vitorioso onde a UE cede para agradar a Trump. Em suma, todos ganham.

Todos menos os americanos de Detroit que tanto precisam dos american jobs que lhes foram prometidos pelo Donald Trump, não estou a falar dos que a conjuntura lhes oferece tal como os oferece aos portugueses governados pelo socialista António Costa, e pelos quais o Donald Trump parece estar a lutar com as suas guerras das tarifas, mas que não chegarão, sem tarifas ou com elas. É que não é com tarifas alfandegárias ou acordos comerciais que se resolve o desequilíbrio da balança comercial entre os EUA e a UE, mas com produtos bons e competitivos. E andar a discutir tarifas não é o caminho para a indústria americana os melhorar, é, pelo contrário, um bom pretexto para evitar reconhecer o problema e deixar tudo ficar na mesma à espera que a política o resolva.  O que está nos antípodas da american way, em que é tradicional ser a sociedade, e não a política, a tomar o seu destino nas mãos.

E esta foi a quinta constatação.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:31
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Quinta-feira, 5 de Julho de 2018

O "traidor" Manuel Alegre ou, a credulidade em demasia não faz de ninguém lúcido

À força de se esforçarem por acreditar que têm boas razões para acreditar naquilo que à força querem acreditar, as pessoas chegam a fazer figuras caricatas.

Há quem queira acreditar que o Manuel Alegre foi um traidor.

É muito simples esclarecer. Fazer resistência a uma ditadura não é traição, é patriotismo, seja em Cuba, no Chile, em Portugal ou na Checoslováquia. Mas, por exemplo, divulgar segredos militares e, com isso, colocar em risco ou mesmo provocar a morte de soldados portugueses é traição.

O Manuel Alegre fez resistência à ditadura e, por isso, foi um patriota, mesmo que haja quem o queira considerar um traidor por ter feito resistência à ditadura. Pode ter revelado segredos militares que podem ter colocado em risco ou mesmo provocado a morte de soldados portugueses, e se o fez foi mesmo um traidor. Se se quiser determinar se o Manuel Alegre foi efectivamente um traidor é isso que é necessário esclarecer. Eu não tenho informação que me permita esclarecer isto, nem sou dos que fazem de a procurar um objectivo de vida. Não sei se é ou se não é. Se um dia souber que sim considerá-lo-ei um traidor, até lá não considero.

O que não faz dele traidor é acreditar em notícias falsas. Por exemplo, acreditar na imagem de um suposto cartão de militante da Frente Nacional de Libertação de Angola, ou FNLA, que circula nas redes sociais.

2018-07-04 Manuel Alegre FNLA.jpg

E acreditar na autenticidade do cartão não é grande referência como garante da lucidez do crédulo.

Primeiro, é preciso estar disposto a acreditar que uma organização terrorista, como lhe chamava o governo português de então, ou um movimento de libertação clandestino que também se dedicava à guerrilha, como era visto na época pela generalidade dos governos ocidentais e provavelmente pelos próprios, tinha uma máquina burocrática que passava aos seus militantes cartões de membro, talvez para eles poderem facilmente ser identificados como membros do movimento se fossem revistados pela Pide.

Segundo, é preciso estar disposto a acreditar que a imagem que circula é uma fotografia a cores de um cartão real, apesar do ar imaculado do cartão supostamente fotografado, sem um vinco, sem um risco, sem uma amolgadela, tão perfeita como se fosse uma impressão do PDF do cartão original, e esquecer que nos anos 60 do século XX não havia PDF, não havia imagens digitais, nem sequer havia fotocópias a cores, havia cartões de cartão escritos à mão ou à máquina com o retrato colado a que se podiam tirar fotografias se se estivesse interessado em fotografá-los.

Terceiro, se o cartão supostamente fotografado tivesse um formato do tipo das clássicas cartas de condução, é preciso acreditar que a página um, a capa, poderia ser fotografada lado a lado com a página três, a que continha o retrato e os dados do membro, ou que a capa estaria na página dois, ou os dados do membro na página quatro. E, se fosse um cartão de frente e verso, acreditar que se conseguia fotografar a frente e o verso simultaneamente, Tudo problemas que o PDF resolve de uma penada, mas os cartões reais não resolviam.

Quarto, é preciso acreditar que o Manuel Alegre usava camisas havaianas, que era um resistente da ditadura que se vestia como o Wolfman Jack.

Quinto, porque não é esta a única "fotografia" do cartão da FNLA que circula nas redes sociais, que o Manuel Alegre se vestia no mesmo alfaiate que o inglês a quem calhou o outro cartão da FNLA idêntico ao dele, e escolhiam juntos as camisas havaianas.

Sexto, mas ainda é preciso continuar? não é, mas vamos até ao fim para ninguém ter desculpas para não perceber, que o Manuel Alegre morava na Argélia na mesma rua onde morava o inglês que morava em Hareford, na Inglaterra.

Tudo junto, espero que a esta hora já tenham percebido que, independentemente de o Manuel Alegre ter cometido actos de traição ou não, o cartão da FNLA do Manuel Alegre é forjado e sem grande cuidado para dirfarçar a trafulhice. E que os que chegados aqui ainda acreditam na sua autenticidade são tontos.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:28
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Sábado, 30 de Junho de 2018

Vamos falar de bola

Eu hoje vou-vos revelar um segredo que peço que tratem discretamente, nomeadamente evitando divulgá-lo nas redes sociais.

Por junto, fui para aí uma dúzia de vezes ver futebol no estádio. Mais ou menos meia-dúzia quando era miúdo, a maioria deles com o vizinho do lado dos meus pais que era sócio do Benfica e nos levava, uma vezes a mim outras ao meu irmão, à Catedral da Luz, uma vez com o marido de uma colega da minha mãe que era sócio do Sporting ao Estádio de Alvalade, e uma vez com o meu pai ver um Portugal-Suécia no belíssimo Estádio Nacional que, se bem me lembro, Portugal perdeu por 2-4. E outra meia-dúzia ver jogos da Selecção Nacional quando a minha filha chegou à idade de se interessar por futebol. O que significa que não vale a pena perguntarem-me o que é um lateral ou se é mais ofensivo jogar em 4-3-3 ou em 2-5-3, que eu não consigo mais do que inventar uma resposta pela pinta da pergunta, porque não sei de ciência certa. Por favor, tratem esta informação discretamente.

Mas hoje vou falar de bola.

 

Qual deles é o melhor?

2018-06-30 Eusébio chora 1966.jpg

Mas tenho um activo que impressiona as gerações mais jovens, que o confundem com uma competência: vi jogar em campo o Eusébio e vi jogar em campo o Cristiano Ronaldo.

E por isso já aconteceu perguntarem-me a opinião sobre qual dos dois joga melhor. Pergunta a que eu, para não decepcionar o jovem que se ilude com a minha ciência desportiva e deposita em mim a esperança de o ajudar a resolver este importante dilema, não fujo a responder e respondo assim.

O Cristiano Ronaldo tem uma capacidade atlética como o Eusébio nunca teve. Mas também é verdade que se o Eusébio tivesse hoje a idade que o Cristiano Ronaldo tem também teria provavelmente uma capacidade atlética como nunca teve quando tinha essa idade.

O Cristiano Ronaldo trabalha que nem um cão e tem uma força de vontade extraordinária quando está determinado a ganhar, e está normalmente, exactamente como o Eusébio trabalhava que nem um cão e tinha uma força de vontade extraordinária quando estava determinado a ganhar, e estava normalmente. E quando, depois e apesar de deixar tudo o que tinha no campo, perdia, chorava como uma criança injustiçada, porque tinha sido mesmo injustiçado.

O Cristiano Ronaldo tem um talento extraordinário, e o Eusébio também tinha. E posso exemplificar os dois. Reparei pela primeira vez na existência do Cristiano Ronaldo nos dois jogos finais do Euro 2004, que vi completos por estar de férias, e lembro-me de me ter impressionado com as fintas e movimentos endiabrados que fazia, e de ter comentado essa impressão junto de amigos com quem me cruzava habitualmente nas férias, que vinham do Porto e diminuiram o talento do rapaz dizendo que fazia uns rodriguinhos mas não concretizava. Eles podiam saber de triangulações e jogadas em profundidade, podiam até assinar a Sport-TV, mas a história deu-me razão e tirou-a à tirada infeliz deles, que eu desconfio que se devia ao facto de o Cristiano Ronaldo ser do Sporting, como eu era e eles sabiam, e não do Porto, como eles eram todos, e até tinham tomado o Scolari de ponta por ter substituído o Baía pelo Ricardo, opção que se acabou por revelar genial nos quartos de final com a Inglaterra numa noite em que o torneio de Bridge no Centro de Bridge de Lisboa foi cancelado para se ver a bola. E num dessa meia-dúzia de jogos que vi em criança vi o Eusébio marcar um golo de canto directo contra o Porto, e ainda hoje me lembro da trajectória improvável que fez a bola curvar, ao cair sobre a pequena-área na frente da baliza, do arco comum de projecção horizontal recta que tinha seguido desde o pontapé até chegar à frente da baliza, para uma curva acentuada que a fez entrar inesperadamente. Uma trajectória substancialmente diferente na natureza da curvatura do livre que o Cristiano Ronaldo marcou contra a Espanha neste mundial, em que a bola iniciou a trajectória numa direcção que a levaria ao lado da baliza mas toda a trajectória foi uma curva suave que a levou para dentro da baliza. No canto, a bola só curvou, acentuada e repentinamente, quando chegou à frente da baliza. Eu não faço cálculos de aerodinâmica há muitas décadas, e não tomem isto por ciência certa, mas especulo que a bola pode ter sido atirada com um efeito muito poderoso mas que não a fez curvar enquanto teve velocidade, e quando reduziu a velocidade ao cair na pequena área o efeito pode-se ter tornado preponderante para a fazer curvar. Seja porque motivo tenha sido, foi um golo do caraças.

Mas não me lembro de o Eusébio ter falhado um penalti, e já vi o Cristiano Ronaldo falhar um ao vivo no Estádio da Luz e outro em directo neste Mundial contra o Irão, e muito menos de ter dado alguma cotovelada na cara de um adversário, e no entanto era regularmente massacrado com violência pelos adversários. Como se não fosse bem um humano a reger-se pelas regras dos humanos, como se para ganhar lhe bastasse jogar à bola como sabia. Como se fosse um gentleman.

E ver tipos que não são capazes de fazer uma conta de subtrair a calcular, com a cabeça ou com os pés, trajectórias exóticas que nem a Ciência Física consegue deduzir nem nenhum Físico consegue simular em computador, como ver miúdos que cresceram em favelas onde a lei que impera é a da selva a crescerem para se tornarem gentlemen sportsmen é capaz de ser aquilo a que se chama a magia do futebol.

 

O Salvador Sobral deu uma entrevista.

O Salvador Sobral deu uma entrevista a uma televisão espanhola. E o que disse ele?

- Eu sou o Ronaldo da música mas pago impostos.

Grande lata! Um palerma malcriado, esquerdopata e drogado a ousar comparar-se com o Cristiano Ronaldo? E isto é uma selecção muito filtrada para não ultrapassar as fronteiras da civilidade dos comentários que vi nas redes sociais. Eu próprio não fiquei indiferente à parvoíce das afirmações dele, embora dando um desconto ao relato da comparação, que admiti ser uma adaptação de um diálogo que imaginei antes assim:

- Tu és o Ronaldo da música? - Sou, mas pago impostos.

E deixei no meu Facebook um comentário demolidor, não da megalomania que atribuí a um mero exercício de ironia para responder a uma pergunta parva, mas à crítica implícita do cantor aos problemas fiscais do Cristiano Ronaldo, escrevendo "Estas palermices ficam bem a uma estrela de variedades que nasceu em berço de ouro e que, além de ter uma irmã gira e talentosa, é conhecido por dizer piadolas palermas com uma descontração desconcertante. Mas o Cristiano Ronaldo que cresceu com os dentes tortos e uma coragem inimaginável da mãe já deve ter pago numa vida só mais impostos do que toda a linhagem somada dos Condes, Viscondes, Barões e Senhores de Sobral que deu ao menino o berço de oiro onde nasceu e os dentes certinhos, incluindo os banqueiros.".

O Salvador Sobral tem de facto algum historial de afirmações um bocado palermas que parecem exercícios catalogáveis na categoria que noutros tempos se designava como politicamente incorrecta, hoje em dia os conservadores assumem que politicamente incorrectos são eles e que tudo o que tenha inspiração socialista ou liberal (no sentido que os anglo-saxónicos dão ao termo) é apenas politicamente correcto, termo que passou aliás a ser usado como um insulto ainda mais injurioso que comuna para os despachar sintetica e expeditamente em qualquer discussão, ou noutros tempos ainda mais recuados mas que eu sou suficientemente velho para recordar, para escandalizar os burgueses.

Tal como o soissante-huitard Daniel Cohn-Bandit fazia um exercício de puro mau-gosto quando em 1975 sugeria no seu livro "Le Grand Bazar" jogos sexuais entre crianças e de crianças com adultos no jardim de infância onde trabalhava, de que mais tarde se veio a arrepender quando as palermices escritas para escandalizar os burgueses que as tomassem por descrições de práticas reais em vez de meras provocações para os assustar passaram a ser interpretadas como a confissão de antigos crimes de pedofilia num contexto em que a pedofilia ascendeu na hierarquia dos crimes aos níveis mais odiosos, o Salvador Sobral também tem tido diversas tiradas de puro mau-gosto, como quando disse num concerto de apoio e angariação de fundos para as vítimas de Pedrogão Grande "Eu sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês batem palmas. Vou mandar um peido a ver o que acontece", que aliás parece uma apreciação bem fundamentada da sua experiência de passagem rápida do anonimato ao estrelato e um lamento à falta de sentido crítico e de exigência que o novo estatuto parece despertar no seu próprio público, ou "A coca ajuda-me muito" noutra entrevista a outro programa de televisão espanhola. Não passam de palermices politicamente incorrectas, coisa de que não vem grande mal ao mundo por o cantor não fazer o que faz para nos pastorear mas simplesmente para nos entreter, mas que lhe asseguram um ódio de estimação entre as pessoas que ofende com estas provocações.

Já a parte da resposta que insinua que as práticas fiscais do Cristiano Ronaldo que originaram o processo que o fisco espanhol lhe instaurou que acabou num acordo em que ele se comprometeu a pagar "voluntariamente" quase 20 milhões de Euros e o Estado espanhol a não o condenar a uma pena de prisão efectiva, são censuráveis, por contraponto com as dele, que são limpas, pode conter uma certa dose de injustiça, tendo em atenção que o futebolista é certamente um dos maiores contribuintes individuais para o fisco espanhol, pagando anualmente do seu bolso muitos milhões de Euros de impostos que o governo espanhol depois redistribui entre os outros espanhóis das formas que entende e que a lei prescreve, e que a prática em questão, não reconhecer como usufruidos em Espanha e não declarar em Espanha rendimentos de actividades que ele exerce noutros países, por exemplo a utilização da sua imagem em publicidade comercial que passa em Portugal, tem algum sentido, e que o acordo "voluntário" se deveu mais à força bruta do fisco e à sua capacidade para o condenar a uma pena de prisão do que ao reconhecimento pelo futebolista da ilicitude das suas práticas fiscais. Podendo tratar-se de um abuso do fisco espanhol sobre um contribuinte para lhe extorquir ainda mais dinheiro, de a business proposition he wasn't allowed to refuse no sentido corleonico da expressão, mais valia ao cantor ter-se abstido de criticar o futebolista.

E portanto o Salvador Sobral diz palermices, é megalómano e concorda com os abusos do fisco sobre os contribuintes.

Isto seria uma grande verdade se ele tivesse dito na entrevista o que se disse que ele disse. Só que ele não disse nada do que se disse que ele disse. À pergunta "- Tu eres el Cristiano Ronaldo de la musica?" ele respondeu "- Ui!", e à disparada logo de seguida "- Pero pagas impuestos?" ele respondeu "- Pago impuestos." (minuto 16:07).

De resto, uma entrevista de um miúdo modesto e inteligente num Espanhol correcto onde até cabem críticas à política cultural do governo socialista português e à distância entre as expectativas que suscita nos agentes culturais e o que depois está efectivamente disposto a distribuir por eles. E a interrogação sobre se a energia que exibe ultimamente se deverá, não à cocaína, mas à cortizona que tem tomado por causa da sua condição de saúde?

Mas para que interessam os factos quando os factos estragam uma boa história? Para nada. Então podemos manter o resumo original da entrevista.

- Eu sou o Ronaldo da música mas pago impostos.

 

O Marcelo teve um rendez-vous

Depois de desmaiar em Braga por causa de uma intoxicação alimentar que terá apanhado na Rússia o Marcelo, let's skip the "Professor Rebelo de Sousa", foi aos Estados Unidos da America falar com o Donald Trump.

Os seus níveis de energia talvez se devam também a algum medicamento que lhe deram para acordar do desmaio, porque mal chegou à Casa Branca deu ao Donald Trump um passou-bem que o ia arrancando do chão, talvez um golpe aprendido quando era praticante de Aikido, talvez aprendido no seu rendez-vous anterior como o presidente macho-alfa Vladimir Putin.

Mas a energia do passou-bem não se comparou com a da conversa, que foi registada para a eternidade pelas televisões logo a seguir a uma declaração do presidente Trump sobre a substuição de um dos juízes do Supremo Tribunal que a precedeu.

E entre o que eles disseram, o que quiseram dizer e o que pensaram, a conversa foi mais ou menos isto.

- Anyway I'd like to tell that we have a very long lasting friendship and partnership...

- Yes.

- ... it started the moment we recognized you...

- Thats right.

- ...we were the first neutral country to recognize United States of America independence...

[assentar com a cabeça]

- ...although we had as our oldest ally England...

- Hum, hum.

- ...so it was courageous at that time, and I don't know if you know it, but your founding fathers celebrated the independence with our wine, with Madeira wine, they made a toast...

- Good taste!

- ...with our Madeira wine, it's a long story...

[Ganda seca, este gajo pediu aos assessores a história da amizade entre Portugal e os EUA e não se vai calar enquanto não a desboninar toda e ainda vamos no século XVIII]

- ...Madeira island also gave to the world Cristiano Ronaldo, don't forget that Portugal has the greatest football player in the world...

- Oh... [Tirem-me daqui]

- ...Cristiano Ronaldo is now in Russia, by the way, my friend Putin sent a "Hi" to you...

[Tenho que ver se arranjo uma coisa qualquer para dizer a ver se ele fecha a matraca]

- ...Cristiano Ronaldo has balls the size of watermellons, you can see it in his statue, balls of Madeira, wooden balls...

- Right, thats right.

- ...so if you go to Russia before the championship ends Cristiano Ronaldo will still be there and you can send him my "Hi"...

[Já sei!]

- ...as Portugal will still be there and wanting to win...

- So tell me, how good is he as a player, are you impressed?

- I'm very much impressed, he's the best player in the world...

- So, will Cristiano ever run for president against you?

- O caralhinho é que ele me tira o lugar! Pensas que o filho de uma criada de servir alguma vez chega a presidente, seu chimpanzé de cabelo alaranjado? Portugal is not just the United States!

Seguiram-se perguntas da comunicação social sobre o tema que realmente lhes interessava naquela sessão, a substituição do juiz do Supremo Tribunal que se reformou, e o Marcelo ficou sossegadinho durante o resto da sessão. A pergunta tinha resultado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:02
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Gringos

Não sou americanófilo: detesto coca-cola, uma mistela açucarada que provoca prisão de ventre; não tenho um indevido respeito por Warhol, ou pela cultura pop; gostando muito de automóveis, acho a generalidade dos americanos do pós-guerra uma grande piroseira; não aprecio familiaridades de trato indiscriminadas, que desvalorizam a amizade e a intimidade de quem a merece ou tem; não acho que o sucesso seja a medida de todas as coisas; confundo os génios contemporâneos da música rock ou dos outros géneros populares uns com os outros, apenas lembrando bem os da minha adolescência; não aprecio a maioria das séries enlatadas americanas; e, sem estar certo de o conseguir sempre, há muito que aprendi a ligar mais ao valor das coisas que ao seu preço.

 

Se a vida me tivesse imposto a emigração como forma de abandonar a pobreza ou fazer uma carreira, e se tivesse escolha, os EUA não figurariam em nenhum dos dez primeiros lugares; e, se para fazer uma formação académica, surgisse uma oportunidade de a acabar numa instituição prestigiada americana, encararia o tempo passado naquele abominável país como um exílio.

 

Tudo isto, e mil coisas mais, está ainda no domínio do superficial. Mas não o está o lado puritano da sociedade americana, a sua religiosidade generalizada, a violência bárbara das suas instituições criminais e penais, o respeito acéfalo pela lei, qualquer lei, e pelas polícias, a obsessão com o crime, o castigo, o sexo e a moda, o grau de judicialização absurdo de todo o conflito trivial, e a importância excessiva da opinião pública, transportada com pouca mediação para o sistema de decisão política e judicial.

 

Ou seja, boa parte do que execro é o que muitos dos meus amigos admiram e, pior, gostariam de importar, que Deus lhes perdoe.

 

Porém: Foram os EUA que vieram salvar a Europa de si mesma, duas vezes no século passado; que nos protegeram, e ao nosso modo de vida, desde o pós-II guerra até à implosão da URSS; que nas ciências, incluindo as sociais,  e na tecnologia, têm liderado o mundo, apenas há pouco (desde que Deng Xiaoping renovou o comunismo pelo expediente de lhe manter o nome e as instituições enquanto instaurava o capitalismo) se adivinhando um rival; que na música, no entretenimento, na moda (eu uso blue jeans, essa é que é essa), no ensino, até na literatura (ou pelo menos na edição) e nas Artes, têm dominado. E, finalmente, que têm servido como um magneto para os deserdados do mundo, e para os cérebros sem futuro, que querem todos ir para lá.

 

Ou seja, eu não quereria ir; mas toda a gente quer.

 

Toda a gente quer porque lá há oportunidades; e em outros sítios não. Importa portanto perceber por que razão elas lá estão.

 

Os pais fundadores da América (John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison e George Washington) pertenciam à elite dos colonos brancos. E nenhum deles ignorava a história da Europa, de cujos emigrantes eram descendentes, e menos ainda as razões porque os seus ascendentes europeus tinham emigrado. Quis o destino, e as circunstâncias, que fossem homens de excepção. E os ares do tempo, o mesmo que inspirou a Revolução Francesa, mas sem a carga das instituições do Velho Regime, das tradições e da vizinhança de países hostis, permitiram-lhes desenhar uma Constituição que acomodasse a liberdade religiosa, o laissez-faire na economia, o respeito da propriedade privada, o império da lei com a igualdade dos cidadãos perante ela, os direitos dos Estados federados e a separação dos três poderes.

 

Era boa, a Constituição. Tanto que, após a vaga inicial de 10 emendas, em 1791, apenas houve mais 17 (ou 16, porque uma emenda revogou outra), e o conjunto está ainda em vigor. O país era pródigo em riquezas naturais, como outros. Mas, ao contrário dos outros, não havia uma aristocracia hereditária, mas havia uma imensidão de terra para arrotear e explorar, já meia deserta dos locais que as infecções haviam dizimado (o que restava foi cristãmente exterminado ou acantonado em reservas), e a essa tarefa se dedicaram vagas sucessivas de emigrantes brancos, oriundos pela maior parte do Velho Continente, sobretudo Irlandeses, Ingleses, Escoceses, Italianos e outros. Tinham como denominador comum a língua, que quando não era o inglês aprendiam, as instituições, o respeito pelas tradições e cultura das diferentes comunidades, que era a única maneira de conviverem sem guerras, e o cristianismo, em múltiplas denominações mas sobretudo nas protestantes com sua a ética de trabalho.

 

Havia, sobretudo no Sul, negros, emigrantes forçados. E estes eram escravos, o tempo da sua libertação formal havia de vir mais tarde, com a Guerra Civil. O do seu reconhecimento como cidadãos na posse de plenos direitos ficaria já para os anos sessenta do séc. XX; a tentativa dos poderes públicos para, através de medidas de discriminação positiva, melhorar a condição social do negro, para as décadas seguintes; e o falhanço clamoroso dessas tentativas para os nossos dias.

 

Foi com a liberdade económica, o respeito da propriedade, o influxo de emigrantes ambiciosos e trabalhadores, susceptíveis de se integrarem, que o país cresceu e se tornou na primeira potência económica e militar no mundo. E quando, muitos anos mais tarde, o presidente Kennedy, especialista em frases sonoras e ocas, declarou no seu discurso inaugural: “And so, my fellow Americans: ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country” já na Europa se estava a enraizar um Estado Social onde os cidadãos são educados de pequeninos a pensar precisamente o oposto.

 

A eleição de Obama representou a ultrapassagem definitiva do racismo difuso, uma conquista civilizacional e um marco na história americana. Mas sendo a personagem, como era, o mais parecido com um socialista europeu que um presidente americano pode ser, deixou um rasto de intervencionismo na economia e de estatização da vida social (com o felizmente falhado Obamacare, por exemplo) que, se aprofundado, saparia a flexibilidade, a agressividade e o dinamismo da economia. Dito de outro modo: que anularia exactamente parte daquela diferença que faz que a América seja rica e poderosa, enquanto os seus vizinhos do Sul fornecem levas de emigrantes clandestinos oriundos de países onde a retórica oficial, e a prática política, são de justiça social, igualitarismo e estatismos sortidos.

 

O motto de Trump, “make America great again” não foi feito possivelmente a pensar em nada disto, mas antes no desequilíbrio comercial dos EUA com os seus parceiros comerciais, em particular a futura superpotência rival, o desemprego crónico de antigas cidades industriais em ruínas, a estagnação dos salários da classe média, o multilateralismo internacional das decisões que afrontam interesses americanos, e o sufocante newspeak a que se convencionou chamar discurso politicamente correcto.

 

Trumpista é agora um insulto, do qual, com bonomia do meu lado, tenho sido objecto na minha limitada esfera de conhecimentos e amizades. E o Donald dos tuítes torrenciais e contraditórios, do vocabulário limitado e primário, das reacções intempestivas, e do inacreditável mau gosto, decerto não ajuda quem não tenha uma posição de princípio contra a maioria das suas posições.

 

Sucede que, quando foi eleito, escrevi um texto que acabava assim: “Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim. E, se não for, também não perco o sono”.

 

Um ano depois, constatava que Trump, afinal, já tinha para apresentar uma lista de sucessos. E agora que está envolvido em duas guerras, uma comercial e outra para conservar o direito de selecionar os reforços do plantel americano, e impedir que os EUA se transformem num México em ponto grande, talvez fosse tempo de a direita lhe dar o benefício da dúvida. Porque, sendo certo que os políticos de esquerda costumam ser julgados pela bondade e superioridade das suas intenções, e abstraindo dos resultados quase sempre desastrosos, deveriam os de direita preocupar-se menos com questões adjectivas e mais com os resultados.

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publicado por José Meireles Graça às 23:32
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Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Maquineta avariada

A maquineta custou para cima de dois milhões de euros, era à época o último grito, os dois tipos que receberam formação para trabalhar com ela ficaram impressionados com a sofisticação do equipamento, os horários finlandeses e a merda da comida local.

 

Prudentemente, fizemos um seguro contra avarias. E, embora destas houvesse muitas, e a assistência se revelasse caríssima, abstivemo-nos de as reportar por caberem dentro da utilização e desgaste normais.

 

Até que, em 2013, catrapum, um badagaio total.

 

Veio o especialista e deu um veredicto, e um orçamento, desagradáveis: a coisa ficaria bem acima de 40.000 euros, mas só desmontando é que se podia apurar a extensão dos estragos, e tal operação implicava a deslocação de técnicos estrangeiros durante xis dias, a tanto por cabeça e dia, mais viagens.

 

Inteirada destes tristes sucessos, a companhia de seguros ligou o complicador: papeladas, relatórios, trocas de e-mails. E, após peritagem por um técnico que nomeou, informou que era necessário desmontar a máquina para apurar o custo real da reparação, que ao técnico em questão, que do assunto sabia sobretudo que tinha de agradar a quem o contratou, “parecia” estar orçamentado com manifesto exagero.

 

Informámos que a desmontagem custaria em si um montante elevado, constante aliás do orçamento que havíamos apresentado, e que entendíamos dever ser a seguradora a suportar tal custo; que não víamos nenhum inconveniente em que ela escolhesse outra firma, e não o representante da marca, para efectuar a reparação, desde que garantisse o resultado; e que o arrastar de pés que toda a indecisão nos estava a provocar ocasionava um prejuízo para o qual não deixaríamos de exigir indemnização.

 

Seguiu-se a troca da correspondência em língua de pau em que as companhias – as que conhecemos – estão especializadas. E em 2014 foi interposta a competente acção judicial, da qual não ouvimos mais falar até aí há pouco menos de um ano, quando o tribunal exigiu concretização dos prejuízos (tarefa aliás quase impossível, por razões que aqui não cabem).

 

Um dia chegou a notificação para toda a gente comparecer no passado dia 10 de Maio no tribunal. E lá se pediu às testemunhas, das quais a principal era um ex-trabalhador colocado na Itália, o sacrifício.

 

Da companhia veio um advogado simpático; ao nosso foram dadas instruções para aceitar, se lhe fosse proposto um acordo extrajudicial, um mínimo de determinado montante; e após rapidíssimas negociações foi acordada uma indemnização de 34.000,00 euros.

 

A juíza homologou o acordo, no qual a seguradora se comprometia a enviar “no prazo de 30 dias” um cheque daquele valor para “o escritório do “ilustre mandatário da autora”; o representante da empresa, que era este vosso criado, apôs a sua conceituada assinatura; a juíza sorriu: e todos, menos a senhora, fomos ao snack ali perto, debaixo de um sol radioso.

 

Fez-se justiça? A juíza achará decerto que sim, acaso não foram as partes que desistiram do conflito? O advogado da companhia achará decerto que sim, então a companhia não acabou por pagar muitíssimo menos do que teria pago se aceitasse a reclamação de há cinco anos, e os prejuízos, fora o que poupou em juros? O advogado da empresa achará decerto que sim, então não conseguiu uma indemnização de valor superior àquela que o cliente o havia autorizado a aceitar?

 

Eu acho que não, que não se fez justiça. Os juízes sobrecarregados apreciam acordos, que não dão trabalho, em lugar de sentenças, que dão; os advogados, que não querem desagradar aos juízes, porque não ganham nada com isso, também os preferem, se puderem evitar julgamentos; as companhias de seguros, cientes destes factos, especializaram-se em deixar seguir ao menor pretexto as coisas para tribunal, certas de que não correm quaisquer riscos reais, e só podem ganhar com tais práticas; e as empresas, como os cidadãos, sabem que um mau acordo é preferível a um julgamento de resultado incerto, e que os meios de que dispõe uma companhia de seguros, especializada nestas mascaradas, excedem quase sempre aqueles dos que as demandam.

 

Ao trigésimo dia chegou, não o prometido cheque, mas um recibo: só assinando recibos declarando que se recebeu o que não se recebeu, portanto emitindo um documento falso, é que as companhias pagam. E não pagam logo, é preciso levar o recibo a um sítio qualquer e esperar que façam uma transferência.

 

É claro que eu, se fosse juiz e pudesse deixar de o fazer, não homologaria um acordo que junta a prepotência ao abuso, e no mínimo informaria os senhores advogados que não eram precisos 30 dias, nem recibos falsos, nem assinaturas, nem chatices.

 

E é claro que existe uma entidade de supervisão das seguradoras à qual pode recorrer quem quer que, por ingenuidade, imagine que as entidades de supervisão supervisionam alguma coisa em Portugal. Mas a mesma experiência que leva os cidadãos prudentes a aceitar acordos injustos também aconselha a que não se perca tempo e recursos com entidades que existem para fingir que servem a celebrada defesa do consumidor.

publicado por José Meireles Graça às 16:27
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Sexta-feira, 15 de Junho de 2018

Cecília Meireles

Na última sexta feira entrei, novamente, numa sede partidária para tomar partido numa disputa interna. Não o fazia há anos. Porventura, demasiados anos, mas a vida é assim mesmo e há um tempo para tudo. E ontem – que foi já na sexta-feira – foi dia de voltar a tomar partido, dizer presente e não deixar pela inação que o melhor seja preterido pelo sofrível.

 

Poucos, talvez não mais do que os dedos de uma mão, seriam os dirigentes do CDS que me fariam perder uma noite familiar para voltar às sedes partidárias. Mas é a Cecília que vai a votos e não poderia deixar de o fazer. Naturalmente, o meu apoio de pouco vale: não mobilizo qualquer sindicato de voto e nem o meu próprio voto lhe poderei deixar, porque ainda militante em Aveiro. Mas fica a certeza que estive do lado certo num momento importante. E, nesta disputa, estar do lado certo é estar do lado da Cecília que representa o melhor que existe na política; precisamente o contrário, há que não ter medo de o dizer, do seu adversário.

 

E quem tem estado na vida civil sabe bem como a Cecília Meireles é querida e apreciada externamente. Apreciada pelas suas qualidades. Querida por ser a prova que é possível ter políticos dedicados, competentes, verdadeiros representantes do seu eleitorado.

 

E a Cecília não deixou desiludiu: um extraordinário discurso, mobilizador, com ideias, mas também com um conhecimento profundo do Partido. Um equilíbrio que dificilmente algum outro candidato algum dia poderá ter.

 

Por isso, a pergunta que cada um deverá fazer é se está, verdadeiramente, preparado para prescindir de um quadro com provas dadas, por qualquer teoria de contabilidade interna.

 

É verdade que ouço muitas teorias sobre a necessidade de romper com o passado, de reequilibrar forças, de dar uma lição. O que ainda não consegui ouvir, porque, verdade seja dita, não é possível fazer o argumento, é que a Cecília não seja a candidata mais bem preparada.

 

Ora, esse tem sempre de ser o critério: o mérito. E quanto ao mérito estamos falados, não há sequer qualquer comparação.

 

Não sei se a Cecília ganhará, mas sei que se perder o CDS estará a passar um atestado ao seu valor maior, ao seu valor fundacional e que animou sucessivas gerações de militantes: os melhores, os mais preparados, os mais trabalhadores devem singrar e não os que têm mais amigos ou mobilizam mais.

 

Não sei se a Cecília ganhará, mas sei que se perder o nosso eleitorado não perdoará não termos sabido escolher quem ele mais aprecia.

 

Não sei se a Cecília ganhará,  mas sei quem é que, fora das sedes, poderá fazer a diferença.

 

Num momento de viragem em que o CDS tão desesperadamente necessita de intervenção pública, credibilidade e estar em sintonia com o seu eleitorado, a Cecília é, obviamente, a única escolha possível.

publicado por Diogo Duarte Campos às 00:47
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

Sucedâneo

Laurence J. Peter não estava, mas poderia estar, a pensar em Rui Rio quando inventou o princípio que leva o seu nome.

 

Rio foi um excepcional presidente de câmara, muito melhor do que quem o precedeu, quem veio a seguir e qualquer das nódoas que têm ocupado a mesma cadeira na capital, incluindo os dois velhacos que por lá passaram em estágio para a presidência da república um e para a chefia do PS e do governo, o outro.

 

Saneou as contas do município; hostilizou os bonzos da cultura, tratando com desprezo e arrogância a parasitagem dos subsídios; e pôs o capo local do futebol no lugar que a ele, e aos seus colegas dos outros dois grandes, naturalmente compete.

 

Fez isso ganhando eleições, com o que provou que não é preciso lisonjear nem a gente da cultura nem a do futebol nem a da comunicação social para o conseguir, desde que o eleitor acredite na seriedade de propósitos e na capacidade de os realizar. Convém ainda, para conseguir o primeiro mandato, que o antecessor não tenha caído no goto do munícipe, como era o caso no Porto de 2002.

 

Mas isso é nas eleições concelhias, nas nacionais outro galo canta: a quase totalidade dos eleitores depende, directa ou indirectamente, do Estado, para que este os sustente, lhes arredonde o fim do mês, ou lhes crave mais ou menos bandarilhas no lombo sofrido de contribuinte; e qualquer ignoto secretário de Estado tem mais poder no dedo mindinho para beneficiar ou prejudicar um grupo de cidadãos no país do que o senhor presidente da câmara, com o corpo todo, para fazer o mesmo num município.

 

No tempo já decorrido desde que Rio tomou conta do PSD quem tinha ilusões perdeu-as: o homem tem como ambição atrelar o PSD ao PS, com o meritório propósito de afastar da governação os pés comunista e demente do tripé geringôncico; e conta com os seus quadros, e a sua reputação de seriedade e de apreciador de contas à moda do Porto, para fazer um segundo lugar honroso numa coligação centrista, e ganhar créditos para um primeiro nas eleições seguintes.

 

É pelo menos o que diz gente subtil. Sucede que mesmo que o PSD não fosse, como sempre foi, um saco de gatos dos quais uma parte, a melhor, tem anticorpos anti-PS; mesmo que na giga-joga da baixa política Costa não fosse um cinturão negro, contrastando com a alvura do de Rio: o país não pode ter esperança de romper com a situação deprimente da sua dependência dos juros artificiais que o BCE garante, da sua dívida pública que resiste tenazmente a qualquer redução sustentada, do seu Estado que não se reforma e faz a economia crescer poucochinho, não obstante o bodo dos fundos europeus e a sorte grande do turismo, enquanto o PS, e o resto da esquerda, não fizerem um estágio na oposição de pelo menos dois mandatos, e idealmente uma geração. 

 

Resumamos: o PS é parte do problema, não da solução. E portanto é errada qualquer estratégia de contemporização, Rio é um líder a prazo, e quem não for socialista de raiz, ou não comprar o paleio demagógico do virar a página da austeridade e o resto da propaganda com que o PS pinta de cor de rosa a dança do país à beira do abismo pode fazer melhor do que abster-se, e votar no CDS.

 

Entretanto, não vem mal ao mundo se Rio se lembrar de acertar uma, e foi esse o caso com o estudo “Uma política para a infância”. O texto não chega a 90 páginas e o palavreado escusava de ser em oficialês, mas tem gráficos que o aligeiram e não escamoteia mas pelo contrário ilustra convincentemente a bomba-relógio demográfica em que nos deixamos acantonar.

 

Tencionava comentar o documento medida a medida e abalancei-me, Deus me perdoe, a ir lá atrás ver o abono de família, o digno avô dos apoios aos pais com filhos – convém ter uma perspectiva histórica para tudo. E encontrei um precioso estudo, de 2009, de um Gabinete de História Económica e Social, que se lê bem e desfaz algumas ideias feitas sobre o assunto, a começar pela data do primeiro  abono – 1942. Mas entretanto calhou ler nesta notícia do Eco que “o financiamento deste projeto acontecerá por via de ganhos de eficiência no sistema de educação até porque ‘as crianças que têm um bom início têm uma menor probabilidade de repetir o ano”; e pouco depois, nesta notícia do Observador, o próprio Rio esclarece que não faz a menor ideia de onde vai buscar os 500 ou 600 milhões de euros que a coisa custa por ano.

 

E perdi a vontade de sequer pensar muito no assunto. Porque o problema do inverno demográfico é grave e merece estudo e medidas. Mas o do endividamento do país ainda é mais e prometer às pessoas resolver seja que problema for sem o casar com os constrangimentos da dívida é transformar as eleições em leilões de bens emprestados.

 

De resto, como os prometidos apoios são até aos 18 anos de idade, conviria ter a certeza de que o país não vai falir pela quarta vez nesse período, porque das anteriores o Estado não hesitou em cortar no que se estimava adquirido, via inflação nas duas primeiras e via cortes propriamente ditos na última.

 

Ora, para fazer leilões de bens furtados, como é o caso quando se prometem coisas a uns e se agravam impostos a outros; e para acrescentar à moscambilha bens a crédito, suposto que haja quem o conceda, já temos o PS, que é o artigo genuíno. Não precisamos de um sucedâneo.

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publicado por José Meireles Graça às 19:27
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Segunda-feira, 4 de Junho de 2018

O Coelhinho Čuraku

Esta é uma história de, e onde entra, o meu amigo Fernando Relvas, o autor de novelas gráficas, como ele se auto-classificava, ou autor de banda desenhada, como é normalmente classificado, falecido em Novembro de 2017. A história foi contada publicamente na Biblioteca Fernando Piteira Santos na Amadora no último fim-de-semana pelo jornalista Viriato Teles, que também entra nela, na cerimónia do lançamento em álbum da obra O Espião Acácio, originalmente publicada na revista Tintin entre 1978 e 1980, a que tive o prazer de assistir e onde tive a oportunidade de rever e reviver amizades que não revia há muitas décadas, que eu já não vou para novo.

Mas antes de entrar na história convido os leitores a ler a prancha que anexo, da série O Atraente Estranho publicada no semanário Sete algures em 1987, que me foi gentilmente disponibilizada pela viúva Anica Govedarica, artista plástica que veio viver com ele para Portugal depois de terem vivido alguns anos na sua Croácia natal, e a quem deixo o meu agradecimento, e o de quem, chegando ao final, gostar desta história.

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Já leram a parte pública da prancha? Passemos então aos bastidores e vamos lê-la por trás.

 

Era uma vez, o Teatro Aberto estreou uma peça que retratava uma prostituta.

A redacção do Sete foi incumbida de fazer uma reportagem da estreia e, querendo fugir ao figurino tradicional das reportagens sobre estreias de peças de teatro em que se recolhem depoimentos de autores, encenadores e actores, gente com pedigree cultural, o Sete, que era um jornal cultural muito light mais dedicado à música ligeira do que à clássica e à banda desenhada do que à literatura séria, decidiu convidar para a estreia uma prostituta e no fim da peça entrevistá-la. E assim fez.

Acontece que em 1987 esta iconoclastia devia ser politicamente incorrecta e houve gente da cultura que se insurgiu contra esta desqualificação simbólica da cultura séria que consistia em levá-la a uma prostituta incapaz de a compreender, ou vice-versa. E destacou-se na denúncia da reportagem um colaborador do Jornal de Letras, o sacrosanto Jota Éle que pertencia à mesma editora e tinha redacção no mesmo corredor do Sete, que publicou um comentário demolidor da ousadia dos jovens vizinhos por brincarem com uma arte séria como o Teatro. Mas não um colaborador qualquer, sendo que no Jota Éle qualquer um seria um grande vulto da cultura portuguesa, mas sim um verdadeiro grande vulto da cultura portuguesa, nascido na Checoslováquia e a viver em Portugal há muitas décadas, tantas quantas eu tenho de vida, e eu já não vou para novo.

Tão violenta foi a crítica que os jovens não a quiseram deixar passar sem lhe responder com elevação. E no episódio seguinte de O Atraente Estranho o Relvas introduziu uma nova personagem, o justamente chegado da Checoslováquia Coelhinho Čuraku, nome que significa em Checo, nas suas próprias palavras, e porque quase ninguém percebe Checo, macieira.

Agora convido-vos de novo a lerem a prancha vista dos bastidores e a perceberem quase tudo na história do Coelhinho Čuraku.

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Quase tudo, porque em Checo čuraku não significa macieira. Significa caralho, mas isso é uma coisa que na altura só os checos puderam entender, e agora todos os leitores podem graças ao Fernando Relvas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:35
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Domingo, 3 de Junho de 2018

Abençoados sejam os pobres de espírito porque deles será o Reino dos Céus

Quando Cristo disse que os pobres de espírito eram abençoados e tinham lugar assegurado no Reino dos Céus estava certamente a pensar também nos artistas que conseguem vigarizar os outros sem perder a inocência.

Um dia, no fim do século XX, uma dessas artistas foi a convidada do programa da manhã da Antena 2, O Despertar dos Músicos, se a memória não me falha na altura em que a companheira de cabine do locutor Vítor Nobre era a, então, pianista Gabriela Canavilhas.

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No meio da conversa perguntaram-lhe pela bolsa. Na altura tinha sido instituída uma bolsa de subsistência de apoio à criação artística, a que ela tinha concorrido e lhe tinha sido atribuída, que era de trezentos contos por mês, o que na altura era dinheiro a sério correspondente, de acordo com os deflatores publicados pela Pordata, a dois mil trezentos e trinta euros actualmente. A pergunta continha alguma malícia, porque nem toda a gente considerava justo atribuir a criadores artísticos já consagrados com obra publicada, como era o caso dela, bolsas de subsistência de um valor correspondente a um salário inatingível pela esmagadora maioria dos trabalhadores. Mas ela não se desarmou e não acusou a malícia nem perdeu a inocência. E respondeu que os trezentos contos a ela lhe davam muito jeito, e para os contribuintes era um valor tão insignificante que nem lhes fazia diferença.

A falta de capacidade de detecção da malícia indicia alguma incapacidade para perceber o mundo e os outros, aquilo a que no tempo de Cristo se poderia designar por pobreza de espírito, mas também pode indiciar uma dose tamanha de inocência que se aproxima da santidade, que mais do que compensa a eventual esperteza de conduzir a inocência de um modo não aleatório mas sempre no sentido de proporcionar incrementos do conforto material ao inocente.

Conseguindo associar a inocência de um Chauncy Gardiner ao espírito empreendedor de um José Sócrates, a criadora artística assegurou nesse dia um lugar no Reino dos Céus. Que bom jeito lhe tem dado ao longo destas últimas décadas, em que a malícia não lhe tem conseguido perturbar o percurso de incremento patrimonial dentro da virtude.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:49
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2018

Eutanásia

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Ontem o parlamento votou, e rejeitou, os quatro projectos do PS, do BE, do PEV e do PAN para despenalizar a eutanásia.

Eu sou a favor da despenalização da eutanásia. Em circunstâncias muito específicas. Quando alguém, seja o cônjuge, um familiar, um amigo, ou mesmo um enfermeiro ou um médico, ajuda a acelerar sem sofrimento a morte de alguém que quer morrer por se encontrar em estado terminal, irreversível, desesperado e em grande sofrimento, e posso repetir que quer morrer, não está a cometer um acto que eu consiga classificar como um crime, nem sequer censurável, mas simplesmente um acto de amor ou compaixão, valores que estão no núcleo daquilo de que se fala tanto actualmente sem sempre se fazer um esforço por se entender o que se diz, os valores humanistas e cristãos que definem a nossa matriz civilizacional. Está, acessoriamente, a correr o risco de vir a enfrentar consequências penais por cometer um acto que é classificado pela lei como um crime, o que acrescenta ao amor e à compaixão um desprendimento algo temerário dos seus interesses pessoais para acudir a quem lhe solicita essa ajuda.

E por mais exercícios de retórica dos conceitos teóricos de defesa da vida ou da liberdade de dispôr dela que se esgrimam, isto não é, aos meus olhos, um crime, é até um acto louvável. E que me atire a primeira pedra por condescender com este crime quem se tenha levantado indignado e saído da sala durante a projecção do filme Voando sobre um ninho de cucos quando o chefe Bromden eutanasiou Randle McMurphy, e que se abstenha de a atirar quem interpretou essa eutanásia a a fuga subsequente do chefe índio da instituição psiquiátrica onde ambos estavam aprisionados como um símbolo de libertação (do comunismo, porque era a opressão do comunismo que o filme metaforizava).

E se à luz da lei um acto louvável é considerado um crime a lei está mal. E devia ser alterada.

Posto isto, obviamente que se fosse deputado à Assembleia de República ontem teria votado contra os quatro projectos.

Porque se a situação específica em que eu defendo a despenalização da eutanásia é coberta por eles, e se foi amplamente usada pelo spin dos proponentes para procurar ganhar a empatia do público para os seus projectos, o que se faria a partir da sua aprovação seria certamente a montagem de uma indústria, pública ou privada, da morte assistida, seja para servir o suicídio em condições mais discretas e menos chocantes do que quando é praticado pelos próprios com os meios a que conseguem deitar mão, seja mesmo para fazer morrer pessoas sem capacidade para impedirem a sua própria morte, porque não há lei que não contenha, por mais cuidadosa que seja a sua formulação, alçapões que possam ser accionados para contornar as suas boas intenções, além de conceder um novo poder ao Estado, o de decidir administrativamente, arbitrando os casos de eutanásia, quem deve morrer e a quem deve ser permitido tentar sobreviver.

E a quem menoriza o risco da intervenção do Estado nos processos de decisão sobre a vida e a morte de pessoas aconselha-se uma reflexão sobre o caso muito recente do bebé Alfie Evans cujo estado decorrente de uma doença neurológica degenerativa incurável foi considerado irreversível pelos médicos do hospital britânico onde estava internado, que consequentemente tomaram a decisão de desligar as máquinas que o mantinham vivo contra a vontade expressa e levada até às últimas instâncias da justiça dos pais, e a quem, adicionalmente, os tribunais negaram a possibilidade de ser transferido para um hospital no Vaticano onde seria mantido vivo enquanto se procurasse uma cura para a sua situação, deste modo decretando a sua morte imediata, e não vale a pena dizer irreversível, porque a irreversibilidade da morte está na sua natureza. Quando o Estado tem legitimidade para decretar a morte de pessoas há mesmo a possibilidade de a vir a decretar, mesmo contra a vontade delas.

Isto para além de esta iniciativa fazer parte do conjunto de iniciativas legais no domínio da engenharia social promovidas por elites muito minoritárias mas muito activistas e muito acarinhadas pelos media que procuram mudar a sociedade à força, quer queira, quer não, quer tenha noção do que lhe está a ser proposto ou imposto, quer não. De uma maneira geral, aquilo que foi baptizado de causas fracturantes que são a base da sobrevivência política do BE desde que tomou consciência que como associação de velhos trotskistas, comunistas, estalinistas e maoistas nunca chegaria a lado nenhum.

Tudo junto, ainda bem que os projectos foram rejeitados.

 

Mas mais esta iniciativa de definição da agenda política pelo BE, é o BE que lança e dinamiza estas iniciativas e as participações de outros partidos e movimentos decorrem de terem entre eles satélites do BE, como é o caso do PS, ou são meros atestados de vida de existência política, como são os casos do PEV e do PAN, foi também um interessante caso de estudo no sistema político português.

A começar pela posição do PCP. O PCP está arredado do poder em Portugal há mais de quarenta anos mas continua a não ser, como nunca foi, um partido de protesto, mas sim um partido de poder, organizado e pronto a assumir o poder no dia seguinte, fosse em 25 de Abril de 1974, fosse agora, se lhe fosse dada essa oportunidade. E como é um partido de poder é socialmente conservador e não alinha nas modas, nomeadamente na das causas fracturantes. O PCP declarou-se, pois, prontamente e com uma fundamentação muito sólida, contra a despenalização da eutanásia. E defendeu-a solidamente no debate parlamentar através do experiente deputado António Filipe. Votou em bloco contra os quatro projectos.

Mas mesmo o PCP percebeu há trinta anos que o conservadorismo social pode ter custos eleitorais, e enquanto vivemos em democracia do tipo ocidental é por eleições que se chega ao poder, e deixem-me sublinhar que o termo que usei "vivemos" tanto é a primeira pessoa do plural do presente do indicativo como do pretérito perfeito, ou seja, tanto pode significar que ainda vivemos como que já vivemos mas entretanto deixámos de viver porque o acesso ao poder deixou de ser conquistado por vitórias eleitorais, e decidiu abrir um franchise para assegurar uma oferta política mais adequada aos novos tempos, o PEV.

O PEV é uma preciosa jóia de contradições. Nunca concorreu a eleições sem ser em coligação com o PCP, de modo que apesar de manter um grupo parlamentar de dois deputados desde que entrou no parlamento nunca teve um único voto e ninguém pode estimar a sua base eleitoral. Foi criado como um partido ecologista, era esta a causa fracturante dos anos 80 do século XX quando, entre outros assuntos, emergia o debate sobre a energia nuclear, justamente na época em que o descalabro do comunismo soviético também se manifestava em catástrofes ambientais, nomeadamente nucleares. Permitiu ao PCP alargar a cobertura do eleitorado a jovens ecologistas, e com o passar do tempo adeptos das outras causas fracturantes que foram emergindo, e duplicar os seus tempos de intervenção no parlamento por ter passado a ter, não um, mas dois grupos parlamentares aparentemente independentes. Apesar da sua postura quase sempre institucional foi uma chico-espertice a que o PCP recorreu e tem mantido. Uma vigaricezinha legal. Pois o PEV cumpriu o seu objectivo de diversificação de públicos do PCP e apresentou também um projecto de despenalização da eutanásia e votou favoravelmente os quatro projectos.

O CDS foi naturalmente conservador, não frustrou as expectativas de ninguém, e rejeitou em bloco os quatro projectos.

O mais curioso foi que, numa inversão do papel que desempenham tradicionalmente no sistema político português e nos das outras democracias, onde os grandes partidos definem os blocos basilares das decisões políticas e quando nenhum deles detém circunstancialmente maioria suficiente para fazer valer a sua são os pequenos partidos que determinam o resultado assumindo um papel de fiel da balança, na votação dos projectos de despenalização da eutanásia foram o PS e o PSD que, por terem votos divididos, assumiram o papel de fiéis da balança, sendo que, se votassem em bloco de acordo com as suas posições maioritárias tradicionais, o PS a favor e o PSD contra, os projectos seriam rejeitados.

No PS, onde no tempo da liderança Sócrates se percebeu que o crescimento fulgurante do BE de eleição para eleição se devia, não a um incremento da receptividade do eleitorado às propostas trotskistas, comunistas, estalinistas e maoistas, mas a ser o único partido que assumia claramente a defesa de causas fracturantes que os grandes partidos se esquivavam a assumir por considerarem um risco eleitoral que lhes podia fazer perder os votos dos seus eleitores habituais se as considerassem indesejáveis, e se esvaziou esse crescimento passando a assumir a defesa dessas causas e com isso conquistanto os votos dos eleitores que só votavam no BE porque as defendia isolado, as causas fracturantes passaram a fazer parte da imagem marca do partido. E o PS reforçou nas legislaturas mais recentes os seus quadros e os seus parlamentares com militantes e deputados que se distinguem apenas pela defesa destas causas e por mais nenhumas, ou, quando vão à discussão em temas políticos ou económicos, tendem a defender posições que não se distinguem em nada das defendidas pelo BE, desde renegar a dívida a depositar grandes esperanças no bolivarismo venezuelano a ver na Angela Merkel uma reencarnação da maldade do III Reich. Até a investir na telegenia.

Com figuras de proa na luta pelas causas fracturantes, a experiência de sucesso a capturar eleitorados bloquistas sem afugentar o seu eleitorado tradicional, e, porque não reconhecê-lo? o recurso aos marketing científico das sondagens e dos focus groups, o PS apresentou naturalmente a sua proposta, que antes do debate foi defendida publicamente pelo primeiro-ministro e pelos mais altos dirigentes do partido. E geriu com alguma destreza, a destreza por que se tem aliás distinguido o primeiro-ministro na gestão de equilíbrios entre interesses divergentes, as vozes discordantes. Se havia uma série de deputados que não concordavam com a despenalização da eutanásia, apenas dois assumiram o voto contra, tendo a generalidade dos restantes votado favoravelmente o projecto do PS e abstendo-se ou votando contra os outros projectos. Os outros deputados do PS votaram favoravelmente os quatro projectos.

Com o PSD foi diferente. O PSD defende tradicionalmente posições sociais conservadoras e tolera tradicionalmente posições individuais divergentes, concedendo habitualmente aos deputados liberdade de voto quando são votadas causas fracturantes. E assim foi na votação dos projectos da despenalização da eutanásia. Só que, ao contrário do que aconteceu no PS, o presidente do PSD defendeu previamente, e de modo um tanto ou quanto histriónico, a posição oposta à mais comum no partido e respectivo eleitorado, a despenalização da eutanásia, primeiro declarando que é um imperativo do Estado despenalizar a eutanásia, posteriormente lamentando hipotéticas pressões dos detractores da despenalização sobre os seus defensores. Já figuras de referência para os eleitores e militantes do PSD, ou para ser mais assertivo, as duas maiores figuras de referência actuais que são Aníbal Cavaco Silva, que é conservador, e Pedro Passos Coelho, que não é, manifestaram publicamente a sua oposição aos projectos. À destreza que tem distinguido o primeiro-ministro a gerir equilíbrios entre interesses divergentes, o presidente do PSD tem contraposto a mais completa inépcia a fazê-lo. É a vida.

E os deputados do PSD votaram esmagadoramente contra os quatro projectos, tendo apenas dois votado todos favoravelmente, mais dois o do PS, e um cada os do BE, do PEV e do PAN, assim como dois que se abstiveram em todos. Divergiram do chefe para se alinharem com as figuras de referência do eleitorado e dos militantes do partido.

O fiel da balança foi, pois, constituído pelos dissidentes dos dois maiores grupos parlamentares e determinou a rejeição dos quatro projectos.

Resta o BE. O grupo parlamentar do BE comportou-se no parlamento como o adolescente que está cheio de razão, ou pelo menos cheio de si próprio, e quer convencer das virtudes do comunismo, porque acaba com ricos e pobres, os pais, que sabem que o comunismo acaba mas é com os ricos e com os pobres, bombardeou os grupos parlamentares do PSD e do CDS com afirmações de superioridade moral a roçar a injúria da insinuação de desumanidade, chegou a esgrimir argumentos liberais, quiçá neoliberais? ao lamentar os excessos do Estado ao dispor da vida dos cidadãos, zurziu no PCP citando-lhe Saramago (vá lá, pelo menos variou um bocado das tradicionais citações do Sérgio Godinho pelo primeiro-ministro) e atirando-lhe às trombas que estava a votar como o CDS. E no fim fez uma birra ao ameaçar que se a Assembleia da República não aprovou agora a despenalização da eutanásia a há-de aprovar seguramente. A garotice habitual de fedelhos mal-formados e mal-educados.

Balanço? Ganharam a credibilidade dos dois partidos mais conservadores, o CDS e o PCP, ganhou o povo que vota no PSD e não quer ver o partido ir atrás das modas bloquistas, e perderam os líderes dos dois maiores partidos que não têm sido capazes, talvez por receio de aparecerem politicamente incorrectos, de cortar claramente as amarras que os prendem ao projecto populista de reengenharia social do BE.

E ganhámos nós. O que nos dias que correm já não é nada mau.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 17:18
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