(Originalmente publicado no Senatus, em 3 de Março de 2012)
Hoje em dia vejo as apostas com muito maus olhos. Antigamente as apostas eram um jogo saudável de virilidade. Os amigos juntavam-se para apostar. Podia ser no número de ovos cozidos que conseguiam ter na boca ao mesmo tempo, na duração de um negócio de importação de arenques, ou no chinquilho. O tipo de aposta variava consoante a natureza do grupo.
Os intelectuais, por exemplo, gostavam de apostar quem é que conseguia primeiro deitar-se com a mulher de um deles. Se apesar de intelectuais tivessem livros publicados, apostavam quem é que se deitava primeiro com o filho de um deles. E se fossem académicos, apostavam quem era o primeiro a conseguir convencer uma galinha a deitar-se com eles. Eram momentos inocentes de confraternização entre a rapaziada. E o máximo que se podia perder era o bigode, uma propriedade no Douro, as jóias da avó ou a própria vida. Nada que cada apostador não estivesse em perfeitas condições de perder. E as apostas sucediam-se, com alvos mais ou menos criativos, montantes variáveis, mas sempre em ambiente de grande jovialidade. Essas apostas acabaram-se.
Agora aposta-se na internacionalização, aposta-se na tecnologia, na bio-diversidade, na divulgação ou num cluster qualquer. Aposta-se na cozinha de autor, na cidadania, no cinema português, na integração e no multi-culturalismo. Aposta-se em coisas que ninguém sabe o que são, mas sobre as quais os especialistas estão de acordo. Já ninguém quer apostar sozinho. Quando é para apostar, temos que apostar todos. Na mesma coisa. Como se isso garantisse o sentido do resultado.
Por isso as televisões encheram-se de apostadores, cada qual mais chato, a esforçar-se em directo por nos convencer a nós, que somos brutos e sisudos, a apostar alegremente naquilo que eles decidiram. Como se isso não chegasse, já de si, para me fazer perder o interesse, agora já ninguém aposta com aquilo que tem. Nem seria bem visto pelos outros apostadores.
Agora é suposto apostar com aquilo que não se tem: o futuro dos nossos filhos, a soberania do país, as pensões dos velhos, o conhecimento das universidades ou o dinheiro dos alemães.
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