(Originalmente publicado no Senatus, em 21 de Janeiro 2012)
De há uns anos a esta parte, e cada vez com mais intensidade, não há dia nenhum em que me livre de ouvir um bitaite sobre as pequenas e médias empresas. De um lado está a necessidade de "apostar" nas PMEs, porque é nas PMEs que está "o futuro" da economia, e porque é nas PMEs que está "a solução" para os níveis incomportáveis de desemprego, e porque cada um pode fazer a sua, desde que devidamente imbuido de algum "dinamismo" e "espírito empreendedor", e mais uma quantidade de convicções que não faltam a nenhum fórum de antena aberta com que, geralmente, me entretenho no trânsito.
A expansão desta consciência aumenta na proporção directa da contracção da procura. E por qualquer razão que ainda não agarrei, por ser necessário reduzir as importações e aumentar as exportações, num país sem indústria e sem comida, parece que estas PMEs devem "direcionar-se" para "a ciência", "a tecnologia" e "as comunicações" (excepção feita a um ou outro produto de pastelaria).
De tal ordem é o fenómeno que as "iniciativas" se multiplicaram, desde os cursos condensados em horário pós-laboral às licenciaturas, ministradas por uma fartura de académicos no assunto e patentes nos depoimentos de todos os jovens que apanham uma câmara de televisão a jeito. O Ministro da Economia, homem moderno e prudente, muniu-se do respectivo "Secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação", uma cara pouco conhecida dos portugueses mas que, por essa razão, aproveito a oportunidade para divulgar. De acordo com o Portal do Governo, existe. E chama-se Carlos Nuno Oliveira.
Há uns dias juntou-se uma gente, supostamente credenciada para o efeito, e chegou-se a um "acordo histórico". Entre outras decisões, negociadas com muitos mexericos que não são para aqui chamados, alterou-se a lei laboral. E a nova lei laboral torna as contratações menos pesadas, porque facilita os despedimentos, flexibiliza os horários de trabalho, e permite aos patrões e aos contratados mais uma série de liberdades que, no fundo, toda a gente tinha por oportunas. Menos o PCP e o Bloco, mas é para isso que eles cá estão.
Depois de ter visto uma série de reportagens a mostrar aos portugueses como era penosa a vida das PMEs, lideradas por gente que se desunhava para manter os seus negócios a funcionar, com uma quantidade de famílias a cargo, que eles conheciam e pelas quais se sentiam responsáveis, pensei que a história ficava por aqui e se passava para outro aspecto da nossa tragédia. Mas, como é frequente, enganei-me.
Agora, a fazer fé no que dizem os comentadores, os politólogos, os gestores e restantes "opinion makers", é preciso remover esses brutos e substitui-los por gente mais "pró-activa". Depois deste "acordo histórico", os empresários portugueses "já não têm desculpa", e "temos um défice de bons empresários", porque estes "fazem questão de ser chamados doutores", mas são "pouco preparados e pouco inovadores", e "não têm formação" para "enfrentar os desafios empresariais da gestão moderna e competitiva". E também ouvi por aí que "é preciso que fique bem claro que, se a economia portuguesa está como está, a culpa não é muitas vezes dos trabalhadores, mas dos erros e das falhas dos nossos empresários".
Estava capaz de jurar que vi ontem o dr. Pires de Lima dizer coisas destas na televisão, mas deve ser impressão minha. Que estes programas passam muito tarde e eu, com o sono, fico muito baralhada.
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