(Originalmente publicado no Senatus, em 19 de Agosto 2011)
O Nuno Santos Silva escreve um post curioso em que, classificando a visita de Bento XVI a Madrid como "um evento" (os adjectivos "mediático e comercial" são, na prática, indissociáveis do substantivo "evento"), encontra uma maneira de defendê-la. Até diz que também gostava de ter uma na terra dele (Portugal).
A explicação vem bastante direitinha, percebe-se muito bem, assim disposta por ponto um, ponto dois, etc., e no fim a devida conclusão, condicionantes incluidas. Linguagem dentro dos limites do tédio, uma coisa como eu gosto.
O ponto quatro diz assim: "As manifestações religiosas que colidam com a liberdade de outras pessoas e com as leis de cada país não devem ser admitidas".
Lamento que o Nuno não perceba que não existe "liberdade" e que, não existindo, defendê-la é pueril.
Porque existem "liberdades". Várias e específicas. E é impossível evitar todas as "colisões", porque se as liberdades de um tiverem sempre que terminar onde começam as liberdades do outro, ninguém exerce liberdade nenhuma. Para isso inventou-se a "tolerância". E as liberdades de uns não devem poder ultrapassar certos "graus de tolerância" tornando-se, a partir daí, "abusos". E os abusos, esses sim, devem ser previstos legalmente e punidos. Por isso, colidir com a liberdade ou colidir com a lei não é a mesma coisa. O Nuno considera que não houve colisão com "a liberdade de outras pessoas". Ou que, pior, essa colisão não é grave se atentarmos aos proveitos comerciais da visita de Bento XVI.
Eu considero que houve colisão com várias liberdades das outras pessoas. O trânsito alterou-se, com transtorno para muita gente. O centro da cidade encheu-se, houve zonas de acesso proibido, os transportes públicos devem ter estado insuportáveis e as televisões dedicaram ao tema horas infindas. Isto para referir apenas as mais visíveis. Agora a dúvida está na legitimidade dessa colisão. Ou seja, onde é que se coloca o risco que desenha o limite do abuso?
Talvez se possa falar de "abuso" quando são agredidas as "liberdades" que são consideradas "fundamentais". Parece-me que até estão listadas num documento qualquer. Se assim for, a liberdade de exercício do meu culto religioso deve ser limitada a partir do ponto em que eu agrida alguma liberdade fundamental de outra pessoa. Nunca antes. E sempre depois.
Não vi qualquer abuso em Madrid, mas o Nuno não se interessa por estes detalhes. Desenha o risco unindo os pontos do balancete a partir dos quais o valor em euros é positivo.
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