Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

O abuso da cafeína

Ele há por aí, dentro do que se designa por Direita, gente que:


- Tem uma insondável admiração pelos E.U.A., as liberdades americanas, o capitalismo americano e os Pais Fundadores.

- Detesta o cidadão americano médio, que nem sequer sabe usar em simultâneo o garfo e a faca, julga que o centro do Mundo fica no Minnesota, e que a História começou em 1776 e os E.U.A. têm uma missão civilizadora.

- Apoia a "construção europeia", designação consagrada para a gravidez dos futuros Estados Unidos da Europa.

- Abomina a dissolução do que resta da independência nacional num estado federal onde Portugal teria, apesar de muita treta, a liberdade de fazer o que lhe mandam, com a mesma influência que tem o Arkansas na América.

- É a favor da despenalização do consumo, produção e compra e venda de drogas, mesmo duras, em nome do realismo no combate ao crime e da liberdade individual.

- Entende que o combate ao tráfico e consumo de drogas deve prosseguir, por a desistência do Estado ter um efeito dissolvente na sociedade e representar uma inadmissível neutralidade.

 - Considera a desigualdade económica entre os cidadãos algo que o Estado deve activamente combater, via redistribuição fiscal.

- Acha que a redistribuição fiscal, se acentuada, tem um efeito de distorção no funcionamento do mercado, e é por isso inerentemente penalizadora do investimento e por consequência do progresso material.

- É a favor, ou contra, o abortamento, as proibições higieno-fascistas, a adopção por casais gays, o laicismo do Estado e ainda quase tudo e o seu contrário.


Bem, tudo tudo não: não há na Direita, pelo menos em teoria e apenas como exemplos que não são exaustivos, adeptos do crescimento do Estado e da despesa pública, da economia vudu e do Estado compreensivo para o criminoso e suspeitoso do homem bem-sucedido; e há uma prevalência de valores conservadores, de pessimismo sobre a inerente bondade da natureza humana, e de crença na realização do bem comum através da mão invisível do mercado.


Uma grande complicação, em suma - nada que quem está de fora verdadeiramente entenda. Ou queira entender.


E porque me lembrei de, ao correr da pena, expectorar estas profundas considerações, alinhadas entre o terceiro café e a hora do almoço, não divulgo.

publicado por José Meireles Graça às 17:36
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O processo de genializamento do artista

 

 

Há uma canção portuguesa que rebenta as escalas do fastio. É aquela do "eles não sabem nem sonham, não sei quê, entre as mãos de uma criaaaaançaaaa". Mas há um estafermo canadiano que faz desta música um exito do funky: chama-se Leonard Cohen.

 

Este maduro, que já nos aborrece há mais de quarenta anos, goza agora de um regime de diuturnidades. O fenómeno é conhecido, mas pouco estudado: por cada cinco anos que passam, os artistas (se sobreviverem) vão ficando mais génios. É o chamado processo de genializamento do artista. Dá-se em paralelo com a fotossíntese, à medida que a tez dos atingidos, mortos de tédio, vai ficando mais verde.

 

Chegados a um certo ponto, estes "agentes culturais" desatam a "obter galardões". De toda a espécie de proveniências. Das mais às menos insuspeitas. E não há príncipe no planeta que não lhes atribua uma merda qualquer.

 

O processo intensifica-se com o aspecto torturado do artista e com a multiplicação das suas "valências"; no caso presente, temos para todas as inclinações. Depois forma-se uma unanimidade na apreciação das suas coisinhas e voilá: "O Leonard Cohen é um gajo genial".

 

O Leonard Cohen tem ziliões de cançonetas e puézias, composições, novelas e arranjatas. Qualquer delas dá dez a zero no "sonho da criança". É um feito difícil. Diria que é uma proeza olímpica. Se um dia me cruzar com ele, dou-lhe um franco aperto de mão.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:51
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Domingo, 15 de Abril de 2012

O socialismo de catalisador

Quem passe uns dias em Londres ou em qualquer outra cidade inglesa notará uma grande quantidade de automóveis com mais de vinte, trinta ou cinquenta anos, ainda em circulação.


Não são objectos de colecção, nem os proprietários gente rica com tiques ingleses de excentricidade. Apenas sucede que o Inglês médio tem mais sentido prático, e amor instintivo ao que é velho, do que os continentais.


Nestes, distinguimo-nos pela modernidade pateta, os sinais exteriores de riqueza a crédito e a prepotência das autoridades: encabeças uma organização imersa em dívidas até ao pescoço, Costa? Pois faz regime e corta nas gorduras; não venhas roubar - é de roubo que se trata - quem circula no veículo que os seus meios lhe permitem.


Se bem que os Lisboetas gostam da tua bonomia enganadora e do teu discurso redondo, senão nem te permitiam sonhar com mais altos voos, para poisos onde possas continuar a fingir que te preocupas com os pobres.

 


 

Desde que não poluam, claro.

publicado por José Meireles Graça às 17:58
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Sábado, 14 de Abril de 2012

Clássicos do Gremlin: "Cobrar o imposto e fazer o empréstimo"

 

«- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?

 

E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremeda, um verdadeiro episódio histórico!...

 

O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os empréstimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...

 

Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o País ia alegremente e lindamente para a bancarrota.

 

- Num galopezinho muito seguro e muito a direito - disse o Cohen, sorrindo. - Ah, sobre isso ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma...

 

Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem? E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.

 

- A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela - continuava o Cohen - que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o País...

 

Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à república; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, de Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.

 

Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos!... À bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança - o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas...

 

A voz de Ega sibilava... Mas vendo assim tratados de grotescos, de bestas, os homens de ordem que fazem prosperar os bancos, Cohen pousou a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom senso. Evidentemente, ele era o primeiro a dizê-lo, em toda essa gente que figurava desde 46 havia medíocres e patetas - mas também homens de grande valor!

 

- Há talento, há saber - dizia ele com um tom de experiência. - Você deve reconhecê-lo, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, há talento, há saber.

 

E, lembrando-se que algumas dessas bestas eram amigos do Cohen, Ega reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar, porém, cofiava sobriamente o bigode. Ultimamente pendia para ideias radicais, para a democracia humanitária de 1848: por instinto, vendo o romantismo desacreditado nas letras, refugiava-se no romantismo político, como num asilo paralelo: queria uma república governada por génios, a fraternização dos povos, os Estados Unidos da Europa... Além disso, tinha longas queixas desses politiquetes, agora gente do Poder, outrora seus camaradas de redacção, de café e de batota...

 

- Isso - disse ele - lá a respeito de talento e de saber, histórias... Eu conheço-os bem, meu Cohen...

 

O Cohen acudiu:

 

- Não senhor, Alencar, não senhor! Você também é dos tais... Até lhe fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, há talento, há saber.

 

E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da Rua do Ferragial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito - admitiu que não deixava de haver talento e saber.

 

Então, tendo assim, pela influência do seu banco, dos belos olhos da sua mulher e da excelência do seu cozinheiro, chamado estes espíritos rebeldes ao respeito dos parlamentares e à veneração da ordem, Cohen condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o País necessitava reformas...

 

Ega, porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade:

 

- Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola.

 

Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen, com aquele sorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, viu ali apenas "um dos paradoxos do nosso Ega". Mas o Ega falava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia ele, invasão não significa perda absoluta de independência. Um receio tão estúpido é digno só de uma sociedade tão estúpida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um país que tem apenas quinze milhões de homens. Depois ninguém consentiria em deixar cair nas mãos de Espanha, nação militar e marítima, esta bela linha de costa de Portugal. Sem contar as alianças que teríamos, a troco das colónias - das colónias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise... Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, num momento da guerra europeia, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnização, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galiza estendida até ao Douro...

 

- Poulet aux champignons - murmurou o criado, apresentando-lhe a travessa.

 

E enquanto ele se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via ele a salvação do País, nessa catástrofe que tornaria povoação espanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heróis, berço dos Egas...

 

- Nisto: no ressuscitar do espírito público e do génio português! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos que fazer um esforço desesperado para viver. E em que bela situação nos achávamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscrição, porque tudo desaparecia, estávamos novos em folha, limpos, escarolados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e inteligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outrora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tareia... Oh Deus de Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o st. emilion

 

(Eça de Queiroz, in "Os Maias")

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:45
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O labirinto

Esta história parece-me plausível na sua triste banalidade - é igual ou parecida com milhentas outras, com menos nervos, com mais choro, com calma, com griteiro, com resignação, quase nunca com desistência, que essa pesa mais que a humilhação e a necessidade.


Sucede todos os dias, em maior ou menor grau, seja na Segurança Social, na Câmara Municipal, numa Conservatória do Registo Predial ou até num posto dos Correios.


E sempre sucedeu - agora é pior, com a multiplicação de normas e procedimentos para despistar oportunistas e trapaceiros e porque é da natureza das burocracias entregues a si próprias multiplicar normas e procedimentos.


Soluções? Já foi também assim nos notariados, e agora não é - mas não se pode privatizar tudo, ainda que pudéssemos imaginar tribunais privados que decerto não realizavam a Justiça mas funcionavam.


Reformas? O primeiro governo Sócrates fez algumas coisas boas, mas por qualquer razão o élan reformista perdeu-se enquanto a diarreia regulamentar prosseguiu. Ficaram as repartições modernaças, cheias de televisores que um destes dias vão avariar e pessoas à espera de vez, como há cinquenta anos, e um ou outro pesadelo que desapareceu e viu o lugar preenchido por pesadelos mais recentes.


Seria, aliás, curioso saber quanto tempo cada Português perde, em média, na sua relação com o Estado, incluindo aquele desperdiçado a tentar navegar nos sites da Administração feitos com os pés, e compará-lo com o que perdia há dez, vinte, cinquenta anos: o meu palpite é que cada vez se gasta mais, na vida de cada qual como na vida das empresas.


Se fosse possível incutir no legislador a ideia de que os cidadãos não têm que provar que são sérios, é a Administração que tem que provar que não são; que não têm que requerer nada, apenas declarar que querem exercer um direito, se o tiverem; que do que um sector da Administração sabe legitimamente sobre um cidadão não pode ser exigida prova por outro sector; e que quem está ao serviço do público não pode ser menos empenhado, nem atento, do que quem está ao serviço do privado, sob pena de sanções graves: seria um começo.


Não vai suceder, é claro, que a complicação é muito complicada. Mas poder-se-ia, ao menos, contratar umas quantas empresas de organização e métodos e começar por uma ponta - sei lá, os tribunais, onde todos os dias vão milhares de Portugueses perder tempo, sob ameaça de multa, porque sim, e na Segurança Social, porque precisam.

publicado por José Meireles Graça às 01:06
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

Análise económica fortemente simplista

Isto é Americanice. Que entre nós dizem-se estas coisas com muito maior sofisticação.

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publicado por José Meireles Graça às 16:31
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Os comentadores

 

Sou freguesa da Quadratura do Círculo. Uma em cada quatro ou cinco, não falho. Calhou hoje.

 

Segundo António Costa, o país nunca gastou mais do que devia: a dívida "surgiu" por causa da contracção na economia. Para António Costa, o Tratado europeu da "regra de ouro" tem um lado bom, que é "pôr a Europa a funcionar" e é também o facto de conter muitas cláusulas indefinidas que podemos alterar e adaptar, cada país de acordo com a sua conveniência. E tem um lado mau, que é condicionar com a "regra de ouro" as decisões políticas de cada parlamento nacional.

 

Ou seja: no seu entender, o Tratado é bom porque é europeu, mas é mau porque é europeu.

 

Ainda não foi esta semana que Pacheco Pereira recebeu um convite para uma caçada, ou para um almoço numa propriedade de luxo. Pelo que Pacheco Pereira continua chateado, e insiste em notar que esta classe dirigente se distingue da anterior porque é mais elitista.

 

Nuno Melo veio substituir Lobo Xavier, que se encontrava em serviço externo. Nuno Melo não leva desaforos para casa: à insolência de Pacheco Pereira perante a alteração de posição do CDS sobre a "Europa", foi demolidor: "O CDS é um partido que evolui". E depois disse umas coisas que não me lembro bem, mas que queriam dizer (mais coisa menos coisa) que o CDS não é como certos e determinados partidos que ficam como que enqueijados nas suas posições.

 

A seguir deu-se o ponto alto do programa. António Costa disse que o PS era um partido europeista desde a primeira hora, "muito antes de qualquer partido da direita se ter sequer lembrado" de aderir à ideia. E perdoou a Pacheco Pereira por este "ao menos, ser frontalmente anti-federalista". Mais uma vez, Nuno Melo não se deixou intimidar. Sem esperar pela sua vez, disparou: "Eu também sou".

 

Carlos Andrade fascina as audiências por contágio: Carlos Andrade sente que assiste e participa em directo no centro de todas as questões, e deixa-se trair pelo seu par de olhinhos sempre fascinados. Carlos Andrade prova, todas as quintas-feiras, que é muito ténue e relativa a linha que separa a Sic Notícias da revista Nova Gente.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:00
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Os frades

Imagine que lhe entra pela porta dentro uma dupla de frades, brandindo ao alto o bastão de Esculápio, um com cara de quem acabou de cheirar merda e o outro sofrendo de alopecia e com o olho reluzente de indignação justiceira. Medieval, não?


Pois bem: esta dupla, aggiornata, quer vir dentro do meu carro certificar-se, sob pena de multa, de que trato bem as minhas netas.


O carro é meu, as netas são minhas, e se se abrir a porta a que o Estado meta o nariz dentro da propriedade das pessoas para ver como tratam a descendência, é lícito perguntar onde, exactamente onde, é que está o limite: porque se não se pode fumar dentro do carro, mesmo com o tecto aberto, também não se pode fumar em casa onde haja crianças - e vá de ir lá espreitar pela janela, se for um rés-do-chão, ou bater (arrombar?) à porta se for um andar; e vá de investigar denúncias de vizinhos maldosos e enxeridos; e vá de checar também a alimentação - muitos chocolatinhos, smarties e junk food, é?; e, já agora, a ginásticazinha, têm feito ginásticazinha os meninos?


Estamos no domínio do abuso, da iniquidade e dos pequenos passos insidiosos para a construção do novo homem, perfeito por prescrição médica e inspecção aleatória, sob a cominação de sanções. Isto só é diferente do totalitarismo comunista no grau e no objectivo: quer-se o homem sem vícios, educado de pequenino, num caso; e no outro a formiga obreira exactamente igual às outras. Agora a golpes de multas e censura social, dantes pelo método mais expedito dos gulags, sempre o mesmo essencial desprezo pela liberdade, que ou é a da diferença ou não é liberdade.


Frade Paulo, esquece: Já me puseste a tratar-te mal, entrando-me com suficiência,  superioridade e ameaçadoramente em casa, para a qual não te convidei. Logo eu, que até simpatizava contigo por seres economicista, que é o que todos os ministros também deviam ser. Deixa lá as maluqueiras do teu adjunto, manda-o antes fazer obra útil e fechar a matraca do discurso santarrão. Se fores ver, às tantas tem vícios ocultos - acontece muito a quem anda por aí a verberar os dos outros.


E vê-me mas é essa coisa da sustentabilidade do SNS, onde já tens inimigos que chegue.

publicado por José Meireles Graça às 16:11
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

O princípio dos vasos não comunicantes

Eram cinco rapazes e uma rapariga. À mesa não se falava alto e, a menos que num contexto de conversa que o Pai autorizasse, não se falava de todo.

 

A comida era racionada implicitamente, em particular os bifes, que apareciam com uma frequência muito inferior à que os vorazes apetites exigiam.

 

Um dia foi deixado em depósito um primo rico. Vinha de Angola em férias e os pais ausentaram-se por uns dias, confiando o garoto aos cuidados da parentela.

 

A Tia fartou-se de fazer recomendações: tinha muito fastio, o menino, era terrível para comer - olha que há uma criada que tem muito jeitinho e ela consegue, conta-lhe histórias, já vês.

 

A Mãe via. Da primeira vez, deparando-se com a cara fechada e entupida de choro do pimpolho, foi dizendo que era preciso comer tudo, havia meninos pobrezinhos a morrer de fome...

 

E a choradeira que vinha a caminho foi sufocada no ovo, com um olhar gélido do Pai, no meio do silêncio desaprovador dos comensais.

O primo não ficou excessivamente impressionado com o argumento dos meninos pobrezinhos, não saberia com nitidez o que era fome, e menos ainda morte - não comeu.

 

E pouco comeu na refeição seguinte, embora no intervalo não houvesse nada: o conceito de comer fora de horas esbarrava na inexistência do que fosse, pelo que era razoavelmente desconhecido.

 

No dia seguinte, o jovenzinho, aleluia!, alimentou-se; e na próxima despachou-se porque quem fosse lerdo corria o risco de ficar a ver os melhores bocados em navios.

 

O intelectual meditativo da família (literato de merda, alguém haveria de o rotular, com propriedade, anos depois), porém, ficou com a memória do argumento dos pobrezinhos a morrer de fome.

 

E só muito mais tarde percebeu que o argumento deixava a desejar: as sobras nunca poderiam impedir meninos de morrer de fome lá longe porque não haveria maneira de as fazer chegar, e os pobrezinhos ficavam na mesma quer comesse quer não comesse.

 

Hã, e a historieta vem a propósito de quê? Ora, a propósito disto; e como se liga tudo deixo para o leitor astuto, que eu agora não tenho vagar de explicar.

publicado por José Meireles Graça às 00:25
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Terça-feira, 10 de Abril de 2012

Mesmo já estando um bocado jarreta...

 

"Ya ven que hemos escrito MARICÓN, y no "mariquita", "diferente", "sensible", todo eso es basura. Si se es maricón, pues MARICÓN, con gallardía y con todas las letras. Además a los chavales hay que sacarles del armario pronto, cuando son jobenes. Que si no se acomplejan y todo son problemas. Que luego quiere ser militar, cura, ministro, lo que le salga de los huevos."

 

 

¿Y a qué viene esto? Por supuesto, por el tema del Saraiva.

 

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publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:02
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