Terça-feira, 1 de Maio de 2012

A puézia

(Originalmente publicado no Senatus, em 21 de Março 2012)

 

 

Comemora-se hoje o "Dia Mundial da Puézia", data que me cumpre assinalar. Esta data traz-me uma grande satisfação, porque vejo a puézia por todo o lado. E a puézia tem muito que se lhe diga.

 

Temos, por exemplo, a puézia popular, que é aquela que costuma vir espetada nos manjericos e nas entrevistas que os sociólogos fazem às pessoas da província. As televisões contribuem com alegria e sentido patriótico para a divulgação deste tipo de puézia, indo recolhê-la aos lares de idosos: ainda há bem pouco tempo, vi uma senhora muito lavadinha, a quem as "auxiliares de prestação de cuidados de terceira idade" tratavam na primeira pessoa do plural (vamos então dizer os nossos versinhos agora, está bem dona Helena?) debitar umas linhas de grande acutilância. São abordados temas de cariz político e grande abrangência geo-estratégica. Os sujeitos são, regra geral, os ricos e os políticos. Costumam, depois de umas voltinhas engraçadas, ser enviados para a França, para a casa deles, para a prisão ou para a puta que os pariu.

 

Noutro patamar, temos a puézia das grandes operadoras de telecomunicações. Este segmento literário costuma ser encontrado nas caixas de email, nos cartões de Natal e no facebook. As frases são sempre afixadas em cima de fotografias com relvados, passarinhos, crianças, mar, túneis de luz, cascatas ou animais domésticos. Os autores não costumam ser mencionados, porque o divulgador já se apropriou daquelas mundividências floridas e o que interessa é a mensagem. Noutros casos, essas frases são assinadas por um leque muito vasto de autores que toda a gente respeita, entre os quais o Dalai Lama, o Confúcio, o Paulo Coelho e a Sophia. Os agentes mais trendy publicam obras centradas no sol, nas praias, e nas "férias na neve". As "férias na neve", só por si, merecem uma reflexão, que fica desde já prometida para quando me faltar assunto. Estes textos entopem o leitor com energias positivas, e as caixas de notificações com ameaças de esperança, que vão desde a fartura em dinheiro à abundância em paz, em saúde ou em pirafos, desde que o receptor se comprometa a partilhar aquilo com uma quantidade bíblica de inocentes.

 

Qualquer uma das versões anteriores se encontra dentro das áreas de expressão artística da minha predilecção. Mas aquela que mais me intriga e, por isso mesmo, mais me fascina, é a puézia erudita. Esta costuma ser divulgada em programas específicos na RTP 2. Por vezes, também agarramos alguns pedaços em entrevistas publicadas nos cadernos de fim de semana dos jornais de grande tiragem. São as chamadas "reportagens de fundo" e chegam-nos através da secção de "cultura".

 

Gosto tanto de "cultura" como gosto de "puézia", principalmente desde que me tenho dedicado a investigá-la e já consegui desvendar alguns segredos. Há várias categorias, bem entendido, e algumas são mais apreciadas do que as outras. Há quem rime e quem não rime, eu prefiro quando rima: sempre temos um trabalhinho bem acabado.

 

Deve ser escura, esta puézia. Não interessa a ninguém uma historieta de sucesso. Para isso temos as conferências sobre "Empreendedorismo, Criatividade e Inovação". As personagens devem ser porcas, desgraçadas, e urbanas. Convém uma luz antiquada, para conferir à coisa o carimbo de qualidade de uma erudição formada na história. E um elemento de modernidade, mas não muito exagerado: uma referência ao cinema chega perfeitamente.

 

Não se dispensam os palavrões: puéta que é puéta projecta o que vê do mundo em todas as suas manifestações, não circunscreve a linguagem a exigências de chazinhos finos. As palavras devem ser "rigorosas" e também "acutilantes". Algumas podem ser inteligíveis.

 

Depois precisamos de um enredo. Imaginemos um idiota deprimido, sentado num café, a emborrachar-se com uma porcaria qualquer. Olha para a empregada de mesa e confunde-a com uma actriz (convém ser estrangeira, mas não americana). Enche-se de entusiasmo (obrigatória uma referência às "pulsões sexuais", que são "identitárias"), avança em direcção a ela, e faz-lhe uma proposta indecente.

 

Por fim, falta seleccionar os sons (atentos que devemos estar à "musicalidade do puema") e distribuir os factores numa composição toda entrecruzada. O título deve ser uma parvoíce.

 

Segue um exercício, para provar que existe uma puitiza dentro deste carroceiro que vos escreve.

 

A possidónia

 

De tarde, miserável sobre um cálice de absinto,

Perturba-me a gordura de uma epopeia morta,

E atrás de uma vidraça, a cintura da Binoche;

 

Como uma ideia espessa, contenho uma comporta,

Num passo indispensável, seguro num jacinto,

E rogo à criatura que me faça, ali, um...

 

(Só é chato quando não se consegue encontrar uma rima.)

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 14:04
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As anedotas

(Originalmente publicado no Senatus, em 11 de Março 2012)

 

 

Faço os possíveis por evitar sessões de anedotas. É mortal. Às vezes até começa assim assim. O pior é ter começado. A coisa vai deprimente até chegar o primeiro totó, a salentear-se com uma piadola grosseira. Não interessa o enredo, só tem que incluir mamas, rabos, pássaras ou pilas. Segue-se um riso alarve da audiência, que não achou graça nenhuma mas percebeu que era a deixa para se rir. O que não é mau, sempre alivia a tensão.

 

A seguir vem um encadeado de dichotes, frases feitas e trocadalhos. Os mais entusiastas começam a corrigir os outros entusiastas, porque a história não era "assim", "espera, deixa-me eu contar", "sim, mas antes tinhas que dizer que" não sei quê. Se houver casais presentes, é certo e sabido que um dos elementos conta o fim da anedota assim que o outro começa. Depois desentendem-se e ficam de trombas. É bom, são duas baixas. E há sempre aqueles puristas que fazem questão de devolver o rigor da coisa, o que implica ouvir aquilo tudo outra vez.

 

Alguns convivas começam a desfazer migalhas de pão. Naquele ponto, já ninguém ouve as graçolas dos outros. A rapaziada só espera que o comediante no uso da palavra acabe de contar o seu pesadelo, para cumprir o .protocolo (rindo-se) e procurar uma aberta para contar aquela piada que ouviu no outro dia, "Deus queira que não me esqueça da punch line". Já toda a gente conhece? Não interessa. "Agora chegou a minha vez". Depois, há dezassete foliões que contam a mesma anedota, com versões ligeiramente diferentes. "Eu sabia era assim": e bumba. Sem medo, sem qualquer espécie de misericórdia.

 

Aos mais débeis, nos quais me encontro, começa a faltar o pulso. Graças a Deus, nestes grupos, há sempre um alentejano. Ou uma alentejana, se estivermos com sorte. Nesses intervalos, pode-se respirar.

 

A partir de certa altura, começam a intercalar-se uns silêncios, cada vez mais embaraçantes, em que toda a gente olha para os pormenores decorativos do compartimento, na esperança de um milagre. Mas não. Segurem-se, chegou a hora das piadolas regionais. Costumo agarrar-me a um pacemaker.

 

Nas piadolas regionais as palavras acabam todas em "i", se a ideia for imitar um alentejano, e repete-se o vocábulo "compadri", frase sim, frase sim, com a pronúncia e a cantada de um palhaço rico. Não me vou debruçar sobre o que fazem às piadolas do norte porque, além da pronúncia trágica, revertem ao ponto já focado das grosserias.

 

Quando menos se espera, e o tormento parece já não poder agravar-se, entramos na fase do inglês, do francês e do português. Ou do alemão, do espanhol, e do curdo. Ou do cigano, do preto e do chinês. Não importa a etnia, este período é o mais asfixiante. Porque se trata de uma combinação letal de todos os ingredientes anteriores. Os enredos são sempre muito compridos, os comediantes voltam muitas vezes atrás, corrigem-se uns aos outros, já toda a gente ouviu aquilo, esquecem-se da punch line, fazem pronúncias e entram, uma em cada poucas ocorrências, na categoria mais ordinária.

 

A sessão acaba, invariavelmente, com um maduro resistente que não se cala em variantes de um tema qualquer. Na plateia, já poucos respiram. Deste ponto em diante não posso relatar. As duas últimas vezes que me vi nestes sarilhos acordei toda entubada, no hospital Amadora-Sintra, sem saber dizer o nome.

 

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publicado por Margarida Bentes Penedo às 14:01
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As apostas

(Originalmente publicado no Senatus, em 3 de Março de 2012)

 

 

Hoje em dia vejo as apostas com muito maus olhos. Antigamente as apostas eram um jogo saudável de virilidade. Os amigos juntavam-se para apostar. Podia ser no número de ovos cozidos que conseguiam ter na boca ao mesmo tempo, na duração de um negócio de importação de arenques, ou no chinquilho. O tipo de aposta variava consoante a natureza do grupo.

 

Os intelectuais, por exemplo, gostavam de apostar quem é que conseguia primeiro deitar-se com a mulher de um deles. Se apesar de intelectuais tivessem livros publicados, apostavam quem é que se deitava primeiro com o filho de um deles. E se fossem académicos, apostavam quem era o primeiro a conseguir convencer uma galinha a deitar-se com eles. Eram momentos inocentes de confraternização entre a rapaziada. E o máximo que se podia perder era o bigode, uma propriedade no Douro, as jóias da avó ou a própria vida. Nada que cada apostador não estivesse em perfeitas condições de perder. E as apostas sucediam-se, com alvos mais ou menos criativos, montantes variáveis, mas sempre em ambiente de grande jovialidade. Essas apostas acabaram-se.

 

Agora aposta-se na internacionalização, aposta-se na tecnologia, na bio-diversidade, na divulgação ou num cluster qualquer. Aposta-se na cozinha de autor, na cidadania, no cinema português, na integração e no multi-culturalismo. Aposta-se em coisas que ninguém sabe o que são, mas sobre as quais os especialistas estão de acordo. Já ninguém quer apostar sozinho. Quando é para apostar, temos que apostar todos. Na mesma coisa. Como se isso garantisse o sentido do resultado.

 

Por isso as televisões encheram-se de apostadores, cada qual mais chato, a esforçar-se em directo por nos convencer a nós, que somos brutos e sisudos, a apostar alegremente naquilo que eles decidiram. Como se isso não chegasse, já de si, para me fazer perder o interesse, agora já ninguém aposta com aquilo que tem. Nem seria bem visto pelos outros apostadores.

 

Agora é suposto apostar com aquilo que não se tem: o futuro dos nossos filhos, a soberania do país, as pensões dos velhos, o conhecimento das universidades ou o dinheiro dos alemães.

 

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publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:59
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15 de Fevereiro

(Originalmente publicado no Senatus, em 15 de Fevereiro 2012)

 

No rescaldo do "Dia de São Valentim", deixo este registo de esperança a todas as bardajonas encalhadas da blogosfera, com votos de etc. etc..

 

 

Não hesite: com a nossa ajuda, faça do seu organismo uma mulher bem resolvida, e de bem com a vida.
 
Para mais informações, consulte os nossos especialistas através do número oitocentos e oito, tarzentos e não sei quê*.
 
Ao contactar telefonicamente os nossos serviços, está a contribuir com 1 € para uma merda qualquer. 
 
______________________
 
 
Nota: Projecto subsidiado pela Iniciativa para o Empreendedorismo, Criatividade e Inovação.
 
*(tarifa regional).
 
 
publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:57
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O problema com as nossas cidades

(Originalmente publicado no Senatus, em 30 de Janeiro 2012)

 

 

 

Hoje decorreu no Teatro São Luiz o debate "Rejuvenescimento e Identidade Cultural de Lisboa", organizado pela respectiva Assembleia Municipal. Isto é o que eu penso do assunto, e foi isto que fui lá dizer:

 

As cidades são uma das primeiras expressões de identidade cultural. Os centros históricos das cidades portuguesas têm vindo a morrer.

 

Sucessivos governos, tanto centrais como locais, não conseguiram resistir a duas tentações. A primeira foi a da promiscuidade com os grandes promotores imobiliários. A segunda foi a tentação de "deixar obra". Uma e outra conduziram ao desvio de massa construída para os subúrbios das cidades, onde havia espaço. Não só havia espaço como este era relativamente barato. Compravam-se terrenos agrícolas, faziam-se uns truques com os Planos Directores Municipais, alteravam-se as manchas de ocupação, convertia-se aquilo em zona urbana, subiam-se os índices permitidos (de ocupação, de impermeabilização, etc.), e estava encomendado mais um conjunto de fogos. Não vou falar no mal que isso fez à economia, que foi muito. Mas vou falar no mal que isso fez aos centros históricos das cidades, que não foi menos.

 

O objectivo de fazer política social de habitação à custa da banca arruinou o que sobrava do mercado de arrendamento. Durante muito tempo, em lugar de resolver o problema eleitoralmente sensível da legislação sobre as rendas, o Estado entendeu-se com a banca para oferecer toda a espécie de vantagens à concessão de crédito, com juros muito baixos, sobreavaliação dos imóveis e ausência de cálculo dos riscos de incumprimento. Com isto, o Estado convenceu-se que não existia um problema de habitação em Portugal. Convenceu os cidadãos que era possível e normal que as famílias fossem proprietárias das casas em que viviam. Às vezes, também das casas de férias. E elevou a aquisição de casa própria a níveis delirantes. Hoje, muita gente não consegue pagar as prestações e olhamos para um país repleto de trambolhos devolutos.

 

Enquanto isto acontecia, os centros históricos ficaram quase exclusivamente entregues à iniciativa de particulares. Aí o Estado actuou de outra maneira. Criou gabinetes técnicos (muitas vezes empresas municipais, as famosas Sociedades de Reabilitação Urbana) destinados à "defesa" das chamadas "zonas sensíveis" (defesa contra quê? Ou contra quem?). Inventou toda a espécie de entraves ao licenciamento urbanístico. Acrescentou a complexidade da regulamentação, a morosidade das respostas, os valores absurdos das taxas e impostos, e o último recurso dos incompetentes: meter o nariz em tudo e colocar as decisões ao nível do "gosto" (isto assim fica um bocadinho desenquadrado, ficava mais bonito se as mansardas fossem em "em bico", porque é que não se tira este revestimento e se põe antes um que seja mais "a condizer" com a "traça antiga", etc.). Este "gosto" foi debatido de um lado da mesa por arquitectos municipais que nunca exerceram a profissão, e do outro lado por artistas saídos em tabuleiros das dezenas de faculdades de arquitectura que, com a escassez de trabalho e deficiência de formação, estavam desejosos de "deixar marca". Assim nasceram uma série de híbridos, negociados de forma a garantir que o resultado final era caríssimo, ia contra a vontade de todos e tinha o parecer favorável das entidades competentes. Quem se meteu nisso uma vez, raramente repetiu. Na impossibilidade de rentabilizar o seu património, muitas vezes envolvido em processos complicados de natureza cadastral, as pessoas foram desistindo. E o interesse público, que o Estado devia defender, transformou-se em desinteresse generalizado.

 

Importa que o Estado comece por reabilitar os seu imóveis devolutos (em Lisboa, por exemplo, é o maior proprietário). E para se dar ao respeito, tem que reabilitar estes imóveis no mais absoluto cumprimento da legislação que obriga os particulares a cumprir. Importa que o Estado cumpra também os prazos legalmente estipulados para dar resposta aos pedidos de licenciamento. Que torne claros, públicos e razoáveis os valores que cobra pelas operações urbanísticas. Que reforme a legislação que regula a reabilitação de edifícios, designadamente a das acessibilidades e a do comportamento térmico, de modo a garantir que a mesma seja inteligível, aplicável e sensata.

 

O Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios é um dos mais exigentes da Europa. Se não for o mais exigente. O que é curioso num país com amplitudes térmicas relativamente reduzidas (porque estamos no Sul e porque estamos junto ao mar), e com um construção tipicamente pesada em termos de inércia térmica. A inércia térmica de um edifício é a capacidade de resistência a variações térmicas no seu interior, provocadas por alterações térmicas no exterior. Mas o referido regulamento não permite sequer considerar o valor real da inércia térmica dos elementos construtivos; estabelece valores máximos de 150 Kg/m2 ou de 300 Kg/m2 consoante os elementos estejam ou não em contacto com o exterior. A exigência deste regulamento obriga a cálculos complicadíssimos para as situações de Inverno e, da última vez que me informei, as DOZE entidades conhecidas que o concertaram e elaboraram (porque ainda são referidas as "associações representativas do sector", cuja identidade não é revelada) preparavam-se para aplicar o mesmo detalhe aos cálculos das situações de Verão.

 

Independentemente da complexidade dos cálculos, e das soluções construtivas que este regulamento exige, poder-se-ia pensar que os resultados eram bons. Mas não são. A maior parte das vezes, o seu cumprimento resulta num gasto incomportável em consumos energéticos mensais.

 

Com o regulamento das acessibilidades acontece a mesma coisa. As exigências são de tal ordem abrangentes que, para conseguir cumpri-lo, os promotores vêm-se obrigados a fazer obras caríssimas, em locais muitas vezes incompatíveis com a própria morfologia dos edifícios, o que os torna absurdos quando não os torna inabitáveis.

 

Seria bom que o Estado validasse as opções conjuntas dos proprietários e dos técnicos responsáveis pelos projectos e pelas obras, retirando as trapalhadas do caminho e permitindo aos cidadãos criar e habitar as suas cidades de acordo com a sua identidade cultural. De outra forma, não chegaremos sequer a conhecê-la.

 

Importa, por isso, que o Estado desista da ideia de se defender dos cidadãos. O bom-senso dos cidadãos tem-se mostrado, em muitas situações, infinitamente superior ao das entidades supostamente criadas para lhes dizer como devem habitar, limitando-lhes as opções em nome de uma escolha mais correcta. É preciso arriscar e absorver algumas escolhas erradas. Não é nenhum drama, nem é irreversível. O drama é deixar morrer.

 

As cidades mais interessantes, mais confortáveis e mais civilizadas evoluiram sempre de forma orgânica, mais apoiadas na manutenção do que na construção. Responderam às necessidades de cada geração sem impedirem que as gerações seguintes pudessem responder às suas. Isto define uma cultura.

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:55
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O empresário pró-activo

(Originalmente publicado no Senatus, em 21 de Janeiro 2012)

 

 

De há uns anos a esta parte, e cada vez com mais intensidade, não há dia nenhum em que me livre de ouvir um bitaite sobre as pequenas e médias empresas. De um lado está a necessidade de "apostar" nas PMEs, porque é nas PMEs que está "o futuro" da economia, e porque é nas PMEs que está "a solução" para os níveis incomportáveis de desemprego, e porque cada um pode fazer a sua, desde que devidamente imbuido de algum "dinamismo" e "espírito empreendedor", e mais uma quantidade de convicções que não faltam a nenhum fórum de antena aberta com que, geralmente, me entretenho no trânsito.

 

A expansão desta consciência aumenta na proporção directa da contracção da procura. E por qualquer razão que ainda não agarrei, por ser necessário reduzir as importações e aumentar as exportações, num país sem indústria e sem comida, parece que estas PMEs devem "direcionar-se" para "a ciência", "a tecnologia" e "as comunicações" (excepção feita a um ou outro produto de pastelaria).

 

De tal ordem é o fenómeno que as "iniciativas" se multiplicaram, desde os cursos condensados em horário pós-laboral às licenciaturas, ministradas por uma fartura de académicos no assunto e patentes nos depoimentos de todos os jovens que apanham uma câmara de televisão a jeito. O Ministro da Economia, homem moderno e prudente, muniu-se do respectivo "Secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação", uma cara pouco conhecida dos portugueses mas que, por essa razão, aproveito a oportunidade para divulgar. De acordo com o Portal do Governo, existe. E chama-se Carlos Nuno Oliveira.

 

Há uns dias juntou-se uma gente, supostamente credenciada para o efeito, e chegou-se a um "acordo histórico". Entre outras decisões, negociadas com muitos mexericos que não são para aqui chamados, alterou-se a lei laboral. E a nova lei laboral torna as contratações menos pesadas, porque facilita os despedimentos, flexibiliza os horários de trabalho, e permite aos patrões e aos contratados mais uma série de liberdades que, no fundo, toda a gente tinha por oportunas. Menos o PCP e o Bloco, mas é para isso que eles cá estão.

 

Depois de ter visto uma série de reportagens a mostrar aos portugueses como era penosa a vida das PMEs, lideradas por gente que se desunhava para manter os seus negócios a funcionar, com uma quantidade de famílias a cargo, que eles conheciam e pelas quais se sentiam responsáveis, pensei que a história ficava por aqui e se passava para outro aspecto da nossa tragédia. Mas, como é frequente, enganei-me.

 

Agora, a fazer fé no que dizem os comentadores, os politólogos, os gestores e restantes "opinion makers", é preciso remover esses brutos e substitui-los por gente mais "pró-activa". Depois deste "acordo histórico", os empresários portugueses "já não têm desculpa", e "temos um défice de bons empresários", porque estes "fazem questão de ser chamados doutores", mas são "pouco preparados e pouco inovadores", e "não têm formação" para "enfrentar os desafios empresariais da gestão moderna e competitiva". E também ouvi por aí que "é preciso que fique bem claro que, se a economia portuguesa está como está, a culpa não é muitas vezes dos trabalhadores, mas dos erros e das falhas dos nossos empresários".

 

Estava capaz de jurar que vi ontem o dr. Pires de Lima dizer coisas destas na televisão, mas deve ser impressão minha. Que estes programas passam muito tarde e eu, com o sono, fico muito baralhada.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:52
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Uma vergonha e meia

(Originalmente publicado no Senatus, em 16 de Janeiro 2012)

 

 

Uma vergonha embaraçante é o que vejo nas nomeações da EDP. Ou uma grande falta dela, consoante olho do lado de cá ou de lá. As nomeações na EDP são muito mais do interesse da EDP do que do Governo. Porque interessando à EDP influenciar o Governo ou, que mais não seja, obter dele informação privilegiada, tem toda a vantagem em contratar quem com o Governo se dê bem. O Governo ganha, quando muito, a oportunidade de encaminhar alguns militantes dos seus partidos para saídas profissionais simpáticas. Ganha também uma enorme quantidade de sarilhos, com a berrata das histéricas de serviço (há quem lhes chame "opinion makers") e com a perda de independência, real ou aparente, que é suposto haver nas suas relações com as empresas privadas. E fica a saber, ficamos todos, que a EDP tenciona continuar, na linha do que fez até hoje, a abusar da posição favorecida que detém no mercado português, sem qualquer espécie de concorrência que lhe mereça o nome, e a fazer com as regras e com os preços o que lhe apetece.

 

Com a Águas de Portugal não me custa compreender que, sendo esta uma empresa do Estado, o Governo queira ter em postos de decisão, e muitas dessas decisões são de natureza política, gente que lhe é leal e que obedece ao que o Governo decidir fazer. Faz todo o sentido que os governos assim procedam; para isso se determinou que algumas empresas sejam públicas, e não privadas. É suposto que as empresas privadas obedeçam às regras do mercado e às disposições impostas pela regulação. Espera-se delas que sejam lucrativas, competitivas e se fortaleçam. É suposto que as empresas do Estado tenham outros objectivos, e esses objectivos são determinados pelas políticas dos governos eleitos.

 

O que não é desejável é que o Estado tenha o tamanho que tem, e que haja tantas empresas, tão grandes e tão decisivas para a economia, que dependam do Estado e das suas vontades políticas. Não sei se é boa ideia que um recurso natural e um bem essencial se mantenha nas mãos do Estado. Tenho dúvidas, mas a haver empresas do Estado, há quem diga que estes casos são dos mais justificáveis.

 

Pelo que o problema não são as nomeações. É o tamanho do Estado. Que sendo tão tentacular, não é esperável que funcione de outra maneira. E o que vejo é que quem mais se queixa é, simultaneamente, quem mais está pronto para impedir que o tamanho do Estado seja reduzido a dimensões menos obscenas e menos permeáveis à promiscuidade.

 

Querem ter o Estado na economia? Muito bem. Levam com a economia no Estado. Não gostam? Têm que se decidir.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:50
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Perspectiva com dois pontos de fuga

(Originalmente publicado no Senatus, em 5 de Janeiro 2012) 

 

 

Ando curiosa com este assunto. A história da Barragem do Tua avança, chata e atrevida, numa paisagem muito familiar. O que se tem discutido (nos blogues, claro, que a televisão e os jornais têm outras intrigas com que se ocupar) é claramente lateral; desviado e apoiado nos chavões do costume. Perdido no meio da baralhada, encontra-se um dado novo.

 

Um escrito (com data anterior), parecendo opôr-se, completa a Reviravolta do José Meireles Graça.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:48
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Ouvido na TV - 2011

(Originalmente publicado no Senatus, em 1 de Janeiro de 2012)
 
 

 
 
"A técnica é inimiga da ciência."

(Medeiros Ferreira, a propósito de sondagens, 8 de Junho 2011)

 

"Mário Soares diz que o país tem de andar para a frente; o Marítimo tem novo preparador físico."

(Notícia de rodapé da Sic N, 17 de Junho)

 

"O próximo governo não tem margem de manobra para pensar muito".

(Teresa de Sousa, 17 de Junho)

 

"O Estado tem que fixar valores mínimos, não é assim, e a calendarização tem que se afeiçoar."

(Medeiros Ferreira, sobre as privatizações, 22 de Junho)

 

"Sou burra, burra, burra."

(Clara Ferreira Alves, 3 de Julho)

 

"Uma combinação rara e senatorial."

(Mário Crespo, apresentando o Frente-a-Frente entre Vítor Ramalho e Ângelo Correia, 14 de Julho)

 

"3,5 sobre 100 é muito menos do que 3,5 sobre 1000."

(António Costa in Quadratura do Círculo, 14 de Julho)

 

"O Álvaro" lembrou a decisão tomada por Portugal e Espanha, no séc. XIX, de manter uma linha férrea com uma dimensão diferente da europeia. E considerou esta atitude muito "descompetitiva".

(19 de Agosto)

 

Honório Novo desenvolve sobre a nova proposta fiscal: "De maneira que agora vão poder finalmente taxar-se coisas de luxo", e dirigindo-se a Mário Crespo, "por exemplo, como o seu Volvo". Mário Crespo informa: "Eu não tenho um Volvo". Honório Novo usa uns segundos e responde: "Mas tenho eu".

(31 de Agosto)

 

"Elcá mino siasse cáminandu."

(Jorge Braga de Macedo, 31 de Agosto)

 

"Deus queira que Passos Coelho não se transforme num Churchill. Que veio com aquela coisa do sangue, suor e lágrimas, e lá lhes resolveu o problema. Só que o povo correu com ele, porque já estava toda a gente farta daquilo."

(Luis Delgado, 3 de Setembro)

 

O país foi informado, ao serão, da existência de "empresas de utilidades", que são, no entender de Luis Delgado, a EDP, a PT e a GALP (pelo menos). Mas não há risco, porque se essas empresas se atrevessem a alterar a sua residência fiscal para fora do país "seria uma revolta social de todo o tamanho", e "o facebook dava cabo delas".

(Luis Delgado, 3 de Setembro)

 

Márcia Rodrigues (em directo de Teerão, enfiada num fato regional):

- Qual a sua opinião sobre o apedrejamento?

Ahmadinejad:

- Faz alguma diferença a maneira como se mata as pessoas?

(RTP, 7 de Setembro)

 

Marcelo Rebelo de Sousa terminava: "Sabe que isto, na política, há uma grande diferença entre aquilo que se diz e aquilo que se faz". Júlio Magalhães: "E o senhor professor sabe isso melhor do que ninguém".

(25 de Setembro)

 

"De maneira que isto só lá para 2020", concluia Medina Carreira quando Judite de Sousa se alarmou: "Ó sotôr, nessa altura já não andamos por cá!" e acrescentou "pelo menos nós!" abanando a mão, apontando para o céu.

(25 de Outubro)

 

Não vi os antecedentes, mas quando mudei para a SIC Notícias o Mário Crespo estava a rodar a cabeça de um lado para o outro, Alfredo Barroso a prometer "pronto, não toco mais nisso", e Ângelo Correia a esclarecer: "Você está mas é a tocar-se a si próprio em público".

(27 de Outubro)

 

Uma senhora, em voz off, informa através da RTP1 que "os negócios funerários são uma actividade que nunca morre".

(31 de Outubro)

 

"A Turquia é o eixo asiático da Grécia."

(Clara Ferreira Alves, 6 de Novembro)

 

"A Pátria é como um casaco velho", disse António Barrete (com a voz igual à que o Eduardo Sá põe para dizer "a Criança não sei quê"). E depois acrescentou "ai, e tal, porque é muito confortável" e jogou as mãos ao casaco e desatou a apalpar o tronco. Para ilustrar, na SIC Notícias. Achei puxadote. E a seguir mencionou "aquele buraquinho" que "nós já sabemos onde está", e que "já foi passajado", e nessa altura voltou a fazer combinar o discurso falado com a linguagem gestual, com o indicador e o polegar em movimentos circulares á volta do buraquinho.

(16 de Novembro)

 

Maria João Avillez: "Repare, é que eu tenho praticamente um doutoramento em primeiros ministros". Mário Crespo: "Vamos então recorrer a todo esse saber acumulado no seu doutoramento em primeiros ministros".

(1 de Dezembro)

 

"A dupla Sarkosy Merkel perdeu o norte com a ideia do referendo grego. Desestabilizaram-se psico-politicamente."

(Medeiros Ferreira, 7 de Dezembro)

 

"Eu sou professor de economia e portanto ensino pessoas em plena puberdade."

(Jorge Braga da Macedo, 9 de Dezembro)

 

"Os partidos devem entender-se no sentido de alterar esta constituição, que está cheia de entropias."

(Judite de Sousa, 19 de Dezembro)

 

Medina Carreira: "Suponhamos que você era a Procuradora...

Judite de Sousa sorri e pestaneja.

MC: "... e convidava-me para jantar na sua casa."

JS: "Hehehehe."

MC: "No dia seguinte punha-me um processo."

JS: "Hahahaha."

MC: "E eu pensava assim..."

JS: "Hi... hihihi."

MC: "Logo a Judite, uma rapariga tão simpática, tão sedutora!"

JS, afagando as carótidas: "HAHAHAHAHA!"

(20 de Dezembro)

 

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:45
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Rumo à salvação

(Originalmente publicado no Senatus, em 29 de Dezembro 2011)

 

 

Há comportamentos que decorrem dos elevados índices de testosterona. Um deles acontece sempre que se torna necessário arrumar muitos volumes na mala do carro. Imaginemos a Angela e o Nicolas. Pertencem a uma ONG, e estiveram em Lisboa a passar uma temporada. Conhecendo as dificuldades que o país atravessa, confiando no elevado potencial dos portugueses, e imbuídos que estão de um elevado espírito humanista, num acto de solidariedade resolvem arrancar numa viagem para salvar a Europa.

 

A Ângela é uma pessoa despachada pelo que, para evitar altercações com base no "quero saír daqui às três da tarde, vê lá se estás despachada, já sei que te vais atrasar", adiantou-se e desceu às duas e meia. Munida das chaves do Renault, carregou tudo sozinha e conseguiu enfiar duas malas com rodinhas cheias de processos judiciais no limite do prazo, dois portáteis com ligação ao facebook repletos de comunicações do Palácio de Belém, um saco desportivo, uma gaiola com dois linces da Serra da Malcata, uma caixa com seis garrafas de vinho da Madeira martelado, uma geladeira, um cobertor de papa e outro de flanela, uma colcha de terylene, um saco de plástico com um par de galochas, um tupperware com carne assada, outro com meloa cortada aos cubos, outro com um resto de arroz de berbigão, e outro cheio de impressos para meter baixa por doença, um estojo com uma máquina fotográfica reflex, outro com adereços, outro com estudos de impacte ambiental para impedir a construção de mais uma barragem, e um quarto, mais alongado, com um tripé, um casaco de malha com os cotovelos puídos, um chapéu de gabardine, um guarda chuva, duas latas de manifestos em calda, um trapo húmido para ir limpando o balcão dos cafés onde tivessem que parar para comer, e um aquecedor a gás, com a respectiva bilha, na bagageira do automóvel. Não cabia lá nem mais um iPod com o discurso do Barrete no 10 de Junho. Satisfeita, sobe as escadas e diz ao Nicolas: "Amor, podes descer, está tudo pronto para arrancar".

 

O Nicolas levanta-se do sofá, pega no AutoMotor e num molho de chaves, desce e abeira-se do veículo, com um ar desconfiado. Profere: "Vamos lá ver". Abre a bagageira, sobe uma narina e observa: "Ná. Isto não pode ir assim". Despeja tudo e demora duas horas e meia para conseguir voltar a enfiar as coisas no Renault, pelo que arrancam finalmente pelas cinco e meia da tarde e vão de trombas pelo menos até alturas de Estremoz. É quando a Ângela comunica: "Ó passarinho, já comia qualquer coisa".

 

O Nicolas ouviu falar de um restaurante muito em conta em São Domingos de Ana Loura, e portanto encaminha-se para lá e jantam uma refeição frugal. À saída, o Nicola baralha-se com uma infinidade de rotundas, passa várias vezes na mesma, regressa à primeira, e à segunda, e depois à primeira outra vez, e não consegue encontrar o caminho porque há muitas tabuletas com indicações que conduzem sempre ao mesmo sítio. Mete-se então por uma estrada de terra batida e chega a uma barreira pintada de amarelo e encarnado, e um bocado de cartão que diz: "Desvio IP2/E802". E uma seta a apontar para o pavimento. Ao lado, sentados num bidon, está um grupo de comentadores políticos da televisão portuguesa. Pedir ajuda para encontrar o caminho é, como toda a gente sabe, outro comportamento pouco frequente em indivíduos com elevados índices de testosterona. Por isso o Nicolas adiou o mais possível. Mas, perante a cara ameaçadora da Ângela, não está para mais chatices. E o Nicolas, contra aquele que é o seu procedimento habitual, resolve pedir ajuda.

 

"Para salvar a Europa? Tem que voltar partrás! Mas agora não pode, ó amigo...! Olhe, faça assim: vá em frente. Conde chegar à rotunda, corte à esquerda. Depois siga até à bomba de gasolina. Está a ver o posto da GNR? Não é por aí. Continue sempre por ali abaixo. Antes de passar a igreja corte à sua direita, depois da farmácia. Mas é na segunda. Está a ver o Pingo Doce? Epá, não era por aí! Agora vai ter que dar uma granda volta! Olhe, o melhor é perguntar ao pé da Estação."

 

O Renault com a Angela e o Nicolas foi visto na terça-feira perto de São Brás de Alportel. Ontem consta que circulava nas rotundas de Fafe.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:42
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