(Originalmente publicado no Senatus, em 9 de Dezembro 2011)
Vejamos: podia. Tinha de se encontrar com os credores num local muito ermo e insuspeito, por exemplo, o Estádio dr. Magalhães Pessoa, ou o Teatro D. Maria, ou a A27. Seguia por ali fora, num veículo anónimo, tipo... já sei: de Sachs V5. Mas com atrelado, como aqueles de ir à caça, para levar as malas e os cães. E o dr. Vítor Gaspar, muito cumpridor, de capacete semi-esférico com badanas de napa e um cachecol, para não se constipar.
Na parte da frente, acoplada com umas guitas e uns arames, ia instalada uma geringonça como aquelas de levar a fruta, e a drª Ana Gomes escanchada de perna aberta, com muitas meias quentinhas pelo joelho, afim de supervisionar a legitimidade das trocas, garantir que não havia atropelos aos direitos humanos e eram respeitadas todas as convenções internacionais.
Em chegando ao local combinado, já lá estava um forte aparato mediático e os jornalistas, no teatro de operações, não perdiam a oportunidade de fazer as suas perguntas sagazes e inconvenientes: "Sr. Ministro, teve frio?" e "Como é que se sente?" e "Quais são as suas primeiras impressões?" Do outro lado viam-se os credores, porque tinham chegado à hora marcada e já estavam à espera ia para duas horas e meia.
Tudo parecia correr bem, quando o dr. Vítor Gaspar impunha as suas condições: "Levam a massa, mas também levam estes cãezinhos. Caso contrário, nada feito". Ao ver o Armando Vara, o Santos Silva, o Migamagal, o Silva Pereira, o Jorge Coelho, o Diogo Infante, o Duarte Lima e a drª Ana Gomes, todos açaimados (para não ladrarem "eu estou de consciência tranquila"), presos por uma trela e a fazer xixi a um candeeiro, a srª Merkel recuava, desequilibrava-se e dizia: "Antes prrufrria fazerr um ménage-a-trrois com a Brraga de Macedo e o Carrla Sopeirra Alves" e fugia assarapantada, oscilando para o fundo do campo de visão, tranformando-se num ponto aos gritos.
Em estúdio, Mário Crespo rematava: "Foram os comentários possíveis, com a importância que eles têm, muito obrigado, foi um luxo ter-vos conosco." E passava para um "curtíssimo intervalo".
(Originalmente publicado no Senatus, em 5 de Novembro 2011)
Não sei como é que se chama o treinador do FCP. Mas acaba de explicar, na sala de imprensa, que empatou o jogo com o Olhanense porque "houve uma certa permissidade". Depois justificou a "não concretização" da grande penalidade dizendo que não sei quê, e terminou considerando que a equipa provou a sua superioridade porque "não permitiu qualquer situação".
(Originalmente publicado no Senatus, em 9 de Outubro 2011)
Hoje, na Madeira, o CDS tirou a maioria do voto popular a Alberto João Jardim, com mais do que o triplo do resultado das eleições anteriores.
O Bloco de Esquerda perdeu o único deputado que tinha.
Não posso deixar de assinalar que o seu resultado eleitoral ficou atrás da CDU, do patusco do Coelho e daquele partido que defende os direitos dos el-casei-imunitásses.
(Originalmente publicado no Senatus, em 25 de Setembro 2011)
No famoso "verão quente de 75", um Mercedes preto, com as cortinas descidas, transportava uma velha conduzida por um motorista fardado chamado José, homem brutíssimo de linguagem e reformado da GNR como, de resto, era costume em casa da Tia Joana.
Atravessavam o Alentejo, vindos de Espanha em direcção a Lisboa, com a bagageira atafulhada de sabonetes, caramelos, pêssegos em calda, frascos de lavanda "Puig", e dois vestidos de sevilhana, tamanho de criança, "para as filhas da Maria Domingas". As filhas da Maria Domingas detestavam aqueles vestidos, que eram obrigadas a enfiar nas festas de Carnaval para cumprir uma tradição inventada pela Tia Joana e que abrangia, desde os anos trinta, todas as crianças da família. Muita sorte serem meninas porque, para além da própria mãe, também o Tio Chico, o Tio Mário e o Tio Germano apareciam em retratos anuais, a preto e branco, sentados sobre a secretária do consultório do Avô Luis, bisavô das miúdas, vestidos de sevilhana por alturas do Baile do Palito.
Pararam em Beja, para almoçar e para deixar "à minha irmã Carolina, que vai amanhã para baixo" uma colecção muitíssimo jeitosa de pinceis de caiar. Regressados à estrada, a Tia Joana voltou a apoiar os pés num banquinho que morava entre o encosto dos bancos da frente e o assento dos bancos de trás. De outro modo ficaria com os pés a balançar, não chegava com eles ao tapete do carro. Das irmãs, que eram todas pequenas, ela era a mais baixa. "De la sierra morena, cielito lindo, vienen bajando", trauteou, "unos ojitos negros, negros negritos de contrabando" e levantou uma nádega para deslocar a porção de vestido que estava por baixo, toda molhada de suor. Sentiu reduzir a velocidade e o Mercedes parou. A Tia Joana afastou a cortina da janela. Estavam em Beringel. Viu atravessar um rebanho de borregas e olhou para uma parede onde estava escrito "SÓ OS PARAZITAS TENHEIM MEDO DO CUMONISMO". O Mercedes arrancou e a Tia Joana retomou as suas preocupações.
A casa da Praia da Rocha, dividida em duas na sequência de um processo de partilhas, situava-se na avenida principal, frente ao antigo casino, e todos os anos era caiada. Também todos os anos a Tia Joana tinha que decidir se era trancada ou não, pelo lado que dava para a sua garagem, a porta de comunicação interna entre as duas fracções. A casa da irmã Carolina era muito maior e dava para o lado da praia, o que tornava o caminho mais curto. Mas continha uma quantidade incontrolável de netos, com idades variáveis e comportamentos indecorosos; por mais do que uma vez, a Tia Joana tinha supreendido a mais velha do Germano a assobiar. Como um moço da rua. Além disso comiam fora das horas das refeições, tomavam quantos banhos entendiam e, o que era pior, as criadas que os acompanhavam à praia não andavam fardadas. Mas se decidisse trancar a porta pelo lado dela, arriscava que a irmã fizesse o mesmo e depois tinha que mandar as criadas dar a volta inteira ao quarteirão para ir buscar os garrafões de água de Monchique, que ficavam arrumados do outro lado. "Ay, ay, ay, ay, canta no llores" voltou a trautear, e o Mercedes preto com as cortinas descidas parou outra vez. "Quem são estes barbudos", perguntou, e o motorista respondeu "estes cabrões é uma barricada".
Estavam vestidos de militares, mas da cintura para baixo e outros era ao contrário, calças à boca de sino e blusão de camuflado, todos tinham os cabelos grandes e uma espingarda. Passavam revista aos automóveis que estavam à frente. Abriam as portas, levantavam os tapetes, esvaziavam os porta-luvas, vasculhavam as bagageiras e a Tia Joana desceu a janela toda. "Olha, olha, temos uma velha fascista!", disse o mais gordo, chegando-se ao Mercedes preto, afastando o elástico que lhe prendia um testículo. "E com chófer, de boné e tudo!", gritou para a malta, já olhos nos olhos com a Tia Joana que lhe tirou as dúvidas: "O José é meu chauffeur há quinze anos. Como não tem cornos, pode usar boné".
(Originalmente publicado no Senatus, em 17 de Setembro 2011)
Para Carlos Abreu Amorim, a situação na Madeira "não é assim tão diferente daquela que Portugal viveu em 2010, com números de défice sucessivamente alterados e corrigidos para cima". Estas palavras desiludiram o Diogo e levaram-me a fazer contas. À merceeiro, porque chega perfeitamente; quem me dera que "os decisores políticos", imortalizados nas palavras do grande estadista Cavaco Silva, recorressem a este método com mais frequência para "conduzir políticas orçamentais correctas".
Números gordos, a Madeira conta 250 mil habitantes. A dívida "omitida" por Alberto João Jardim soma 1,7 mil milhões de euros. Fazendo a proporção para 10 milhões de habitantes, a "omissão" correspondente seria de 68 mil milhões de euros.
Este montante, de 68 mil milhões de euros, seria o valor da gentileza se Jardim fosse, Deus me perdoe, Primeiro Ministro. E se tratasse de acarinhar os portugueses com o mesmo enlevo com que zela pelo bem estar dos madeirenses.
Jardim não é, portanto, comparável a Sócrates. Jardim é muito maior. Também no método, porque Sócrates, tanto quanto se sabe, foi fazendo passar as suas contas pela Assembleia da República. Jardim não desperdiçou recursos com intermediários inúteis e perniciosos.
Aguardo, com ansiedade, a actuação de Passos Coelho. E a "magistratura de influência" de Cavaco Silva. Até lá, suspendo a emissão de recibos, os pedidos de facturas e a prestação de quaisquer contas ao Estado português. Primeiro gostava de perceber se estou dispensada de formalidades incómodas e se posso, à imagem dos nossos governantes, dar mimo ao meu agregado familiar. Depois não se fala mais nisso, como se usa agora: o que lá vai, lá vai. Ou se a dispensa dessas formalidades é uma benesse concedida pelo Estado português aos responsáveis madeirenses como política compensatória para equilibrar os famosos "custos de insularidade".
Era conveniente que não demorassem a tomar uma decisão. Enquanto espero, posso ser presa.
(Originalmente publicado no Senatus, em 19 de Agosto 2011)
O Nuno Santos Silva escreve um post curioso em que, classificando a visita de Bento XVI a Madrid como "um evento" (os adjectivos "mediático e comercial" são, na prática, indissociáveis do substantivo "evento"), encontra uma maneira de defendê-la. Até diz que também gostava de ter uma na terra dele (Portugal).
A explicação vem bastante direitinha, percebe-se muito bem, assim disposta por ponto um, ponto dois, etc., e no fim a devida conclusão, condicionantes incluidas. Linguagem dentro dos limites do tédio, uma coisa como eu gosto.
O ponto quatro diz assim: "As manifestações religiosas que colidam com a liberdade de outras pessoas e com as leis de cada país não devem ser admitidas".
Lamento que o Nuno não perceba que não existe "liberdade" e que, não existindo, defendê-la é pueril.
Porque existem "liberdades". Várias e específicas. E é impossível evitar todas as "colisões", porque se as liberdades de um tiverem sempre que terminar onde começam as liberdades do outro, ninguém exerce liberdade nenhuma. Para isso inventou-se a "tolerância". E as liberdades de uns não devem poder ultrapassar certos "graus de tolerância" tornando-se, a partir daí, "abusos". E os abusos, esses sim, devem ser previstos legalmente e punidos. Por isso, colidir com a liberdade ou colidir com a lei não é a mesma coisa. O Nuno considera que não houve colisão com "a liberdade de outras pessoas". Ou que, pior, essa colisão não é grave se atentarmos aos proveitos comerciais da visita de Bento XVI.
Eu considero que houve colisão com várias liberdades das outras pessoas. O trânsito alterou-se, com transtorno para muita gente. O centro da cidade encheu-se, houve zonas de acesso proibido, os transportes públicos devem ter estado insuportáveis e as televisões dedicaram ao tema horas infindas. Isto para referir apenas as mais visíveis. Agora a dúvida está na legitimidade dessa colisão. Ou seja, onde é que se coloca o risco que desenha o limite do abuso?
Talvez se possa falar de "abuso" quando são agredidas as "liberdades" que são consideradas "fundamentais". Parece-me que até estão listadas num documento qualquer. Se assim for, a liberdade de exercício do meu culto religioso deve ser limitada a partir do ponto em que eu agrida alguma liberdade fundamental de outra pessoa. Nunca antes. E sempre depois.
Não vi qualquer abuso em Madrid, mas o Nuno não se interessa por estes detalhes. Desenha o risco unindo os pontos do balancete a partir dos quais o valor em euros é positivo.
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