Quarta-feira, 13 de Junho de 2012

Os ladrões do centrão

Daniel Oliveira faz aqui uma extensa objurgatória contra as parcerias público-privadas, dizendo a certo passo, com fina ironia: "O esquema é hoje sobejamente conhecido e toda a gente era contra estas parcerias desde pequenino."


Daniel confunde tudo: Se toda a gente soubesse que as parcerias foram negociadas e renegociadas como foram, toda a gente teria sido contra, e não apenas o PCP e o BE. Mas aquelas pessoas que, como eu, partem do princípio que a gestão privada é mais eficiente do que a pública, pela comezinha e humana razão de que não pomos o mesmo empenho a gerir o que é nosso do que o que pertence a outrem, nada têm a objectar às parcerias enquanto princípio - ainda hoje, mesmo depois do desastre que muitas foram e são.


Um exemplo, unzinho, basta: Se o Estado não tivesse garantido em certas concessões de estradas um certo volume de tráfego, provavelmente não encontraria concessionários porque estes não estariam dispostos a correr o risco - e as estradas não se fariam, não nos queixando hoje de estarem desertas e termos que as pagar. Ou far-se-iam, mas assumindo o Estado o serviço da dívida mais a manutenção. E não é difícil perceber que o BE e o PCP, cuja receita para a crise de 2008 era, como ainda hoje é, mais despesa pública para "criar" empregos e "dinamizar" a economia, patrocinariam a obra que o privado não queria, se houvesse quem emprestasse.


Entendamo-nos: não faltam exemplos de empreendimentos privados ruinosos, tanto pequenos como grandes. Mas a sanção natural para investimentos com o risco mal calculado, ou bem calculado mas com alteração imprevisível de circunstâncias, é a falência. E terem os contratos das PPPs eliminado com engenharias jurídicas o risco para o privado, transferindo-o para a esfera pública, é justamente no que consiste o seu pecado original.


Neste processo houve, é claro, bastante calculismo e alguma corrupção de um lado, e bastante ingenuidade e alguma corrupção do outro. Porém, a referência expressa que Daniel faz a Paulo Campos, tornando extensivo a todos os governantes o mesmo anátema de que Paulo Campos é merecedor, é um salto lógico aventureiro com o propósito transparente de tirar a seguinte conclusão: o pessoal do centrão é, todo ele, desonesto. Nas imorredoiras palavras do próprio: "A ver se nos entendemos: não há, nesta matéria, entre o PS e o PSD, qualquer diferença. Fizeram o mesmo, da mesma maneira, pelas mesmas razões, com as mesmas desvantagens para nós e as mesmas vantagens para eles."


Não está mal como raciocínio. Se os eleitores comprarem a tese, temos comunistas, bloquistas e compagnons de route a enxundiarem o Governo e o aparelho de Estado; nos conselhos de ministros os governantes sentam-se na beirinha das cadeiras, para caberem as asas; e os investimentos serão lucidíssimos, porque não há nada que chegue a um cidadão que nunca investiu um cêntimo para decidir com competência o que fazer com o dinheiro dos outros mais o que em nome deles pede emprestado.

publicado por José Meireles Graça às 22:35
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Segunda-feira, 11 de Junho de 2012

Um homem distinto

 

 

Gosto muito de assinalar datas, e o 10 de Junho ajuda-me sempre. No ano passado aconteceu puézia, porque o dr. António Barrete fez um discurso lindo, a tratar Portugal por tu, "óh Portugal, tu isto tu aquilo", e "os teus filhos não sei quê", e foi muito comovente; todas as senhoras choraram, mesmo as mais acostumadas às câmaras da televisão.

 

Este ano o dr. Barrete foi medalhado, encontrando-se agora na companhia de todos os artistas do PREC, e nessa qualidade não pôde repetir o momento espiritual. Foi substituido, quanto a mim com vantagem, pelo dr. Sampaio da Nóvoa. Estou certa que rebentaram os índices de audiências, atingindo os níveis mais baixos desde a transmissão, na RTP 2, em Junho de 2004, da totalidade do Festival de Dança de Roda Silenciosa Nijemo Kolo, da Croácia. Refiro-me às últimas duas horas do festival, transmitido em simultâneo com as meias finais do Campeonato Europeu de Futebol, de saudosa memória, no canal do lado.

 

Sampaio da Nóvoa é um homem sóbrio. Não se vê o dr. Sampaio da Nóvoa sempre a pôr-se em bicos dos pés, aparecendo por tudo e por nada a perpetrar entrevistas, ou a carimbar com as suas reflexões qualquer programa de "mesa redonda". Sampaio da Nóvoa reserva as suas presenças para situações onde ela é, efectivamente inescusável. Como em Março de 2011, pela inauguração da exposição de arte (credo, o teclado até rangeu) lusófona "Caras e Citações: uma interpelação estética sobre Universidade, Cultura e Desenvolvimento", da talentosa Ana de Macedo, patrocinada pelo Instituto de Investigação Científica Tropical, presidido pelo pai da rapariga, e em parceria com o projecto Saber Continuar. Com o "apoio" da Faculdade de Letras que comemorava assim o seu centenário.

 

A obra apresentada constava de uma série de enormes painéis revestidos com colagens (uma técnica ainda desconhecida dos portugueses) onde, numa combinação de génio cromático com astúcia literária, podiamos observar pretinhos a brincar com computadores Magalhães, intercalados com lixeiras, edifícios de escritórios, salas de aulas, manifestações estudantis, e frases irreverentes como "A lusofonia pode ser aplicada a qualquer parte do mundo", ou "O espaço de parcerias alargou, e muito", ou ainda "Português não é assim um conceito de raça, mas antes uma 'unidade de sentimento e de cultura', que aproximou homens de várias origens". Esta última vinha assinada "O.R.".

 

No discurso que reservou para esta ocasião, Sampaio da Nóvoa foi inflexível. Disse que "este centenário fica marcado pela criação, mobilidade e cooperação que existe nos dias de hoje nos países lusófonos, que vai muito além das universidades". Concordo. Vai muito além das universidades. Já vai nas "artes". E disse também que "é preciso criar condições concretas para que os estudantes de países Lusófonos possam estudar em Portugal e para que haja dinâmica efectiva de cooperação nos estados lusófonos". Pronto, dr. Sampaio da Nóvoa, já tínhamos ouvido.

 

Pelo 10 de Junho, Sampaio da Nóvoa voltou a abanar os portugueses com afirmações polémicas e originais. Desta feita, alertou para o "aumento das desigualdades sociais", observou que os portugueses "vivem hoje pior do que viviam ontem", e temeu que esta sociedade fosse "vencida pelo medo e pela radicalização". Depois ilustrou o discurso com mais um sortido de finuras da mesma natureza e, lá mais para o fim, disse que "Precisamos de transformar estes movimentos numa acção sobre o país, numa acção de reinvenção e de reforço da sociedade. Chegou o tempo de dar um rumo novo à nossa história. Portugal tem de se organizar dentro de si, não para se fechar, mas para se abrir, para alcançar uma presença forte fora de si." E acabou, tão entusiasmante como começou, concluindo que "Não temos tempo para hesitações. As universidades vivem de liberdade, precisam de ser livres para estarem à altura do que a sociedade lhes pede. É por aqui que passa o nosso futuro, pela forma como conseguirmos ligar as universidades e a sociedade, pela forma como conseguirmos que o conhecimento esteja ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas".

 

O que Sampaio da Nóvoa não disse foi nada de concreto. Efectivamente, não disse nada que interessasse aos portugueses. Como, por exemplo, que tipo de acção é preciso exercer "sobre o país", ou qual o "novo rumo" a dar "à nossa história", ou de que forma pensa ele que o conhecimento pode passar a estar "ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas". E não o disse porque Sampaio da Nóvoa não alinha em "facilitismos", e desengane-se quem pensar que Sampaio da Nóvoa nos vai servir a papinha toda feita. Além de que um feriado, como toda a gente sabe, serve para os portugueses dormirem o meio dia da manhã, e Sampaio da Nóvoa respeita o descanso dos portugueses.

 

Sampaio da Nóvoa distingue-se das restantes figuras do pensamento pátrio, cujo dinamismo só encontra paralelo na vastidão da sua irrelevância. Sampaio da Nóvoa poupa-nos o dinamismo.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:23
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Sábado, 9 de Junho de 2012

Haja paciência

Creio que foi Freitas do Amaral, ou outro alguém, que disse um dia que um general é um sargento com muitos anos de serviço. Pela mesma ordem de ideias, um bispo é um padre à beira da reforma. D. Januário Torgal, major-general do Exército, será portanto o dois em um.


Disse coisas superficiais e acaloradas sobre um discurso anódino de Passos Coelho no qual este gabava a "paciência" dos Portugueses.


A blogosfera e o comentário nacional ferveram; Pacheco Pereira desenvolveu uma tese profunda e definitiva sobre o tema, tão profunda que só com exercícios de apneia se consegue chegar a lê-la completamente; e a Situação e a Oposição digladiaram-se devidamente.


Os Portugueses que aguentam o desemprego, e a quebra de rendimento e de consumo, e que estão mais ou menos azabumbados com a sucessão de notícias em que por alturas do telejornal vêem o mundo a desabar, tornaram-se filósofos.


Filósofos não fazem revoluções, quando muito inspiram-nas. Mas como a parte mais aguerrida do País ou ainda tem emprego ou já emigrou; e como uma parte dos desempregados que ficaram vai arredondando os fins-de-mês com expedientes, porque, além da economia exportadora, também cresce a paralela, resta que no que sobra só haveria massa crítica para grandes convulsões se uma parte considerável achasse que, depois da bebedeira socialista, não fosse preciso curá-la.


Isto digo eu, que não sou bispo, nem general, nem sequer sargento, menos ainda filósofo, mas vejo o que está debaixo do nariz.

publicado por José Meireles Graça às 19:33
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Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

Cozinha de autor

Receita para uma tese fortemente apelativa: vai-se buscar estatísticas, factos históricos e tendências que a pareçam ilustrar; não se indicam as fontes e, se forem indicadas, não se vêem os números de muito perto, a fim de evitar explicações alternativas que se afastem da tese; confundem-se correlações com causalidades; junta-se alguma indignação  santimoniosa  (com perdão do barbarismo) - está pronto a servir.


Deixa-me experimentar:


Na década de 60, Portugal cresceu a taxas asiáticas, quase o dobro daquelas a que cresciam os futuros parceiros da CEE e da UE; não havia sindicatos independentes do Governo, nem salário mínimo, nem subsídio de férias, nem 13º mês, nem SNS, a escolaridade obrigatória era de apenas quatro anos, as taxas de escolarização no ensino secundário eram baixas, e baixíssimas no superior. Não havia liberdade de imprensa e os Sérgios Lavos da época estavam ou no estrangeiro, ou na prisão, ou calados.


Logo, como aquelas taxas de crescimento, que não tinham precedentes históricos, não foram, sequer de longe, aproximadas depois do 25 de Abril, nem serão no futuro até onde a imaginação alcança, permitam-me VV. Ex.ªs extrair triunfantemente a implícita conclusão:

O Salazarismo é melhor do que a Democracia.


Não, não extraio esta conclusão, que não faço cozinhados com ingredientes duvidosos. Mas com o que daquelas bandas se sugere para cozinhar os nossos problemas actuais, sei bem o prato que resultaria: o ajiaco cubano.

publicado por José Meireles Graça às 02:31
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2012

Selo de garantia

Que tenham pena de mim, ou dos mais como eu, por andarem em más companhias, é uma coisa que me chateia, pá.


Mas prontos, reconheço que ando em más companhias.


E o meu caso é porventura mais grave porque, subscrevendo embora quase tudo o que aqui se diz, não compro esta conclusão: "(...) até porque a autonomia poderá ser a única forma que resta às escolas de imprimir exigência no ensino, indo assim ao encontro das expectativas de tantos alunos e tantas famílias que hoje se sentem defraudadas por um sistema aparentemente mais preocupado com o número de alunos escolarizados do que com o conhecimento adquirido ao longo do percurso escolar."


O centralismo tem mau nome porque tem sido fonte de promoção do eduquês, da gigantesca burocracia do Ministério e dos ziguezagues da política educativa, ao sabor das idiossincrasias de cada ministro.


Mas a autonomia das escolas...depende. Se for autonomia para gerir um orçamento, e contratar e despedir pessoal, vale. Mas esta autonomia: "(...) quando todo o currículo nacional for pensado com base no princípio da autonomia escolar, permitindo às escolas uma efectiva adaptação às necessidades educativas dos seus alunos. A única resposta legítima ao pluralismo é mais diversidade, e não mais centralismo"... não.


Não porque o sistema de ensino destina-se a garantir à sociedade que o paga que todos os alunos que detêm um certo grau académico têm um certo número de conhecimentos e capacidades. A escola pode e deve ter liberdade pedagógica quanto à forma de ensinar, mas quanto ao resultado este deve ser aferido a um padrão público. E aferido no sentido que defende esta pessoa de direita, realmente digna de pena por não ter um excessivo respeito nem por especialistas nem pela modernidade.

publicado por José Meireles Graça às 16:11
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Terça-feira, 5 de Junho de 2012

Aachen

A União Europeia é hoje o conjunto de egoísmos nacionais que durante o tempo de um espirro histórico pareceu que não era.


Entendamo-nos: enquanto o espaço europeu foi um de aprofundamento sucessivo do comércio livre, fosse com seis, nove, dez ou doze países, os cidadãos e empresas prejudicados pelo estabelecimento da comunidade foram sempre largamente suplantados pelos muitos mais que benefíciaram. E outro tanto sucedeu com a passagem a quinze membros, não obstante já então estar em vigor o Tratado de Maastricht, de 1992, que incorporava matérias que só indirectamente tinham a ver com as quatro liberdades (circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capitais).


Em 2004, mais dez países de uma assentada; e três anos depois os dois restantes, para os actuais vinte e sete.


Houve outros tratados, claro, para lidar com uma estrutura decisória crescentemente complexa, levados a bom termo; e falhanços (do ponto de vista europeísta), como a reiterada recusa da Noruega em aderir, a falta de unanimidade em torno de Schengen, o falhanço da Constituição do assanhado Giscard d'Estaing, etc.


Em 1999 veio o Euro. E houve quem, já então, achasse a construção bizarra, por falta de políticas orçamentais e fiscais comuns e por dúvidas sobre a razoabilidade de impôr a mesma moeda a espaços com diferenças abismais de competitividade e desenvolvimento.


A história de sucesso da CEE; o horror às guerras intestinas que sempre fizeram parte da paisagem europeia; a memória recente das duas guerras mundiais e o problema alemão; o medo do urso Russo; a corrente de fundo europeísta que desde o início distante na década de 50 subjazia às instituições comunitárias: tudo facilitou a vida aos engenheiros de pátrias que por aquele então acharam boa ideia ignorar umas quantas objecções de guarda-livros e nacionalistas retrógrados, e dar um passo irreversível no sentido da federalização. Se o Euro tinha os defeitos que alguns diziam que tinha, a correcção só se poderia fazer aprofundando a integração da qual as opiniões públicas desconfiavam e que, aqui e além, já claramente rejeitavam, em referendos de resultado politicamente incorrecto.


Que sabem os Povos, afinal, do que lhes convém? Não sabem evidentemente nada - quem sabe são as élites e todo o burro come palha, em havendo quem a saiba dar.


Entretanto, veio 2008 e a crise fez descobrir que o Euro foi o manto por trás do qual muitos Estados se endividaram muito para além do razoável. Isto, que já seria muito, não é ainda concludente, porque outro tanto sucedeu com Estados que não estão no Euro, a começar pelos EUA que todavia têm uma moeda de refúgio, mas também com o Reino Unido, que não tem.


As élites são ainda bastantemente as mesmas. E sendo as coisas confusas, como sempre acontece a quem vive no meio de processos históricos conturbados, fogem para a frente para não se suicidarem politicamente. E que podemos nós ler em prosa curta e leve, aqui à mão, que nos ajude a ver no meio do nevoeiro?


Bem, talvez isto, e isto e isto e isto e isto e isto. Ainda é pouco? Leia também isto.

 

Cada um verá porventura coisas diferentes. Eu vejo a sombra de Carlos Magno, sem a espada longa, chata e mortífera, e com um ar contrafeito, por lhe cair no colo o Império que desta vez não queria. Os Franceses acham que Carlos Magno era um deles. Mas tinha a capital em Aachen.

publicado por José Meireles Graça às 23:30
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Uma resposta traduzida

 

 

Camilo Lourenço, em crónica publicada no Jornal de Negócios, pergunta: "Porquê tanto pessimismo?". Aparentemente, esta foi a pergunta que lhe fizeram dois jornalistas estrangeiros que lhe telefonaram na semana passada. Estavam estes senhores muito espantados porque o Financial Times elogiava as exportações portuguesas, a Moody's teria dito que havia "razões para optimismo", e nós não tínhamos ligado nenhuma. Queriam também saber o que estava por trás do "bom comportamento das exportações e da paz social". E Camilo Lourenço partilha com eles desta perplexidade, entre outras razões porque "nem os elogios da insuspeita Moody's, que ainda há pouco tempo nos atirou para o "lixo", mexem conosco", concluindo que o caso "não tem sido suficientemente analisado" pelos nossos jornalistas. E que, a continuar assim, aos portugueses que pretendam "fugir à depressão" só lhes resta consultar a imprensa estrangeira.

 

Concordo com Camilo Lourenço. Se quiserem fugir à depressão, os portugueses têm muita imprensa estrangeira para consultar. Até estou convencida que têm alguma imprensa local para se entreterem, se quiserem de facto fugir à depressão. Revistas de moda, por exemplo. São hilariantes. Ou o Auto-Motor (eu gosto do Auto-Motor). Mas se os portugueses, em vez de fugir, quiserem combater a depressão, só conheço duas maneiras: resolver os seus problemas ou consultar um especialista no sentido de tomarem a medicação apropriada. Muitas vezes uma delas não dispensa a outra.

 

Mas eu, como não sou do ramo, vou fugir à psicologia e tentar explicar ao dr. Camilo Lourenço porque é que os portugueses têm razões de sobra para não estarem optimistas.

 

Pessoalmente, considero que a Moody's está longe de ser insuspeita. Não conheço a Moody's senão dos bitaites que tem largado, de há uns anos a esta parte, qual pitonisa embriagada. E os primeiros de que me dei conta datam de 2008. Classificavam de "Triple A" as empresas americanas que vieram a falir, no dia seguinte, funcionando como causa próxima de toda esta marmelada em que estamos enfiados até às narinas. Daí em diante, encarei com igual suspeição toda a conversa respeitante às agências de rating, desde o que diziam as próprias ao que se dizia delas. E tal como uma previsão, lida (por exemplo) na gordura que libertam as alheiras durante o processo de fritura, ou obtida com a certeza que dá Saturno quando se encontra na casa de não sei quem, às vezes acerta: Portugal, quando a Moody's classificou o país de "lixo", não me inspirava confiança para emprestar à República um único euro.

 

Mas há mais especialistas e mais oráculos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou o relatório da última visita a Portugal, no âmbito da quarta missão de avaliação do programa económico, com a União Europeia e o Banco Central Europeu. Está muito alegre, este relatório. E quem leia os títulos até fica convencido que o pior já ficou para trás. Aconselho toda a classe jornalística a ficar por aqui, e não se dar ao trabalho de ler nem mais uma linha; talvez começassem a servir para alguma coisa, e eu não me governo a alimentar um blog com jornalistas competentes.

 

Logo no final do primeiro parágrafo, cujo título diz "The program remains on track amidst continued challenges" (a palavra "challenges" seduziu-me de imediato), pode-se ler:

 

"The authorities are implementing the reform policies broadly as planned end external adjustment is proceeding faster than expected".

 

Ou seja, eles estão convencidos que, de uma maneira geral, as reformas em Portugal estão a ser executadas a uma velocidade muito razoável. Do meu ponto de vista, se eles estivessem convencidos que as reformas em Portugal estão a ser executadas já estariam enganados. Pelo que a questão da velocidade se torna perfeitamente decorativa. Mas continuemos.

 

O segundo parágrafo chama-se "Growth in 2012 may hold up better than expected" (eu avisei: os títulos são todos bestiais). Diz, a certa altura:

 

"However, with domestic demand weak and pressures on firms to reduce high indebtedness, unemployment has increased sharply as part of the adjustment process, and could peak at close to 16 percent in 2013. Continued tensions in the euro area represent a risk clouding the external outlook".

 

Traduzindo: grosso modo, eles detectam que a procura interna está fraca, e que as empresas portuguesas sofrem pressões para que reduzam os altos níveis de endividamento, o que tem levado à subida brusca do desemprego. E que esta subida pode situar-se num valor máximo aproximado de 16% em 2013. Concluem este parágrafo observando que as tensões na zona euro representam um risco a enevoar a perspectiva do exterior. Duvido do valor de 16%, que considero optimista. Mas no restante quer-me parecer que têm razão.

 

O título do terceiro parágrafo é "The ambitious 2012 fiscal deficit target remains within reach". Pois sim, "talvez" ainda esteja ao nosso alcance. Mas depois diz:

 

"Reforms of state-owned enterprises and public-private partnerships are on track. Efforts to strengthen public financial management, bolster tax compliance, and streamline public administration are continuing at good pace".

 

Aqui parei de ler. Ao FMI, à UE e ao BCE parece-lhes que as reformas no sector público do Estado e nas PPPs vão sobre rodas. Devem ter visto documentos de outro país, porque aos portugueses o que são apresentadas são notícias de barbaridades com o Tribunal de Contas, empresas públicas irreformáveis, e moscambilhas com os contratos das PPPs. E do pouco que se apurou, percebeu-se que dos efeitos mais brutais destes contratos sobre o contribuinte ainda não se lhes sentiu mais do que o cheiro.

 

De resto, dr. Camilo Lourenço, não precisamos consultar mais relatórios, previsões, horóscopos ou borras de café. A Justiça foi reformada, ou encontra-se em vias de uma alteração histórica que vai garantir aos investidores que um processo em Portugal não demora mais do que, vá lá, um ano a ser decidido e executado? Não. A burocracia, designadamente no que toca aos licenciamentos, foi desimbecilizada? Não. O sistema fiscal garante hoje que as empresas podem não só sobreviver, mas também competir? Ou sequer perceber, com a antecipação razoável, quanto é que o Estado vai subtrair à sua facturação? Também não. A Banca está em condições de assegurar o crédito necessário para as empresas se financiarem? Não está. E a reforma das autarquias, vai de vento em poupa? Não falo de juntar meia dúzia de Freguesias, como é evidente. Pergunto se há notícia de se fundirem Câmaras Municipais. Ouviu falar de alguma que se prepare para desaparecer? Não, ainda não é desta.

 

Então, dr. Camilo Lourenço, da próxima vez que lhe telefonarem do estrangeiro a perguntar porque é que os portugueses estão pessimistas, não se estenda por muitos detalhes. Não vale a pena, e a única economia que vai alavancar é a das empresas operadoras de telecomunicações. Responda-lhes apenas: "Porque sabem do que a casa gasta" (em inglês, "bicóz dei nao avuó di ráuze çependz"). Eles vão perceber.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:46
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Segunda-feira, 4 de Junho de 2012

As não-alternativas da Esquerda fortemente lúcida

Na sua coluna no Expresso do fim de semana passado, em artigo fremente de indignação, Miguel Sousa Tavares amarra ao pelourinho da opinião pública Sócrates, Teixeira dos Santos, Alberto João Jardim, Durão Barroso e restantes dirigentes da UE ("os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez"), Merkel, a Troika, António Borges, os grandes escritórios de advogados e o Governo actual  — espero ter listado tudo. Relvas, desta vez, escapou, como escaparam Alexandre Soares dos Santos, António José Seguro e o Monstro das Bolachas, sem dúvida por ter acabado o espaço disponível.

 

MST queixa-se, em resumo, dos desmandos socialistas que nos trouxeram até aqui; da União Europeia que não lidou com a situação da melhor maneira; e da receita austeritária, tanto europeia quanto nacional: "...como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia".

 

 

Quem descreve problemas em artigos de opinião não tem obrigação de fornecer soluções — um bom diagnóstico já é suficientemente raro para merecer encómios. Mas MST oferece algumas soluções — já lá vamos.

 

Ocorre que MST é  socialista. E proponho que mesmo que Sócrates não fosse, como provavelmente é, venal; mesmo que os contratos das PPPs tivessem sido redigidos de forma equilibrada e não por advogados espertos e políticos estúpidos ou desonestos; ainda que não se tivesse "investido" em obra pública que agora escandaliza pelo esbanjamento e a desnecessidade; se o BPN falisse ou se salvasse com Cadilhe, em vez de nacionalizado; e se os erros cometidos não o tivessem sido por tantos incompetentes, mas sim por muitos mais inocentes - o resultado não teria sido muito diferente.

 

 

É que o equilíbrio das contas do Estado nunca foi, depois do 25 de Abril, nada que o establishment respeitasse. E não é, mesmo agora, nada que a Esquerda aprecie. E assim, o dizer que o mal não está na despesa excessiva mas sim nesta despesa excessiva é o que se diz sempre que o resultado é o desastre: Ah, que se estes incontáveis biliões tivessem sido gastos em educação, e em saúde, e em formação profissional, e na Cultura, e fossem administrados por gente séria, que diferente seria!

 

Não seria diferente — seria muito parecido. A menos que tivéssemos moeda própria, caso em que o valor dela reflectiria pela desvalorização os delírios dirigistas e intervencionistas dos governantes que temos escolhido, servindo de aviso e, em parte, de correcção.

 

MST não vê isto. E imagina que com outro pessoal (quem? Seguro pelos vistos não serve)  alternativa à austeridade.

 

Não tivemos direito a uma ideia-força do que poderia ser este programa alternativo, mas a algumas ideias parciais: i) O programa de renegociação das PPPs não está mal, embora pareça ignorar a contemplação dos interesses estrangeiros que estão presentes e cuja ofensa poderia ser um tiro nos pés; ii) Obrigar "os bancos a aplicarem todo o dinheiro que vão buscar ao BCE a 1% de juros no financiamento da economia e das empresas viáveis e não em autocapitalização, para taparem os buracos dos negócios de favor e de influência que andaram a financiar aos grupos amigos", soa muitíssimo bem. Excepto pelo pormenor de os fazer falir, obrigando à sua nacionalização; iii) "Todas as empresas de construção civil, que estão paradas por falta de obras e a despedir às dezenas de milhares, se possam dedicar à recuperação e remodelação do património urbano, público ou privado, pagando 0% de IRC nessas obras". Excelente ideia, embora os privados não estejam a dar sinais de, mesmo com desconto, estarem interessados nas obras que MST estima altamente desejáveis, e o Estado não ter dinheiro para financiar as suas; iv) "Proíbam as privatizações feitas segundo o modelo em moda, que consiste em privatizar a parte das empresas que dá lucro e deixar as 'imparidades' a cargo do Estado." Realmente...eu iria mais longe, não privatizando empresas sem garantias de não estar a criar monopólios privados. Embora, tirando o BPN, uma bota rota e podre que era preciso descalçar, não esteja ao corrente da existência de outra empresa em que o Estado tivesse ficado com as imparidades.

 

"A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever."

 

Ora, Miguel, pode confiar, eles sabem que é de boas contas. Mas duvidam que o nosso País também seja. E por isso, 4,5%, com a inflação como está, nem parece um número muito impressionante. Eu a si emprestava-lhe a 2% — ao País nem aos 4,5%. 

publicado por José Meireles Graça às 12:02
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As criadas

 

 

Eu espirrei e ela disse "Bom tempo; espirram os bodes", ao que a minha mãe respondeu "Ó Mariana, o que é que você disse?" E a Mariana explicou que era assim que se dizia na terra dela, "minha senhora, quando as pessoas espirram". "Então você está a chamar bode à menina, Mariana?" E a Mariana, que era de Barrancos, percebeu que aquilo não estava bem. Por isso dali para a frente, cada vez que eu espirrava no berço, a Mariana dizia "Bom tempo!" e a minha mãe, se a ouvia, fazia-lhe uns olhares, mas nunca a conseguiu ensinar que o que estava errado era a ideia em si mesma, de chamar bode a um bebé, e era indiferente que ela dissesse ou não a palavra "bode". A Mariana gostava de prever as condições meteorológicas, e ficava toda contente quando me ouvia espirrar porque, no entender dela, era prenúncio de "Bom tempo!" e não conseguia deixar de o dizer. Tenho quase a certeza que me lembro de a ver aproximar-se, ocultando-me a vista, ocupando todo o meu campo de visão, o bigode esparso de pêlos escuros muito erectos, para sussurrar "Bom tempo!" junto à minha orelha, porque a minha mãe estava ali mesmo ao pé.

 

Depois veio a Assunção, gorda e minhota, o bigode da Assunção era loiro. Nessa altura eu já andava, e a Assunção parecia-me altíssima, volumosa, os aventais da Assunção levavam muito pano, eu tinha ideia que podia dormir nos aventais da Assunção. Essa gostava de me passear, "os meninos não é para estarem fechados, balha-me Deus, por causa das vactérias minha senhora", e todos os dias me vestia de saia lavada, passada a ferro, impecável, e andávamos na rua, para cima e para baixo, eu pela mão da Assunção, até ela me considerar passeada.

 

Foi substituida pela Noémia que chegou num sábado, bonita e decidida, um olho verde e outro azul, fomos buscá-la à camioneta. Vinha de Valença do Minho e ficou muitos anos. Seis anos, para ser rigorosa. Naquela idade é uma vida inteira. Não a deixámos na camioneta. Deixámo-la num altar minhoto, onde já estava o António, porque casou "lá de casa" e os meus pais foram os padrinhos.

 

Era da Noémia a barriga que sossegava a minha irmã. A mais nova de todos, era crédula e gozada por nós, faziamos sempre a mesma graçola durante as refeições. Consistia em bater com uma mão debaixo da mesa, como quem bate a uma porta, e dizermos uns para os outros "olha, vem aí o lobo mau!". A cara dela ficava muito encarnada, os olhos largavam lágrimas e, com uns deditos abebezados, acenava à Noémia que já sabia o que fazer: aproximava a barriga. Ela afundava a cabeça na barriga da Noémia, nós levávamos uma descompostura, e a coisa ficava resolvida até à refeição seguinte.

 

A Noémia cantava o fado. E diz quem gostava de fado que ela cantava bem. Eu sempre detestei, mas sabia distinguir uma afinação e uma boa voz. A voz da Noémia era compacta, poderosa, saía de cima da tábua de passar a ferro e chegava à porta de entrada, ao quarto onde dormíamos a sesta, e ao fundo do terraço onde brincávamos. Os fados da Noémia foram a banda sonora de muita correria.

 

A Noémia tinha a quarta classe. À minha mãe pareceu-lhe pouco. Passou a vir almoçar a casa e, todos os dias da semana, depois da mesa levantada, seguiam-se as lições. Nós andávamos por ali até serem horas de voltar para a escola, e elas estendiam uma série de livros e cadernos em cima da toalha. A seguir liam, faziam contas, a minha mãe debitava, a Noémia perguntava, resolviam-se folhas de exercícios e despachou-se o ciclo preparatório. Não fazia parte do curriculum, mas havia uma coisa que a Noémia adorava fazer. E fazia como nenhum outro português: falar espanhol.

 

Num certo verão, a minha mãe indispôs-se com a minha avó porque ela insistia em que as criadas deviam ir fardadas para a praia. A minha mãe disse-lhe "as minhas vão de fato de banho, como toda a gente". Aquilo correu mal. Trombone o resto das férias e, no ano seguinte, os meus pais marcaram viagem por Espanha, com praia em Zarautz e passagem pelos Picos da Europa. Seis pessoas, contando os meus pais, nós os três, e a Noémia. Tudo enfiado num Fiat 850 Especial, mais a bagagem para um mês, a caminho do País Basco, ida e volta, com rolos e rolos de fotografias, e a Noémia luminosa num sorriso contínuo porque falou espanhol durante as férias inteiras. E os espanhois não davam por nada, pensavam que a Noémia era espanhola, e só falavam com ela.

 

O luto pelo casamento da Noémia foi curto, porque a Gumercinda chegou logo a seguir e conquistou de imediato as simpatias do povo. Era muito pequenina e quase magricela, toda vestida de preto pela morte do pai, cabelo apanhado num carrapito preso com ganchos, rosetas nas bochechas de andar ao sol, e muitas soluções. A Gumercinda atirava-se aos problemas como os socialistas nunca se atiraram à cultura, e os problemas tinham medo dela. O primeiro, logo no dia em que aterrou de Mirandela, foi uma saca de batatas que trazia lá para casa, enviada pela família, uma coisa com (informaram-me depois) cinquenta quilos que a Gumercinda alombou até ao fundo da despensa porque o meu pai não se aguentou com o peso escadas acima.

 

A Gumercinda encarregava-se de cortar os pescoços aos perús que recebíamos, de presente, por alturas do Natal. Anos que viva, não me esqueço dos perús, já sem cabeça, a correr ensanguentados pelo terraço, penas por todo o lado e a Gumercinda de pé, satisfeita e vestida de preto, pernas abertas, braços descidos e barriga espetada, empunhando o facalhão e comentando para o meu pai: "Parexe-me que já istá, xenhor ingenheiro". E dava golpes nos cachaços dos coelhos, e murros bem apontados nas batatas que saiam assadas em tabuleiros, para acompanhar bacalhau. E ralhava conosco quando fazíamos asneiras, e punha-nos de castigo no canto da cozinha "a ber che bos acalmais", mas não contava as asneiras quando os meus pais chegavam a casa, poupando-nos as consequências. E a meio da tarde, quando três patos bebés muito amarelinhos que tinhamos trazido do Parque do Alvito começavam a andar de roda dela no terraço, dizia: "Bós tendes fome!" e dava-lhes de comer. Aos patos e a nós. Alheiras maravilhosas que trazia "da terra" e a que eu torcia o nariz, porque era ignorante e preferia um ovo mexido com salsichas.

 

Tinha medo do mar, a Gumercinda. Um medo que lhe tirava a cor e lhe alterava o tom de voz. O meu pai convidou-a uma vez para ir dar um passeio de barco. Ao perceber o terror, insistiu. "Num bou, xenhor ingenheiro! Num bou! Já le dixe que num bou!" E foi no dia em que nós, crianças, percebemos que a Gumercinda não era imortal.

 

Mas também a Gumercinda tinha uma tarefa da sua predilecção: arear os amarelos. E pela maneira como lidava com os perús, os coelhos, e as batatas assadas no forno, nem preciso descrever a fúria com que a Gumercinda se atirava aos amarelos.

 

E depois veio a Júlia, que perguntava "ó menina, quantos quilómetros são daqui às Amoreiras?" porque gostava de centros comerciais. E outra Assunção, esta de Alcains, que despachava os magalas que se metiam com ela na rua, quando ela "binha do supermercade, vunva, vunva por aí fora", e eles ficavam a rir-se quando ela lhes atirava "ide pró diave!". Essa gostava de revistas de moda, abdicava das folgas, e passava os domingos a costurar. Para ela, como é evidente. E andava sempre vestida como as apresentadoras da televisão. E a Rosa, que era de Lisboa e que a sabia toda, que gostava de romances e de amantes, e nos aconselhava (como nunca mais ninguém) sobre como conduzir os nossos namoros de adolescência. Também a Rosa encobria os nossos abusos, e não contava aos meus pais quando eles iam de viagem e nós chegávamos a casa de madrugada, e levávamos gente que ficava para dormir.

 

Por isso é que eu consolidei a seguinte certeza: todas as criadas têm uma tarefa preferida, que desempenham sempre que podem. Seja prever o tempo, passear miúdas pequenas, falar espanhol, esmurrar batatas, arear os amarelos, ir ao centro comercial, costurar vestidos, ou aconselhar assuntos do coração. Destas guardo boas memórias.

 

Nas últimas semanas dei com um fenómeno semelhante, mas agora já não sei onde as vão buscar. As criadas do Expresso, do Público, do Diário de Notícias, de toda a imprensa escrita e de toda a blogosfera não sabem ler nem escrever. Não limpam coisa nenhuma nem ajudam as crianças, e adoram dar palpites sobre "o caso Miguel Relvas".

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 04:37
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