Errar: v.t. Cometer erro em; equivocar-se, enganar-se.
Passos Coelho não recua em nenhuma das medidas
Manifestar: v.t. Fazer coletivamente demonstração pública.
Procurar: v.t. Diligenciar por encontrar, afadigar-se por descobrir.
Paulo Portas desafia Governo a ter uma posição de abertura
Aproveitar: v.t. e v.i. Tirar vantagem: aproveitar o tempo. Trazer lucro: a quem aproveita o crime?

PS diz que Passos foi desautorizado pela discordância de Portas quanto à TSU
Agravar: v.t. Tornar mais grave, mais pesado, mais difícil de suportar: agravar seus erros, seu mal.
PSD vai reunir órgãos dirigentes para responder a Portas
*Significados retirados de Dicionário Online de Português
* Também publicado em Senatus
Margaret Thatcher começou a cair por causa da poll tax - os colegas de partido tiraram-lhe a cadeira porque nenhum partido político permite, conscientemente, que o seu líder o enterre. A poll tax não podia ser engolida pelo eleitorado britânico, tal como o aumento da TSU para os trabalhadores, em conjunto com a redução para as empresas, não pode ser engolida pelo eleitorado português. Não pretendo discutir os méritos da poll tax, que existem, nem da redução da TSU, que também existem. Mas também há argumentos a favor da poligamia (e da poliandria, já agora) e nem por isso um governo sensato decide remover do Código Penal a criminalização da bigamia. Nenhum governo pode, mesmo que tenha, ter razão contra a razão das pessoas, porque os governos, em regime democrático, dependem delas - e não o contrário.
Como foi que Thatcher pisou essa mina, que ela própria colocou, é para mim um mistério. E como na cabeça de Passos, ou de quem gizou o disparate, germinou a ideia peregrina de diminuir os salários líquidos dos trabalhadores, e ao mesmo tempo a contribuição dos patrões, desafia o entendimento. Não há políticos no Governo?
Com uma pitada de vindicta pessoal, e possivelmente outra de encomenda do Presidente da Republica, é a esta luz que devem ser vistas as declarações de Manuela Ferreira Leite: quando um líder claudica, a oposição interna vem ao proscénio oferecer-se para salvar a Pátria em perigo. Manuela deu assim o seu contributo ao sucesso da manifestação de ontem, e não terá sido muito pequeno.
Todavia, convém que haja, no meio da excitação geral, algum discernimento: a maior manifestação nos tempos recentes teve lugar em 5 de Junho de 2011, e deixa a de ontem num canto envergonhado: mais de cinco milhões de pessoas na rua é obra. E mesmo que os quase três milhões que então compraram o Poder actual já não sejam tantos, em caso de esboroamento os herdeiros nunca seriam nem os bons dos comunistas, que ontem andaram disciplinada e discretamente a ajudar, nem os indignados profissionais da agremiação de Frei Anacleto. Seria o PS, com Seguro ou outro qualquer socialista que se tome por predestinado, provavelmente o edil Costa (um ou outro, aliás, sólidos como uma rocha - o poder de distribuir lugares faz maravilhas pela unidade).
Não é credível que na cabeça de um socialista pudesse nascer a ideia do aumento/redução da TSU. Naqueles privilegiados crânios nascem recorrentemente visões de futuros gloriosos através de investimento público, "apostas" na educação e na modernidade, grandiosos projectos tecnológicos, apoios à indústria "virada para o futuro", e iniciativas dinâmicas sortidas, tudo coisa de custos certos e resultados improváveis.
A prazo, e bem curto, a perspectiva duvidosa de regresso aos mercados transformava-se na certeza de uma impossibilidade; o crédito um tanto humilhante do bom aluno transformava-se no descrédito do caloteiro; e as manifestações ordeiras e pacíficas de ontem tornavam-se na barafunda do desacato e da bastonada, senão pior.
Pensando bem, a manif, pelo que teve de manifestação autêntica de desconfiança dos políticos todos, pode ter contribuído para abrir aquelas cabeças de apparatchiks da economia de Excel: teóricos da economia querem-se na universidade, nas revistas da especialidade e nas colunas de opinião. No Governo querem-se políticos, gente que sabe que a Política é a arte do possível, está preparada para o desprezo geral e conhece os limites do viável.
Porque, se não conhecerem, outros virão. E será tarde para o povo se lembrar do ditado popular: atrás de mim virá quem de mim bom fará.
Eurogrupo só passa cheque a Portugal depois do Orçamento ser viabilizado
Excelente desculpa, lá vai o bom do Seguro votar a favor ou abster-se no orçamento, que de toda a maneira só quer eleições e ir para o Governo se este tirar as castanhas do lume.
Ou se não tiver outro remédio. Que o Senhor Presidente da Câmara de Lisboa, farto de vernissages e de estragar o trânsito, lhe morde os calcanhares porque tem a solução para o País: o programa de Sócrates, que seguiu e apoiou entusiasticamente, para o qual julga haver crédito; e, em não havendo, taxar os ricos para tornar o país mais competivo - Costa é um grande adepto da competividade, que defende com alguma indiferença pela Gramática e pelo senso.
Guerras florais. No fundo são peões de um jogo onde imaginam que têm alguma coisa que preste a dizer. Mas não têm, os senhores da troika, agora que o grosso das dívidas dos PIIGS foi transferido dos bancos para os "cidadãos europeus", não estão para embrulhar os diktats em excessivas delicadezas e dizem ao que vêm.
São credores e falam grosso. Qualquer credor fala grosso se achar que o dano que pode infligir é maior que o dano que pode sofrer e estiver certo que o devedor está ciente disso.
Se a classe dirigente achasse que nem a UE nem o Euro têm futuro; se fosse pacífico que não é possível haver crescimento com um Estado desmesurado e uma fiscalidade predatória; e se a opinião pública percebesse que a solidariedade europeia é uma mera desculpa para sustentar burocracias que administram os fundos e os distribuem, ao mesmo tempo que vão criando a gigantesca teia de regulamentos que peia a actividade económica e exige cada vez mais pessoal e recursos; e, por último, se a população não estivesse doutrinada por décadas de europeísmo, dereitos, pugresso a crédito e visse o Estado pelo que é - uma emanação nossa que não pode dar nada a ninguém sem o retirar ao vizinho - seria possível dizer aos credores:
"Nós vamos pagar até ao último cêntimo, incluindo juros. Para isso, temos que crescer e para crescer o vosso programa não serve, porque o ritmo a que retira recursos da economia é superior ao ritmo a que razoavelmente podemos reformar o Estado e porque só podemos dar sangue se alimentados. Mas vamos fazê-lo e disciplinar as contas e o País, porque somos gente séria e simples, e já internamos o mayor Costa e todos os adeptos da economia vudu. Por conseguinte aqui está o nosso Plano. É pegar ou largar. Se largarem, ficam a arder, nem que comamos erva."
Era preciso cojones, artigo de que há um grande défice: o que há é mais para manifestações e bifanas.
A troika pode ficar sossegada e dizer - e fazer - o que quiser. Se for à janela, vê um mar de cartazes. Ao fim do dia, os varredores limpam o lixo, como de costume.
A releitura deste post da Margarida tornou-se obrigatória.
Hermínio Loureiro considera que o mar é "um cluster importante para o crescimento e desenvolvimento do nosso país" e, por isso, tem de ser visto como uma "grande oportunidade".
Uma "aposta fantástica", os Descobrimentos, o sol, o "cluster", e assim. Uma intensa relação com o mar, potenciar, e tal.
Está bem, vamos então para o mar: as naus arrancam do cais de Oliveira de Azeméis, no sistema 4-3-3.
Desta vez, limito-me a chamar a atenção para a data em que este texto foi publicado pela primeira vez.
DRAMA CAVAQUIANO
«A semana passada, os perversos sábios que se especializaram na nossa economia fizeram um seminário com banqueiros em Vilamoura. Nunca fui convidado para nenhuma destas negras actividades e tenho imensa pena. Os economistas não são como nós. Pertencem àquela espécie de seres que outrora nas florestas se ocupavam a conversar com espíritos e sabiam fórmulas mágicas para vender dragões. Ainda hoje há astrólogos e praticantes de medicinas paralelas. Mas com pouca influência. Só os economistas sobrevivem à civilização e conseguiram conservar os seu antigo prestígio. O grande Merlin (*Cavaco) ficou em Lisboa, a negociar a revisão constitucional. Em Vilamoura, só esteve o aprendiz Cadilhe, a fada Morgana, Teresa Ter-Minassian, e duas dúzias de feiticeiros teóricos. Mesmo assim valeu a pena.
Depois de vastas e profundas discussões e da celebração minuciosa dos ritos esotéricos da ciência, os sábios de Vilamoura resolveram mandar, pelo aprendiz Cadilhe, um recado urgente a Merlin: a raiz da mandrágora, a pele do sapo e os sinais de fumo indicavam, sem sombra de dúvida, que Merlin devia reduzir o défice do Estado. Da sua caverna de Linda-a-Velha, o venerando Alfredo de Sousa, ex-mestre de Merlin, aprovou esta grave advertência com todo o peso do seu afamado bom senso.
Não há certamente na história portuguesa dos últimos duzentos anos conselho que mais gente mais vezes tenha dado em vão a mais governos. Tirando Afonso Costa em 1913, do fim do século XVIII a 1928, nem um único governo foi capaz de reduzir significativamente o défice do Estado. O dr. Salazar, que foi capaz, era um ditador muito bem equipado, com um exército fascizante, uma bela polícia secreta e lindíssimos campos de concentração. Os sábios de Vilamoura, no etéreo assento onde subiram, desconhecem estas coisas vergonhosas ou não vêem por pura delicadeza qualquer relação entre o défice do Estado e a deliciosa capacidade de meter na cadeia os portugueses teimosos ou malvados, que se recusam a cumprir as profecias económicas dos peritos.
Quando lhes perguntam como pode o grande Merlin reduzir o défice, os sábios de Vilamoura deixam cair uma pérola da sua enorme sabedoria e respondem que, se diminuirem as despesas, eles garantem, porque um mocho lhes disse, que o défice também diminui. Quando lhes perguntam que despesas é preciso diminuir, eles respondem, falando sempre pelo mocho, que é preciso combater a burocracia. E que burocracia? A burocracia inútil. Perfeito. O feiticeiro de Linda-a-Velha chegou até a sugerir que se acabasse com o Conselho Nacional do Plano, acto heróico que pouparia pelo menos uns milhares (sic) de contos.
A ideia grotesca de que a maneira de reduzir o défice é reduzir o número de "empregos inúteis" fazia tradicionalmente parte do programa da Esquerda, ou seja, do radicalismo democrático. Durante séculos, a Esquerda berrou, ganiu, regougou contra os "empregados inúteis", para descobrir logo que chegava ao poder (e raras vezes chegou) que a "inutilidade" dos empregos consistia em não serem dela. Quando os "empregos" passavam para os "patriotas" do café Marrare e de outros cafés bem pensantes tornavam-se miraculosamente "úteis".
Dantes o ódio à burocracia disfarçava a ganância. Hoje disfarça a total ausência de pensamento político dos sábios de Vilamoura e a sua basáltica impermeabilidade ao real. Joaquim António de Aguiar declarou à hora da morte que não tinha gostado de nascer entre estúpidos, viver entre estúpidos e morrer entre estúpidos. Foi um excesso lamentável que só as circunstâncias explicam. Não está com certeza fora dos limites do entendimento dos sábios de Vilamoura que, em Portugal, o Estado preenche, ou tenta preencher, a diferença entre as expectativas dos portugueses e a pobreza do país e que, portanto, o défice é proporcional a essa diferença e reduzi-lo implica baixar essas expectativas.
Vamos lá devagarinho e com paciência. As expectativas dos portugueses não dependem apenas no governo. Dependem sobretudo do que os portugueses conhecem do estilo de vida na Europa e na América; das promessas que receberam de inúmeros demagogos desde 1974; e das próprias mudanças para melhor nestes últimos tempos. Incontestavelmente, o dr. Cavaco acirrou o apetite a toda a gente durante os dois anos da absurda campanha eleitoral, que começou no governo de 85 e acabou em 19 de Julho. Mas resta apurar se, sem ela, a situação seria menos intratável.
Os portugueses querem as escolas e as universidades que têm e mais escolas e mais universidades e mais professores e mais instalações. Querem mais hospitais, mais médicos e tratamentos mais caros. Querem reformas maiores. Querem mais casas e mais baratas. Querem mais esgotos, mais estradas, mais electrificação, mais água canalizada, mais tribunais e tribunais mais eficientes. Querem mais isto e mais aquilo e, a seguir, ainda mais e mais. Não há fundo no que os portugueses querem e no que se sentem com direito a ter. Os inválidos querem a assistência, os atletas pistas de tartan, os cineastas filmes e a aldeia de Pouca Terra o restauro de uma capela. Basta ligar a televisão dez minutos por dia para se apreciar o abismo insondável do que os portugueses esperam do Estado. Digam-me os sábios de Vilamoura de quem é que eles hão-de esperar? Da sua pobreza ou de Nossa Senhora de Fátima?
Nenhum milagre financeiro (incluindo a venda das empresas públicas e a contenção temporária da dívida) pode algum dia vir a satisfazer as exigências do país, no mínimo necessário à paz e ao equilíbrio social, com as receitas "normais" do Estado. O défice é, por consequência, inevitável e o crescimento do défice também, uma vez que a soma do que os portugueses consideram o mínimo necessário cresce exponencialmente à medida que esse mínimo é satisfeito. Por outro lado, como o grande Merlin não tardará a descobrir, a pobreza não põe limites à voracidade indígena, mas põe estreitíssimos limites à carga fiscal suportável pela classe média que, para classe média, vive numa patética indigência, constantemente ameaçada de um sério trambolhão social. Não é por acaso que, desde os bons tempos de el-rei D. João VI, os governos andam por aí apertados entre o imposto e a dívida, ora caindo por causa do imposto, ora caindo por causa da dívida. Neste capítulo, nada mudou. O que mudou foi a quantidade de coisas desejadas, hoje infinitamente maiores.
Não sendo pessoas mal nascidas e ordinárias, os sábios de Vilamoura não se preocupam com política. Limitam-se a oferecer opiniões muito avisadas e criteriosas, para os políticos, no seu próprio interesse, seguirem à risca. Eles guiam-se pela razão, os políticos pela razão inferior de ganhar votos, a que sacrificam a Pátria e o Desenvolvimento. Mas nunca lhes ocorreu que se, por exemplo, o dr. Cavaco não ganhar votos, os ganha o dr. Constâncio pelos mesmos sórdidos processos e para os mesmos repelentes fins, ou que a aplicação das suas receitas, além do recheio das suas queridas cabecinhas, exige dez PIDES e um considerável alvoroço.
O grande Merlin, agora bastante depenado, já pertenceu ao grupo dos sete sábios de Vilamoura. Este ano começou a sua educação. Ainda tem muito que aprender. Quando aprender tudo, vai descobrir que afinal não é o grande Merlin, é o dr. Cavaco, pequeno político com muita sorte, metido no pântano até ao pescoço. Como os outros, coitado. Um pobre homem.»
(Vasco Pulido Valente, in O Independente, 21 de Outubro de 1988)
Importante questão para a qual fui encontrar resposta, ainda que de forma indireta - discreta, vá - no último relatório da OCDE sobre Educação - Education at a Glance.
Segundo este relatório :"Portuguese children from families with low levels of education are least likely to attain a higher level of education than their parents." No big news there. Parece ser uma verdade quase inquestionável em todo o mundo.
Mas, as they say, the plot thickens, e pode ler-se mais adiante: "However, both Portugal and Turkey record the greatest likelihood that young adults from highly educated families will continue into higher education. On average across OECD countries, a 20-34 year-old from a highly educated family is almost twice (1.9) as likely to enroll in higher education, as compared with the proportion of such families in the population. In Portugal, a young adult from this background is more than three times as likely to do so."
Daqui se conclui que a espécie em causa tem certamente origem em Portugal ou na Turquia, em lares onde haveria forte incidência de livros e de cotovelos fora da mesa às refeições.
Quanto a outras implicações práticas da vida desta espécie, eis que a OCDE também oferece pistas: "On average across OECD countries, a person with a tertiary education can expect to earn 55% more than a person with an upper secondary education. This premium is 69% in Portugal (...)."
Isto agora é que já não sei garantir. Mas pelo menos dá-nos a nós, Gremlins Literários, "food for thought". E assim a espécie progride.
Há não muito tempo o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça foi filmado enquanto, em passinhos apressados no Terreiro do Paço (salvo erro), dava uma entrevista a um jornalista malcriado sobre a interferência de Sócrates na TVI. Ficou-me na retina a imagem do mais alto magistrado judicial a balbuciar umas coisas mal amanhadas, enquanto contrariado se encolhia perante a saraivada de perguntas.
Os jornalistas acham que, se forem insolentes, puserem de lado normas elementares de trato, atalharem o passo, interromperem raciocínios e discursos, transformarem entrevistas em debates - interpretam o sentir e os desejos do público. Terão talvez razão: pelo menos para o público das caixas de comentários dos jornais on-line, onde a indignação em maiúsculas vai de par com o insulto rasca, a linguagem desbragada e o pontapé na Gramática.
Os políticos, os nossos e os dos outros, julgam que assim se aproximam do "povo". Engano deles: o povo que berra e esperneia também é povo, mas não é o Povo. E não se pode respeitar quem não se dá ao respeito.
Numa versão mais tecnológica deste equívoco, há as páginas do Facebook. Nelas, o governante "ouve" os dislates, as irrelevâncias, a graxa ou as piedades de quem imagina que ele tem tempo para o ouvir.
De um líder espera-se que seja mais lúcido do que os liderados; e que trabalhe, estude, ouça especialistas, pondere, avalie - e decida.
Não é que um privatus esteja necessariamente errado e os especialistas necessariamente certos. É que no dia em que os homens de Estado forem marionetas de uma opinião pública volúvel, sentimental, ignorante e espectadora do Preço Certo, estaremos perdidos. Não se pode confiar num tribunal no qual possamos dizer ao juiz, se discordarmos da sentença: és burro como uma porta, ó caramelo!
E pior se o Juiz se dirigir à parte decaída e lhe disser, compungido: ai queridos, o tanto que me custou esta sentença! Eu bem queria decidir de outra maneira, mas não pude, ai!, não pude, que ele há o Direito, e as minhas obrigações, e a ponderação dos interesses em presença, e tal.
Passos Coelho e quem o aconselha poderiam talvez lembrar-se que há modas que mais vale não copiar. Senão, um destes dias tem que ser filmado com os pés em cima da mesa, a beber coca-cola e a fingir que é um de nós.
Isso funciona com Americanos. Nós bebemos vinho, mesmo que seja uma zurrapa.
O nosso Governo decidiu e falou. E como os outros dos países que estão ou vão ser intervencionados, persiste em macaquear os efeitos da saída do Euro, tendo aliás a comunidade dos alquimistas da Economia um nome para isto: chama-se desvalorização interna.
Esta desvalorização, que inclui uma redução do salário mínimo, é em si positiva: muitas (?) empresas que iriam fechar ou sobrevivem ou duram mais tempo; alguns (?) despedimentos que teriam lugar serão poupados; e alguns (?) postos de trabalho serão criados, por o custo do trabalho ter descido.
O preço para isto, porém, é alto: alguns patrões serão tentados, sem que seja necessário para a viabilidade da empresa, a empochar a redução dos custos salariais. E mesmo que isso não prejudique o ambiente de trabalho (o que aliás é um problema do empresário e não da comunidade) ficará um lastro de percepção pública de que o Governo quis, numa situação de crise, poupar o patrão e esmagar o trabalhador. Num País com uma tão consolidada e difusa convicção de que há pobres porque há ricos, isto é o que se chama um tiro nos pés, e terá o seu preço em votos. De resto, a comunistada, a da Bayer e a das fracturas práfrentex, já esfrega as mãos, e, no lugar deles, também esfregava as minhas, porque o aumento violento da contribuição do trabalhador é um bodo para o discurso do "eles comem tudo".
Mas isto ainda é o menos. Porque há um aumento de impostos com data marcada e uma redução da despesa pública sem data e sem credibilidade, de tanto se falar nela e tão pouco se fazer. E há também a percepção de que nos rentismos das PPPs e da energia, bem como na tolerância aos oligopólios, aos abusos da Banca e ao aparelho do Poder Local, para já não falar na RTP, ou nas múltiplas excepções aos cortes de subsídios - tudo permanece igual.
Desvalorização interna, é? A moeda que temos não é a nossa moeda, é a moeda da economia que não temos e o écran por trás do qual nos endividamos tanto que a dívida pública, mesmo que exangues de tanto imposto, continua a crescer.
Temos pela frente uma interminável guerrilha do ressentimento: os socialistas de velha ou fresca data já falam de mais impostos sobre o capital (a ver se ele foge ainda mais) e sobre o património (a ver se o que resta de construção civil morre de vez). E isto porque, num barco a afundar, a percepção de que o grau de aflição não é o mesmo para toda a gente é letal.
Há uma maneira de perdermos todos, ou quase todos, e lambermos as nossas feridas em conjunto enquanto restauramos a casa escangalhada: é sair do Euro.
O sucedâneo nunca é tão bom como o original.
________
Nota: A fotografia é da Margarida.
O meu lugar na hierarquia da casa não me permite muitas vezes ver os programas de TV que por mim escolheria, a menos que mudasse de divisão, atitude que por sua vez seria vista com alguma circunspecção. Daí que, enquanto me entretenho com o computador, vá ouvindo coisas surpreendentes sobre operações, estéticas, doenças, gravidezes inesperadas, gente horrivelmente vestida que, depois de aconselhada, fica horrivelmente pirosa - e culinária. Nesta avultam programas Ingleses ou Americanos, dois países cujos cidadãos, por razões diferentes, se alimentam geralmente de lixo.
Os programas são naturalmente em língua inglesa e a palavra mais ouvida, para descrever as mais retorcidas invenções culinárias, é "delicious".
Isto é extraordinário: há a cozinha mediterrânica, com enormes diferenças de tradição de uns países para outros e, dentro deles, de umas regiões para outras; e há as cozinhas chinesas e a japonesa; há a francesa, a italiana, a nossa; e haverá, na África, nas Américas e em todo o lado - até mesmo no Reino Unido - coisas que valerá a pena conhecer se consagradas pela tradição.
Mas não vemos nada disto. Porquê? Porque não tem criatividade. Do chef espera-se que seja criativo. Não importa que não saiba nada de história culinária, nem das tradições da sua região, ou até de região alguma, e que seja incapaz da realização decente de um prato canónico. Sabe fazer reduções e inventar coisas como sinfonia de lombos de sardinha com estragão e um zest de funcho em sua brandade? Embrulha as criações em palavreado modernaço ou artístico ou ainda em preocupações com dietética e saúde? Ora aí está - só lhe falta ser citado pelas pessoas certas e publicitado nos sítios certos.
Esta praga está também entre nós: ainda há tempos uma sobremesa me explodiu na boca, numa multiplicidade de sabores todos eles requintados, após o que, felizmente, a respectiva conta explodiu no bolso de quem fez o favor de me convidar. Era uma criação. Delicious, diria, se alguém me perguntasse.
Se este Olimpo dos treteiros servisse apenas para confortar o ego dos gourmets - outra praga - ainda vá. Mas, por desgraça nossa, a criatividade vai de par com o desprezo pelo que é tradicional, pelas maneiras como dantes se fazia, pela simplicidade e pela lentidão.
Vive-se depressa e come-se o que é feito depressa. Uma parte disso é talvez necessária, resulta do modo de vida que temos. Mas, como em outras coisas, não se faz mister que imaginemos que os nossos avós eram uns rematados imbecis que nem sabiam comer. Sabiam - nós é que andamos esquecidos. É bem verdade que as coisas esquecem muito a quem não sabe.
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