Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

Como um boi para um palácio

 

("Imagem" daqui)

 

Há os economistas e há os outros, que não são iniciados, entre os quais me encontro. Nesta condição, confesso que não consigo perceber o conteúdo da maioria dos textos que se publicam, na blogosfera, sobre o assunto. Na realidade, estou convencida que até hoje ainda não percebi nenhum.

 

Por isso deixo aqui um pedido a todos os bloguers que escrevem na categoria "Economia e Alta Finança":

 

Seria abusivo que, de vez em quando, digamos 1 em cada 10 (para não exagerar), traduzissem os pontos principais das vossas opiniões em linguagem que nós, brutos confessos, conseguíssemos decifrar?

 

É que eu também podia escrever, sobre arquitectura (e uma lista de outros temas), em linguagem tal que para vocês, remetidos à inferior condição em que eu me encontro, olhar para um texto meu ou para esta imagem seria equivalente.

 

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 00:44
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Falhar a missão e ganhar o prémio

 

 

E pronto, os três estarolas lá foram a Oslo, perante uma luzida assistência, receber o Prémio Nobel da Paz. Nas cerimónias, parece que se citou Heródoto, Espinoza e Lincoln. Apropriado, é o que se pode dizer: um Grego, um filho de família portuguesa emigrada e um Americano que não hesitou em envolver o seu país em guerra para que não se desfizesse a federação. Incompreensivelmente, não citaram um Espanhol, um Italiano e um Francês, para ficarem devidamente representados os países mais evidentemente aflitos dos Estados Unidos da Europa, além dos dois que de algum modo chegaram ao pódio das referências.

 

O jornal donde respiguei a notícia é prudentemente poupado na transcrição dos discursos, por certo no temor de que os seus leitores desmaiassem de tédio.

 

Disse van Rompuy: "Que audácia a dos pais fundadores da Europa, ao afirmarem: Sim, podemos, podemos acabar com o ciclo interminável da violência, podemos pôr fim à lógica da vingança, podemos construir unidos um futuro melhor. Que poder o da imaginação". Realmente, a imaginação tem muito poder. Tanto que, na despenteada cabeça de Herman, a Europa por estes dias está dando fortes sinais de estar a "construir um futuro"; e Ingleses, Gregos, Espanhóis (nós menos, que somos bem mandados) têm dado sinais de albergarem no seu seio sentimentos descontrolados de amor pelos Nórdicos em geral, e Alemães em particular; os quais, aliás, retribuem com grande consideração e apreço pelos povos do Sul.

 

Mas Van Rompuy não atingiu nos seus arroubos líricos as alturas do muito nosso Durão, para o qual "enquanto comunidade de nações que ultrapassou a guerra e lutou contra o totalitarismo, estaremos sempre ao lado dos que perseguem a paz e a dignidade humana". Isto é bonito, mas um tanto confuso: não se percebe qual foi o totalitarismo contra o qual a comunidade lutou - se estava a falar do Alemão, os campeões dessa luta foram o Reino Unido e os EUA, e do lado de esteve também a Itália; se está a falar da URSS, bem, a OTAN não é exactamente a mesma coisa que a CEE.

 

Os dois disseram as vacuidades que se esperam de quem apostou as carreiras na gorda burocracia da qual são os pináculos. E o Presidente do Comité Nobel da Noruega deu também o seu precioso contributo, declarando: "A União Europeia ajudou a construir a fraternidade entre nações e a promoção da paz que Alfred Nobel deixou como legado. O Prémio Nobel da Paz é assim merecido e necessário". E acrescentou Thorbørn Jagland: "À luz da crise financeira que está a afectar tantas pessoas inocentes, o sistema político no qual a União se apoia é mais importante do que nunca. Precisamos de ficar unidos. Temos uma responsabilidade colectiva. Sem essa cooperação europeia, o resultado podia facilmente ter sido um novo proteccionismo, um novo nacionalismo, com o risco de se perderem as conquistas feitas."

 

Da CEE pode dizer-se, com algum desconto do compreensível exagero retórico, o que Thorbørn  disse da UE. Suponho todavia que este homem não deve ser um daqueles noruegueses que maioritária e consistentemente rejeitaram ter alguma coisa a ver com as trapalhadas europeias, e que presumo não estavam abundantemente representados na plateia. Como também não estavam aqueles cidadãos que, como eu, acham que a bicicleta europeia não precisa de ir em frente para não cair - precisa é de fazer marcha-atrás.

 

É certo que as bicicletas não fazem marcha-atrás. Mas, com perdão da malcriadeza,  a imagem, como a ideia que está por detrás, sempre foi uma merda.

 

publicado por José Meireles Graça às 19:38
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Diz que é uma espécie de Eva Perón

 

A Ministra Teixeira da Cruz entende que a inversão do ónus da prova, no caso do crime de enriquecimento ilícito, é essencial; e não entende que o Tribunal Constitucional veja tal inversão como inconstitucional. Ouvi-a agora, na Sic-N, dizer que a inversão existe em numerosos casos no âmbito "dos impostos", sem que nunca tivesse ouvido críticas; e acrescentar, com um sorrisinho arguto, que se no caso do enriquecimento ilícito críticas há, por alguma razão há-de ser.

 

Esta inversão do ónus da prova, num país pobreta, falido e que de todo o modo acha que a riqueza é suspeita, senão pecaminosa (é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha etc. etc.) é popular. E sendo numerosos os casos de gente que iniciou carreiras políticas sem cheta e que aparece passados uns anos com consideráveis cabedais, parece uma medida de higiene pública.

 

Infelizmente, como acontece sempre que princípios básicos do Direito são ofendidos, abre-se uma porta que será difícil fechar; e, com ela escancarada, entrarão toda a sorte de abusos, inconfidências, delacções e chantagens, ao serviço de uma Administração com tradições de prepotência e ineficácia, e que assim vê recompensada a sua preguiça. Na mecânica infernal que se quer pôr de pé, apanhar-se-ão uns quantos criminosos, cujos sucessores, com tempo, encontrarão formas de contornarem os obstáculos; e infernizar-se-á a vida de inúmeros cidadãos inocentes, por serem objecto da suspeita, inveja ou incompetência de mangas-de-alpaca inimputáveis.

 

Já agora os escritórios dos advogados especialistas de Direito Fiscal estão entupidos de casos de abusos, erros de interpretação e prepotências sortidas da Administração Fiscal, que se arrastam interminavelmente pelos tribunais; e não há pequeno patrão que não tenha histórias para contar, incluindo aquelas em que preferiu pagar, mesmo tendo razão, "para não ter chatices".

 

De resto, no afã predatório de um Estado falido, a Administração Fiscal nem sequer recua perante habilidades de troca-tintas barato, como enviar cartas a contribuintes para pagarem impostos já pagos, na esperança de que não tenham os recibos que os poderiam exonerar, ou prefiram pagar novamente, para evitar incómodos.

 

Pode ser que Paula Teixeira da Cruz consiga o que quer. E não duvido que a própria, com geral aplauso, se considere Ministra da Justiça. Alguns, porém, vê-la-ão por aquilo que é: Ministra do Justicialismo. 

 

publicado por José Meireles Graça às 00:42
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Sábado, 8 de Dezembro de 2012

Explicação dos pássaros

 

Sempre tive fortes suspeitas de que os hábitos tabágicos têm um lado positivo que tem escapado à sanha anti-vício dos Savonarolas da saúde. Por exemplo, não há dúvidas de que o risco de contrair certas doenças é acrescido para muitos fumadores; mas, desgraçadamente, não há investigações sobre os vícios alternativos que pode contrair quem imprudentemente deixa de fumar.

 

Os animais não sabem quem é Fernando Leal da Costa, amigo dos contrabandistas de tabaco e personagem deletéria para a saúde pública, por difundir junto dos viciados o hábito malsão de fumar raspas de matérias pouco recomendáveis para o efeito, de origem chinesa. E como não sabem, são grandes apreciadores de filtros usados: por exemplo, o modesto pardal põe no ninho, em média, 8 beatas, e os mais afoitos, ou previdentes, chegam a 38 - é obra, ultrapassada aliás pelos tentilhões, que chegam a 48. Podemos então dizer, sem grande exagero, que há tentilhões que fumam mais de dois maços por dia.

 

Os simpáticos bichinhos fazem isto para afastar parasitas e proteger a prole, porque o tabaco e a nicotina têm esse benéfico efeito.

 

Acho a história bonita e fortemente simbólica. E agora, quando fumar um cigarro, conto sentir uma irmanação panteísta e franciscana com os meus irmãos pássaros: também eu quero afastar seres daninhos - como Costa.

 

publicado por José Meireles Graça às 20:29
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

Estardalhaço

Ninguém está acima de suspeitas; ninguém está acima da Lei; e todos somos iguais perante ela.

 

Mas a Lei, quando, para se realizar, implica comprimir direitos de cidadãos, vale o que valem os seus intérpretes e executores.

 

E estes têm entre nós uma folha de serviços desprezível: muito estardalhaço na praça pública (ó pra nós, que justiceiros que somos, os poderosos conosco não fazem farinha), muito arrastar pela lama até ao vómito, muito atropelo - vasculhar escritórios de advogados é um atropelo - e, de resultados, nicles. Não há culpados nem inocentes, os políticos, empresários, todos os que detêm algum imperium, todos os famosos, todos os ricos, todos os que têm alguma, ainda que pobre, magistratura de influência, correm o risco de ser apupados pela canalha como aldrabões e gatunos, e arrastarem atrás de si um cheiro a podre. Como me dizia um amigo, hoje: se lá foram a casa, alguma razão haviam de ter.

 

Não, não tenho um par de asas nas costas: o poder corrompe; quem pode abusar muitas vezes abusa. Mas a melhor garantia que os cidadãos anónimos podem ter contra os abusos do Estado e seus agentes é que quem seja conhecido ou importante não tenha por isso menos direitos. Porque se qualquer um pode, à discrição do Poder Judicial, ver a casa e o escritório invadidos porque há indícios de qualquer coisa, e esses indícios não têm solidez, como está abundantemente demonstrado que em geral não têm - então ninguém está a salvo. E como as coisas são o que são, se assim se tratam os de cima, como se tratarão os de baixo?

 

É possível que Medina Carreira não ache nada disto que eu acho. Pouco se me dá, não será apenas nisto que discordaria dele, por muita admiração que lhe dedique. E quanto à opinião pública, essa rameira velha, vai quase sempre para onde a leva a arreata dos meios de comunicação social. Ainda que tenha a volubilidade que as putas geralmente não têm: o vilão de hoje é o herói de ontem e o perdoado ou esquecido de amanhã.

 

A Justiça não tem hoje o prestígio de que já desfrutou, por boas e más razões. Não me parece que o ridículo lhe vá melhorar a imagem.

publicado por José Meireles Graça às 21:46
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Persistir no erro, evidentemente

 

 

Há uns dias, numa entrevista à televisão, o Primeiro-Ministro disse que o nr. 2 do Governo era "evidentemente" o Ministro das Finanças. E quando lhe perguntaram pelo "parceiro" de coligação, respondeu que Paulo Portas era o nr. 3. A Lei Orgânica do Governo, publicada a 12 de Julho de 2011, confirma.

 

Não está, como é natural, nos hábitos dos portugueses ler o Diário da República. Nem interessa, neste momento, o aspecto jurídico do problema. Interessa o significado político desta afirmação, de cuja substância já toda a gente desconfiava. O que as pessoas perceberam agora, algumas com espanto, foi a naturalidade com que o Primeiro-Ministro persiste no aborto que criou.

 

Se houvesse jornalismo em Portugal, o "detalhe" tinha feito um escândalo no dia em que se conheceu a constituição do Governo. O que agora veio a ser do conhecimento público é um erro grosseiro e um ataque à democracia.

 

Em caso de coligação, os dirigentes máximos de cada partido têm obrigação, perante o eleitorado, de ser os principais responsáveis pelo Governo que formam. Ninguém elegeu o Ministro das Finanças. Vítor Gaspar é um funcionário, e sobre ele deviam ter autoridade Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Por esta ordem.

 

Estava escrito que isto tinha de azedar. De resto, azedou no passado; o erro repete-se, com mais gravidade. Como se não bastasse a este Governo ter a oposição exterior, inflacionada pelas presentes circunstâncias, ainda conseguiu arranjar-se para ofender o seu próprio eleitorado. É legítimo que quem votou no CDS se sinta ofendido pela submissão de Paulo Portas a um técnico contratado. Esta submissão nunca é exclusivamente "formal", porque (como ficou provado) a forma é indissociável do conteúdo. Por maioria de razão, é legítimo que quem votou no PSD se sinta humilhado de ver o primeiro-ministro subordinado a um funcionário. Resta que nenhum destes "detalhes" será indiferente no apuramento de responsabilidades, que não poderão ser atribuidas a quem, formalmente, não as tem.

 

Não vem ao caso a proporcionalidade dos votantes em cada partido (podia ser de 1 para 9 sem abalar o conceito: se o partido mais pequeno lá está é porque o partido maior precisou dele). O Ministro das Finanças é um "funcionário", na medida em que são "funcionários" todos os membros do Governo quando não foram eleitos. Independentemente da sua contratação corresponder ou não a uma opção política. Não faço parte do coro de "críticos" que lhe apontam a "burocracia" e a "tecnocracia" como pecados principais. Efectivamente, nem lhe aponto pecado nenhum; mais do que fazer o papel dele, está a fazer o de Primeiro-Ministro - por delegação de competências. A ideia de "responsabilidade piramidal" impede-me de me referir a ele. Porque ele, perante o eleitorado, não é ninguém.

 

A centralidade da pasta das Finanças justifica-se sempre na articulação com os restantes Ministérios. Agora tanto ou mais do que no passado. Nunca se justifica a sua sobreposição aos responsáveis políticos. Agora mais ainda do que em qualquer Governo anterior.

 

Todas as alterações ao Memorando têm sido negociadas ao nível do Ministro das Finanças com os funcionários da "troika". Muitas delas já deviam ter sido negociadas a um nível superior. E Paulo Portas, enquanto representante máximo do segundo partido da coligação, tinha o dever e a obrigação de estar envolvido nelas. É grave que Paulo Portas não tenha sido ouvido no que estas negociações têm de fundamental, porque delas depende a liberdade do Governo para decidir sobre a vida do país. O eleitorado não tem ferramentas institucionais para responsabilizar politicamente um Ministro das Finanças que não depende do seu voto. Paulo Portas não pode ser responsabilizado pelas decisões de um Ministro que lhe é hierarquicamente superior.

 

Esta história não vai, evidentemente, ficar por aqui. Paulo Portas não deve a sua formação política à escola da JSD. A "carta fechada" que vai enviar à "troika" com as suas recomendações mostra que as responsabilidades que aceitou perante o eleitorado não lhe são indiferentes.

 

O tempo dirá quem tinha razão. Como sempre acontece em política.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 02:34
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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

Generosidade

 

(Imagem daqui

 

"A vida é importante; a arquitectura não é. Até é bom saber das coisas da cultura, da pintura, da arte. Mas não é essencial. Essencial é o bom comportamento do homem diante da vida."

 

Oscar Niemeyer, 15 de Dezembro de 1907 - 5 de Dezembro de 2012

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 02:47
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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012

O protesto reaccionário

Tenho por este género de assuntos o interesse que pode ter quem nasceu sem a menor sensibilidade para as artes plásticas, desconfia da maior parte do que se produziu depois do Impressionismo, olha para o séc. XX como extremamente pobre (e não apenas nas referidas Artes), venderia com gosto qualquer tela ou escultura de quase todos os contemporâneos que lhe caísse gratuitamente nas mãos, vê as galerias de Arte Contemporânea como depósitos de lixo com uma ou outra pepita ocasional, e acha o Sr. Comendador Berardo tão entendido em Arte como, possivelmente, nas inovações tecnológicas dos carros de combate Hititas.

 

Se isto não é a definição de um grunho, não sei o que o será. Mas como a mesma Natureza que me fez duro de sensibilidade também me fez demasiado vaidoso para me preocupar com as opiniões de terceiros e totalmente impermeável a argumentos de autoridade, sempre a solidão das opiniões me pareceu leve e me consolou a ideia de que grandes males têm vindo ao Mundo por todos pensarem o que todos pensam, mas mal nenhum da originalidade inofensiva.

 

Os textos que vão aparecendo de crítica de pintura e escultura são quase sempre exercícios cómicos de vacuidade e afectação, mesmo quando, o que é raro, não pontapeiam a Gramática com denodo. Mas, muito de longe em longe, tropeço num artigo que me fala ao coração e tem aquele traço inconfundível da Verdade - como eu a vejo:

 

"The protestors rage against an art establishment that long ago embraced conceptual art as a dogma, taught that skill is a dirty word, turned art history into a vehicle for cultural Marxism and the rubbishing of genius, indoctrinated generations of art students with the belief that if you say it’s art then it’s art and that success is impossible without fluency in the language of conceptual art-speak".

 

Poizé.

publicado por José Meireles Graça às 22:06
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

A dúvida excruciante

 

Este colunista diz que "research suggests fiscal consolidation plans should be more like $5 to $1 spending cuts over tax hikes, not $1 to $1". Diz mais, muito mais, mas são americanices, Deus nos livre de agora nos termos que inteirar das trapalhadas deles e do que vai e não vai fazer o Presidente que acabaram de reeleger. Mesmo que, infelizmente, nos conviesse uma economia americana sólida - a constipação deles tem uma tendência excessivamente marcada para chegar a estes lados sob a forma de pneumonia.

 

Mas é curioso: Um conhecido preopinante de economia da nossa praça acha, num post que é um autêntico brinco, que "a  ideia de que os cortes na despesa são menos penalizadores para a economia do que os aumentos de impostos não tem qualquer sustentação empírica", baseado na tese de "uma insuspeita equipa de investigadores do FMI".

 

As teses do FMI não costumam estar envoltas em odor de santidade para os lados do PS. Possivelmente com algum conhecimento de causa, dado que aquele partido tem uma relação muito chegada com o organismo em questão, que está de visita pela terceira vez em trinta e poucos anos. Mas esta tese, so to speak, comes in handy - se me perdoam o Francês.

 

Depois, o Americano não é de modas - é que nem põe a hipótese, que tem sido seguida entre nós, de privilegiar o aumento de impostos - meio por meio já lhe parece um exagero. Mas como não indica fontes, ficamos aqui dilacerados numa dúvida excruciante: Quem tem razão - Galamba que fala de "falta de sustentação empírica" ou Pethoukakis que fala do que a investigação sugere?

 

Por mim, ligo pouco ao que dizem os entendidos, sobretudo quando dizem o contrário uns dos outros. Mas sei o que pensaria um empresário ou uma dona de casa. Claro que um país não é uma empresa nem uma domus. Mas quand même, se me perdoam o Alemão.

 

publicado por José Meireles Graça às 11:40
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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012

O abraço improvável

 

Agostinho Lopes é um conhecido carroceiro do PCP. Não é grave, a espécie é transversal ao espectro partidário: num partido geralmente cordato como o PSD, repleto de gente circunspecta e engravatada, é possível um Odorico Paraguaçu ter granjeado votos, sucesso e prestígio ao longo de décadas. É certo que o preço fica para os sucessores pagarem, mas no resto do País, governado por gente com muito mais gravitas, a coisa não foi diferente. Porém, não é realmente disso que quero falar - as palavras são como as cerejas.

 

Agostinho, em pleno Congresso, disse o seguinte: "Há duas ilusões a evitar, a que é possível uma política alternativa com a manutenção do euro e mais federalismo como querem o PS e o Bloco de Esquerda e a ideia de que tudo se resolve com uma saída pura e simples do euro, qualquer que seja a forma como se sai e as condições de saída." Para Agostinho Lopes, um governo "patriótico e de esquerda" deve, no entanto, preparar o país para "a reconfiguração da zona euro, nomeadamente a saída da união económica e monetária, por decisão própria ou crise na União Europeia, salvaguardando os interesses de Portugal."

 

Isto é muito embaraçoso: porque, no essencial e com apenas duas correcções, não tenho nenhum problema em subscrever a tirada.

 

A primeira é que com a manutenção do Euro seria possível uma política alternativa, consistindo em privilegiar cortes na despesa e não aumentos de receita. A diferença teria sido um efeito menos depressivo, menos conflitualidade (aproveitando um estado de graça agora finado), e criação de condições para, se e quando o crescimento recomeçasse, o governo do dia, presumivelmente do PS, partisse de uma base muito mais baixa para restaurar o despesismo público - que é na prática o que o PS sabe fazer. Esse corte vai agora acentuar-se, ainda que em parte: quando tudo o mais falha, nomeadamente a cobrança de impostos, o único caminho possível para atingir o fugitivo equilíbrio é cortar na despesa.

 

A segunda é que o patriotismo não é património da Esquerda. No caso do PCP, aliás, os textos sagrados recomendam o internacionalismo proletário: alguém duvida que o PCP seria federalista, se uns Estados Unidos Europeus pudessem ser comunistas? Não é património da Esquerda nem será, a meu ver, a melhor luz à qual devem ser vistas quaisquer mudanças.

 

A luz necessária é a do realismo: o Euro falhou; os mesmos que o engendraram dizem agora que, para o corrigir, são necessárias mais instituições "comunitárias", designem-se ou não por federais; e países diferentes têm interesses diferentes, que podem ser convergentes, embora não sempre. Pode-se acreditar que é possível o governo de uma manta de retalhos feita de povos diferentes, com línguas diferentes, economias diferentes  e diferentes percursos históricos, sem nenhum cimento que não seja uma ideia abstracta de engenharia de pátrias e um interesse comum que todos os dias é desmentido. Mas isso requer um tal esforço de fé que só a mesmerização de toda uma geração e o medo do desconhecido, agora que desfazer a feira parece imensamente mais difícil que a ter levantado - pode explicar.

 

As razões não serão as mesmas, e os objectivos menos ainda, mas, hoje por hoje, um abraço, camarada Agostinho.

 

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publicado por José Meireles Graça às 12:03
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