Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Doce Raquel e o horário "nobre"

 

 

Vejo as "redes sociais" muito agitadas com um tal Martim, jovem bastante mais potável que o risível Miguel Gonçalves, na sequência de uma troca de impressões no Prós & Prós de ontem. Não acompanho os aplausos, muito menos os "agradecimentos" por ter, aparentemente, posto uma senhora "no seu lugar".

 

Martim tem "um negócio de moda", "a preços acessíveis", que lhe corre bem. Mesmo porque "foi bem aceite a nível das pessoas" que se davam com ele. Fátima "calcula" que seja "confortável", "desportiva", "muito jovem", "muito aliciante", "muito atractiva", e a "preços bem mais baratos" (sic) do que se fosse "roupa de marca". Raquel interrompe-o para lhe perguntar se as roupas são fabricadas na China, "com os trabalhadores a ganharem 2 dólares por dia" e "a comer uma tijela de arroz". Martim diz que não, que são feitas numa fábrica portuguesa. Raquel pergunta se ele sabe "nessa empresa portuguesa, quanto é que ganham os trabalhadores", porque "maioritariamente nas empresas têxteis os trabalhadores ganham o ordenado mínimo", o que "não é suficiente para viver". Martim responde-lhe que, "pelo menos", esses trabalhadores "não estão no desemprego". A plateia vem abaixo com as palmas.

 

Que a suposta "doutora" Raquel Varela seja (digamos) mentalmente excepcional, é um facto da vida, indesmentível, inevitável, e que não me diz respeito. Que a nossa "academia" lhe dê "graus", é exemplar. Diz mais da nossa "academia", e do que em 30 anos fomos colectivamente permitindo que se fizesse dela, do que diz da "académica" Raquel. Que a televisão pública dê palco às varelices, é uma consequência directa do ponto anterior.

 

Nada disto faz de Martim um fenómeno. Qualquer mamífero com instrução suficiente para atravessar a própria rua percebe o mundo melhor do que a doce Raquel.

 

Se Martim responde a Raquel, mostra que é educado. Se Martim responde a Raquel contrariando-a (assim, em directo e em horário "nobre"), fico na dúvida. Bem sei que Martim só tem 16 anos. E que não foi ele que a convidou. Se os "jornalistas" soubessem o que é caridade, nunca mais entrevistavam Raquel.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 18:42
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Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

O atestado com reservas

Recebi no telemóvel uma mensagem informando-me que até ao dia xis o meu carro teria que ir à inspecção periódica.

 

Embirro com esta modernice pateta: a ideia de que os automóveis podem ter condições deficientes das quais os condutores não se apercebem mas um mecânico apressado e distraído, cuja consulta é obrigatória, sim. Excluo o caso de uma minoria de senhoras e cavalheiros de idade provecta, em geral portadores de chapéu, que regra geral não fazem a menor ideia de condução, segundo análises empíricas que o tempo consagrou.

 

Há por certo automóveis que circulam com pneus em condições deficientes ou os travões em mau estado. Mas isso tem que ver com a idade dos veículos e a falta de recursos dos proprietários, não com a falta de desvelo do Estado a impôr inspecções, fiscalizações, conselhos e multas. E o que custa toda essa parafernália de controlos, papeletas e inspecções teria melhor uso no bolso dos contribuintes, que não são nem suicidas nem tão estúpidos quanto o legislador e as associações de consumidores os fazem.

 

Cidadão moderadamente cumpridor, sobretudo em havendo a perspectiva de multas terroristas, pedi a um colaborador (cujas funções nada têm que ver com automóveis, numa pequena manifestação concreta daquela gestão abusiva que é a marca d'água de alguns pequenos gestores) que levasse à cerimónia da revisão o veículo em questão.

 

Assim foi. Mas - ó desgosto! - no regresso o funcionário vinha pávido, e disse-me cavamente, ao mesmo tempo que me apontava uma linha num papel verde: pode circular mas puseram reservas.

 

Baixei os olhos para os dizeres e lá vinha, como uma condenação ao degredo: Código 840 - Matrículas - Materiais deformados ou deteriorados.

 

Mas que p. de merda é esta? - berrou a minha costela popular do Vale do Ave. E a resposta veio, cortante: o fundo amarelo na indicação do ano na matrícula está descolorido. Se não substituir as matrículas e for apanhado parece que a multa não é pequena.

 

A indicação do ano de registo nas matrículas serve apenas para denunciar aqueles que importam carros usados, protegendo abusivamente os concessionários locais; o fundo amarelo não é mais do que a manifestação do gosto piroso de um qualquer legislador com a mania que é designer; e o fundo azul e as estrelinhas na outra ponta são propaganda europeísta.

 

São grandes, as matrículas portuguesas. E precisam: para nelas caber tanta asneira.

publicado por José Meireles Graça às 19:02
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Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Os preços máximos e o salário mínimo

O Governo da Venezuela resolveu promover a indústria de louças sanitárias, em particular o bidé, aproximar os cidadãos da natureza e da higiene, recomendando o consumo de água e sabão, e preservar as florestas, poupando no papel.

 

É este o significado da escassez de papel higiénico naquele país, que a bloga nacional tem verberado com piadas de gosto duvidoso, que além do mais deixam no ar suspeitas sobre a brancura de alguma roupa interior de muito blogger prestigiado.

 

Mas não apenas entre nós: o Guardian declara solenemente que "First milk, butter, coffee and cornmeal ran short. Now Venezuela is running out of the most basic of necessities – toilet paper".

 

A mais básica das necessidades?! Só se for para vós, ó filhos da Ilha! Que um verdadeiro cavalheiro ou uma verdadeira senhora não acham o rolo de papel absolutamente indispensável nem dele fazem grande uso, excepto se tiverem o azar de aterrarem em instalações mal equipadas, caso em que o risco é grande de se entupirem os esgotos.

 

Contudo, não é destes assuntos escatológicos que me quero ocupar, mas do salário mínimo: este senhor acha que a falta de papel deriva do controle de preços, e que, tal como o preço máximo ignorando o mercado provoca escassez, o salário mínimo provoca desemprego.

 

A mim convenceu-me, embora converter convertidos não requeira grandes esforços de argumentação.

publicado por José Meireles Graça às 16:19
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Os professores não vão à escola

Está marcada uma greve de professores para o primeiro dia de exames nacionais de 12.º ano. Calha a ser o dia do exame de Português - só um dos exames que movimenta mais alunos.

 

Segundo o Público: "Os professores não têm nada a perder", declarou Mário Nogueira, presidente da Federação Nacional de Porfessores (FENPROF), no final do encontro que reuniu os representantes dos principais sindicatos nacionais de professores."


Faz sentido. Aliás a escola existe para haver emprego para professores. Os alunos são uma coisa acessória. Parece.


publicado por Ana Rita Bessa às 10:22
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Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Ser totó é ser poeta?

 

 

Aparentemente, há 10 anos foi uma doméstica. Desta feita, um torturado.

 

Pouco importa que Nuno Júdice não tenha uma única linha escrita que valha a pena ler. Ele viu "as mulheres azuis do equinócio" (partindo do princípio de que ele sabe o que são mulheres, eu punha uma apostinha em como não faz ideia do que seja "o equinócio"; 5 moedas em como ele diz que "é, por exemplo, quando passa do verão para o outono"). E sentado com as costas viradas para qualquer coisa que interesse, espremido na derrota intuida de que aquele mulherame joga numa liga superior (o falhanço no engate vende "poesia" como pãezinhos quentes), carrega nas teclas do portátil: "Espreitei-lhes o sexo por onde escorria o líquido branco de um início".

 

As metáforas são pindéricas ao ponto da compaixão: "Onde estão essas mulheres? Em que leito de rio dormem os seus corpos (etc.)?". Trocar o "leito do rio" com o "leito" onde se deitam as pequenas é uma ideia que não foge a nenhum vate português com idade superior a 11 anos.

 

Compreende-se. Em Portugal, um deprimido é "inteligente"; se é um mono, é "intimista"; se é irrelevante, é "profundo" (quem não dá valor é porque "não está preparado"); se é indecifrável, é "erudito"; se é monótono, "tem um registo próprio"; se usufruiu dos favores da família Soares, é "um democrata" e "um homem da revolução"; se escreve "mar", "flores", "areia", "rio", "vento", "chuva" (ou qualquer outro fenómeno atmosférico), é "poeta"; se falar de "líquidos", de preferência "a escorrer", além de "poeta" é "erótico"; se não fizer sentido, é "artista".

 

Estou convencida que, no meio destes protocóis "ibero-americanos", deve haver uma cota para portugueses. Contemplada no regulamento dos "concursos". De 10 em 10 anos, lá vai prémio para um boneco.

 

O país fica judiciosamente indiferente.

 

Os "académicos", e restantes depositários "da cultura", mordem-se de inveja, disfarçando como podem, dentro de uma roupa preta (t-shirt incluida) - que é o uniforme de rigueur. Enquanto, naquela agonia, compõem para "o Nuno" um elogio sem medida.

 

E as donzelas que os consomem, falsas-freiras quase todas e convencidas que aquilo que lêem é "literatura", recebem a notícia com os olhos húmidos, possuídas de "orgulho" por esta conquista tão "nossa".

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 21:23
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Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

Os velhos, os rapazes e os burros

josé faz aqui a folha a Silva Lopes, um economista respeitadíssimo desde os tempos de Marcelo Caetano, saudavelmente de esquerda sempre que foi preciso, uma esquerda em permanente evolução e tida por muito lúcida por ter sempre receitas para corrigir as consequências dos erros que ela própria engendrou.

 

Esta lucidez leva-o a achar que "a geração grisalha não pode asfixiar a geração nova da maneira como tem feito até aqui" - precisamente o que acha uma boa parte da direita, seja por realismo seja por desconfiança em relação ao carácter público, compulsivo e exclusivista do nosso sistema de aposentações e reformas. E que isto seja dito por um senador socialista é bem a medida da falência da doutrina equívoca que lhe norteou a vida.

 

Há três poluições que tornam difícil ver este assunto com clareza:

 

i) Os economistas sérios demonstram o desequilíbrio do sistema; os economistas enviesados demonstram o equilíbrio e a viabilidade do sistema, por darem como adquiridas as transferências do Orçamento. Mas uns e outros pretendem deduzir uma política a partir de números. Ora, o sistema nacional de pensões não pode ser visto exclusivamente a essa luz. O sistema caminha para a falência sim, mas é uma simplificação abusiva tentar corrigi-lo dentro dele próprio, como se não houvesse expectativas legítimas, situações aflitivas, realidades sociais e ideias sobre o futuro. Não é possível ignorar o deve e o haver. Mas imaginar que o deve e o haver são tudo, e daí deduzir políticas, é o mesmo que pôr guarda-livros a gerir empresas. E esta é a primeira poluição, dar demasiada importância ao que dizem economistas e especialistas em finanças públicas.

 

ii) O Tribunal Constitucional já demonstrou à saciedade que entende que o senso comum não deve fazer parte da doutrina. Mas é uma posição intelectual e ideologicamente pobre declarar apenas como, por exemplo, Medina Carreira, que o que diz o TC não nos paga o jantar. Não é compaginável com o princípio da igualdade que histórias contributivas diferentes produzam pensões iguais ou que quem pagou mais, por ter pago durante mais tempo, receba menos do que quem pagou menos, por ter, por exemplo, um regime especial; e que se aplique o princípio da não retroactividade a pensões futuras, sob o pretexto de que o respectivo regime foi determinado anteriormente, no momento em que o beneficiário se reformou. São apenas  exemplos, mas servem para demonstrar que a austeridade pode e deve ter um enquadramento jurídico. Estado de direito, lembram-se? E é esta a segunda poluição, desvalorizar a juridicidade, porque é complicada e contraditória - como se a Economia fosse, enquanto ciência social, mais simples.

 

iii) Fica a terceira, e mais grave, poluição, que é confundir a escolha de um sistema de segurança social dos cidadãos com a situação dramática em que se encontra a Segurança Social. Por mim, entendo que, logo que possível, deveriam os cidadãos poder optar por sistemas privados, desaparecendo a obrigatoriedade de contribuir para um sistema que autonomamente não lhes garante nada. E acharia isto mesmo que tivesse havido adequada capitalização e todas as pensões tivessem sido atribuídas dentro dos limites do que cada contribuinte gerou e tendo em conta a esperança de vida. Ou, por outras palavras, que a SS não estivesse falida.

 

Mas há a realidade, a puta da realidade. E quando vejo todos os que estão reformados, e os que não estão longe da reforma, a defenderem com unhas e dentes as suas pensões; e todos os novos a quererem abster-se de pagar porque sabem que não estão a fazer um depósito a prazo mas a sustentar pais, avós e chupistas:

 

Não posso impedir-me de pensar que caímos realmente muito baixo: não nos incomoda a ideia de enviar uns centos de milhares de velhos para o clássico monte com a clássica manta, desde que tenham o adequado castigo por se terem deixado aldrabar pelos Silva Lopes deste mundo.

 

Não se arranja melhor? 

publicado por José Meireles Graça às 22:53
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Terça-feira, 14 de Maio de 2013

O Verão do nosso descontentamento

Já houve entre nós um tempo de relativa simplicidade: havia os comunistas, que queriam a sociedade sem classes e o diziam sem rebuço. Tê-la-iam tentado atingir, ao cabo de uma guerra civil, se tivéssemos fronteira com um país soviético e os Americanos encolhessem os ombros; havia o PS, que queria que o país tivesse intelectuais franceses, estado social sueco, eficiência alemã e algum fado e caldo verde; havia o PSD, que nem sempre sabia o que queria e tinha, como hoje, uma quantidade inverosímil de prima-donas, mas que na versão sá-carneirista parecia querer a Suécia possível, fosse lá isso o que fosse; e havia o CDS, que desconfiava dos outros quereres e acolhia os desapossados da nova Situação, os eurocépticos avant-la-lettre, alguns liberais, e que tinha sido fundado por dois homens talentosos a quem fora encomendado o meritório serviço de trazer os fascistas para a democracia (destes, um queria uma tribuna - qualquer tribuna - de onde pudesse saltar para a proeminência e os lugares a que se julgava destinado, e o outro não teve tempo para dizer ao que vinha).

 

Tudo mudou:

 

Os comunistas querem, mas não dizem querer, a mesma coisa. Entretanto, especializaram-se, enquanto os ventos da História não mudam, em dar aulas sobre os malefícios do capitalismo, minar as instituições da sociedade civil (sindicatos, grupos de cidadãos contra ou a favor de qualquer coisa, etc.) e afectar respeito à democracia burguesa, a cuja sombra se acolheram.

 

Nasceu um partido novo, constituído no essencial por comunistas que não conseguem fingir que não existiram os desastres históricos do comunismo real, nem aceitar a organização do PCP, mas nem por isso perderam o amor acrisolado à igualdade, que consideram um valor que serve de estalão para todos os outros. Tem como fonds de commerce causas avulsas, partilhadas por uma boa quantidade de moços citadinos com acne e formação académica, mas sem emprego, e por moças que hesitam na hora de depilar as axilas, não vá estarem a ofender algum direito, inclusive delas.

 

O PS e o PSD tornaram-se ferozmente europeístas, e à sombra dos milhões da Europa, primeiro, e do crédito europeu, depois, conquistaram o eleitorado, deixando umas sobras à esquerda e à direita.

 

O CDS podia ter sido o MRPP da Direita, se tivesse conservado o eurocepticismo que uma vez foi seu. Mas não está na natureza dos partidos, se não forem alimentados por uma boa dose de fanatismo ideológico, cuspirem contra o vento. Tornou-se assim euro-realista, por oposição aos eurófilos à sua esquerda. E acabou por ser sempre vítima do PSD, que tinha tradicionalmente uma claque mais numerosa e pôde fazer consistentemente apelo ao voto útil.

 

Bastou uma crise mundial, daquelas que o excesso de crédito periodicamente engendra, mais a circunstância de o País ser governado ocasionalmente por um demagogo venal e inepto, para o edifício - do crédito, das convicções, da Europa - ruir.

 

E aqui chegamos, à tarefa ingrata de pagar os calotes, com juros sufocantes, e encontrar uma maneira nova de viver.

 

E, com surpresa, agora que a barraca está a arder, nem por isso estamos confrontados com escolhas claras: os comunistas e bloquistas defendem o não pagamos, mas que sociedade alternativa defendem, que o não pagar implica? O PS defende investimentos e défices, mas como pode fazer-nos acreditar que haja quem empreste mais? Os credores aceitam ou não aceitam que vamos conservando um módico de respeito por nós mesmos? Quem quer sair do Euro aceita ou não aceita que o País possa e deva ser gerido com orçamentos equilibrados, logo que possível? Quem acha que o País só se reforma com imposições vindas de fora, e que por isso não há exigências dos credores que sejam excessivas ou simplesmente estúpidas, reconhece ou não reconhece que essa posição é anti-democrática?

 

Não pus links na última pergunta porque são tantos os meus amigos que isso acham que não quero discriminar ninguém. Mas a todos recomendaria um pouco menos de confiança nos seus gráficos, e nos seus gurus, e um pouco mais de confiança em nós: andamos por cá há mais de oito séculos e terá que haver, para isso, boas razões. É que o presente tem medos, o futuro incógnitas e o passado lições.

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publicado por José Meireles Graça às 01:31
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Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

Apre, que ainda sobrou uma

Um grupo de pressão resolve, contra a lei e os regulamentos, interromper os trabalhos de um orgão de soberania, cantando um hino em forma de balada. Há quem goste do hino porque lhe agrada musicalmente, quem dele se tenha apropriado para representar a parte derrotada da "Revolução" do 25 de Abril (os derrotados de 24 foram-no por um golpe militar), e quem o associe com um tempo em que éramos novos, as esperanças muitas e a alegria de viver maior. E, é claro, estas razões para o sucesso da musiqueta não se excluem umas às outras.

 

A Senhora Presidente mandou pôr os desordeiros pela porta fora. Fez muitíssimo bem: a representação política na AR faz-se segundo regras precisas, e os proprietários ideológicos da canção já lá estão, eleitos segundo as mesmas regras a que se submeteram os restantes deputados; além de que o direito à manifestação exerce-se na via pública, ou em lugares públicos onde não esteja expressamente ou implicitamente vedado pela natureza da função a que o espaço está afectado. Senão, amanhã teríamos manifestações nos tribunais, para pressionar os juízes, e deitávamos fora o Regimento da AR, por uma turba achar que há por ali uma gente que gasta o seu tempo, e o seu latim, a defender coisas eminentemente fássistas, pelo que seria do interesse das massas fechar-lhes a matraca a golpes de música de intervenção.

 

O incidente não teve qualquer importância, e já está devidamente esquecido. Mas esta minha querida inimiga de estimação conta aqui a história, com detalhe: a líder do grupo de exaltados, uma senhora de nome Rosário Gama, acha, em carta dirigida aos militantes, que "para a APRe! houve um tratamento humilhante, fazendo cada associado mostrar a roupa que trazia por debaixo da camisa ou camisola a fim de verificarem a existência de uma perigosa arma de propaganda: a t-shirt da APRe! a dizer que não somos descartáveis. Aos homens, a verificação era feita no corredor, as senhoras eram encaminhadas para um gabinete onde uma zelosa segurança mandava levantar as peças de roupa para ver o que havia escondido. Apesar disso, ainda conseguimos introduzir uma t-shirt na sala, juntamente com a “raiva” que já todos levávamos: aos alunos não foram tiradas as mochilas, a nós foram retiradas todas as carteiras e sacos…"

 

Fantástico: os seguranças farejaram problemas e quiseram assegurar-se de que não os haveria, pelo que fizeram uma revista. Vai daí, os revistados ficaram cheios de "raiva", agravada pela discriminação em relação aos putos.

 

Mesmo assim, o trabalho da segurança não resultou em cheio: escapou uma t shirt, e os manifestantes ainda tiveram ocasião de brindar os deputados com parte de uma Grândola desafinada. Ai!, que se eu fosse um bocadinho mais fássista ainda diria que sobrou uma t shirt e faltaram uns açaimes.

 

Mas não: a APRe fez o seu número, as televisões agradeceram, uns deputados sorriram, outros viram o e-mail, e nós lá em casa, repoltreados, assistimos pela TV, logo a seguir ao jantar, palitando os dentes.

 

Tudo está bem quando acaba bem.

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publicado por José Meireles Graça às 23:44
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Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

O Palermice

Ele há ventos de pequena e de longa duração; há a brisa, a tempestade, o furacão, o tornado, o ciclone e o tufão, entre outros; há lufadas, ventos de monção e alíseos; há-os predominantes; há-os com nomes - o Foehn nos Alpes, o Chinook nas Montanhas Rochosas, o Sirocco no Sahara, o Harmatão, que vem do Sahara e que em chegando a Cabo Verde muda de nome para Lestada e é descrito como bruma seca, o Khamsin, o Simun, o Suão, o Ukiukiu, o Zéfiro, o Mistral, a Tramontana, o Bora e inúmeros outros. Há ventos muito nossos: por exemplo, a Nortada, que conheci, muito pequeno ainda, na Póvoa de Varzim, e o Lariço, um vento queque que sopra em Cascais. Existe mesmo um vento lusófono, o Garroa, que tanto sopra em Setúbal como em Moçâmedes.

 

Modernamente, as alterações climáticas engendraram um vento de um tipo inteiramente novo, ao qual nem o Povo nem a comunidade científica (esta porque o fenómeno está ainda mal estudado) puseram ainda nome. Designo-o provisoriamente como Palermice.

 

Este vento sopra predominantemente da Esquerda, qualquer que seja o lugar em que nos encontremos, e embora possa em casos extremos levar à destruição dos habitats, tanto em regiões tropicais como temperadas (Cuba ou Coreia do Norte, por exemplo), limita-se normalmente a causar danos às capacidades cognitivas dos habitantes desprotegidos.

 

Veja-se este golpe de ventania na Suécia: O Vänsterpartiet quer obrigar os senhores a urinar sentados, não com o meritório propósito de lhes esvaziar completamente as bexigas, mas sim por causa da igualdade de género. As senhoras, com efeito, não se aliviam de outra maneira senão sentadas, e esta diferença inculca a intolerável ideia de que os dois géneros não são exactamente iguais, circunstância que alguns de nós, irremediavelmente reaccionários, encaramos com simpatia. O Vänsterpartiet está porém atento e quis remover esta manifestação de supremacia masculina. Fê-lo porém, a meu ver, com inabilidade, porque poderia, e deveria, admitir a obrigatoriedade de as senhoras urinarem de pé, isto é -  em vez de os rebaixar a eles, elevá-las a elas. Não fossem as impecáveis credenciais esquerdistas daquela boa gente e poder-se-ia suspeitar que esta falha grave de rigor lógico derivava da indevida influência do lobby dos fabricantes de calcinhas.

 

Isto na Suécia. Mas bem perto de nós também não faltam possivelmente manifestações deste fenómeno atmosférico. Ainda no transacto dia 1 um cidadão declarou, alucinado, que sabia fazer contas, após o que se lançou numa arenga em que demonstrava concludentemente que não as sabia fazer. A história foi narrada aqui, e há todas as razões para pensar que se trata de uma manifestação concreta da influência deletéria do Palermice.

 

Razões por que, desta ignota tribuna, lanço um alerta: é urgente a criação de mais um Observatório (será o 428º) para acompanhar de perto esta inquietante evolução. Por razões de economia, talvez no âmbito do das Alterações Climáticas, que já acolhe no seu seio o departamento de Aquecimento Global.

 

publicado por José Meireles Graça às 17:48
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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Por um punhado de dólares

Sempre achei, e acho, que não é possível entre nós criar uma legislação de trabalho que garanta uma relação harmoniosa entre o empregador e o empregado. Uma relação desse tipo pode nascer e desenvolver-se, e é mesmo frequente, nas empresas com sucesso, mas é submetida a tensões quando a empresa, por atravessar dificuldades, toma medidas, certas ou desastradas, para sobreviver, implicando despedimentos ou perda de regalias, ou quando as toma por antecipar que, se não o fizer, não conseguirá a prazo manter a trajectória de sucesso.

 

Refiro-me ao conflito com uma parte, às vezes considerável, dos empregados - o conflito com o empregado x ou y é um problema diferente. E a legislação, por reconhecer que o contrato de trabalho é, pela sua natureza, de um tipo especial - afecta as famílias, a coesão social, até mesmo a demografia, para já não falar da "felicidade" e "dignidade" dos indivíduos, mesmo que não sejam fáceis de definir e ainda menos de medir - regula-o minuciosamente.

 

Minuciosamente e mal, porque o legislador quer, se tiver inclinações esquerdistas, substituir-se ao patrão na avaliação da situação da empresa e da conveniência ou inconveniência do despedimento, como se tivesse conhecimentos e legitimidade para um tal micro-juízo. E mal também porque, diminuindo a liberdade de despedir, diminui a autonomia para contratar, por despertar um reflexo de prudência e medo. Proteger o trabalho significa, para quem destas coisas tiver uma visão lúcida, não proteger o emprego.

 

Depois, as salvaguardas que a legislação prevê impõem normalmente encargos financeiros não provisionados que, na maior parte dos casos, são exigíveis precisamente quando a empresa tem menos condições para deles dispôr, quase sempre porque adiou, por ser penosa, a decisão de despedir, confiando numa reviravolta que não veio.

 

No mundo real é assim. No mundo de fantasia em que vive o gestor de café, ou o académico sem experiência directa e sem intuição para a substituir, ou ainda o gestor da muito grande empresa, este por razões diferentes, é de outra maneira.

 

Se o legislador for de direita, na versão edulcorada que é a nossa recente, permite o despedimento mas a um preço que muitas empresas não podem pagar. E, na sofreguidão fiscal que é a marca d'água do Estado que temos tido, este nunca foi capaz de permitir a constituição de reservas para este efeito - conceito que, por sua vez, é decerto muito discutível. Nada é simples neste domínio, infelizmente.

 

Claro que é possível o despedimento sem quaisquer constrangimentos, colectivo, ou individual, ou às pinguinhas. E há quem o defenda, por entender com razão que é o sistema mais eficaz do ponto de vista da eficiência económica.

 

Mas estamos a falar de pessoas. E mesmo que o patrão moderno tenha tendência a olhar para os seus empregados como um activo que tem que manusear com cuidado porque não há empresas eficientes com empregados contrafeitos, sempre o senso comum impõe que em algum ponto se limitem os poderes dos patrões - se queres conhecer o vilão põe-lhe uma vara na mão, diz o nosso Povo, e nisto não diz asneira.

 

É por isso que esta notícia me indignou: ai sim, vão-se deixar tatuar voluntariamente? E amanhã, vão-se passear na praia com as costas artisticamente gravadas: seja livre, use protector solar Otário

publicado por José Meireles Graça às 15:12
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