Sábado, 10 de Agosto de 2013

Ricerca in corso

Estudo há 22 anos a mulher italiana. Do universo de 35 milhões possíveis extraí uma amostra de uma unidade e vou produzindo uma aturada investigação cheia de resultados parciais conclusivos, globais inconcludentes, certezas absolutas e dúvidas completas. Principal vantagem do objecto estudado? Uma enorme alegria e simplicidade no viver. Desvantagem? Uma. O temperamento explosivo e melo-dramático que a julgar pela amostra de ser do sexo feminino co-produzida durante o esforço investigativo se transmite genética e irreversivelmente.



publicado por João Pereira da Silva às 18:25
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Sexta-feira, 9 de Agosto de 2013

Com os olhos postos na pátria

 

 

«A 22 de Agosto de 1924, na primeira página do Diário de Notícias, vinha publicada uma longa carta-entrevista com o ministro de Portugal em Haia, António Bandeira. O título era extenso:

 

"O nosso ministro em Haia ameaçado de restringir, se não de abolir completamente a parte representativa da sua missão - A parte burocrática não sofrerá, porém, modificação alguma, continuando aberta, como até agora, a chancelaria da Legação para o expediente diário".

 

Depois de uma introdução elogiosa a António Bandeira, a carta-entrevista tratava da anunciada redução dos vencimentos dos diplomatas em consequência da publicação do Decreto 9885. O Diário de Notícias pretendia interrogar António Bandeira como vítima de tal redução dos vencimentos, mas António Bandeira respondia "na qualidade de português":

 

"De português que vive cá fora com os olhos postos na pátria e a pátria metida no coração; de português que 25 anos de vida no estrangeiro não conseguiram estrangeirar; de português, enfim, que deu ao serviço da nossa terra o melhor da sua vida, do seu trabalho e da sua saúde, e que não juntou dois centavos do que recebeu do Estado até hoje".

 

António Bandeira explicava a alta do custo de vida na Holanda e como era impossível fazer despesas de representação com o vencimento que auferia e que ia, a partir daquele mês de Agosto, ser reduzido. Patrioticamente compreendia "que a nossa pátria está lutando com enormes dificuldades" e estava disposto a fazer sacrifícios, como, aliás, já fazia, mas não lhe era permitido o impossível.

 

No mesmo dia, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Vitorino Henriques Godinho, determinava que se enviasse um ofício confidencial a António Bandeira, "dizendo que o Parlamento anulou o artigo 1.0 do Decreto 9885; que o ministro julga mais conveniente aos interesses dos funcionários que estes evitem escrever para os jornais artigos como o que veio no Diário de Notícias d'hoje; que reconhecidas as dificuldades de vida na Holanda, pergunta ao sr. ministro Bandeira se ele não desejaria regressar já a Lisboa ficando aqui no Ministério e sendo lá substituído".»

 

(Francisco Teixeira da Mota, in "Alves Reis - Uma História Portuguesa")

 

O Decreto 9885, de 25 de Junho de 1924, continha apenas 11 artigos e cabia numa página. Estabelecia cortes nas despesas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, de acordo com as "propostas" resultantes do trabalho da "comissão de economias nomeada pela portaria de 15 de Fevereiro de 1924".

 

O Artigo 1º detalhava as deduções a que ficavam sujeitos os "vencimentos, incluindo ordenados, despesas de representação ou residência" e as "subvenções" dos diplomatas segundo a respectiva categoria. O "parágrafo único" acrescentado a este artigo expressava o carácter provisório das deduções, determinando que começavam no dia 1 de Agosto e estariam "em vigor até ao fim do ano económico de 1924-1925", se "por virtude da melhoria dos câmbios" não pudessem "cessar antes desta data".

 

A "virtude" do Parlamento substituiu-se à "melhoria dos câmbios", e antes de chegado o fim de Agosto já as deduções estavam anuladas. Em 1924, como agora, os sacrifícios patrióticos dos nossos diplomatas foram reconhecidos pelos partidos e subtraídos a esforços inadequados.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 18:59
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Urbano Tavares Rodrigues

Urbano Tavares Rodrigues, na condição de falecido, já reúne um dos requisitos que a minha mania estabeleceu para conhecer uma obra: ficção de autores vivos só se for em livros oferecidos, recomendada por quem me mereça respeito, ou por atracção de um excerto que me desperte a vontade de ler mais.

 

Recomendações de literatos comunistas, t'arrenego. Não é que estes não possam saber muito de literatura, e terem bom gosto. É que, em se tratando de militantes de seitas, funciona a escola do esfrega-me hoje as costas revolucionárias, que amanhã esfrego as tuas.

 

Se porém forem colegas do ofício da escrita, mas com dispensa de solidariedades engagées, deveríamos ter mais confiança. Mas não: a quase nenhum dos grandes vultos da nossa Literatura adivinharam os contemporâneos o futuro; e a curta história do Prémio Nobel está juncada de escritores hoje esquecidos.

 

Vou pensar, estou tentado a ler. É que, segundo José Luís Peixoto, "para Urbano Tavares Rodrigues, a escrita era uma forma de respirar" e "encarava a escrita como algo muito íntimo e que era ao mesmo tempo um encontro com o outro".

 

Eu gosto muito de coisas assim exóticas e misteriosas: um escritor que não respira apenas pelos pulmões deixa-me perplexo; e tenho grande curiosidade em conhecer a identidade do tal outro com quem Urbano se encontrava intimamente.

 

A menos que isto não queira dizer o que quer dizer, e seja apenas uma maneira pretensiosa de dizer. Caso em que Urbano Tavares Rodrigues talvez valha a pena; e José Luís Peixoto - nem morto.

publicado por José Meireles Graça às 17:20
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Segunda-feira, 5 de Agosto de 2013

Os Fângios de direita

"Mas também podia ser a descrição do último passatempo da direita portuguesa. Há dois anos, em Faro, Assunção Esteves não consegue travar a tempo e embate num veículo que estava parado em frente a uma passadeira. O impacto do automóvel da presidente da Assembleia da República foi tão violento que o carro da frente atropelou uma idosa que atravessava a rua. No ano seguinte, o presidente da Câmara Municipal de Tomar, António Paiva, também do PSD, atropelou uma criança que circulava com a sua bicicleta. Violando o limite de velocidade de 50 km/h, o veículo do autarca só conseguiu travar a 20 metros do acidente e a vítima foi projectada caindo a 17 metros de distância. Acabou por morrer. Já o candidato do PSD à Câmara Municipal de Lagoa, nos Açores, Gaspar Costa levava 1,65 gramas de álcool por litro de sangue e espetou-se contra uma árvore. Morreu um jovem de 19 anos e outra jovem ficou em estado grave."

 

E não lhes acontece nada porquê? Ora, é bom de ver: Polícia, Ministério Público, Tribunais, é tudo  a mesma corja - em se tratando de passatempos da direita portuguesa fecham os olhos.

 

E não é só em Portugal. Em Espanha a coisa não é muito diferente: um dirigente do PP tinha 45 multas acumuladas desde 2011 e nada. Mas foi a Cuba, teve um acidente que provocou uma vítima mortal e "Ángel Carromero ficou sem carta e foi condenado a quatro anos de prisão". Cuba é um estado de direito, os poderosos, lá, não têm como passatempo pôr em risco a vida dos seus concidadãos.

 

Mas, espera: Para da comparação se poder tirar uma conclusão edificante, o dirigente preso não deveria ser governante local?

 

Porque, assim, almas mal-intencionadas - fascistas, vá lá - poderão julgar que o acidente pode ter tido alguma coisa a ver com a lástima das estradas e a decrepitude do parque automóvel cubano. 

publicado por José Meireles Graça às 21:50
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Domingo, 4 de Agosto de 2013

O militante de base

Há com certeza textos que regulam a actividade dos Provedores de Leitores, jornal a jornal, e se calhar há também legislação - em Portugal tudo o que mexe é regulado.

 

Não vou pesquisar, que nem a legislação nem os estatutos podem iluminar o estranho caso Óscar Mascarenhas.

 

Um Provedor do Leitor tem como função puxar as orelhas aos jornalistas quando estes ofendem princípios do jornalismo são, direitos dos leitores ou o estilo do jornal (se o tiver), pontapeiam a Gramática ou ignoram o senso.

 

Age por sua iniciativa ou por reclamação dos leitores, não tem poderes hierárquicos, e é independente. A sua arma é a opinião escrita, e a força dela vem do prestígio que tiver granjeado pela sua carreira, a sua independência, o seu equilíbrio e a sua experiência.

 

Da carreira de Óscar sei nada, excepto o que pude respigar, que é um percurso anódino de jornalista, e o que pude constatar, que é uma relação com a expressão escrita, digamos assim, desconfortável; da independência ficamos conversados, que tachar de fascistas dois excelentes moços, de impecáveis credenciais académicas e percurso de cidadania exemplar, com a indemonstrada afirmação de que "nos poucos dias que levam de governo, já deram provas de terem sido aldrabões" pode excitar o universo alvar do comentarismo oposicionista mas não passa de um insulto gratuito; equilíbrio quer dizer ponderação, equidistância e contenção, tudo o que um texto espumando raiva e ressentimento não tem; e quanto à experiência, existirá decerto, mas ganhava se lhe fosse dado melhor uso.

 

Óscar Mascarenhas colou, no JN, um cartaz de campanha. A minha sugestão é que deixe o lugar de Provedor para um colega que saiba bater ao de leve nos colegas.

 

E que vá colar os cartazes nas paredes.

publicado por José Meireles Graça às 22:36
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Sábado, 3 de Agosto de 2013

A Arca de Noé

Todos os dias tomo a minha ração de indignação e ternura, juntamente com três cafés. O café, dadas as suas propriedades excitantes, desperta-me do torpor e dá-me, não vontade de ir trabalhar, que apesar de tudo não se trata de um alucinogénio, mas de acordar; e a ração vou bebê-la a este sítio.

 

Hoje indignei-me, como de costume, contra eles (eles são os empresários, os consumistas, os republicanos, os accionistas das grandes empresas, os ignorantões, os mal-intencionados - os capitalistas, em suma), desta vez por causa desses patifes que andam por aí a fracturar rochas para libertar gás, que depois é utilizado em actividades criminosas.

 

E enterneci-me moderadamente com uma gata a querer dar de mamar a uns patinhos, não conseguindo todavia evitar a suspeita de a bichinha ser um pouco burra.

 

Estava o dia ganho, julgava eu. Mas o Homem põe e a comunicação social dispõe: que antes de acabar o dia fui surpreendido com a notícia de que os golfinhos foram declarados pessoas não-humanas. Isto pode ser um pequeno passo, perdão, impulso para eles, mas é um grande passo para a Humanidade. E fico agora à espera da inclusão na Declaração Universal dos Direitos do Homem das baleias-de-bossa, macacos, cães e focas.

 

Sou todo a favor dos direitos, da modernidade e assim. Mas, por amor de Deus, nem vos passe pela cabeça incluir as ratazanas. São muito inteligentes, não contesto, mas isso não.

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publicado por José Meireles Graça às 18:19
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A multiplicação dos pães

Sei de fonte limpa que a CDU vai ter direito, por sessão legislativa, a três moções de censura; a interpelar o Governo em triplicado; a dizer a mesma coisa de três maneiras diferentes; a reforçar a presença na comunicação social da voz da classe operária, do campesinato, dos intelectuais e das camadas mais esclarecidas da população.

 

Adivinha-se portanto a derrota iminente das forças da reacção. Qual silly season o quê?

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publicado por José Meireles Graça às 14:54
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Sexta-feira, 2 de Agosto de 2013

Três folgazões

 

 

Não li (Deus me livre!) o acórdão, tirando o pedaço que circula por aí. A avaliar pela subtileza da prosa e pela astúcia humorística, podia ter sido escrito por uma corvina:

 

"Vamos convir que o trabalho não é agradável (...). Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos.”

 

Se os três desembargadores que triunfantemente o expectoraram (Eduardo Petersen Silva, Frias Rodrigues, e Paula Ferreira Roberto) ganhassem a vida a escrever crónicas humorísticas, eu ficava espantada. Tanto quanto fico ao ler o "humor" que os portugueses estão dispostos a pagar.

 

Sendo funcionários da hipotética justiça que temos, preferia que nos poupassem o gracejo. Para castigo, basta-nos a merecida reputação do nosso sistema judicial.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:38
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