Terça-feira, 24 de Setembro de 2013

Um lançamento exemplar

 

 

«Há notícias que passam tristemente despercebidas, e no entanto dizem mais sobre este país do que uma resma de relatórios do FMI. Veja-se o caso do lançamento do livro Bragaparques: A Hora da Verdade (edição Alêtheia), ocorrido na semana passada, em Lisboa. Por uma imperdoável distracção, as televisões estiveram ausentes, tal como a maior parte dos jornais, mas o Diário de Notícias fez um pequeno artigo de rodapé sobre o evento, sintomaticamente intitulado "Bloco central ao lado de Domingos Névoa". Começava assim: "Foi numa sala do Hotel Plaza recheada de figuras ilustres, entre as quais Fernando Seara, candidato social-democrata à Câmara Municipal de Lisboa, e João Soares, ex-presidente da autarquia, que se deu o lançamento do livro de Domingos Névoa, Bragaparques - A Hora da Verdade."

 

É uma pena o artigo não ser mais detalhado sobre quem eram essas "figuras ilustres". Nas fotos, vislumbrei Zita Seabra (editora da Alêtheia); João Soares, responsável pela apresentação do livro; Fernando Seara, que interrompeu a sua campanha de abraços de rua para ir dar um abraço indoor a Domingos Névoa; e o padre Vítor Melícias, que continua a ter o círculo de amigos menos franciscano do planeta. Mas havendo por alí um empresário condenado, uma antiga militante comunista que virou à direita, um ex-autarca do PS, um candidato a autarca do PSD, e um sacerdote, já conseguimos compor uma espécie de painéis de São Vicente do centralismo nacional, cada um ajoelhado ao respectivo interesse.

 

O prémio "Domingos Névoa É o Maior" vai, contudo, para João Soares - ele que a páginas 98 de Bragaparques - A Hora da Verdade é classificado como "o melhor presidente da Câmara de Lisboa da sua geração" e "um trabalhador incansável e um político com uma visão de Portugal e do Mundo como existem poucos". Como amor com amor se paga, João Soares não se limitou a meras palavras de ocasião e a fazer aquele favorzinho meio embaraçoso de apresentar um livro que não teve coragem de recusar. Nada disso. Soares levou a tarefa a peito: segundo o relato do DN, o ex-presidente da câmara classificou Névoa como "um homem de honra, de família", "um trabalhador incansável" (é preciso um trabalhador incansável para reconhecer outro trabalhador incansável) e - a minha parte favorita - uma pobre vítima da "sociedade de espectáculo", ao qual foi colocado "um labéu difamante".

 

Ora, se calhar convém recordar que este "labéu difamante" foi colocado a Domingos Névoa em 2012 por uma instituição chamada Supremo Tribunal de Justiça, que o condenou por corrupção activa. Não sei se João Soares classifica os acórdãos dos supremos tribunais como fazendo parte da "sociedade do espectáculo", nem que nome dá ao facto de uma figura pública da sua dimensão, que fechou avultados negócios com a Bragaparques enquanto autarca de Lisboa, vir agora apresentar um livro que mais não é do que uma tentativa de branquear, ainda por cima de forma canhestra, um acto que a justiça considerou criminoso. Soares, Seara, ou Melícias têm todo o direito de serem amigos de Domingos Névoa, que por sua vez pode perfeitamente ser um encantador "homem de família". Mas há actos que têm consequências, e andar pelas televisões a protestar contra as injustiças nacionais e depois ir para hotéis de charme fazer a apresentação de livros de milionários condenados por corrupção é uma hipocrisia que dá a volta ao estômago a qualquer um.»

 

(João Miguel Tavares, in Público - 24 Set 2013)

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 16:40
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Draghi faz por Portugal o que muitos portugueses não fazem.

"Nem Draghi nem o BCE têm mandato para se preocupar com metas do défice. Mas as coisas na Europa andam tão confusas que todos falam sobre temas que não são da sua alçada. A diferença é que quando Draghi fala as coisas acontecem. Desde ontem passou a ser oficial que o nosso Orçamento de Estado terá uma meta de 4%." 

 

Ler isto dito por um jornalista experiente que geriu um programa de economia (O Expresso da Meia Noite) e director de um jornal que foi em tempos de referência é lastimável. O que Draghi defende é o óbvio e parece que em Portugal nos recusamos (por opção ?) a ver o óbvio: Défice é dívida; Portugal tem uma dívida muito alta; Dívida insustentável implica juros altos; Juros altos implicam risco de contágio na zona monetária. 

 

Draghi está no centro da política monetária da Zona Euro, logo deve preocupar-se com o défice português, por direito e função. Fomos nós que lhe demos o mandato e somos sócios do BCE.

 

Ricardo Costa esquece-se, ou faz de propósito?

publicado por João Pereira da Silva às 14:29
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Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

"Abbiamo capo"

A vantagem das eleições alemãs é que basta fazer eleições num só país para que todos os outros da Zona Euro fiquem automaticamente com chefe. É muito económico. Devíamos aprofundar.

publicado por João Pereira da Silva às 05:45
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No barco deles

Estive a ver as eleições alemãs pelos olhos de uns especialistas subtis, na SicN, e estou pasmado: eles conhecem a esquisitice do sistema eleitoral alemão, a baralhada dos estados, as trincas e mincas da CDU e do SPD, os estados de alma da chanceler - um mundo, chega-se a ficar surpreendido por não se exprimirem em xerráinchencherrung, com legendas.

 

Em geral costumam ser os credores a preocupar-se com o pulso dos devedores, e estes com a data do vencimento da próxima prestação. E, por isso, o resultado das eleições alemãs deveria ter uma importância moderada, e mesmo essa mais por causa dos emigrantes que temos lá - é coisa daqueles loiros altos que se emborracham com cerveja ao sábado à noite. A diferença neste caso é que existe a esperança louca de acabar com a austeridade, desde que o pacto social da firma "Europa" seja alterado, de modo a que o passivo dos países aflitos passe para a novel empresa. A Alemanha fica com a maioria dos votos, é claro, mas já a tinha, como não ignoravam os entendidos, e com uma palavra definitiva sobre o futuro do principal produto, o Euro - que também já detinha.

 

Tem pernas para andar, a ideia, salvo por um detalhe: não apenas a austeridade não vai acabar como, sob o signo do pacto revisto, o povo alemão votará sempre em quem lhe garantir que no parte-e-reparte da União Europeia a Alemanha fique com a melhor parte. Não é por causa das diferenças culturais alemãs, é porque as relações entre estados sempre foram, e não há nenhuma razão para pensar que deixaram de ser, pautadas por interesses.

 

Um intelectual como Viriato Soromenho Marques, que fazia parte do painel, acha que os Alemães se vão render à opinião dominante na União, e presume sem o dizer que esta acabará por ser a da social-democracia, que o bom do Viriato entende ser a doutrina e forma de governo natural. Daí que ache que Schroeder foi um governante equivocado e ponha a sua fé em que os Alemães abram os olhos e descubram que é do interesse deles que os países do Sul tenham recursos para alimentar a indústria exportadora alemã, cujo principal destino é ainda a Europa.

 

E assim estamos: horas infinitas a discutir o que é que a Ângela vai fazer, como se fosse segredo. Não é, vai fazer o que for preciso para preservar a "Europa" e o Euro.

 

Uma vitória, portanto, para todos. Sê-lo-ia também, se tivesse ganho a oposição, porque não faria coisas diferentes. É o que têm de bom estas eleições: ganhe quem ganhar é bom para nós porque estamos todos no mesmo barco.

 

No barco deles.

publicado por José Meireles Graça às 00:29
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Domingo, 22 de Setembro de 2013

Matérias fundamentais

 

 

Foi tímido, a meu ver, Nuno Crato (e um pouco cobardolas, aqui para nós) ao decretar que as escolas deixam de ser obrigadas a oferecer a disciplina de Inglês aos alunos do 1º ciclo. Senão vejamos: porquê só o Inglês? Até parece que temos dinheiro para esbanjar em Matemática, Português, História, Geografia, Física, Biologia, e toda essa cangalhada de disciplinas supérfluas que deveriam ser obviamente facultativas.

 

Diz o ministro que é uma questão de "liberdade", e que não estima o conceito de "obrigatório", pelo que deixa a decisão ao critério de cada estabelecimento de "ensino". Mais de 90% dos pais não concorda, por motivos que o cérebro ladino de Crato rapidamente interpretou: para esta gente, quanto mais disciplinas houver mais horas ficam as crianças retidas na escola. O tempo (não é assim?) é um bem precioso que preferem gastar em ocupações mais dinâmicas e socialmente mais fecundas, como passear no Colombo ou arrastar-se nos cafés a criticar o Governo, em vez de aturar os filhos. E o Inglês, como todos sabem, é uma língua indispensável para entender e dominar os menus da Playstation.

 

Agiu portanto o ministro de acordo com o seu superior entendimento dos atavismos pátrios. Pessoalmente, incomoda-me a falta de alcance educativo, de higiene financeira, e de vontade política. Porque (sejamos sérios) vamos analisar a coisa com a profundidade que merece: que espécie de teimosia insiste em manter as outras disciplinas nos currículos do "ensino" básico? Servem exactamente para quê, se excluirmos a proverbial inclinação portuguesa para fingir que se ensina, e a bonomia com que os contribuintes estão sempre ávidos de se endividar para pagar salários a uma praga de funcionários públicos?

 

Não bastava a Crato ter cedido aos mimados dos professores; agora dobra-se todo perante os irresponsáveis dos encarregados de educação. A continuar assim, um dia acordamos sem verba para "oferecer" Estudos do Meio, Expressão Artística, e Cidadania. Aos filhos dos portugueses ninguém ensinará a "amar o planeta", a "respeitar" o ambiente, a separar os lixos, conceber espectáculos multi-média, ou formar "associações", "plataformas" e "movimentos" de "cidadania" - que são as matérias verdadeiramente fundamentais.

 

Enquanto dependermos de políticos frouxos, as políticas servirão os interesses dos inúteis e os critérios serão sempre despesistas. Alguma coisa teremos de mudar se queremos que a qualidade das nossas escolas atinja níveis exemplares. E se, nas tabelas da ONU para o capítulo educativo, queremos mesmo garantir que Portugal nunca mais passa a vergonha de sair dos 10 últimos lugares. Abaixo da Somália.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 15:17
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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2013

O transplante que correu mal

Há dias escrevi umas coisinhas um tanto agrestes sobre o livro de José Gomes Ferreira. Sem renegar nada do que disse, hoje, tendo acabado a leitura, seria mais meigo: que o homem fala com desassombro dos poderes fácticos que tolhem os pés à nossa economia de mercado, não hesitando em afrontar banqueiros (enfim, aquela variedade de gestores de aviário que passa por o ser), a malta ó tão liberal do PSI20, os armazéns de advogados com razões sociais prestigiadas que ajudaram o Estado a chegar ao estado em que estamos, et j'en passe. Isto, para um jornalista que tem que ganhar a vida, infunde respeito.

 

Pois o bom do JGF desabafa, já não sei a que propósito (creio que falava do enriquecimento ilícito), que bastaria traduzir a legislação do país xis e - zás - o problema evaporava-se.

 

É uma coisa recorrente e antiga: copiemos os bons exemplos, que diabo!, que é lá isso da originalidade?

 

Copiar modelos é, há quase 40 anos, o que temos feito. E, mesmo sem falar em modelos defuntos (a revolução peruana, já ninguém lembra, teve advogados, a soviética e a maoísta têm-nos ainda hoje) continuamos com esta pecha. E não são só os modelos - o seguidismo, mesmo em relação a políticas, pessoas ou opiniões avulsas, impressiona: o sr. Hollande diz? Pois então também eu digo, afiança Seguro, pouco antes de Hollande dar o dito por não dito; ah sim, Hayek escreveu isso sobre bancos, na verdade? Pois estava coberto de razão, garantem os liberais doutrinários; o quê, Obama defende bombardeios da Síria, para ajudar à remoção de Assad e facilitar a implantação da democracia? Pois não podemos esquecer a geopolítica, o perigo do Irão e assim, diz a esquerda bem-pensante - um presidente negro e socialista não pode ser tão inepto como parece.

 

O problema quando se transpõe legislação é de natureza ecológica: tal planta que viceja em climas húmidos não tolera climas secos; tal animal que se dá muito bem na neve não singra no Saara; e tal planta ou animal só podem vingar em locais com o mesmo clima se estiverem presentes outros factores - há plantas que, para se reproduzirem, precisam de certos insectos, que podem inexistir, e predadores que necessitam de certos predados.

 

É por isso, para já não falar da infelicidade de quem redigiu a Lei (diz-se por aí que foi Paulo Rangel) e da preguiça indesculpável da Assembleia da Republica, que deixou a coisa dar o sarilho que deu sem fazer nada para o evitar, que esta matreirice dos autarcas tem para mim um encantador lado tuga: ai vêm lá com essas merdas de limitação de mandatos e outras estrangeirices? Pois para nós vêm de carrinho.

 

Estudem, estudem os dossiers; e sim, inteirem-se do que se faz lá fora. Mas, sobretudo, conheçam o país, não apenas o circuito de notáveis, académicos, jornalistas e preopinantes - que esses quase sempre sabem nada. E não sabem que não sabem.

 

Ou então, acabem com a democracia e contratem três prémios Nobel para gerirem a choldra. Ainda que houvesse - mas isto é um palpite meu - uma forte probabilidade de, ao fim de uma semana, os três se pegarem à chapada, por divergências. Ou, pior, concordarem, descobrindo porém, ao fim de três anos, que tudo o que conseguiram foram resultados perversos.

publicado por José Meireles Graça às 18:09
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Terça-feira, 17 de Setembro de 2013

O véu diáfano do abuso

Sigo este tipo há anos e quase sempre concordo com ele. Isto é preocupante: que eu tenho partido, ao qual pago quotas e tudo, mas ouço aos responsáveis, com frequência, uma quantidade prodigiosa de asneiras; tenho clube, mas acho que joga amiúde mal, apesar de ganhar; e tenho amigos, mas a maior prova da amizade que lhes dedico é, precisamente, ouvir-lhes as opiniões. Concordância não é o meu nome do meio - é Meireles, que numa indigna corruptela resulta em mais reles.

 

Mas hoje vingo-me, Daniel. Com que então, achas que, em nome do direito elementar de cada um se vestir como entende, a proibição do hijab é um abuso do Estado? E dás como exemplo, ilustrado com fotografia, um grupo de freiras com a cara, apenas a cara, a descoberto?

 

A mim me parece que qualquer daquelas freirinhas, se quiser sacudir o hábito, pode passar a ser mal vista no convento mas não será rejeitada pela sociedade, nem esta lhe negará o respeito devido a quem, por ter perdido as crenças e a pertença que o trajo diferente implicava, optou por se vestir de outra forma.

 

Tal liberdade não a têm as mulheres muçulmanas: não apenas a sua comunidade as ostraciza, mas também, se as autoridades tiverem simpatia pelo multiculturalismo, se sujeitam às maiores violências.

 

Falar de liberdade neste contexto não faz qualquer sentido: se for permitido nas nossas cidades que as muçulmanas se passeiem de burqa, a reboque do marido ou familiar macho, o direito que têm aquelas que isso, por razões de identidade cultural, querem fazer, inibe o direito das outras que queiram dar o grito do Ipiranga, quer sejam quer não sejam a maioria.

 

E, nisto como no mais, a ingenuidade é má conselheira: em nome das nossas liberdades os muçulmanos querem ser diferentes; e, logo que tenham a maioria, nos países, cidades ou até bairros, passamos nós a ter que ser iguais a eles, para não  ofendermos os valores do Islão, na versão do barbudo local que pontifica na madrassa.

 

Questão de traje, Daniel, apenas? Come on, nisto os jacobinos franceses estão com a razão. Em alguma coisa haveriam de estar, aquela raça de frogs.

publicado por José Meireles Graça às 19:08
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The (new) purpose of life

 

Sempre que vejo notícias como esta - "Tesouro espanhol paga mais na véspera do leilão português" - penso nisto:

 

 

 

 

 

publicado por Ana Rita Bessa às 13:19
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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

A Ililaia

A União Europeia, que não tem nem pode ter política externa senão quando não ofenda seriamente um dos seus grandes, tem um embaixador nos Estados Unidos. E a luminária é portuguesa, uau.

 

E o que diz o "embaixador"? Bem, enuncia uma impressionante lista de banalidades, as mesmas cuja divulgação a UE subsidia com milhões e que se podem ver nos canais de televisão a horas mortas, em programas sobre a "Europa", para adormecer.

 

Não está mal: de um embaixador espera-se que diga o que convém a quem o nomeou e que, se revelar alguma inconfidência ou novidade, o faça com o grau de naturalidade necessário para parecer sincero, e de calculismo suficiente para na realidade servir o interesse do seu patrão.

 

João Vale de Almeida, porém, é moderno, dinâmico e muito dado a discursos populares - nada de hermetismos. E revela que Durão Barroso tem "uma enorme capacidade intelectual e uma enorme capacidade física, fundamental para uma função deste género. E uma grande cultura política e cultura em geral, largamente acima da média da classe política nacional, europeia e mundial. Para além de um grande sentido táctico e estratégico".

 

Isto é novidade, mais surpreendente ainda para aqueles que, como eu, acham Durão Barroso um saco de vento palavroso, invertebrado e hábil - defeitos que são necessários para o lugar e explicam o sucesso da carreira.

 

Almeida, previsivelmente, não vê estes defeitos. Mas, para nossa surpresa, confessa que Durão não é perfeito: "Todos temos defeitos. Mas entre amigos, os defeitos discutem-se em privado..."

 

A reticência é significativa, ao menos para mim: fico a imaginar horrores sobre os defeitos ocultos do intelectual atleta. E não resisto a tentar adivinhar a que chocantes novidades teríamos acesso se os embaixadores desatassem a pronunciar-se com este fervor sobre as qualidades dos líderes dos seus países:

 

De Obama poderíamos, por exemplo, ficar a saber que leu para cima de duas peças de Shakespeare e que, ao contrário da maioria dos seus concidadãos, sabe manejar em simultâneo o garfo e a faca; de Hollande ficaríamos inteirados sobre as verdadeiras razões do indesmentível sex appeal; a intensa curiosidade sobre quem é que realmente escolhe as elegantes gravatas de Cameron seria satisfeita; e o costureiro fashion que veste a Chanceler Merkel veria a sua ignota identidade objecto de justa consagração.

 

Quanto a Vale de Almeida, no termo da sua comissão na alta-roda dos cocktails e workshops, Portugal não deve desperdiçá-lo: merece, pelo menos, um lugar de ministro plenipotenciário na Ililaia, um país de fantasia inventado pelo meu amigo Toni.

publicado por José Meireles Graça às 20:44
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Domingo, 15 de Setembro de 2013

O ouro do Reno

Portugal colapsou financeiramente em 1892, 1977 e 1983. Tinha, nas três marés, moeda própria.

 

Também tinha moeda própria na década de 60, quando crescia a taxas asiáticas sem aumento significativo dos endividamentos - público, privado e externo.

 

Não tinha moeda própria quando colapsou em 2011, ao termo de uma década na qual praticamente não cresceu.

 

Se a lógica não for uma batata, é possível dar com os burros na água com e sem moeda própria, ainda que da última vez o tamanho do estouro seja, como proporção do produto, sem precedentes - o Euro foi a cortina, que uma moeda própria nunca poderia ser, por trás da qual sucessivos governos compraram com benesses sempre crescentes o favor do eleitorado e dos grupos de pressão. Ao mesmo tempo, também criou as condições para que uma banca acéfala, financiada por investidores cegos e sob a supervisão de farinha do mesmo saco, emprestasse também aos privados para consumo e compra de casa "própria", encandeados pelo juro baixo e a facilidade de crédito. A comunidade dos economistas e dos fazedores de opinião, quase sem excepções, aplaudiu.

 

Foi assim. E para garantir que o asneirol não se repita, nada melhor do que cedermos toda a autonomia decisória a um banco central que finge que não é alemão, burocracias europeístas que defendem antes de mais, como todas as burocracias, os seus próprios interesses, e um povo tão generoso que, ao mesmo tempo que irradia um brilho parecido com o ouro, vai altruisticamente cuidando de quem não se sabe cuidar.

 

Têm alguma autoridade na matéria, os Alemães: nos anos 20, a moeda deles não andou longe de ser cotada ao quilo; e, no século passado, por duas vezes significaram às restantes nações o que pensavam do melhor arranjo europeu.

 

Terão aprendido a lição. Nós não. Por isso, à falta do padrão-ouro, precisamos de um país-padrão. É o que aqui diz Vítor Cunha. E eu, que tantas vezes digo ámen ao que ele escreve, desta digo que o neokeynesianismo no poder é ainda menos perigoso que a engenharia de pátrias.

 

Quem viver, verá.

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publicado por José Meireles Graça às 20:45
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