Quarta-feira, 6 de Novembro de 2013

Emparvecimento global

É realmente terrível: quem está cheio de calor não tem frio nenhum; a Santa Mãe Natureza, quando o calor aperta, escolhe certos velhos demasiado acalorados e certifica-se de que arrefecerão para temperaturas mais amenas, pelo expediente de lhes retirar a vida; há sérias dúvidas sobre se, dentro dos efeitos deletérios que as alterações climáticas provocam, as ondas de calor são ou não mais letais que as ondas de frio.


As certidões de óbito enunciarão, Direcção-Geral da Saúde oblige, como causa mortis, "aquecimento global", se for no Verão, e "frio siberiano", se for no Inverno. Médicos mais heterodoxos e politicamente engagés referir-se-ão com solércia à suspensão de fornecimento de energia, por parte da EDP, respectivamente ao ar condicionado e ao aquecimento; e outros ainda, com pendor mais científico, desafiarão as instruções oficiais, indicando como causa da morte a cessação da função cardio-respiratória, por se ter constatado que as pessoas de todas as idades, em lhes parando o coração e cessando os pulmões de respirar, têm uma tendência muito marcada para deixarem de viver, ao fim de um certo tempo.


Isto dos nexos de causalidade é o carago: gente perversa houvera de apurar se as amostras eram comparáveis, para o efeito de as comparar; e se os óbitos, ou parte deles, não poderiam ter explicações mais verdadeiras e dramáticas, mas menos politicamente correctas - um surto de infecções hospitalares que o calor facilite, ou um aumento das horas de exposição a programas de entretenimento na silly season, que sei eu?

O maldito aquecimento tem as costas largas. Já a Direcção-Geral, em matéria de largueza, tem-na mais na região bucal, da qual faz uso abundante para se aliviar de opiniões patetas. Com grande risco de aumentar, ainda que marginalmente, a taxa de mortalidade - por tédio.

publicado por José Meireles Graça às 00:20
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Terça-feira, 5 de Novembro de 2013

Mais orgãos que poderes

Há uns tempos, Cavaco queixou-se amargamente de um corte qualquer que lhe fizeram numa pensão, e deixou implícita alguma queixa na dificuldade do viver - não me recordo exactamente dos contornos da história nem tenho vagar para a procurar.

 

As declarações serviram de pasto a um imenso gozo na opinião de esquerda e um embaraçado silêncio na dita de direita, com excepção de um ou outro cavaquista doente - existem, tal como as bruxas.

 

Fiquei, é claro, em silêncio: não sou daqueles que malha no homem quando toda a gente lhe cai em cima, mas antes dos que o apreciam quanto menos apareça e fale: já bastou ter que votar nele por - uma medida da nossa miséria colectiva - os outros candidatos serem ainda piores, não se segue que ainda por cima lhe tivesse que comentar as inanidades.

 

Mas trata-se do supremo magistrado da Nação. E o que diz, quando não é inteiramente banal, conta.

 

Se o Presidente da Republica pode queixar-se do que ganha, os outros depositários dos restantes poderes também podem; se o único magistrado que elegemos não hesita num queixume ofensivo para os outros pensionistas pequenos e médios, já para não falar de desempregados sem subsídio, então os outros magistrados também podem.

 

E não hesitam, ou, pelo menos, a sua Associação Sindical não hesita. Com a diferença de que de Cavaco sabemos com que legitimidade preside, por quem foi eleito, o que ganha, a que título, e do que se queixou; e destes senhores não sabemos ao certo que representatividade têm e por que razão estão "no limite da indignação", salvo pela exigência de serem "reconhecidos" como "órgão de soberania".

 

Não me consta que qualquer decisão judicial tenha jamais sido contestada por outras formas que não as que a Lei prevê; e que os restantes membros de orgãos de soberania tenham, por palavras ou actos, desvalorizado ou menoscabado os juízes, ou tentado cercear-lhes a independência. É certo que não têm faltado pressões sobre o Tribunal Constitucional, se por "pressões" se puder entender a manifestação de discordância sobre o teor das sentenças. Mas não é preciso nenhum curso de Direito Constitucional para perceber que o juiz tem o direito - e o dever - de lavrar a sentença que, no seu livre entender, melhor aplica a lei pertinente; e o cidadão é livre de sobre essa sentença ter, e emitir, uma opinião discordante. Não é falta de respeito, é liberdade de opinião.

 

Tivemos um coro na comunicação social a criticar as críticas ao Tribunal Constitucional; e não vamos ter um coro a criticar as críticas da Associação Sindical  aos Poderes Executivo e Legislativo.

 

Permitiram o sindicalismo na magistratura? Pois agora talvez se perceba que foi um equívoco; senão, teríamos que admitir uma Associação para membros do Governo e outra para deputados. Para a Presidência não, que só haveria um candidato, um eleitor e um eleito, por singular coincidência o mesmo, mas com três chapéus.

publicado por José Meireles Graça às 00:59
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Domingo, 3 de Novembro de 2013

Polícia anti-motim

Vivemos "à beira do abismo". Um destes dias, um bater de asas desencadeará a explosão do Vesúvio, do Santorini ou do Krakatoa, um novo e mais devastador Katrina ou, com maior probabilidade, o maremoto de 1755.

 

E, todavia, seria tão fácil evitar: bastaria votar no PS.

 

É o que aqui se defende. "Eleições antecipadas, já".

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publicado por José Meireles Graça às 23:26
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Dissecando o chavão

 

 

"A coisa prossegue quando o camarada, insistindo na folga, desiste do esforço de procurar as palavras certas para as coisas. Isto é praticamente o mesmo que parar de pensar, porque pensar é botar as coisas em palavras; nessa hora, o sujeito substitui o pensamento pelos próprios chavões.

 

Isto ainda não é psicose da linguagem. Porque o chavão tem alguma semelhança, alguma parecença com as coisas que o sujeito pensava; há, senão uma identidade, pelo menos um cheirinho parecido entre o pensamento e o chavão que tranquiliza o sujeito, já guiado apenas pelo nariz."

 

No post do Orlando Tosetto - o novo link na coluna das leituras.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:28
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Sexta-feira, 1 de Novembro de 2013

Há mais de um mês que não asneirava

Pergunta-se: o dono dos hospitais tem o direito de tentar racionalizar os meios, estabelecendo limites de despesa, política de gestão do pessoal, fixação de metas, critérios da manutenção e aquisição de equipamentos, investimentos, e tudo o mais que permita fazer mais, ou o mesmo, com menos?

 

Tem, e não apenas o direito mas também o dever.

 

Mas pode impôr aos médicos um certo comportamento pessoal que devem adoptar para evitar a propagação de doenças, sob pretexto de que o responsável político do sector é médico e por conseguinte ele sabe, enquanto os colegas ignoram?

 

A meu ver, não deve. Mas, segundo o político em questão, pode.

 

E quem é então o iluminado? Ora, é o Secretário de Estado Adjunto do costume, Fernando Leal da Costa, que já não asneirava, que me tivesse apercebido, há mais de um mês.

 

Num ponto tem porém razão: o aspecto dos médicos pode realmente ter efeitos deletérios na saúde. A mim só a cara dele já me faz subir a tensão; e, em abrindo a boca, temo por um AVC.

publicado por José Meireles Graça às 12:33
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